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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Salada de arroz, pepino e mozzarella para um menino que ainda não come pepinos

Minha mais recente missão na cozinha tem sido ensinar o pequeno escalador de poltronas e perseguidor de Border Collie a comer coisas cruas. Agora que todos os seus dentes nasceram (os caninos já despontaram todos, e eram só os que faltavam), ele está pronto, a meu ver, para qualquer tipo de textura. Qualquer rejeição da sua parte será efeito do gosto ou costume, e não de uma dificuldade em mastigar, como era antigamente o caso de alguns alimentos como folhas e feijões. 

Foi engraçado notar que o primeiro entrave dele foi ter algo frio em seu prato na hora do almoço ou jantar, quando a comida vinha sempre fumegante. Juro que podia ver em seus olhinhos a expressão inconformada de "não vai esquentar isso não, mãe?". Mas aos poucos a coisa vai andando. 

Comecei com cenouras, que são doces, e que já haviam figurado cruas em seu prato há muitos meses atrás, quando usava apenas as gengivas para mastigar. Raladas bem fininhas, naquela textura para bolo de cenoura, elas viravam quase um purezinho cru, naturalmente docinho. Já naquela época eu misturava a passas escuras, temperava com sal, pimenta-do-reino, uma boa quantidade de azeite e um salpicar de vinagre de jerez. (Segredo de uma boa salada de cenoura: não economize no azeite ou óleo utilizado; salada de cenoura muito seca fica sem gosto.) A única diferença dessa para uma de minhas saladas de cenoura favoritas é o tamanho da cenoura ralada. Logo, quando preparei a versão adulta, com a raiz ralada grossa, não foi um estranhamento tão imediato. Ele olhou, olhou, apanhou uma passa, outra, e logo havia devorado toda a salada. 

Depois foram os tomates. Thomas come qualquer coisa que esteja envolta em molho de tomate, mas toda vez que eu colocava tomates frios no seu prato, ele estranhava e não comia. Mesmo quando tentei um molho de macarrão com tomates crus. Comeu toda a massa, deixou todo o tomate no prato. Desta vez, para acompanhar a omelete de talos de espinafre [melhor jeito de preparar talos de espinafre para qualquer uso: cozinhar em água fervente com sal até que fiquem bem macios, escorrer e refogar em alho e manteiga, temperando um pouquinho de suco de limão], fiz os tomates picadinhos, apenas temperados com sal, pimenta, azeite e vinagre de jerez, que junto com o de maçã é dos meus favoritos. Demorou, enrolou, fez que fez, não foi, acabou experimentando. E no que experimentou, tive de dar o que havia também no meu prato. 

Os pepinos tem sido mais difíceis. Tentei palitinhos de pepino temperadinhos, imaginando que ele acharia divertido mordiscá-los, mas nada. Quando mais novo, ele engasgava com folhas verdes que não estivessem bem picadinhas, e por isso criou uma cisma com coisas verdes grandes no prato, a não ser que sejam abobrinhas. Via de regra: se estiver irremediavelmente misturado ao resto, ele come as coisas verdes; se estiver remotamente separável, ele separa. Cuidadosa e meticulosamente. Então quando servi essa salada quente de arroz com pepinos e mozzarella, lá foi ele separar os pepinos. Eventualmente comeu um ou dois, meio que por engano. Mas eu não desisto. A próxima tentativa será num tzatziki, pois ele gosta um bocado de iogurte e adora comer qualquer coisa melequenta. Ainda estou pensando na melhor estratégia para apresentá-lo às folhas de alface. Hmmm...

Enquanto isso, esse é um almocinho tranquilo e gostoso: arroz integral cozido, misturado a pepinos fatiados bem fino, deixados previamente salgados durante o tempo de cozimento do arroz, e espremidos antes de serem juntados ao arroz ainda quente. Mozzarella de búfala em pedaços, algumas folhas de manjericão, cebolinha picada, casca ralada de um limão e um vinaigrette de azeite, suco de limão, sal e pimenta-do-reino. A proporção de arroz, pepinos e queijo depende do gosto do freguês: se estiver de dieta, mais pepinos; se for uma grávida faminta, mais arroz. ;)

sábado, 10 de novembro de 2012

Torta de beterraba com queijo, porque é o que temos

Quando estava grávida de sete meses do Thomas, nem parecia, a barriguinha era discreta e charmosa. Dizem que na segunda gravidez a barriga aparece mais cedo. De fato. Talvez seja porque sua musculatura já está parecendo uma camiseta velha, mas a barriga aparece e cresce horrores no segundo filho. E aqui está ela, redonda e enorme, pesada, pimpolha lá dentro enfiando os pés enormes (filho meu e do meu marido só pode ter pé de lancha) nas minhas costelas e dando mil cambalhotas, de um jeito que me faz, vira-e-mexe, ficar fazendo continha nos dedos, desconfiada de que o médico e eu tenhamos errado a data e eu esteja mais grávida do que imaginamos.

O que quer dizer que perdi minhas roupas muito antes do que esperava. Então lá vou eu todos os dias passear o cachorro com a mesma legging preta surrada e as mesmas três camisetas largas e longas o bastante para não me deixar de umbigo de fora enquanto uso calças justas, o que seria um visual red neck demais até mesmo para alguém que não se importa muito. Junte a isso meu cabelo metade natural, metade água-de-salsicha (depois que a tinta roxa saiu toda, e agora que não posso pintar de novo) e uma lata de cerveja sem álcool na mão, e você veria pelas ruas do condomínio, empurrando carrinho de bebê descalço e arrastando cachorro pela coleira, a esposa prenha de um traficante de metanfetamina.

Não dá. Eu ainda me importo um pouco. Nada de umbigo de fora e cerveja sem álcool.

Mas, contudo, porém, entretanto... simplesmente não tenho dentro de mim aquela mulher que compra roupas de maternidade (nada contra). Legging surrada? Três camisetas, duas das quais têm manchas pequenas de água engordurada da louça que insito em lavar sem avental? É o que temos. Para passear o cachorro está bom.

Enquanto isso, claro, anseio pelo momento mágico em que poderei me comprar meia dúzia de roupas novas, porque eu estendi ao máximo o uso do meu armário. Esse é um ponto negativo (ou positivo, depende do ângulo), de ter um guarda-roupa enxuto. Se você usa suas poucas roupas com frequência, elas estragam mais rápido. Continuo fantasiando com vestidos de cintura marcada. Para usar com coturnos, claro, o que deixa minha irmã inconformada. ;)

Vamos ver. A pequena justiceira aparentemente é tão ogra quanto o irmão – e pelo jeito que mexe, não será a menina comportada e introspectiva que eu esperava – e me fez perder na segunda gravidez o peso que ainda restava da primeira. Agora só preciso ficar esperta e não deixar a fome da amamentação se aliar ao tédio de ficar confinada em casa e descontar nos biscoitos. Aliás, desta vez, nada de bolos e biscoitos no meu freezer: eu não caio nessa pegadinha duas vezes.

Vestidos de cintura marcada. Ou melhor, cintura: essa é a meta. ;)

Enquanto isso, vou improvisando com a roupa que tenho, pois bem sei que nada adianta sair comprando. Perdi todos os meus sapatos bonitos depois da primeira gravidez, pois meus pés alargaram, então sei que até ter tudo estabilizado de novo, de volta ao "normal" melhor não gastar dinheiro.

E improvisando sigo na cozinha. Isso de estar mais barriguda do que esperava aos 7 meses me dá uma preguiça violenta de ir até ao supermercado para um mero ingrediente faltante. Aliado ao fato de que o mercado "chique" daqui parece ser depósito de restos das outras filiais, e todos os queijos estão sempre prestes a vencer, tornando a compra de perecíveis uma roleta-russa deprimente, o lema na cozinha tem sido "é o que temos".

Naquela manhã, querendo uma torta de beterrabas, não tinha nem os ingredientes para a torta da Heloísa Bacellar, e nem para a de Martha Stewart. Então preparei minha massa de torta como sempre faço (usando o processador, que, considerando meus dedinhos quentes, sempre produzem uma massa mais flocosa, pois a manteiga permanece gelada), mas usando farinha integral orgânica fina no lugar. A massa assim, inteira com farinha integral, não fica tão suave quanto feita com farinha branca. Mas ela tem uma característica interessante: algo de crocante, "arenosa" num bom sentido, como biscoitos "sablée" franceses. As proporções da massa foram as mesmas que sempre uso para um quiche redondo de 26cm: 210g de farinha, 140g de manteiga gelada, 70g de água gelada, 1/2 colh. (chá) sal. Mas desta vez, abri para encaixá-la numa assadeira pequena, de 20x30cm. Forrei com papel alumínio e feijões secos e levei ao forno a 180ºC por 10 minutos, até que estivesse seca, retirei o papel e os feijões e assei por mais 15 minutos.

Nas minhas tentativas com os queijos, comprei um pacotinho de ricotta de um produtor menorzinho, local, mas ela tinha gosto de queijo branco e textura ressecada. (Para quem nunca provou ricotta italiana, ela não tem gosto de queijo branco). Para melhorar sua textura, misturei 1 1/2 xic. dessa ricotta com algumas colheres de creme de leite, até ter uma textura mais parecida com uma ricotta rasoavelmente cremosa. Temperei com sal, pimenta-do-reino moída na hora, folhas frescas de tomilho, um dente de alho muito bem picado e um fio de azeite. Espalhei essa mistura sobre a massa pré-assada. Por cima, distribuí fatias de beterrabas que eu havia assado previamente (inteiras, espetadas com a ponta da faca, temperadas com sal, pimenta e azeite, e embrulhadas em papel alumínio; quando macias, deixei que esfriassem, descasquei com os dedos e fatiei fino). Distribui por cima pedaços de queijo Roquefort que ganhara de minha mãe, temperei mais uma vez com pimenta e azeite e levei ao forno por mais uns 20 minutos, até que o queijo estivesse derretido e as pontas das beterrabas ligeriamente chamuscadas.

Ficou deliciosa e muito leve. Thomas, ao contrário das minhas expectativas, devorou a massa como se fossem biscoitos e todas as fatias da beterraba com Roquefort, mas ignorou completamente a ricotta.

É o que temos, e ficou danado de bom.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Muttar Paneer e birra de criança


E quando você tem um blog de culinária há tantos anos que já não se lembra de ter ou não publicado uma receita? Isso acontece com frequência comigo quando se trata de pratos que já preparei várias vezes. Não consegui encontrar no blog nenhuma referência a mutaar paneer, mas se parecer familiar a alguém, considere isso um reforço na minha recomendação. ;)

Adorei o conceito desse prato desde a primeira vez que vi Nigella preparando-o em seu programa de TV, e adorei ainda mais quando o fiz em casa, a primeira, a segunda e a décima oitava vez. É rápido, prático, e costumo ser tendenciosa no meu julgamento de qualquer coisa que tenha sotaque indiano.

Thomas, que desde as papinhas come temperos fortes como curries e pimentas, não estranhou. Comeu metade do prato com gosto, mas depois fez birra e não quis sobremesa. Simplesmente tirei o prato dele, lavei suas mãozinhas e deixei que saísse para brincar. Sem estresse.

O que me fez lembrar de quando ele fez birra a primeira vez. E como fiquei maluca com isso. O choro histérico (de mãe e filho), a comida no chão, a colher voando longe, e eu sem entender por que diabos meu filho recusava algo que até o dia anterior ele comera com gosto.

Isso passou.

Não a birra. O drama.

Birras existem e sempre vão existir. Um dia, é sono. Esse é fácil de reconhecer: não quer comer (nem mesmo a favorita e irrecusável banana), não quer beber água, no colo está ruim, no chão está pior. Chupeta e berço. Resolvido. Come um lanche reforçado quando acordar.

Noutro dia, é o dente. Qualquer comida que ofereça a menor resistência machuca. Irrita. Não quer comer, não quer colo e colocar no berço achando que é sono piora as coisas. Choro incessante. Pura histeria. Sofá e desenho. Distrai da dor. Resolvido. Mamãe faz um arrozinho com tomate, bem molinho, gostoso e fácil de comer, de jantar.

Num terceiro dia, é simplesmente falta de apetite. Porque adulto às vezes está sem fome, e olha para a comida e não quer nada. Tem dia em que ele comeu meio pãozinho a mais no café da manhã e na hora do almoço não tem fome. Brinca com o garfo, tira a comida do prato e coloca na bandeja do cadeirão, aperta nos dedos, bota de volta no prato. Comer, nada. Dois bocadinhos, se tudo isso. Ele se diverte, mas não come nada. Sem drama. Tira o prato, deixa a criança sair pra brincar. Lanchinho reforçado depois. Resolvido.

Às vezes, pelo meio da refeição, a birra vem. Brincadeira com a comida, garfo jogado no chão, prato virado ao contrário. Não é sono, não é dente, não é falta de apetite. É frustração. Frustração porque quer comer sozinho mas a mãe não está deixando, ou frustração porque quer comer sozinho mas suas habilidades ainda são parcas e dá muito trabalho colocar o arroz na colher e a colher na boca sem derrubar tudo pelo caminho. Nessa hora, pergunto: "posso ajudar?", e tento pegar o garfo da mãozinha dele. Se ele deixar, ele come ainda boas garfadas com mamãe ajudando.

Ou, para distrair da brincadeira da comida, de fazer montanha com purê de batata, basta um copo d'água. E, saciada a sede, ele volta a comer.

Ninguém está morrendo de fome, ninguém está desnutrido, ninguém deixa de comer a coisa certa na hora certa. Mas, principalmente, ninguém está estressado: nem mãe nem criança.

Normalmente, a não ser que o atirador de garfos tenha feito muita porcaria com sua comida, simplesmente guardo o pratinho na geladeira e dou de novo no jantar. Quase sempre ele come aquilo que ele recusou no almoço. Principalmente se eu, espertalhona, jogar algumas uvas-passas no meio (que o bicho adora) para abrir-lhe o apetite.

Então deixo aqui essas duas dicas. Claro, nem toda criança é igual. Mas birra de criança na hora de comer irrita qualquer mãe. Se você começou a lidar com isso pela primeira vez, a primeira dica: não estresse. Quanto mais irritada você ficar, mais a criança vai captar essa irritação e responder a ela. Não quer comer, não come. Come depois. Come amanhã. De modo geral, criança com fome come. A não ser que ela esteja incomodada com outra coisa (sono, dente, fralda cheia, etc...) ou que a comida seja difícil de ela comer (alface para quem não tem molares, por exemplo). Thomas detestava feijão quando menor, porque não conseguia triturar a casca do feijão e se engasgava. Hoje come qualquer tipo. Ainda não é fã de grão-de-bico, que é mais firme. Num dia ficou irritado por não conseguir comer milho. Na semana seguinte, andava por aí com a espiga na mão, metendo-lhe os dentinhos.

E sim, no dia seguinte, Thomas comeu todo o seu mutaar paneer.

E a segunda dica é: faça muttar paneer. Já fiz duas versões: a de um livro indiano, com mais ingredientes e etapas, e a versão adaptada da Nigella, que eu, no meu direito, adapto também. Como nunca tenho extrato de tomate, uso um ou dois tomates de alguma lata que eu tenho aberto. Nunca uso caldo de legumes, não precisa, o prato já é saboroso só com água. E uso queijo-coalho no lugar do indiano paneer, sempre com sucesso. Aliás, ele é ótimo para substituir o grego haloumi também. Não é a mesma coisa, mas tenho um amigo que fazia o inverso: morando em Londres, desejando queijo-coalho, usava o haloumi no lugar.

MUTTAR PANEER
(Adaptado do livro Feast, de Nigella Lawson)
Rendimento: 4 porções

Ingredientes:
  • 250g queijo coalho (retire os palitos, se houver, e corte em cubos pequenos)
  • 1 cebola, picada
  • 2 dentes de alho, picados
  • Gengibre fresco (cerca de 2,5cm), descascado e picado
  • 1 colh. (chá) garam masala ou curry em pó
  • 1 colh. (chá) cúrcuma
  • 350g ervilha congelada
  • 1 tomate fresco bem maduro picado ou retirado de uma lata
  • 250ml água
  • óleo vegetal

Preparo:
  1. Aqueça um fio de óleo numa frigideira ou panela grande. Doure o queijo no óleo, tomando cuidado, pois pode espirrar um pouco na hora de virar os cubinhos. Retire os queijos dourados com uma escumadeira e reserve. 
  2. No mesmo óleo (acrescente mais um fio, se precisar), refogue a cebola, o alho e o gengibre até que fiquem macios. Tempere com um pouco de sal e junte o garam masala e a cúrcuma. Mexa bem, deixando os temperos tostarem um pouco no óleo, por 1-2 minutos.
  3. Junte as ervilhas, mexa, e junte o tomate e a água, amassando o tomate com a colher e mexendo bem. Abaixe o fogo e deixe apurar por uns cinco minutos, até que a água tenha reduzido bem e formado um molhinho grosso, uns cinco minutos. 
  4. Desligue o fogo e junte o queijo reservado. Sirva com arroz. Delicioso com arroz integral. (Transformado em purê, com o arroz, fica uma ótima papinha.)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Adaptação e molho Blue Cheese para batatas

Minha cozinha está em fase de adaptação.

Adaptação ao fogão, pois o gás de butijão é mais forte e acabei de descobrir que o rapaz que fez a conversão do meu fogão instalou o botão do forno torto, de modo que as temperaturas marcadas ali não são mais confiáveis; além disso, não sei se meu termômetro quebrou, ou se de fato, mesmo na temperatura mínima, meu forno está chegando a 200ºC depois de pré-aquecer por meia hora. Há um bolo no forno nesse momento que deveria estar pronto, mas fez um movimento de gelatina quando abri a porta e movimentei a grade. Not good.

Adaptação também aos ingredientes. Já que perguntaram, aqui vai: não estou num fim de mundo, em que o que considero mais básico é difícil de achar. Há um supermercado de uma rede pseudo-chique perto de casa onde consigo encontrar alguns queijos especiais (maioria versão nacional) e coisas como mirtilos secos e groselhas frescas. Mas não minha farinha orgânica favorita. Aquela que virou item essencial na minha despensa, principalmente para fazer pães. Porque, sim, depois de alguns testes com pães de fermentação natural, concluí que farinhas orgânicas produzem pães melhores, principalmente os de fermentação longa. Algo a ver com o fato de a farinha não ter sido quimicamente branqueada e ter mais "comida" para o fermento do que a farinha comum. Também meu café em grão favorito não se acha por aqui. Ou pasta de curry tailandês. A seleção asiática é bem diminuta e inconsistente. Não consigo comprar manteiga por quilo nem cream cheese sem gomas. Qualquer chocolate que não tenha gordura hidrogenada é do tipo para comer, e não para cozinhar, e custa um bocado. Meu creme de leite favorito, que era espesso e durava uma eternidade pelo teor de gordura, também deixa saudades. Pior, produtos que eram considerados "meio-termo" no meu antigo supermercado, são considerados "premium" aqui, e têm os preços do que era o "premium" em São Paulo. O que quer dizer pagar mais do que eu pagava por um pedaço de parmesão e um litro de azeite inferior ao que eu usava antes.

Confesso que tive uma pequena crise de pânico culinário.

Mas nem tudo está perdido. A banca de orgânicos da feira de quinta é boa e os produtos são frescos e em conta. Meu marido trabalha ao lado de um desses atacados e que têm num bom preço muitos dos produtos estocáveis que eu uso, como massas secas italianas, tomate em lata e açúcar orgânico. Há lojas especializadas online que entregam em casa meu chocolate belga, e alguns dias depois de pedir, recebi 2,5kg de chocolate 70% e 2,5kg de 53%, os que mais uso, e que devem durar um belo tempinho. Quando minha mãe vem visitar, traz farinha e café e alguma especiaria que não se encontra aqui. O supermercado tem o tofu orgânico de que gosto, o que já me deixa mais tranquila. E quando for à Liberdade almoçar com os amigos, passo nos mercadinhos e me estoco de delícias chinesas, japonesas e tailandesas.

O prognóstico é simplificação e adaptação. Não tem o queijo especial? Escolha outra receita. No dia em que o tal queijo cair em suas mãos, você pode testar a bendita. No restante do tempo, não adianta se martirizar porque na sua cidade não tem farinha de castanha portuguesa. Vou voltar a usar o cream cheese com goma, fazer o quê? Nunca mais vou fazer cheesecake? Dificilmente.

A comida tem sido simples e fresca. Mas sinto que ainda não entrei completamente nos eixos. A movimentação na cozinha ainda não é natural. Ainda não sei de cor o que há na minha despensa. Ter abdicado do hábito de "dar um pulo" no mercado para um ingrediente faltante ainda me deixa perdida na hora de preparar o jantar na última hora."É o que temos" é uma frase que vem muito em mente, quando abro a geladeira para tentar descobrir o que cozinhar.

A churrasqueira, no entanto, tem sido um item bem-vindo. Ela é rasa e não exatamente bem construída, e por isso ainda estamos nos adaptando. Mas quem a comanda é o Allex, o que acaba me dando uma merecida folga. Nosso "churrasco vegetariano" na verdade é uma mera desculpa para comer do lado de fora em dias bonitos. A espiga de milho feita rapidamente no fogo alto, apenas para chamuscar de preto as pontinhas dos grãos, virou favorita do Thomas, que sai andando por aí carregando a espiga do tamanho de seu braço e a devora inteira, às dentadas, sem sal nem nada.

Ando paquerando a ideia de fazer pizza na grelha.

Mas a grande "descoberta" foram as batatas. Havíamos preparado batatas assadas no alumínio, como eu vira no livro da Heloísa Bacellar, quando minha sogra veio nos visitar. Mas elas queimaram em baixo, e achei incrivelmente difícil acertar o ponto de algo que não estou vendo, ou mesmo remexer as batatas num papel-alumínio sobre uma grelha sem rasgar tudo e fazer uma lambança. E elas ficam com gosto de batatas assadas no forno, o que não era o que queríamos. Quando meu pai veio, então, sequer pensamos em repetir as batatinhas.

Foi ele quem, no entanto, perguntou se havia batatas em casa. Respondi que sim, e apanhei as batatas orgânicas cheias de terra e lavei-as para ele, que prontamente apanhou um espeto e atravessou as batatas inteiras, colocando-as nuas sobre o fogo. As batatas ficaram ali por um bom tempo, e suas cascas foram enrugando e escurecendo, até ficarem quase quebradiças, cor da terra de onde saíram.

Quando meu pai tirou-as do espeto, amassou-as com um garfo, mostrando-me que haviam virado praticamente um purê por dentro. Um pouco de sal e manteiga e lá estavam as batatas que eu comera na chácara por toda a minha infância, e cujo preparo ou existência minha memória apagara.

Aquilo foi uma revelação, e repetimos as batatas no espeto já uma três vezes desde então. Das últimas vezes, com o molhinho Blue Cheese da Heloísa Bacellar. A combinação fez sucesso absoluto, e virou um clássico instantâneo. Tão bom, não deu tempo de fotografar nenhuma batatinha com molho, rapidamente devoradas.

MOLHO BLUE CHEESE PARA BATATAS ASSADAS (no forno ou no espeto)
(Ligeiramente adaptado do livro Cozinhando Para Amigos, de Heloísa Bacellar)

Ingredientes:
  • 150g queijo Gorgonzola ou Roquefort
  • 1 cebola pequena, picadinha
  • 1 1/2 colh. (sopa) mostarda de Dijon
  • 1 1/2 xic. creme de leite fresco
  • 1 punhado de salsinha picada
  • 1/4 xic. azeite de oliva extravirgem
  • sal e pimenta-do-reino moída na hora

Preparo:
  • Numa tigela, amasse o queijo com um garfo. Junte os outros ingredientes, misture bem e tempere com sal e pimenta a gosto. Guarde na geladeira até a hora de servir. Pode ser feito um dia antes. 


terça-feira, 3 de julho de 2012

Sopa de abóbora, madeleines de alho-poró e um bairro moribundo

Eu sou um furúnculo nos Jardins, e andam me espremendo com força para fora daqui.

Hummm... pois é. Existem duas coisas que fazem com que você se sinta velha: ver seu filho crescer (o que acontece mais rápido do que você jamais espera) e ter sensações nostálgicas de um passado melhor do que o presente. O primeiro traz uma tristeza bonita para a vida, como se por um instante, quando seu pequeno mostra a língua, achando graça, você enxergasse os fios invisíveis que tecem não apenas a trama da sua existência, mas aquela relacionada a todos os seres à sua volta, e aquela sensação fatalista torna-se quase tolerável. O segundo, no entanto, traz uma melancolia desesperançosa. E faz você ficar se perguntando o que vai ser daquele seu pequeno, tão risonho, nesse mundo que não é mais aquele que você costumava apreciar.

Quando eu era criança, os Jardins eram um bairro residencial. Havia pouco trânsito, se algum. Nenhum prédio tinha grades, guaritas blindadas, seguranças ou cerca elétrica. Havia muitas, muitas árvores. Havia muitas casas. Havia dois supermercados, mas minha mãe fazia a ronda de sempre nos pequenos comerciantes: o açougue, a quitanda, a padaria, a banca de jornais, a lojinha japonesa, o tio que consertava eletrodomésticos, a velhinha que revendia camisetas Hering na edícula de sua casa de vila. Havia uma ou duas pizzarias, uns dois restaurantes italianos mequetrefes, um japonês exótico e misterioso e o Fasano. Havia um cinema na Pamplona e uma casa noturna acho que na Lorena. Uma vez por mês, meus pais nos levavam à pizzaria, sempre a mesma, onde minha irmã pediria pizza de mozzarella, e eu, de atum. Na maioria dos fins de semana, meus pais fariam pizza em casa, pois era bem mais em conta. Domingo era dia de lanche, de pãozinho francês e frios.

Nada abria de fim de semana. Só a padaria. Sábados e domingos eram dias silenciosos e ermos, em que passeávamos de bicicleta na rua e ouvíamos apenas os passarinhos nas árvores antigas além do som das correntes ao pedalarmos. As noites eram quietas e escuras. As copas das árvores não deixavam nem a poeira, nem o barulho ocasional e nem a luz amarela da iluminação pública chegar a nossas janelas.

Então, um dia, fizeram o corredor de ônibus na Av. Nove de Julho, arrancando quase todas as árvores do canteiro central e das calçadas. Imediatamente o quarto de meus pais tornou-se um aposento barulhento de dia e de noite, e o apartamento passou a ficar constantemente recoberto de uma camada fina de fuligem que parecia nunca ir embora.

Então colocaram uma placa desviando o trânsito da avenida para a rua dos meus pais, que virou rota alternativa. E o trânsito chegou. Os supermercados porcaria foram substituídos por grandes redes, e os pequenos comerciantes foram um a um fechando suas portas. Os velhinhos do bairro começaram a morrer, e grandes construtoras começaram a derrubar as casinhas e as árvores e subir prédios imensos de áreas impermeabilizadas. Vieram as grades, as câmeras de segurança.

A Oscar Freire voltou a ser uma rua chique, e quem não conseguia ou não podia ter uma loja nela, começou a aproveitar as casinhas que haviam restado no bairro. Mais árvores foram abaixo, atrapalhando as vitrines e entradas de carros. E vieram os restaurantes, os barzinhos, os cafés, as boutiques chiques que papai comprou pra filhinha que acabou de sair da faculdade de moda. E vieram os manobristas. E vieram as madames deixando seus carros em fila dupla, atrapalhando o trânsito. E os manobristas subindo ruas inteiras de ré, passando no sinal vermelho e estacionando em cima de calçadas e em frente às poucas rampas de acesso das esquinas. E vieram as infinitas reformas, cada vez que uma loja ou restaurante passa de mão em mão, com suas britadeiras e serras circulares às dez da noite na quinta e no domingo à tarde. E veio a loira de chapinha e microssaia saindo do carro esporte do babaca de camisa de rugby grudadinha nos bíceps, fumando na calçada enquanto esperam mesa no mais novo restaurante, e se recusando a dar passagem para a mulher com cachorro e carrinho de bebê. E veio a fila de 32 minutos para tomar sorvete. E veio o potinho de sorvete no chão. E veio a turba turista no sábado à tarde. E veio o moleque bêbado que sai da balada na Augusta e deixa o carro com som alto na frente do meu prédio enquanto o amigo decide se vomita na minha calçada ou se vai acalmar a larica no café vinte quatro horas, que também deixa seu ar condicionado ligado vinte e quatro horas. E vieram os motoboys entregando pizza à uma da manhã e buzinando e correndo com suas motos de escapamento estourados, acordando meu filho assustado, que não entende que aquele é apenas o barulho da civilização.

E hoje eu tenho uma ínfima janela de oportunidade para reviver meu bairro como eu me lembro dele, e é de domingo às sete da manhã, quando nem os cafés que cobram 10 reais o cappuccino mal tirado abriram ainda, porque quem é chique não tem que acordar cedo. E quando volto pra casa com o cachorro, os carros blindados já estão parando em fila dupla na augusta pro motorista descer e pegar um pastel de catupiry e um vaso de orquídeas para a madame. E eu tento filtrar o ruído da serra circular e escutar o pobre sabiá solitário perdido em mais uma árvore podada pela prefeitura.

Meu bairro morreu.

E enquanto meus amigos acham super chique e divertido e prático morar nos Jardins, eu atesto que é uma grande m*rda; afinal, você quer PASSEAR no Shopping Center, e não MORAR em um. Devo estar sentindo agora o mesmo que as pessoas sentiram quando a Vila Madalena começou a ser invadida por bares, e trânsito, e sujeita, e barulho. Dia e noite. Em nome de tanto agito e conveniência, abrimos mão do que é de fato qualidade de vida: silêncio, verde, noites bem dormidas. E se um dia eu achei interessante poder ir a restaurantes à pé, hoje eles só estão ali para atravancar minha vida, pois só mesmo um idiota pagaria 68 reais num prato de spaghetti. Ainda correndo o risco de ser não apenas assaltado metaforicamente, mas, hoje em dia, também com arma de verdade.

Meu bairro morreu lá fora, no sol, e eu não estou suportando o fedor que entra pela janela. Quero me recolher no meu mundinho eremita, fechar as persianas e fingir que tudo está como era. Olho para meu filho e quero que ele saiba o que é um gramado de verdade, com terra e bicho, e não a grama artificial da quadra do clube, estéril, estranha. Queria uma noite sem bêbado, manobrista ou motoboy, uma noite sem os holofotes do prédio da frente iluminando o teto do meu quarto como se fosse dia.

Enquanto isso não vem, tento não ser dominada pela tristeza de ver em decadência o que antes foi bom, e me atenho à beleza melancólica que é o sorriso cheio de dentinhos do meu filho enquanto ele aponta para a pequena pilha de madeleines de alho-poró na mesa. Ou o som satisfeito que ele faz, dando tapinhas na própria barriguinha estufada, ao tomar mais uma colherada da sopa de abóbora. Atenho-me aos abraços carinhosos e muitas vezes desastrados que ele tenta dar no cachorro três vezes maior, ou mesmo à sua expressão serelepe quando tenta desafiar minha autoridade. E por amor, trabalho para lhe dar um gramado e uma boa noite de sono um dia, para que ele também tenha boas lembranças do lugar onde passou sua infância.

Enquanto isso, enquanto a civilização evolui sua decadência de forma acelerada lá fora, continuo desacelerando aqui dentro. Thomas aperta o botão do rádio-relógio que está quebrado, no volume máximo e para sempre sintonizado na rádio Cultura, e enquanto um piano toca eu coloco a abóbora, cebola e alho para assar. E refogo alho-poró para madeleines muito fáceis, que poderiam provavelmente ter sido feitas em forminhas de empada, e que, quando meu marido pergunta o que são, chamo simplesmente de "bolinhos". Distraída pelo barulho do pequeno jogando os brinquedos de um lado para o outro, quase dou uma da Rachel e coloco baunilha na sopa, olhando a receita da página errada. Vou lá ver o que ele está aprontando e volto a me concentrar na "dificílima" sopa.

O jantar é tranquilo, e Thomas gosta tanto da sopinha adocicada que toma uma porção de adulto, duas conchas e meia, mais três bolinhos. Ensino ele a mergulhar o bolinho na sopa e ele enfia mão inteira, na sopa e na boca. Suspiro devagar, e por um instante não ouço as buzinas ou o rebuliço na porta do restaurante. Por um instante só há o cheiro da sopa quente, Allex me contando sobre seu dia, pés desncasando na mesa de centro, e Thomas tentando passar as mãos cheias de abóbora da cabeça do cão, que fareja possíveis restos de bolinhos de queijo. A vida é boa aqui dentro.

SOPA DE ABÓBORA COM ALHO ASSADO
(Da revista Donna Hay)
Preparo: 1 hora (50 minutos de forno inclusos)
Rendimento: 4 porções

Ingredientes:
  • 1 abóbora de 2kg (usei a japonesa, mas pode ser abóbora seca ou qualquer uma que se preste a pratos salgados)
  • 1 cebola média ou grande, cortada ao meio, ainda com casca
  • 1 cabeça de alho, dentes separados, ainda com casca
  • azeite de oliva
  • 1/2 xic. creme de leite fresco
  • 1 colh. (chá) noz-moscada ralada na hora
  • sal e pimenta-do-reino moída na hora

Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 200ºC. Corte ao meio a abóbora e remova e descarte das sementes e fios. Coloque a abóbora com as cavidades para cima numa assadeira e disponha a cebola e o alho nas cavidades. Regue com um pouco de azeite e leve ao forno por cerca de 50 minutos, ou até que a abóbora esteja dourada e macia. 
  2. Retire a polpa da abóbora com uma colher, descartando a casca. Retire a casca da cebola e do alho. Coloque a polpa dos legumes assados no processador e bata com 1 xic. água até que fique homogêneo. 
  3. Transfira para uma panela, junte mais 2 xic. de água, o creme de leite, a noz moscada, sal e pimenta e cozinhe até que esteja reaquecido. Sirva com as madeleines.

Asse os legumes e faça o purê com antecedência, e aproveite o forno quente para fazer as madeleines, que são servidas frias. Na hora do jantar, é só finalizar a sopa.

MADELEINES DE ALHO-PORÓ E QUEIJO
(Da revista Donna Hay)
Preparo: 20 minutos, mais 12 minutos de forno
Rendimento: 4 porções (16 unidades)

Ingredientes:
  • 40g manteiga
  • 1 alho-poró médio, fatiado fino
  • 1/3 xic. buttermilk (1/3 xic. leite com uma colherinha de vinagre)
  • 1/3 xic. polenta instantânea (as com cara de sêmola de milho, que ainda têm que ser cozidas, não polentas que já vem prontas, pelamor)
  • 2 colh.(sopa). farinha de trigo, peneirada depois de medida
  • 1/4 colh. (chá) bicarbonato de sódio
  • 1/2 xic. queijo tipo cheddar ralado (usei gouda)
  • 1/4 xic. cebolinha picada
  • sal e pimenta
  • 1 ovo

Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 180ºC. Refogue o alho-poró em metade da manteiga até que fique macio. Coloque o alho-poró e o buttermilk no processador e bata até que fique mais ou menos homogêneo (ainda haverá pedacinhos).
  2. Numa tigela, misture a polenta, a farinha, o bicarbonato, o queijo e as cebolinhas. Misture bem.
  3. Derreta o restante da manteiga e junte à mistura de queijo e polenta. Junte a mistura de alho-poró e o ovo. Tempere com sal e pimenta e misture bem.
  4. Unte 16 formas de madeleine ou forminhas de empada e divida a massa entre elas. Leve ao forno imediatamente, por 10-12 minutos, até que estejam douradas e um palito saia seco quando inserido nelas. 
  5. Desenforme numa grade e deixe que esfriem. Sirva com a sopa de abóbora.
[UPDATE: mil desculpas a quem usou 2 xícaras de farinha nas madeleines. Mesmo revisando, esse erro passou. Agora está corrigido. ]

terça-feira, 29 de maio de 2012

Orzetto alla Trentina

Um dia eu encontro uma sopa italiana que fotografe bem. :P
O dia estava cinzento e chuvoso, pisos de pedra molhada refletindo o céu prateado, e Trento era linda e calma. Minha cunhada e seu marido foram nos buscar na estação de trem e haviam reservado um almoço em um restaurante típico trentino. É sempre um bom sinal dar de cara com o dono do restaurante terminando um enorme prato de spaghetti no balcão do restaurante.
 Minha cunhada nos avisou que comprara uma seleção de antipasti para a noite (maravilhoso Speck, Prosciutto, deliciosa Sopressa Veneta e uma Mozzarella e Ricotta fresquíssimas, de chorar de boas*); e por isso fomos direto ao prato principal.

Tão bom antipasto, que me lembrei de fotografar apenas quando já havíamos comido metade.
Quando pedi pelo Orzetto alla Trentina, o marido de minha cunhada ficou inconformado: "Mas é comida de dieta!" E eu, pensando apenas na cevada (orzo), dei de ombros e pedi mesmo assim. Não sei exatamente o que esperava que fosse. Apenas sei que quando o prato de sopa de cevada com batatas e cenouras foi colocado à minha frente, senti aquela espécie de vergonha que se sente quando se dá conta de que você foi o idiota que pediu a pior coisa do cardápio.

Veja bem: eu ADORO sopa de cevada com legumes. Mas essa me parecia familiar demais, do tipo "faço em casa todo dia", e me soou como um desperdício de refeição de férias, principalmente ao olhar o apetitoso Strangolapretti do Allex: pequenas almôndegas de pão, queijo e verdura cozidas e banhadas num mar de manteiga.

Essa coisa linda de ver montanhas em torno da cidade...
Quando provei de minha sopa, ela estava gostosa. Mas confirmou meu temor: tinha gosto de sopa feita em casa; particularmente na MINHA casa. Já estava olhando com olhos gulosos os pratos ao meu lado, quando, de repente, o senhor comedor de spaghetti aproximou-se de mim, para ralar uma comedida mas certeira porção de queijo sobre minha sopa. Experimentei de novo.

Era outra sopa. Completamente outra. E de repente eu estava feliz novamente com meu prato, e pensando como um único ingrediente pode trazer todos os outros para um mesmo coro harmônico. E como era bom aquele queijo. E raspei meu prato com a ajuda de belos nacos de pão. Tão focada, esqueci-me de perguntar que queijo era.

E fiquei com aquilo na cabeça, aquilo do bom ingrediente, e como um queijo de pacote, pura serragem, não teria feito absolutamente nada por aquele prato. No fim, no entanto, era um conjunto de bons indivíduos: um caldo que tinha gosto de caseiro, cenouras doces, batatas com gosto de batatas (e só quem come batatas com gosto de batatas pode saber quão não-batatas algumas batatas são), grãos de cevada macios mas al dente, um perfume de ervas aromáticas, uma base de cebola dourada em azeite. Não consegui sentir qualquer nuance de carne, no entanto, então me surpreendi ao vê-la na receita de Marcella Hazan, ao pesquisar em casa, e não me senti menos autêntica ao omiti-la na versão que preparei em casa.

A sopa repetida agora em São Paulo ficou igualzinha àquela, e ainda que o parmesão uruguaio não tenha a complexidade de sabor e a doçura do queijo que foi esparsamente polvilhado sobre meu prato em Trento, o efeito de comunhão com os outros sabores foi o mesmo.

Vinha evitando preparar sopas para o pequeno caçador de perigos, pois querendo comer sozinho, pressentia o caos abominável. Mas ele adorou seu orzetto alla trentina, e raspou o prato, comendo boa parte dela quase sozinho, com mamãe ajudando a levar a colher para o lado certo.

ORZETTO ALLA TRENTINA
(Adaptado do ótimo Fundamentos da Cozinha Italiana Clássica, de Marcella Hazan)
Tempo de preparo: cerca de 1 hora
Rendimento: 4 porções

Ingredientes:
  • 1 1/4 xic. cevadinha
  • 500ml caldo de legumes caseiro
  • 1/4 xic. + 2 colh. (sopa) azeite de oliva extravirgem
  • 1/2 xic. cebola picada
  • 1/2 colh. (chá) alecrim seco ou 1 colh. (chá) alecrim fresco picado
  • 1 colh. (chá) salsinha picada
  • 1 batata média
  • 2 cenouras pequenas ou 1 grande
  • sal e pimenta-do-reino a gosto
  • queijo parmesão de boa qualidade (do tipo saboroso o suficiente para comer pedacinhos depois da refeição)

Preparo:
  1. Coloque a cevada e o caldo em uma panela grande e termine de completar com água até que haja uns 7-8cm de líquido por cima da cevada. Leve à fervura branda e cozinhe por cerca de meia hora, ou até que a cevada esteja cozida mas não empapada.
  2. Enquanto isso, numa frigideira pequena, aqueça todo o azeite e refogue a cebola em fogo médio, até que doure, sem queimar. Junte o alecrim e a salsa, mexa bem e depois de um minuto, desligue o fogo. 
  3. Descasque a batata e a cenoura, lave em água fria, seque e corte em cubinhos pequenos (para que cozinhem rápido). Cada um deve render cerca de 2/3 xícara.
  4. Quando a cevada estiver no ponto, junte a batata, a cenoura e o conteúdo da frigideira, temperando com sal e pimenta a gosto. Seja generoso com a pimenta, mas vá acrescentando o sal aos poucos, para que a sopa não continue reduzindo e acabe salgada demais. 
  5. Continue cozinhando por mais trinta minutos, ou até que as batatas e as cenouras estejam macias, acrescentando mais água se a sopa parecer muito seca. Ela não deve ficar nem muito grossa, nem muito rala.
  6. Sirva imediatamente, polvilhada com parmesão e mais um fio de azeite. (A sopa pode ser preparada com um ou dois dias de antecedência e reaquecida, mas o parmesão só deve ir ao prato na hora de servir.)

* Que eu não sou vegetariana propriamente dita todo mundo sabe, pois vira-e-mexe aparecem receitas de peixe por aqui. Mas como até hoje eu me torturava por, durante minha primeira viagem à Itália, ter ido a Parma e não ter comido Prosciutto, resolvi mandar minha "dieta 90% vegetariana" (acho que esse é um termo mais correto) e me esbaldar com os emutidos italianos. Estava tudo uma delícia, mas com certeza me deu uma base de comparação de como meu corpo funciona – ou NÃO funciona – com consumo diário de carne, mesmo em pequenas porções.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Um prato de beterrabas para dois

Não faltaram saladas e pratos rápidos na hora do almoço nesse blog, nos últimos anos. E se antes eu não podia ficar enrolando em preparos complicados para a refeição do meio-dia, agora preciso descomplicar o que já era simples. Pois na era pré-filho, qualquer pão com ovo era almoço. Na era pós-filho pão com ovo não pode passar por almoço todo dia.

Quando se abre a geladeira forrada de legumes e verduras mas o tempo é curto e não se aguenta mais fritatta, o que fazer? Macarrão de novo? Abrem-se os armários e todos os maravilhosos grãos de cozimento rápido e sem supervisão (quinua e arroz integral) acabaram. Há feijão no freezer, mas nenhuma vontade de combiná-lo com os legumes disponíveis. E o pequeno gerador de caos quer comer sozinho, com mãozinhas e garfinho, e tentar fazê-lo comer qualquer coisa que precise de uma colher ou assistência materna é pedir pela balbúrdia e destruição.

O que fazer?

Apanhar as beterrabas assadas e preparar um gratinado de cinco minutos enquanto o pequeno esfomeado batuca no cadeirão.

Noutro dia, transformando a quinua com legumes da noite anterior em um timbale para o almoço (misturada com queijo caseiro e ovo), aproveitei o forno já ligado, apanhei as beterrabas pequenas da geladeira, lavei-as, sem descascá-las, temperei-as com sal, pimenta-do-reino, azeite e tomilho, embrulhei-as em papel alumínio, coloquei-as em uma assadeira e as larguei no forno por uma hora, até que estivessem macias e espalhando seu perfume pela cozinha. Retirei-as do forno (e meti nele um bolo de laranja rapidíssimo, mais uma vez aproveitando o forno já ligado) e deixei o embrulho fechado ainda na assadeira, sobre a bancada. E ficou lá, enquanto eu colocava o pequeno para tirar uma soneca e corria ao computador para trabalhar enlouquecidamente. Quando o embrulho ficou frio, simplesmente transferi todo o conjunto para a geladeira. Não sabia exatamente o que fazer com as beterrabas, uma vez que já tinha planos para o jantar, mas sabia que se não as assasse logo, elas murchariam e estragariam na gaveta (pecado grave!)

No dia seguinte, aquelas lindas beterrabas assadas me esperavam, para serem picadas ou fatiadas numa salada, para acompanharem um peixinho, para serem misturadas a atum fresco e fettuccine, um risotto, uma sopa, ou para um gratin rapidíssimo, lido às pressas no meu livro favorito atualmente, How to Cook Everything Vegetarian. Abri o embrulho das beterrabas, e com beliscões rápidos de polegar e indicador, arranquei-lhes toda a casca. Fatiei todas elas e as arranjei em uma camada única numa travessa refratária. Polvilhei de sal e pimenta, esmigalhei um belo pedaço de queijo de cabra, tipo Feta, espalhei por cima folhas de tomilho, um punhado de farinha de rosca caseira, um fio de azeite, e levei para debaixo do grill pré-aquecido, por uns 5 minutos, até que o queijo estivesse derrertido e as migalhas de pão, douradas. (Imagino que para quem não tem grill ou forninho elétrico, um forno bem quente faça o mesmo trabalho em um pouco mais de tempo.)

Foi um almoço leve e delicioso, que deixou os dedos do pequeno devorador de legumes manchados de cor-de-vinho. Tente cobrir todas as fatias de beterraba com um pouco de queijo e pão, pois é o contraste do doce e do salgado, e do macio e crocante, que fazem o prato. E use um queijo de cabra de fato saboroso, que seja forte e salgado, com aquela acidez acentuada e deliciosa característica desses queijos.

Definitivamente, da próxima vez que tiver beterrabas, farei o mesmo, assando-as com antecedência, mas separando-as em duas partes: uma temperada, para os pratos salgados, e outra sem tempero, para usar em bolos e panquecas. Fica a dica.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Salada de beterrabas (1) com azeitonas e funcho (2) com pecorino

Achei muito interessante uma reportagem da revista do Jamie Oliver que dizia que o governo britânico sugere que as pessoas consumam 5 porções de vegetais e frutas por dia para serem saudáveis. A reportagem vinha para tentar explicar o que seriam essas porções e como introduzi-las na sua dieta. Quando comentei sobre isso com minha mãe, ela ergueu as sobrancelhas, espantada, e disse: "mas tudo isso?"

Então matutei a respeito.

Ontem meu almoço foi uma salada de batatas (1), abacate (2) e agrião (3). O jantar foi uma sopa de repolho (4), grão-de-bico (5) e batatas (ops, de novo, não conta). No dia anterior, almoçara uma salada de agrião (1), pera (2), nozes e queijo serrano. Comera de café-da-manhã um mingau de aveia (3) e banana (4) e jantara uma massa com molho de brócolis (5). Hoje o almoço foi essa salada de beterrabas (1) e funcho(2) com queijo pecorino e azeitonas, e a sobremesa foi arroz (3) doce de café. O jantar vai ser uma omelete de agrião (4) com hortelã e uma saladinha de trigo (5) e tomates (6).

Fiquei pensando na chateação que seria cozinhar se eu ficasse calculando esse tipo de coisa. Assim como seria se eu calculasse calorias, ou porcentagens de qualquer coisa, ou nutrientes, ou benefícios. Não só isso, pensei no espanto de minha mãe, e me dei conta de que as pessoas acham difícil comer essa quantidade (mínima) de verduras, legumes, grãos e frutas, porque presumem que devem ACRESCENTAR esses itens a um cardápio já existente de itens pouco naturais. Quando, na verdade, se você comer todo dia arroz, feijão, uma coisa verde, uma colorida e uma fruta de sobremesa, você não só cumpriu a meta, como a ultrapassou. Sem nem pensar a respeito. Sem nem ser tachado de "natureba".

Por que, ao invés de bagunçar o coreto criando regras complexas, o governo não simplesmdente sugere "coma o que estiver mais próximo de seu estado natural"? Isso resolveria tudo. Não?

Para preparar essa salada, apanhe algumas beterrabas pequenas, inteiras, tempere-as com sal e azeite, embru-lhe-as em papel alumínio e asse-as a 180ºC por 1 hora ou até que fiquem macias. Quando estiverem cozidas, retire-as do forno e deixe que esfriem o bastante para manuseá-las e retirar-lhes a casca. Corte-as em fatias grossas e misture-as a um vinaigrette feito de um punhado de azeitonas pretas picadas bem miúdo, azeite e vinagre de vinho tinto. Então fatie um bulbo de funcho, mergulhe-o em água fervente com sal por 1 minuto e depois em água gelada. Escorra e tempere com azeite, suco de limão, sal e pimenta-do-reino. Disponha as beterrabas no prato, o funcho por cima, e coloque por cima lascas de queijo pecorino. A receita é do lindo livro A16 Food+Wine.

Bom mesmo é comer comida fresquinha, colorida, e se preocupar apenas com o sabor. :)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Salada de repolho e laranja para um dia de chuva

O frio e a chuva acabam com minha vontade de comer sorvete, mas o mesmo não ocorre com as saladas. Muito pelo contrário, adoro as saladas de outono e inverno, com folhas robustas, frutas e castanhas. A falta da refeição quente não me assusta, contanto que haja uma xícara de chá fumegante esperando por mim em seguida. O melhor de tudo é que saladas como essa podem esperar sem murchar enquanto você troca uma fralda e coloca um bebê para dormir.

Basta fatiar fino um pouco de repolho, ralar grosso uma cenoura pequena e cortar gomos de uma laranja doce, em cima da tigela, para recolher todo o suco que pingar. Junte a isso fatias fininhas e quebradiças de queijo Feta, nozes picadas e sementes de girassol tostadas, que acredito que sejam as sementes mais aromáticas que existem ao serem aquecidas. Para temperar, sal, pimenta, azeite e um pouco de óleo de nozes. A acidez fica por conta do suco da laranja.

Poderia comer dessa salada por todos os meses de frio. Adoro sua textura, o sabor da laranja e a cor viva da cenoura, mais calorosa que o céu cinza e chuvoso lá fora.

Receita adaptada do lindo Apples For Jam, da Tessa Kiros.

sábado, 4 de junho de 2011

Queijo cottage, de novo, mas diferente

O despertador toca às cinco da manhã. Conformada, ainda que contrariada, levanto-me da cama, devagar, esticando os braços, sentindo os ombros ainda doloridos pelo peso do bebê. Sinto que meu corpo não acompanha o desenvolvimento do pequeno, e quando ele começa a se acostumar, o bebê cresce, engorda, fica mais pesado, exigindo mais de músculos que antes apenas sovavam pão.

Saio da cama, pés no assoalho frio, perguntando-me, mais uma vez, por que ainda não comprei pantufas. Vou de passos arrastados até o banheiro, lavar o rosto e tirar os cabelos desgrenhados da frente dos olhos. Preguiçosa mas cheia de determinação, visto a roupa de ginástica, uma camiseta por cima da outra, mais o moletom e o cachecol, por conta do frio. Com o tênis de corrida produzindo ruídos de borracha contra a madeira, agora caminho cuidadosa até a cozinha, ligando a cafeteira.

Preparo uma dose dupla de café preto, fatio meu pãozinho francês e espalho sobre os nacos uma colherada generosa de queijo cottage caseiro. Minhas pálpebras ainda estão pesadas, quando ouço os primeiros sons vindos do quarto do bebê, como um brinquedo desses que se aperta a barriga: breves, compassados, agudos e insistentes.

Passo pelo meu quarto. Marido e cachorro roncando. Encosto a porta e levo meu café-da-madrugada para a cômoda ao lado do berço. O bebê abre os olhos assim que acendo o abajur. Ele volta seu rostinho alerta pra mim, e ensaia um bico retorcido para baixo com seus labiozinhos cor-de-rosa, que sempre me corta o coração. Aproximo-me, segurando suas mãozinhas e falando com ele. O bico se desfaz no momento em que ele me reconhece. Enquanto troco sua fralda, ele esperneia, tentando rolar, indeciso entre chorar, manhoso e com frio, ou admirar o reflexo do abajur na vidraça da janela.

Sento-me na poltrona, bebê no colo, café ao lado, apoiado no trocador. Enquanto ele mama, esganado, depois de seis milagrosas e ininterruptas horas de sono, como meu pãozinho, tentando não derrubar migalhas nos seus cabelinhos ralos. O queijo caseiro é mais doce e suave do que a versão comprada em potes de plástico. Tem gosto de leite fresco e uma textura cremosa, de grumos pequenos, que derrete na boca. A imensa xícara de espresso termina de erguer minhas pálpebras e me aprontar para o dia por vir. Um dia inteiro de bebê alerta, querendo interagir e não cochilando mais do que 1 hora inteira. Um dia inteiro de cão carente, querendo brincar e passear. Um dia inteiro de cuidar da casa e ter certeza de que tudo e todos estão limpos e alimentados.

Coloco o bebê no berço ainda acordado, dou-lhe um beijo estalado na testa e faço-lhe um carinho entre as sobrancelhas, o que sempre o faz sorrir. Enquanto termino de apanhar minhas coisas (bolsa, carteira, iPod), ouço os ruídos estranhíssimos que ele emite enquanto tenta libertar os bracinhos agitados das cobertas. Ele produzirá mais alguns deles até soltar uma das mãos, que ele imediatamente levará inteira à boca escancarada, dormindo sozinho em seguida.

Abro a porta do quarto, digo "tchau!" para o marido, fornecendo-lhe as últimas notícias sobre o bebê e um "status" de fralda e mamada, e corro porta afora em direção ao clube, para 45 minutos de corrida, já com saudades daquelas bochechas cada vez mais redondas e cor-de-rosa.

QUEIJO COTTAGE
(receita dividida ao meio, vinda do lindo livro "Forgotten Skills of Cooking", de Darina Allen)
Rendimento: 1 xíc. bem cheia

Ingredientes: 
  • 1,25 l leite integral (de garrafa; NÃO use UHT)
  • 1/4 colh. (chá) coalho líquido
  • 1 colh. (sopa) água

Preparo:
  1. Aqueça o leite apenas até ficar morno. Misture o coalho à água e salpique sobre a superfície do leite, mexendo bem com uma colher. Cubra com um pano de prato e a tampa da panela (o pano evita que o vapor do leite condense e pingue de volta) e deixe quieto por 2 a 4 horas. 
  2. Com uma faquinha de ponta arredondada, corte o coalho num padrão xadrez e volte a panela ao fogo mínimo, apenas para amornar, até que você comece a ver o soro brotar. Não aqueça muito, ou o coalho ficará muito duro.
  3. Forre uma peneira com um pano próprio para isso, e posicione sobre uma tigela grande. Apanhe o coalho com uma concha e derrame sobre o pano. Amarre as pontas e deixe pendurado em algum gancho, pingando sobre a tigela, durante toda a noite (fora da geladeira). 
  4. No dia seguinte, coloque o queijo num potinho, salgue a gosto e consuma em até umas 2 semanas. Guarde o soro na geladeira e use para cozinhar.  

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Torta de salmão e brócolis

Vira e mexe sou honesta comigo mesma, apanho todas as minhas revistas de culinária e as massacro, arrancando as páginas com as receitas que eu sei que, DE FATO, prepararei um dia, e jogando na reciclagem todo o restante. Não adianta fingir que vou preparar aquele bolo de treze camadas ou uma "espuma" de alguma coisa. [Aliás, levante a mão quem acha que "espumas" parecem cuspes no prato.] O melhor caminho para enxugar aquela prateleira abarrotada é mesmo a sinceridade. Revistas inteiras, guardo apenas as que realmente são forradas de receitas preparáveis, como as minhas Gourmet (já rasgadas, amassadas e manchadas, de tanto uso) e as do Jamie Oliver, que, confesso, guardo principalmente pela qualidade das fotografias, excelentes referências para desenhar.

As chacinadas, noutro dia, foram as francesas Saveurs. Depois de selecionar as receitas testadas e aprovadas [como o arroz doce, meu favorito até agora] e as que pretendo fazer um dia, separei todas por estação do ano e guardei-as num fichário, para fácil acesso. O que de fato contribui para essa limpeza é o fato de colocar na reciclagem todas as receitas com carne (exceto peixes e frutos do mar).

Esta torta, da sessão "Outono", estava me paquerando havia muito tempo, apenas aguardando um belo brócolis, um pouco de ricotta e uma quinta-feira para comprar peixe fresco. Nunca havia preparado uma torta com peixe, veja só, e estava apreensiva com o resultado. Mas ela ficou muito saborosa, substancial, perfeita para um almocinho em dia frio. O peixe cozinhou deliciosamente, e não sobrecarregou o restante da torta com sua "peixisse".

Como sempre acontece com receitas francesas, tive um problema com a temperatura do forno. Resolvi seguir à risca e assar a torta aos indicados 180ºC, mas, sendo mais alta que uma quiche, ela demorou o dobro do tempo para ficar pronta. Talvez seja o caso de aumentar a temperatura uma vez que esteja com o recheio dentro.

TORTA DE BRÓCOLIS E SALMÃO
(ligeiramente adaptado da revista francesa Saveurs)
Tempo de preparo: 2h
Rendimento: cerca de 8 porções

Ingredientes:
(massa)
  • 250g farinha de trigo orgânica
  • 1 colh. (sopa) sementes de papoula
  • 5g sal
  • 125g manteiga sem sal gelada
  • 1 gema
  • 50ml água gelada
(recheio)
  • 4 ovos orgânicos
  • 300g creme de leite fresco
  • 200g ricotta
  • 400g salmão fresco sem pele
  • 1 brócolis pequeno
  • sal e pimenta-do-reino

Preparo:
  1. Numa tigela, misture a farinha, o sal e as sementes de papoula. Junte a manteiga em cubos e esfregue com as pontas dos dedos até obter uma farofa grossa. Junte a gema e a água e misture com um garfo até começar a formar uma massa. Amasse com as mãos, formando um disco, embrulhe em papel-alumínio e leve à geladeira por 30 minutos. 
  2. Pré-aqueça o forno a 180ºC. Abra a massa em uma superfície ligeiramente enfarinhada e forre uma forma de fundo removível de 23-25cm, de bordas altas. Fure o fundo com um garfo, forre a massa com papel-alumínio e cubra com feijões secos. Leve a base da torta ao forno por 30 minutos, removendo os feijões e o papel-alumínio no meio do tempo. 
  3. Enquanto isso, corte o brócolis em floretes pequenos e cozinhe por uns 2 minutos em água fervente com sal. Escorra e reserve. 
  4. Corte o salmão em pedaços de cerca de 2cm, tempere com sal e pimenta e reserve. 
  5. Numa tigela, misture os ovos, o creme de leite e a ricotta. Tempere com sal e pimenta.
  6. Retire a base de torta do forno e espalhe o brócolis e o salmão sobre ela. Cubra com o creme de ovos e leve ao forno por mais 45 minutos, ou até que o recheio esteja dourado e firme. Não se importe com alguns chamuscados nos floretes de brócolis. Sirva imediatamente.

domingo, 15 de maio de 2011

Salada de espinafre. radicchio e maçã

Sei que deveria ter paciência e uma pitada de misericórdia comigo mesma, e fazer uso do mantra "faz só um mês que eu expeli um ser humano". Mas noutro dia, depois de uma noite mal dormida (culpa da insônia, e não do bebê), deparei-me com uma assustadora imagem no espelho: uma mulher pálida, de olheiras, cabelos desgrenhados e sem corte, molengona, vestida com as roupas largas e puídas da gravidez, pontuadas de manchas de leite regurgitado.

Choque.

Dei-me o direito de ficar deprimida com aquela figura por cinco minutos. Percebi quão fácil é, sozinha em casa com o bebê, deixar-se levar pelo cansaço, tédio social e fome por conta das mamadas, e simplesmente esquecer quem era aquela mulher pré-maternidade. Como, apesar de ter me cuidado durante a gravidez e engordado pouco, eu poderia facilmente desandar agora e enfiar o pé na jaca, tornando-me, de forma praticamente irreversível, uma mãe com barriga de pochete, moletom, perna peluda e cocô na testa.

Decidida a não deixar isso acontecer, fiz um voto de "não ao cocô na testa": apesar de minha calça jeans não entrar ainda (faltam 8 miseráveis quilos), estou me esforçando para sair por aí bonitinha, fazendo o melhor uso do que cabe em mim; a maquiagem saiu da gaveta, mesmo que para ficar em casa; e no mesmo dia em que o médico liberou, corri para a musculação. Incrível como senti falta da endorfina liberada pelos exercícios, o que, mais do que nunca, faz com que eu não entenda um ser humano sedentário.

Dou início ao projeto "Xô, pochete!', vulgarmente chamado "Projeto M.I.L.F." ;)

SALADA DE ESPINAFRE, RADICCHIO E MAÇÃ
(ligeiramente adaptado da revista Jamie)
Numa tigelinha, misture cerca de 2 colh. (sopa) de cebola fatiada fino e 1 colh. (chá) de vinagre de vinho tinto. Numa frigideira, toste algumas avelãs picadas grosseiramente  e 1 colh. (chá) de sementes de girassol. Numa tigela grande, misture 1 maçã pequena fatiada, punhados de radicchio e espinafre, as avelãs, as sementes, e queijo Stilton esmigalhado (ou outro queijo azul). Misture ao vinagre e cebola 1/2 colh. (chá) de mostarda de Dijon e 1 colh. (sopa) de azeite. Tempere a salada e coma imediatamente. Serve 1 porção.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Sopa de brócolis e Stilton

Talvez sejam os hormônios ainda retornando a seus níveis normais; talvez seja simplesmente a maternidade instalada; mas, como um porco-do-mato protegendo sua cria, tenho tido reações tempestuosas a determinados pitacos de pessoas à minha volta. Arreganho os dentes e saio querendo dilacerar quem diz que estou errada. Afinal, conselho e julgamento são coisas bem diferentes.

A primeira verdade é: my baby, my rules.

A segunda verdade é: se todo bebê fosse igual, seria mamão com açúcar criar filhos. Então não me diga que é o SEU jeito que funciona e não o que meu marido e eu estamos fazendo.

A terceira verdade: as pessoas parecem ficar temporariamente surdas quando você tenta explicar o modo como pretende criar seu filho. Você passa a gravidez inteira explicando como quer que as coisas funcionem no quesito alimentação, brinquedos, disciplina, e a criança mal completa três semanas e você já vê metade das regras quebradas, e já consegue ver quem vai dar a primeira bala de goma pro seu filho quando ele tiver apenas um pobre e indefeso dente de leite na boca.

*Suspiro*

Meu Eu-Controlador sente espinhos se eriçarem nas costas e fogo sair pelas ventas. [Sim, nessa metáfora sou um cruzamento de porco-espinho e dragão.] Vê-se logo que toda aquela doçura maternal que vocês esperavam que eu tivesse não ganhou muita força frente a meu habitual mau humor. ;)


De qualquer forma, essa tem sido a única chateação da maternidade no momento. Já me sinto menos cansada durante o dia e durante os fins de semana, o que tem me dado paciência e disposição para cozinhar com frequência e apelar para os meus pratos congelados apenas nos momentos desesperadores. Os burritos, aliás, fizeram tanto sucesso, que o marido prometeu que se eu abastecer o freezer com eles regularmente, ele nunca mais compra miojo. :D Será que eu acredito?

Ainda consegui um tecido para amarrar o bebê ao meu corpo, liberando meus braços e, finalmente, dando-me suficiente independência para voltar a passear o cãozinho, ir ao supermercado e afins. Ou mesmo usar as duas mãos para digitar, como estou fazendo agora. E isso me deixa muito, muito feliz. Agora tudo o que falta é voltar a correr; se tudo der certo, daqui a uma semana ou duas. :)

No fim, como diz meu marido, tem sido menos trabalho do que esperávamos e mais do que gostaríamos. Mas totalmente gerenciável, com um pouco de organização e uma boa dose de calma. Talvez o fato de eu estar genuinamente feliz ajude um bocado também.

Esta sopa de brócolis não é comida congelada, mas é tão fácil de fazer que pode ser uma boa pedida para quem também está com um pequerrucho dependurado no braço. E ela é tão saborosa, que vai fazer você esquecer que não vai dormir nada esta noite e que esqueceu de pedir ao marido para comprar pão para o dia seguinte. E melhor: tanto a sopa quanto a coberturinha de pão e sementes se mantém bem na geladeira (separados, é claro), só precisando requentar a sopa numa panela e dar uma tostadinha de leve nos croûtons numa frigideira antes de servir.  Bem mais fácil que criar filho, e nisso você pode dar pitaco à vontade.

SOPA E BRÓCOLIS E STILTON 
(Ligeiramente adaptada da Jamie Magazine)
Tempo de preparo: 20 minutos
Rendimento: 6 porções

Ingredientes:
  • manteiga
  • 2 cebolas, picadas
  • 500g brocolis, cortado em pedaços pequenos (usei o japonês)
  • 250g batatas, cortadas em pedaços de 1cm (com casca mesmo)
  • 5 xic. caldo de legumes caseiro
  • 1 fatia de pão amanhecido por pessoa (usei um integral, caseiro)
  • 50g nozes, picadas
  • azeite de oliva extra-virgem
  • uma pitada generosa de páprica
  • 2 colh. (sopa) sementes de abóbora, girassol ou uma mistura
  • 200g queijo Stilton ou outro queijo azul de qualidade, como Roquefort ou Gorgonzola
  • 2 colh. (sopa) creme de leite fresco
  • 1 colherinha de Jerez (opcional; usei Marsala)

Preparo:
  1. Derreta a manteiga numa panela grande, em fogo médio e junte a cebola. Diminua o fogo e cozinhe, mexendo, até que esteja amolecida, sem deixar dourar. 
  2. Junte o brócolis e a batata e mexa algumas vezes. Junte o caldo e leve à fervura. Abaixe o fogo novamente  e cozinhe até que os legumes estejam macios, cerca de 15 minutos. 
  3. Enquanto isso, corte o pão em pedaços pequenos e misture com as nozes, a páprica, sal e pimenta. Aqueça um pouco de azeite numa frigideira grande e junte a mistura de pão, mexendo até que doure. Transfira para um prato e coloque as sementes na mesma frigideira, tostando até que estejam perfumadas. Junte ao pão. 
  4. Quando os vegetais estiverem macios, junte metade do queijo e bata no liquidificador, em partes, tomando cuidado ao bater líquidos quentes. Junte o creme e acerte o tempero. Se quiser, misture com o Marsala ou Jerez. 
  5. Sirva em tigelas, com a cobertura de pão e sementes e o restante do queijo esmigalhado.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Salada de melancia para a melancia que eu carrego

Eu tenho um mês para entregar todos os trabalhos pendentes, para então ter como única preocupação esperar o bebê decidir nascer. Afinal, deus me livre ter de levar ilustrações para finalizar na maternidade! ;)

Correria à parte, fiquei felicíssima na última consulta médica ao descobrir que após meras duas semanas comendo minha comida, tudo voltou ao normal. Pessoinha saudável de bebê gostoso novamente. Muitos grãos integrais, muitas frutas e verduras frescas, pão, bolo e iogurte, tudo caseiro. Haveria coisa melhor? Fico satisfeita em ver que Michael Pollan tinha razão: coma comida; não muito; principalmente vegetais. Sábias palavras.

E eis o resultado. Boa comida, não muito, principalmente vegetais e exercício o bastante para não virar uma grávida-ameba. Sempre quis ser dessas grávidas que você só nota a gravidez quando elas viram de lado, mas confesso que nunca achei que conseguiria, com toda a minha tendência infantil e adolescente às gordurinhas. O engraçado é que não foi esforço nenhum. Bastou continuar fazendo o que eu já fazia antes. Comer comida de verdade e tirar a bunda do sofá. Para quem estava curioso pra ver o barrigão, tchananans! Foto mequetrefe de computador, tirada ontem.
Para nutrir minha pequena melancia e afastar o calorão, o almoço vapt-vupt de hoje foi uma salada de melancia e tomates. Eu me lembrava de várias saladas de melancia em diversos livros e sites diferentes, mas confesso que morri de preguiça de ir atrás de uma específica e simplesmente improvisei. Misturei pedaços de melancia (sem as sementes), tomate orgânico, queijo feta, azeitonas pretas kalamata, salsinha e cebolinha picadas e temperei com um pouco de suco de limão, muito azeite, sal e pimenta-do-reino moída na hora. Tão gostoso e tão refrescante que quero comer de novo amanhã. :) (Falei que a sobremesa foi bolo de chocolate?)

O pequeno metaleiro dentro de mim se espreguiça satisfeito após um almoço gostoso e me lembra de cochilar por cinco minutinhos antes de voltar para a correria do trabalho.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Salada picadinha de desentralhamento

Ok, talvez eu tenha ficado um pouco... alarmada (alucinada? aterrorizada?) com a quantidade de tralha que os lojistas e os médicos sem noção (além de algumas mães malucas) dizem que um bebê precisa. Na minha inocente concepção, acreditava que, contanto que eu mantivesse meu filho quentinho, alimentado e limpo, tudo estaria bem. Mas ai de mim se não tiver as tralhas máximas da modinha que o último psicopedagogo disse que são primordiais para o desenvolvimento "correto" do meu pequeno. Bastou uma visita a uma grande loja de tralhas de bebê para sair de lá com alergia de tanto plástico rosa e azul claro.

Em tempo: não é falta de amor, e não é uma crítica a quem montou o enxoval todo no primeiro mês de gravidez. Cada um na sua. Tem gente que compra roupinha porque gosta de roupinha. Eu, que poderia vestir um saco de batatas, ando colecionando receitas de papinha e juntando meus brinquedos antigos [aleluia! eu guardei minha coleção do He-Man e todo o meu Lego] e todos os meus livros de infância, louca para lê-los para o pequeno. O caso é que sou uma pessoa essencialmente prática. E não vi muita (ou qualquer) utilidade na maioria dos objetos vendidos na loja. O que vai tornar a lista do chá de bebê pequena e estranha.

Desde a fatídica visita à loja, tenho olhado em torno e, pensando já numa mudança de casa e na vinda das inevitáveis tralhas infantis, tenho sentido necessidade de "desentralhar" meu lar. Ou, como diria a Oprah, "unclutter". Vira e mexe me dá um siricotico de arrumação e, quando não posso resolver algum problema maior imediatamente, saio organizando aquilo que está ao meu alcance. É um processo catártico, no mínimo.

Semana passada foi meu armário: eu, que não sou lá muito ligada em moda, fiquei surpresa de ver quanta roupa havia no meu armário que não usava há mais de um ano. Encontrei um casaco que estava no cabide há mais de 6 anos. Foi tudo passado para frente, para quem puder aproveitar melhor as peças. Sem dó. Desapego total.

Depois, veio o banheiro. Mesmo não tomando mais do que um Tylenol a cada morte de papa, fiquei besta com a quantidade de remédios vencidos embaixo da pia. E creminhos que nunca usei nem nunca vou usar. E amostras grátis de perfume que já perderam o cheiro. Consegui até abrir espaço para minha caixinha de laços e papéis de presente. [A exemplo da minha cunhada, eu tento reaproveitar os papéis de presente, quando não embrulho presentes em páginas coloridas das revistas que não quero mais. Uma vez dei a um amigo um livro embrulhado em uma entrevista da Fergie, com uma foto sua de lingerie. Ele guardou o embrulho.]

Depois, os livros. Apesar de ter feito uma rapa há uns 6 meses, ainda consegui encontrar livros que nunca mais vou ler de novo ou mesmo alguns de culinária que simplesmente não uso e SEI que não vou usar.

E a cozinha. Surpreendentemente, uso toda a louça que tenho. A falta de espaço não me permite ficar colecionando muitos pratos e potes diferentes. As coisas já estão perigosamente empilhadas do jeito que estão. O que vai embora é o miniprocessador, que nunca mais usei depois de ganhar o grande no último Natal, dois potes de plástico impossíveis de desengordurar e que já estavam me enervando, e a cafeteira Bialetti, inutilizada depois do advento da máquina de espresso. O que me surpreendeu sim foram os ingredientes vencidos (REALMENTE vencidos, e não o velho "ainda dá pra comer") e aqueles escondidos no fundo da geladeira, sem uso nenhum por falta de conhecimento de sua existência.

Isso trouxe à luz um péssimo hábito meu, e grande responsável por, vira e mexe, eu estourar o orçamento do supermercado: comprar ingredientes específicos para uma receita só. Aquilo de ter um pé de alface e sair para comprar o queijo, o pão, o ovo e a anchova para fazer salada Ceaser, ao invés de combinar o alface com o que tem na despensa. Quando me dei conta, além de gastar mais dinheiro, estava com uma despensa abarrotada de itens que uso a cada morte de papa e que ocupam precioso espaço na minha geladeira pequena e em minhas diminutas prateleiras. Tenho certeza de que não sou a única a levar um pacote de sagu pra casa para "o dia em que quiser fazer tapioca pudding". Preciso dizer que o sagu estragou e eu nunca fiz tapioca pudding na vida? Bom...

Basta.

Trouxe à frente todos os "itens especiais" dentro das datas de validade, e estabeleci a meta de usá-los todos em detrimento de qualquer novo item. E se acabou o leite, voltar do mercado apenas com leite. E se não tem queijo para o soufflé, fazer uma omelete. Parece muito, muito óbvio, mas eu NUNCA havia me dado conta do meu erro, tão absorta no prazer de cozinhar e de testar novas receitas.  

O almoço de hoje foi nesse espírito. Numa revista do Jamie Oliver, havia uma reportagem sobre "Chopped Salads", e vi uma que levava quatro coisinhas viventes em minha geladeira: alface romana, erva-doce, cenouras e rabanetes. Meu primeiro impulso foi sair para comprar o salmão defumado e as endívias que faltavam, mas me estapeei mentalmente. Nein, nein. Bad Ana.

Piquei a cenoura, alguns rabanetes e um pouco de erva-doce, em pedacinhos pequenos. Então apanhei uma mistura de alfaces romana, roxa e frisée e piquei com um pouco de rúcula. Misturei tudo a cubos de um queijo Feta que precisava ser terminado, e temperei com uma espremida de limão siciliano, sal, pimenta-do-reino e uma bela quantidade de azeite. Ficou ótimo e leve, com diferentes texturas, e me esqueci completamente do salmão e das endívias.

Estrelinha dourada na testa.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Salada quente de lentilhas, queijo feta, rabanetes e suas folhas

A perspectiva das mudanças por vir (físicas, emocionais, de rotina, de hábitos, de casa, talvez...) me trazem ao mesmo tempo prazer e ansiedade. Meu eu-metódico fica apavorado com a possibilidade de ter de mudar o horário do treino de corrida, por exemplo, ao mesmo tempo em que meu outro eu, o com bom senso, explica que a vida é assim mesmo, e que eu vou precisar me adaptar.

Enquanto isso, para não surtar muito, para não me ver planejando uma agenda virtual do futuro baseada em variáveis imprevisíveis, atenho-me ao prazer de saber que teremos um rapazote saudável, quiçá inteligente, e bonito não dói, então, por que não bonito também?! Grandes esperanças de que puxe o cabelo do pai, que é lisinho e sem mistério, porque se o moleque inventar de usar chapinha, vai apanhar de chapinha quente. ;) Emo não!

Para trazer o conforto daquilo que não muda, ontem preparei lentilhas do meu jeito. Não importa quantas receitas teste, volto sempre para essa, a melhor, mais saborosa, favorita de todos os tempos. Para duas pessoas, refoguei meia cebola média em uma colher de manteiga, até amaciar. Juntei alguns raminhos de tomilho, uma folha de louro e 1/2 xic. de lentilhas verdes e 1 xic. de água. Deixei levantar fervura e então cozinhei semitampado, em fogo baixo, por cerca de 20 minutos. O importante é o ponto da lentilha, que deve estar macia, mas ainda mantendo sua forma. Se já estiver pronta e ainda restar líquido na panela, é só escorrer. Se a água estiver quase no fim e elas ainda estiverem duras, junte mais água quente. Quando estão prontas, tempero com sal e pimenta-do-reino moída na hora, a gosto, um fio generoso de azeite, uma colherinha de vinagre (tinto, branco, tanto faz), 1/2 colh. (sopa) de mostarda de Dijon e um belo punhado de salsinha e cebolinha picados. Tãaao bom...

E para mudar um pouquinho, misturei as lentilhas a rabanetes pequenos fatiados, queijo feta esmigalhado e um maço de folhas de rabanete picadas grosseiramente e refogadas em alho e azeite. Caso seus rabanetes venham sem as folhas, ou elas estejam muito amarelas e murchas, substitua por folhas de nabo, espinafre, ou mesmo folhas de mostarda, que são uma delícia.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Bolo de carne sem carne num belo de um sanduíche


Tem coisa mais caseira que "bolo de carne"? Num dia desses, perguntei ao Allex se ele sentia falta de algum prato específico de sua infância, que ele não comia mais, e bolo de carne foi a resposta, quase imediata.

Para ser sincera, não me lembro de minha própria mãe preparando bolo de carne com muita frequência. Carne moída, em casa, tinha quase sempre outros destinos: lasagne, polpette, e, principalmente, aquela "torta" de carne moída e purê de batatas, que muitos anos depois, quando minha mãe se lamentava que sua comida não era "sofisticada" como a minha (até parece!), contei-lhe que se tratava de Hachis Parmentier, o que a deixou muito contente e orgulhosa. ;)

O caso é que desde que comprei esse livro da Deborah Madison, que apesar de trabalhoso é um dos melhores que tenho, estava de olho nessa receita de "Cheese and Nut Loaf", uma versão vegetariana do bolo de carne, que prometia ser tão "meaty" e satisfatória quanto o original. Mas eu nunca tinha todos os ingredientes em casa, e eu sempre arranjava uma desculpa para não prepará-lo.

Até ontem.

Se arrependimento matasse... como é que eu não fiz esse prato no dia em que comprei o livro?? Ele é de preparo fácil, principalmente se você tiver sobras de arroz integral. E a única parte chatinha é picar as nozes, mas isso você pode fazer num processador, com cuidado para não transformá-las em farinha: você quer pedaços irregulares para conferir textura ao bolo.

Além do fato de ele ficar a cara de um meatloaf de verdade (inclusive mesma textura), fica absolutamente delicioso. E eu me diverti com a carinha caseira dele e o fato de seus ingredientes serem tão naturebas: parece o tipo de prato que uma mãezona "hipponga", de saia indiana e lenço na cabeça, faria. Imagino que seja uma receita dada a adaptações, também, trocando-se os tipos de nozes (com castanha-do-Pará deve ficar bom!), variando os tipos de queijo ralado, as ervas (acho que dá pra simplificar), os cogumelos... Se duvidar, deve continuar gostoso mesmo sem o gosto forte dos cogumelos secos. Ah, e funciona mesmo quando o arroz fica empapado. :D

O resultado é um bolo de queijo e nozes bastante substancial, então uma saladinha basta para acompanhá-lo. Deborah Madison sugere servi-lo com molho branco com ervas, mas eu sabia que o condimento principal aqui em casa estava fadado a ser o ketchup. O melhor de tudo, ele é facilmente "requentável", e fica ótimo dentro de um belo sanduíche com alface, tomate, mostarda e maionese, que foi, por acaso, meu almoço. :)

BOLO DE QUEIJO E NOZES (bolo de carne vegetariano)
(do livro The Greens Cookbook, de Deborah Madison)
Tempo de preparo: 40 min + 1h15min de forno
Rendimento: 1 bolo de cerca de 21x10cm

Ingredientes: 
  • 1 1/2 xic. de arroz integral (orgânico) já cozido (Cerca de 1/2 xic. de arroz integral cru rendem o suficiente para a receita)
  • 1 1/2 xic. nozes
  • 1/2 xic. castanhas de caju
  • 1 cebola média, picada
  • 2 colh. (sopa) manteiga
  • sal
  • 2 dentes de alho, picados
  • 1/2 xic. cogumelos (à sua escolha), limpos e picados
  • 15-30g cogumelos shiitake ou porcini secos
  • 2 colh. (sopa) salsinha picada
  • 2 colh. (chá) folhas de tomilho, ou 1/2 colh. (chá) tomilho seco
  • 1 colh. (sopa) manjerona fresca, ou 1 colh. (chá) manjerona seca
  • 1 colh. (chá) sálvia fresca picada, ou 1/2 colh. (chá) sálvia seca
  • 4 ovos orgânicos
  • 1 xic. queijo cottage (caseiro ou comprado pronto, sem gomas)
  • 250-350g queijo ralado grosso que derreta bem (como Parmesão ralado na hora, Gruyère, Ementhal, Fontina, Prato, Mussarela, Cheddar... dependendo do que você tiver à mão)
  • Pimenta-do-reino moída na hora

Preparo:
  1. Comece cozinhando o arroz, caso você não o tenha pronto. Enquanto o arroz cozinha, deixe os cogumelos secos de molho em água quente. Toste as nozes e castanhas numa frigideira grande e quente, até que fiquem perfumadas, sem deixar queimar. Pique e reserve. 
  2. Pré-aqueça o forno a 190ºC.
  3. Limpe os resquícios de nozes da frigideira e derreta a manteiga em fogo moderado. Junte a cebola, uma pitada de sal, e cozinhe até amaciá-la. Enquanto isso, rapidamente escorra os cogumelos secos e pique-os grosseiramente. Junte-os à cebola com o alho, os cogumelos frescos e as ervas. Cozinhe até que todo o líquido liberado pelos cogumelos se evapore. 
  4. Bata ligeiramente os ovos numa tigela grande. Junte o arroz cozido, os cogumelos refogados, as nozes, os queijos e misture muito bem. Experimente, tempere com pimenta e acerte o sal se necessário.
  5. Unte uma forma de bolo inglês com manteiga. (A receita original pede para forrar com papel-manteiga untado, mas ele grudou no bolo. Eu faria novamente sem o papel, pois fica mais fácil de apenas passar uma faquinha nas laterais e desenformar. Só fique de olho para não queimar.) Espalhe uniformemente a mistura na forma, preenchendo bem e alisando a superfície com uma colher.
  6. Asse por 1h-1h15m, ou até que o bolo esteja inflado, bem dourado e pareça firme ao balançar a forma. Retire do forno e deixe descansar por 10 minutos antes de desenformar e servir. Para reaquecer as sobras, pegue a fatia que você quer, embrulhe em papel alumínio e leve ao forno médio por uns 15 minutos. 

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Torradas de Endívia e Gruyère: quando o pouco promissor fica fantástico

É ligeiramente irritante quando o que há na cozinha são apenas sobras desparelhadas: uma endívia já não tão crocante para uma salada, um pedaço de queijo que não dá pra muita coisa, um pãozinho meio amanhecido, e coisinhas deprimentes do gênero. E bate uma preguiça fenomenal de ir ao mercado para se abastecer de qualquer coisa fresca que possa complementar essa refeição tristinha. Então, fuçando em livros como quem não quer nada, você dá de cara com uma receita que usa absolutamente todos aqueles seus restos de forma gloriosa, sem que você precise sequer pensar em tirar o pé de casa para comprar ingredientes extras. E você volta a se empolgar com as perspectivas do almoço.

O pãozinho foi fatiado e disposto numa assadeira. Liguei o grill do forno (mas poderia tê-lo pré-aquecido em temperatura média caso não tivesse o grill). Cortei a endívia triste em quartos, no sentido do comprimento, e então cortei-a em pedaços de 1cm. Aqueci um pouco de manteiga numa frigideira em fogo alto e refoguei a endívia até que estivesse macia e ligeiramente dourada em alguns pontos. Desliguei o fogo e temperei com sal, pimenta-do-reino moída na hora e uma espremidinha de limão. Ralei tanto queijo Gruyère quanto as fatias de pão contivessem de forma segura e levei os pãezinhos ao forno, até que suas beiradas estivessem douradas e o queijo estivesse muito bem derretido. Retirei do forno, espalhei colheradas de endívia sobre as torradas quentes e salpiquei nozes picadas, um toque meu, que não estava na receita de Deborah Madison (do livro Local Flavors).

Tão bom... pode virar fácil o antepasto da próxima reunião de amigos, ou mesmo prato principal bem leve, com uma saladinha verde com molho de mostarda. Para acompanhar, suco de uva isabel orgânico e de sobremesa, fatias de abacaxi salpicadas de manjericão roxo.

Cozinhe isso também!

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