terça-feira, 3 de julho de 2012

Sopa de abóbora, madeleines de alho-poró e um bairro moribundo

Eu sou um furúnculo nos Jardins, e andam me espremendo com força para fora daqui.

Hummm... pois é. Existem duas coisas que fazem com que você se sinta velha: ver seu filho crescer (o que acontece mais rápido do que você jamais espera) e ter sensações nostálgicas de um passado melhor do que o presente. O primeiro traz uma tristeza bonita para a vida, como se por um instante, quando seu pequeno mostra a língua, achando graça, você enxergasse os fios invisíveis que tecem não apenas a trama da sua existência, mas aquela relacionada a todos os seres à sua volta, e aquela sensação fatalista torna-se quase tolerável. O segundo, no entanto, traz uma melancolia desesperançosa. E faz você ficar se perguntando o que vai ser daquele seu pequeno, tão risonho, nesse mundo que não é mais aquele que você costumava apreciar.

Quando eu era criança, os Jardins eram um bairro residencial. Havia pouco trânsito, se algum. Nenhum prédio tinha grades, guaritas blindadas, seguranças ou cerca elétrica. Havia muitas, muitas árvores. Havia muitas casas. Havia dois supermercados, mas minha mãe fazia a ronda de sempre nos pequenos comerciantes: o açougue, a quitanda, a padaria, a banca de jornais, a lojinha japonesa, o tio que consertava eletrodomésticos, a velhinha que revendia camisetas Hering na edícula de sua casa de vila. Havia uma ou duas pizzarias, uns dois restaurantes italianos mequetrefes, um japonês exótico e misterioso e o Fasano. Havia um cinema na Pamplona e uma casa noturna acho que na Lorena. Uma vez por mês, meus pais nos levavam à pizzaria, sempre a mesma, onde minha irmã pediria pizza de mozzarella, e eu, de atum. Na maioria dos fins de semana, meus pais fariam pizza em casa, pois era bem mais em conta. Domingo era dia de lanche, de pãozinho francês e frios.

Nada abria de fim de semana. Só a padaria. Sábados e domingos eram dias silenciosos e ermos, em que passeávamos de bicicleta na rua e ouvíamos apenas os passarinhos nas árvores antigas além do som das correntes ao pedalarmos. As noites eram quietas e escuras. As copas das árvores não deixavam nem a poeira, nem o barulho ocasional e nem a luz amarela da iluminação pública chegar a nossas janelas.

Então, um dia, fizeram o corredor de ônibus na Av. Nove de Julho, arrancando quase todas as árvores do canteiro central e das calçadas. Imediatamente o quarto de meus pais tornou-se um aposento barulhento de dia e de noite, e o apartamento passou a ficar constantemente recoberto de uma camada fina de fuligem que parecia nunca ir embora.

Então colocaram uma placa desviando o trânsito da avenida para a rua dos meus pais, que virou rota alternativa. E o trânsito chegou. Os supermercados porcaria foram substituídos por grandes redes, e os pequenos comerciantes foram um a um fechando suas portas. Os velhinhos do bairro começaram a morrer, e grandes construtoras começaram a derrubar as casinhas e as árvores e subir prédios imensos de áreas impermeabilizadas. Vieram as grades, as câmeras de segurança.

A Oscar Freire voltou a ser uma rua chique, e quem não conseguia ou não podia ter uma loja nela, começou a aproveitar as casinhas que haviam restado no bairro. Mais árvores foram abaixo, atrapalhando as vitrines e entradas de carros. E vieram os restaurantes, os barzinhos, os cafés, as boutiques chiques que papai comprou pra filhinha que acabou de sair da faculdade de moda. E vieram os manobristas. E vieram as madames deixando seus carros em fila dupla, atrapalhando o trânsito. E os manobristas subindo ruas inteiras de ré, passando no sinal vermelho e estacionando em cima de calçadas e em frente às poucas rampas de acesso das esquinas. E vieram as infinitas reformas, cada vez que uma loja ou restaurante passa de mão em mão, com suas britadeiras e serras circulares às dez da noite na quinta e no domingo à tarde. E veio a loira de chapinha e microssaia saindo do carro esporte do babaca de camisa de rugby grudadinha nos bíceps, fumando na calçada enquanto esperam mesa no mais novo restaurante, e se recusando a dar passagem para a mulher com cachorro e carrinho de bebê. E veio a fila de 32 minutos para tomar sorvete. E veio o potinho de sorvete no chão. E veio a turba turista no sábado à tarde. E veio o moleque bêbado que sai da balada na Augusta e deixa o carro com som alto na frente do meu prédio enquanto o amigo decide se vomita na minha calçada ou se vai acalmar a larica no café vinte quatro horas, que também deixa seu ar condicionado ligado vinte e quatro horas. E vieram os motoboys entregando pizza à uma da manhã e buzinando e correndo com suas motos de escapamento estourados, acordando meu filho assustado, que não entende que aquele é apenas o barulho da civilização.

E hoje eu tenho uma ínfima janela de oportunidade para reviver meu bairro como eu me lembro dele, e é de domingo às sete da manhã, quando nem os cafés que cobram 10 reais o cappuccino mal tirado abriram ainda, porque quem é chique não tem que acordar cedo. E quando volto pra casa com o cachorro, os carros blindados já estão parando em fila dupla na augusta pro motorista descer e pegar um pastel de catupiry e um vaso de orquídeas para a madame. E eu tento filtrar o ruído da serra circular e escutar o pobre sabiá solitário perdido em mais uma árvore podada pela prefeitura.

Meu bairro morreu.

E enquanto meus amigos acham super chique e divertido e prático morar nos Jardins, eu atesto que é uma grande m*rda; afinal, você quer PASSEAR no Shopping Center, e não MORAR em um. Devo estar sentindo agora o mesmo que as pessoas sentiram quando a Vila Madalena começou a ser invadida por bares, e trânsito, e sujeita, e barulho. Dia e noite. Em nome de tanto agito e conveniência, abrimos mão do que é de fato qualidade de vida: silêncio, verde, noites bem dormidas. E se um dia eu achei interessante poder ir a restaurantes à pé, hoje eles só estão ali para atravancar minha vida, pois só mesmo um idiota pagaria 68 reais num prato de spaghetti. Ainda correndo o risco de ser não apenas assaltado metaforicamente, mas, hoje em dia, também com arma de verdade.

Meu bairro morreu lá fora, no sol, e eu não estou suportando o fedor que entra pela janela. Quero me recolher no meu mundinho eremita, fechar as persianas e fingir que tudo está como era. Olho para meu filho e quero que ele saiba o que é um gramado de verdade, com terra e bicho, e não a grama artificial da quadra do clube, estéril, estranha. Queria uma noite sem bêbado, manobrista ou motoboy, uma noite sem os holofotes do prédio da frente iluminando o teto do meu quarto como se fosse dia.

Enquanto isso não vem, tento não ser dominada pela tristeza de ver em decadência o que antes foi bom, e me atenho à beleza melancólica que é o sorriso cheio de dentinhos do meu filho enquanto ele aponta para a pequena pilha de madeleines de alho-poró na mesa. Ou o som satisfeito que ele faz, dando tapinhas na própria barriguinha estufada, ao tomar mais uma colherada da sopa de abóbora. Atenho-me aos abraços carinhosos e muitas vezes desastrados que ele tenta dar no cachorro três vezes maior, ou mesmo à sua expressão serelepe quando tenta desafiar minha autoridade. E por amor, trabalho para lhe dar um gramado e uma boa noite de sono um dia, para que ele também tenha boas lembranças do lugar onde passou sua infância.

Enquanto isso, enquanto a civilização evolui sua decadência de forma acelerada lá fora, continuo desacelerando aqui dentro. Thomas aperta o botão do rádio-relógio que está quebrado, no volume máximo e para sempre sintonizado na rádio Cultura, e enquanto um piano toca eu coloco a abóbora, cebola e alho para assar. E refogo alho-poró para madeleines muito fáceis, que poderiam provavelmente ter sido feitas em forminhas de empada, e que, quando meu marido pergunta o que são, chamo simplesmente de "bolinhos". Distraída pelo barulho do pequeno jogando os brinquedos de um lado para o outro, quase dou uma da Rachel e coloco baunilha na sopa, olhando a receita da página errada. Vou lá ver o que ele está aprontando e volto a me concentrar na "dificílima" sopa.

O jantar é tranquilo, e Thomas gosta tanto da sopinha adocicada que toma uma porção de adulto, duas conchas e meia, mais três bolinhos. Ensino ele a mergulhar o bolinho na sopa e ele enfia mão inteira, na sopa e na boca. Suspiro devagar, e por um instante não ouço as buzinas ou o rebuliço na porta do restaurante. Por um instante só há o cheiro da sopa quente, Allex me contando sobre seu dia, pés desncasando na mesa de centro, e Thomas tentando passar as mãos cheias de abóbora da cabeça do cão, que fareja possíveis restos de bolinhos de queijo. A vida é boa aqui dentro.

SOPA DE ABÓBORA COM ALHO ASSADO
(Da revista Donna Hay)
Preparo: 1 hora (50 minutos de forno inclusos)
Rendimento: 4 porções

Ingredientes:
  • 1 abóbora de 2kg (usei a japonesa, mas pode ser abóbora seca ou qualquer uma que se preste a pratos salgados)
  • 1 cebola média ou grande, cortada ao meio, ainda com casca
  • 1 cabeça de alho, dentes separados, ainda com casca
  • azeite de oliva
  • 1/2 xic. creme de leite fresco
  • 1 colh. (chá) noz-moscada ralada na hora
  • sal e pimenta-do-reino moída na hora

Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 200ºC. Corte ao meio a abóbora e remova e descarte das sementes e fios. Coloque a abóbora com as cavidades para cima numa assadeira e disponha a cebola e o alho nas cavidades. Regue com um pouco de azeite e leve ao forno por cerca de 50 minutos, ou até que a abóbora esteja dourada e macia. 
  2. Retire a polpa da abóbora com uma colher, descartando a casca. Retire a casca da cebola e do alho. Coloque a polpa dos legumes assados no processador e bata com 1 xic. água até que fique homogêneo. 
  3. Transfira para uma panela, junte mais 2 xic. de água, o creme de leite, a noz moscada, sal e pimenta e cozinhe até que esteja reaquecido. Sirva com as madeleines.

Asse os legumes e faça o purê com antecedência, e aproveite o forno quente para fazer as madeleines, que são servidas frias. Na hora do jantar, é só finalizar a sopa.

MADELEINES DE ALHO-PORÓ E QUEIJO
(Da revista Donna Hay)
Preparo: 20 minutos, mais 12 minutos de forno
Rendimento: 4 porções (16 unidades)

Ingredientes:
  • 40g manteiga
  • 1 alho-poró médio, fatiado fino
  • 1/3 xic. buttermilk (1/3 xic. leite com uma colherinha de vinagre)
  • 1/3 xic. polenta instantânea (as com cara de sêmola de milho, que ainda têm que ser cozidas, não polentas que já vem prontas, pelamor)
  • 2 colh.(sopa). farinha de trigo, peneirada depois de medida
  • 1/4 colh. (chá) bicarbonato de sódio
  • 1/2 xic. queijo tipo cheddar ralado (usei gouda)
  • 1/4 xic. cebolinha picada
  • sal e pimenta
  • 1 ovo

Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 180ºC. Refogue o alho-poró em metade da manteiga até que fique macio. Coloque o alho-poró e o buttermilk no processador e bata até que fique mais ou menos homogêneo (ainda haverá pedacinhos).
  2. Numa tigela, misture a polenta, a farinha, o bicarbonato, o queijo e as cebolinhas. Misture bem.
  3. Derreta o restante da manteiga e junte à mistura de queijo e polenta. Junte a mistura de alho-poró e o ovo. Tempere com sal e pimenta e misture bem.
  4. Unte 16 formas de madeleine ou forminhas de empada e divida a massa entre elas. Leve ao forno imediatamente, por 10-12 minutos, até que estejam douradas e um palito saia seco quando inserido nelas. 
  5. Desenforme numa grade e deixe que esfriem. Sirva com a sopa de abóbora.
[UPDATE: mil desculpas a quem usou 2 xícaras de farinha nas madeleines. Mesmo revisando, esse erro passou. Agora está corrigido. ]

40 comentários:

Giuliana disse...

Que coisa. Houve uma época que eu morava nessa região, quase ao lado do Shopping Center 3, num prédio com 16 microapartamentos por andar, sem garagem e nem área de serviço. Apesar disso, eu adorava, porque a região é perto de tudo o que eu precisava e o máximo de barulho que eu ouvia era, as vezes, o miado do gato na janela do vizinho.
Hoje, durante a semana, moro numa esquina com a Cardeal Arcoverde e digo é o inferno na Terra de tanto barulho, as vezes dá vontade de sair gritando descabelada pelos corredores. Nos fins de samana volto pra minha casa mesmo, na zona leste, onde as pessoas gostam de ouvir funk e "sertanejo" na sua janela a partir das 23h, ou andar de moto até as 5 da manhã, ou assaltar as pessoas quando não tem ninguém na rua de manhã.
Mas sabe um lugar que não achei tão ruim? Perdizes. Nas minhas andanças pelo bairro quando morava por lá achei super tranquilo e residencial e dá pra achar aluguéis com preços razoáveis...
Respira fundo que as coisas não são tão ruins assim... podia ser Santo Amaro. hahahaha beijos!

Inessa disse...

Seu post reproduziu perfeitamente a zona que está virando nossa cidade!

Anna Flavia Ganut disse...

Ainda me lembro quando meu pai morava no Itaim e brincávamos na rua, imagine. Sinto tanta falta desta época e da calmaria dos Jardins, de quando ia com meus avós tomar sorvete na Augusta... A saudade é tanta que, quando casei, vim morar no miolo do Jardim São Paulo. Não que o bairro seja calmo, mas posso desfrutar de uma certa calmaria durante às noites e aos fins de semana.

Laura disse...

Não moro em São Paulo, mas sinto exatamente isso em relação à minha cidade. Tudo mudou tanto em tão pouco tempo, e as pessoas legais vão virando burgueses. O barulho e o trânsito são agora habituais e deixam todo mundo carrancudo. É um saco.
Bertrand Russel afirmava que "a mudança é indubitável, mas o progresso é uma questão controversa", e acho que isso nunca foi tão exato como agora.
Ótimo post.

Camila disse...

Ana, eu cresci nas Perdizes. Exatamente com essas características que vc disse. Quando tinha 15 anos, nos mudamos de um apertado apartamento pra uma casa bacana, numa ruazinha silenciosa, a uma quadra da Av. Sumaré. Tudo ia muito bem, até a CEF deixar o ar condicionado ensurdecedor ligado 24 horas/dia, alguém abrir um bar que tinha "pagode cura ressaca" até as 4 da manhã em plena segunda, até todos os vizinhos resolverem fazer reformas intermináveis em suas casas... Logo que mudei pra Alemanha, tinha dificuldade em adormecer por causa do extremo silêncio. E hoje, ao visitar meus pais, acho o barulho insuportável. Fico esgotada, exausta, irritadiça. Espero muito que vocês encontrem um lugar bacana pra viver!

Anônimo disse...

Espero que logo você e sua família consigam morar em um lugar mais calmo. Morei por mais de 30 anos em São Paulo. Nos últimos anos, vi Moema sendo tomada de assalto por bares, restaurante, bêbados, drogados, moleques estúpidos, arrogantes e agressivos. Ninguém que ganha seu dinheiro honestamente, paga suas contas e quer apenas passear com o cachorro (e/ou com o filho) deveria ser obrigado a fazê-lo entre as 5 e as 6 h da manhã, como eu fazia, para minimizar o risco de motoqueiros sobre as calçadas, babacas vomitando no seu pé e ameaçando o pobre cão. Torço por voces.

Fatima disse...

Torço para que vcs consigam morar em um lugar tranquilo. Alguns anos atrás escolhi criar a minha filha em uma casa dentro de um "recanto" do Rio de Janeiro, com muitas árvores e clima de cidade de interior, trocando o glamour da zona sul pela qualidade de vida e não me arrependo.Hj só sinto falta de um terrreno um pouco maior para uma grande horta e para os meus cães. Quem sabe a minha próxima mudança seja para um sítio!!!!

Mutante disse...

Tanto a sopa como as madeleines parecem deliciosos, vou me eventurar a fazer.
Sua reflexão sobre o bairro foi fantástica e melancólica. Ainda moro numa casa num bairro em que consigo fazer quase tudo a pé. Frequento os jardins eventualmente, vou de metrô e também não tenho paciência com esses tipos que descem dos carros, especialmente os que param em fila dupla. Também acho um horror o preço que se paga por um prato de uma massa qualquer. Preços da "civilização"... Seu mundo interno certamente é bem mais interessante.

Laís Fraga disse...

Ana,
Entendo muito o seu sentimento. E por isso não abro mão do lugar que moro hoje em dia. Se quiser, até te passo. Também estou com uma florzinha na barriga e não saio do meu condomínio fácil não. Condomínio grande, passeio com a minha cachorra 3 ou mais vezes ao dia. Posso passear até de madrugada se quiser. Muito verde, muita grama, muitos parquinhos. Quando mais velhas, as crianças descem de bicicleta e ficam brincando com os amigos, todos tem uma turminha.
Sair daqui? Só se for pro interior, e pra morar em alguma chácara.

Sarah Abreu disse...

Eu nasci em São Paulo. Morei na Pamplona, mas fui bebê para Minas, onde me criei. Aos 18 voltei a morar em São Paulo. Teus Jardins me lembram o ribeirão que corria na porta de minha casa de infância... Na minha cidade, nem a padaria abria aos domingos. Se um dia eu tiver um filho, lerei seus textos para ele e também trabalharei para lhe dar um gramado e fruta no pé. Um beijo, adoro "te ler"! Aliás, parabéns pelo novo nenê!

Paulo Werneck disse...

Fiquei muito tocado pela sua postagem. Tenho quase sessenta anos e uma tristeza por saber que o que eu vivi e era bom meus filhos já não puderam viver e meus netos, quando vierem, não vão nem entender do que estarei falando.
Quando eu era criança, podia ir para cima e para baixo na área rural a 100 km do Rio onde meu pai tem uma pequena casa de campo junto a um rio. Passar pelas cercas de arame farpado, catar goiabas nos terrenos dos outros, subir os rios a vau (por dentro deles) não tinha nenhum problema. Éramos crianças.
Meus filhos foram ameaçados de revólver subindo um rio com roupa de banho, com dez anos, se tinham isso.
Hoje é tudo propriedade privada, fechada, proibida. Não estou falando dos Jardins, da Oscar Freire, do bairro que se acha chique.
Estou falando do campo.
Também me deu uma tristeza imensa ler sua matéria. Acostumei-me com me sentir obsoleto e deslocado, mas não esperava que uma jovem mãe, que deve ter a metade da minha idade, já possa escrever um artigo tão amargo.
Pelo menos há sopa de abóbora...

Livia Luzete disse...

Ana ,as vezes fico co ma sensação de que meus filhos tiveram os melhores BONS MOMENTOS, que eu tive. E é lindo vc manter dentro de seu universo de seu castelo esse mundo maravilhoso de sensações e lembranças que farão o Tomas um bom homem. Eu faço o mesmo aqui em casa.Ok, não posso falar desse lugar como que já tenha sido "roubado". Moramos no interior (litorâneo) do Ceará. Onde o sossego ainda se faz presente. A bicicleta ainda estará lá na frente do mercado quando você sair. Mas,falando de um lugar especial, meu, também tenho. Nasci e me criei no Guarujá, na Vila Santa Rosa. Onde se brincava na rua até não sei que horas da noite e muitas outras lembranças parecidas com as suas eu tenho.
Felizes somos nós. Felizes são nossos filhos que tem pais com a felicidade no DNA.
Beijo.

lili disse...

Apesar de morar num bairro relativamente novo (Alto de Pinheiros)em 20 anos vi o transito aumentar e a segurança decair. Sinto falta do silêncio.

Vavas disse...

Poxa, (f)somos vizinhos!
Morei perto do Frei Caneca enquanto estudava e confesso pra você que, à época, achava ali o melhor lugar do mundo. Tudo perto, faculdade, shopping, mercado, farmácia, restaurante, lavanderia, bares, baladinhas.
Até as prostitutas ficavam perto!
Adorava a fumaça, o smog, o barulho da Consolação e dos bombeiros, o tempo cinza, o fedor das ruas, a pressa e a indiferença dos transeuntes.

Hoje voltei pra minha cidade natal e tudo o que ouço quando durmo é minha respiração.
Tão insignificante quanto aparentemente é, não troco o silêncio pelo MASP, pela biblioteca da FGV, pela padoca e pela academia que funciona às 3:45 da manhã, pela variedade de baladas, de cinemas, teatros.
Somados.

Deve ser a idade. Talvez a iluminação, se você for otimista.

Lais Berriel disse...

Senti sua melancolia no texto, mto bem escrito.
Moro em Campinas, num bairro que ainda é bem arborizado, tenho uma lagoa na frente de casa, o que é um privilégio. Mas meus pais moravam na Alameda Lorena, e ainda vou visitar minha vó que mora ainda lá. O bairro realmente mudou mto, lembro de visitar ela e ir passear nas ruas que eram tão tranquilas... Hoje em dia tá tudo tão movimentado, e nem o Jardins, que eram um "refúgio" de São Paulo, escapou dessa "modernidade".... Infelizmente...
Pelo menos você tem seu próprio paraíso particular dentro de casa, e isso ameniza um pouco a invasão das ruas...

Olga disse...

Ana,
provavelmente tenho a sua idade e também tenho lembranças de uma época tão feliz. Lembranças da pequena hortinha a 1,5 km da minha antiga casa, lemranças do meu irmão me levando para lá na garupa da bicicleta (e da vez em que caí dela e ele lavou o meu joelho ralado com a água de um riacho próximo, pedindo para não contar aos nossos pais), os arranhões nos braços e nas pernas ao tentar alcançar algumas berries nos arbustos, e o melão mais perfumado e doce aberto ali mesmo onde fora colhido. Doce, doce, o melão e a lembrança.

Paula disse...

Isso não é um post comum,é uma crônica e das boas!!!Nasci ai em Sampa, mas não conheço quase nada. Hoje moro na Bahia. Mas todas as cidades de qual quer lugar por onde eu tenha passado, passaram por essa transformação. E eu, como sou saudosista, sinto tudo da mesma forma que você...Abraço,

Paula

Silvio A. Neves disse...

Sua postagem me fez lembrar quando eu era criança e ia visitar minha madrinha na Maestro Elias Lobo. Eu ia de bonde com minha mãe, o elétrico descia a Pamplona e fazia ponto final numa praça onde havia uma grande árvore no centro, andavamos um ou dois quarteirões com largas calçadas bem cuidadas e muito arborizadas. Havia uma mercearia perto onde se pediam os mantimentos por telefone e chegavam rapidamente numa bicicleta. São tempos que não voltam mais. Moro no bairro da Saúde e meu filho não pode brincar na rua como eu, porque passam carros a quase 100 por hora embora haja uma placa dizendo máxima 20 por hora. Estamos na era dos computadores, se eu deixar meu filho fica dia e noite no computador e esquece até de comer.
Não sei como, mas sei que temos que fazer alguma coisa por menor que seja para mudar isto.

Anônimo disse...

Putz, você escreve gostoso pra cara...! Confortable reading! Já pensou em um livro com seleções de textos de seu blog? Eu compraria!

Karin disse...

De fato, a nostalgia é sinal que estamos ficando velhos.
Nos ressentimos que nossos filhos não terão a infância que tivemos, assim como nossos pais se ressentiram que não tivemos a deles, assim como nossos avós se ressentiram que nossos pais não tiveram a deles, e assim vai...
Seu filho não vai sentir falta do que ele não teve. Não se preocupe tanto. Seguramente em 2042 ele vai dizer "lembro quando eu era criança e morávamos num apartamento nos Jardins, e minha mãe fazia a melhor sopa de abóbora do mundo, e eu tentava limpar minha mão suja de sopa na cabeça do pobre cachorro, era tudo tão bom!".
O que faz os momentos da infância serem especiais não é o local, mas as situações, as circunstâncias, os cheiros, os gostos e as pessoas... ah, as pessoas!

Flavia disse...

Ana, sinto a mesma coisa em relação a morar na cidade de São Paulo.

Assistindo ao documentário excelente The Weight of the Nation que tem passado na HBO, percebo que o nosso mundo está mudando. A nossa vida é mais artificial, a comida reflete isso e não fomos feitos para ficarmos enfurnados num apartamento, numa cidade que fede fumaça e que não dá vontade de sair de casa. Faltam árvores, falta qualidade de vida e tudo isso em troca de uma comodidade falsa, o preço que pagamos é muito alto.

Isso se reflete na nossa comida e na qualidade de vida que terão as nossas crianças.

Espero que você consiga se mudar para um lugar melhor, que é o que eu e meu marido estamos planejando para nós e nossos futuros filhos.

Falando em futuros filhos, parabéns pela gravidez (acompanho o seu blog há anos, e é a primeira vez que deixo o meu recado, aliás). Boa sorte, te desejo tudo de bom!

cristina disse...

Ah, eu entendo dada vez mais esse sentimento. Tanto pelos moradores como pela própria cidade. Moro perto de Brasília, aquela que já disseram "nem de longe é tão barulhenta quanto SP ou o Rio", mas... temo que em alguns anos não será mais assim. E, na minha cidade, onde já destruíram pequenas cascatas para construir fábricas de cerveja, vejo um trecho de cerrado ser destruído para dar lugar a famigerados condomínios, com prédios tão altos que dá pra ver da cidade vizinha. Penso, com certa tristeza, que em breve aqui será um lugar tão lotado, feio e desorganizado que me dá até vontade de fugir.
Tô quase pensando em fugir pro mato... :S

Anônimo disse...

Bravo, muito bem descrito,eu também estou de saco cheio de tanta babaquiçe,e falta de respeito com a população que não é sazonal nestas areas, eu as vezes tenho vontade e de sumir deste paíspois eu na verdade já estou na terçeira idade ja tenho meus netinhos, fico muito triste por eles.mais pessoas como você tem condições de fazer mudar alguma coisa .boa sorte é o que precisamos bjs. (Didi)

Anônimo disse...

Que crônica maravilhosa...um dia quem sabe seus filhos ou netos poderão vivenciar uma vida melhor eu já passei da idade outonal e tô entrando na do inverno,ainda faço feira e tenho meu açougueiro, e é só, tudo mudou.mais suas crônicas me deu alívio e esperança pois sabes menina que podes mudar alguma coisa Deus abençoe voçê e sua familia.(Didi)

Allex Burger disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
dri disse...

Puxa também sou saudosista, o meu bairro também era assim, temos a mesma idade, e as mesmas saudades, obrigado por descrever tão bem Parabéns.

Bjs

Anônimo disse...

Lindo depoimento, Ana! Deu vontde de chorar... de alegria... e de tristeza... a vida é simples... e "a vida simples é boa"... mas o ser humano na sua (in)capacidade de refletir e agir, acaba virando tudo ao revés... Bjs.

Anônimo disse...

Sou do interior de SP e meu sonho sempre foi morar na capital. Tive meus anos de salto alto, Avenida Paulista, brinquei de executiva. Quando era solteira usufrui a grande oferta de entretenimento que SP oferece. Hoje, casada, duas filhas, não me encaixo mais em SP, e olha que meu bairro é basicamente residencial. Boa sorte na sua procura. Daniela

Anônimo disse...

Ana Elisa, eu morava numa cidade do nordeste, perto da praia e do trabalho. Tudo parecia marailhoso até que não pude mais circular de carro, de ônibus ou a pé com medo de assalto. Morando em Ottawa, no Canadá e andando a pé tranquilamente penso que o paraíso é aqui. Boa sorte e continue escrevendo. Obrigada pelo seu blog!

Anônimo disse...

Excelente seu texto pela capacidade de sintezar a decadência não apenas de um bairro, mas humana. Muitos sentem falta da tradição e de tudo que se perdeu em nome de um certo"progresso". Paulistano por 45 anos, vivo na Granja Viana há 7. Aqui também vemos destruição e decadência. Mas não no mesmo ritmo dos centros urbanos. Ainda durmo com o canto dos grilos e corujas.

Priscila Beneducci disse...

madeleines de alho poro que delicia

Louise Maciel disse...

Querida Ana! Primeiro deixa eu dizer que a-do-ro a maneira como você escreve e se expressa, adoro mesmo. Ah, e adoro as suas receitas (sorte do marido e do filhote! rs). Em relação ao que escreveu sobre seu bairro, fico triste com a sua tristeza. Mas lembre-se de que é possível mudar praticamente tudo na vida, principalmente quando o que lhe deixa triste tem a ver com as pessoas que ama. Fico torcendo pra que a situação se resolva logo... e da melhor maneira pra você e sua amada família.

Marina Maria disse...

Adorei a crônica e mais ainda a sopa: já fiz e repeti essa semana, porque é boa demais... Obrigada pelos seus textos e receitas igualmente deliciosos!

wair de paula disse...

Morei anos nos ardins, na Oscar Freire com Casa Beanca. E teve uma hora que não aguentei mais, comecei a achar tudo formal, barulhento e extremamente caro.. Hoje moro numa cobertura no Morumbi, onde. Tenho todas aservas que preciso para cozinhar, um pe de laranja-lima sempre carregado, um pe de romã que dá excelentes frutos, e um jeito de bairro antigo, com pessoas que se conhecem e se conversam. Mas...e longinho...abraços.

Gabriel Rozin disse...

Ana, estou virando um leitor voraz do seu blog, que merece muitos elogios por ser muito cuidadoso e bem escrito.
Eu e minha esposa nos identificamos totalmente com seu jeito de expressar as agruras de se morar em SP, pois reflete exatamente o que sentimos.
Fora as dificuldades urbanas, tenho uma dúvida a respeito das madeleines: quando fui fazê-las, achei que a massa ficou bastante dura. Tinha a a imagem mental (a a referência da sua foto) que sairia como um bolinho bem fofinho, mas as minhas saíram meio que um biscoito mais denso.
Fora que 15 minutos de forno não foram nem suficientes para tirar o branco da farinha, deixei mais de 30 para ficarem douradas.
São duas xícaras de farinha mesmo?
Achei que com menos farinha (e portanto uma proporção maior de gordura e líquidos) as madeleines ficariam mais leves e cresceriam mais com o bicarbonato.
Mais uma vez parabéns pelo blog!

Ana E.G. Granziera disse...

Gabriel, MIL DESCULPAS! Eram 2 COLHERES DE SOPA! Li o post umas 3 vezes antes de publicar e mesmo assim esse erro passou. :S
Já está corrigido. Tente-as novamente com essa proporção. Espero que você não me xingue muito e que as madeleines-biscoito não tenham arruinado seu jantar.

bjs

Gabriel Rozin disse...

Hahahah....
As Madeleines-biscoito ficaram ótimas! :D
De forma alguma arruinaram nosso jantar. Como deixei um pouco mais no forno, ficaram crocantes e legais de mergulhar na sopa. E ficaram com o gostinho do alho-poró.
Além disso a sopa estava excelente! Adoramos a receita. Gostei muito da estratégia de assar a abóbora antes. Como sobrou um pouco de abóbora, vamos testar agora os muffins!

Muito obrigado pelo retorno!

Denise disse...

Eu fiz com 2 xicaras de farinha!!! Por isso nao ficaram boas...Ta, vou refazer entao! E olha que olhei no site da Donna Hay e tudo e nao notei a diferenca!!! Agora vai! Bjs

André disse...

Ana, você deveria se mudar para uma ecovila! Pesquise sobre o assunto ;)

Lua disse...

Cara Ana,


Boa tarde, quase noite!

Estou vivendo sua antiga angústia nesse exato momento. Minha Olívia tem 7 meses e meio, e morar na Rua Artur de Azevedo, em Pinheiros tem sido uma missão ultimamente. Poderia facilmente trocar todas as palavras Jardins por Pinheiros nesse seu post. E pensei, pensei em Jardins, pensei em Higienópolis, pensei em Araçoiaba da Serra e pensei em São Paulo de novo. Pensei em São Paulo de novo porque não sei dirigir e tenho medo de ficar "presa" dependendo de marido e carro para comprar um tomate.

Queria sua sinceridade, você está curtindo sua saída de SP? Penso nas escolas, nos nossos amigos, no trânsito que marido precisaria enfrentar para ir e vir se nos mudássemos para a Granja, por exemplo.

Não amo SP, sou de Recife e também não gosto de lá. Queria ter uma horta e não um pé de alecrim cinza de tanta poeira. Queria ficar tranquila vendo minha pequena se arrastar e ficar com a roupa suja, mas não de fuligem, queria que meu cachorro não tivesse pânico em cada noite de jogo de futebol ou simplesmente de sair na rua e dar de cara com o terceiro bate estaca dos últimos 3 anos. Queria ter paciência de curtir o que SP tem, mas o preço das coisas e o trânsito triste e violento não me dão animo.

Desabafo, eu sei, mas seria lindo se no mundo tivesse sempre alguém com certeza pra nos dar de presente.

Nesses últimos meses me dediquei exclusivamente a Olívia, uma vez que antes de engravidar tinha uma profissão e quando estava prestes a mudar descobri que a ciabatta estava no forno. Agora volto a cozinha, aos pães e, também, a preocupação com a minha "vida profissional" que um dia terá que se reestabelecer. E como fora de SP? SP expulsa e aprisiona a gente, né?!

P.S. Pergunta esquisita: Você tem o livro "The Kinfolk Table", comprei um e logo em seguida ganhei outro de presente. Se você não tiver posso te dar. Me avise!

Um abraço na família,

Lua

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