sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Muttar Paneer e birra de criança


E quando você tem um blog de culinária há tantos anos que já não se lembra de ter ou não publicado uma receita? Isso acontece com frequência comigo quando se trata de pratos que já preparei várias vezes. Não consegui encontrar no blog nenhuma referência a mutaar paneer, mas se parecer familiar a alguém, considere isso um reforço na minha recomendação. ;)

Adorei o conceito desse prato desde a primeira vez que vi Nigella preparando-o em seu programa de TV, e adorei ainda mais quando o fiz em casa, a primeira, a segunda e a décima oitava vez. É rápido, prático, e costumo ser tendenciosa no meu julgamento de qualquer coisa que tenha sotaque indiano.

Thomas, que desde as papinhas come temperos fortes como curries e pimentas, não estranhou. Comeu metade do prato com gosto, mas depois fez birra e não quis sobremesa. Simplesmente tirei o prato dele, lavei suas mãozinhas e deixei que saísse para brincar. Sem estresse.

O que me fez lembrar de quando ele fez birra a primeira vez. E como fiquei maluca com isso. O choro histérico (de mãe e filho), a comida no chão, a colher voando longe, e eu sem entender por que diabos meu filho recusava algo que até o dia anterior ele comera com gosto.

Isso passou.

Não a birra. O drama.

Birras existem e sempre vão existir. Um dia, é sono. Esse é fácil de reconhecer: não quer comer (nem mesmo a favorita e irrecusável banana), não quer beber água, no colo está ruim, no chão está pior. Chupeta e berço. Resolvido. Come um lanche reforçado quando acordar.

Noutro dia, é o dente. Qualquer comida que ofereça a menor resistência machuca. Irrita. Não quer comer, não quer colo e colocar no berço achando que é sono piora as coisas. Choro incessante. Pura histeria. Sofá e desenho. Distrai da dor. Resolvido. Mamãe faz um arrozinho com tomate, bem molinho, gostoso e fácil de comer, de jantar.

Num terceiro dia, é simplesmente falta de apetite. Porque adulto às vezes está sem fome, e olha para a comida e não quer nada. Tem dia em que ele comeu meio pãozinho a mais no café da manhã e na hora do almoço não tem fome. Brinca com o garfo, tira a comida do prato e coloca na bandeja do cadeirão, aperta nos dedos, bota de volta no prato. Comer, nada. Dois bocadinhos, se tudo isso. Ele se diverte, mas não come nada. Sem drama. Tira o prato, deixa a criança sair pra brincar. Lanchinho reforçado depois. Resolvido.

Às vezes, pelo meio da refeição, a birra vem. Brincadeira com a comida, garfo jogado no chão, prato virado ao contrário. Não é sono, não é dente, não é falta de apetite. É frustração. Frustração porque quer comer sozinho mas a mãe não está deixando, ou frustração porque quer comer sozinho mas suas habilidades ainda são parcas e dá muito trabalho colocar o arroz na colher e a colher na boca sem derrubar tudo pelo caminho. Nessa hora, pergunto: "posso ajudar?", e tento pegar o garfo da mãozinha dele. Se ele deixar, ele come ainda boas garfadas com mamãe ajudando.

Ou, para distrair da brincadeira da comida, de fazer montanha com purê de batata, basta um copo d'água. E, saciada a sede, ele volta a comer.

Ninguém está morrendo de fome, ninguém está desnutrido, ninguém deixa de comer a coisa certa na hora certa. Mas, principalmente, ninguém está estressado: nem mãe nem criança.

Normalmente, a não ser que o atirador de garfos tenha feito muita porcaria com sua comida, simplesmente guardo o pratinho na geladeira e dou de novo no jantar. Quase sempre ele come aquilo que ele recusou no almoço. Principalmente se eu, espertalhona, jogar algumas uvas-passas no meio (que o bicho adora) para abrir-lhe o apetite.

Então deixo aqui essas duas dicas. Claro, nem toda criança é igual. Mas birra de criança na hora de comer irrita qualquer mãe. Se você começou a lidar com isso pela primeira vez, a primeira dica: não estresse. Quanto mais irritada você ficar, mais a criança vai captar essa irritação e responder a ela. Não quer comer, não come. Come depois. Come amanhã. De modo geral, criança com fome come. A não ser que ela esteja incomodada com outra coisa (sono, dente, fralda cheia, etc...) ou que a comida seja difícil de ela comer (alface para quem não tem molares, por exemplo). Thomas detestava feijão quando menor, porque não conseguia triturar a casca do feijão e se engasgava. Hoje come qualquer tipo. Ainda não é fã de grão-de-bico, que é mais firme. Num dia ficou irritado por não conseguir comer milho. Na semana seguinte, andava por aí com a espiga na mão, metendo-lhe os dentinhos.

E sim, no dia seguinte, Thomas comeu todo o seu mutaar paneer.

E a segunda dica é: faça muttar paneer. Já fiz duas versões: a de um livro indiano, com mais ingredientes e etapas, e a versão adaptada da Nigella, que eu, no meu direito, adapto também. Como nunca tenho extrato de tomate, uso um ou dois tomates de alguma lata que eu tenho aberto. Nunca uso caldo de legumes, não precisa, o prato já é saboroso só com água. E uso queijo-coalho no lugar do indiano paneer, sempre com sucesso. Aliás, ele é ótimo para substituir o grego haloumi também. Não é a mesma coisa, mas tenho um amigo que fazia o inverso: morando em Londres, desejando queijo-coalho, usava o haloumi no lugar.

MUTTAR PANEER
(Adaptado do livro Feast, de Nigella Lawson)
Rendimento: 4 porções

Ingredientes:
  • 250g queijo coalho (retire os palitos, se houver, e corte em cubos pequenos)
  • 1 cebola, picada
  • 2 dentes de alho, picados
  • Gengibre fresco (cerca de 2,5cm), descascado e picado
  • 1 colh. (chá) garam masala ou curry em pó
  • 1 colh. (chá) cúrcuma
  • 350g ervilha congelada
  • 1 tomate fresco bem maduro picado ou retirado de uma lata
  • 250ml água
  • óleo vegetal

Preparo:
  1. Aqueça um fio de óleo numa frigideira ou panela grande. Doure o queijo no óleo, tomando cuidado, pois pode espirrar um pouco na hora de virar os cubinhos. Retire os queijos dourados com uma escumadeira e reserve. 
  2. No mesmo óleo (acrescente mais um fio, se precisar), refogue a cebola, o alho e o gengibre até que fiquem macios. Tempere com um pouco de sal e junte o garam masala e a cúrcuma. Mexa bem, deixando os temperos tostarem um pouco no óleo, por 1-2 minutos.
  3. Junte as ervilhas, mexa, e junte o tomate e a água, amassando o tomate com a colher e mexendo bem. Abaixe o fogo e deixe apurar por uns cinco minutos, até que a água tenha reduzido bem e formado um molhinho grosso, uns cinco minutos. 
  4. Desligue o fogo e junte o queijo reservado. Sirva com arroz. Delicioso com arroz integral. (Transformado em purê, com o arroz, fica uma ótima papinha.)

18 comentários:

Ridjo! disse...

Curioso, Ana! Parece mesmo que todas as mães são iguais: nos desesperamos com algo tão simples. E, ao invés de mantermos o controle, afinal somos nós as adultas, nos igualamos no quesito descontrole quando os pequenos se descontrolam em sua birra e nós é que passamos por louca.

Beijinho para você e para o pequeno deus viking, linda ( e como vai o pimpolho guardadinho?.

Meire

Top Cuisine avec Lavi disse...

Looks great! Love your blog!

CRISTIANE LARA disse...

Que coisas mais fofas : Seu filho, as mãozinhas gordinhas, o pratinho dele e a receita que você fez. Adorei !

Suzy disse...

Lindo texto! O estresse com a refeição das crianças é 90% de quem oferece. Parabéns!
beijo,

Livia Luzete disse...

Aiii qual mãe nunca sofreu com essas birras por não comer?? Com meu primeiro filho,era engraçado ele só não conseguia comer folhas,pq elas grudavam no céu da boca. Mas sempre tentava. já a pequena...quem sofreu na verdade era minha mãe, quem ficava com ela para eu trabalhar. E eu dizia isso, que se ela não queria comer naquela hora o pratão de estivador que minha mãe insistia,ela comeria depois.

Ain mãosinhas mais fofas literalmente...rsrs

Beijos a todos e como estamos de barriga?

Mariana Durant disse...

Ah, que legal! Sempre ouvi histórias da minha mãe estressada com nossas faltas de apetite e meu pai, que é médico, sempre dizia que criança não morre de fome tendo comida!
Ahh... moro na Alemanha e também uso halumi pra substituir o queijo de coalho, ajuda a matar a saudade!

beijos

lili disse...

Parabéns pelo equilibrio!Quando meus filhos eram pequenos eu chegava a preparar 2 ou 3 refeições diferentes e empurrava comida até que o prato ficasse limpo.Não sei como, hoje são adultos que comem de tudo sem frescura.Deus protege as crianças demães insanas!

Idb disse...

Um primo indiano do baião-de-dois! :-)

Cynthia Nogueira disse...

Oi Ana,
Tem dias que quero vir aqui e dizer um montão de coisas, sobre receitas, sobre churrasqueira e legumes e sobre crianças, mas o tempo não está sobrando. Sua dica sobre essas birras alimentícias de criança foram ótimas. Deixei de lado as regras da pediatra, lancei mão de todos os sabores e cores que tinha e deixei que ele se divertisse com a comida. Agora ele come bem melhor, já come vegetais e aceitou bem o desmame. No caso do meu bebê foi necessário desmamar antes de 02 anos porque ele trocava a comida pela mamada.
Quanto a legumes e churrasqueira, vi que você comentou sobre a dificuldade de ir adaptando e produzir vegetais assados na brasa. Eu faço sempre com papel alumínio alguns pratos, outros faço na grelha mesmo, mas sempre com o fogo já mais baixo. Por exemplo, ao assar cebola recheada com cogumelos, eu envolvo em papel alumínio e coloco no meio da brasa, ou melhor, mais ao canto, assim ela assa rapidamente e chega desfolha (isso existe pra cebola?). Abobrinhas, beringelas e tomates marinados no balsâmico, mel, pimenta moída e mostarda, direto na grelha e fogo baixo. Caramelizam que é uma beleza e ficam divinos com pães rústicos. Batatas no papel alumínio também na brasa (mesmo esquema da cebola) e recheadas com portobelo e cream cheese....hum.!!!! Enfim, quando eu comia carne eu era o "churrasqueiro" aqui em casa e procurei transferir a mesma habilidade que demonstrava com a picanha para os meus vegetais. E, para terminar, não sei se foi no seu blog que eu vi uma receita de legumes ao curry, mas eu fiz e vou te contar uma coisa....ah, dieta...passei longe!

Priscila disse...

Oi Ana,

Nada a ver com esse post, mas preciso da sua ajuda!

Acabei de comprar uma máquina de sorvete e para a estréia fiz o seu sorvete de chocolate (do post sorvete de chocolate + Jane Austin). Logo que eu tirei da máquina ele estava maravilhoso, com textura de um verdadeiro gelato italiano.
Coloquei no pote e no congelador. NO dia seguinte foi comer e tive uma grande decepção: o sorvete estava duro feito pedra e tive que esperar mais de 20min para conseguir (com dificuldade) tirar uma bolinha.

Isso é normal???

The Red Death disse...

Senti inveja do teu pequenino... Bateu uma senhora vontade de experimentar esse troço. Filhote de sorte :)

Anônimo disse...

Hummmm... delícia! Vc usa ervilhas congeladas? Alguma marca em especial. Uma vez minha mãe comprou ervilhas na fava e ficamos uma semana debulhando ervilhas e ajudando ela a preparar e congelar para o ano todo! Frescas são uma delícia, mas de lata, ninguém merece mesmo, nojento! bjs
Mariane www.tresfilhosdefrancisco.wordpress.com

Anna disse...

Ana, imprimi esse post e coloquei na porta da geladeira. Só para lembrar de manter a sanidade na hora da refeição. E de fazer paneer, coisa da qual sinto saudade.

baudavoeli disse...

Minha filha e sua "gangue" vieram almoçar aqui em casa hoje...
Qdo ela me disse que tinha visto uma receita no La Cucinetta, eu disse a ela que acabara de comprar o o único ingrediente que não tinha em casa: queijo coalho!!!
Para surprêsa dela, eu já havia até copiado a receita do Muttar Paneer no celular!!!! Foi muito engraçado, e muito maravilhoso o resultado!!!! Um prato perfumado, forte e suave ao mesmo tempo! E além de ser pelos adultos, foi aprovado pelas meninas de 5 e 2 anos de idade. Para o "rapaz"de um aninho, tinha sopa. Mas estou certa que ele também comeria com gosto!!! PArabéns e obrigada pela receita!!!
Eli Mariana

Camila disse...

Ana, fiz o Muttar ontem, com ervilhas frescas e brócolis (tinha apenas 150g de ervilhas) e ADOREI. Que delícia! Vai entrar pro repertório aqui de casa. E queria dizer que você é a minha maior inspiração pra comer bem - emagreci 10kg nos últimos 4 meses e sempre passo pelo teu blog em busca de novas receitas.
Beijos e obrigada por compartilhar receitas tão gostosas!

Patricia Scarpin disse...

Sempre usei queijo-coalho no lugar de haloumi depois de uma dica da Valentina e quando estive lá em Londres e provei o danado vi que são realmente parecidos (fazem aquele barulho de pneu derrapando ao serem mordidos).
Já vi a Nigella preparando esta receita mas nunca provei, que vontade deu agora, Ana!
Thomas está cada dia mais lindo e sapeca. E danaducho. Saudade.
Beijo pra vcs dois.

Erika da Mata disse...

Oi Ana! Adoro seu blog, vc, como eu, faz uma comida sem carnes de ótima qualidade! E eu, que não tenho nada contra PTS, aprendo com vc (dentre bilhões de outras coisas) a substituir a carne por outros ingredientes, como acredito que seja este o caso (o queijo coalho era um frango, right?). Enfim, apesar de gostar de comida indiana, nunca tinha feito em casa e este prato foi uma grata surpresa! Meu almoço foi bem gostoso :)
Vou postar a receita futuramente no meu blog (opicnic.blogspot.com.br), colocando o link, é claro. Aliás, não se surpreenda se encontrar mais links para o seu blog por lá hehehehe faço muitas receitas suas :)

Beijão!

Victória disse...

Mas que trem bom!! Amei! Para repetir muitas vezes mesmo!
Obrigada, La Cucinetta!

Cozinhe isso também!

Related Posts with Thumbnails