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terça-feira, 19 de janeiro de 2021

A escola subiu no telhado. Mais biscotti e amaretti.

O ano 2021 começou com aquela cara de que 2020 esqueceu de acabar. É aquele filme chato da Sessão da Tarde que repete sempre e você não entende como é que alguém continua escolhendo essa porcaria pra passar de novo e de novo. Aí eu me pego pensando como meus filhos, geração Netflix, jamais entenderão essa referência. Mas a vida segue. Chatice por chatice, os dias passam.

Quando a escola online voltou, confesso, sem vergonha nenhuma, que surtei na batatinha. Com marido na masmorra-office, esse trabalho de escritório acorrentado a reuniões sem fim na escrivaninha do nosso quarto a portas fechadas, sobrou para mim e meu "horário flexível" gerenciar a educação da pimpolhada.

Na primeira quarentena (e quanto escrevo "primeira", tenho um pensamento lúgubre da ordem de grandeza das quarentenas pelas quais ainda vamos passar), acabei pegando o jeito de manejar as atividades da escola com alguma leveza. As crianças não eram obrigadas a entrar em reuniões e podiam fazer suas lições (que eram poucas), nos horários que lhes conviessem. Foi a rigidez da escola, desta vez, que me pegou no pulo. Porque se tem uma coisa que eu aprendi que me tira do sério rapidinho é rotina rígida.

Sim, que alegria descobrir isso agora. Vontade de apanhar uma máquina do tempo e avisar à mulher que eu fui dos trinta aos quarenta anos que tudo aquilo que eu complicava era fácil de resolver. 

Descobri que as crianças teriam de participar da escola online nos mesmos moldes do que anda acontecendo desde março na escola brasileira. Ou seja, teriam de passar o dia em frente à tela do computador, das 8:45 às 3:25, com pequenas pausas para o lanche. À parte o absurdo de manter uma criança por tanto tempo em frente a uma tela, como se fosse um plano malvado para acostumá-la rápido ao cubículo que a aguarda em sua futura vida profissional, meu surto foi provocado pelo fato de não termos computadores o bastante na casa para que as crianças se mantivessem online simultaneamente.

A primeira semana foi, portanto, um imenso exercício de gerenciamento. Meu laptop foi dominado por meus filhos. Eu entrava no Google Classroom de ambos de manhã cedo, e decidia que aulas eram mais importantes para cada um, quais poderiam ser perdidas sem prejuízo, e passava meu dia brincando de dança das cadeiras com os dois, enquanto tentava me comunicar com as professoras para explicar suas ausências intermitentes, resolvia problemas de TI, ensinava Laura a usar o computador de forma independente, impedia que Thomas começasse a desenhar no meio da explicação da lição, fazia almoço e jantar, lavava roupa, e tentava planejar o lançamento do meu livro, escrevia textos para o blog pelo celular, e pensava no aniversário da Laura que estava chegando. Quando finalmente o horário da escola terminava, eu precisava sentar com cada um deles para ajudá-los a terminar as atividades da escola que tinham prazo de entrega.

Delícia. Mas era só por uma semana, disse o governo. Eu aguento uma semana. 

Só que não foi. Um dia antes da escola reabrir, veio a notícia de que a quarentena se estenderia por mais quinze dias. Naquele mesmo dia, meu pé voltara a doer depois de um treino de corrida. E a perspectiva de minha fascite plantar retornar, unida à constatação da permanência da escola online, fez com que eu sentasse à noite na minha poltrona amarela e chorasse com tanta força, que não achei que conseguiria parar.

Allex então resolveu trabalhar na sala, usando o minúsculo e defasado laptop da empresa, e montou nossa câmera fotográfica num tripé ao lado do desktop para servir de webcam, de modo que Thomas pudesse participar o dia todo de sua aula no meu quarto, enquanto Laura usava meu laptop na minha escrivaninha. Nesses dias, eu tive de apanhar meu celular e tentar trabalhar sentada na cama do beliche das crianças, pois o quarto delas era o único aposento (fora o banheiro) que não soava como uma central telefônica de um escritório dos anos 50. 

Para apaziguar os nervos e a ansiedade por ter trabalho para fazer e nenhum laptop para usar, enfiei-me na cozinha como não fazia desde que saí do Brasil. Pão, bolo, torta, biscoito.Pão, bolo, torta, biscoito. Biscoito, biscoito, biscoito. Biscotti integral e amaretti que adoçaram os lanches das crianças e o espresso dos adultos. O "stress cooking" aos poucos virou uma cozinha relaxada, e, pelo menos por um tempo, o método funcionou.


Tudo bem, tudo bem, eu dizia. São só mais duas semanas, eu  aguento. As férias que queria ter tido no fm de ano e que não tive por conta do lançamento do livro, poderia ter agora. Passaria meus dias lendo na minha poltrona e cozinhando, ficando à disposição da pimpolhada, e tudo correria bem. Em quinze dias eu voltaria a trabalhar, sem problemas.

Comecei a notar uma conexão entre meu nível de estresse e a dor no pé. Nos dias em que aceitei as coisas como eram, e tentei relaxar, curiosamente, corri 5km por dia sem uma única dor no calcanhar.

Tudo ia bem.

Até descobrir que as crianças haviam passado um dia inteiro vendo desenhos nos computadores, ao invés de participarem das aulas que estavam deslocando e dificultando tanto meu trabalho quanto o de Allex.

Voltamos tudo para o lugar. Allex voltou à masmorra, e as crianças retornaram à sala. Combinei com os professores que Thomas estaria presente de manhã, e Laura à tarde, e um brincaria enquanto o outro estudava, e depois eu sentaria para ajudá-los com as lições. Percebemos que os dois andavam com dificuldades em algumas matérias, e que sua dificuldade tinha mais a ver com resiliência e paciência do que entendimento. Era uma mera questão de repetir um pouco alguns exercícios até criar confiança. Quando fomos sentar para ajudá-los, nos demos conta de que eles não tinham nenhum material de referência onde pudessem revisar as teorias. Toda  matéria é dada oralmente pela professora e todos os exercícios são fotocópias de apostilas anexadas à pasta individual de cada aluno. 

Eu, que sou a louca dos livros de referência e fico comprando para os dois livros sobre botânica, evolução e espaço, fiquei chocada ao me dar conta de que as criança não tinham como estudar de forma independente o que aprendiam na escola. 

Em tempo:eu me importo muito pouco se eles tiram 5 ou 10 na escola. O que me importa é que eles, confrontados com uma questão, saibam pesquisar e resolver seus problemas de forma independente. Saber aprender e saber estudar, ou seja, "juntar lé com cré", é a habilidade que eu quero que eles levem para a vida. E não um monte de informação decorada para passar de ano. 

Além disso, os dois morrem de preguiça de escrever (casa de ferreiro), e passar quinze minutos catando milho num teclado para produzir uma única frase não estava ajudando em nada. O que eles precisavam praticar precisava sem feito com lápis e papel.

Assim, compramos livros de Kumon com o conteúdo canadense de segunda e quarta série para que eles praticassem escrita e resolução de problemas. Mas Ana! Já tem tanta coisa na escola! Tem nada. Em três semanas, eles não fizeram uma única redação. A aula tem se resumido a assistir videos de you-tube e resolver problemas em aplicativos. Mas a maior parte do tempo é usada para esperar todas as trinta crianças resolverem problemas técnicos. 

Meus filhos reclamam o tempo todo que tudo o que se faz em aula é conversar, e eles mesmos já perceberam que seus dias estão passando e seu tempo não está sendo bem aproveitado.

Livros comprados. Enquanto um participava da escola online, o outro fazia alguma lição de redação, multiplicação ou problemas com palavras (compreensão de texto). Menos tempo em tela, mais tempo de fato usando o cérebro e criando coordenação motora fina. Eu continuava sem conseguir trabalhar direito, mas ao menos os dias começaram a ficar mais calmos em torno da escola e as crianças mostraram progresso rápido com suas dificuldades iniciais. 

Veio o lançamento do livro, que não foi meu sonhado evento numa livraria, mas foi um papo gostoso numa live de Instagram. Tempos estranhos. Agora preciso sentar e assinar aqueles autógrafos e dedicatórias e enviar tudo antes que o governo suspenda o correio para o Brasil outra vez. Se é que já não suspendeu.


Passado o lançamento, senti um alívio de missão cumprida, e continuei usando a cozinha e a leitura como meios de manter a cabeça em ordem e ter paciência com todos os pequenos perrengues da escola online. Laura havia pedido, para seu aniversário, um bolo de chocolate com menta, que ela mesma decoraria, e beijinhos de coco, que ela prefere a brigadeiros, apesar de detestar coco em qualquer outra forma. "De café da manhã eu quero waffles, de almoço, hambúrguer, e de jantar, banquete", disse ela, e usei meus dias para organizar a bagunça toda. "Banquete"' é como ela chama, desde pequerrucha, uma mesa cheia de acepipes diferentes. 

 

Ela preparou sozinha seu bolo de chocolate, aquele já super batido da Alice Medrich, e me ajudou a fazer a cobertura: o vanilla buttercream do mesmo livro da Alice, mas cuja baunilha eu troquei por extrato natural de menta. Ficou exultante quando encontrei corante natural à base de plantas e eu ri dos seus pulos de alegria ao ver a cobertura se tornando verde. Vi minha menina gigante de 8 anos escrevendo o próprio nome no bolo com um sorriso daquele tão largo, que faz chorar.   

Foi um aniversário em casa, isolado do resto do mundo, com balões e coroa de rainha, com competições de tiro com o arco e flecha que ela ganhou de presente, e um filme em família que ela escolheu. Ela foi dormir feliz e exausta, dizendo como seu aniversário havia sido perfeito. E me dei conta da sorte que tenho, de poder ver meus filhos felizes no meio do desastre mundial que estão sendo esses tempos.

Então o governo, que é fã daquela piada velha do gato que subiu no telhado, resolveu estender o fechamento das escolas em mais um tanto. E a gente, que não é bobo nem nada, entendeu rápido que 2021 pode ser reprise de 2020 e resolveu criar soluções mais permanentes. Apesar de termos evitado isso até hoje com furor, compramos dois tablets para que eles possam participar das aulas de forma independente mas simultânea, e organizar seu tempo para fazer os trabalhos da escola e os livros de exercícios. E essa é a primeira vez no ano em que estou sentada na sala, em horário comercial, escrevendo. 

Os dias passam. Durante aquele surto na primeira semana de escola, ouvi minha boca dizer, em tom de autocomiseração: "Eu quero minha vida de volta!". Ao que Allex me olhou, sério mas sem julgamento, e disse: "Essa É sua vida."

Scataplaft!

Os dias passam. Depois daquele choro, decidi que não me deixaria irritar, como quem decide não comer glúten. Decidi que aceitaria as coisas como são. E que dentro das circunstâncias, tentaria relaxar e me divertir. Decidi que não lutaria mais contra esse momento inevitável de dar uma tela na mão de cada criança. 

Eles acertam o timmer do fogão para tocar feito sino da escola, e eu saio para correr depois do café. Quando volto, cansada mas sem dor, estão cada um de um lado da mesa de jantar, com seus tablets e fones, ouvindo os professores e fazendo suas lições. Tomo um banho sem pressa, dou um beijo no marido na masmorra-office, e, com uma xícara de chá, abro meu laptop e me junto ao silêncio do trabalho dos meus filhos. 

"Quando vocês terminarem, vamos ao parque brincar um pouco", eu digo.

Os dias passam.Tranquilos.

....


BISCOTTI INTEGRAL DE AMÊNDOAS

(do livro  Chooey Gooey Crispy Crunchy, da Alice Medrich)

Rendimento: 25 a 30 biscotti

Ingredientes:

  • 2 xic. (250g) farinha de trigo integral
  • 1 colh (chá) fermento químico em pó
  • 2/3xic açúcar mascavo apertado na xícara
  • 1/4 xic. óleo vegetal (usei azeite de oliva) ou 4 colh. (sopa) manteiga, derretida
  • 2 ovos grandes
  • 1/4 colh (chá) sal
  • 1 colh (chá) extrato de baunilha
  • 1 xic. amêndoas com pele, picadas grosseiramente

Preparo:

  1. Preaqueça o forno a 160oC. Posicione a grade no meio do forno. Reserve uma assadeira grande,forrada de papel-manteiga ou untada.
  2. Misture a farinha e o bicarbonato numa tigela e reserve. 
  3. Na tigela da batedeira, bata o açúcar, óleo (ou manteiga), ovos, sal e baunilha, por 2 ou 3 minutos, até que esteja espesso e claro.
  4. Junte a farinha e as amêndoas, e misture com uma espátula até que a farinha fique toda umedecida. A massa deve ser consistente e grudenta. 
  5. Com a ajuda de uma espátula, passe a massa para a assadeira preparada e espalhe, formando um retângulo grosseiro de mais ou menos 12x45cm. 
  6. Asse por 30-35 minutos, até que a massa tenha inflado e esteja firme, mas elástica ao ser tocada com a ponta do dedo. Gire a assadeira no meio do cozimento.
  7. Deixe a asssadeira com a massa esfriar por quinze minutos sobre uma grade. Deixe o forno ligado, mas abaixe para 150oC. 
  8. Transfira a massa para uma tábua de corte e, com uma faca serrilhada, corte a massa na largura em fatias de 1cm. 
  9. Transfira as fatias para a assadeira, agora sem papel-manteiga, deixando ao menos 1cm entre elas. Use duas assadeiras, se necessário, movendo as grades do forno para a parte superior e inferior. Nesse caso, troque as assadeiras de lugar no meio do cozimento. Asse por 20-25 minutos, ou até que as beiradas do biscoito fiquem douradas. 
  10. Deixe a assadeira com os biscoitos esfriando sobre uma grade. Deixe que esfriem completamente antes de guardar os biscoitos, mas guarde-os assim que esfriarem, num pote hermético,para que não percam a crocância. 

Observação: se seu forno não for elétrico, ou ele não mantiver temperaturas abaixo de 180oC (o meu do Brasil não assava nada abaixo dessa temperatura), fique atento ao tempo e cozimento, que será menor nas duas fases. Na segunda fase, você pode segurar a porta do forno entreaberta com uma colher de madeira, para que a temperatura fique mais baixa.

...

 

AMARETTI

(do livro  Chooey Gooey Crispy Crunchy, da Alice Medrich)

Rendimento: cerca de 90 amaretti (mas eles duram para sempre num pote fechado)

Ingredientes:

  • 1 3/4 xic. amêndoas sem pele
  • 2 xic.açúcar (usei o cristal orgânico) + 1/2 xíc. para usar num segundo momento
  • 1/2 xic. claras de ovo (de cerca de 4 ovos), em temperatura ambiente
  • 1/4 colh (chá) cremor tártaro (cremor tártaro é um ácido em pó, que, nesse caso, é usado para estabilizar as claras. Você pode substituir por 1 colh(chá) de suco de limão ou vinagre. Eu usei limão).
  • 2 colh. (chá) de extrato NATURAL de amêndoas (se você usar essência artificial, use metade)

Preparo:

  1. Preaqueça o forno a 150oC. (Se seu forno não mantém temperatura abaixo de 180oC, deixe a porta entreaberta com a ajuda de uma colher de pau, que era como minha avó fazia suspiro.) Posicione as grades nas partes superior e inferior do forno. Forre duas assadeiras grandes com papel-manteiga.
  2. Junte as amêndoas e a primeira quantidade de açúcar num processador. Pulse várias vezes, até que estejam finamente moídas, como uma farinha, mas com cuidado para não transformar numa pasta. (Se você mesmo tiver branqueado as amêndoas para tirar a pele, tenha certeza de que elas estão BEM secas antes de usar. Caso você não tenha um processador, use 225g de farinha de amêndoas comprada pronta. Mas talvez o sabor não seja tão intenso.)
  3. Numa tigela separada, bata, com um fouet ou batedeira, as claras de ovo e o cremor tártaro (ou limão) até que picos suaves se formem quando o batedor for levantado. 
  4. Junte o extrato de amêndoas, e continue a bater, acrescentando aos poucos aquela 1/2 xic de açúcar separado, até que as claras fiquem bem fofas, firmes e comecem a perder o brilho. 
  5. Derrame a mistura de amêndoas sobre as claras, e incorpore rápida mas delicadamente com uma espátula, puxando de baixo para cima e girando a tigela. 
  6. Passe a mistura para um saco de confeitar com bico de 1cm, ou faça como eu fiz: coloque um ziplock dentro de uma jarra, com uma das pontas inferiores para baixo. Abra as beiradas do ziplock por cima das beiradas da jarra, como quem coloca um saco plástico no lixo da cozinha. Usa uma espátula para transferir toda a massa para o ziplock, acomodando a massa até a ponta no fundo da jarra. Então desdobre as beiradas, dê uns chacoalhões para que a massa desça toda para o fundo, e torça a parte de cima do saco, até que a massa esteja bem apertadinha em direção à ponta do saco. Agora pegue uma tesoura e corte a pontinha do saco. Um corte pequeninnho.Faça montinhos de massa de cerca de 2cm de altura, deixando os montinhos uns 2,5cm de distância um do outro. Caso você não queira usar o método do ziplock, use uma colher para transferir montinhos de 15ml (1 colh. sopa) mantendo a distância de 2,5cm entre eles. Enquanto as primeiras duas assadeiras estiverem assando, vá fazendo mais montinhos em outras folhas de papel-manteiga. Na hora de assá-los, apenas puxe o papel para que escorrreguem para cima da assadeira vazia. Se os montinhos tiverem biquinhos, molhe a ponta do dedo e alise-os, para que fiquem mais arredondados. 
  7. Asse os amaretti por 30 a 35 minutos, até que os biscoitos estejam ligeiramente dourados, como um suspiro que ficou tempo demais no forno. Para que assem por igual, troque a posição das assadeiras no meio do cozimento. Deixe as assadeiras com os biscoitos sobre grades para que esfriem antes de guardá-los. Repita o processo com o restante dos biscoitos. Se guardados em potes herméticos, os amaretti duram várias semanas.


terça-feira, 25 de agosto de 2020

Pequenas vidas independentes, e um pão com fubá


 

Despertei, devagar, como quem ainda quer manter a mente fechada nos sonhos um pouco mais, ao som de pequenos passos cuidadosos. Um barulhinho que põe mãe em pé e alerta feito soldado em guerra, buscando proteger uma inocência largada à solidão de uma casa sem vigias. Fora assim um dia. Muitos dias. Anos. Mas não mais. Aninhei-me contra o travesseiro cheirando à noite de verão e lavanda, tentando não me mover muito, embalando aquele sono enquanto ouvia pezinhos tocando o chão com a inútil intenção de silêncio. Mal sabem aqueles dedinhos que coração de mãe desperta antes da mente dos filhos. Inspirei fundo e acompanhei na rabeta de meus sonhos aqueles pés deixando o quarto. O som da porta se fechando, cuidadosamente, uma mãozinha amparando a porta para o trinco rolar devagar. 

Rodo o corpo para outro lado, apegando-me aos lençóis, olhando outros ombros largos e adormecidos ali naquele escuro artificial de listras azuis claras. É dia de verão há muito lá fora, apesar das horas pequenas. Os passinhos levam ao banheiro. Ergo a testa do travesseiro para escutar melhor. Barulho de água na pia e sabão. Relaxo.Pontas de pé se distanciam até a cozinha. As janelas fechadas prendem o silêncio dentro, e ouço sua respiração e a minha quando a redoma de vidro da boleira é aberta e repousada com impressionante delicadeza na bancada. A faca saída do cepo assobia em lábios secos. Tento lembrar um sonho bom ao ritmo gostoso do rosnar na faca no pão. Crosta grossa de pão, quebradiça e crocante, faz barulho que enche a boca de vontade. Suspiro um suspiro bocejado, acalmando a fome com uma dose deliciosa de preguiça, esticando as pernas sob o lençol amassado e flexionando os pés devagar, deixando as pontas dos dedos alongarem a base da coluna. 

A faca espalha o cheiro da manteiga como quem sopra um dente-de-leão. Fresca e fria, lembra flor, lembra capim verde sob o vento de verão. Já não posso ignorar os ruídos do dia novo quando ele liga a cafeteira, iniciando uma música de motores e águas que já sei de cor. A máquina chia, raspa, escarra, borbulha e derrama, e um vapor doce de leite quente dança até o quarto.  

O deslizar da gaveta de panelas nos trilhos me faz abrir os olhos. O teto, olhado assim, sem foco, era infinito. Metais escorregando uns sobre os outros, e o ar vibra a tensão de braços infantis tentando evitar o clangor do choque das panelas. Gaveta fechada, metal sobre vidro, o estalo suave do botão do fogão, e o whooomph-pop confortável da borracha que se amassa e solta o vácuo quando a porta da geladeira é aberta. 

Manteiga que derrete é avelã no sol, banho quente e abraço. Toc, toc, crack. Meu coração dá um pequeno pulo de ansiedade e alegria ao quebrar do ovo, como sempre acontece àquele exemplo tão maravilhoso de intrepidez e firmeza de caráter que se adquire na primeira vez em que se aprende a quebrar a casca de um ovo sem que seu conteúdo fuja apavorado. 

Borbulha, espirra, estala. 

A porta do quarto se abre, sem cuidado, e pezinhos firmes atravessam um corpo esguio e determinado pelo vão da minha porta até a sala. 

Bom dia, Thomas!, mia uma gata em forma humana, entre sons guturais de membros espreguiçados e alongados.Espreguiço também meu corpo, meus braços, e jogo as mãos para trás da cabeça, esperando um drink na praia, sob o sol das duas. 

A cozinha agora é um jazz progressivo de tampas de panela e espátulas, carícias de faca em carne de fruta, batida de lâmina na tábua, o jogo batucado da madeira no azulejo quando pés se equilibram sobre o banco, abrir e fechar de portas e louças que raspam e riscam. A torradeira solta e salta feito caixa e chimbau.

A música acaba e há um quase silêncio de instrumentos sendo afinados, do saborear das palmas da plateia. Quando a música recomeça, é breve e aguda. Um tilintar de talheres sobre louças como sinos, uma torneira aberta como quem pede um silêncio incomodado, e então os músicos saem do palco, seus passos abafados pelo tapete da sala. 

É o fim do espetáculo. 

Viro o pescoço mais uma vez para olhar o relógio. Ele grita sete horas em números cor de laranja, e, sem paciência para argumentar com partes eletrônicas que não têm maturidade emocional, levanto num pulo. São os meus passos, agora, adultos e pesados, que se espalham. Espalha um amor quente no peito, também, quando olho a sala. Dois corpos infantis aninhados no sofá, um de roupas, outro com a metade dos pijamas, rostos tão enfiados em livros do Asterix, que mal notam minha presença. Fico ali ouvindo um pouco suas vidas, uma assombração deliciada com a delicadeza do mundo. A mesa está limpa, a louça na pia. Há migalhas e caroços de pêssego sobre a tábua onde jazem as facas sujas. Prova do crime de uma vida independente. 

Bom dia, eu digo.

Bom dia, eles respondem.

Dou-lhes um beijo.Ganho um abraço. Bom dia começa com alegria, bom dia começa com amor, canta um deles.

Quer um café, mamãe? 

Eu faço o meu, obrigada. Mas pode fazer o do papai enquanto eu coloco uma música. 

Tá bom. 

Coloca aquela música que eu gosto? Café quente. Me conta o que você sonhou. Janelas abertas. 

Apanho o pão na boleira. 

Eita! Vocês comeram quase metade do pão!

É que tava muito gostoso, mamãe.

Que bom. 

Que bom. 

...

 

 

Tem sido difícil preparar pães de outra forma que não deixando que fermentem durante a noite. É simplesmente muito prático, e o resultado fica excelente. O pão básico de sempre, mas com apenas 1/4colh(chá) de fermento. Deixado fermentar durante a noite. Moldado de manhã cedo e deixado fermentar apenas enquanto a panela esquenta no forno alto. Pão na panela fechada por meia hora e depois mais quinze minutos sem tampa. Quando acordo bem cedo, tem pão fresquinho e quente `s sete da manhã. Como não amar isso?

Eu comprara um saco muito grande de fubá para um bolo, e andava procurando coisas a fazer com ele. Encontrei essa receita de Broa portuguesa no site de Martha Stewart. Não confio na autenticidade da receita, mas o pão, que leva um pouco de fubá cozido na massa, fica deliciosamente macio. 

 

BROA, ou PÃO COM FUBÁ

(do site https://www.marthastewart.com/1521175/portuguese-cornmeal-bread)

Rendimento: 1 pão grande

 

Ingredientes:

  • 1 1/2 xic. fubá, e mais para polvilhar
  • 1 1/2 xic. água fervente
  • 5 xíc farinha de trigo, e mais para polvilhar
  • 2 colh. (sopa) sal (eu usei apenas uma)
  • 2 colh. (sopa) açúcar
  • 1/4 colh.(chá) fermento biológico seco
  •  1 1/3 xic. água fria
  • azeite para untar


Preparo:

  1. Numa tigela de inox ou plástico (porque a cerâmica ou vidro podem quebrar com o choque térmico), junte o fubá e a água fervendo e misture até que o fubá absorva toda a água. Mexa um pouco para o vapor sair e leve a tigela à geladeira por alguns minutos até que esteja frio o bastante para manipular.
  2. Numa tigela grande, ou na tigela de uma batedeira planetária com gancho, coloque o fermento, a água fria e o açúcar, e deixe quieto alguns minutos para que o fermento dissolva. Junte a mistura e fubá, o sal e a farinha, e misture bem até formar uma massa que possa ser sovada à mão ou na batedeira apenas até que não sobrem pedaços secos. A massa precisa estar macia e ligeiramente grudenta. Caso esteja muito seca, acrescente mais água, uma colher de sopa por vez.
  3. Forme uma bola na própria tigela e cubra bem. Deixe na bancada durante a noite, fermentando por 12 a 18 horas. A massa deve crescer uma três vezes o próprio tamanho.
  4. NO dia seguinte, unte o interior de sua panela de ferro com um pouco de azeite e polvilhe com um pouco de farinha misturada a fubá, para que o pão não grude. 
  5. Despeje a massa fermentada na bancada enfarinhada e forme uma bola. Coloque a massa dentro da panela untada e enfarinhada. Coloque a tampa e deixe fermentar por mais uma hora e meia a duas horas.
  6. Quando a fermentação estiver no fim, cerca de meia hora antes de assar o pão, ligue o forno a 250oC, com a grade posicionada no terço inferior. Assim que estiver bem quente, abra a panela, use uma faca afiada para fazer um X fundo no topo do pão, tampe novamente e leve a panela ao forno. Abaixe o fogo para 220oC e asse por 45 minutos. (O pão é grande, então precisa de mais tempo no forno)
  7. Terminado esse tempo, com muito cuidado, retire a tampa e asse por mais 15minutos destampado, ou até que esteja dourado a seu gosto. 
  8. Retire a panela do forno com cuidado, retire o pão com a ajuda de uma espátula e luvas de forno, e deixe que esfrie COMPLETAMENTE sobre uma grade antes de servir.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Mudanças de olhar, aprender sem escola, focaccia de panela.


A pandemia por aqui anda um bocado esquisita. O governo faz finta de relaxar algumas políticas, mas quando o povo relaxa também, ele volta atrás. Os parques urbanos andam cheios. Não tão cheios quanto estariam nesse junho lindo de céu azul e temperaturas veranis, mas indubitavelmente cheios, quando nos lembramos de que deveríamos ficar distantes uns dos outros. Tentamos. Chamo a atenção das crianças para não se aproximarem de outras pessoas, vamos ao parque em horários mais tranquilos, onde não fico estressada por uma pessoa sem noção estar perto demais na hora de atravessar a rua. Nos fins de semana, quando a cidade inteira parece esquecer a quarentena em nome de um banho de sol, fugimos para o mato, para os parques provinciais que estão abertos para quem gosta de andar em trilhas na solidão da natureza.

Os números aqui no Canadá começam a dar esperanças de que logo (espero!) algumas coisas cheguem a uma nova realidade menos surreal, e que possamos, se não marcar um piquenique com os amigos, pelo menos programar um acampamento em família.

Mas o governo tem sido cauteloso, e há grandes chances de que a escola não volte (ao menos não em sua integralidade) a funcionar em Setembro, quando as crianças começam um novo ano letivo. Sinceramente, já não espero mais. Não espero, de verdade, coisa alguma. Desde o início dessa bizarrice toda, o mundo tem me ensinado a não esperar nada, a viver um dia de cada vez, sem grandes planos. Ou mesmo pequenos. Esse foi o tema das conversas desse fim de semana, quando dividimos um com o outro, Allex e eu, a coleção de pequenas, médias e grandes frutrações dos últimos meses, que parecem terem ficado ainda mais intensas em frequencia e variedade desde que Gnocchi morreu. Como uma aceleração do karma, eu disse. Ele concordou.

Mas desde Março, quando a escola fechou,eu já repetia: não sei quanto tempo isso vai durar, não sei o que vai acontecer amanhã, então não espero nada e sigo o fluxo; e se tiver perrengue, e se der tudo errado, e se o universo me tropeçar de novo, dou risada, aceito, e trabalho com o que tenho.

Porque no fim é isso. A gente faz o que pode com o que tem. E se a gente tira o olhar da falta que gera a frustração e o dirige para aquilo que está presente, descobre que tem um bocado, e que está tudo bem. Ou que tem apenas um pouco, mas esse pouco é o bastante para segurar a onda enquanto a onda não quebra na praia e vira marolinha.

Não ando focando na falta da escola. Ando olhando para a curiosidade natural das crianças, para a oportunidade de tomar um pouco as rédeas da educação deles, para reafirmar alguns valores e hábitos que andavam se perdendo no estressante ambinte escolar.

Nem que seja o hábito de almoçar. Eles estão felizes por poder almoçar todos os dias num ambiente sem pressa nem gritaria, ainda que a mãe, na TPM, às vezes solte um grito apressado.

Ando lendo um bocado a respeito de Unschooling, ou Desescolarização, não porque pretenda tirar as crianças definitivamente da escola, mas porque os diferentes processos de aprendizagem das crianças fora da escola, quando bem estimulados, tormam-me uma mãe mais tranquila e menos preocupada com pressões acadêmicas. Principalmente num momento em que a principal preocupação deveria ser o bem estar mental e físico das crianças (e dos adultos).



Um exemplo simples. Thomas e Laura aprenderam frações cozinhando. Medindo ingredientes com xícaras e colheres-medida. Tentando descobrir como obter 1/8colh(chá) de sal tendo em mãos apenas uma colher que comporta 1/4. Fazendo contas mentais para saber quantas vezes precisam usar o medidor de 1/3xic para obter 1 xícara e 2/3 de leite. Quando enfim precisaram sentar na frente do computador e fazer suas lições de fração, bastou lembrá-los dos bolos que haviam preparado, e não foi precisa mais nenhuma explicação.

Um exemplo complexo. Thomas e Laura adoram bichos. Começou com os dinossauros de Thomas, há muito tempo. Todos os livros que ele pegava na biblioteca eram de dinossauros. Na primeira série, ele tinha preguiça de ler os livros da escola, mas conseguia ler sem dificuldades os nomes científicos mais escalafobéticos de seus dinossauros. E os dinossauros o transformaram num leitor. Os dinossauros levaram, por conta do Mosassauro, seu dinossauro aquático favorito, aos animais marinhos. E lá foi ele ler em letras miúdas, palavras multissilábicas, medidas, nomes científicos, comparando quem é maior que quem, quem come quem, quem mora onde. Por causa dos dinossauros e dos animais marinhos, ele logo se interessou pelos nomes dos continentes e dos oceanos. Seu livro favorito de animais marinhos também mostrava pássaros, que ele logo relacionou aos dinossauros com penas e quadris de aves, e quando ele ouviu falar de Evolução e Seleção Natural pela primeira vez, aquilo tudo já fazia sentido.

Por conta de Thomas, Laura hoje tem a mesma paixão por bichos.Quando saímos para passear no mato, eles me explicam que libélulas são mais antigas que dinossauros, Laura me pergunta se as amoras do nosso snack são da mesma família do milho, por terem estrutura parecida, e pesquiso no celular sobre a estranha pedra que vemos por toda parte no rio que cruza o parque em Scarborough, e que descobrimos que é ardósia, e conversamos sobre os tipos de formações rochosas que vimos no museu de História Natural em Ottawa. Laura pergunta se pode usar uma lâmina de ardósia como faca, e quando acha uma fogueira, descobre que carvão serve para escrever, e que se ela esmagá-lo e misturá-lo com água do lago, faz uma tinta preta que ela pode usar para desenhar com os dedos nas pedras. Explico pinturas rupestres e tinta azul feita com lapis-lazuli (a pedra que carrego em meu anel favorito) e tinta vermelha feita com cochonilhas, aqueles mesmos bichinhos que Laura se lembra de ver sob as folhagens de nossa horta no Brasil, e que as joaninhas adoram comer.\


Quando encontramos uma toupeira morta no meio da trilha, paramos para examiná-la, e eles ficam fascinados pelo formato das patas, pelas unhas fortes, e pelo fato de que ela é de fato tão cega que não conseguimos encontrar seus olhos em meio aos pelos. Falamos sobre o processo de decomposição. Isso eles já sabem bem. No Brasil, uma vez, encontramos um gambazinho que fora morto por uma pedra de gelo durante uma geada forte. Todos os dias íamos ao terreno baldio onde ele estava para vermos em que estágio o bicho se encontrava: formigas primeiro, moscas depois, então larvas, então o corpo parecia desaparecer sob a pele que afundava, como um balão desinflando, e num belo dia, encontramos apenas o esqueleto, perfeito, branco como se tivesse sido polido em laboratório, e tufos de pelos espalhados pelo vento. No crâniozinho dele, uma rachadura feia marcando onde a pedra de gelo o acertara. Ninguém nunca esqueceu daquela lição de como a morte alimenta a vida de tantos outros seres, de como todos voltamos à terra para alimentá-la e prosseguir num ciclo infinito de vida-morte-vida tão maior do que qualquer indivíduo. Laura lembrou do gambazinho e de tudo o que conversamos naquela época para me consolar quando Gnocchi morreu: "Ele virou terra de novo, mamãe, ele vai alimentar as plantas e as plantas vão florir e vão ter frutas por causa dele. E a energia dele desmanchou e voltou pro Universo, ele está no ar, mamãe, então ele está em todo lugar agora. Se você respirar agora, ele está com você."



Quando paramos para descansar na trilha ao lado de um rio, as crianças, enfiadas até os bumbuns no leito gelado, de roupa e sapatos, embaixo do sol forte, procuram bichos embaixo da água. Girinos, pequenos peixes, caracóis. Thomas grita, de repente, que viram uma lagosta, e por um momento me assusto, achando que se tratava de um escorpião. Mas vejo Laura de cócoras no rio, concentrada, dando patadas rápidas na água como um urso, e de repente os dois voltam gritando de alegria, correndo em nossa direção, Laura com as mãos fechadas em concha. Ela abre as palmas como uma ostra, e me mostra o que parece um lagostim bem pequeno e escuro. E depois de passada a fascinação, eles devolvem o bicho ao rio, são e salvo, enquanto pesquiso que bicho era aquele. Crayfish!, exclamo feliz.
Laura pergunta se o Crayfish é um inseto como as aranhas e explico que nem um nem outro é inseto, e passamos uns bons minutos na trilha brincando de descobrir quem é inseto e quem é aracnídeo pelo número de patas, pelas divisões do corpo.


Um dia no mato com os dois me obriga a buscar na memória as coisas que aprendi na escola e, quando a mente falha, buscar no Google. Passar tempo com eles me faz querer ver o mundo com olhos frescos também. E ao invés de olhar um passarinho e só dizer "que passarinho bonito", volto a fazer perguntas como eles fazem. Qual é o nome dele? Onde ele faz ninho? Ele migra como os gansos ou fica por aqui no inverno como o Chickadee? O que é que ele come? De que cor são seus ovos? Será que ele é da época dos dinossauros? Ok, essa última pergunta seria mais do Thomas mesmo.

Minha própria curiosidade às vezes quebra silêncios, e gera de novo conversa interessada. E criança é um bicho que gosta de pergunta, e às vezes basta a gente fazer uma para eles criarem mais vinte. E se eles tiverem liberdade de explorar, experimentar, mexer, quebrar, construir, e tempo para criar, tempo para ler o que lhes interessa de fato, eles aprendem tanto que a gente às vezes cai sentado de susto.

E mesmo quando a informação é demais, é difícil, eles tiram algo daquilo. Assistimos à série Cosmos, e de repente Laura vira para mim e diz: "Mamãe, não tô entendendo nada do que esse moço tá explicando, mas tá divertido mesmo assim." E apanhou seu caderno e começou a desenhar. "Ó, mamãe, eu tô desenhando as coisas do filme: isso é uma nebulosa! Esse é um buraco negro! E essa é uma cadeia de DNA!"

Ela não faz ideia do que de fato seja uma cadeia de DNA nem tem condições ainda de entender. Mas desenhou aquilo que seu cérebro conseguiiu compreender daquelas imagens, e quando ela de fato quiser estudar a respeito, o conceito está ali, aquela imagem presa à memória, gravada permanentemente pelo processo daquele desenho expontâneo. No dia seguinte ela me pediu para ter um livro sobre o espaço. "Um que você consiga ler sozinha ou um que eu precise ler pra você?', perguntei para alinhar expectativas. "Um pra eu ler sozinha." Apanhei um livro da National Geographic chamado "My Fisrt Space Book". Junto desse, aproveitei para comprar um lindíssimo chamado Maps, com mapas do mundo inteiro ilustrados de forma divertida e cheio de informações sobre cada país (muito útil já as crianças têm amigos de todas as partes do mundo, na escola daqui) e um outro livrão ilustrado chamado Curiositree Natural World, que é uma espécie de enciclopédia da natureza, com lições simples de biologia, botânica, ecologia, e curiosidades sobre animais. Laura já me pediu um outro sobre elementos. Ela tem um de pedras preciosas, mas queria um que mostrasse todos os elementos em seus estados naturais, porque ela quer encontrá-los na floresta.

Tenho tentado ampliar a biblioteca dos dois, que até então tinha mais livros de histórias, para livros de consulta. Os dois passam muito tempo no sofá ou no tapete, folheando os livros informativos, discutindo sobre as figuras, comparando com outras coisas que aprenderam. Acho que o livro folheado sem pressa é uma experiência diferente de buscar informação na Wikipedia. Ainda que tenha ensinado Thomas a pesquisar seus assuntos de interesse nela e registrar sua pesquisa em forma de perguntas e respostas.

Quando paro de pensar nas pequenas e nas grandes frustrações da quarentena e da pandemia, olho para os tesouros encontrados à minha frente.Ver o modo como as crianças aprendem (todas elas, não apenas meus filhos, porque ninguém aqui é especial), e o quanto eles de fato aprendem quando estão genuinamente interessados num assunto e podem explorá-lo do seu jeito e no seu ritmo, sou invadida por essa tranquilidade a respeito das lições da escola, do passar de ano, do desinteresse que a criança mostra ao ter de escrever uma redação sobre a Primavera ou calcular perímetros e áreas quando na verdade queria estar lendo sobre dinossauros e nebulosas.

Durante todas as semanas de escola ã distância, Thomas fez drama para fazer redação. Reclamações, pequenas revoltas, bufadas e cadernos ao chão. "Ele não gosta de escrever", repeti a mim mesma e às outras mães inúmeras vezes, revirando os olhos. Então, cansada de colocar a falha nele, resolvi colocar a falha no método e tentei algo novo: "Seguinte, gente, eu acho as redações da escola uma chatice. Então eu quero o seguinte: todo dia, eu quero uma redação, caprichada, letra pequena, com data, mínimo de cinco frases, SOBRE O QUE VOCÊS QUISEREM. Inclusive se quiserem escrever como a mamãe é chata porque ela está obrigando vocês a escrever, pode. Desde que usem cinco frases para reclamar. Tá bom?"

Thomas tinha que fazer UMA redação por semana para a escola, e era sempre aquele teatro, aquela briga, aquela frustração. Das redações diárias de tema livre ele reclamou só da primeira. Tentou ainda roubar no jogo, e copiou um trecho inteiro de um de seus livros favoritos. "Você copiou?", perguntei. "Sim, desse livro aqui.", ele respondeu, com um sorriso espertalhão. Devolvi o caderno para ele. "Tá muito caprichado. Gostei que você escolheu um trecho com palavras bem difíceis. Muito bem."

E as batalhas para escrever terminaram. Tem dia que ele transforma a redação em história em quadrinhos, fazendo os textos no meio de desenhos. Tem dia que é sobre batalhas entre super heróis que ele inventa. Tem dia que é a descrição dos poderes de um dragão. Laura escreve, ainda sem acertar muito a ortografia, em adivinhações fonéticas, sobre a casa na floresta em que vai morar, sobre um livro do aplicativo da escola que mostrava bolos de formatos divertidos, sobre gostar de cozinhar e sobre seus desenhos favoritos.

O governo de Ontario estabeleceu que as escolas daqui não vão avaliar as crianças do ensino elementar durante o período da pandemia. Até porque só se repete ano a partir dos dez anos e mesmo assim só se for muito necessário, já que até o ensino médio espera-se que as crianças cheguem no resultado esperado em seu próprio ritmo. Valho-me disso para relaxar um pouco e não obrigar as crianças a fazer todas as atividades propostas pelos professores. Mas tenho plena consciência de que essa abordagem do governo é condição sine-qua-non para que eu possa levar com leveza o assunto escola ã distância por aqui. Eu já tentava ensinar meus filhos dessa forma no Brasil e não levar a escola tradicional tão a sério, mas era muito, muito mais difícil, e eu sentia que tanto as crianças quanto os pais sofriam muito mais cobranças por resultados não condizentes com a maturidade emocional dos pequenos alunos. Justamente por me lembrar dessa pressão, tento não soltar as rédeas assim de um vez, porque eu não sou tonta nem nada e olho o curriculum da semana e saio propondo brincadeiras e questões relativas ao assunto, para mantê-los razoavelmente alinhados com o sistema, mas não subjugados por ele. Foi assim com as frações. Agora tenho que sacar da estante os jogos de tabuleiro e RPG que envolvem dados, porque Thomas vai começar a estudar Probabilidade.

Enfim.


É bom sentir menos pressão sobre os ombros, menos pressão pelo resultado, pelo "sucesso", pelo desempenho, pelas notas do boletim. Tem sido enriquescedor mergulhar com as crianças no processo, no desenvolvimento, na exploração, no imprevisível, no aleatório, no caos desenfreado da curiosidade. Tem sido importante parar de pensar em enfiar informações em suas cabeças "na ordem certa" e, ao invés disso, ensiná-los a gostar de aprender, ensiná-los a não terem medo de perguntar nem vergonha de propor uma solução. E principalmente, ensiná-los a pensar, a juntar informações que na escola são ensinadas separadas uma da outra mas que no mundo de verdade são inseparavelmente conectadas.

Num dia cheio de pequenos perrengues, Thomas quis fazer a salada do jantar enquanto eu preparava uma torta de verduras. Pensei em voz alta meu estranhamento de a tal "Focaccia" de  panela não levar fermento biológico. Ele me fez algumas perguntas, e comecei a explicar os tipos de fermento. Como o biológico é um ser vivo minúsculo comendo açúcares e soltando pum na massa (isso sempre faz as crianças rirem), e como o fermento químico é feito de um sal e um ácido que se transformam quando você os dissolve em líquido, produzindo gases. Ficamos falando sobre outros tipos de sal e outros tipos de ácido, e o fiz lembrar do dia em que fizemos um vulcão de massinha e enchemos ele de vinagre e bicarbonato de sódio.

Cozinha aliás, foi um hobby que durante anos alimentou também minha curiosidade infantil, e vorazmente estudei como eram os processos químicos por trás das transformações dos alimentos. Até hoje me pergunto porque a cozinha não é usada nas escolas como ponto central para todas as matérias. (Só fui entender botânica de verdade quando aprendi a fazer cerveja e tivemos de estudar a fisiologia do grão de cevada. Imaginei uma classe cheia de adolescentes aprendendo a fazer cerveja.) Na comida estuda-se química, biologia, matemática, história, geografia...

A gente nunca para de aprender enquanto for curioso.


E nessa cozinha a gente aprende a fazer torta na frigideira.Taí uma coisa que eu nunca fizera antes, mas passarinho que tem medo de novidade nunca sai do ninho. Fiz essa torta, que Benedetta chama de focaccia recheada, mas que nada tem a ver com a focaccia genovesa que nos vem à mente, pela primeira vez há um mês atrás e mais duas vezes depois e considero ela um clássico instantêno. Verdadeiramenre instantâneo, pois é a torta mais rápida do mundo: uns dez minutos para preparar, dez minutos na frigideira e pimba! Jantar. Como a massa não leva ovo, leite nem manteiga, se rechada apenas de verduras e legumes ainda por cima é vegana. Isso tem sido meio importante pra mim, pois tenho tentado manter a cozinha plant-based durante a semana. (Fiz isso por pura curiosidade, e no fim das contas, tem sido muito bom para mim.) Até hoje fiz com recheio de verduras com queijo, mas quero fazer umas versões só de verduras a partir de agora. Allex já imaginou a torta recheada com queijo, presunto e tomate, como um bauru. Enfim, o recheio é livre, só não coloque nada muito úmido, pois a massa ainda crua pode rasgar ao ser transferida para a frigideira. Divirta-se. Aproveite para clicar no link da receita para ver Benedetta preparando a focaccia, mesmo que você não fale italiano.


FOCACCIA RIPIENA IN PADELLA
Rendimento: 4 porçoes fartas para acompanhar uma saladinha ou 6 como parte de uma refeição mais completa

Ingredientes:
  • 400g farinha de trigo
  • 250ml água
  • 3 colh(sopa) azeite de oliva
  • 1 colh (chá) sal
  • 1 colh. (chá) bicarbonato de sódio
(recheio)
  • 350g verdura da sua escolha (escarola, espinafre, almeirão...), refogada do modo que preferir
  • 150g queijo de sua escolha (mozzarella, provolone, queijo prato...)

Preparo:
  1. Misture todos os ingredientes da massa numa tigela grande, usando os dedos, e então transfira para a bancada e sove até que fique lisa. Cubra com um pano para não ressecar, e prepare o recheio de sua escolha.
  2. Coloque a frigideira em fogo médio. Benedetta usa uma frigideira antiaderente de 30cm. A minha tem 25cm e é de inox. Costumo untar a frigideira toda por dentro com um fio de azeite e a torta nunca grudou. O fato de minha frigideira ser menor quer dizer que a torta fica com bordas mais grossas, mas ninguém nunca reclamou.
  3. Divida a massa em duas partes iguais e abra com um rolo em uma bancada enfarinhada até ficar um pouco maior que a frigideira. Esopalhe o queijo e então a verdura e depois mais queijo sobre uma das massas e cubra com a outra. Dobre as bordas das massas uma sobre a outra, apertando para o selar bem.
  4. Quando a frigideira estiver bem quente, transfira a torta para a frigideira com cuidado. Tampe e deixe cozinhar por cinco minutos, até sentir cheiro de farinha tostando. Tire a frigideira do fogo e, sem destampar, num movimento rápido, vire a frigideira de cabeça para baixo para que a torta fique apoiada na tampa. Deslize a torta agora invertida de volta para a frigideira,tampe novamente e cozinhe por mias cinco minutos.
  5. Desenforme a torta em uma tábua e deixe descansar alguns minutos antes de cortar e servir.


sábado, 21 de março de 2020

Quarentena, PFs veganos, divisão de tarefas e chocolate chip cookies

Uma foto bonita para tempos estranhos

Esta noite sonhei que me empurravam para dentro de um compactador de lixo e fechavam as portas. Era noite, e me haviam pego de surpresa. Imediatamente após a aniquilação de meu corpo em meio a outros resíduos, eu me refazia, magicamente, e ainda formada apenas de ossos e uma intensa luz azul, abria as portas num movimento explosivo, como quem busca ar depois de muito tempo submerso, e tinha então meus ímpetos de vida e liberdade empurrados de volta  ao compactador de lixo pelas mesmas mãos masculinas que me haviam colocado ali em primeiro lugar. Portas fechadas. Corpo destruído. Renascimento. Libertação. Mãos me empurrando de volta. Durante toda a noite, a mesma cena repetida, até finalmente conseguir despertar no meio da noite para a realização de que o sonho descrevera em imagens exatamente como me sinto nesse momento.

Não posso reclamar. Penso nisso o tempo todo, como não posso reclamar. O governo canadense tomou medidas duras mas preventivas, garantindo que a situação no país nunca chegue aos extremos da Itália, por exemplo. Estamos em segurança e o Canadá tem sido considerado modelo de gestão da crise. O pânico inicial que fez com que a população corresse aos mercados e esvaziasse as gôndolas foi subitamente substituído por alguma solidariedade. Meu prédio tem uma lista na porta de moradores que se disponibilizaram para fazer as compras de mercado para os residentes mais vulneráveis. Há muito pouca gente desacreditando o vírus ou se comportando de forma irresponsável.

As escolas foram as primeiras a fecharem. Então os museus e casas de show. Depois bares e restaurantes. Agora, andar na rua parece um eterno domingo de manhã: todas as lojas estão fechadas. Há pouca gente na rua. Mas ao contrário dos domingos de manhã de café devagar e alívio promovido pela promessa de morosidade, há um silêncio pouco reconfortante vindo do lado de fora.

Não posso reclamar. Ainda posso sair para correr. Correndo, vejo os primeiros sinais da primavera. Vejo um coelho. Os Robins, meus sabiás-laranjeira canadenses, retornando às árvores à nossa volta. As primeiras florzinhas minúsculas, cor de leite fresco pingando de estames verdes e frágeis que destoam dos castanhos e cinzas secos restantes do longo inverno.

Ainda posso levar as crianças pelas trilhas do parque. Santo parque. Abençoado parque. Laura me pergunta se pode encostar nas árvores. Pode, pode sim. Vejo-nos abraçando árvores e tocando a terra gelada com os dedos, como que pedindo ajuda, uma luz, uma solução. Que a natureza se arranje, se reequilibre, traga a harmonia que talvez não temos tido há tempos.

Não posso reclamar. Podemos trabalhar de casa. Ele se enfia no quarto, no computador, e tem reuniões e manda emails e faz seu trabalho muito bem. Numa quarta-feira, ouço o marido explicando a Thomas de que é um dia normal, e que papai está trabalhando. Um dia normal. Não é um dia normal. Meu dia correria de uma forma completamente diferente se fosse um dia normal. Acostumadas ao ocasional home office do pai antes da quarentena, as crianças não ousam interrompê-lo, e mesmo quando lhes explico que mamãe precisa de uns minutinhos para descansar a cabeça ou para trabalhar, seus gritos sempre soletram MÃE em letras garrafais, o som esticado como uma corneta alta diretamente em meu ouvido. Uma, duas, quatro, oito, setenta e duas vezes em uma hora, interrompendo minhas ideias, meus pensamentos, meus impulsos, minha criação, minhas pinceladas.

O que foi? O que você precisa?
O Thomas não quer me emprestar o lápis.

Suspiro.

Sinto falta dos meus pequenos rituais solitários que mantinham minha cabeça no lugar, que me ajudavam a repor minha energia. Pequenas coisas da minha rotina que eram só minhas, que não tinham nada a ver com o restante da família, que não tinham absolutamente nenhum impacto neles, e que, portanto, mantinham em minha mente essa imagem clara de quem eu sou, independente de ser mãe, de ser esposa, de ser filha, de ser irmã.

Pensar "isso vai passar" e esperar pelo retorno da "vida normal" me causa mais ansiedades. Tenho tentado enxergar a situação atual como definitiva. E se fosse assim para sempre? E se essa for sua vida até o fim dela? Como eu posso tornar isso melhor e conviver de forma mais saudável com uma quarentena que não tem data para terminar?

Como recriar meus rituais?
Como me reinventar?
Como me resguardar e me preservar num momento que pede tanta doação principalmente das mulheres?

PF delícia: arroz, feijão preto, saladinha de tomate cereja e abóbora e couve-flor que foram assados na mesma assadeira.


Assim que anunciaram o fechamento das escolas e todas as famílias correram aos mercados em pânico, um pânico quase justificado, considerando que a maior parte da comida consumida no Canadá vem de outros países, caí na mesma armadilha de sempre. Acuada feito um bicho, ameaçada por sombras desconhecidas e dominada por um medo estranho, juntei minha família sob minhas asas e me recolhi em minha domesticidade.

Em poucos dias meus rituais desapareceram. Vi-me sublimada pelo cozinhar, limpar, cuidar. Em menos de uma semana minha insônia voltou e eu sumi. E se meu corpo inteiro tremia de raiva do vírus que provocara aquilo, minha mente foi categórica: olha para as suas escolhas.

Conversando com minha amiga no Brasil, ouvindo meu próprio falar, dei-me conta das desculpas que me inventava, de novo e de novo, para me manter no papel de vítima, culpando o patriarcado mas sem olhar para aquilo que era minha inteira responsabilidade.

Refiz minhas escolhas. Pequenas, pequenas escolhas. Assim, sem DR, sem grandes alardes, sem braveza, sem raiva, sem ser passivo-agressiva nem manipuladora.

Continuei acordando cedo para meditar e correr. Porque Toronto tem a densidade populacional de um sítio com galinhas caipiras, e a gente consegue sair na rua sem ficar se esbarrando nem respirando no cangote um do outro. Então saio para correr. Correr até suar para fora toda a raiva e tensão. E se isso me deixar exausta no meio do dia (e eu com sono viro um monstro), tudo bem: marido está em casa e eu POSSO parar e descansar. 

Marido em casa. Não, não é um dia normal. Num dia normal de home office, eu estaria trabalhando e fazendo minhas coisas e as crianças estariam na escola. Não é um dia normal. As crianças estão aqui o dia todo, e cuidar de criança em tempo integral CANSA, mesmo quando você está se divertindo com eles. Cada pequena briga, cada birra, cada interação exige atenção total de sua parte para não simplesmente cair no lugar de reação não-pensada. Ele sabe disso. Ele reconhece isso. Ele fala para os colegas homens como nós mulheres nos lascamos de verde e amarelo com essa quarentena, e como isso não é justo. Ele me conta de reuniões por skype sendo interrompidas por crianças pulando em cima dos pais ou pedindo para a mãe limpar seus bumbuns no banheiro, e como ele consegue ver através das telas quem está dividindo essa carga com o parceiro e quem não. Estamos todos no mesmo barco. Ao menos todos nós, classe média, brancos, de trabalhos estáveis que permitem home office. Tenhamos noção que nosso barco é pequeno e comporta bem pouca gente do mundo. Que sorte temos. Não é? Não posso reclamar.

Mas ouvi-lo a respeito dos outros pais e mães me fez relaxar os ombros. A gente que foi criada em país latino e machista tem disso de síndrome de super-mulher-Martha-Stewart-toda-poderosa, que, dentro de sua posição submissa, encontra uma sensação de falsa superioridade ao taxar os homens de incompetentes no trato dos filhos e da casa. "Ah, sem mim ele não acha uma meia!" Veneno, veneno puro. Ele acha sim. Se você deixar, ele acha a meia. E se não achar, ele é um homem adulto com cartão de crédito e pode mandar entregar um pacote de meia comprado na internet. Essa ideia de nos sentirmos indispensáveis mantendo homens adultos dependentes e infantilizados é a chave que tranca nossas próprias correntes.

Quando estou cansada, cansada mesmo, precisando de uns minutos de silêncio que meus filhos, por mais amor que tenhamos uns pelos outros, não podem me dar, sem a menor culpa eu cato o cachorro para um passeio longo no parque e deixo as crianças ao cargo do pai, independente da reunião por skype em que ele esteja metido. E sabe o que descobri? Que ele é plenamente capaz de lidar com essa situação.

Pense nas suas pausas como a "pausa do café" ou a antiga "pausa do cigarro" nos escritórios. Uma vez trabalhei numa agência em que quase todos eram fumantes menos eu. Todos faziam pausas de cigarro e continuava eu lá, tonta, trabalhando. Revoltada que sou,  resolvi que sempre que meus colegas levantassem da cadeira para sua pausa de cigarro, eu faria minha pausa do café. Justo.

Mãe também precisa de pausa do café. Ok? Dê-se uma pausa do café. 

Como sou eu quem cozinha, eu decidi, assim, de supetão, que não sou mais responsável pela louça. Eu nunca achei que a louça era MINHA responsabilidade, mas era algo que eu fazia no automático: terminar de comer, tirar os pratos, guardar os restos. Dei-me conta de que todo mundo levantava da mesa e ficava eu lá, tonta, fazendo tudo sozinha, depois de já ter passado a última hora e meia do meu dia fazendo jantar.

Agora levanto da mesa sem culpa. Peço com educação para que deem um jeito nos pratos e guardem a comida. E tento não ficar irritada se isso não acontece imediatamente. E se ninguém tirar a louça limpa da lava-louça imediatamente, não vou sair guardando daquele jeito passivo-agressivo bufante que a gente bem conhece. Vai ficar lá e ponto. Até alguém (que não sou eu) fazer.

E sabe o que descobri? Que as coisas tem sido feitas. Talvez não perfeitamente e COM CERTEZA não do MEU jeito. Mas são feitas. E que se eu peço com leveza e educação, todo mundo é super capaz de tirar o lixo ou dar comida para o cachorro.

No tempo de desenho ou video-game das crianças, tenho sentado à minha mesa para pintar e desenhar. Tento, sento, pinto, desenho, escrevo no meu caderno a letras tortas, sentindo falta do meu tempo no computador, pois só temos um, irritada com a lentidão com que meus dedos arrastam o lápis sobre o papel. Tento, apesar da sensação acachapante de que isso não faz o menor sentido, de que todos os meus projetos perderam importância diante das circunstâncias.

Ainda assim faço. Sempre gostei de trabalhar em silêncio, mas agora, acompanhada do batuque incessante dos dedos do marido no teclado do computador ao meu lado, tenho colocado uma música no celular, ou um podcast, e, isolada em meus fones de ouvido, consigo produzir. As crianças começaram, devagar, a entender que porta fechada quer dizer que papai e mamãe estão trabalhando e só devem ser interrompidos por coisas importantes. Quando desperto do meu transe criativo, desligo a tv das crianças e podemos fazer alguma coisa juntos com mais tranquilidade, pois mamãe botou para fora tudo aquilo que borbulhava dentro dela.

Cevadinha com grão-de-bico, tomate cereja e salsinha, espinafre refogadinho, abacate.

Estou tentando não me refugiar à cozinha como fiz durante tantos anos. Não usar bolos e tortas e pães como desculpa para não lidar com meus problemas. Decidi cozinhar apenas uma refeição por dia. Seja almoço ou jantar, o que for necessário, mas apenas uma. E manter simples. Um cereal, uma leguminosa, e tantos vegetais quanto puder cozinhar ao mesmo tempo e rapidamente. E na refeição seguinte, a não ser que eu realmente tenha vontade de comer uma reinvenção específica, cada um monta seu prato com o que quiser do que sobrou e esquenta no microondas.
Isso pode parecer besta, mas essa configuração é completamente nova em minha casa. Eu SEMPRE reinventei as sobras, pois não gosto de simplesmente requentar comida. Mas em nome de minha sanidade mental e meu tempo, abri mão da minha frescura. Requentamos comida. Completamos com saladas.

E me sobra vontade de entrar na cozinha com amor, não rancor, para fazer uma torta de maçã ou biscoitos de chocolate. Se eu quiser.
Arroz cateto integral com legumes refogados em óleo de gergelim, alho e gengibre, e temperados com shoyu, cebolinha e gergelim. Ao lado, falafel de feijão moyashi. Ficaram uma delícia, mas só no dia em que foram feitos: depois, não importava o jeito de requentar, ficaram borrachudos.

Manter a maioria das refeições veganas tem ajudado um bocado no meu planejamento. Tem sido muito mais fácil cozinhar assim. E o mais engraçado é que ninguém percebeu que eu não ando botando mais queijo e ovos nas coisas. De quebra, o mercado está um pouco mais em conta, já que queijos aqui custam caro.

O fim de semana agora é o mais diferente. Já tinha um tempo que eu praticamente parara de cozinhar aos fins de semana. É a vez dele. Se ele quiser preparar waffles de manhã, se quiser fazer macarrão de almoço, ótimo. Se quiser pedir comida ou comprar algo pronto, a escolha é dele. Eu não digo nada nem torço o nariz. Afinal, ele não reclama quando faço sopa de abóbora de jantar, que as crianças adoram mas que ele come apenas por respeito e educação, profundo inimigo da abóbora como sempre foi. Hoje ele pediu Lámen de almoço. Eu não estava super afim de comer porco, tenho preferido a leveza do vegetariano, mas alguém botou um prato de comida quente na minha frente que eu não tive de preparar, então obrigada pela refeição, come e volta ao computador.

Arroz cateto integral que refoguei com folhas de beterraba, batata-doce assada com alecrim e ervilhas refogadas em cebola e tomilho e salsinha.

A diferença é que agora reclamo o tempo do fim de semana completamente para mim. É minha vez no computador. Minha vez de sentar e escrever por horas a fio, digitalizar ilustrações ou resolver pendências de trabalho. Trabalhar no fim de semana? Sim, pois não pude fazer isso durante a semana. Reclamo para mim meu silêncio e minha paz, pois no fim de semana papai está totalmente disponível para criar as brincadeiras, apartar as brigas, passear cachorro e resolver o almoço. Nesse momento estou ao computador enfim escrevendo, jazz nos ouvidos, vinho num copo, cachorro dormindo aos meus pés. A porta do quarto está fechada e eu não faço A MENOR IDEIA do que está acontecendo na sala ou do que meus filhos e meu marido estão fazendo. Pedi que ele lavasse roupa e pendurasse o que não pode ir na secadora, e acredito que ele tenha feito. Hoje é responsabilidade dele, não minha, então não vou perder meu tempo gerenciando os outros. Estou tendo um "dia de homem", contei a uma amiga, rindo. Não é um dia de homem. É um dia de pessoa adulta que compartilha responsabilidades domésticas com outra pessoa adulta.
Arroz integral misturadinho com feijão Apache e coentro, farofa de banana da terra, couve-flor e abóbora assada e couve refogada em alho e cebola.

Não posso reclamar. Meu marido sempre fez sua parte. Aí é que entra a minha responsabilidade. Esse controle louco que faz a gente criar na nossa cabeça o "jeito certo de fazer as coisas" e não botar homem para fazer nada porque "eles não sabem fazer direito". Bom, eles sabem. E se não sabem, veja só, aprendem. Que nem criança: se você não deixar fazer com desapego ao resultado, a criança não aprende. Bom, homem também. Por muito tempo me sabotei puxando todas as atividades domésticas para mim com essa desculpa de querer "fazer do meu jeito", e fazendo direito, só fiquei sobrecarregada e ressentida. Totalmente à toa, porque tenho do meu lado um cara que sempre esteve disposto a dividir essa carga.

De novo, não posso reclamar. Outro dia estava mostrando às crianças um video do papai ninando Thomas e passando aspirador de pó na sala ao mesmo tempo. Bebê num braço, aspirador no outro. E a gente diz que só mulher sabe fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo.

Eu decidi não ser vítima da quarentena nem mais vítima de coisa nenhuma. Decidi parar de ter raiva, tanta raiva do que foi, do que é, do que pode ser que eu não gosto e não quero. Minha rotina virou de pernas para o ar, então tenho de encontrar uma nova. Sem raiva, sem rancor. Com leveza, amor, educação. Uma rotina que seja boa para meus filhos, para minha família, mas também boa para mim, que mãe triste cria filhos tristes.

São tempos estranhos, estranhíssimos, e um bocado pesados. Temos família no Brasil, nos Estados Unidos e na Itália, e nos preocupamos o dia todo com eles. Mas isso está completamente fora do meu controle. Só posso controlar minhas escolhas aqui e como elas afetam minha vida e a de meus filhos. As crianças ainda não têm uma rotina certa, e isso eu vejo que as tem atrapalhado um pouco, e a mim também. Ainda preciso entender melhor essa parte, o que tem melhor efeito no humor deles e no meu e rearranjar tudo. 

Aqui a primavera começou enfim. Tempos de renovação. Que renove. Que a quarentena seja essa lua nova, esse momento de introspecção e meditação para cozinhar revoluções internas e externas. Renovações. Não tem para onde fugir. Nossos problemas estão espalhados no nosso chão, grudados em nossas paredes, pendurados pelo teto, em toda a parte, escancarados na nossa cara e não há outra coisa a fazer senão olhá-los, aceitá-los e fazer algo com eles. Nem vinte e quatro horas por dia de Netflix vai impedir você de encarar seus problemas.

Vamos pensar em começar na quarentena pequenas mudanças internas para espalhar lá fora depois, mais rápido que qualquer vírus, para que a vida não volte ao normal, pois aquele normal ninguém mais quer de volta. Inventemos uma norma nova. Um normal que seja melhor para todos.

Vai ter muito perrengue me puxando de volta para baixo para tentar me destruir durante esses tempos. Eu não vou deixar. Vou continuar me reinventando quantas vezes forem necessárias. 


CHOCOLATE CHIP COOKIES DO DAVID LEBOVITZ
Rendimento: UM MONTÃO, mas acaba rápido, que são muito bons

Ingredientes:
  • 2 1/2 cups (350 g) farinha
  • 3/4 colh (chá) bicarbonato de sódio
  • 1/8 colh (chá) sal
  • 1 xic (225 g) manteiga sem sal, em temperatura ambiente
  • 1 xic(215 g) açúcar mascavo
  • 3/4 xic(150 g) açúcar cristal orgânico
  • 1 colh (chá) extrato de baunilha
  • 2ovos grandes, em temperatura ambiente
  • 2 xic(cerca de 225 g) nozes ou castanhas de sua escolha, tostadas e picadas
  • 400 g chocolate amargo ou meio-amargo, picado em pedaços de 1.5 a 3cm ou 3 xic(340 g) gotas de chocolate
Preparo:

  1. NUma tigela, misture a farinha, bicarbonato e sal. 
  2. Na batedeira, bata a manteiga, os açúcares e a baunilha em velocidade média apenas até que fique homogêneo.
  3. Junte os ovos, um a um, batendo bem a cada adição, e então misture a farinha, seguida das nozes e do chocolate. 
  4. Numa superfície ligeiramente enfarinhada, divida a massa em quartos. Forme com cada uma um cilindro de 23cm de comprimento. Embrulhe os cilindros com filme plástico e leve à geladeira até que fiquem firmes, de preferência de um dia para o outro. 
  5. Posicione as grades do forno nos terços inferior e superior e aqueça o forno a 180oC. Forre duas assadeiras com papel manteiga ou silpat.
  6. Fatie os cilindros de massa em fatias de 2cm de espessura e coloque os discos na assadeira com 8cm de distância entre eles. Se algum chocolate ou noz se desprender, grude de volta no biscoito. 
  7. Asse, trocando as assadeiras de lugar no meio do cozimento, por 10 minutos, ou até que estejam ligeiramente dourados por cima. 
  8. Deixe que esfriem ligeiramente na assadeira antes de retirá-los para esfriarem sobre uma grade. Repita a operação com o restante da massa.
  9. Os biscoitos de mantém frescos por vários dias num pote fechado. 

 Em tempo: pois é, eu tenho feito a maior parte das refeições da casa veganas, e sempre que posso, evito produtos animais. Tem sido engraçado que as crianças curtiram isso de colocar levedura de cerveja no macarrão no lugar do parmesão e Thomas virou o maior fã de manteigas de castanhas na torrada de manhã. Mas a pizza do fim de semana continua tendo queijo e faço ovos quentes para eles sempre que pedem no café. E sim, meus chocolate chip cookies são tradicionais e comi um montão deles, que estão deliciosos. Ninguém virou vegano nem vegetariano. Mas essa diminuída nos produtos animais tem sido boa para todo mundo aqui em casa.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Sonhos, uma canção de acordar, um fim de ano, duas sopas.

Durante os cinco dias que estive em Portugal, em Junho do ano passado, eu me levantava ao sentir finos raios de sol trespassando as persianas. Trocava de roupa com as luzes apagadas, dobrava meus lençóis, montava o sofá-cama de volta ao seu estado natural de palavra simples e não composta e fazia meu alongamento sobre o tapete fino e claro que escorregava pelo piso de azulejos. Ao que minha amiga entrava na sala, sorridente sempre, e começava o processo de abrir as persianas da casa, passar o café e colocar sua vasta coleção de frutas, queijos e presuntos sobre a mesa da sala. Por esses cinco dias, ela o fez cantando uma musiquinha alegre que dizia: "bom dia começa com alegria, bom dia começa com amor". Eu ria, pois ela cantava com verdadeiro entusiasmo, quase que como uma paródia de si mesma. Rimos juntas quando ela me contou que ouvira outra amiga cantando a mesma coisa nos breves dias como sua hóspede, e que a pequena canção nunca mais saíra de sua cabeça.

Canção de bruxa, deve ser, pois desde que voltei a Toronto, essa tem sido a trilha sonora de todas as minhas manhãs.

Primeiro eu me vi a cantarolar os dois versos como mera provocação. Todos achavam meio ridículo, mas aquilo que é ridículo é risível, e o riso veio, e as manhãs passaram a ficar leves com o sorriso fácil que acompanhava a música. Logo as crianças seguiram, e comecei a despertar com o canto delas, vindas do quarto, felizes pelo novo dia.

Quem fica em casa agora é igualmente amaldiçoado (ou bendito) pela canção da bruxa, e esse desejo de alegria e amor prossegue se expandindo a outros lares.

Naquela manhã, Laura entrou no quarto carregando nas duas mãos minha xícara rosa como nascer do sol repleta de cappuccino, cantarolando feliz aquelas palavras, como os pássaros de Aldous Huxley. Pulou sobre minha cama sem derramar uma gota, sentou-se ao meu lado e, passando a xícara às minhas mãos com cuidado, disse:

"Mamãe, quer saber o sonho que eu sonhei?"

Assenti com um ronronar por traz do café quente que eu sorvia.

"Sonhei que eu estava no meio da floresta. Eu tava pendurada numa árvore bem alta, num galho, porque meu casaco tava enroscado no galho. Aí tinha um monte de gente em volta, lá embaixo no chão, gritando que eu ia hurt myself, e que aquilo era muito dangerous. Mas eu não achava dangerous. Eu disse que tava tudo bem, que eu sabia o que tava fazendo, mas ninguém acreditou em mim. Aí eu cansei daquilo, porque era muito silly, e pulei pra fora do meu casaco para o galho, e saí correndo nas árvores, pulando nos galhos, lá em cima. Só que aí eu fiquei com frio. Aí eu voltei pra pegar meu casaco, que tinha caído do galho no chão, e pedi pro pessoal lá embaixo, que tava assim, em volta de mim lá embaixo, pra ver se o casaco era meu e me devolver. Mas ninguém me respondia. Aí eu gritei pra todo mundo, e eles ainda não me respondiam. Aí você apareceu, mamãe. Você pegou o casaco, viu que tinha meu nome nele, dobrou e colocou na minha mochila. Aí eu fui embora porque eu sabia onde tava o meu casaco."

"E como você se sentiu no sonho, querida?"

"Muito feliz."

"Que bom. Agora vai lá tomar café da manhã que hoje tem escola."

Muito feliz. Foi como me senti ao ouvir aquele relato. Laura sonha sonhos muito claros, de metáforas muito explícitas. Nos primeiros meses de mudança de país, sem falar a língua ou entender costumes, Laura tinha todas as noites o mesmo pesadelo: que brincava num parquinho e descia pelo escorregador, mas que no fim dele, ao invés de chão firme, era o mar aberto e arisco que a esperava. E nele ela caía, sem saber nadar, sem saber para que lado havia terra.

Naquela tarde, contei a Allex o sonho de Laura.

"Ela faz o que quer", disse ele.
"Ela SABE o que faz", corrigi. "Conhece suas capacidades. O medo dos outros não são os dela."
"And mom's got her back", acrescentou.
"Sim. Isso foi o que me deixou mais contente. Ela sabe, lá no insconscientezinho dela, lá no coração, que mamãe está lá dando suporte para o que ela precisar. Não é lindo? Não é o que a gente mais queria? Pelo menos era o que EU queria. Que eles soubessem que eu sempre vou apoiá-los."

Desde que li Man In Search For Meaning, de Viktor Frankel, comecei a pensar no que é que me movia. Ao cabo de tudo, no meu âmago, despida de todas as cobranças da sociedade, de todos os meus objetivos materiais, o que é que mantinha meu coração batendo, o que me fazia levantar de manhã e correr, e pintar, e escrever. O que é que me impelia a tentar ser hoje um ser humano menos babaca do que ontem. Então caí nessa frase, não sei bem original de quem, mas que tem sido muito usada pela Eliana Rigol em seu Instagram (que por sinal, tem sido fonte de excelentes indicações de livros): "Seja uma boa ancestral".

Era o resumo em quatro palavras de um sentimento até então sem nome. Mas que remontava às palavras de meu guru de Kriya Yoga: dê o exemplo.

Olho para meus filhos e eles são o constante lembrete de que preciso continuar tentando ser uma pessoa melhor. Penso em tantos familiares que já se foram, com suas histórias amargas de vida, suas escolhas ruins, suas infelicidades marcadas para sempre nas histórias contadas por meus pais, e chacoalho para fora tudo isso e penso: quero ser um bom exemplo. Quero ser a louca tataravó Ana, lembra dela? A que corria maratona, a que fazia aqueles quadrinhos sobre o vovô Thomas e vovó Laura? A vó Ana que mudou pro Canadá com cachorro e tudo. A vovó Ana que ensinou a gente a cozinhar. Aquela tataravó que era feliz. Lembra dela? Quero ser um parente distante que deixa uma história boa para variar. Não tenho vocação para Cautionary Tale.

Sinto vontade de curar minhas feridas para não provocar as mesmas em meus filhos. Não passar para frente dores herdadas. Rever comportamentos e destrinchar hábitos até saber o que sou eu e o que sou dos outros. Largo o dos outros, que eu me basto se for eu de verdade.

É um processo de resgate de todos os meus melhores momentos que foram perdidos na memória dessa minha vida esquizofrênica. Tantas soluções busquei, que algumas deixei na estante empoeirando, sem me dar conta de que já eram soluções boas para mim. Contei que a maior parte dos livros que a Eliana menciona, eu tinha na estante no Brasil? Nunca tinha lido. Estava lendo outras coisas. Não couberam na mala, e foram deixados para trás. Pego eles agora na biblioteca e é quase um flagelo pensar que poderia ter lido aquilo há dez anos atrás. Tanta lição adiada, tanto aprendizado esperando por mim.

Enfim.

Dou-me conta dessa responsabilidade. De não apenas criar dois seres humanos capazes de cuidar de si mesmos. Mas criar duas pessoas essencialmente boas, capazes de gentileza. Criar seres humanos esclarecidos, capazes de pensar por si mesmos, para não caírem nas armadilhas do mundo. Criar dois indivíduos capazes de continuar abrindo os caminhos que eu, em minha existência, serei incapaz de abrir sozinha. Abrir caminhos para quem vier depois deles.

Mãe de menina. Mãe de menino. Dupla responsabilidade. De desconstruir os grilhões do feminino que me foi ensinado. De desconstruir os apelos do masculino que ainda incutem nos meninos. Responsabilidade de criar duas pessoas confiantes em si mesmas e de pensamento livre.

Muitas vezes acho que o trabalho é impossível. Mas então me dou conta de que preciso começar não com eles, mas comigo. É desconstruindo isso em mim e me construindo de volta em novas imagens, que mostro a eles, pelo exemplo, o que é ser adulto. O que é ser mulher. O que é ser mãe. O que é ter relacionamentos de amor e carinho e respeito. O que é correr atrás de seus objetivos. O que é estar feliz.

Toda criança aprende pelo exemplo. Ela repete aquilo que ouve. Ela repete aquilo que vê. Se ela não conhece ninguém feliz, como ela vai aprender o que felicidade é? Olho para mim mesma e me pergunto o que meus filhos têm a aprender comigo hoje. O que eles vêm. Que lição eles tiram ao me ver ali, fazendo o que quer que esteja fazendo. O que eu quero que eles imitem? O que eles herdarão de mim? O que eles deixarão para os seus?   

Essa noite tive um sonho. Sonhei que Laura era bebê, e eu a carregava aninhada em meus braços, enroladinha em um xale azul claro, enquanto caminhava perdida por uma imensa estação de trens. Uma amiga me incumbira de ciceronear um grupo de adultos por aquela cidade desconhecida, e eu me desesperava por dentro: como posso cuidar desse bando de adultos? Eles não veem que tenho de cuidar de minha filha e sequer sei ainda o caminho? Ao fim do sonho, avisei ao grupo que eu não era responsável por eles, abracei minha Laura e saí a passos firmes buscando que trem tomar.

O caminho do que é ser mulher hoje ainda é indistinto para mim. Continuo buscando, para que minha filha tenha caminhos menores a percorrer.   

Acordei com Laura cantando ao meu lado e com cheiro de café. Bom dia começa com alegria. Bom dia começa com amor!

.....

E Novembro e Dezembro e Janeiro e a comida?

Os meses voaram. Eu tinha intenção de escrever em Dezembro, mas o mês desapareceu entre preparação para uma exposição nova, a infinidade de eventos de fim de ano da escola, e a chegada de meus pais perto do Natal. Novamente eu queria ter feito torrone, panforte, panettone, e toda a pataquada, e no fim só saiu Spekulatius dia 6 de Dezembro e uma batelada imensa de biscoitos sortidos para presentear os professores e levar no lanchinho comunitário de fim de ano da classe das crianças. Também fui convidada pela classe de ESL (English as a Second Language) do Thomas para participar de uma festa com todos os pais estrangeiros, em que cada um tinha que levar um prato típico, e escolhi Bolo de Fubá, que foi sucesso absoluto (apesar do milho norte-americano ser doce a ponto de ter gosto de açúcar, NINGUÉM usa o bendito pra sobremesa, então o bolo foi uma surpresa para todo mundo.)

A parte divertida. Decorando com Royal Icing e cranberries secas.

No meio da bagunça, teve UM projeto culinário que deixei para fazer com meus pais aqui, pois achei que eles gostariam de participar e porque me parecia um bom plano B para um dia de tempo feio: Gingerbread House. Já havíamos feito no ano passado, e resolvi repetir a receita, mas desta vez usando só Royal Icing. (No ano anterior eu resolvera ir pela rota da preguiça e comprara uns tubos de icing colorido, mas eles tinham gosto de bala velha. As crianças comeram todo biscoito decorado, mas eu não cheguei nem perto.) A receita do gingerbread que mais gosto é essa de Martha Stweart, que tem uma pancada de especiarias e fica deliciosa. Só precisa de um pouco de engenharia para fazer os moldes da casa e cortar a massa dos tamanhos certos antes de assar. O Royal Icing que eu uso é esse aqui do Alto Brown.
 
DESAPEGO é o nome dessa casa: largo na mão das crianças, a única coisa que eu faço é deixar o bicho de pé.

Esse ano, resolvi que faria toda a comilança natalina diferente: como aqui o Papai Noel chega enquanto as crianças dormem, toda aquela ceia para esperar meia-noite não fazia sentido. Bem melhor botar pimpolhada cedo na cama, para descansar direitinho e poder abrir presente de manhã cedo e brincar o dia todo, sem mau humor de sono. Mas também para não passar batido e ser o mesmo arroz com feijão de sempre, inventei de fazer Cappelletti in Brodo. Afinal, é tradição minha fazer pela primeira vez na vida alguma coisa num dia especial em que nada pode dar errado. 
Apesar dos cappelletti terem ficado desengonçados, NENHUM abriu durante o cozimento, o que considero um sucesso!
Saí com meus pais para comprar os ingredientes, e no dia 24, munidos de uma taça de vinho e olhando o dia desaparecer rapidamente lá fora, comecei a preparar tudo. O recheio é bastante simples e fácil, carnes refogadas, misturadas a queijos e temperos. A massa é onde o bicho pega. Massa recheada para seis pessoas. Já contei que aqui em Toronto a umidade do ar chega a 20% durante o inverno? Que alegria! Imagina o que acontece com massa fresca esperando nessa umidade desértica? Aquela linda fita de massa amarela fresquinha e macia vira Biju em um piscar de olhos. Para prevenir isso, pensei em chamar a família toda para fechar cappelletti, mas calhou que meu pai estava cochilando, as crianças viam desenho e Allex passeava o cachorro, e sobramos minha mãe e eu para rechear e fechar bem uns duzentos cappelletti em tempo recorde. 
Aquela refeição que parece a simplicidade em pessoa, mas que deu um trabalho do cão pra fazer.

Os cappelletti foram servidos em caldo de frango que eu deixara já preparado e congelado duas semanas antes, e, modéstia à parte, ficaram uma delícia. Achei que fosse sobrar alguma coisa, que fosse cappelletti demais para a gente que não é de comer muito, mas não teve um ser vivo na mesa que não tenha repetido o prato e só restou mesmo foi um panelão vazio.

CAPPELLETTI IN BRODO
(Do livro Fundamentos da Cozinha Clássica Italiana, de Marcella Hazan. No livro, ela chama a receita de Tortellini, mas a gente sabe que é a mesma coisa, o nome muda conforme a região. Na minha casa, em que a família veio toda do Veneto, isso chama Cappelletti.)
Rendimento: 6 pessoas

Ingredientes:
(recheio)
  • 110g carne de porco moída
  • 180g peito de frango moída
  • 2 colh (sopa) manteiga
  • sal a gosto
  • pimenta do reino
  • 3 colh. (sopa) mortadela picadinha
  • 1 1/4 xic. ricotta fresca
  • 1 gema
  • 1 xic. queijo parmesão ralado
  • noz moscada para ralar
(massa)
  • 4 ovos grandes
  • 400g farinha de trigo
  • 1 colh. (sopa) leite
(para servir)
  • 2,5 litros caldo de frango ou carne caseiro
  • parmesão ralado

Preparo:
  1. Derreta a manteiga numa frigideira em fogo médio. Quando começar a espumar, junte as carnes de porco e de frango, uma pitada de sal e pimenta, e cozinhe por seis ou sete minutos, quebrando os grumos e mexendo com uma colher de pau, até dourar. Retire da panela e deixe esfriar em uma tigela. 
  2. Junte a mortadela, ricotta, gema, o parmesão e cerca de 1/8 colh (chá) de noz moscada ralada. Misture muito bem e corrija o tempero. 
  3. Prepare a massa. Não vou dar muitos detalhes a respeito da massa por dois motivos: se você nunca fez pasta fresca na vida, essa não é a que você vai usar pra começar. Faça um fettuccine. Então se você está fazendo Cappelletti, imagino que já saiba misturar os ovos à farinha e sovar a coisa toda. O que você precisa saber é que o leite vai junto com os ovos na hora de misturar à farinha. Você vai sovar a massa até ficar lisa, embrulhar bem e deixar meia hora fora da geladeira para o glúten relaxar. Abra com o rolo ou com a máquina, seu método favorito, até que fique bem fino. Para massa recheada, costumo ir até o penúltimo número da máquina. Não faça toda a massa de uma vez, ou as tiras vão secar antes que você possa recheá-las. Você vai dividir a massa em 4 porções e abrir e rechear cada porção enquanto as outras ficam quietas embrulhadas. Se precisar de ajuda para entender como abrir a massa, há um zilhão de videos internet afora que vão ser mais úteis do que qualquer coisa que eu escreva aqui. Mesmo seguindo a receita da Marcella Hazan, eu aprendi a fazer massa vendo minha avó fazer. Ver alguém fazer é o que tira as dúvidas.
  4. Quando tiver a primeira tira de massa, apare a massa e corte em tiras compridas de 3cm de largura. Corte no sentido da largura, produzindo quadradinhos de 3cm.  Distribua 1/4 colh.(chá) de recheio sobre os quadradinhos. Dobre-os ao meio, fazendo triângulos e apertando bem pra selar. Essa parte tem que ser feita rapidamente para a massa não secar. Apoie o dedo indicador onde está o recheio, deixando a ponta maior para cima, e dobre as outras duas pontas uma sobre a outra, por sobre seu dedo. Sério, vídeos de gente fazendo tortellini. Serve o Jamie Oliver. Pelo texto é muito difícil visualizar. Como minha massa estava secando muito rápido, acabei me atrapalhando e a massa saiu cortada maior do que deveria. Mas como minha massa estendeu bem fininha, consegui produzir todos os cappelletti de que precisava. 
  5. Uma vez que você faça os cappelletti, deixe-os espalhados em uma assadeira polvilhada com farinha, sem se encostarem, para que sequem, e comece tudo de novo com o restante da massa. Você pode deixar os cappelleti secando ali em temperatura ambiente pelo dia todo até a hora de cozinhar. Eles têm menos risco de se abrirem no cozimento se tiverem secado um pouco. Ao final, você deve ter cerca de 200 cappelletti.
  6. Na hora de servir, leve o caldo à fervura. Com cuidado, coloque os cappelletti, que não devem demorar mais que 3 minutos para cozinharem, mas vai depender da espessura da massa e do quanto secaram. Vá retirando um e testando. Quando estiverem cozidos, leve à mesa IMEDIATAMENTE e sirva com parmesão ralado.
No dia seguinte, aquela bagunça de criança e presente, café da manhã, e mal deram onze horas e começamos a petiscagem. Minha família é do petisco, do antipasto, do acepipe, do cicchetti, dos tapas, e a gente consegue ficar no pãozinho com qualquer coisa em cima o dia todo e pular almoço e jantar. E era esse o objetivo: petiscagem até o meio da tarde, para só colocar o assado no forno para o fim do dia. 
Eita, foto fora de foco!
Servi salames e presuntos, incluindo um exótico salame de alce com mapple syrup que comprara especialmente para meus pais. Brinquei que mais canadense que salame de alce com mapple, só se o alce tivesse sido morto por um lenhador canadense barbudo, usando camisa de flanela e chapéu de guaxinim. Servi também patê de fígado de frango, que é um clássico familiar, uvas, tomates, queijos e castanhas. E vinho. E caipirinha, claro. As crianças passaram o dia petiscando junto, entretidas com seus presentes, e sobrou para os adultos a arte da conversação.

O jantar principal foi simples, um lombo assado com batatas e uma salada de folhas amargas com maçã, que eu já tinha tido trabalho o bastante no dia anterior. Sobremesa foi uma torta de peras e chocolate que prometia muito mas não achei aquilo tudo não. 
Passado o Natal, vêm os passeios no parque, no museu, almoço aqui e ali, e pronto, que já é Ano Novo! Recebemos um casal de amigos que trouxeram um Caldo Verde para complementar a já sabida petiscagem, repeteco do Natal, acrescida de guacamole com tortillas e uma quiche de brócolis que acabou sobrando inteira para a ressaca do dia seguinte. Brownie com sorvete sempre dá conta do recado com a criançada (e com os adultos), e foi uma noite maravilhosa, com karaokê improvisado e todo mundo acompanhando Bon Jovi e Backstreet Boys com Kazoos, e dobrando no chão de tanto rir. Tem que ser criativo em Reveillon canadense, que aqui mal se soltam fogos e ninguém "vai pra Paulista" nem pula sete ondinhas a doze graus negativos.

Os dias que se seguiram exigiram criatividade também. Que eu programara diversos passeios que dependiam dos trocentos centímetros de neve que sempre caem no início de janeiro. Mas o que tivemos (e continuamos tendo) é um inverninho mixuruca, ameno e chocho, sem neve nem dia bonito, com muita chuva que vira gelo na calçada e tempo cinza-depressão. Daí que nada de fazer snow-shoeing, nada de descer barranco com trenó, nada de boneco de neve no parque. Pelo menos teve um dia, antes do lago descongelar, que, de confiança alimentada pela marca de passos sobre a neve antiga depositada no lago, fomos Allex, meu pai e eu caminhar por sobre o lago congelado. Que afinal, se você vai para um lugar em que um lago inteiro vira uma pedra de gelo, não dá pra perder a oportunidade de ficar em pé em cima dele, mesmo que morrendo de medo de cair lá dentro e virar picolé. 

Meu pai trouxe os tênis de corrida, depois de eu muito insistir durante o ano todo, e foi uma das coisas mais legais que fiz poder correr 9km do lado dele, ao longo do lago, em temperatura negativa. Orgulho do papai! Setenta anos e firme e forte, melhor que muito amigo meu de quarenta!
Teve uma nevinha nos últimos dias, quase prêmio de consolação. E meus pais pelo menos puderam passear no parque e ver como fica lindo assim branquinho. Foi minha mãe quem se animou a descer no meio da noite quando a neve caiu mais forte e brincar de snowball fight. Bando de adulto de pijama na frente do prédio rindo e tomando bola de neve na cara, e canadense passando por nós com aquela cara de quem não entende o por quê de tanta alegria. 

Alegria foi também levar minha mãe no The Rex, o bar de jazz mais antigo de Toronto. Com cara de de pub velho atrás de igreja, lotado da terceira idade no domingo na hora do almoço, surpreendeu pela qualidade da banda. Uma banda igualmente composta por gente que passou por duas guerras, tocando um Dixieland delicioso, num show animado e divertido por três horas. De deixar o sorrido no rosto até doerem as bochechas. Acho que nunca vi minha mãe tão contente, e esse foi para mim o ponto alto da visita toda. 
Quando eles foram embora bateu aquela depressão, a casa vazia e não saber quando vou vê-los de novo. Eles voltaram para o Brasil no mesmo dia em que as crianças voltaram para a escola e Allex para o trabalho, e de repente eu estava sozinha, olhando para a cara do cachorro. Vou retomar minha rotina, pensei. Corrida, meditação, pintar feito louca, procurar um novo lugar de exposição, terminar meu livro, montar minha loja no Etsy, participar daqueles concursos, fazer aquelas aulas. 

Só que não. 

Passou Ano Novo, tem aniversário da Laura. SETE ANOS. Mamãe, quero chamar minhas amigas.

E lá vou eu. Mamãe, no dia do meu birthday, quero levar a sopa da vovó de almoço na escola. E de jantar, quero cachorro-quente do papai, aquele na churrasqueira. E bolo de chocolate. E na minha festa quero pão de queijo, pipoca e cupcake de baunilha. E quero almoçar no japonês. 

Tinha que ser minha filha, só pensar na comida do aniversário.

E lá fui eu passar minha semana fazendo bolo, cupcake, comprando coisa pro cachorro-quente, lembrancinha pra escola, lembrancinha pra festinha, balão pra encher, bandeirinha pra pendurar, e o tal do kit de pintura de rosto que ela andava pedindo pra ter no aniversário dela desde o ano passado. 

Contei que também tinha trabalho encomendado pra entregar essa semana?

E que o marido ficou doente de cama um dia todo? 

Pois é. 

Veio aniversário e deu tudo certo e ela ficou felicíssima com tudo. Festa aqui no Canadá é super simples e dura duas horinhas, mais playdate que festa. Pão-de-queijo, pipoca, cupcake e suco de laranja. Pintei o rosto da criançada toda (os meus mais quatro amigas da Laura) de tudo quanto é bicho, e já vi que se tudo der errado na vida, ainda posso ganhar uns trocados fazendo face-painting em festa infantil. Talento escondido, olha só! 

Janeiro prosseguiu assim, comigo tentando voltar para a rotina e alguma coisa aparecendo pra não me deixar. Teve coisa boa, como uma viagem rápida para Ottawa, e teve coisa ruim, como a escola estar em greve por conta dos cortes na educação que o Ford, nosso digníssimo governador de direita, andou fazendo e que não anda agradando ninguém. 

E agora escrevo assim correndo, enquanto as crianças estão no banho, porque amanhã tem greve de novo, e se fosse deixar esse post para outro momento mais calmo, ele sairia apenas em março. Ufa!

A sopa da vovó é uma canja com arroz e legumes e peito de frango que comi durante a vida toda. E que aqui ocasionou grandes mudanças, pois depois de enviá-la de almoço na escola, as crianças FINALMENTE voltaram a comer COMIDA no almoço e não sanduíche. Isso me facilita horrores a vida, pois é só requentar o jantar do dia anterior e colocar na marmita deles, ao invés de ter de ficar inventando moda e me estressando com o valor nutricional do pão com queijo. 

A sopa da vovó que a vovó faz fica mais soltinha, mais líquida, e mais clarinha, pois ela usa peito de frango. Eu que já tinha caldo de frango feito e todas as aparas da carcaça que eu usara o caldo (depois de cozinhar a carcaça saio tirando todo fiapinho de carne cozida dela, e você junta bem umas duas xícaras de frango desfiado), fiquei com dó de botar o peito do bicho na sopa e resolvi guardar para fazer filés. O caldo deixou a sopa mais dourada (e igualmente gostosa, ainda que mais forte.) Também errei na quantidade de arroz, que achei que era muito pouco, e a sopa quase que virou risotto. Hahah!Ainda assim, foi devorada, com parmesão ralado por cima e croutons, que é como os netos sempre comeram na casa da vó.

Prometo voltar mais rápido na próxima vez. ;) Obrigada a quem lê, por continuar por aqui.



SOPA DA VOVÓ
(A canja da minha mãe é daqueles pratos feitos a olho, com o que sobrou na geladeira, então todos os ingredientes são adaptáveis em quantidades. Quanto rende? Rende no mínimo para quatro pessoas.Você pode cozinhar o arroz direto na sopa, desde que fique de olho pra que ele não passe do ponto - você não quer que ele desmanche, apenas que fique macio. Nesse caso use 1/3xic. arroz branco cru quando as cenouras estiverem já macias e acrescente 1 xícara de água à panela para compensar a absorção de líquido do arroz. Se quiser trocar o arroz por um macarrãozinho pequeno pra sopa, pode. Se quiser não usar nem o arroz nem o macarrão, também pose. Se vc já tiver frango desfiado na geladeira, ótimo: refogue com os legumes para dourar um pouquinho, e use a cenoura ralada grossa para acelerar o cozimento.)

Ingredientes:
  • azeite de oliva 
  • sal e pimenta do reino
  • Meio peito de frango, cortado em 3 ou 4 pedaços (para cozinhar mais rápido)
  • 1 cebola, picada
  • 1 cenoura, descascada e cortada em cubinhos bem pequenos
  • 2-3 batatas médias cortadas em cubinhos 
  • 1 xícara de arroz branco JÁ COZIDO
  • salsinha picada
  • queijo parmesão ralado e croutons para servir  (minha mãe doura os cubinhos de pão em azeite e orégano)

Preparo:
  1. Numa panela grande, aqueça um fio de azeite generoso, em fogo médio, e refogue a cebola e a cenoura com uma pitada de sal até que comecem a dourar. 
  2. Junte o frango, dourando todos os lados, e temperando com sal e pimenta conforme for pegando cor. 
  3. Junte a batata, remexa algumas vezes, e então junte água suficiente para cobrir o frango e os legumes, cerca de 6 xícaras. Leve à fervura, abaixe o fogo e cozinhe por trinta a quarenta minutos. 
  4. Cheque o frango. Se ainda não estiver cozido por dentro, volte para a panela e continue cozinhando. Se já estiver bom, retire os pedaços da panela, coloque na tábua e desfie com a ajuda de garfos.
  5. Volte o frango desfiado para a panela, mexa algumas vezes e acerte o tempero. Cheque as cenouras e as batatas, que devem estar bastante macias, quase derretendo. Se já estiver tudo bom, junte o arroz já cozido, misture bem, deixe cozinhar por mais uns cinco minutos e acerte o tempero. A sopa pode ficar mais rala ou mais consistente, dependendo da quantidade de líquido. Acerte isso também, a seu gosto, lembrando de corrigir o tempero. (Minha mãe costumava usar um amassador de batatas para espremer as cenouras e as batatas, e até um pouco do frango junto, para servir uma sopa mais cremosa quando meus filhos eram bem pequenininhos.)
  6. Junte a salsinha, misture e sirva imediatamente com croutons e parmesão ralado por cima. 
 MINHA ADAPTAÇÃO: como eu tinha já uns dois litros de caldo de frango e umas duas xícaras de frango desfiado da carcaça da preparação do caldo, refoguei os legumes, o frango, juntei as batatas e cobri com o caldo. Quando os legumes estavam macios, juntei o arroz. Meu pecado foi colocar arroz demais, pois havia bastante caldo e achei que a sopa ficaria muito rala. Mas o arroz absorve bastante líquido, e a sopa terminou mais cremosa do que eu pretendia. Com o caldo de frango, a sopa fica com um gosto mais forte. A sopa da minha mãe tem um gosto mais delicado.

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