quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Como acalmar fantasmas com um prato de gnocchi

"E o que vai ter de jantar?, perguntou Thomas.

"Gnocchi", respondi, ao que Laura torceu o nariz. "O que foi, criança?"

"Não gosto de gnocchi. A textura, sei lá, eu não gosto."

"Faz um esforço, então, amor? Porque não vai ter outra coisa. O jantar é só gnocchi."

"Eu vou experimentar. Mas eu não sei se vou comer."

"É gnocchi com o quê?", Thomas perguntou.

"O que o quê? Você quer dizer o molho? Gorgonzola."

"GORGONZOLA!!!", os dois exclamaram, animados, em uníssono.

"E pedacinhos de bacon."

"BAAAACOOOOON!!!", de novo.

"Tá vendo? Vocês vão gostar. Era para ser Pancetta no lugar do bacon, mas vai bacon mesmo, que eu não achei pancetta. Só preciso ver se vai dar certo. Faz tempo que a mamãe não faz gnocchi, e existe sempre a possibilidade de zoar tudo. Aí nesse caso a gente inventa outra coisa."

"Ah não", disse Thomas. "VAI DAR CERTO! Eu quero MUITO comer gnocchi com gorgonzola e bacon!"

"Eu também", afirmou Laura. 

Nada melhor que pressão extra na cozinha.

"Tá bom, tá bom.Vão brincar." 

Enquanto eles corriam ao quarto para prosseguir com seus impulsos infantis, apanhei as batatas firmes, pesadas, ásperas, de um cor-de-rosa de telhas empoeiradas de chalés franceses, e comecei a colocá-las na panela de inox repleta de água fria. Gosto de mergulhar os dedos no sal granuloso para lhe roubar um punhado gordo, quando preciso de água do mar envolvendo minha comida. A brincadeira das crianças desapareceu no silêncio daquela tarde cinza, e o toque da panela pesada sobre o vidro do fogão ecoou como numa casa antiga, sozinha na floresta. Minha respiração era o vento soprando nas folhas lá fora, e as interações modernas com embalagens plásticas e geladeira eram todos movimentos invisíveis e automáticos de quem se deixa transportar ao passado, sem nunca sair do lugar.

Vejo minhas batatas cozinhando numa cozinha comprida, de janelas grandes, que deixam entrar a luz clara do céu encoberto de branco, que às vezes incomoda meus olhos infantis. Minhas mãos pequenas estão sobre a mesinha de fórmica, desenhando com as pontas dos dedos na farinha que se derrama do saco. A beirada da cadeira de madeira corta a circulação de minhas pernas, que balançam em direção ao chão. Gosto daquele chão. Ele me provoca uma agradável confusão sensorial. Gosto dos azulejos azul-cobalto, na forma de barras de ouro, do tamanho de barras de chocolate, imaculadamente limpos, foscos, que sempre me parecem feitos de veludo quente. Eles são gelados, duros e lisos, quando estico uma das pernas para acariciá-los com as pontas dos dedos do pé. Eu sempre sei que serei enganada. Mas gosto de acreditar que serão de veludo. Gosto da alegria do microssegundo entre a fantasia e a realidade que precede o choque.

Pisco uma, duas vezes.

Vejo minha avó sentada à minha frente. Ela parece mais frágil e doce do que a mulher dura e ríspida que conheci na infância. Suas roupas antigas, que antes cobriram um corpo roliço e orgulhoso, agora pendem como num cabide do armário de alguém que se foi. Abro meu caderno de receitas naquela mesa de fórmica e presto atenção à sua voz trêmula e arranhada. Seus olhos são redondos e brilhantes como os meus. Três batatas grandes.Um ovo. Farinha quanto baste, eu rabisco no meu caderno. A imprecisão de quem cozinha com as mãos. Beijo as rugas de seu rosto gelado quando me levanto para ir embora. Meus pés adultos firmes no chão de veludo. Há uma poeira fina sobre os azulejos azuis que nunca mais vou ver.

"Mamãe! Como está indo o jantar?"

Desperto. Thomas está ao meu lado, observando enquanto meço a farinha.

"Oi, amor. Está indo bem!"

"Ótimo! Porque você sabe que eu gosto da minha comida bem feita!", ele explica, dedo em riste, olhos fechados, como quem faz um discurso. Rio alto. Imagino aquela cena em forma de cartum. 

"Podexá, Thomas, vai ficar uma delícia!"

Um sorriso macio persevera em minha boca enquanto sigo seus passos até a estante de livros. Ele escolhe um volume do Asterix que acredita ter lido menos vezes que todos os outros, e se abandona no sofá, escondendo o rosto atrás do livro.

Apanho a panela pelas duas alças laterais. Há um estranho conforto em segurar uma panela pesada com as duas mãos. Algo de preparar comida que alimenta para pessoas com apetite. As batatas, já escorridas, deixam escapar um vapor espesso que queima minhas narinas quando me aproximo para sentir seu aroma. Uso as pontas dos dedos para movê-las da panela quente para o passa-verdura. A pele de minhas mãos já não sente a temperatura como antes. Ela é resistente, mas fina como papel, como a de minha avó. Não me lembro de minha avó materna preparando gnocchi. Só os adultos podiam entrar na cozinha. Mas lembro do pratinho fundo de plástico cor de laranja dos anos 70, fumegando aquele mesmo vapor intenso, enquanto era carregado pela mão de minha mãe até a mesa das crianças. Lembro do molho de tomate grosso sobre as bolotinhas brancas. Lembro do cheiro. Houve o dia em que preparei favas brancas no forno com molho de tomate, e o perfume daquele molho,aquele molho aquecido no forno, tinha exatamente o cheiro do gnocchi no pratinho de plástico, e eu chorava sozinha na cozinha sem saber por quê.

Retirar o passa-verdura de cima da tigela é como abrir a tampa de um minhocário, revelando as minhocas de batata amontoadas, entrelaçadas, ainda despencando uma sobre a outra devagar, num movimento lento mas repentino. Minhas avós usavam ovos no gnocchi. Talvez porque não tivessem acesso à batatas secas de que precisavam, talvez porque a farinha não fosse de boa qualidade, talvez porque tenham aprendido assim, e aquelas do passado raramente questionavam. Num ímpeto de rebeldia que posso ter, e consciente da aridez do ar do outono canadense, decido não usar nenhum, correndo o risco de minha ousadia ser punida pelos fantasmas que me cercam.

A alegria infantil de jogar comida da tigela sobre uma bancada. De espalhar farinha como areia na praia. De mexer em batatas como se fosse massinha. Cozinha italiana traz felicidade porque o cozinheiro brinca com a comida. 

"A gente vai comer gnocchi", eu costumava dizer às crianças quando eles eram pequenos, na expectativa de que eles achassem que eu falava do cachorro. Mas eles sempre foram mais espertos que minha brincadeira sem graça. Dou-me conta de que a brincadeira não faz mais sentido.

Chacoalho a cabeça com força, tentando apagar aquele pensamento como quem deleta um desenho de um Traço Mágico. 

"Posso fazer também, mamãe?", Laura pergunta, ao me ver rolando a última parte de massa sob as palmas. Eu não me dera conta de sua aproximação, e me atrapalho para responder, como se convidada de repente a um compromisso que não quero ir. Meu primeiro impulso é dizer não. Não pode. Quero terminar isso logo.Quero que saia perfeito. Então respiro. "Então, posso? Por favor!", ela repete, num sorriso largo de dentes de leite que faltam e permanentes surgindo, olhos brilhantes por trás das lentes dos óculos. 

"Você quer aprender a rolar os gnocchi no garfo?", pergunto. 

"Como assim?"

"Eu te mostro. Vamos só testar o gnocchi para ver se ele está bom, antes de cortar tudo."

Corto a ponta de uma das serpentes de batata e a solto na água que borbulha gorda e lenta feito lava num vulcão, com um sonoro e gratificante PLOC!. Um sacrifício aos antepassados. A certeza de que não serei punida por ter deixado os ovos de fora. O gnocco solitário descansa no fundo do vulcão. Quando desiste de lutar batalhas terrenas, sua alma leve sobe à superfície e é resgatado por minha paciente escumadeira. Corto o gnocco ao meio. Ele resiste por um microssegundo à faca, como um marshmallow. Experimento. Perfeito.

"Por que você fez isso, mamãe?"

'Porque se esse pedacinho não ficasse bom, ainda dava tempo de juntar tudo aquilo de novo e corrigir a textura. Botar mais farinha, ou ovo. Mas se você cozinhar tudo de uma vez sem testar, e estiver ruim, você vai ter um enorme prato de gnocchi ruim de jantar."

"Ah tá."

Pensei na minha travessa de cerâmica francesa, branca, na minha cozinhazinha, minha "cucinetta", repleta de gnocchi desmilinguidos,desmanchando dentro de um molho ralo, como quando o purê de batatas aguado da cantina escolar da minha infância se misturava ao molho de tomate ácido que escorria da carne moída em meu prato.

Laura adora o movimento rápido e ritmado do cortador de massa contra a bancada. Plac, plac, plac. E os travesseirinhos de massa saltam para o lado. "Agora você faz assim", explico, apanhando a parte de trás do garfo e pressionando o travesseiro com o dedão contra os dentes. "Agora você rola assim, rápido e apertando só o suficiente para ele ficar marcado."

"Pra ficar mais bonito?"

"Também. Mas é para o molho grudar melhor. Minha avó, a mãe do vovô, tinha um ralador de queijo que era aberto, não era que nem o nosso, e ela usava a parte detrás do ralador ao invés do garfo. Aí os gnocchi ficavam cheios de bolinhas."

"É assim?", ela repete o movimento. 

"Perfeito. Thomas! Quer fazer também?"

Ele pula do sofá e vem ajudar. Corto o restante da massa enquanto eles passam os pedacinhos nos garfos, às vezes perfeitamente, outras nem tanto, muitas vezes transformando os gnocchi em formas compridas que os faz parecer parafusos. Talvez um dia eles lembrem de como a farinha branca na bancada de pedra cinza parece neve polvilhada sobre um lago congelado.

As crianças vão para o banho enquanto arrumo tudo, recolhendo a neve do lago, enquanto os gnocchi descansam um pouco numa assadeira grande, secando. Douro pedaços de bacon na panela vermelha. Eles não fazem parte da receita do molho, mas fazem parte da memória. Do prato de gnocchi al gorgonzola que comi em minha primeira noite em Florença. O prato que me trouxe conforto depois de um dia de intempéries e impropérios. 

Retiro o bacon para um pratinho e preparo o molho de gorgonzola como de costume, na mesma panela, não sem antes recolher o excesso de gordura do bacon para uma tigelinha, a ser usada para saltear legumes depois. Aprendi a gostar de gorgonzola com uma amiga que tive na infância, que também me mostrou discos de corais búlgaros e as histórias da Vertigo. Mas foi na Itália que provei o queijo em forma de molho. O perfume pungente do queijo aquecido, esmagado pela colher de pau, leva-me àquela noite em Florença, o último dia dos meus vinte e quatro anos, e há uma alegria quente em meu peito quando começo a finalizar o prato. Quando os gnocchi sobem à superfície da água quente e eu os transporto carinhosamente ao molho. 

"Tá vendo, Laura? Quando o gnocchi sobe assim, é porque está pronto. Que nem Spätzle."

"Eu também não gosto de Spätzle, mamãe."

"Eu sei Laura, você faz os dois lados da família rolarem no túmulo: o alemão e o italiano. A parte boa é que todo mundo fica ofendido igual."

Mas a alegria é momentaneamente interrompida quando me dou conta de que a porção de gnocchi não é tão farta quanto eu esperava. Há algo de errado na receita. Era para ter gnocchi para seis pessoas, e essa panela alimenta apenas quatro, male male

Preparo uma salada rápida de rúcula e tomates. Pronto. Problema solucionado. Alegria de volta.

Não tenho tempo de fotografar a panela na mesa antes que as crianças comecem a se servir. 

"O jantar saiu direitinho, Thomas?", brinco, enquanto faço a foto às pressas do meu prato sob a luz do abajur.

"É o melhor gnocchi da minha vida!", ele diz. Tudo para Thomas é sempre o melhor ou o pior da vida dele.

"Gostou, Laura?"

"Eu adorei! Esse gnocchi tá muito bom! Esse você pode fazer. Mas só esse. Os outros não."

"Só tem um defeito", Allex diz. 

"Tem pouco, né?", admito.

"Exatamente."

Jantamos enquanto lhes conto sobre a noite em que comi aquele prato, sozinha, do outro lado do mundo. Imagino nós quatro andando pelas ruas de Florença, à noite, num futuro qualquer. Imagino Thomas pedindo gnocchi al gorgonzola numa osteria escolhida ao acaso. Pergunto-me se ele vai fechar os olhos e, perdido no perfume do queijo fumegante do prato que o garçom lhe coloca à frente, vai lembrar de seus dedos finos rolando a massa de batatas sobre o garfo na cozinha de sua infância em Toronto. 

...

GNOCCHI AL GORGONZOLA (com ou sem bacon)

(do livro Fundamentos da Cozinha Italiana Clássica, de Marcella Hazan)

Rendimento: a receita original diz 6 porçôes, mas são 4, se você tiver um acompanhamento, ou 3 como principal).

Ingredientes:

  • 675g batatas, de preferência as de casca cor-de-rosa, que têm menos umidade
  • 1 1/2 xic. farinha de trigo

 (molho)

  • 115g queijo gorngonzola, em temperatura ambiente
  • 1/3 xic. leite
  • 3 colh. (sopa) manteiga
  • 1/2 xic. creme de leite fresco
  • 1/3 xic. parmesão ralado na hora e mais para ser levado à mesa
  • 3 fatias de bacon, cortado em tirinhas no sentido da largura (opcional)

NOTA: o molho é bastante para seis porções de gnocchi (ou de macarrão, 100g de massa crua por pessoa). Caso queira aumentar a receita, use 1/2 xic. de farinha para cada 225g de batata. Para quatro porções fartas eu pretendo aumentar para 800g de batata e 2xic. de farinha da próxima vez.

 

Preparo:

  1. Coloque as batatas inteiras na panela (procure usar batatas que sejam mais ou menos do mesmo tamanho, para que fiquem prontas ao mesmo tempo). Cubra de água fria com sal e leve à fervura. Cozinhe até que um garfo entre facilmente nas batatas, mas sem que se desmanchem. 
  2. Escorra bem as batatas e volte-as à panela quente, com o fogo desligado, para que o restane de umidade evapore completamente. 
  3. Passe as batatas num passa-verdura com os discos menores, ou num amassador de batatas. Não se incomode em descascar. A maior parte das cascas vai ser separada pelo próprio aparelho, ou dará sabor ao gnocchi. As cascas que forem moídas junto das batatas não ficam visíveis.
  4. Misture metade da farinha ao purê de batatas quente com uma colher. Despeje na bancada a mistura e comece a acrescentar o restante da farinha aos poucos. Aí é que entra a mnha avó e o "farinha quanto baste". O ar com 30% de umidade de Toronto no Outono, mais as batatas bem secas, fez com que bastasse 1 xic. de farinha para o gnocchi pegar ponto. No verão úmido talvez precisasse de mais. Dependendo das suas batatas e do quanto elas cozinharam, isso também pode mudar. Acrescente farinha sempre aos poucos, e vá sovando. Você quer uma massa que sove facilmente, mas que ainda grude ligeiramente nos seus dedos se você afundá-los na massa com vontade. Minha massa estava naquela linha tênue de ainda estar úmida mas começar a desgrudar sozinha da bancada. Você pode acabar usando menos farinha do que o necessário, ou um pouco mais. O importante é o ponto. Só cuidado, pois excesso de farinha torna os gnocchi pesados.
  5. Divida a massa em três ou quatro partes e role sob as palmas das mãos, como quem faz cobrinhas de massinha, polvilhando farinha na bancada se necessário. (Caso a sua massa já não esteja grudando muito, não polvilhe farinha, ou a massa vai escorregar ao invés de rolar, e você vai ter mais trabalho pra formar as cobrinhas). Os cilindros de massa devem ter mais ou menos 2,5cm de largura. Com uma faca ou raspador de massa, corte um pedaço de mais ou menos 2cm. Cozinhe-o em água fervente com sal até que ele suba à superfície. O gnocco deve ser retirado imediatamente. Experimente. Ele deve resistir à mordida apenas o suficiente para então se desmanchar enquanto você mastiga. Deve ser leve e macio. Se o gnocco estiver se desmanchando na água ou se desmilinguir na escumadeira, pare tudo, junte a massa toda de novo e acrescente um ovo à massa e um pouquinho de farinha se necessário. Sove novamente, divida e role as cobrinhas de novo.
  6. Corte todos os gnocchi com 1,8-2cm de tamanho. Um por um, role-os nas costas de um garfo, pressionando a massa com o dedo, rolando-o para fora do garfo, como quem tenta separar duas folhas de papel esfregando uma na outra. O gnocco deve ter uma cavidade de um lado e as marcas do dente do outro. Alguns vão ficar lindos e outros uma droga,mas todos vão ficar gostosos. ;) Polvilhe os gnocchi com farinha para que não grudem e deixe que descansem e sequem enquanto você deixa o molho pronto.
  7. Quando o molho estiver pronto, leve uma panela funda e larga com abudante água salgada à fervura e separe uma travessa aquecida que comporte todos os gnocchi. Quanto mais larga a panela melhor, pois você pode cozinhar mais gnocchi de uma vez. Quando a água ferver, coloque nela uma parte dos gnocchi. Imediatamente após subirem, retire-os com uma escumadeira. (Vá testando: se tiverem gosto de farinha, precisam ficar mais alguns segundos, se estiverem desmanchando, retire-os um pouco antes.) Vá colocando os gnocchi cozidos na travessa, cobrindo com uma parte do molho e polvilhando parmesão. Prossiga até que todos os gnocchi estejam cozidos e recobertos de molho. 
  8. Polvilhe com o bacon dourado, se estiver usando e sirva. Como é um prato pesado, uma salada de folhas amargas para acompanhar é mais do que benvinda.

(molho)

  1. Caso esteja usando o bacon, coloque as tirinhas numa frigideira fria e ligue o fogo médio-forte, sem nenhuma gordura extra. Mexa às vezes para que dourem por igual. Retire com uma escumadeira para um pratinho, quando estiverem dourados e crocantes. Escorra a gordura num potinho e leve à geladeira para usar em outro preparo no lugar da manteiga ou azeite.
  2. Para o molho, coloque o queijo esmigalhado, o leite e a manteiga  em uma frigideira. A minha é grande o bastante para comportar os gnocchi. Caso não seja o seu caso, na hora de preparar os gnocchi, tenha à mão uma travessa aquecida grande o bastante para os gnocchi e o molho que você retirar da frigideira. Leve ao fogo baixo. Misture e amasse o o queijo até que se dissolva completamente. Cozinhe por um minuto ou dois até que fique denso e cremoso. Junte o creme de leite e cozinhe, em fogo baixo, até que o creme reduza um pouco. Desligue o fogo e experimente. Acerte o sal, se necessário.


segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Soufflé de terça-feira

Faltava me deixar ir. Faltava soltar das beiradas, para aprender a nadar. Antes de nadar, às braçadas, com intenção, é preciso aprender a boiar.A flutuar por cima da água, à deriva. É preciso aprender a soltar bolhinhas embaixo d'água, saber relaxar quando submersa, saber como manter os pulmões plenos de calma antes do momento de vir à tona.Você pode atravessar toda uma piscina se agarrando firme à boias coloridas que separam as raias. Mas não está nadando. 

Tenho me deixado boiar. Solto as beiradas, relaxo, fecho os olhos, sinto a água passar por mim. A água da chuva fina que pinga das beiradas do capuz, pingando na ponta do meu nariz, enquanto caminho sem pressa por uma trilha do parque escolhida ao acaso. 

É segunda-feira. As crianças foram entregues à escola, e, nos segundos que meus passos levam para me afastar do movimento de pais e filhos, escolho um caminho para me levar à biblioteca, onde pretendo apanhar o livro que encomendei, e devolver uns outros já lidos. O céu encoberto pesa sobre a cidade, mantendo por sobre todos os sujeitos e objetos um predicado melancólico. Ninguém que não precise está do lado de fora. Quando meus pés me levam a uma das entradas do parque, dou-me conta de que sou a única ali que não tem um cão para passear.

Eu me passeio. Passeio lobos e coiotes dentro de mim. Passeio Cérbero e rio de suas três cabeças farejando esquilos. Passeio o espírito amoroso de Gnocchi.


Flutuo na floresta. Deixo ela passar por mim. Os sentidos transbordam, e minha mente começa a buscar palavras para organizá-los. Paro sob um galho grosso de carvalho, de folhas da cor de um vinho antigo, e, protegida das gotas mais gordas da chuva intermitente, escrevo aquelas impressões num aplicativo de notas do celular. 

A sensação de criar é de alívio impaciente, como o prazer paradoxal de se enfim arrancar uma farpa do dedo. Alívio de ter arrancado aquilo de dentro de mim. 

Demoro uma hora para chegar à biblioteca. Sei disso, porque a agitação da rua obriga uma parte minha a afastar a manga do casaco e olhar o relógio, num movimento automático e sem intenção. Pavlov na vida civilizada. 

Máscara, hand-sanitizer, good morning, cheiro de livros, o apito agudo de um código de barras escaneado, hand-satinizer, have a good day, vento gelado, chuva no rosto, alívio de estar sem mordaça.

Olho em volta. Procuro um café, mas estão todos fechados nesta manhã de segunda-feira de chuva. Suspiro. Começo a voltar para casa, devagar. Vou preparar mais um cappuccino quando chegar em casa. E uma torrada com manteiga. A caminhada me abriu o apetite outra vez. Minha boca enche de água antecipando o pão quente e o cheiro do café. Minha mente está confinada em suas paredes agora, e eu paro de olhar em volta. Penso num texto escrito para uma aula, em que descrevo a rotina de uma escritora ideal. Lembro dessa ideia absurda que eu tive um dia ter uma rotina tão fechada, tão rígida, tão controlada e inflexível, que viria a me tornar absolutamente miserável, estagnada e calcificada por dentro, aprisionando toda a minha criatividade em calabouços quase inalcançáveis. 

Flâneur. Descubro essa palavra e anoto num papel colado à parede. Gosto de como ela soa quando dita em voz alta, arrastando o r no final até que ele se dissolva, como os vapores de um chá. Soa como "planar". 


Eu fui especialista em planar um dia, atravessando as horas feito um fantasma habitando o sistema. Largara os empregos das nove às seis para ser dona de meu tempo. Trabalhava rápido. Criava meus prazos de forma que comportassem minha vida. Levava o laptop para o clube. Desenhava numa mesa de um café. Preparava meus almoços com calma, e tirava a tarde para longas caminhadas por outros bairros, durante as quais eu deixava a mente relaxar e buscar as soluções gráficas para os logotipos e embalagens que precisava entregar aos clientes. Preparava um bolo quando acabava a luz. Visitava o MASP numa terça à tarde. Desenhava gansos no Ibirapuera na quinta de manhã. Tirava uma tarde inteira para parar tudo e maratonar No Reservations, do Anthony Bourdain. 

Você não está trabalhando?, alguém me perguntava. Estou sempre trabalhando, eu respondia. Estou formando ideias. Quando sentar em frente à prancheta, vou precisar de só quinze minutos para colocá-las no papel. 

Papo de louco.

Trabalho era entregue. Contas, pagas. A vida era minha. Mas apenas minha. Planava solitária. Todos à minha volta trabalhavam dez horas por dia em escritórios de multinacionais ou doze horas por dia na criação de agências de publicidade. Eu dançava em descompasso com a música. A louca que valsa na pista cheia da balada eletrônica. Tenho memórias vívidas de quando assisti ao filme O Diabo Veste Prada. Aquela rotina insana de trabalho mentia um glamour aliciante. Acreditei que aquela era a vida dos meus amigos. 

A tragédia de ser jovem e não ter a firmeza de sua convicção. Boiar por muito tempo, e, ao levantar a cabeça da água, perceber que está sozinha na piscina. A balada acontece em terra firme. E na superfície, ela parece mais divertida. "Estou trabalhando tanto, que não tenho mais tempo para nada". As palavras deixam seus lábios antes que você perceba. A onda de aprovação que se segue te arrasta para o fundo. E você percebe que não sabe mais soltar bolhinhas embaixo d'água, quando começa a dizer por aí que anda muito "produtiva".

A mais fácil síndrome de Estocolmo da modernidade é aquela causada por nossa própria insegurança em seguir nosso caminho quando ele parece solitário. Como um passarinho que entra voluntariamente na gaiola porque tem medo da amplitude do céu. Um peixe que prefere o aquário lotado ao mar.

Ironia das ironias que as paredes do meu aquário tenham se rompido num ano de quarentena. Mas aceito de bom grado o complexo senso de humor do universo.

"Rotinas rígidas matam você por dentro", disse uma pessoa linda que fez meu mapa astral de presente, sem saber que o presente que ela me dava era o da validação de uma sensação que me queimava por dentro: as rotinas que eu me criara me traziam mais medo, mais insegurança, mais controle, e me mantinham afastada da minha natureza. Sentar em frente ao computador em horário comercial não me tornava mais produtiva, mas produzia mais medo da página em branco. Entregar um trabalho não era mais o sinal de que eu podia relaxar e ler um livro, mas era o estopim da angústia por não ter outro trabalho a entregar logo em seguida. 

"Flâneur", declamo, no meio da rua, para mim mesma, despertando de meu torpor autoanalítico, enquanto me aproximo da portaria do prédio. Máscara, elevador, chaves tilintando e estalando a fechadura. Aaaah, fora mordaça. Lavar as mãos. Muito bem. Largo meu novo livro sobre a mesa e abro o laptop. Corto o pão enquanto a máquina de café faz seus barulhos. Hmmmm... café. Meu computador pisca 10:15AM na tela, como se fosse uma informação relevante. 

Num movimento rápido e desajeitado, viro o corpo na água, e começo a nadar. Braçadas firmes, decididas. Aprecio a poesia da manteiga quente escorrendo pelos furinhos do pão em direção ao prato. Um gole farto de cappuccino. Lambo automaticamente a espuma que se prende aos lábios. E começo a escrever uma história que deveria ser a respeito de preparar um soufflé doce numa noite de terça. Que não parece ser, mas é. E eu sei que esse texto parece uma louca valsando numa pista de balada eletrônica. Mas soufflé de terça tem esse gosto. Soufflé de terça tem perfume de gente que caminha sem pressa pela rua agitada. Soufflé de terça é leve como uma nuvem, quando a gente pára no meio da floresta para olhar para cima. É doce como se permitir ser quem você é sem nunca mais pedir desculpas. 

...

Lembre-se: quem produz é fábrica. Eu sou um ser vivo. Ser e viver bastam para validar uma existência. 

SOUFFLÉ DE QUEIJO CREMOSO e calda de amoras

(Do livro Pure Dessert, de Alice Medrich)

 

Ingredientes:

  • 1 xic. de queijo Quark (queijo Quark tem gosto e textura de Labneh, aquele queijinho que a gente obtém quando deixa o iogurte sorando até ficar bem espesso. Acredito que o Quark possa ser substituído bem dessa forma)
  • 3 ovos grandes, separados
  • 3 colh.(sopa) farinha de trigo
  • 1/8 colh (chá) sal
  • 1 colh. (chá) extrato de baunilha
  • 1/8colh (chá) cremor tártaro (o cremor tártaro é um pó branco ácido, usado para estabilizar as claras. Pode ser susbtituído por uma colher (chá) suco de limão ou vinagre)
  • 1/4 (xic) + 1 colh. (sopa) açúcar, e mais para polvilhar

(Calda de amoras - opcional, prepare antes do soufflé)

  • 1 xic. amoras frescas ou congeladas (ou outra fruta vermelha de sua escolha)
  • 1 colh. (sopa) açúcar
  • 1 colh. (sopa) água
  • algumas gotas de suco de limão,ou a gosto

 

Preparo:

  1. Posicione a grade do forno no centro do forno e pré-aqueça o forno a 190oC. Unte deliberadamente com manteiga 6 ramequins com capacidade para 1xic. Polvilhe o interior deles com açúcar, girando-os, para que o açúcar recubra todo o fundo e paredes internas dos ramequins. Coloque os ramequins numa assadeira.
  2. Numa tigela média, misture bem o queijo, gemas, farinha, sal e baunilha, até que fique homogêneo.
  3. Numa tigela grande da batedeira, coloque as claras e o cremor tártaro (ou limão, ou vinagre) e comece a bater devagar até que forme picos macios e leves quando levantar os batedores. 
  4. Gradualmente acrescente o açúcar, batendo sempre, até que as claras fiquem com picos firmes mas ainda brilhantes. 
  5. Misture delicada mas rapidamente as claras batidas ao creme de queijo, usando uma espátula, com movimentos que puxem o fundo, raspando as paredes da tigela e "dobrando"a massa por cima de si mesma, preservando o ar das claras. Pare quando não houver mais sinais de clara na massa. 
  6. Divida a massa entre os ramequins igualmente. Polvilhe cada um deles com mais açúcar e leve ao forno por 15-18 minutos, até que tenham crescido e estejam dourados por cima. Sirva imediatamente com a calda de amoras. 
  7. Para a calda de amoras, basta colocar tudo numa panela e cozinhar até que as amoras soltem seus sucos e comecem a se desmanchar. O líquido precisa ter a consistência de um xarope ralo. A calda pode ser guardada em pote fechado na geladeira por alguns dias. Ela deve ser feita ANTES de se preparar o soufflé.

NOTA: Os sufflés podem ser preparados com antecedência. Não polvilhe com açúcar. Cubra a assadeira com papel alumínio, filme plástico ou o que tiver, para que não ressequem, e leve à geladeira. Eles podem ficar lá por 24h. Tire da geladeira durante o tempo que leva para pré-aquecer o forno, retire o papel de cima, polvilhe com açúcar e asse normalmente. Talvez demorem um minuto ou dois a mais para assar. Eles crescem pouca coisa menos se preparados com antecedência, mas continuam fofos, leves e deliciosos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Um muffin de peras numa manhã de escola

 

Parque Arrowhead, ao norte de Toronto. Um passeio de domingo.

Períodos de adaptação.

Ainda que esse ano inteiro pareça uma adaptação atrás da outra, o início do ano escolar é sempre uma fase instável, com ou sem pandemia. A gente espera que seja igual à última vez e tenta se preparar sempre do mesmo jeito. Material escolar em dia, roupas que cabem nos novos corpinhos espichados durante o verão, despertadores acertados, e um ar confiante de que a rotina que você lembra de meses atrás vai continuar funcionando. 

Mas as crianças não são as mesmas do ano passado. Elas cresceram. Elas são mais independentes. Elas mudaram seus padrões de sono e seus hábitos matutinos. E nós também não somos os mesmos adultos do ano passado. Também crescemos, ainda que não visivelmente, ainda que nossas calças não fiquem curtas, deixando entrever canelas. E a independência dos pequenos traz luz à nossa,ainda que a surpresa às vezes nos torne reticentes e inclinados a prosseguir com velhos hábitos sem de fato entender se somos ou não necessários.

Ano passado, fazíamos muito por eles. Agora nossas ações são restritas. Fomos promovidos na Parenting Corporation, e agora o trabalho é menos braçal: mãe e pai agora em cargo gerencial.

As crianças acordam primeiro, antes do despertador. São seis da manhã, mas ainda é noite lá fora. A natureza canadense faz questão de deixar claro, antes mesmo do fim do verão, de que o inverno está logo ali, e que é preciso começar a se preparar. Se não preparar a toca com estoque de castanhas e folhas quentinhas, ao menos preparar a mente para os longos meses de frio intenso e céu cinzento que nos esperam. E o sol já logo nos primeiros dias de outono começa a levantar mais tarde, espreguiçando embaixo das cobertas e pedindo mais um tempinho com a cara enfiada no travesseiro.

Thomas e Laura aprenderam a preparar o próprio mingau. Enquanto tomo meu cappuccino no quarto, sentada na cama, massageando o pé machucado e conversando com o marido, ouço os sons da chaleira elétrica em ebulição e do abrir e fechar de potes de aveia, maple syrup, manteiga, canela e peanut butter. 

Quando entro na sala, já vestida, as crianças estão à mesa comendo seu mingau quente, não sem distrações e discussões, e logo levantam a cabeça para me dizer bom dia e pedir para que eu coloque uma música para tocar. "Bastard Son of Odin!",pede Thomas, lembrando da música épica de metal-farofa do Battle Beast, uma banda nórdica cuja vocalista se veste de deusa viking. Metal-farofa é sempre ótimo para levantar os ânimos e fazer todo mundo se mexer. 

Allex já tirou a louça limpa da máquina e encheu os potes térmicos das crianças com água quente. Agora é minha parte:preparar os almoços dos pequenos. Esquentar pequenas porções do que sobrou do jantar do dia anterior ou preparar algo novo do zero: um sanduíche, uma omelete para completar um restinho de arroz. Pensar nos dois lanchinhos extras. Quem come o quê? Quem gosta do quê? Lembre-se que não pode colocar nada com castanhas. Nori (algas) num pote, e iogurte com compota de fruta no outro. Ou bolachas integrais salgadas e cubinhos de queijo, e uvas passas. Ou uma fruta que ambos comam e um pedaço de bolo.

Mas não tem bolo. Deixara para preparar um no fim de semana. Deixara para ir ao mercado no domingo. Mas domingo dera um siricotico na gente, e decidimos pegar o carro e dirigir duas horas até Arrowhead Park, um parque provincial perto de Muskoka, para fazer uma trilha e ver as cores de outono na floresta. É preciso aproveitar os dias de outono sem chuva. Fomos, andamos 9km, vimos a floresta colorida de cima e uma cachoeira linda, onde as crianças usavam uma formação rochosa lisa com escorregador. Passamos o dia todo do lado de fora, jantamos num pub de cidade do interior no caminho de volta e fomos todos dormir exaustos às onze da noite. 

Olhei para as peras na fruteira. Já molinhas e manchadas. Não sobreviveriam na lancheira sem virar purê. E Thomas não gosta de comer pera assim, só a pera. Na despensa havia um restinho de granola. Iogurte na geladeira. E me dei conta de que os planetas culinários se alinhavam e eu tinha exatamente os ingredientes necessários para muffins de pera de uma revistinha da Martha Stewart que guardo há muito tempo e que Laura vive dizendo que quer para ela quando sair de casa. É tua, filha. Pode levar.

Ligo o forno às seis e meia. Laura para o que está fazendo para vir distribuir as forminhas de papel nas cavidades da forma de muffin. "Uau, mamãe! Eu achei que não ia dar, mas deu certinho! Tinha exatamente as forminhas que precisava!"

Alinhamento cósmico.

A massa é simples, como de todo muffin. A farofinha crocante é gostosa de fazer, dedos esfregando granola, farinha e manteiga, feito brincadeira na areia quente da praia. Ignoro o que está acontecendo à minha volta, para não esquecer nenhum ingrediente. Ouço vozes lançadas feito dardos rentes aos meus ouvidos. Cadê minha blusa azul? Thomas, sai do banheiro! Mãe, posso comer pão com geleia depois do mingau? Mãe, manda a sopa de ontem de almoço? Laura, larga o meu robô de Lego! Manhê! A Laura pegou uma peça do meu Lego!

"Pede ajuda pro teu pai", é a resposta de praxe. Sem a correria de se arrumar para o tempo no trânsito em direção ao escritório, papai, relaxado, cuida do que está fora do meu alcance momentâneo. Pandemia teve seus benefícios. Marido trabalhando em casa é bênção. Ouço sua voz catando os dardos por aí. "Escovou os dentes? Você ainda tá de pijama? Vai pentear o cabelo. Dá o papel da escola pra assinar. A cama tá arrumada? Guarda o Lego agora, que a gente já falou que não é pra espalhar Lego de manhã senão não dá pra limpar o quarto! Você deixou o prato na mesa. Tira da mesa e bota na lava-louça. Quem vai guardar as coisas do mingau que vocês fizeram? Ótimo. E quem vai passar um pano na mesa? Obrigado."

Alguns dardos me atingem quando papai se enfia no banho. "Mamãe, olha como eu tô pulando corda!" 

"Laura, muito legal, mas são sete da manhã, os vizinhos vão reclamar dessa pulação toda, e você ainda tá de pijama."
"Tá mamãe. Mas olha só o handstand que minha amiga me ensinou a fazer!
"Laura, de novo, tô orgulhosa de você por saber fazer handstand. Mas eu te pedi pra trocar de roupa duas vezes, seu pai pediu, e você não fez ainda."
"Argh. Tá bom."

Ela pula feito sapo até a porta do quarto.

"Laura! Sem pular! Os vizinhos!"
"Tá booooooooom...! Mas mamãe...", ela volta à cozinha. "Você vai mandar os muffins de lanche?"
"Vou, Laura, agora vai tirar esse pijama e ficar pronta pra sair, por favor."
"Ai, tá bom. Mas do que é o muffin?"
"De pera, Laura. Tô perdendo a paciência. Eu sei o que você tá fazendo. Você fica arrumando uma desculpa atrás da outra pra não cumprir com suas responsabilidades."
"É nada."
"Afe.É só trocar de roupa, Laura. Ó: teu irmão acorda e troca de roupa na hora. Ele tá pronto, e é por isso que ele tá lá sossegado!", aponto para Thomas, afundado contra a almofada fofa do sofá, joelhos flexionados, lendo mais um livro do Asterix pela enésima vez.
"O Thomas não tá pronto. Ele nem escovou o dente, que eu sei."
"Afe. Thomas! Você escovou os dentes?"
"Ahn... não", ele responde, casualmente, e quase surpreso com a demanda.
"Ai, Thomas! Quiéque você tá fazendo aí, lendo? Vai escovar os dentes, menino!"
"Tá vendo?", Laura diz, orgulhosa de si mesma, enquanto observa o irmão fechando o livro bruscamente e arrastando pés aborrecidos em direção ao banheiro.
"Você também, vai lá. Termina de fazer o que você tem que fazer."
"Mas eu quero te ajudar a colocar a farofa no muffin."
"Laura, você tá fazendo de novo."

Allex sai do banho. 

"Laura, ouve tua mãe. Vai terminar de se arrumar", ele diz, num vozeirão grosso, mas paciente.
"Aaaaaaaaah... mas é que...", ela reclama.
"Laaaaaauraaaa...", ele continua, enquanto eu coloco a farofa nos muffins. "Vai escovar seus dentes."
"Mas o Thomas tá no banheiro."
"E?"
"E a gente SEMPRE briga quando nós dois estamos escovando os dentes juntos, então eu vou ser gentil e esperar ele sair."
"Você tá sendo é espertalhona, né?"
"Tô nada."
"Thomas, a Laura precisa entrar pra escovar os dentes. Você escovou os dentes?", ele bate na porta, abrindo em seguida.
"Ahn... não!", ele responde, no mesmo tom surpreso, como se o pai tivesse perguntado sobre a existência de zebras cor-de-rosa.
"Thomas! O que diabos você tá fazendo no banheiro até agora, então?"
"Ahn..."
"Thomas, você tava cantando Bastard Son of Odin no espelho de novo?"
"Ahn... tava."
"Eita, nóis."

Termino de me arrumar enquanto os muffins estão no forno, e apronto o resto do almoço enquanto eles esfriam. Ficam lindos e perfumados, dourados e macios, e deliciosamente crocantes por cima. 


"Venham guardar o almoço de vocês!", chamo.

Eles guardam os potes na lancheira, enchem as garrafas de água e guardam tudo na mala. 

"Vamolá. Quem tá pronto?"
"Eu!", diz Thomas.
"Eu não", responde Laura.
"Ai, Laura, o que é que falta fazer?"
"Pentear o cabelo."
"Mas você tava no banheiro até agora!"
"Mas eu tava escovando os dentes, ué."
"E por que não aproveitou pra pentear o cabelo?"
"Esqueci."
"Eita. Vai lá, então."

Ela vai, ela volta, penteada.

"Todo mundo arrumou a cama?"
"Sim."
"Escovou os dentes?"
"Sim."
"Penteou o cabelo?"
"Sim."
"Guardou o almoço?"
"Sim."
"Pegou água?"
"Sim."
"Tá levando agasalho?"
"Precisa?"
"Laura, tá doze graus lá fora."
"Eu tô levando um short, pra se tiver calor."
"Ótimo, Laura. Mas leva um agasalho pra se tiver frio."
"Tá bom."
"Pegaram a máscara?"
"Sim."
"Pegou o papel assinado da escola?"
"Sim."
"Falaram tchau pro papai?"
"Tchaaaaaaau, papaaaaaaai!"
"Podemos ir, então?"
"Mamãe!"
"Quê?"
"Posso ir de bicicleta?"



MUFFINS DE PERA COM FAROFA DE GRANOLA
(da revista Martha Stewart Food Everyday, edição de natal)

Ingredientes:

  • 1 xic. farinha de trigo branca
  • 3/4 xic. farinha integral
  • 2 colh. (chá) fermento químico em pó
  • 1/2 colh. (chá) canela
  • 1/2 colh.(chá) sal
  • 2 ovos grandes
  • 3/4xic. açúcar mascavo
  • 1/2 xic. iogurte natural
  • 2 colh.(sopa) manteiga, derretida
  • 3/4 xic. granola (opcional - eu não tinha o bastante para a massa e não usei)
  • 2-3 peras maduras, descascadas e cortada em cubos (2 xic.)
  • (farofa de granola)
  • 1/2 xic. granola
  • 1/4 xic. farinha de trigo
  • 1/4 xic. açúcar mascavo
  • 1/4 colh.(chá) sal
  • 3 colh.(sopa) manteiga gelada

Preparo:

  1. Aqueça o forno a 205oC. Forre uma forma de 12 muffins médios com forminhas de papel.
  2. Comece pela farofa: junte todos os ingredientes e misture, esfregando com os dedos, até obter uma farofa grosseira e a manteiga estar bem distribuída.Reserve
  3. Numa tigela grande, misture as farinhas, fermento, sal e canela. Em outra tigela, misture os ovos com o açucar, manteiga derretida e iogurte, até que fique homogêneo. 
  4. Junte a mistura líquida à seca e misture com uma espátula até não enxergar mais farinha. Não misture demais, ou o muffin fica maçudo. 
  5. Incorpore as peras de forma homogênea (e a granola extra, se estiver usando), e distribua a massa em porções iguais nas formas.
  6. Polvilhe a farofa por cima. Pode usar tudo. Vai ficar bem amontoado acima da beirada da forma, e está tudo bem. Junte de volta aos montinhos a farofa que cair para fora. 
  7. Leve ao forno por vinte minutos,até que um palito saia limpo quando espetado num muffin. Deixe esfriar por cinco minutos na forma, e então retire com cuidado para esfriar numa grade. Eles são deliciosos ainda quentes do forno. Se mantém bem por mais de um dia, mas a farofa perde a crocância.

sábado, 26 de setembro de 2020

Uma velha e um velho risotto de radicchio


 É difícil pensar em risotto de radicchio sem lembrar no meu aniversário de 25 anos em Florença. Aquele aniversário em que decidi que queria ficar eu comigo mesma. Esse risotto ficou na memória e pela primeira vez me dou conta de que meu aniversário é enfim no Outono, como fora durante a viagem à Itália. Foi apenas quando comecei a prepará-lo, ontem, que me dei conta de que faço 41 anos em uma semana. 

Sim, é claro. No meio dessa montanha-russa emocional, é ÓBVIO que esqueci meu próprio aniversário. Super normal. 

A memória anda me pregando peças. Enquanto escrevia o livro, me surpreendia lendo em meu diário de viagem uma cena acontecida numa cidade que eu me lembrava de ter ocorrido em outra, dias depois. Ou perceber que a lembrança calorosa que eu tinha de uma refeição fantástica na verdade fora fabricada pela distância temporal, sendo a realidade muito mais decepcionante. 

Hoje citei um texto no Instagram e duas fontes diversas, dois livros que li e cujo trecho não encontrei em nenhum dos dois, e fiquei tentando lembrar de onde eram aquelas palavras então. O senhor com quem eu me encontrava todas as manhãs no parque para nossos cachorros brincarem me disse ontem que eu não podia ir ao mercado àquela hora, pois aquela era a hora reservada aos "cidadãos sêniores". Eu ri e disse que já estava a caminho da "senioridade". Não lá ainda, mas definitivamente a caminho. 

Mas rio. Acho que enfiei tanta informação nessa minha cabeça ao longo dos anos que minha mente finalmente deu aviso de sobrecarga. Já não lembra mais nome de livro nem de música, esquece o próprio aniversário e o horário de pegar as crianças na escola. É "la vecchiaia", diz minha mãe. A velhice. 

Talvez seja. 

Noutro dia, já mais distante daquele desmoronamento emocional, entrei no quarto e fui imbuída por uma súbita vontade de dar uma cambalhota na cama. Ri alto da ideia. Mas fui lá e dei minha cambalhota. Era o que eu queria fazer. Quarenta anos e dando cambalhota na cama. Allex, que trabalhava ao computador, olhou aquilo e perguntou o que diabos eu estava fazendo. "Me deu vontade de dar cambalhota, eu fui lá e dei, ué. Ó, vou dar mais uma." 

"Cê tá bem, Ana?", ele riu.

"Tô. Ué, eu sempre disse que eu tava treinando pra virar uma velha louca."

"Aí, ó, conseguiu. Você já é velha E louca."

Verdade. Eu sempre disse a ele que queria ser uma velha louca. Não louca perigosa nem louca sem contato com a realidade. Mas só suficientemente louca pra se safar de fazer o que quiser sem ninguém encher o saco. Daquele tipo de velha feliz que ninguém espera nada de normal.

Tem coisa pior do que as pessoas só esperarem de você coisas normais?

Pois é. 

Saí da caverna em direção à luz, largando o que havia de normal que não me pertencia e dando cambalhota na cama. 

Receber meu livro diagramado e paginado, com "jeitinho de gente grande", me encheu de energia novamente. Quem segue meu trabalho no Instagram (@anaelisagg) já anda vendo os frutos disso. Quebrei mais uma barreira minha e ando botando minha cara de velha matrona,minhas rugas e cabelos brancos, para falar nos Stories. Pois é, se você se perguntava que cara eu tinha, ou se minha voz era rouca, aguda ou fanhosa, agora vai descobrir. Aliás, o Instagram parece estimular um lado meu muito mais tonto. A mídia é a mensagem, já dizia titio Marshall McLuhan. 

E daí que, quando comecei a cozinhar meu risotto de radicchio, pensando com saudades daquele almoço solitário 16 anos atrás, resolvi catar o celular e filmar a pataquada toda. "Povo tem que ver isso', pensei. Ver o quê? O radicchio derretendo. 

Quando juntei os trapos com Allex, ainda no nosso primeiro apartamento, lembro-me de ter preparado risotto de radicchio para um amigo nosso que viera jantar. Eu usei uma receita de um livro lindo, que vendi antes de vir para cá, de receitas toscanas feitas por duas australianas. Mas hein? Pois é. Mas o livro é lindo e as receitas eram ótimas. A única que não me convenceu na época foi o tal risotto de radicchio. O risotto de Florença era rosa-claro, acastanhado, esmaecido como uma camisola de cetim do começo do século, guardada por trinta anos num baú. Aquele produzido seguindo a receita australiana era sem cor: arroz branco entremeado de pedaços purpúreos de verdura. Saboroso, mas aquém das minhas expectativas, perdendo para a lembrança que eu tinha. 

Por anos continuei preparando risotto de radicchio da mesma forma: refogando as tiras finas de verdura rapidamente, como quem prepara couve para acompanhar a feijoada, e imediatamente acrescentando o arroz arbóreo e prosseguindo com a receita. E o resultado sempre carecia de coesão visual e de uniformidade de sabor. Era risotto COM radicchio, e não DE radicchio. 

Um dia, folheando o livro de receitas venezianas de Tessa Kiros, encontrei mais uma receita do tal risotto. Bufei, descontente. Afe. De novo.Sempre as mesmas receitas, eu pensei, já fazendo a limpa dos livros que eu pretendia vender para mudar de país. Mas a receita era diferente. Ela mandava cozinhar o radicchio em panela fechada por uma quantidade absurda de tempo. 

Vamos lá. Vamos fazer o que tia Tessa manda, porque sempre fica bom. 

Abafar o radicchio por tanto tempo faz com que ele não apenas cozinhe, mas colapse. E é nesse ponto, em que você já não mais reconhece aquele emaranhado bordô-escuro como o que um dia foi radicchio, em que você acrescenta o arroz, que vai absorver toda a cor que a verdura não consegue mais conter.

Não vou mentir. É um trabalho de paciência. Costuma levar bem uma meia hora. Mas para quem gosta de risotto de radicchio, uma meia hora bem usada. Enquanto você espera o radicchio desistir de viver dentro da panela, você pode ir procurar nos seus livros aquele trecho de texto que sua mente já não lembra mais de onde veio. 

RISOTTO DE RADICCHIO
Rendimento: 4 porções comedidas, sem repeteco (quando quero mais fartura, uso 1 1/2 xic. de arroz e complemento o caldo com água fervendo. O restante dos ingredientes pode se manter igual.)

Ingredientes:

  • 2 colheres (sopa) azeite
  • 1 colh (sopa) manteiga
  • 1/2  cebola picadinha
  • 1 talo pequeno de salsão picadinho (opcional)  
  • 1 pé de radicchio grande ou 2 pequenos (se não é super fã de gosto amargo, pode usar 1 pequeno apenas)
  • 1 xic. cheia de arroz arbóreo
  • 1/2 xic. vinho branco (se quiser o risotto mais rosinha pode usar tinto também, mas não precisa)
  • 1 litro de caldo de legumes caseiro (e mais água fervendo se necessário)
  • 50g manteiga sem sal
  • 1/2 xic. parmesão ralado na hora
  • sal e pimenta-do-reino
  • salsinha picada para polvilhar por cima (opcional)


Preparo:

  1. Corte o radicchio ao meio no sentido do comprimento, e então em quartos, mantendo as folhas presas pela raiz. Segurando a raiz, corte cada "gomo"de radicchio no sentido da largura, em tirinhas finas, como você faria a uma couve. 
  2. Aqueça o azeite e a primeira quantidade de manteiga na panela em que você pretende preparar o risotto, em fogo médio. Junte a cebola e o salsão picados, uma pitada de sal, e mexa bem até que a cebola amoleça e comece a querer dourar. 
  3. Junte todo o radicchio, uma pitada generosa de sal, e misture bem, refogando um pouco, até que ele comece a murchar. Abaixe o fogo, tampe bem a panela, e deixe cozinhando por 10-15 minutos, até que ele murche bem. 
  4. Dê uma olhada no radicchio. Misture um pouco. Prove o sal. Ele deve estar agradavelmente temperado e com textura de alface cozida, desmanchando à dentada. Se ainda tiver resistência à mordida, se estiver al dente, corrija o tempero se necessário, tampe novamente e deixe cozinhar mais 10-15 minutos. (Caso esteja pegando no fundo da panela, abaixe mais ainda o fogo, se possível, e junte uma colher de água). O tempo total de cozimento vai depender da panela, da quantidade de radicchio usada e do tamanho dos pedaços da verdura. 
  5. Enquanto isso, aqueça o seu caldo de legumes até manter uma fervura branda.
  6. Quando o radicchio estiver extremamente macio e bem escuro (ele deve ter soltado um tiquinho de água na panela, e não pode estar queimando ou dourando), aumente o fogo novamente para médio e junte o arroz, misturando bem.
  7. Quando o arroz estiver translúcido, junte o vinho e misture até evaporar. Junte duas conchas de caldo e misture, no fogo médio-baixo, até que o arroz absorva metade do caldo. Prossiga juntando o caldo e misturando, cantarolando uma música, porque você vai ficar mexendo esse negócio por um tempo, então é legal curtir o processo, até que todo o caldo tenha sido usado. Lembre de ajustar o fogo para que o risotto não ferva violentamente (isso quebra a estrutura do arroz e o caldo evapora antes de o arroz de fato cozinhar). E nunca deixe o caldo ser completamente absorvido antes de acrescentar mais.
  8. Experimente o arroz. Se ele estiver ainda grudando no seu dente quando você mastiga, precisa cozinhar mais. Nesse caso, junte mais uma ou duas conchas de água fervendo e continue cozinhando até que o arroz esteja al dente como seria um arroz agulhinha soltinho. Lembre-se sempre de que o arroz vai continuar cozinhando depois que você desligar o fogo, então sempre pare o cozimento um nadinha antes de o arroz estar no ponto perfeito.
  9. Desligue o fogo. Se o risotto estiver maçudo, junte mais uma concha de água fervendo para soltá-lo. SE estiver ainda caudaloso, deixe, porque ele vai continuar absorvendo o excesso de líquido. Junte a manteiga e o queijo, misture bem e prove. Acerte o sal. Gosto de acertar o sal do risotto no final, porque a quantidade de sal depende sempre do quão salgado é o caldo, de quanta água extra foi acrescentada, e de quão salgado é o queijo. Tempere com pimenta-do-reino e salsinha, se quiser. Tampe, e deixe descansar por dez minutos enquanto você saboreia uma taça de vinho e manda outra pessoa que mora com você botar os pratos na mesa. Afinal, você já fez risotto, caramba! Por que é que tem que botar a mesa também? Bota o povo pra trabalhar.
  10. Idealmente, o risotto deve se espalhar devagar no prato, como lava quente escorrendo de um vulcão, e não ficar fixo num montinho. Sirva com mais um pouquinho de parmesão ralado por cima e um fio de azeite. 
 

 Para quem está aguardando o livro, acho até que ele vai sair antes do que eu imaginava. :D Enquanto todo mundo espera (e eu garanto que ninguém aqui está mais ansioso do que eu), eu pretendo me distrair cozinhando aqui os pratos que eu menciono em cada um dos capítulos do livro. Pelo tamanho dessa receita de risotto, dá pra ver o livro publicado ficaria gigantesco se eu inserisse nele também as receitas. ;) Prefiro assim. Vocês já vão degustando as receitas antes de degustar as histórias, ou podem degustas as histórias e depois vir aqui preparar as receitas. O blog complementa o livro e vice-versa, da mesma forma como minha participação no Instagram tem complementado os textos daqui. 

Tá na hora de remontar o que estava desmontado. Pegar os pedaços importantes e criar coesão entre as partes para que elas tenham um belo colorido junto. Parar para saborear a vida e lembrar que o gostinho amargo do radicchio também faz parte. 

Obrigada a todos pelos comentários lindos e -mails sobre o post anterior. O mundo está louco e a gente anda meio louca junto. Mas vamos largar para traz a loucura que deixa a gente doente e desenvolver aquela loucura boa que permite a gente ser a gente, sem ter que se justificar para ninguém. 

Velha louca, aqui vou eu.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

A importância de ser visível

 Eu desmontei de repente. Assim, feito castelo de cartas. Num dia de chuva fina e intermitente, daqueles em que a cor das nuvens é a mesma dos seus pensamentos. Desmontada, o tamanho do desencaixe me surpreendeu. Sem esperar aquele desmoronamento, olhei os escombros como quem não entende.Sem entender, não pude me mexer. Olhei. Por muito tempo. Tentando ser.

A gente brinca sem brincar que mãe nunca tem férias. E que quando a família está de férias, trabalhamos mais. A família estava de férias. Férias em casa, de chuva e pandemia. Mas, de repente, tão de repente quanto aquele desmonte que viria a acontecer, eu não tinha trabalho nenhum.

O livro foi entregue à editora. Pronto, revisado, lindo.

A campanha digital da loja, para bancar a publicação do livro, foi encerrada.

Todas as ilustrações encomendadas estavam entregues.

As crianças finalmente tinham uma data FIXA para começarem as aulas, dali a alguns dias.

A chuva, o vento, o frio desconvidavam. Não havia parquinho que quisesse uma criança.

As crianças estavam entretidas com a presença do pai de férias. 

O pai, de férias, cuidou da rotina das crianças.

O marido, de férias, decidiu cozinhar todos os dias. 

O marido, de férias, fez lasanha, churrasco, arroz. 

A mulher não tinha trabalho a entregar. 

A mulher não tinha criança pra cuidar.

A mulher não tinha comida a preparar.

A mulher se viu, de repente, assim, de repente, sem nenhuma das obrigações a que se obrigara. 

A mulher se viu, realmente de repente, sem nenhuma das tarefas que ela tão habilmente usara como desculpas.

A mulher se viu, dolorosamente de repente, sem nenhuma das responsabilidades pelas quais se responsabilizara nos setes meses anteriores.

E, desta forma, de repente, a mulher se viu sem chão. A lista da afazeres que até então sustentava suas pernas desapareceu. Não havia mais nada que pudesse distrair a mulher do fato de que ela estava exausta. Nada mais exigia que ela se mantivesse em pé. Ninguém mais precisava que ela prosseguisse o movimento. 

E ela caiu.

Eu caí. 

Exausta. Exausta. Usei tanto essa palavra em minha vida, que no momento em que mais precisei dela, ela já não tinha mais significado. Esvaziada de significado. A palavra e a mulher. Significante e significado numa sincronia jamais vista. 

Como quando a família fica doente. A mãe cuida da febre do filho. Depois da dor da filha. Então leva um chá pro marido. Segue forte, cuidando. Dando. Doando. E quando enfim está tudo bem e todos sob sua guarda recuperam a saúde plena, quando ninguém mais pede o que ela já não tem para dar, ela cai. Doente. Exausta. Ela tem permissão de cair. Ela se dá permissão. E cai.

Caída fiquei. O choro vinha fácil, aos borbotões, convulsivo, a qualquer hora, por qualquer motivo. Choro pelo cão, choro pela quarentena, choro pela escola, choro pelos amigos, choro pela família, choro pelo trabalho, choro pelo mundo, choro pelo pantanal, choro pela politica, choro porque não há mais nada que quisesse fazer senão chorar e dormir. Choro feito um bebê cansado cuja a mãe manteve acordado além da hora de dormir. Passei da hora de dormir. Passei dos limites. O corpo já avisara há tantos meses desses limites ultrapassados. O pé inflamado já pedia havia muito tempo o descanso que eu não me permitia. 

Eu sou invisível. 

"Eu sou invisível", murmurava a mim mesma. 

Quando tento viver uma vida normal sem estar normal por dentro, o que me é importante se torna gradualmente transparente. Aos poucos, atravesso paredes. Minhas mãos não tocam coisa nenhuma. Preciso manter tangível a dor invisível. Dar nome às tristezas. Dizer a todos quando não estou bem. 

"Não estou bem", eu disse. 

Vê? 

Sou visível, tangível, tocável, sensível. Minha dor espalha e transforma o mundo à minha volta. Ela incomoda porque me incomoda. Eu incomodo. É importante incomodar. É importante ser visível. 

Eu sou visível. 

"Preciso colocar para fora e entender tudo isso que segurei por tanto tempo", expliquei. "Eu segurei tudo por muito tempo. Eu segurei todos por muito tempo." Expliquei e fui compreendida.E me deixaram chorar tudo o que eu tinha para chorar. E me deram tempo. Tempo. Tempo, maravilhoso tempo. Esse tempo que damos à revelia, que gastamos feito crédito no cartão, sem lembrar de guardar um pouco pra gente. 

Pela primeira vez, entendi que eu nadava numa caverna apertada. Que cada uma daquelas responsabilidades das quais me cobrava diariamente eram pedras no fundo das águas geladas, onde eu apoiava a ponta de um pé para poder manter o nariz fora d'água e respirar. Sem aquelas pedras, eu tentava nadar sozinha, mantendo o rosto na superfície, mas sempre batendo a cabeça no teto frio e duro da caverna, que me jogava para baixo outra vez.

Pela primeira vez, eu parei de nadar. Exausta do esforço contínuo, deixei-me afundar devagar. Ouvi o silêncio de meu corpo submerso. Dizem, no Yoga, que você pode chegar à luz por dois caminhos: subindo diretamente em direção a ela, ou descendo às profundezas até o limite, até dar a volta na roda, romper a escuridão e encontrar aquela mesma luz. Não havia porque nadar à superfície se eu não via nenhuma luz entrando na caverna. Deixei-me afundar. Deixei-me levar à escuridão. Às fontes de todo aquele choro, de toda aquela angústia. Deixei-me afundar consciente de que não ficaria ali para sempre. Apenas o bastante para que conseguisse abrir os olhos embaixo d'água. Apenas o bastante até que conseguisse enxergar nas águas turvas outros caminhos naquela caverna. Apenas o bastante até que pudesse nadar por um desses caminhos submersos. E vir à tona. E encontrar a luz. 


Há luz novamente. 

Consigo enxergar terreno sólido onde me apoiar e sair da água. 

Quase duas semanas depois do desmoronamento, consigo entender quais pedras são sólidas e quais rolam facilmente. Os escombros estão ali, visíveis, mas menos dolorosos. Um lembrete eterno das armadilhas que um dia criei para mim. O choro foi embora. Canto um pouco quando ouço música. 

As crianças estão na escola. E eu tenho me dado tempo. Tempo, que a gente dá de presente para os outros como se não valesse nada, como se não precisássemos tanto dele. 

Fui "me levar" para passear no parque. Essa atividade mundana. Um passeio no parque em plena terça-feira. Meu primeiro passeio sozinha pelos caminhos que eu percorria, todos os dias, com Gnocchi. Enfiei-me pelas trilhas mais fechadas. Andei sobre troncos caídos, de braços estendidos para me equilibrar. Atravessei córregos de lama pulando sobre pedras e galhos. Tentei atrair esquilos com bolotas de carvalho caídas no chão. Ouvi o grasnado alto e metálico dos Blue Jays. Fui procurar ali uma parte da minha vida que desmoronou com a morte do cão. Encontrei uma parte de mim que estava faltando. A parte mais importante.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Que venha o outono

 


Atrasaram o início das aulas em uma semana. Ainda bem que eu não estava aqui brincando de ter expectativas. Há uma parte do meu cérebro que não quer pensar nisso. A dez dias do início do ano escolar, eu estaria reorganizando as roupas de Outono das crianças, planejando cardápios de lanche e repensando minha agenda de trabalho.

É preciso sair e comprar máscaras. 

Suspiro e penso e respiro e não me mexo. 

A volta às aulas deveria marcar um fim e um começo. O fim do verão, dos dias longos, fim do descanso na grama sob o sol. Mas não foi un descanso, foi? Foram meses, tantos meses, de cansaço. De greves, de quarentenas, de mortes, de ferimentos, de estresse e exaustão. Foram meses de fazer força para manter tudo bem, para manter a cabeça funcionando e o coração leve. 

A volta às aulas não tem gosto de fim de descanso nem começo de um. Porque nada acabou, e não tenho em mim a certeza de que enviar as crianças à escola seja sinal de normalidade. Não acredito sequer que vá durar muito. Olho para o futuro com desconfiança e para o passado com a sensação de quem sonhou um sonho estranho.

Atenho-me a outros ciclos, então, que este calendário de horário comercial não anda fazendo sentido. Fecho minha campanha de vendas na loja com imensa felicidade. Com a meta financeira praticamente alcançada, sinto-me forte e feliz por ter tido meios de usar uma arte para pagar a outra. E nesta semana, assinei o contrato com uma editora. 

O sol foi embora de repente e fechou as cortinas antes de sair. A luz lá fora é prateada e difusa, mal atravessando as nuvens densas que tocam o chão em forma de névoa. A brisa é fria nas canelas ainda expostas, e os braços pedem o conforto de um moletom velho. 

Outono aqui sempre traz mudanças à base de muito vento. E a brisa vira vendaval. O livro que vai ser publicado, a escola que recomeça aos tropeços, o trabalho que ganha um novo fôlego, e o pé. O pé que começa a melhorar, enfim. 

Um massagem ayurvédica nas pernas que me arrancou tanto choro do peito que achei que nunca teria fim.Talvez o verão ainda tenha monções restantes. E então o pé doeu menos. E menos. O choro lavando embora aquelas inflamações. 


 

E num dia saio para andar no mato. E no dia seguinte de novo. Olho aquele mato que quer mudar de cor, o cheiro do inicio da destruição suspenso na umidade do ar, e vejo que é o tempo que está suspenso ali naquela névoa. Um respiro entre estações. A pausa que precede a mudança. Esses últimos dias de férias escolares que prometiam ser as últimas explosões energéticas do verão tornam-se passos lentos na lama e sons de água, chá quente e pés no sofá, pensamentos que não chegam à boca, enlaçados no som de suspiros como uma criança no cobertor.

Devagar.

É sabedoria antiga respeitar o ritmo das árvores? Então tudo bem. Fecho os olhos e ouço as folhas. Os pequenos Chipmunks começam a recolher folhas e castanhas para seus ninhos, preparando a toca para o longo sono do inverno. Esperto o bicho que não gasta energia à toa. 

"Não quero que vocês se deem bem o tempo todo", digo à crianças. "Isso é impossível e muito injusto de pedir a vocês. É lógico que vocês vão brigar. Conflitos existem o tempo todo e não é possível evitá-los o tempo todo. Quero que vocês resolvam a briga de uma forma melhor."

Parem de gastar energia à toa, digo a eles.

Sempre haverá um conflito. O futuro está cheio deles. Inevitáveis. Inexcrutáveis. Imprevisíveis. Gritar, bater, espernear, digo a eles, é gastar energia à toa. O Inverno está chegando, já dizia o seriado.

Preciso parar de gastar energia à toa. Ser mais esperta. Recolher minhas folhas e castanhas para a toca. Tocar a ponta da língua no céu da boca e manter meus pensamentos enlaçados no silêncio de quem observa. Ouvir a respiração no ritmo do vento e amar a pausa antes do novo ciclo. 

Que venha a escola, pelo tempo que durar. O novo criado a partir dos escombros da torre que cai. "Quando a torre cai, é o fim de uma vida organizada", dizia a carta do baralho de Tarot que carrego comigo desde os quinze anos. 

O pé doeu de tanto fincar no passado, sem querer andar para frente. Sem querer pisar na lama decadente do que se desfez, nas pedras e farelos daquilo que não podia mais ficar em pé. As palavras tentavam convencer o peito a não sentir, mas tudo o que doeu e não foi sentido virou pé quebrado, pé torcido, pé inflamado que me fez parar e olhar para a destruição. A vida é desorganizada e o conflito é inevitável. 

É poesia pensar que meu livro sai na Primavera. 

Vou passar meu Outono olhando a força destruidora da natureza, que faz cair folhas e as consome até o restar de sua estrutura rendada, e as desfaz até que não sejam sequer lembrança do que foram um dia. Até que sejam a terra fértil para o que ainda não sabemos que vai nascer. Vou confiar no Outono para que a Primavera venha. 


 

....

 Enquanto isso, minha cozinha segue cíclica. Todos os anos, as mesmas fases. O verão é simplicidade e leveza, e os primeiros ventos trazem não apenas as calças compridas, mas os preparos mais complexos. A vontade de barrigar o fogão retorna.  

Um Daal de lentilhas com berinjelas do Jamie Oliver. Uma salada quente de repolho, milho e bacon para acompanhar um peixe grelhado. Um arroz de forno com abobrinhas e tomates puxado da memória, acho que de um livro do Mark Bittman.

Mal esfriou e as crianças já pedem sopa.

Que venha o Outono.


SALADA QUENTE DE MILHO VERDE, REPOLHO E BACON

(do livro Sunday Suppers at Lucques, de Suzanne Goin)

Ingredientes:

  • 200g bacon fatiado, cortado em tirinhas finas
  • 2 colh. (sopa) manteiga sem sal
  • 1 xic. cebolinhas fatiadas bem fininho
  • 1 1/2 xic. milho verde, tirado da espiga
  • 2 colh.(chá) folhas de tomilho
  • 1/2 repolho pequeno, fatiado fininho
  • 2colh (sopa) salsinha picada
  • sal e pimenta do reino

 Preparo:

  1. Aqueça uma frigideira bem grande em fogo médio de acrescente o bacon, coznhando por cinco minutos, mexendo, até que doure e fique crocante. Transfira o bacon para um prato. 
  2. Junte à gordura do bacon na frigideira a manteiga, as cebolinhas, o tomilho, 1/2 colh.(chá) sal e uma pitada de pimenta. Refogue por uns três minutos.
  3. Junte o milho debulhado, mais uma pitada generosa de sal e pimenta e cozinhe por três minutos.
  4. Junte o repolho, e cozinhe,mexendo,até que o repolho murche um pouco. 
  5. JUnte o bacon, a salsinha,acerte o tempero e sirva como acompanhamento de um peixe, por exemplo. 

 

O Daal foi feito segundo a receita de Jamie Oliver, daqui: https://www.jamieoliver.com/recipes/vegetables-recipes/aubergine-daal/

 Mas ao invés de usar a pasta de curry pronta, fiz minha própria pasta, com meia colher de chá de cada um dos temperos: canela em pó, cominho em grão, coentro em grão,mostarda em grão, erva-doce em grão, cúrcuma em pó, gengibre em pó, 1/4 colh.(chá) cardamomo em pó, 2 cravos, 4 grãos de pimenta-do-reino, 4 folhas secas de curry, 1 pitada de pimenta calabresa e 1 pitada de sal. Moí tudo no pilão e misturei a duas colheres de óleo de coco. Você pode simplesmente usar sua mistura de curry em pó favorita também. Fica ótimo de qualquer forma. 

Dica: use metade da quantidade de lentilha e arroz pedida. 250g de lentilha para o Daal rendeu 2 refeições e meia para quatro bocas.Se usar o meio quilo que ele pede, vai ter Daal para um vilarejo indiano inteiro. o_O

Este arroz de forno foi muito simples. Foram duas xícaras de arroz branco que cozinhei. No panelão grande, refoguei duas abobrinhas fatiadas fino em azeite até amaciarem.Juntei meia cebola picada e um dente de alho  e um ramo de tomilho e continuei refogando em fogo médio até tudo estar dourado. Juntei o arroz cozido, dois ovos e um punhado de parmesão e espalhei na panela. Espalhei fatias de tomate por cima, temperei com sal, pimenta e azeite e polvilhei com um punhado de parmesão e levei ao forno médio (180oC) até os tomates murcharem e o queijo derreter.


terça-feira, 25 de agosto de 2020

Pequenas vidas independentes, e um pão com fubá


 

Despertei, devagar, como quem ainda quer manter a mente fechada nos sonhos um pouco mais, ao som de pequenos passos cuidadosos. Um barulhinho que põe mãe em pé e alerta feito soldado em guerra, buscando proteger uma inocência largada à solidão de uma casa sem vigias. Fora assim um dia. Muitos dias. Anos. Mas não mais. Aninhei-me contra o travesseiro cheirando à noite de verão e lavanda, tentando não me mover muito, embalando aquele sono enquanto ouvia pezinhos tocando o chão com a inútil intenção de silêncio. Mal sabem aqueles dedinhos que coração de mãe desperta antes da mente dos filhos. Inspirei fundo e acompanhei na rabeta de meus sonhos aqueles pés deixando o quarto. O som da porta se fechando, cuidadosamente, uma mãozinha amparando a porta para o trinco rolar devagar. 

Rodo o corpo para outro lado, apegando-me aos lençóis, olhando outros ombros largos e adormecidos ali naquele escuro artificial de listras azuis claras. É dia de verão há muito lá fora, apesar das horas pequenas. Os passinhos levam ao banheiro. Ergo a testa do travesseiro para escutar melhor. Barulho de água na pia e sabão. Relaxo.Pontas de pé se distanciam até a cozinha. As janelas fechadas prendem o silêncio dentro, e ouço sua respiração e a minha quando a redoma de vidro da boleira é aberta e repousada com impressionante delicadeza na bancada. A faca saída do cepo assobia em lábios secos. Tento lembrar um sonho bom ao ritmo gostoso do rosnar na faca no pão. Crosta grossa de pão, quebradiça e crocante, faz barulho que enche a boca de vontade. Suspiro um suspiro bocejado, acalmando a fome com uma dose deliciosa de preguiça, esticando as pernas sob o lençol amassado e flexionando os pés devagar, deixando as pontas dos dedos alongarem a base da coluna. 

A faca espalha o cheiro da manteiga como quem sopra um dente-de-leão. Fresca e fria, lembra flor, lembra capim verde sob o vento de verão. Já não posso ignorar os ruídos do dia novo quando ele liga a cafeteira, iniciando uma música de motores e águas que já sei de cor. A máquina chia, raspa, escarra, borbulha e derrama, e um vapor doce de leite quente dança até o quarto.  

O deslizar da gaveta de panelas nos trilhos me faz abrir os olhos. O teto, olhado assim, sem foco, era infinito. Metais escorregando uns sobre os outros, e o ar vibra a tensão de braços infantis tentando evitar o clangor do choque das panelas. Gaveta fechada, metal sobre vidro, o estalo suave do botão do fogão, e o whooomph-pop confortável da borracha que se amassa e solta o vácuo quando a porta da geladeira é aberta. 

Manteiga que derrete é avelã no sol, banho quente e abraço. Toc, toc, crack. Meu coração dá um pequeno pulo de ansiedade e alegria ao quebrar do ovo, como sempre acontece àquele exemplo tão maravilhoso de intrepidez e firmeza de caráter que se adquire na primeira vez em que se aprende a quebrar a casca de um ovo sem que seu conteúdo fuja apavorado. 

Borbulha, espirra, estala. 

A porta do quarto se abre, sem cuidado, e pezinhos firmes atravessam um corpo esguio e determinado pelo vão da minha porta até a sala. 

Bom dia, Thomas!, mia uma gata em forma humana, entre sons guturais de membros espreguiçados e alongados.Espreguiço também meu corpo, meus braços, e jogo as mãos para trás da cabeça, esperando um drink na praia, sob o sol das duas. 

A cozinha agora é um jazz progressivo de tampas de panela e espátulas, carícias de faca em carne de fruta, batida de lâmina na tábua, o jogo batucado da madeira no azulejo quando pés se equilibram sobre o banco, abrir e fechar de portas e louças que raspam e riscam. A torradeira solta e salta feito caixa e chimbau.

A música acaba e há um quase silêncio de instrumentos sendo afinados, do saborear das palmas da plateia. Quando a música recomeça, é breve e aguda. Um tilintar de talheres sobre louças como sinos, uma torneira aberta como quem pede um silêncio incomodado, e então os músicos saem do palco, seus passos abafados pelo tapete da sala. 

É o fim do espetáculo. 

Viro o pescoço mais uma vez para olhar o relógio. Ele grita sete horas em números cor de laranja, e, sem paciência para argumentar com partes eletrônicas que não têm maturidade emocional, levanto num pulo. São os meus passos, agora, adultos e pesados, que se espalham. Espalha um amor quente no peito, também, quando olho a sala. Dois corpos infantis aninhados no sofá, um de roupas, outro com a metade dos pijamas, rostos tão enfiados em livros do Asterix, que mal notam minha presença. Fico ali ouvindo um pouco suas vidas, uma assombração deliciada com a delicadeza do mundo. A mesa está limpa, a louça na pia. Há migalhas e caroços de pêssego sobre a tábua onde jazem as facas sujas. Prova do crime de uma vida independente. 

Bom dia, eu digo.

Bom dia, eles respondem.

Dou-lhes um beijo.Ganho um abraço. Bom dia começa com alegria, bom dia começa com amor, canta um deles.

Quer um café, mamãe? 

Eu faço o meu, obrigada. Mas pode fazer o do papai enquanto eu coloco uma música. 

Tá bom. 

Coloca aquela música que eu gosto? Café quente. Me conta o que você sonhou. Janelas abertas. 

Apanho o pão na boleira. 

Eita! Vocês comeram quase metade do pão!

É que tava muito gostoso, mamãe.

Que bom. 

Que bom. 

...

 

 

Tem sido difícil preparar pães de outra forma que não deixando que fermentem durante a noite. É simplesmente muito prático, e o resultado fica excelente. O pão básico de sempre, mas com apenas 1/4colh(chá) de fermento. Deixado fermentar durante a noite. Moldado de manhã cedo e deixado fermentar apenas enquanto a panela esquenta no forno alto. Pão na panela fechada por meia hora e depois mais quinze minutos sem tampa. Quando acordo bem cedo, tem pão fresquinho e quente `s sete da manhã. Como não amar isso?

Eu comprara um saco muito grande de fubá para um bolo, e andava procurando coisas a fazer com ele. Encontrei essa receita de Broa portuguesa no site de Martha Stewart. Não confio na autenticidade da receita, mas o pão, que leva um pouco de fubá cozido na massa, fica deliciosamente macio. 

 

BROA, ou PÃO COM FUBÁ

(do site https://www.marthastewart.com/1521175/portuguese-cornmeal-bread)

Rendimento: 1 pão grande

 

Ingredientes:

  • 1 1/2 xic. fubá, e mais para polvilhar
  • 1 1/2 xic. água fervente
  • 5 xíc farinha de trigo, e mais para polvilhar
  • 2 colh. (sopa) sal (eu usei apenas uma)
  • 2 colh. (sopa) açúcar
  • 1/4 colh.(chá) fermento biológico seco
  •  1 1/3 xic. água fria
  • azeite para untar


Preparo:

  1. Numa tigela de inox ou plástico (porque a cerâmica ou vidro podem quebrar com o choque térmico), junte o fubá e a água fervendo e misture até que o fubá absorva toda a água. Mexa um pouco para o vapor sair e leve a tigela à geladeira por alguns minutos até que esteja frio o bastante para manipular.
  2. Numa tigela grande, ou na tigela de uma batedeira planetária com gancho, coloque o fermento, a água fria e o açúcar, e deixe quieto alguns minutos para que o fermento dissolva. Junte a mistura e fubá, o sal e a farinha, e misture bem até formar uma massa que possa ser sovada à mão ou na batedeira apenas até que não sobrem pedaços secos. A massa precisa estar macia e ligeiramente grudenta. Caso esteja muito seca, acrescente mais água, uma colher de sopa por vez.
  3. Forme uma bola na própria tigela e cubra bem. Deixe na bancada durante a noite, fermentando por 12 a 18 horas. A massa deve crescer uma três vezes o próprio tamanho.
  4. NO dia seguinte, unte o interior de sua panela de ferro com um pouco de azeite e polvilhe com um pouco de farinha misturada a fubá, para que o pão não grude. 
  5. Despeje a massa fermentada na bancada enfarinhada e forme uma bola. Coloque a massa dentro da panela untada e enfarinhada. Coloque a tampa e deixe fermentar por mais uma hora e meia a duas horas.
  6. Quando a fermentação estiver no fim, cerca de meia hora antes de assar o pão, ligue o forno a 250oC, com a grade posicionada no terço inferior. Assim que estiver bem quente, abra a panela, use uma faca afiada para fazer um X fundo no topo do pão, tampe novamente e leve a panela ao forno. Abaixe o fogo para 220oC e asse por 45 minutos. (O pão é grande, então precisa de mais tempo no forno)
  7. Terminado esse tempo, com muito cuidado, retire a tampa e asse por mais 15minutos destampado, ou até que esteja dourado a seu gosto. 
  8. Retire a panela do forno com cuidado, retire o pão com a ajuda de uma espátula e luvas de forno, e deixe que esfrie COMPLETAMENTE sobre uma grade antes de servir.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Cansou. Briga de criança e arroz de coco com abóbora e quiabo.

 

Cansou. E se cansou por aqui, onde as coisas começam a melhorar, imagino como deve ter cansado onde nada anda para lugar nenhum. 

Mas cansou. Sexta-feira passada, ousei almoçar com uma amiga no pátio externo de um café pela primeira vez desde... desde quando? Qual fora a última vez em que saíra com uma amiga para bater papo e tomar uma taça de vinho? Janeiro? Fevereiro? Se pensar em pátios externos, vixe, a memória puxa para o último verão. Eita.

Enfim, fazia tempo. Não fosse a máscara de acrílico da garçonete, o café vazio de mesas empilhadas lá dentro, e o fato de que eu precisava vestir minha máscara de volta para entrar e pedir mais uma taça, paga com cartão, pois todos estão evitando dinheiro impresso, até pareceria tudo bem. Mas mesmo esse meio-que-tudo-bem-só-que-não já bastou. O vinho desceu bem, o sol de fim de verão estava agradável, e a conversa foi boa. Libertadora. Verborrágica. Como se uma barragem se rompesse, derrubando água presa por muito tempo de repente, inundando aquela mesa de café. 

Cansou, dizíamos. As crianças precisam ir à escola. Não porque a tabuada seja importante, mas porque elas já não aguentam mais olhar para a nossa cara. Porque um apartamento não comporta tanta energia. Porque a gente consegue se abnegar por algum tempo para priorizar a infância deles, e passar um dia todo no parquinho, mas não todos os dias, não para sempre, não o tempo todo, não vinte e quatro horas por dia desde março.

Noutro dia Allex levou as crianças de bicicleta até a praia, para ajudar a recolher lixo e limpar pichações das pedras. (Porque sim, isso acontece aqui no Canadá também, isso de ter gente mal educada emporcalhando a natureza e a cidade, e vira e mexe a gente sai para tentar ser parte da solução e não do problema.)  Meu pé doía, e daquela vez, resolvi ficar em casa ao invés de passar tempo com os três. Quando a porta se fechou atrás de Laura, olhei em torno e me dei conta de que era a primeira vez que ficava sozinha em casa desde março. O silêncio era um abraço. 

Era tanta liberdade que eu não sabia o que fazer com ela. E por duas horas e meia vaguei pelo apartamento como um espectro, uma assombração de quem eu fora um dia, sem memória bastante para materializar minha identidade. 

Cansou.

Cansei.

As crianças cansaram. 

Faz já um mês que passo meu dia desengalfinhando os dois. Thomas pede paz para ler sossegado. Pede sossego para brincar em paz. Laura pula em cima dele, senta perto demais, fica constantemente de ponta cabeça, virando cambalhotas no chão e no sofá e resvalando seus pés apenas perto o bastante do irmão para irritá-lo, mas sem tocá-lo. Ele pede para que ela saia. Para que pare. Ela não pára. Ela quer atenção dele, quer brincar com ele, e fica frustrada em ver o irmão num momento introspectivo e solitário. Ouço um tabefe e um berro e lá vou eu separar a briga, conversar, explicar que não se resolve conflito com tapa, que eles têm idade para usar as palavras, para dizer como se sentem, e que se tudo falha, eles precisam vir chamar papai e mamãe para ajudar com o problema. Tá bom? Tá bom. Pede desculpas. Desculpas. Vão brincar tranquilos? Vamos. 

Meia hora depois, ouço as vozes de brincadeiras adquirirem outro tom. Thomas faz voz de desenho animado quando está bravo com Laura, como quem imita um monstro gritando, mas sem de fato levantar a voz. Laura berra esganiçado, naquele misto de choro com meias palavras difíceis de se entenderem, que me arrepiam os pelos da nuca feito unhas no quadro-negro. É uma briga de Schrödinger. A briga pode ou não virar tabefe, mas eu só vou saber se abrir a porta do quarto. 

Abro a porta do quarto. Posso ajudar? 

Não, não pode.

Mas vocês estão brigando. Quero saber se posso ajudar.

Deixa a gente resolver. Se você se meter quando a gente briga, a gente não vai aprender a resolver sozinho. 

(É isso o que acontece quando se ensina uma criança de sete anos a argumentar.)

Eu sei, Laura, mas quando vocês começam a falar um com o outro nesse tom, normalmente um dos dois atinge o limite e vai pro tapa. Se vocês atingiram o limite de vocês e não enxergam uma saída para a discussão, tem que chamar a mamãe para ajudar.

Deixa a gente resolver.

Vocês vão se bater?

Não.

Tá bom.

Viro as costas e fecho a porta. A discussão continua. Uma briga por uma peça de lego que o outro pegou sem permissão. Ouço um tapa e um berro.

Eita.

É a peça de lego. É o livro com a página desmarcada. É sentar muito perto no sofá. É o bichinho de pelúcia. É o assobio. É o batuque no chão. É o "ele está olhando para mim".

Sério? Ele está OLHANDO para você?

É.

Eita.

Laura, respeita o espaço do teu irmão. Thomas, se você não diz como se sente, os outros não têm como adivinhar que estão te incomodando. Laura, você pode cantar na sala, não precisa ser no quarto onde teu irmão está brincando. Thomas, se a Laura estava usando aquela peça,você precisa pedir primeiro. Ai, gente, pelamor, tem umas duzentas dessas peças no Lego de vocês! Precisa mesmo brigar? Gente, senta um de cada lado, vai! Vocês dois! Se vocês não querem brincar juntos, fica um na sala e outro no quarto, não precisa ficar um em cima do outro o tempo todo! Eita nóis, vai, toda vez que vocês brincam de batalha um chuta o nariz do outro e os dois ficam fulos! Dá pra parar?

Cansou.

Né?

É.

Do lado de fora, nada disso acontece. E eu adoraria (mesmo) passar o dia todo do lado de fora com eles, como já fiz outras vezes. Sei que faz bem para mim e para os dois também e desse jeito ninguém briga. Mas com as pendências do livro para resolver e todas as ilustrações para entregar, anda cada vez mais difícil. Trabalho de manhã, interrompida pelas querelas infantis, e levo eles ao parque à tarde. As chuvas de fim de verão, no entanto, não têm ajudado, e muitos desses dias terminam confinados ao apartamento. 

Ai, meu deus, e a como gasta a energia então?

Allex pára o trabalho dele para colocar os dois para fazer ginástica ou yoga. Faz prancha, faz polichinelo, faz burpee até suar. Faz torção, arruma a postura,estica até alcançar o pé. Cansou? Ótimo. Agora vai ler um livro sossegado.

Sabe aquele filme, Dr. Fantástico? Pois é, falei pro Allex outro dia que o personagem do pai parece um amálgama de nós dois. Hahaha. 

Eu saía do café, com a cabeça ligeiramente leve do vinho e da conversa, quando Allex me ligou. "Estou saindo de bicicleta com as crianças." Eram quatro da tarde. Olhei em volta, e aquele fim de tarde de sexta-feira estava lindo e eu estava de bom humor depois daquelas horas apenas minhas. "Que bom, porque estou justo chegando em casa. Eu vou junto."

 

Pedalamos vinte quilômetros ao longo do lago até uma praia grande do outro lado da cidade. Havia um food truck com algumas cadeiras servindo hambúrgueres e sorvete. Jantamos. Largamos as bicicletas no calçadão e pulamos no lago, ainda aquecido pelo sol. Deixei-me flutuar um pouco, as roupas inflando feito balões sob a corrente de água. Voltamos pedalando de volta aqueles vinte quilômetros, perseguindo o por-do-sol. Eram nove da noite quando chegamos em casa.


Quando colocamos as crianças na cama, eu não me lembrava mais de suas discussões das sete da manhã. O dia fora perfeito. Eu estava restaurada pelas horas minhas e por aquelas horas do lado de fora.

Mas na manhã seguinte, é claro, começaria tudo de novo. 

Bom dia começa com alegria, bom dia começa com... "Me devolve meu dragão, Laura!" "Eu não peguei seu dragão bobo!" "Pegou sim!"

Eita.

...

Justamente por conta desse clima tenso das crianças, exaustas das incertezas, do excesso de convivência um com o outro e da ausência dos amigos, é que tenho tentado me cuidar. Cuidar do corpo e da cabeça para tentar manter meus níveis Zen de paciência perto do infinito. Dá vontade de gritar de volta e botar todo mundo de castigo. Mas não, né? Zen Master. Conversa, explica, dá soluções, mostra que é possível, dá o exemplo. Afe,exemplo. É difícil. Cansa. Mas chega o dia em que dá certo. 

Deixa eu me cuidar, então.

Meditação? Check.

Yoga? Check.

Kettlebell? Check. 

Comida leve? Check.

Arte? Check.

Voltei a praticar yoga e kettlebell todos os dias com o marido depois que o médico começou a me passar exercícios para o pé que eram os mesmos das duas práticas. E o pé finalmente começou a melhorar. Tem sido muito bom para gastar o meu excesso de energia também, esse que anda explodindo dentro de mim depois que deixei de correr dez quilômetros por dia para ficar minha manhã inteira sentada na  frente do computador. 

E continuo a brincar com essa ideia de veganismo durante a semana. Tinha começado com isso durante o treino para a ultramaratona que não aconteceu por conta da pandemia e também porque os laticínios canadenses andavam me dando azia quando consumidos todos os dias. A azia foi embora e o que sobrou foi essa sensação boa de leveza no corpo.  

Tenho acordado para cafés da manhã assim. Uma torrada com tahini e abacate e uma porção de frutas. Nada de cappuccino. Só café. Às vezes uma água de coco.

Se dá fome no meio da manhã, mando pra dentro mais uma porção de fruta. 

Almoço, desde o começo da pandemia, tem sido restô-dontê.Havia sobrado arroz de abóbora com coco de uma receita do Jamie Oliver que eu fizera na noite anterior. Refoguei umas folhas de beterraba em cebola e alho, e preparei uma salada rápida de alface romana, rúcula, pepinos e salsão, temperada apenas azeite e limão, para acompanhar. A parte boa de comer só verdura é que dá pra montar um pratão de caminhoneiro.


Lanche é sempre no parque. Preparo o piquenique das crianças já pensando num pouquinho para mim. Frutas, frutas, frutas, que há que se aproveitá-las no verão e umas bolachas salgadas integrais. Ou algas. Ou trail mix (aquela mistura de castanhas, sementes e frutas secas).

Os dois vira e mexe saem fazendo suas invencionices. Bolacha com fruta, até vai. Mas outro dia Thomas estava fazendo rolinhos de alga com melancia. Vai entender.

Preparo o jantar enquanto as crianças estão no banho. O dia ainda é claro lá fora. Allex ainda está na última reunião do dia, em frente ao computador, ou gerenciando o banho da pimpolhada. Lavou o cabelo? Não? Então volta e lava. 

No dia anterior eu preparara o arroz de coco e abóbora e os quiabos com feijão branco. Tão bom que me empolguei a fazer outra receita do seu Oliver. Fazia muito tempo que eu não cozinhava nada dele.Aliás, fazia muito tempo que eu não usava uma receita para fazer jantar. Veio logo uma sensação de tempos passados, de vida distante, essa em que toda refeição tinha um livro aberto na cozinha guiando meus passos. 

As crianças viram comigo um video dele preparando um macarrão com molho de pimentão amarelo, muito simples, e imediatamente pediram para que eu fizesse também. Fiz, trocando apenas o parmesão do molho por um pouco de levedura. E ficou muito gostoso. Se a gente usasse aquele macarrão curvadinho, ia ficar parecendo Mac'n'Cheese!, disse Thomas. Olha, que parece mesmo. Posso mandar esse macarrão de almoço na escola? Poooodeeeee!

Eu tinha um maço imenso de couve que ia acabar estragando, então refoguei em alho e pimenta para acompanhar o spaghetti.


Não lembro nem como caí no video dele preparando esse arroz e esse quiabo, mas quando vi, fiquei subitamente empolgada. A receita é fácil e deliciosa. Teria saído melhor se eu não tivesse atendido o telefone no meio do preparo e ficado de papo com uma amiga. Na distração, coloquei o dobro do leite de coco e não piquei o bastante as abóboras, fazendo com que o arroz absorvesse água demais e a abóbora não dissolvesse no caldo. Também não encontrei os tal Butter beans, ou Lima beans, e acabei usando White kidney beans. Mas qualquer feijão branco serve. A receita original usava pimentas Scotch Bonnet. Como a tolerância para pimenta das crianças é baixa, preferi não usar a pimenta no preparo e simplesmente deixar um bom molho de pimenta à disposição na mesa para quem quisesse. A receita diz render 6 porções, mas rendeu bem umas oito, para ser sincera. O que não é problema para ninguém, já que ficou gostoso. Se for usar arroz agulhinha no lugar do basmati, acerte a quantidade de água + leite de coco para a proporção que você normalmente usa para o cozinhar o arroz comum.

 ARROZ DE ABÓBORA COM COCO e QUIABO COM FEIJÃO BRANCO
(Do site de Jamie Oliver: https://www.jamieoliver.com/recipes/rice-recipes/pumpkin-rice/)
Rendimento: 6 porções
  • 400 g abóbora, descascada e picada em cubos de 2cm
  • 100 g leite de coco
  • 4 grãos de pimenta-da-jamaica
  • 4 cebolinhas
  • alguns raminhos de tomilho fresco 
  • 400g de couve, sem os talos, rasgada em pedaços menores
  • 450 g arroz basmati
  • 2 dentes de alh, fatiado
  • 1 cebola, picada
  • azeite
  • 200 g tomates cereja, cortados ao meio
  • 200 g quiabo, sem as hastes e cortado ao meio
  • 700 g feijão branco cozido (em lata)

Preparo:

  1. Leve 800ml de água à fervura numa panela grande, e junte o leite de coco, a pimenta-da-jamaica, as cebolinhas e metade do tomilho. Junte a abóbora e a couve, mais 1/2 colh.(chá) sal e um pouco de pimenta-do-reino, tampe e deixe cozinhar por dez minutos.
  2. Junte o arroz, abaixe o fogo, tampe e deixe cozinhar por cerca de 12 minutos, ou até que o arroz esteja cozido. Desligue o fogo e deixe terminar de cozinhar no vapor.
  3. Numa frigideira grande com tampa, aqueça o azeite. Junte o alho e a cebola, uma pitada de sal, e deixe amolecer e começar a dourar.
  4. Junte os tomates, mexendo bem, até que amoleçam um pouco. Junte o quiabo e o tomilho, misture, tampe a panela e cozinhe por oito minutos em fogo médio-baixo.
  5. JUnte o feijão escorrido, um pouquinho de água, e misture bem, cozinhando por mais uns cinco minutos para que os sabores se misturem. 
  6. Sirva o arroz e o quiabo com seu molho de pimenta favorito.


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