segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Geleia de amoras com gostinho de obsessão

Depois que a conserva de ameixas deu certo [está bem vedada, e até agora não mostrou nenhum sinal de estar estragando], fiquei bastante empolgada com a ideia de conservar comida, e saí fuçando e marcando em meus livros todas as receitas de geleias, compotas, chutneys, molhos, picles e afins. Quero fazer tudo! Ainda mais agora que percebi que não preciso fazer quantidades imensas. Posso fazer um vidrinho só de cada coisa, sem o risco de estragar um monte de comida.

Comprara na feira uma bandejinha de amoras grandes e bonitas, mas elas não estavam tão doces quanto eu esperava, e não estavam gostosas para serem comidas ao natural. Enquanto esmiuçava meus livros, deparei-me com uma das dezenas de receitas de geleia de amora, e resolvi testar aquela específica com as amoras que eu abandonara em minha geladeira.

Eu gosto de receitas precisas, e fico passada quando me vejo numa situação de dúvida, ingredientes nas mãos, panela no fogo, sem saber como prosseguir. Dividira a receita em três, uma vez que só tinha 2 xícaras de amoras, 1/3 da quantidade de frutas requeridas. Coloquei-as na panela com a maçã, separei o açúcar e o suco de limão... e fiquei na dúvida. A receita pedia para COBRIR as amoras com até 1cm de água. Hmmm... isso quer dizer colocar só 1cm de água na panela, ou cobrir as amoras e ultrapassar 1cm?

Erroneamente, escolhi a segunda opção. Em seguida, a receita indicava para medir o suco obtido das amoras e acrescentar uma quantidade X de açúcar para cada Y de suco. É claro que eu obtivera mais suco do que deveria, uma vez que colocara mais água também do que deveria. Prossegui, e no que a autora indicava que aos 220ºF a geleia estaria pronta, entornei-a no vidro esterelizado, fervi-o e guardei-o.

No dia seguinte, descobri que minha geleia estava mais para um xarope: completamente líquida.

Sem nada em meus livros que indicasse o que fazer nesse caso, pensei haver perdido minhas preciosas frutas e meu tempo. Mas não, depois de alguma pesquisa na internet, descobri que se a geleia não deu ponto, você pode sim retirá-la do vidro e consertá-la. Provavelmente havia pouca acidez na minha geleia, uma vez que a autora pedia suco de limão siciliano e eu usara um limão tahiti, com muito menos suco, e também deveria ter deixado ferver um pouco mais. Coloquei um pouco mais de suco de limão e açúcar, e deixer chegar novamente aos 220ºF, no que a geleia reduziu e, ao testá-la também de forma tradicional (no pratinho gelado), ela indicou que estava no ponto certinho.

No entanto, ao entornar a geleia no vidro, ainda borbulhante, ela transbordou, como leite fervendo, e ainda que eu tenha limpado bem a borda antes de fechar o vidro, ele provavelmente não ficou bem vedado, e mesmo depois de fervê-lo, a tampa continuava fazendo "pop" e se movendo à pressão do meu dedo.

Desisto.

Cortei uma fatia de pão, passei-lhe um pouco de manteiga, abri o pote da geleia e retirei dela uma bela colherada. O vidro foi para a geladeira ao invés da despensa. Tudo bem. Vou ter de fazer o esforço de comer a geleia de amoras agora ao invés de daqui a um ano. Hmmm... Difícil... ;)

Deixo a receita original, uma vez que saí adaptando e consertando e não anotei nada...

GELEIA DE AMORAS
(do livro Chez Panisse Fruit)
Tempo de preparo: 30 minutos
Rendimento: 3 1/2 xícaras


Ingredientes:
  • 6 xíc. amoras maduras
  • 1 maçã cortada em cubos de 0,5 cm (com sementes, casca e cabo)
  • 2 xíc. açúcar
  • suco de 1 limão siciliano

Preparo:
  1. Lave as amoras, descartando qualquer uma que esteja mofada e coloque-as numa panela grande e de fundo grosso, com a maçã. Coloque 1cm de água na panela e leve ao fogo médio por 10 minutos, amassando as amoras com as costas de uma colher.
  2. Passe as frutas por uma peneira, recolhendo os sucos em uma tigela de vidro. Esprema as frutas até retirar todo o seu suco. Descarte a polpa e meça o suco. Deve haver cerca de 4 xíc.
  3. Volte esse suco para a panela e acrescente 1/2 xic. de açúcar para cada xíc. de suco. Junte o suco de limão.
  4. Em fogo alto, ferva o líquido, retirando com uma escumadeira a espuma que se formará na superfície. Quando marcar 220ºF no termômetro para doces, estará pronto. Ou coloque um pires no freezer; coloque 1 colh. (chá) da geleia no pires e volte-o ao freezer por 1 minuto; a textura deve ser de xarope bem grosso.
  5. Despeje nos vidros esterelizados, deixando 1cm de borda. Feche os vidros e ferva-os por 10-15 minutos. Deixe esfriar por 24 horas, sem mexer, antes de guardar por até 1 ano. (A receita original manda apenas "processar os vidros como manda o fabricante", pois nos EUA se compra vidros de conserva com aros para selar as tampas, e com instruções precisas de quanto tempo se deve ferver os vidros e como.)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

UMA SEXTA FEIRA FRUGAL 7: conserva de ameixas em xarope de mel

Conservas em geral são coisas com as quais sempre flertei mas jamais me comprometi. O conceito é fantástico: compre o que você gosta quando está na estação e faça conservas das sobras, para ter o ano inteiro. A imagem dos vidrinhos de geleia, das compotas, dos picles e chutneys enfileirados na minha prateleira é linda em minha mente. Mas o medo de me comprometer com o processo e acabar com vidros e vidros de comida mofada era grande. Durante os últimos anos, não saí do cercadinho seguro da geleia de maçã que fica na geladeira e não precisa de esterilização nem nada disso. Apenas uma vez me aventurei a fazer uma conserva de pimentões com base em um livro emprestado. Mas o livro pulava várias partes importantes sobre o processo e não dizia se a conserva deveria ficar ou não na geladeira. Resolvi testar. Dois dias depois, meus pimentões espumavam para fora do vidro. Frustração total.

Então encontrei um blog. Um blog lindo, fantástico, sobre tudo aquilo de se comer que se guarda e conserva. Fiquei fascinada pelas receitas e pelas fotografias, e marquei nos meus favoritos. Um dia. Ah, um dia eu faço alguma receita.

Na quarta-feira, eu comprara uma Food & Wine para ler na hora do almoço, uma vez que a tv a cabo (que normalmente me faz companhia enquanto como) estava com problemas, e eu passaria o dia justamente esperando pelo técnico. Na revista havia um texto de Eugenia Bone, autora de um livro sobre conservas, contando sobre suas aventuras na cozinha no último mês do ano. O relato de todas as gostosuras saídas de sua despensa e feitas por ela, muitas vezes um ano antes, me deixou completamente encantada. E, enquanto o técnico me deixava plantada já por cinco horas, resolvi que era chegada a hora de tentar. Entrei no Food in Jars e procurei por uma receita que levasse ameixas, qualquer coisa, geleia, compota, chutney, o que fosse. Pois eu tinha uma grande tigela de ameixas orgânicas na geladeira que estavam mais azedinhas do que eu gostaria. E encontrei uma receita muito promissora de conserva de ameixas em xarope de mel.

Para não correr o risco de estragar muita comida, adaptei a receita para um vidrinho só, do tamanho de um vidro médio de palmito. E comecei a receita, na verdade muito fácil, com aquele medo absurdo do marinheiro de primeira viagem, tremendo enquanto a pinça de metal puxava para fora o vidro escorregadio e pesado de dentro da panela com água fervente. Assim que coloquei o vidro quente na tábua de corte, ele começou a soltar um barulhinho suave, quase um assobio. Aparentemente era um bom sinal, segundo o blog. Vinte e quatro horas depois, dei alguns tapinhas com a ponta do dedo na tampa. Ela estava côncava e o som era seco, ao invés de oco. Iêeeei! Isso queria dizer que o vidro estava de fato muito bem vedado.

O medo se dissipou imediatamente, e fiquei com uma vontade louca de fazer muitas outras conservas como essa. Agora fica aquele comichão... quero abrir e comer e ver como ficou... não. Tem que esperar, dar um mês, para ficar mais forte e para ver se dura, se de fato deu certo. Mas eu quero comer agora! Com iogurte! Com sorvete! Não, mas para que diabos serve uma conserva de um dia só?

Dilema cruel...
;)

PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR: Vocês fazem conservas? Do quê? Têm algum livro específico a respeito ou aprenderam com pai, mãe, avós?

CONSERVA DE AMEIXAS EM XAROPE DE MEL E CANELA
(adaptado daqui)
Tempo de preparo: 35 minutos
Rendimento: 1 vidro de uns 500ml de capacidade
Ingredientes:
  • ameixas suficientes para caber no vidro (depende do tamanho delas)
  • 1/4 xic. + 2 colh. (sopa) mel
  • 1 xic. água
  • 1 pedaço pequeno de canela em pau
  • 1 vidro de conserva de uns 500ml
Preparo:
  1. Coloque uma panela grande cheia de água para ferver. Limpe bem o vidro e as ameixas.
  2. Em uma panelinha menor, ferva a tampa do vidro. Em outra, misture a água e o mel e leve à fervura, até que o mel esteja dissolvido.
  3. Coloque as frutas inteiras dentro do vidro, o mais apertadinhas possível. Insira a canela em pau e despeje o xarope de mel dentro do vidro, deixando 1cm da borda. Limpe qualquer respingo da borda e com a ajuda de um pegador de metal, retire a tampa da fervura e feche bem o vidro.
  4. Coloque o vidro fechado dentro da água fervendo na panela grande. Deixe ferver por 25 minutos contando a partir do momento em que a água volta a ferver.
  5. Retire com a ajuda um pegador, com muito cuidado, e coloque na bancada, sobre um pano de prato. Deixe que esfrie completamente e não mexa nele por 24 horas. Passado esse tempo, limpe qualquer resíduo que possa ter vazado para fora (segundo a autora, às vezes acontece). A tampa deve estar côncava e firme quando pressionada. Se se movimentar ou estiver estufada, há ar dentro do pote. Ao bater com o dedo, na tampa, o som não deve ser oco, o que também indicaria ar dentro do vidro e uma vedação falha. Coloque a data e guarde a conserva num local fresco e escuro por até 1 ano.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Salada de manga com molho de iogurte e camarões empanados em coco


Não é fantástico que o idioma permita que chamemos camarão empanado de salada? Resta a suave ilusão de que nada daquilo vai de fato para os seus quadris. Mas bem... o que há de se fazer? Todo mundo merece um pouco de camarão empanado de vez em quando...

Assim que vi a salada na revista francesa Saveurs, corri à feira para comprar um punhadinho de camarões e uma manga bem madura. E não me arrependo nada da decisão. A salada é muito refrescante e, estranhamente, apesar de não levar sal nenhum, não tem gosto de sobremesa. E os camarões... tem coisa melhor do que camarão empanado em coco ralado? Hmmmm...

SALADA DE MANGA COM MOLHO DE IOGURTE E CAMARÕES EMPANADOS EM COCO
(da revista Saveurs)
Tempo de preparo: 25 minutos
Rendimento: 4 porções


Ingredientes:
  • 16 camarões crus, limpos, apenas com o rabo
  • 1 ovo
  • 2 colh. (sopa) farinha de trigo
  • 100g coco ralado
  • 1 colh. (sopa) farinha de rosca
  • 2 mangas maduras
  • 1/2 xíc. de iogurte integral natural
  • 1/2 colh. (chá) pimenta Caiena
  • 2 colh. (sopa) suco de limão
  • 2 colh. (sopa) coentro fresco picado
  • 1 colh. (sopa) óleo de gergelim (na falta dele, usei azeite de oliva)
  • sal e pimenta-do-reino

Preparo:
  1. Numa tigela, misture o iogurte, a pimenta caiena, o suco de limão, óleo de gergelim e coentro. Misture bem e deixe na geladeira.
  2. Corte a manga em cubos e coloque em uma tigela.
  3. Tempere o camarão com sal e pimenta a gosto. Passe os camarões na farinha, depois no ovo batido e por fim na mistura de farinha de rosca e coco ralado. Frite-os em óleo bem quente, até que fiquem dourados e cozidos. Seque em papel absorvente.
  4. Despeje o molho de iogurte por cima da manga cortada e disponha os camarões por cima. Decore com cebolinha picada, se quiser.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Tralha nova, bolo novo

Na sexta-feira passada, Allex entrou em casa com uma mochila grande, cheia e deformada nas costas. Em tempo: ele vai e volta de moto para o trabalho, o que nesses dias em que os céus vem caindo é quase uma piada, e o pobrezinho chega em casa com cara de cachorro molhado. Bem, como ele mesmo diz, de moto ele chega molhado e de carro ele não chega.

"Feliz Natal", disse ele, abrindo a mochila no chão e retirando peças brancas e azuis embaladas individualmente em plástico.
"What the f...?!"
"Ah, comprei seu processador, mais a caixa não cabia na mochila, então ela foi para a reciclagem e o brinquedo veio em pedaços."
"E eu já posso usar? Ou é só no Natal?"
"Você vai querer fazer coisas com ele agora, não vai?"
"Vou."
"Então... e eu não vou embalar tudo isso de novo em outra caixa. Feliz Natal adiantado."

No fim das contas, baseado nos comentários de vocês e alguma pesquisa, acabei escolhendo um dos modelos mais simples dentre os nacionais mesmo. Achei tentador comprar um processador maior e cheio de tralha, mas a verdade é que eu não preciso de um processador-juicer-batedeira-corta-unha-do-pé-traz-café-na-cama. Já tenho uma bela de uma batedeira, e não sou muito de fazer sucos de frutas (prefiro comê-las), e quando os faço, uso aquele espremedorzinho manual que parece um espremedor de alho, que acho muito prático e funciona muito bem. Ah, mas aqueles cortam fatias de várias espessuras... Argh. Não, não preciso disso. Para falar a verdade, corto os meus legumes com a faca mais rápido do que o tempo que me leva para montar o processador. Para quê então eu realmente precisava de um? Para fazer todos os bolos e massas do tipo "joga tudo dentro e pulsa 30 segundos", e para emergências como o dia em que fiz uma pissaladière para 8 pessoas, e passei 45 minutos cortando quase 2kg de cebolas em meias-luas finas. Acreditem: eu nunca mais quero passar por isso

A dúvida cruel era que o cheio de tralha era de fato bem maior do que o com menos tralha. A psicopata metódica em mim apanhou todos os livros de receita da estante, procurou uma por uma as receitas que usavam processador e, baseado no manual de instruções online dos modelos de processadores e o limite de peso de farinha e número de ovos, calculou se o volume de massa de todas aquelas receitas era suportado pelo tamanho da tigela do modelo menor.

Cu-cooo! Cu-cooo! Louca de pedra.

Bem, o modelo menor era bastante.

Resolvi testar o brinquedo novo na segunda-feira, com uma receita muito, muito simples, mas que sempre foi um verdadeiro desastre aqui em casa: o bolo de cenouras de minha mãe. Ele é um bolo dummy-proof, como já escrevi aqui. É muito difícil ele dar errado, e mesmo quem nunca acertava bolo de cenoura tem ótimos resultados com ele. Por isso me considero muito talentosa: só na minha mão ele dava errado.

Primeiro, era o liquidificador maldito, que não batia direito. Ele não tinha potência e não puxava os ingredientes de cima para a parte debaixo, batendo em falso; e o que teoricamente seria uma atividade muito simples (colocar tudo no liquidificador e apertar o botão "Ligar") virava uma epopeia de abre, mexe com a colher, tira a bolota de farinha presa embaixo da inalcançável lâmina, mistura o ovo que nesse meio tempo foi absorvido pelo açúcar e virou uma papa dura... Muitas vezes tudo isso alterava a textura do produto final, e o bolo não saía como deveria, com o miolo irregular, assado num ponto, cru em outro, com buracos no meio. [É visível a diferença de textura do miolo dos dois bolos, da foto do post antigo e desta foto atual.]

Então tentei a batedeira. Mas também não dava certo. Ela demorava mais do que devia para misturar os ingredientes, incorporava ar demais à massa e o bolo crescia, crescia, transbordava e ia parar no chão do forno, espalhando pela casa um horrível cheiro de queimado e soltando fumaça escura em toda a minha cozinha.

Precisava ser essa receita. Se havia um momento de redenção do bolo de cenoura, seria aquele. Montei o bichinho na bancada, ainda pouco familiarizada e resolvi que, primeiro, claro, ralaria as cenouras nele. Eu fatio e pico coisas numa boa, mas eu detesto ter de ralar cenouras, beterrabas, e principalmente grandes quantidades de queijo, uma vez que, invariavelmente, eu vou acabar ralando os nós dos dedos.

Liguei o menino. E imediatamente comecei a rir. Talvez por ele ser de plástico, ele não tenha o peso necessário para mantê-lo tão estável quanto, por exemplo, minha batedeira, que pesa 10kg e não sai do lugar mesmo batendo as massas mais pesadas. O bichinho me lembrou o movimento daqueles bonecos de vento de postos de gasolina. Iúuuuuuuuhuuuuuu!, imaginei ele gritando, enquanto rebolava loucamente. Coloquei minha mão em cima, para mantê-lo firme e prossegui. No final, apesar do centro de gravidade deslocado, ele é menos barulhento que meu antigo liquidificador (que apesar de pouco potente parecia um ar-condicinado industrial quando ligado), e fez muito bem seu trabalho, ralando as cenouras rapidinho sem ralar meus dedos junto. ;)

O bolo.

Quando terminei de colocar todos os ingredientes na tigela que anunciava ter 2,5l (e tem), mas que na verdade sugere um limite de 1,5l, achei que tinha feito bobagem, que teria sido melhor comprar um modelo maior, mesmo com toda a tralha que viria junto. Os ingredientes ultrapassavam em 1cm o tal do limite proposto. Isso vai explodir para todo lado, pensei, imaginando ovos, farinha e cenouras pelas paredes. Arrisquei. E, para minha felicidade, em 30 segundos o bolo estava batido. E pela primeira vez em quatro anos, o bolo assou maravilhosamente bem, e finalmente ficou com a textura fofa e uniforme dos bolos de minha infância.

Felicidade total.

Levei o bolo para o café da manhã da corrida, na manhã seguinte, e fiquei o tempo todo torcendo para que meus amigos acabassem com ele. Se não houver mais bolo, vou "ser obrigada" a fazer outro. Puxa... ;)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Voltando...

Devagar vou voltando à normalidade, se é que essa palavra alguma vez foi aplicável. Dizer que esse ano foi um ano ruim é ofensivo ao Universo, que colocou sim bons momentos e boas pessoas em meu caminho. Este ano evoluí como profissional graças a excelentes ilustradores e artistas que conheci e que tiveram a bondade de serem meus professores. Este ano reavivei dentro de mim a paixão pelo desenho, que andava moribunda. Este ano foi muito bom para meu casamento, e pudemos pensar muito no futuro e ansiar por ele. Este ano meu cãozinho cruzou pela primeira vez e seus filhotes, agora com dois meses, são a prova de que há beleza e doçura no mundo. Este ano fiz muitos novos – e bons – amigos. Este ano atingi duas metas que eram importantes para mim: emagrecer 10kg e correr minha primeira meia maratona (21km). E vou terminar o ano fazendo algo que sempre quis fazer: correr a São Silvestre.

Foram poucas, pouquíssimas as coisas que me fazem pensar nesse ano como um ano ruim, apesar de todos os pontos positivos que pude citar. Primeiro, este foi o pior ano desde que abri minha empresa. E quem trabalha por conta própria sabe o quanto dói analisar planilhas e gráficos e perceber que seu faturamento não está seguindo a tendência que você previra. É extenuante a expectativa pelo trabalho que colocará seu fluxo de caixa de volta nos eixos. A assim chamada crise foi a desculpa perfeita para que muitas empresas eliminassem sua verba de comunicação por boa parte do ano. E isso afetou a todos os profissionais da área de criação, principalmente os da ponta da cadeia, como ilustradores e fotógrafos.

Segundo, minha avó faleceu em meados do primeiro semestre. Era esperado, mas o processo foi mais longo e doloroso do que o necessário. É interessante como a quebra de um elo, como os avós normalmente são, nunca deixam os laços familiares que restam como eram; eles se estreitam ou desfazem definitivamente. Neste caso, o laço foi desfeito de forma irreversível, deixando em mim uma marca indelével, um gosto amargo na boca, que para sempre me lembrará dos limites da mesquinharia humana. Foi um corte brusco e profundo, de cicatrização muito lenta, que ainda pulsa devagar, me lembrando da ferida. E eu fico aqui, inconformada, sem entender o mundo.

Eu não era muito próxima de minha avó. De nenhuma das duas. Não me lembro de nenhuma conversa significativa. Mas nossos pratos favoritos estavam sempre ali nos esperando, e eu sabia que havia amor ali, disfarçado de alimento. Ela se prontificou, já muito idosa, a me ensinar a fazer macarrão, quando lhe pedi. E gnocchi. E manjar branco. E então me deu todos os seus cadernos de receita para que eu desse continuidade à cozinha que ela já não mais praticava. No meio daquele mês ácido, no entanto, os cadernos me foram tomados, e tudo o que me resta dela é seu bolo de laranja decifrado e os bolinhos de banana, favoritos de meu pai.

É sempre a mesma agonia para mim, quando alguém morre. A sensação egoísta de que perdi minha chance de fazer qualquer coisa boa por aquele ser que passou por aqui. Todas as boas intenções de nada mais servem. Salada de catalogna e abóbora. Era o que eu estava almoçando quando minha mãe me telefonou, e a fotografia está até hoje alojada numa pasta em meu computador, e eu simplesmente não consigo publicá-la aqui, ainda que o gosto doce, amargo e salgado ainda estale em minha boca.

Sinto falta da ideia de ela estar lá. E apesar de ela ser co-responsável, junto com minha avó materna, pelo meu amor à cozinha, não consegui me fazer escrever sobre ela durante todos esses meses. Por todo esse tempo, minha vontade de cozinhar ficou dormente, fingindo que despertava vez ou outra, apenas para manter vivo esse espaço e aquela centelha dentro de mim que ainda acreditava em amar através da comida. Era difícil acreditar em amor após testemunhar tanta ausência dele.

Mas acho que finalmente a ferida parou de latejar. Pode ser a aproximação do Natal. Os piores Natais ainda são bons, de alguma forma. Pode ser que eu tenha encontrado suficiente amor durante os últimos meses para aniquilar meu cinismo de uma vez por todas. Talvez seja simplesmente um processo natural. Talvez o fato de o trabalho ter voltado ao normal no final do ano tenha me tirado da espiral descendente em que eu me encontrava.

De repente, minha vontade de cozinhar parece restaurada. Quero fazer biscoitos, cannoli, pães, quero gente jantando em casa, quero preparar o almoço do dia 25! Principalmente, sinto vontade de compartilhar outra vez. Como se minha visão tivesse sido restaurada, consigo ver beleza novamente nos pratos que saem da minha cozinha, e agora é fácil escrever a respeito deles. Não é mais um fardo, como fora nos últimos meses. Voltou a ser um prazer. Prazer em fazer, em alimentar, em fotografar, em contar, em dividir, em debater.

Eu andara querendo fechar o blog, pensara por que diabos acumulara tantos livros de culinária, e estava cozinhando mecanicamente. Então eu quis fazer massa folhada. Massa folhada! E eu fiz pão, um lindo pão de centeio, pela primeira vez em meses. E fiz biscoitos para decorar a árvore de Natal.

Curada. Enfim.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Biscoitos na árvore de Natal, ou um voto de confiança para meu cachorro

É engraçado como as coisas funcionam... Quando nos mudamos da casa de nossos pais, um surto de independência nos fez querer distância de qualquer coisa que nos lembrasse família e tradição. Mas conforme os anos vão passando, a nostalgia vai crescendo, e a vontade de retomar cada costume de nossas infâncias nos domina. Essa é nossa primeira árvore de Natal. Nos anos anteriores, a falta de espaço ou a falta de vontade fez com que nos conformássemos com um alecrim de Natal: minha mudinha de alecrim (a coisa mais parecida com um pinheiro em casa) com uma única bolinha vermelha pendurada, que parecia mais um nariz de palhaço do que um enfeite natalino. Este ano, após uma arrumação da mobília da sala, finalmente conseguimos um canto para a árvore. E lá fui eu, toda empolgada.

Ao invés de gastar comprando decoração de Natal, no entando, nos limitamos às lampadinhas, e decidi completar a árvore, que até então tinha apenas três ou quatro enfeites acumulados nos anos anteriores, com biscoitos. A ideia me pareceu genial: além de ser uma tradição gostosa, não preciso reservar espaço no meu minúsculo apartamento para guardar um monte de bolinhas vermelhas durante o ano todo.

Usei uma receita de biscoitos da Nigella específica para decoração de árvore. A receita, como quase tudo o que ela faz, era para ser feita no processador, que o Sr. Noel ainda não trouxe. Lá fui eu adaptar para a batedeira, e funcionou muito bem. Aliás, excelente receita, pois mesmo dando errado, ela dá certo. Era para misturar a manteiga e o açúcar juntos, e depois acrescentar o ovo batido com o mel, mas não tudo, apenas o suficiente para dar liga. Esqueci o açúcar, joguei todo o ovo com mel e tive que colocar o açúcar depois e acrescentar mais farinha para dar liga, pois a massa ficara molenga. Mesmo assim a massa abriu bem, manteve a forma e os biscoitos assaram lindamente, além de ficarem gostosos. Tive de ficar vigiando enquanto esfriavam para que meu marido não comesse toda a decoração da árvore.

"Ué, mas não é para comer?"
"Claro que não! Esses vão para a árvore!"
"Ah, então não são comestíveis?"
"São, você PODE comê-los, mas você NÃO VAI comê-los, porque eles são os enfeites da árvore."
"Você vai pendurar biscoito na árvore???"
"Vou."
"E o que é isso?"
"A cobertura de açúcar."
"Você vai pendurar açúcar na árvore???"
"Vou."
"E essa agora..."

Agora decorá-los é sempre uma desgraça. Deus sabe que antes de nascer eu entrei na fila do talento para desenho mas quando chegou minha vez na fila do talento para decoração em confeitaria, já tinha acabado tudo. Eita, dificuldade! Algumas coisas não fazem sentido. Como eu posso desenhar bem e ao mesmo tempo ter uma caligrafia tão horrorosa, por exemplo? O que prova que não é uma questão de coordenação das mãos... :P

O melhor foi poder usar meus cortadores de biscoitos, que ficam ali, sempre meio empoeirados, uma vez que, ao contrário da Patrícia, rainha dos cookies :) , biscoitos não são muito minha praia. Não sei por quê. Adoro fazê-los, mas a não ser que sejam cookies de aveia e passas (meus favoritos), eles acabam esquecidos no pote, e acabam virando complemento de sorvete [que, aliás, é a melhor coisa para fazer com cookies e bolo de chocolate que sobram: incorporar no sorvete de creme ainda molinho antes de colocar no freezer, para seu próprio Vanilla Chocolate Chip Cookie Ice Cream, e afins...].

No fim, metade da receita abaixo foi mais do que suficiente para decorar uma árvore de um metro e meio, e os biscoitos além de tudo deixaram a sala inteira com um cheirinho suave de açúcar e especiarias... Dó é ver o cachorro sentado do lado dos enfeites, pedindo com a patinha (porque ele nunca pega nada sem pedir com a patinha antes, todo cutchi-cutchi). "Não, Gnocchi, esses biscoitos, não!" É capaz de chegar em casa e encontrar a árvore como no cartão de natal do ano passado...

BISCOITOS PARA DECORAÇÃO DA ÁRVORE DE NATAL
(do livro Feast, de Nigella Lawson)
Tempo de preparo: 1 hora
Rendimento: 30-45 biscoitos


Ingredientes:
  • 300g farinha de trigo
  • 1 pitada sal
  • 1 colh. (chá) fermento químico em pó
  • 1 colh. (chá) canela em pó
  • 1/4 colh. (chá) cravo moído (ou 3-4 cravos inteiros moídos no pilão)
  • 1-2 colh. (chá) pimenta-do-reino moída na hora (usei a quantidade menor)
  • 100g manteiga sem sal em temperatura ambiente
  • 100g açúcar mascavo
  • 2 ovos grandes, batidos com 4 colh. (sopa) de mel (mais líquido, não cristalizado)
(cobertura)
  • 300g açúcar de confeiteiro, peneirado
  • 3 colh. (sopa) água fervente
  • confeitos

Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 170ºC e forre duas assadeiras grandes com papel-manteiga ou silpat.
  2. No processador, ou na batedeira planetária com a pá, combine a farinha, o sal, fermento, canela, cravo e pimenta.
  3. Com o aparelho ligado (batedeira na velocidade 2), junte a manteiga e o açúcar, misturando bem. Junte o ovo batido com mel devagar, apenas o suficiente para que a massa tome corpo. Ela deve ficar mais firme e sequinha.
  4. Divida em 2 discos, embrulhe um deles em filme plástico e leve à geladeira enquanto trabalha com o outro.
  5. Enfarinhe a bancada e o disco de massa e abra numa espessura de 5mm. Corte os biscoitos com os cortadores (os meus tinham de 4-7cm) e disponha-os na assadeira. Com um palito ou a ponta de um bico de confeitar pequeno, abra os furos por onde vai passar o cordão. O biscoito cresce muito pouco enquanto assa, então pode dispô-los mais juntinhos, com 1cm de espaço entre eles.
  6. Junte os restos de massa, abra de novo e corte de novo, até usar todo o disco. Leve ao forno por 20 minutos, ou até que a parte de baixo dos biscoitos esteja bem sequinha e firme (os meus douraram ligeiramente nas beiradas). Enquanto eles assam, abra e corte o segundo disco de massa.
  7. Retire os biscoitos da assadeira assim que saírem do forno e os disponha numa grade para esfriar. Prepare a cobertura misturando o açúcar peneirado à água até formar uma pasta lisa e brilhante. Decore os biscoitos como quiser, quando estiverem frios.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

UMA SEXTA FEIRA FRUGAL 6: Caldo de legumes

De novo??? De novo. Porque quando tentei começar a fazer caldo de legumes em casa, achei uma chatice e um desperdício. Como assim, vou colocar na panela esse monte de comida boa, ferver por horas, jogar tudo fora e terminar com, sei lá, dois litros de caldo, que não dá para nada?

Desisti.

Então, descobri que não precisava usar apenas legumes inteiros e novos, mas aparas. Bem melhor, mas incorri em muitos erros que tornavam os caldos turvos, sem sabor ou amargos.

Desisti.

Finalmente, hoje, posso dizer que peguei a manha, que consegui inserir na minha rotina o hábito de fazer caldos, e desde o começo do ano não compro caldo de legumes em pó ou cubinhos ou o que for. E ainda que esse post seja um belo apanhado de todos os outros posts que já escrevi a respeito, acho que o tema merece um bom resumo e um post definitivo.

Costumo ir à feira duas vezes por mês, e faço caldo uma vez. Assim que volto da feira e lavo meus legumes e verduras, separo o maior tupperware da minha cozinha e começo a colocar lá dentro tudo o que é material para caldo: tudo o que normalmente iria para o lixo, e agora ficará acondicionado na geladeira, esperando. O enorme maço de salsinha é o primeiro: lavo, seco, e corto ao meio, já separando as folhagens, que vão para um potinho para que eu use as folhas durante a semana, das hastes fibrosas, que vão para o tupperware de caldo. Só tenho o cuidado de tirar qualquer folhinha, pois são elas que estragam rápido; as hastes duram o mês inteiro no tupperware sem estragarem, e podem esperar o dia de fazer caldo. Faço o mesmo com os alhos-poró, separando a parte verde escura para o caldo, e deixando apenas a parte branca na gaveta, inteira.

Ao longo da semana, se descasco batatas, abóboras, abobrinhas, jogo as cascas no tupperware. Talos de cogumelos? Opa! Eles dão um gosto maravilhoso ao caldo! Se eu fiz algum feijão, grão-de-bico, lentilha, qualquer desses grãos que se serve sem o caldo, escorro e guardo o caldo no freezer, para juntar o caldo congelado à panela depois. Se uso ervas como alecrim ou tomilho, de galhos lenhosos, uso as folhas e guardo os galhos no tupperware, pois eles também liberam sabor. O mesmo para os talos verdes de manjericão.

Quando o tupperware enche, jogo tudo na maior panela que tenho e acrescento uns dois dentes de alho inteiros, quaisquer outras ervas secas que eu tenha, pimenta, sal, e, se houver, uma cenoura pequena picada e um ou dois tomates desidratados. Encho de água e deixo ferver por apenas meia hora. Retiro os legumes com uma escumadeira e encho meus potinhos de 500ml com o caldo, que vai direto para o freezer.

É tão rápido e fácil que é quase uma vergonha comprar caldo pronto. E fica uma delícia. E eu não me sinto culpada por jogar fora aparas que normalmente iriam para o lixo logo no dia da feira, mas que agora têm um destino mais nobre.

O truque do tupperware de caldo foi o que me ajudou, pois nem sempre eu conseguia juntar num dia só todos os ingredientes que eu queria no caldo. Desde que você não coloque nenhuma folha fresca ou legume úmido (os miolos) no pote, todas as cascas, talos e afins (mesmo os de cogumelo) vão ficar ali esperando por um mês sem problemas, o que lhe dá tempo suficiente para juntar muitas aparas e fazer uma quantidade grande de um caldo muito rico e variado apenas uma vez por mês, juntando qualquer coisa mais fresca e perecível apenas na hora de botar tudo na panela. Costumo fazer de 3l a 3,5l de caldo, o que no inverno foi rapidinho por conta das sopas e ensopados. No verão, convém produzir menos. Neste mês fiz apenas 2l.

Ao invés dos cubos de gelo, guardo em potes de 500ml, pois é sempre essa a quantidade mínima de caldo para uma sopa, risotto ou ensopado para duas pessoas. Acho mais fácil de medir (e estocar) do que cubos.

O que de fato mudou minha rotina dos caldos foi um guia de Deborah Madison, em seus livros The Greens Cookbook e Vegetarian Cooking For Everyone. Fica aqui um apanhado para que vocês também comecem a guardar um "pote de restos" na geladeira e produzir bons caldos caseiros...

GUIA PARA CALDO DE LEGUMES
  • Proporção: 7 xic. de legumes e verduras para 8 xic. de água e 1colh. (chá) de sal, para obter cerca de 4-6 xíc. de caldo, dependendo de quanto tempo ele passou reduzindo. Sem pensar muito, costumo apenas cobrir os legumes com 2-3 dedos a mais de água do que o suficiente para cobri-los.
  • Lave bem os ingredientes antes de usar e corte-os em pedaços de 2-3cm, para aumentar a superfície de exposição e garantir que todo o sabor e nutrientes de fato passem para a água.
  • Se não tiver certeza sobre um ingrediente, ferva um pedaço em um pouco de água e experimente essa água antes de colocar o ingrediente no caldo.
  • Não use nenhum ingrediente que não esteja limpo ou fresco. Verduras muito murchas e machucadas não terão um gosto bom.
  • Coloque os ingredientes em água fria. Leve à fervura e cozinhe por 30-45 minutos (depois disso, os legumes não têm mais nada para liberar). Se quiser um caldo mais concentrado, retire os legumes e então reduza, em fervura branda, sem tampa.
  • Assim que o caldo estiver pronto, retire os vegetais, pois alguns deles se tornam amargos se ficam na água por muito tempo.
  • Você pode refogar os legumes em óleo ou manteiga antes, mas não é necessário. Na verdade, você não precisa colocar nenhuma gordura no caldo se não quiser. Eu não coloco, e isso também ajuda o caldo a ficar mais cristalino.
  • Aparas e "restos" que você pode colocar no caldo: raízes e partes verdes de alho-poró, talos verdes de ervas, galhos lenhosos de ervas como alecrim ou tomilho, cascas de batata (não as que parecerem velhas, e lave-as antes, para que o amido da batata não torne o caldo turvo), cascas de abóbora, abobrinha e berinjela, sementes e fiapos de abóbora, talos de cogumelos frescos ou migalhas de cogumelos secos (aqueles pedaços quebrados), folhas maiores e mais ásperas de salsão, talos de couve, pontas e aparas de vagens, caldo de feijões, miolo da espiga de milho (o que sobra quando você tira os grãos cozidos), folhas externas muito grandes ou espessas para saladas de alface, escarola, acelga, sementes de tomate (quando você as tira aqueles molhos que pedem os tomates sem sementes)... Se você fizer aquela salada de abobrinha e aspargos, pode usar o miolo esponjoso da abobrinha!
  • Legumes para serem usados inteiros: alho (1-2 dentes) e cebola (1/2 xic) sem cascas, pois elas têm um sabor desagradável; cenouras (1 basta), de preferência sem casca, tomates frescos ou secos (gosto mais do sabor concentrado dos tomates secos - 1 ou 2 é suficiente para 3l de caldo). Qualquer um dos citados acima, também, mas como o objetivo é fazer um caldo muito barato, o melhor é usar aparas e deixar os legumes inteiros para de fato comer! :)
  • Ingredientes saborosos mas que deixam um sabor muito forte; melhores se usados em caldos de receitas em que o ingrediente reaparece: cascas e folhas de beterrabas deixam o caldo vermelho; erva-doce/funcho (parte externa, raiz e folhas), aparas de aspargos, ervilhas, cascas de nabo, repolhos, folhas de brócolis e couve-flor são todos sabores muito dominantes que encobrirão o resto do caldo.
  • Ingredientes que NÃO devem ser usados: couve-flor, couve-de-bruxelas, alcachofras, espinafre (fica ruim se cozido por muito tempo), casca de alho e cebola, folhas de cenoura. Todos esses dão um gosto estranho ou ruim ao caldo.
  • Ingredientes para caldos específicos: miso (vermelho, pois o branco é muito doce), diluído em água quente e adicionado ao caldo dá um gosto de "carne", shoyu (reduza a quantidade de sal), gengibre, canela, cominho, cardamomo, coentro em grão...

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Massa folhada de batedeira

Sabe o que o tédio faz com as pessoas? Massa folhada. Ontem, enquanto esperava emails que não vinham, resolvi testar uma receita de Flo Braker, chamada Pretty Darn Quick Puff Pastry. Porque se tivesse a massa, poderia preparar a torta de abóbora de Gordon Ramsay para o jantar.

Olhei para fora. Estava úmido e abafado. Na minha cozinha, 26ºC. Ventilador ligado na sala, o cachorro dormindo de pernas para o ar, na tentativa de refrescar-se.

Massa folhada?
Nesse calor dos infernos??
Loucura.
Imaginei manteiga derretida por toda parte.

Mas agora a lombriga fora atiçada, e eu não conseguia pensar em outra coisa para o jantar senão a torta de abóbora, e ai de mim se fosse pega comprando massa folhada pronta, cheia de gordura hidrogenada! Depois da torta de pé, tinha prometido nunca mais cometer um pecado desses...

Bom... Massa folhada.
Nesse calor dos infernos.
Loucura.
Mas se for para dar certo, é agora.
Se der certo hoje, essa massa é genial.

A massa É genial. O preparo na batedeira planetária, com a pá, faz com que o calor de suas mãos não interfira na temperatura da manteiga. O fato de não ter de espalhar a manteiga na massa e deixar gelar por meia hora o tempo todo, faz com que o processo seja realmente rápido. Pela primeira vez na minha vida, o preparo de massa folhada na minha bancada não me deu vontade de sentar e chorar. Ela não derreteu, e ao ser assada, inflou e dourou maravilhosamente, e a massa amanteigada e leve derretendo na boca me convenceu de uma vez por todas a nunca, nunca, NUNCA mais comprar massa pronta.

Preparei metade da receita do livro, e usei apenas metade da massa resultante para essa torta quadrada de 20cm. O restante está devidamente embalado no freezer, esperando pela próxima empreitada.

Todas as receitas de batedeira planetária do blog (como os pães) podem ser feitas à mão. Esta, no entanto, eu não sei. Não acho que funcione com uma batedeira comum. Talvez você possa usar um pastry blender ou garfos para produzir a massa e então prosseguir normalmente. Mas não garanto. É que esta receita deu tão certo, que achei que seria egoísta não dividi-la...

MASSA FOLHADA DE BATEDEIRA (planetária)
(ligeiramente adaptado do livro Baking for All Occasions, de Flo Braker)
Rendimento: aproximadamente 500g
Tempo de preparo: 35min. + 1h descanso


Ingredientes:
  • 225g manteiga sem sal bem gelada
  • 170g farinha de trigo comum
  • 60g farinha de trigo para bolos (cake flour) *
  • 1/2 colh. (chá) rasa de sal
  • 1/2 xic. água bem gelada
*Cake Flour: 60g dá mais ou menos 1/2 xíc. de farinha de trigo comum. Meça essa quantidade de farinha comum, depois substitua 1 colh. (sopa) dessa farinha por amido de milho (maizena) e peneire 5 vezes antes de juntar ao resto dos ingredientes.

Preparo:
  1. Corte o tablete de manteiga em fatias de 1cm de espessura e volte-os à geladeira por 10 minutos.
  2. Enquanto isso, misture as duas farinhas e o sal na tigela de batedeira planetária, equipada com a pá. Tenha a água gelada já medida ao seu lado.
  3. Disponha as fatias de manteiga sobre a farinha. Use os protetores de respingo ou um pano de prato enrolado em torno da batedeira, pois mesmo em baixa velocidade, voa farinha para todo lado. Ligue a batedeira na velocidade mais baixa e bata até que a manteiga, ainda em pedaços grandes, esteja apenas recoberta de farinha, uns 10 segundos.
  4. Ainda com a batedeira ligada na velocidade mais baixa, despeje a água gelada num fio constante, demorando uns 10 segundos e imediatamente desligue a batedeira.
  5. Com a mão, rapidamente vire a massa, trazendo as partículas secas do fundo da tigela para cima da massa, e apertando-a ligeiramente, apenas para incorporar essas partículas. Não se importe se sobrarem algumas.
  6. Vire a massa numa superfície enfarinhada e, com as mãos enfarinhadas, forme um retângulo de uns 10x7cm. Com o rolo de macarrão, rapidamente abra a massa num retângulo de uns 20x14cm, polvilhando com pouca farinha, se necessário.
  7. Faça a Primeira Dobra como uma carta comercial: dobre o terço inferior e em seguida o terço superior por cima, e gire 90º, deixando a massa como se fosse um livro virado para você (a última dobra sendo a capa). O desenho abaixo inteiro é uma Dobra.
  1. Abra a massa de novo em 20x14cm e repita o procedimento do desenho, que será a Segunda Dobra. Agora embrulhe em papel alumínio e leve à geladeira por 20 minutos.
  2. Passado esse tempo, desembrulhe a massa, tendo ela como um livro diante de você. Abra a massa de novo em 20x14cm e repita o procedimento do desenho mais uma vez, que será a Terceira Dobra, abra de novo e repita pela última vez, executando a Quarta Dobra. Embrulhe novamente no papel alumínio e leve à geladeira por no mínimo 1 hora antes de utilizar a massa.
  3. Se em qualquer momento durante o processo, você perceber que a manteiga está começando a amolecer ou grudar, embrulhe em papel alumínio e leve ao freezer por 10 a 20 minutos antes de prosseguir. Se apenas a manteiga estiver muito na superfície na hora que você for abrir com o rolo, dê tapinhas com farinha por cima dela, apenas para que não grude no rolo. Depois que a massa descansou por 1 hora, abra-a num formato mais fácil de manipular, como 15x10cm. Corte a quantidade necessária e use-a. O restante, embrulhe em duas camadas de papel alumínio e use em 2 dias se conservar na geladeira, ou 2 meses no freezer. Descongele a massa na geladeira por 24 horas antes de usar.
Na hora de assar, se for uma torta como essa, lembre-se de forrar a forma com papel-manteiga, para que o papel absorva parte da gordura da massa e ela fique mais sequinha.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Salada de abobrinha e aspargos para um verão sem canga

"Projeto Verão Sem Canga" é como minha mãe tem chamado sua dieta. Prevendo já um Dezembro de muitas confraternizações de fim de ano (da corrida, de cliente, do trabalho do marido, amigo-secreto, Natal, Reveillon, Bistecão Ilustrado, etc...), é sempre bom tentar compensar com antecedência a cervejada e friturada por vir.

Pelo menos o calorão dos infernos serve para isso: para comer saladas. Ainda que a abundância de abobrinhas e aspargos nessa época do ano seja para mim incentivo suficiente.

Adaptei uma receita de Giada di Laurentis, do único livro dela que me apeteceu comprar: Giada's Kitchen, culpa daquela pastinha de figo seco do Natal passado. Para uma pessoa: com um descascador de legumes, fatie o mais fino possível uma abobrinha pequena, com casca, até chegar na parte esponjosa das sementes, que fica a seu cargo de você vai jogar fora ou usar para outra coisa. Com o mesmo descascador, limpe 3-4 aspargos grossos, e cozinhe-os em água fervente com sal por 1 ou 2 minutos. Fatie-os fino, na diagonal, e junte-os à abobrinha. Tempere com sal, pimenta-do-reino, azeite e uma espremidinha de limão. Junte um punhado de manjericão fresco, lascas de parmesão e mangia che te fa bene!

P.S.: obrigada aos que deram suas opiniões sobre o processador, há uns post atrás. Vocês me ajudaram um bocado a decidir. Papai Noel já deve ter recebido minha cartinha... ;) Aliás, falando em Papai Noel, ando empolgadíssima com a comilança de Natal, louca para fazer biscoitos para a árvore, panettone, etc. E vocês?

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Vermelho assado em molho de tomate

Uma das coisas de que mais gosto no hábito de ir à feira é estabelecer uma relação de confiança com as pessoas que lhe vendem sua comida. Coisa mais difícil de se fazer em determinados supermercados, em que os postos de trabalho são rotativos e ninguém se lembra de que você esteve lá ainda no dia anterior. Um vendedor me ganha normalmente quando ousa falar mal do próprio produto: "Não leve esse brócolis não, que está feio, vou pegar outro em outra banca" ou "A anchova não está nada boa hoje; posso recomendar algo melhor e mais barato?" Quando você entende que pode confiar naquela pessoa atrás da bancada é a melhor coisa do mundo. E agradável é também voltar duas semanas depois (pois como gosto de muita variedade, os legumes acabam durando duas semanas), e o vendedor perguntar se você gostou daquela variedade de mostarda que você nunca provara antes de ele recomendar, ou se aquele peixe assado inteiro deu certo, ou se experimentou a receita dos feijões-de-corda.

Ando gostando de conversar com meu novo peixeiro. Descendente de japoneses, simpático e prestativo, ele me ensina qual peixe usar para a receita que descrevi e sai dando seus pitacos e me repreendendo quando estou prestes a fazer bobagem, o que acho muito engraçado. Foi ele quem sugeriu o uso do Vermelho para esta receita que apenas pedia por "peixe branco firme".

"Nunca comi Vermelho. É bom?"
"É sim. Eu gosto muito."
"Mas ele vai bem com molho de tomate?"
"Vai sim, ele não é suave o suficiente para sumir no molho."
"Você deixa ele preparadinho para mim, só para que eu corte do tamanho certo?"
"Claro, mas vou deixar a pele."
"Não, não precisa, é tipo ensopado."
"Confie em mim, vou deixar a pele. É gostosa!"
"Então tá, né..."

Enquanto converso com ele, um homem mais velho, cabelos brancos na cabeça e nos antebraços, cigarro pendendo do canto dos lábios, abre o peixe inteiro, limpa, retira as escamas, fileta. Ele se movimenta rápida e violentamente com o facão enorme e suas feições me fazem pensar num marinheiro velho de histórias infantis, envolvido em pirataria.

O Vermelho funcionou lindamente nessa receita de Tessa Kiros, que quis preparar assim que comprei o livro. Ela pedia 1kg de filés, o que deve dar o dobro do que usei, mas mantive a mesma quantidade de molho, pois molho de tomate nunca é demais. ;) Parecia perfeito para uma noite quente. O peixe se desmanchando num molho espesso de tomates, limão siciliano e alho, para ser comido aos bocadinhos, usando belos nacos de pão italiano como talheres, e acompanhado de uma cerveja gelada e refrescante. O tipo de refeição que arranca você de repente da cidade cinza e o transporta para qualquer lugar de areia branca, brisa fresca e salgada, sussurros das ondas tocando suas orelhas.

VERMELHO ASSADO COM TOMATES
(quase nada adaptado do livro Falling Cloudberries, de Tessa Kiros)
Tempo de preparo: 10 min. + 1h-1h10 de forno
Rendimento: 4 porções se houver acompanhamento, 2-3 se for prato único, com pão


Ingredientes:
  • 2 filés com pele e sem espinhas, de um Vermelho de 1,25kg (pesado inteiro - não pesei os filés)
  • 1 lata de tomates italianos sem pele
  • 1 punhado de salsinha fresca picada
  • 4 dentes de alho grandes, picados
  • suco de 2 limões sicilianos
  • 1 1/2 xic. salsão picado
  • 1 colh. (chá) açúcar
  • 3 colh. (sopa) azeite
  • sal e pimenta-do-reino

Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 180ºC. Corte os filés em pedaços de 7cm de largura e os distribua em uma única camada em uma travessa grande refratária, assadeira ou caçarola baixa que vá ao forno.
  2. Em uma tigela, misture todos os outros ingredientes e esmague os tomates com um garfo. Acerte o tempero.
  3. Despeje o molho sobre os peixes e dê uma sacudidela na travessa, para que o molho se espalhe e cubra todos os pedaços de peixe. Cubra com papel alumínio e leve ao forno por 30 minutos.
  4. Retire o papel alumínio, aumente o fogo para 200ºC e asse por mais uns 40 minutos, até que o molho tenha engrossado e o peixe pareça dourado em alguns pontos. Fique de olho para que não fique tão espesso a ponto de queimar o molho (35 minutos foram suficientes no meu forno).
  5. Sirva com mais um fio de azeite e pão com crosta para acompanhar. (A autora diz que fica muito bom frio, também, mesmo direto da geladeira. Vamos ver, pois sobrou um punhadinho que está lá na geladeira...)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Para os dias quentes: massa de torta feita com óleo

De vez em quando me escrevem com dúvidas a respeito da massa para tortas que uso sempre. A maior dúvida é sempre na hora de abrir, pois dizem que a massa é mais difícil de manipular do que esperavam. Infelizmente tudo o que posso dizer nessas horas é: pois é, é isso mesmo. Eu uso uma boa quantidade de manteiga na massa, pois gosto dela bastante flocosa. Isso faz com ela seja um desastre em dias (ou mãos) quentes. Ainda assim, é uma massa que perdoa alguns deslizes: se ela estiver se despedaçando ou grudando, você pode jogá-la aos bocados na forma e ir juntando como der, sem pensar no resultado estético, e ela mesmo assim ficará gostosa. Só não terá aquela linda bordinha bem desenhada.

O caso é que nesse calorão, nem eu me atrevo a fazer pâte brisée. É frustração na certa. No desespero por torta, usava a batedeira planetária com a pá. O único problema é que ela demora um pouquinho e acaba deixando os pedacinhos de manteiga muito pequenos e uniformes, e a massa fica um pouco firme demais para meu gosto.

Para dias quentes, muitos recomendam o processador. Ele mistura tudo rápido o suficiente para que a manteiga continue gelada e tudo dá certo no final. Isso anda me dando uma coceirinha atrás da orelha. Isso e a possibilidade de fazer massa folhada e mais um monte de outras receitas dos meus livros que pedem o processador. Além disso, meu liquidificador mequetrefe está à beira do suicídio.

Eu quero um processador. Mas o que eu quero, da Cuisinart, grandão, não encontro, sumiu das lojas por aqui. E fica a pergunta: vocês têm processador? Gostam? Usam? Recomendam?

Enquanto Papai-Noel não me traz um, no entanto, nós seres humanos precisamos de torta. E minha salvação nesse calor infernal foi encontrar uma boa massa de torta feita com óleo, mais fácil de manusear, pois não depende da temperatura. Por isso, também não é preciso gelá-la, e você pode fazer a massa enquanto o forno pré-aquece, e preparar o recheio enquanto a massa assa com feijões dentro. Ou seja, torta de última hora, jantar vapt-vupt! Usem óleo de canola, que tem pouco sabor, ou algum óleo/azeite que vá combinar com o recheio, pois o sabor fica tão forte quanto o gosto de manteiga numa torta comum.

MASSA DE TORTA COM ÓLEO
(do livro Vegetarian Cooking for Everyone, de Deborah Madison)
Rendimento: 1 torta de 20-22cm de diâmetro, rasa.
Tempo de preparo: 10 minutos


Ingredientes:
  • 1 1/2 xic. farinha de trigo
  • 1/2 colh. (chá) sal
  • 1/2 xic. óleo de canola
  • 2 colh. (sopa) leite, leite de soja ou água
Preparo:
  1. Misture o sal e a farinha em uma tigela. Em outra, misture o óleo com o leite. Junte os líquidos à primeira tigela e misture até que se pareça com uma massa.
  2. Forme uma bola, achate-a e abra-a no tamanho desejado entre duas folhas de papel-manteiga, até que a massa tenha uns 3mm de espessura.
  3. Retire o papel-manteiga de uma das faces e inverta a massa sobre a forma da torta. Não se preocupe se ela se quebrar, é só juntar na forma, pressionando bem. Remova a segunda folha.
  4. Asse-a como qualquer outra massa, de acordo com a receita original. Você não precisa gelar a massa.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Amor é receita de sorvete de doce de leite

Para quem anda me achando mal humorada, é verdade, estou meio de pá virada mesmo. Ando com uma preguiça imensa de tecnologia. Preguiça de câmera fotográfica, tratamento de foto, internet, email, twitter... enjoei. Tenho coceira só de olhar para o computador. Estou louca para terminar os trabalhos programados até o fim do ano e dane-se, declaro férias, boto os pés para cima e me esbaldo em litros e litros de sorvete caseiro. Porque, nesse calor, quem quer comer outra coisa?

E esse post é a prova de que eu me importo sim com vocês. Porque se não me importasse, eu guardaria as boas receitas às sete chaves, escreveria num caderninho secreto, ficaria famosa entre família e amigos por preparar essa delícia, e apenas meus netos e bisnetos, após minha morte, é que colocariam suas patinhas na receita. [Meu plano é morrer dormindo, bem velhinha, depois de ter corrido mais uma maratona. 120 anos, aqui vou eu!]

Então, é isso. Se você é um louco desvairado por sorvete de doce de leite, vai me agradecer de pé junto pelo resto da vida, porque esse sorvete não apenas é sensacional, mas é também muito fácil, uma vez que não leva ovos, e você só usa o fogão porque tem que dissolver o doce pronto no leite. Quer coisa melhor? Duro é a paciência para gelar o bichinho antes de colocar na sorveteira, mas é só lembrar do preço do Haagen-Dasz, que você fica calminho, calminho.

Use seu doce de leite favorito. O meu, graças a Deus, é dos mais fubangas. O doce de leite da minha infância sempre foi o da lata de leite Moça cozida na panela de pressão. Então mesmo sabendo que há uns argentinos e afins que são sensacionais, não resisto a esse prazer saudosista e mais barato.

A receita original produzia o dobro de sorvete, que não cabe na minha sorveteira (ela não faz mais de 1,5l) e transbordaria tudo, como já aconteceu uma vez. Eu poderia ter recalculado para usar a lata de doce inteira (os 395g), mas mantive o número quebrado para poder incorporar o resto de doce de leite ao sorvete pronto, produzindo aquelas deliciosas surpresas de doce cremoso no meio do sorvete geladinho. Nham...

SORVETE DE DOCE DE LEITE
(quase nada adaptado do livro Professional Baking)
Rendimento: cerca de 850ml, dependendo do overrrun
Tempo de preparo: 10 min. + 6 horas geladeira


Ingredientes:
  • 375g leite
  • 395 doce de leite cremoso (usei a lata de doce de leite para corte da Nestlé)
  • 95g creme de leite fresco
  • 1/4 colh. (chá) essência de baunilha
  • 1 pitada de sal
Preparo:
  1. Leve o leite e 280g doce de leite ao fogo em uma panela de fundo grosso, até que o doce esteja completamente dissolvido. Mexa de vez em quando, para não queimar e ajudar a dissolver.
  2. Junte o restante dos ingredientes, misture bem e leve à geladeira por 4 horas ou até que esteja bem gelado.
  3. Prepare o sorvete na sorveteira, de acordo com as instruções do fabricante. Enquanto isso, deixe o pote em que vai guardar o sorvete no freezer, para gelar um pouco. Coloque o sorvete no pote geladinho, intercalando com colheradas do que restou de doce de leite. Leve ao freezer imediatamente, e deixe firmar um pouco por pelo menos 2 horas.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Noite de antipasto

Acho que toda família tem a noite do sanduíche. Na casa de meus pais costumava ser aos domingos, quando minha mãe estava sem paciência ou inspiração para cozinhar, e ela passava na padaria, comprava pão francês e frios e jantávamos sanduíches. O caso é que, se você não come frios (peito de peru, presunto, mortadela... tudo carne, claro), a noite do sanduíche pode ser bem, bem chata. Adoro queijo, mas pão com queijo, assim, só, não tem muita graça. E mesmo que você compre mozzarella, provolone, queijo prato... ainda assim, depois de tudo misturado, é só mais um sanduíche de queijo. :P

Por isso eu muitas vezes troco a noite do sanduíche pela noite do antipasto. Monto um prato com berinjela grelhada e temperada com azeite, sal e pimenta (o que sobrou da berinjela da pizza), pimentões sem pele (chamuscados na chama do fogão, descascados e temperados com bastante azeite), tomates bem maduros com sal moído grosso, azeitonas kalamata, mozzarella de búfala fresquinha e macia, e fatias de pão tostadinhas com alho. E é só ir montando pequenas bruschette, ou ir apanhando bocadinhos com um garfo, e bebericando um vinhozinho gostoso. Quem precisa de prato principal?

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Pizza alle melanzane para férias que não chegam nunca

Preciso de férias. E já em meados de novembro, acredito que muita gente também precise. Eu particularmente anseio pelas férias entre Natal e Ano-Novo, férias coletivas de muita gente, principalmente clientes, pois, a não ser que eu DECLARE férias e suma de casa por um período pré-determinado, é simplesmente impossível relaxar.

E eu tentei. Noutro dia mesmo, sol de rachar, trabalhos entregues, achei que bem que podia apanhar minhas coisinhas e ir para a piscina do clube. Assim, meia horinha, ninguém vai sentir minha falta. O protetor solar mal secara nos meus ombros, e o celular já estava tocando. "Oi, aquele trabalho que era para semana que vem, pode ser para hoje?"

Pode, pode.

Ficar em casa, então, nem pensar. Computador ligado é sinônimo de estresse. Ou você se estressa porque chegou email de cliente ou porque não chegou. É só decidir se dar dez minutos para sentar a busanfa no sofá e terminar o capítulo do livro, que pimba! aquele trabalho encalhado há meses volta com a força toda. E ainda tem toda a canseira mental de pensar que aquele cliente que tentou entrar em contato com você durante suas auto-declaradas férias pode nunca mais chamá-lo para nada. Bem diferente de sair com férias pagas e saber que seu emprego continua ali esperando por você.

Ok, chega de reclamar. Meu ponto é que, para quem trabalha por conta, principalmente em casa, ou você sai do país, ou aproveita as férias coletivas dos seus clientes.

E conforme a quantidade de trabalho vai diminuindo nessa época, minha mente vai ficando mais ansiosa pelo ritmo de férias. Ontem foi um dia em que não consegui parar de pensar na santa tríade piscina-cerveja-cochilo. Talvez por isso tenha tido tanta vontade de cozinhar algo mais informal, mais divertido. Toda vez que decido preparar pizza, no entanto, é a mesma história: a vontade bate meia hora antes do jantar, e já não dá tempo de preparar a maravilhosa massa de 24 horas, e vai a de 15 minutos mesmo.

Sem problemas. Coloquei o granito na grade inferior do forno e, enquanto ele aquecia no máximo, preparei a berinjela. [Como sempre tem um perdido me mandando email, vá numa marmoraria e peça para cortarem um pedaço de granito do tamanho do seu forno, com 2cm de espessura. Pronto: pedra de forno. Todos os meus outros "equipamentos" estão no FAQ.] Coloquei a grelha no fogo e deixei que soltasse fumaça de tão quente. [Vai, coloca na listinha do Papai-Noel: grelha de ferro fundido. É a MELHOR coisa do mundo para preparar berinjelas, abobrinhas e afins.] Fatiei fino uma berinjela grande e coloquei as fatias na grelha pelando, virando-as quando apresentavam lindas listrinhas pretas em sua carne pálida. Coloquei-as em uma tigela e temperei-as com sal, pimenta-do-reino e um fio generoso de azeite.

Preparei a pizza misturando 400g de farinha de trigo a 1/4 colh. (chá) de sal. Fiz um buraco, coloquei 1/4 colh. (chá) de açúcar, 5g fermento ativo seco instantâneo, 250ml de água e um fio de azeite e deixei quieto por 5 minutos. Então voltei e misturei tudo com um garfo, depois sovando a massa até que ficasse elástica e macia. Polvilhei farinha e embrulhei em filme plástico, deixando repousar por 15 minutos.

Retirei o plástico e abri a massa com um rolo polvilhado de farinha, até que o disco de massa estivesse do tamanho do meu salva-bolos, que uso como pá de pizza (uns 35 a 40cm). Polvilhei o salva-bolos com farinha de milho e coloquei a massa sobre ele.

Já usei vários molhos de tomate nas pizzas, mas meu favorito é o mais simples: apenas misture uma lata de tomates italianos pelados a 1 colh. (chá) de sal e esmague os tomates até obter uma polpa. Isso é suficiente para 4 ou 5 pizzas, mas você pode usar o restante para a próxima macarronada ou mesmo congelar para as próximas pizzas.

Espalhei umas 2-3 colh. (sopa) de molho sobre a massa e salpiquei um dente de alho picadinho. Dispus as fatias de berinjela grelhada, uns 120g de queijo feta esmigalhado, folhas de manjericão e um fio de azeite. Foi para o forno, diretamente sobre a pedra, por 10 minutos, ou o suficiente para que a massa estivesse cozida (algo entre 7 e 10 está bom). Por isso é importante não fazer bordas muito gordinhas. Como o forno caseiro não é tão quente quanto o forno à lenha, até as bordas gordas assarem completamente, a parte de baixo da pizza já estará crocante ao invés de macia. Também já desisti daquele lindo visual de massa dourada e queimadinha. Não rola. Fica pálida mesmo.

O problema da pizza caseira é que ela sai direto do forno para seu prato, bem mais quente do que pizza pedida fora. É batata: vou muito afoita e queimo o céu da boca. Então, cuidadinho... ;)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Sorvete de Daiquiri para relembrar vexames adolescentes

Atire a primeira pedra quem nunca na adolescência pediu um drink doce e cremoso num bar. Meus drinks favoritos quando tinha lá meus dezoito anos e não sabia beber [hoje a manguaça corre solta] eram Sex on The Beach e Alexander. Um colorido e outro cremoso. Ambos grandes fornecedores de dores de cabeça no dia seguinte. Esses tempos se foram [graças a Deus], e apenas seriamente coagida eu sentaria num bar e pediria qualquer bebida com leite condensado na fórmula.

Talvez por isso não tenha dado o devido valor a esse sorvete quando passei meus olhos por ele da primeira vez. Quer saber? Não preciso de nenhuma violência para me fazer comer esse sorvete. Ele é delicioso, cremoso, refrescante, e, preparem-se para o cliché dos clichés: tem gosto de verão. [Aah! Você não achou que eu teria coragem de escrever isso, mas ah, eu fui lá e escrevi mesmo assim! It's funny because it's true...!]

Finja que você vai de fato, sem rir nem nada, preparar um Daiquiri. [Se é que Daiquiris são assim, eu nunca tomei um na vida. Ou posso ter tomado mais de um, ter tido uma ressaca imensa e ter convenientemente esquecido que bebera Daiquiri. Vai saber? Bêbado é uma droga, mesmo.] Bata no liquidificador uma lata de leite condensado (395g), 3 xíc. de abacaxi picado em cubos, 1 xic. de banana fatiada, suco de limão a gosto e 1-2 colh. (sopa) de rum escuro. Cuidado com a quantidade de rum, ou o sorvete pode não firmar caso você use demais. Coloque na sorveteira e siga as instruções do fabricante. Se o dia estiver muito muito quente, deixe a mistura na geladeira por algumas horas antes de colocar na sorveteira.

A receita é do livro Cook 1.0, de Heidi Swanson.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Moelleux au chocolat de Ludivine


Há umas duas semanas atrás, Ludivine levou à aula de aquarela um bolo de chocolate intenso e cremoso, do qual comi muitos pedaços, e que ficou ecoando em minha memória gustativa até hoje. Normalmente não gosto de bolos como esse, pois eles tendem a ser enjoativos. Uma fatia e basta, não quero mais. Este, no entanto, é diferente: feito com manteiga francesa salgada e chocolate a 70% de cacau, ele adquire uma complexidade inesperada, dados os tão poucos ingredientes. O sal da manteiga ao mesmo tempo exalta e controla o chocolate, e foi isso o que me conquistou.

Todos pediram a receita, e Ludivine foi ditando, assim de cor, confundindo termos com seu forte sotaque francês. Fui anotando, mas houve contratempos... Primeiro, ela usa uma forma de silicone não untada, coisa que não tenho. Segundo, ela especificou forno baixo, mas não soube dizer por quanto tempo, uma vez que a mesma receita cozinha em tempos diferentes aqui no Brasil e na França. Logo, tive de imaginar um modo de o bolo não grudar em minhas formas de alumínio e ao mesmo tempo desenformar fácil (uma vez que ele é bem molinho) e tive de ficar de olho no tempo de forno.

No fim, tudo deu certo e o danado ficou muito muito bom. Tanto que eu pretendia dividir com vocês o bolo de limão que preparei na semana passada, mas este de chocolate com certeza mereceu a dianteira. Ele é delicioso em temperatura ambiente, na qual pode ser mantido por 3 dias, ou saído direto da geladeira, onde ele firma um pouco. E é sensacional com sorvete de creme, como qualquer bom bolo de chocolate.

Não estranhe a textura. O bolo deve sair do forno firme nas laterais e ainda tremendo no centro, bem molinho (como o próprio nome diz). Ao esfriar, ele afunda e adensa, ficando mais fácil de cortar. MOELLEUX AU CHOCOLAT DE LUDIVINE
Tempo de preparo: 40 minutos
Rendimento: 8 pessoas


Ingredientes:
  • 200g manteiga COM SAL (de preferência President, mas deve funcionar bem com Aviação, que é bastante salgada)
  • 200g chocolate amargo 70% cacau (sem gordura hidrogenada!)
  • 4-5 ovos (usei 4 extra-grandes)
  • 160g açúcar
  • 1 colh. (sopa) farinha de trigo
  • 50g chocolate amargo, ao leite ou branco para quebrar dentro da massa
  • 1 colh. (sopa) açúcar para polvilhar

Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 160ºC. Se usar uma forma de mola, que vede bem, apenas unte e enfarinhe. Se for uma forma de fundo removível (como eu usei) ou comum, forre com papel alumínio que suba além das laterais e unte e enfarinhe o papel (que evita que a massa bem mole vaze no forno e facilita para desenformar). Se a forma for de silicone, não é preciso untar. Qualquer uma das formas deve ter entre 20 e 22cm de diâmetro (mais alta se for menor, mais baixa se for maior – a minha, de fundo removível, tem 20cm de diâmetro e uns 6cm de altura, e o bolo cresceu até uns 5cm antes de afundar).
  2. Corte a manteiga e o chocolate em pedaços e derreta em banho-maria. Enquanto isso, bata os ovos e o açúcar até que fique mais claro e fofo (uns 5 minutos).
  3. Junte o chocolate derretido aos ovos, misturando bem sem perder muito volume, e em seguida a farinha.
  4. Despeje a massa na forma. Quebre ou pique o outro chocolate em pedaços pequenos e distribua sobre a massa. Leve ao forno por 20-30 minutos, ou até que as laterais estejam firmes ao toque, mas o centro balance como um pudim.
  5. Retire do forno e coloque em uma grade para esfriar. Polvilhe o açúcar por cima, para que ele caramelize um pouco com o próprio calor do bolo. Conforme o bolo esfria, ele afunda no centro e se afasta das laterais. Desenforme quando estiver frio, sem virá-lo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Calzone de espinafre e pimentão vermelho

Respirando fundo. Passada a raiva de ontem, vamos voltar ao que interessa e me deixa de bom humor – e não só a mim: comida.

É comum ver por aí receitas cheias de atalhos práticos para o dia-a-dia. Use base de torta comprada pronta, polenta pré-cozida, massa folhada congelada, etc e tal. Eu adoro fazer justamente o oposto. Apanhar o atalho e retorná-lo ao seu processo original. Não por teimosia ou orgulho, mas porque, se eu sei fazer e tenho tempo, não me parece haver motivo para gastar mais dinheiro com o atalho. Pois atalhos são sempre mais caros.

Esta era uma receita rápida da edição de Abril da revista Gourmet. [Para quem perguntou, se sua assinatura ficou pela metade, você vai receber Bon Appétit no lugar.] Usava pimentões em conserva e massa de pizza congelada. Bastante prático. Mas eu tinha enormes pimentões vermelhos na geladeira, e não me parece esforço nenhum chamuscá-los e picá-los. E, ainda que eu ache as massas de longa fermentação mais complexas em sabor e textura, Jamie Oliver tem uma receita de massa de pizza bastante honesta e que fica pronta em meia hora, em seu livro Jamie's Italy.

Iêeei! Calzone!

Para quatro calzones muito bem servidos, chamusque na chama do fogão um pimentão vermelho bem grande até que fique pretinho, pretinho. Feche-o dentro de um saco plástico e deixe que esfrie. Então retire do saco, retire a pele chamuscada e o miolo com as sementes. Se ficar um pouco de pele chamuscada, não se importe, e não passe na água, pois ela levará embora o delicioso óleo natural que o pimentão soltou, além daquele gostinho defumado. Corte em pedaços de cerca de 2cm e reserve.

Corte uma cebola ao meio e fatie fino. Refogue em um pouco de azeite de oliva e uma pitada generosa de sal, até que comece a dourar. Junte 2 dentes de alho picados e cozinhe até ficar aromático. Junte as folhas bem lavadas e escorridas de um maço de espinafre, e mexa até murchar. Acrescente um punhado de azeitonas pretas picadas grosseiramente, meia pimenta dedo-de-moça sem sementes picadinha e o pimentão vermelho reservado. Misture, acerte o tempero, e retire do fogo.

Numa tigela grande, misture 400g de farinha de trigo, 100g de semolina e 1/2 colh. (sopa) de sal. Faça um buraco no meio e coloque ali 7g de fermento ativo seco instantâneo, 1/2 colh. (sopa) açúcar e 325ml de água. Misture esse centro um pouquinho com um garfo e deixe descansar uns 5 minutos. Em seguida volte a misturar com o garfo, trazendo a farinha em torno para dentro do buraco aos poucos, até que a massa fique mais resistente ao movimento. Entorne tudo na bancada e sove por uns 10 minutos, até que a massa fique macia e elástica. Polvilhe de farinha, embrulhe em filme plástico e deixe descansar por 15 minutos em temperatura ambiente.

Passado esse tempo, divida a massa em 4 porções iguais e, na bancada enfarinhada, abra cada uma das porções em discos de cerca de 20cm. Distribua o recheio sobre uma metade dos discos, deixando uma borda de uns 2cm. Corte 250g de mozzarella defumada, cacio cavalo ou provolone em 16 pedaços iguais e distribua sobre o recheio, 4 pedaços em cada calzone. Dobre uma metade sobre a outra, como um pastel, e, a partir de uma das pontas da meia-lua, vá dobrando e apertando a borda, para selá-la completamente. Com uma faquinha, faça 3 cortezinhos sobre cada um deles, para o vapor sair. Passe um fio de azeite sobre eles e, se estiver usando uma pedra no forno, coloque-os diretamente sobre a pedra quente em forno pré-aquecido no máximo. Se não, coloque sobre uma assadeira polvilhada com farinha de milho e leve ao forno pré-aquecido no máximo. Asse até que estejam dourados, uns 15 minutos (depende do forno). Deixe descansar por 5 minutos antes de servi-los.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Direitos Autorais, coisa que ninguém mais parece saber o que é (UPDATED)

A coisa que mais se discute em fóruns de ilustração e design hoje em dia é direito autoral, plágio, apropriação, etc. Para quem não sabe, direito autoral funciona da seguinte forma: eu desenhei/fotografei/criei, é meu, é meu patrimônio, é patrimônio dos meus descendentes. Quer usar? Por um valor X você pode imprimir aquela imagem na sua camiseta, você pode usar num livro, pode tatuar na testa se quiser.

Eu não sou fotógrafa profissional, o que só quer dizer que eu não tenho um cartão de visitas onde se lê "fotógrafa". O que não quer dizer que eu não tenha investido em cursos, equipamento e que eu não trabalhe com isso. Ou mesmo que meu tempo e meu esforço não tenham valor. Para evitar maiores úlceras estomacais de ódio, minhas fotografias e textos do La Cucinetta (MAS NÃO AS ILUSTRAÇÕES) estão sob o Creative Commons. Quer usar a foto no blog? Usa. Coloca um link ou diz que foi a Ana que tirou a foto. Sem problemas. Quer usar o texto? Idem. Não há nenhum problema, ninguém se machuca.

Agora o que fazer quando é uma empresa que resolve usar sua fotografia? Ela está usando para quê? Para deixar a área de receitas de seu site mais vistosa, gerar visitação, empatia com a marca e, logo, mais vendas. ELA ESTÁ LUCRANDO COM A FOTOGRAFIA.

E se alguém está ganhando dinheiro com meu trabalho, nada mais JUSTO do que quem fez o trabalho ganhar uma parte.

LOGO, SE A EMPRESA NÃO ESTÁ ME PAGANDO PELA FOTOGRAFIA (e nem mesmo dando créditos, diga-se de passagem), ELA ESTÁ ME ROUBANDO. E ISSO É CRIME. É VIOLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS.

Eu vivo de criação. Ilustração (e muitas vezes fotografia) paga meu aluguel. Se todo mundo olhar para meu trabalho e achar que "tá na rede, então o uso é livre", COMO SE ESPERA QUE EU PAGUE MINHAS CONTAS????

O pior de tudo, é que a foto roubada nem mesmo corresponde à receita ao lado.

Aos ladrões, queimem no inferno, porque KARMA IS A BITCH!

É por causa dessa gente mesquinha e ignorante que não dá valor para o trabalho alheio, e que gosta do roubo como saída fácil para cortes em verba de comunicação, que a maioria das pessoas que trabalha com qualquer espécie de arte precisa de um segundo emprego para poder pagar as contas. E não se engane: aquela loja legal de camisetas cheia de fotos do Poderoso Chefão, do Homer Simpson e etc, não pagou cessão de direitos de impressão para os donos das imagens também. Essa prática tem se espalhado numa velocidade alarmante, e quando até empresas que deveriam ser nossos clientes estão nos roubando, eu duvido que haja um único ilustrador ou fotógrafo profissional daqui a 200 anos, pois não vai valer a pena financeiramente fazer cursos ou faculdades se ninguém vai te pagar pelo seu trabalho.

Mandei um email à empresa bastante educado, muito mais civilizado do que esse post-desopila-fígado. Mas quero que vocês visitem o site e vejam as imagens das receitas. Pois eu tenho certeza de que encontrarão muitas fotos suas ali também.

VEJA O ROUBO AQUI.

UPDATE: Olha só como a empresa foi LEGAL [note o tom de sarcasmo aqui]. Bastou que eu fosse alertada por uma leitora [obrigada, aliás!], e escrevesse um email reclamando para que eles dessem o devido CRÉDITO AO FOTÓGRAFO. UAU! Quão magnânimo da parte da empresa... Da próxima vez, que tal FAZER ISSO ANTES???? OU QUE TAL PERGUNTAR SE PODE???? Eles me responderam, no entanto? Não. Não recebi NENHUM email pedindo desculpas pelo "mal entendido".

Depois de escrever esse post, contei a meu professor de aquarela, que me aconselhou a processar a empresa. Mas eu sou muito boazinha e me contento com créditos, SÓ PORQUE É FOTO E NÃO ILUSTRAÇÃO. [PORQUE SE EU VIR ALGUÉM USANDO DESENHO MEU SEM MINHA PERMISSÃO, EU VOU ARRANCAR CADA CENTAVO DO FDP E SEUS DESCENDENTES.] Mas dentro do assunto do meu último post do Desenhoquê, ele me contou que quando resolve usar uma fotografia como referência para uma pintura, ele entra em contato com o fotógrafo para pedir permissão primeiro. Afinal, ele só consegue pintar aquela cena ou detalhe por conta do trabalho do fotógrafo, então, nada mais justo. ISSO É ÉTICA.

Pergunta: vocês que também tiveram fotos roubadas... vocês têm créditos ali também?

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Risotto de abobrinha e ervilhas com alcachofras fritas

Havia tanto tempo eu não preparava risotto... Mas fiquei vidrada na fotografia do livro Venezia, da Tessa Kiros, assim que o abri. [Livro lindo, lindo, lindo, cheio de fotos maravilhosas e coisas gostosas, principalmente frutos do mar!] A única coisa que não havia em casa eram aspargos, mas aquela última abobrinha esquecida e a pobre e rejeitada alcachofra de minha geladeira imploravam para serem usadas nesse prato.

Tudo muito simples. Arranquei todas as folhas duras da alcachofra, deixando apenas o fundo e aquelas folhinhas bem macias do centro. Cortei-a ao meio, passei uma faquinha afiada na base daqueles espetos cabeludos e os retirei com facilidade. Então fatiei as metades de alcachofra bem fino, 4 ou 5mm, deixando os pedaços imersos em água com limão.

Fatiei uma abobrinha e piquei meia cebola. Refoguei a cebola em azeite até amaciar bem, então juntei a abobrinha e 1/2 xic. ervilhas congeladas. Temperei com sal e pimenta-do-reino e cozinhei por alguns minutos, mexendo sempre. Juntei 1 xic. de arroz arbóreo. Mexe-mexe-mexe. Estala-estala. Uma taça de vinho branco. Ok, uma para mim, uma para o risotto. Deixei evaporar até virar um xarope. Então caldo de legumes caseiro. Cozinha, cozinha, cozinha. Risotto veneziano costuma ser um pouco mais caldaloso do que em outras partes da Itália. All'onda.

Enquanto isso, escorri as fatias de alcachofra, sequei um pouco com uma toalha de papel e passei em umas duas colheres de farinha. Aqueci óleo vegetal numa frigideira grande e fritei as alcachofras por uns 5-7 minutos, até que estivessem macias e douradas. Deixei escorrendo no papel toalha.

Risotto pronto? Um naco generoso de manteiga, um punhado ainda mais generoso de parmesão ralado na hora e um pouco de salsinha picada. Mistura-mistura-tampa-deixa-quieto. Depois de alguns minutos, distribuo colheradas generosas no prato, disponho as alcachofras por cima, polvilho mais parmesão, um fio de azeite e folhas frescas de hortelã.

Um dos melhores risotti que já fiz. Achei que fossem dar 2 porções, uma vez que fiz metade da receita do livro, mas deram três, por conta da abobrinha grande que fez volume. Delicioso, aprovadíssimo e altamente recomendável. Já tenho uma lista mental de pelo menos 80% das receitas do livro que quero testar nos próximos meses. :)

Não descrevi aqui todos os passos do risotto, porque quem já sabe fazer risotto percebeu que a única coisa diferente de um risotto de legumes normal são as alcachofras fritas. Se risotto ainda é um mistério para você, leia isso.

Cozinhe isso também!

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