terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Voltando...

Devagar vou voltando à normalidade, se é que essa palavra alguma vez foi aplicável. Dizer que esse ano foi um ano ruim é ofensivo ao Universo, que colocou sim bons momentos e boas pessoas em meu caminho. Este ano evoluí como profissional graças a excelentes ilustradores e artistas que conheci e que tiveram a bondade de serem meus professores. Este ano reavivei dentro de mim a paixão pelo desenho, que andava moribunda. Este ano foi muito bom para meu casamento, e pudemos pensar muito no futuro e ansiar por ele. Este ano meu cãozinho cruzou pela primeira vez e seus filhotes, agora com dois meses, são a prova de que há beleza e doçura no mundo. Este ano fiz muitos novos – e bons – amigos. Este ano atingi duas metas que eram importantes para mim: emagrecer 10kg e correr minha primeira meia maratona (21km). E vou terminar o ano fazendo algo que sempre quis fazer: correr a São Silvestre.

Foram poucas, pouquíssimas as coisas que me fazem pensar nesse ano como um ano ruim, apesar de todos os pontos positivos que pude citar. Primeiro, este foi o pior ano desde que abri minha empresa. E quem trabalha por conta própria sabe o quanto dói analisar planilhas e gráficos e perceber que seu faturamento não está seguindo a tendência que você previra. É extenuante a expectativa pelo trabalho que colocará seu fluxo de caixa de volta nos eixos. A assim chamada crise foi a desculpa perfeita para que muitas empresas eliminassem sua verba de comunicação por boa parte do ano. E isso afetou a todos os profissionais da área de criação, principalmente os da ponta da cadeia, como ilustradores e fotógrafos.

Segundo, minha avó faleceu em meados do primeiro semestre. Era esperado, mas o processo foi mais longo e doloroso do que o necessário. É interessante como a quebra de um elo, como os avós normalmente são, nunca deixam os laços familiares que restam como eram; eles se estreitam ou desfazem definitivamente. Neste caso, o laço foi desfeito de forma irreversível, deixando em mim uma marca indelével, um gosto amargo na boca, que para sempre me lembrará dos limites da mesquinharia humana. Foi um corte brusco e profundo, de cicatrização muito lenta, que ainda pulsa devagar, me lembrando da ferida. E eu fico aqui, inconformada, sem entender o mundo.

Eu não era muito próxima de minha avó. De nenhuma das duas. Não me lembro de nenhuma conversa significativa. Mas nossos pratos favoritos estavam sempre ali nos esperando, e eu sabia que havia amor ali, disfarçado de alimento. Ela se prontificou, já muito idosa, a me ensinar a fazer macarrão, quando lhe pedi. E gnocchi. E manjar branco. E então me deu todos os seus cadernos de receita para que eu desse continuidade à cozinha que ela já não mais praticava. No meio daquele mês ácido, no entanto, os cadernos me foram tomados, e tudo o que me resta dela é seu bolo de laranja decifrado e os bolinhos de banana, favoritos de meu pai.

É sempre a mesma agonia para mim, quando alguém morre. A sensação egoísta de que perdi minha chance de fazer qualquer coisa boa por aquele ser que passou por aqui. Todas as boas intenções de nada mais servem. Salada de catalogna e abóbora. Era o que eu estava almoçando quando minha mãe me telefonou, e a fotografia está até hoje alojada numa pasta em meu computador, e eu simplesmente não consigo publicá-la aqui, ainda que o gosto doce, amargo e salgado ainda estale em minha boca.

Sinto falta da ideia de ela estar lá. E apesar de ela ser co-responsável, junto com minha avó materna, pelo meu amor à cozinha, não consegui me fazer escrever sobre ela durante todos esses meses. Por todo esse tempo, minha vontade de cozinhar ficou dormente, fingindo que despertava vez ou outra, apenas para manter vivo esse espaço e aquela centelha dentro de mim que ainda acreditava em amar através da comida. Era difícil acreditar em amor após testemunhar tanta ausência dele.

Mas acho que finalmente a ferida parou de latejar. Pode ser a aproximação do Natal. Os piores Natais ainda são bons, de alguma forma. Pode ser que eu tenha encontrado suficiente amor durante os últimos meses para aniquilar meu cinismo de uma vez por todas. Talvez seja simplesmente um processo natural. Talvez o fato de o trabalho ter voltado ao normal no final do ano tenha me tirado da espiral descendente em que eu me encontrava.

De repente, minha vontade de cozinhar parece restaurada. Quero fazer biscoitos, cannoli, pães, quero gente jantando em casa, quero preparar o almoço do dia 25! Principalmente, sinto vontade de compartilhar outra vez. Como se minha visão tivesse sido restaurada, consigo ver beleza novamente nos pratos que saem da minha cozinha, e agora é fácil escrever a respeito deles. Não é mais um fardo, como fora nos últimos meses. Voltou a ser um prazer. Prazer em fazer, em alimentar, em fotografar, em contar, em dividir, em debater.

Eu andara querendo fechar o blog, pensara por que diabos acumulara tantos livros de culinária, e estava cozinhando mecanicamente. Então eu quis fazer massa folhada. Massa folhada! E eu fiz pão, um lindo pão de centeio, pela primeira vez em meses. E fiz biscoitos para decorar a árvore de Natal.

Curada. Enfim.

26 comentários:

Mirella disse...

Nossa Ana, que super desabafo... sei q to na TPM e tals, mas na boa... eu chorei.

Não posso julgar se vc teve um ano bom ou não, perdas nunca são boas... Mas nada como um ano novinho em folha se aproximando para todas as nossas esperanças voltarem.

Mas que bom q vc voltou pra cozinha, que bom!!

Bjos.

Bá Maglia disse...

Lindo, Ana... Bem vinda de volta! E saiba que amor também viaja online... Eu , particularmente, me abasteço de amor vez por outra por aqui, na tua cozinha.

Beijos!
www.mariapirao.blogspot.com

Grubi1 disse...

Querida Ana.
Sinto muito pela perda da sua avo.
O mais triste quando alguem se vai eh o fato de que perdemos a oportunidade de falar, para ela, o quanto nos gostava-mos dela.
Que bom que voce estah de volta.
Gilberto. Um amigo anonimo.

PS: Eu gosto de voce e do seu Blog.

Bigode de chocolade disse...

"Quando lhe resta apenas um sopro de vida, a fênix bate suas asas e agita suas plumas, e deste movimento produz-se um fogo que transforma seu estado. Este fogo espalha-se rapidamente para folhagens e madeira, que ardem agradavelmente. Breve, madeira e pássaro tornam-se brasas vivas, e então cinzas. Porém, quando a pira foi consumida e a última centelha se extingue, uma pequena fênix desperta do leito de cinzas."
(A Conferência dos Pássaros)

gasparzinha disse...

Dava para sentir esse desalento na energia dos teus post.
Que bom que a chama se reacendeu.

É o poder do tempo. :)

JUlia disse...

Anaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
Que bom fico muito felizzzzzzz eba eba eba eba eba beijinhossssssssss

Karin Fromm disse...

Parabéns Ana, tão sincero e tão profundo. Vc não está só curada. Está transformada. E os (bons) blogs são vivos, acompanham nossas oscilações. Um lindo Natal pra vc!

Mi Müller disse...

Báh guria que post lindo! Não sou muito de dar pitaco na tua cozinha, mas fico muito feliz que tu devagarinho restaurou essa vontade de compartilhar... é o que mais amo aqui!
estrelinhas coloridas pra ti.

p.s. sinta-se orgulhosa, fazem 4 meses que só uso caldo caseiro em minhas receitas, culpa tua :D

Anônimo disse...

Nunca postei aqui, embora já leia o blog há alguns meses.

Achei o texto tão lindo que resolvi escrever...

Para nossa felicidade vc está curada!

um bom fim de ano e um excelente 2010!

Roberta Lemes disse...

Seu blog é excelente, Ana. Seu trabalho como ilustradora idem. E o desabafo, comovente (creio que muitos, como eu, irão se identificar com ele)

Desejo que 2010 seja um ano à altura do seu talento.

Ivanise disse...

Ana,
Fiquei emoionada com seu depoimento. Aprendi a gostar da cozinha com meu pai, mas somente esse ano comecei a ensaiar fazer alguma coisa. E foi no seu site que encontrei abrigo para uma pessoa iniciante, mas amante de boa comida e de boa escrita. Maravilhoso o jeito simples e autêntico como você escreve e cativa leitores com fome de textos tão honestos.
Bjos!

Sabrina disse...

Ana, eu perdi a minha avó há um ano atrás, um pouco mais próximo do Natal, e essa data acabou tendo um sabor bem amargo para nós... Ela estava com alzheimer há muitos anos mas a sua partida foi bem difícil.

Quanto à separação, isso também aconteceu comigo após a morte da minha outra avó, alguns anos atrás, e estava falando sobre isso justamente hoje com a minha mãe... Como gostaria de ter os seus cadernos para poder homenageá-la e passar para frente as suas receitas, já que ela foi a minha primeira inspiração, a pessoa que colocava um banquinho em frente ao fogão e me deixava mexer o manjar...

Independentemente das lindas fotos e receitas tentadoras, seus fãs incondicionais vem aqui para ler o que você escreve, rir, chorar, ver os seus desenhos; portanto, ainda que não esteja com muita vontade, não se esqueça de nós, venha apenas para resmungar. Para falar a verdade, acho que os posts que mais gosto são os que você reclama de alguma coisa pq vc sempre acaba sendo cômica... Enfim, obrigada pelas palavras, pelas receitas maravilhosas e pelos desenhos; e ainda que o Gnocchi não derrube a árvore ou coma seus os biscoitos, faça um cartão para matarmos as saudades dele, ou pelo menos coloque uma foto, OK?!? Bjs

miosotiis disse...

Perder alguém nunca é fácil, mesmo que essa perda seja esperada.

Acabei de perder alguém de quem gostava muito. Uma perda esperada. Nada fácil. E aqueles comentários que toda a gente (até nós...) faz nesse momento de que "Foi melhor assim..." é pouco verdadeiro, porque, na verdade, não queríamos nunca que tivesse sido assim...

E a semana continuou...carro asaltado dentro da garagem do prédio, uma infiltração em casa. E, sinceramente, no meio de tudo isto, por vezes falta a força e apetece baixar os braços, enrolar-me no sofá e parar.

E depois o dia nasce outra vez e vemos que nada parou, que o mundo não se emocionou ou abrandou por causa da nossa tristeza imensa. E está sol lá fora...

E só nessas alturas, eu desejo que o tempo passe mais rápido...*

Anônimo disse...

Ana!
2010 será um ano novo e repleto de novas oportunidades e aventuras!
Desejo que seu ano seja maravilhoso e que, no fim, apenas restem boas memórias dos dias e das pessoas que passaram por você.
O amor pela cozinha nunca morrerá em você. É demasiado grande. Pode sossobrar, mas nunca morrer.
Um beijo de confiança.
Patrícia

Ana Elisa disse...

Muito obrigada, gente. Por causa do carinho de vocês esse blog até ficou caidinho, mas não sumiu de vez. Agradeço toda a compreensão por todos esses meses, e agora vambora cozinhar e recuperar o tempo perdido! :D

Beijos a todos!

Anônimo disse...

Ana, sinto muito pela sua perda e fico feliz me saber que a alegria que retirava e dava para a comida voltou!
Desejo a você um feliz natal, um excelente ano novo e uma deliciosa São Silvestre (é sem dúvida uma prova muito gostosa de se correr, cheia de energia de toda aquela gente assistindo e correndo). Quem sabe a gente se encontra por lá.
Beijos,
Cynthia

Tatoo disse...

Oi Ana,

estava "evitando" ler posts recentes para lê-los na ordem, uma vez que estou lendo, aos poucos, o blog desde o começo. Mas quando apareceu o título e o teaser no meu leito do blogger não resisti e vim ver o que vc dizia. Porquê? Porque eu já tinha reparado uma mudança que eu não sabia explicar. Queria entender, nem que seja um pouquinho.
Família é f**da... Quando é bom é bom demais, mas quando é ruim...
Tenho experiências nas duas pontas e nas duas famílias. O que me deixa triste é que minha família é muito pequena, dos dois lados, e ainda assim briga-se muito, e pelos piores motivos.
Bom, eu gosto muito de ler o que vc escreve. Nem sempre concordo, mas mesmo quando isso acontece eu consigo ver as coisas por outro lado e isso me ajuda a abrir a cabeça. Mas, principalmente, adimiro muito sua coragem. Se expor, do jeito que vc faz, não é para qualquer um. Ainda mais sabendo, pelo que vc conta, que as pessoas julgam e condenam. Parabéns! Bem vinda de volta.
Bjo gde,

Tatoo

Patricia Scarpin disse...

Ana, nós ficamos felizes por você estar recuperando a energia e o gosto pela cozinha. Perdas são difíceis (lá se vão 23 anos desde minha mãe morreu e eu não sei lidar, talvez nunca consiga), então entendo um pouquinho a sua dor.

Feridas fazem parte da vida e, por mais clichê que isso possa ser, são responsáveis, muitas vezes, por turning points - o que nem sempre é ruim.

Agora, mocinha, já pra cozinha!! :D

Beijo, querida!

Ka disse...

Ana, que post emocionante. Eu tb perdi minha avó há 2 meses e nem pude me despedir pessoalmente, fiquei arrasada. E pra não ficar só nas coincidências tristes, tb vou correr a São Silvestre. Boa sorte pra nós! ;)

Pepa disse...

Ana, linda, que texto significativo, ainda estou nesse processo de cura, talvez quando findar o próximo ano possa estar tb curada e cozinhando por prazer, mas sinto que o último mês tem sido bem melhor, talvez a cura já esteja aqui e eu ainda não percebi.
Amoooooooooooo, seu site e aprendo muito com ele.
Bjus e boa corrida.

Dulce Bee Life disse...

Que texto comovente. Sempre penso em catalogar as receitas das minhas avos. Mas sempre a gente acaba adiando.Parabens pela sinceridade e pelo blog. Ja perdi as contas de quantas coisas gostosas fiz utilizando as suas receitas.

Letícia disse...

nossa!
q tocante!
q bom q vc está voltando :) vc é muito talentosa e o seu blog é bom demais!!! :)

Nani disse...

Ana..nem preciso dizer nada sobre o seu post...tudo já foi sito acima e eu endosso cada elogio e palavra de apoio!
Queria te contar que fiz os biscoitos!!! Ficaram lindos! Acredita que eu tive paciência de decorar!
O espírito de Natal nasce na minha nova família que agora têm uma pequena a quem quero abastecer de amor tb através da culinária!
Nestes biscoitos está um ppuquinho do seu carinho por publicar a receita e tb estarás na alegria dos que vão recebê-los de presente!
Viu como sem querer você faz MUITA coisa boa pra MUITA gente!
Tudo de melhor sempre!
Abraço Nani

o que vejo pelo mundo disse...

ola, Ana,
Sei q há mtos post depois desse, mas senti necessidade de dizer q entendo o q passou. Tbm vivi uma morte em família, bem como a mesquinharia humana q vem depois dela. Passei um período conturbado depois disso, e levei meses p me reerguer, seja nos aspectos emocional, psicologico efinanceiro. Mas foi nessa época tbm q "descobri" vc é seu blog maravilhoso. Assim como vc, tbm gosto de cozinhar e desenhar, embora ja n desenhe mais p ganhar a vida... Seu blog me ajudou a "dar a volta por cima", n apenas por causa das receitas, mas pela forma como escreve, como entrelaça a cozinha c a vida, faz dela uma forma de ver o mundo, com arte e sensibilidade. Faz do cotidiano um coisa q vale a pena viver. N há rotina maçante, mas uma forma poética de vivenciar o dia a dia. Isso é mágico.
Sei q esse post ta imenso, n precisa publicá-lo, no fundo só queria dizer "obrigado" e bem vinda a vida... a vida recuperada é mais saborosa! desfrute dela!! todos nós, q "demos a volta por cima", merecemos...

até

Andréia disse...

realmente temos coisas em comum ... o amor pela culinária e agora descobri que pela corrida também ... infelizmente estou parada com uma lesão e não tenho corrido mas basta o médico dizer que estou ok para voltar com tudo ... meu sonho tb é correr uma são silvestre!!!! BOA SORTE!!!!! BOA PROVA!!!!

Zezé disse...

Ana, que texto lindo e comovente. Sempre te visito, mas hoje, depois que li, não poderia deixar de falar alguma coisa. Tenha força, muita força e certamente superará tudo. Pena que os cadernos de sua avó foram tomados, certamente por alguém insensível, pois imagino que você faria excelente proveito deles. Continue, por favor, com as suas buscas gastronômicas. Você é muito criativa e sei que nos dará grandes ensinamentos. Feliz 2010.

Cozinhe isso também!

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