domingo, 24 de fevereiro de 2008

Torta "Fui ver Waitress e fiquei morrendo de vontade de fazer torta"

Ontem finalmente consegui ver o filme Waitress, e tive, provavelmente, a mesma reação que todos os outros expectadores: corri para casa e fiz uma torta.

Há pontos positivos e negativos nessa receita inventada à la Jenna. Por um lado, os sabores realmente funcionaram (e não havia por que ser diferente). Por outro, a pressa e a distração quase puseram a torta a perder.

Havia pêras orgânicas na geladeira e um pote de mascarpone pela metade, e imediatamente soube que queria uma torta feita dessa mistura. Descasquei três pêras pequenas, retirei seus miolos e cozinhei-as em fogo baixo em 625ml de água e 150g de açúcar cristal orgânico, até que estivessem macias. Este é o primeiro ponto negativo: tive tanto medo de que as pêras desmanchassem, que não as cozinhei o suficiente, e elas ficaram mais firmes do que eu pretendia. Deixei que elas esfriassem no xarope enquanto preparava a massa.

Esta, por sua vez, foi tirada ipsis literis do livro Jamie At Home, com a única substituição de raspas de limão por noz-moscada. Adianto desde já que não gostei do resultado. Estou acostumada a produzir massas de torta muito leves e flocosas, e esta ficou dura como um biscoito, o que não era meu objetivo quando imaginei essa torta suave e macia. De qualquer forma, fiz metade da receita do livro e forrei com 2/3 da massa (o resto foi para o freezer) uma forma de 21cm. Assei-a no forno a 180ºC, forrada com papel alumínio e feijões por 15 minutos e depois terminei de dourá-la, sem os feijões e o papel, por mais 10 minutos. Retirei-a da forma e deixei que esfriasse sobre uma grade, para que eu aplicasse o recheio.

Em uma tigela, misturei a cerca de 150g de mascarpone 3 colh. (sopa) de açúcar baunilhado, 2 colh. (chá) de aguardente de pera, 1 colh. (chá) de leite e uma pitada de noz-moscada, até que o creme ficasse homogêneo e acetinado. Apliquei essa mistura sobre o fundo da torta fria, espalhando bem. Então fatiei as pêras e as dispus de forma um pouco displicente sobre o mascarpone.

Aí entra a distração que causou o erro no julgamento. A torta estava pronta, e poderia ir à geladeira ou à mesa. No entanto, eu não estava satisfeita com o aspecto pálido das frutas, e queria que elas tivessem as pontas mais coradas. Se tivesse um maçarico e boa pontaria, teria resolvido isso rapidamente, carmelizando apenas as pêras e deixando o creme (que jazia por baixo das fatias de fruta, devidamente escondido e protegido) intacto. No entanto, polvilhei açúcar por cima e coloquei a torta sob o grill do forno, apenas para me dar conta de que as pêras jamais caramelizariam sob o grill tão rapidamente a ponto de não interferir na textura do creme, pelo simples fato de terem sido cozidas, e precisarem de tempo para perder toda a água absorvida até que só restasse o açúcar a ser queimado. Além disso, esqueci-me do fato de que a equação fruta+açúcar+calor geraria um xarope indesejado, que tornaria o queijo aguado. A mistura do queijo, antes firme, de repente não suportava mais o peso das frutas, que afundaram, colocando a perder a minha trabalheira de tentar construir alguma forma geométrica visualmente agradável com três pêras de formatos tão variados.

Na hora de servir, fiquei decepcionada com justamente esses atributos, mas só hoje, depois de uma noite na geladeira, seu sabor suplantou seus defeitos e me arrependi de ter falado tão mal dela ontem ao meu convidado.

É uma torta a ser repetida com certeza, mas com pêras muito bem cozidas, sem a parte do grill e com uma massa melhor.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Risotto de alho-poró e mascarpone

O vício em risotto sempre fala mais alto quando me falta inspiração para fazer qualquer outra coisa com um legume.

Para 300g de arroz arbóreo, refoguei no azeite 2 ramos de tomilho, 1 dente de alho e 1/2 cebola picados até amaciar, juntei 2 alhos-poró médios fatiados fino e deixei que amaciassem e ficassem translúcidos, sem dourar. Acrescentei o arroz e prossegui normalmente, com caldo de legumes. Quando risotto estava no ponto, juntei um naco generosíssimo de manteiga, um punhado igualmente exagerado de parmesão ralado na hora, pimenta-do-reino e o toque final: 2 colheres (sopa) cheias de queijo mascarpone trazido diretamente da Itália pela cunhada.

Barriga cheia e paladar satisfeitíssimo.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Terror de ontem, delícia de hoje

Coisas como gibis contribuíram para a formação de meu preconceito infantil contra legumes como o quiabo. Afinal, sempre que se coloca em uma história infantil algum alimento que a criança, dentro do contexto da trama, deva achar nojento, é sempre quiabo ou jiló. Por isso, detestava quiabo sem nunca tê-lo provado. E olha que eu era uma criança razoavelmente aventureira.

Demorei cerca de 23 anos para provar meu primeiro quiabo, e só porque minha mãe me garantiu que sua técnica o livrava da "baba". Bom, foi amor à primeira mordida, e me arrependi por ter demorado tanto tempo para me desfazer do preconceito.

Fiquei pensando o quanto o coitado do quiabo não sofre simplesmente pelo modo como é descrito. Se fosse dito que o legume tem o centro gelatinoso, isso seria mais ou menos repulsivo do que dizer que ele possui "baba"?

Acredito piamente no amadurecimento do paladar de um ser humano, e acho que isso está diretamente relacionado ao amadurecimento em geral de um indivíduo. Quando era pequena, coisas como espinafre e escarola faziam com que eu torcesse o nariz e cruzasse os braços à mesa, e ria quando meus pais diziam que começaria a gostar de coisas amargas quando ficasse adulta. De fato, as pessoas crescem e surgem um milhão de oportunidades de se experimentar novamente ou pela primeira vez algo que era um terror de infância, e, a não ser que haja algum episódio traumático relacionado, dificilmente obtém-se o mesmo veredito.

Sendo sincera, tenho uma cisma violenta com adultos que têm paladar de criança. Gente com mais de 20 anos na cara que se recusa a sair da tríade arroz, bife e batata-frita me dá verdadeiros calafrios, e normalmente não consigo conversar com uma pessoa que se recuse a experimentar qualquer coisa de nova. Parece-me falta de confiança no outro. Quando meus pais diziam "experimenta que é gostoso", eu confiava neles. Não prometia gostar da coisa, mas pelo menos tentaria, pois meus pais nunca mentiriam para mim ou tentariam me envenenar. Já ouvi calamidades na minha própria casa quando uma convidada fez cara de nojo para um pão recheado com molho pesto, simplesmente pelo recheio ser verde. Pode uma pessoa destas? Deveria ou não ter abandonado o bom senso e chutado a mulher para fora do prédio??

De qualquer forma, não preciso dizer para ninguém que hoje espinafre e escarola estão entre minhas verduras favoritas.

Quando recebi o quiabo na cesta orgânica, fiquei feliz, pois, apesar de gostar dele, acho que o marido jogaria uma tigela na minha cabeça se eu saísse especificamente para comprar algo que ele (de novo, ai, ai) não gosta. Usei como base algumas receitas árabes (o pessoal naquela parte do mundo sabe o que é bom e come muito quiabo) e as dicas maternas (o vinagre é a peça-chave), e o resultado não decepcionou. Allex nem provou ainda, mas acho que, desta vez e apenas desta vez, vou poupá-lo. Desde que o conheci até que ele tem sido muito colaborador, e tem experimentado de tudo, mesmo quando me garante de pé junto que não consegue nem ficar na mesma sala que a comida em questão.

Sem problemas. Fica tudo para mim, acompanhado de uma salada de alface e lentilhas verdes ao curry.

Quanto ao jiló, ainda não tive chances de experimentar. Quem sabe ele não vem um dia na cesta?

QUIABO (sem baba) DO MEU JEITO
Tempo de preparo: 30 minutos
Rendimento: 3-4 porções como acompanhamento


Ingredientes:
  • 400g de quiabo
  • 1/2 cebola fatiada fino
  • 1 dente de alho fatiado fino
  • 1 colh. (sopa) de azeite
  • 1/2 colh. (sopa) de vinagre branco suave (de Champagne)
  • 1 pitada de açúcar
  • sal e pimenta-do-reino
  • 1 punhado de salsinha picada

Preparo:
  1. Corte fora as duas extremidades dos quiabos. Corte-os em pedaços de 2-3cm e os coloque em uma tigela. Lave em umas 3 trocas de água e escorra.
  2. Em uma panela ou frigideira funda, aqueça o azeite e doure a cebola e o alho em fogo baixo, até que fiquem macios e ligeiramente dourados. Junte o quiabo, mexendo bem, por cerca de 5 minutos.
  3. Coloque água suficiente para quase cobri-los, salgue bem, tempere com pimenta e junte o açúcar e o vinagre. Mexa e deixe ferver em fogo baixo até que os quiabos estejam cozidos. Junte mais água se necessário.
  4. Escorra, acerte o tempero, polvilhe com a salsinha picada e sirva quente ou frio.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

VÍTIMAS CULINÁRIAS 4: cookies sensacionais para o mais analfabeto dos cozinheiros

Uni agradavelmente minha recente vontade de fazer cookies ao apetite de meus colegas de corrida. Eu lhes prometi que levaria quitutes amanhã, e me pus logo a procurar uma receita de cookies que superasse a última batelada que lhes levara. Fui a meu livro mais confiável e a foto (a única de todo o capítulo) dos Double Chocolate Macadamia Chunk Cookies me conquistou com sua cor castanha intensa pontilhada de branco e dourado. Fiz muito poucas adaptações à receita, de acordo com o que havia na despensa e com meus caprichos.

Estes são sem sombra de dúvida os cookies mais deliciosamente intensos, e ao mesmo tempo mais ridiculamente fáceis que já provei. A massa feita de muito chocolate amargo derretido e cacau em pó fica escura, intensa, macia, derretendo na boca. O que lhe adiciona profundidade e um toque extra de doçura são, respectivamente, as castanhas de caju sem sal e o chocolate branco, crocantes. Com certeza encontrei um novo favorito.

No que se refere à produção, que tal fazer cookies que não requerem nem batedeiras nem braços fortes? Basta uma colher. É inclusive aconselhável que não se misture demais a massa. Podia ser mais fácil? Esses são os doces perfeitos para um cozinheiro de primeira viagem ou para crianças. Mas peço encarecidamente para que sejam usados ingredientes de qualidade: um chocolate tipo cobertura que não tenha cacau suficiente pode deixar o cookie doce demais. Mas, até aí, há quem goste de qualquer coisa.

Os biscoitos já estão devidamente guardados, esperando para serem devorados amanhã de manhã. E azar de quem faltar no treino...

COOKIES DE CHOCOLATE COM CASTANHAS DE CAJU
(Ligeiramente adaptado do livro Professional Baking)
Tempo de preparo: 30 minutos
Rendimento: 30 cookies de 5cm de diâmetro


Ingredientes:
  • 250g de chocolate amargo com 50% de cacau
  • 85g de manteiga sem sal
  • 45g de açúcar cristal orgânico
  • 1 ovo extra-grande orgânico
  • 2 pitadas de sal
  • 125g de farinha de trigo
  • 10g de cacau em pó de qualidade (NÃO use chocolate em pó)
  • 3g de fermento químico em pó
  • 95g de chocolate branco de qualidade picado (que tenha como única gordura a manteiga de cacau)
  • 45g de castanhas de caju SEM SAL picadas
Preparo:
  1. Derreta o chocolate amargo e a manteiga em banho maria e reserve.
  2. Misture em uma tigela grande o ovo, o açúcar e o sal, apenas até que fique homogêneo. (Não deixe que espume, ou o cookie crescerá muito e ficará esfarelento demais.) Junte o chocolate derretido e misture.
  3. Peneire a farinha, o cacau e o fermento e misture ao chocolate, incorporando bem. Junte as castanhas e o chocolate branco e mexa até que fiquem bem espalhados na massa, que parecerá um pouco com massa de brownies.
  4. Forre uma assadeira bem grande com papel-manteiga e, com a ajuda de uma colher de sopa, disponha os pedaços de massa, uns 3-4cm distantes umas das outras. Você pode fazê-los menores, com uma colher de chá. Faça isso rapidamente, pois a massa endurece conforme passa o tempo.
  5. Com as costas de uma colher ou o socador de um pilão, pressione ligeiramente os pedaços de massa para que fiquem com 1cm de altura. Leve ao forno pré-aquecido a 180ºC por 15 minutos (10 minutos, de os biscoitos forem menores).
  6. Retire do forno. Os biscoitos parecerão secos na superfície, sem aquele aspecto brilhante de massa crua, mas estarão bastante moles. Deixe-os na assadeira por 5 minutos (longe de correntes de ar, pois elas podem rachar os cookies) e então retire-os cuidadosamente com uma espátula fina de metal, deixando que terminem de esfriar sobre uma grade. Quando frios, guarde-os em um pote fechado hermeticamente.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Pierre Hermé 3 x 3 Ana Elisa: uma guerra que quero muito perder


Na hora do almoço tive um comichão incontrolável, uma vontade incrível de fazer bolo. Olhei para todos os meus livros, mas aquele continuava me assombrando. E lá vamos nós...

A receita é bastante simples, na verdade, ainda que bizarra. Hermé pede para que se derreta a manteiga antes de batê-la com o açúcar, ao invés do processo normal de batê-la apenas em temperatura ambiente, para obter um creme fofo. Seguindo seus passos, não é um creme fofo, nem de longe, que se obtém.

Mas vamos lá, nada de derrotismo logo no começo. Junto as gemas, um pouco de baunilha (que não constava na receita, mas não suportaria comer um bolo branco com gosto de ovo) e junto a farinha peneirada. A coisa toda fica com cara de massa choux, e muito pouco semelhante a qualquer coisa que remeta à massa de bolo. Cabeça erguida, e vamos em frente. Acredito que esse é o único momento que tende ao desastre: a hora de incorporar algo leve e delicado como claras em neve a uma massa espessa e pesada como a que havia à minha frente. Ainda bem, no entanto, que a experiência nessas horas fala mais alto, e, depois de incorporadas as claras, a massa era leve e uniforme, como deveria ser.

Divido a massa em duas e acrescento a quantidade fenomenal de cacau, que, por sorte, era exatamente o que restava na despensa. A metade de massa misturada ao cacau tomou forma de... como posso descrever? De lama seca, para não dizer outra coisa. Impossível de ser "despejada" na forma, a massa teve de ser arrancada da tigela e atirada à forma untada e enfarinhada, violentamente.

Eu não sei o que houve comigo nessa hora. Havia lido a receita de cabo a rabo, como sempre faço, antes de começar. Por algum motivo (talvez fosse o espanto com a textura da massa ao longo dos processos), não a reli e acabei pisando na bola. Esqueci de forrar a forma com papel-manteiga. E ainda por cima (porque chocolate nem queima fácil não) inverti toda a ordem e despejei na forma: massa com cacau, sem cacau, com cacau, sem cacau. De modo que ao invés de obter um lindo bolo dourado com uma camada escura escondida, consegui um bolo tipo "mancha de nascença".

Tudo no forno. Como sou prevenida, deixei marcados 45 minutos no timer em lugar dos 50 pedidos no livro. Aos 40, abri a porta e testei o bolo com uma faca. Apenas a parte de chocolate deixara vestígios na lâmina. Aos 45 (veja bem: 45, não 50), o bolo estava queimado. Pronto, porém queimado.

Sabia que se o deixasse na forma, ele continuaria o cozimento, e, vendo como ele se desprendia facilmente das laterais, tentei desenformá-lo. Vi, desalentada, apenas sua metade superior despencar na minha mão.

Xinguei um pouco.

Apanhei então uma espátula de bambu que ganhara dos sogros e que, para dizer a verdade, jamais usara, e encontrei para ela grande serventia: consegui retirar a parte de baixo do bolo sem maiores estragos e encaixá-la à sua metade solitária, de modo que, olhando para o bendito, nem se vê a fenda.

Deixei que esfriasse antes de experimentá-lo, e surpreendi-me. Ainda que prefira bolos marmorizados mais leves, este ficou muito bom e muito rico. Sua parte de chocolate é quase um brownie no meio do bolo branco. O excesso descomunal de manteiga para um bolo tão pequeno, contudo, torna-o mais esfarelento do que minhas receitas favoritas de bolo marmorizado. Estas costumam ter ambas as massas bastante líquidas, de modo que, após depositá-las em camadas na forma, pode-se, com uma faca, criar desenhos que de fato façam com que o bolo faça jus ao nome.

De qualquer forma, o bolo ficou bom, deu tudo certo, Hermé está quase perdoado. Mas nunca mais asso um só bolo seu sem papel manteiga no fundo. Afe!

BOLO MÁRMORE DE PIERRE HERMÉ
(Descaradamente copiado do livro Larousse do Chocolate, apesar de isso não ser do meu feitio, só porque ainda estou com raivinha do cara)
Tempo de preparo: 20 minutos + 50 min. de forno
Rendimento: 6-8 fatias


Ingredientes:
  • 175g de manteiga
  • 200g de açúcar
  • 175g de farinha de trigo
  • 1/2 colh. (sopa) de fermento químico em pó
  • 3 ovos
  • 50g de cacau em pó
Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 180ºC. Separe as claras das gemas.
  2. Derreta a manteiga em fogo baixo. Bata com o açúcar. Junte as gemas e misture bem até ficar homogêneo. Peneire a farinha com o fermento e incorpore à mistura de manteiga.
  3. Bata as claras em picos firmes e misture aos poucos e com cuidado à massa, mexendo com uma espátula sempre no mesmo sentido. Divida a massa em duas partes iguais.
  4. Peneire o cacau sobre uma das tigelas de massa e misture.
  5. Unte e enfarinhe uma forma de bolo inglês de 22cm e forre com papel manteiga. Despeje metade da massa sem cacau, cubra com a massa com cacau e novamente com a sem cacau. Leve ao forno e deixe assar por 50 minutos, ou até que uma faquinha saia limpa quando inserida em seu centro. Desenforme e deixe esfriar antes de servir.

Meu blog é bom prá burro

Fiquei lisonjeada hoje por ter recebido esse prêmio de dois blogs diferentes: da Fer e da Lara. Agora nem sei o que faço, se nomeio 7 ou se tenho de nomear 14. Mas sempre acho engraçado esses prêmios em que quem recebe tem que nomear mais 7, que têm de nomear mais 7, e assim numa progressão geométrica que resulta em todo mundo recebendo o prêmio e todo mundo feliz. É com certeza uma das idéias mais democráticas da internet. Mas e aí? E se o blog que você lê já foi nomeado por alguém que te nomeou? Pode repetir?

Eu nomeio... hm... dexeuver... é tanta gente... Ok, vou ter de fazer uni-duni-tê, e espero que ninguém fique ofendido. Seguem os escolhidos, sem ordem de preferência:
Khodair
Brincando de Casinha
Technicolor Kitchen
Comidinhas do Bem
Agdá
The Inner Life of Food
Amouse Bouche

Vamos às regras:
1 - Este prémio deve ser atribuído aos blogs que considerem serem bons. Entende-se como "bom" os blogs que costuma visitar regularmente e onde deixa comentários;
2 - Só se recebeu o "É um blog muito bom sim senhora", deve escrever um post incluindo:. a pessoa que lhe deu o prémio com um link para o respectivo blog; a tag do prémio;. as regras;. e a indicação de outros 7 blogs para receberem o prémio;

Às vezes nada dá certo, mas de vez em quando a salada de batatas compensa o pão porqueira

Ontem, no mesmo fatídico domingo em que, pela primeira vez, não produzi um pão ciabatta semi-decente, saiu de minha cozinha uma salada de batatas de repetir até não sobrar nem molho no fundo da travessa. Ainda bem que aqui em casa todo mundo é (mais ou menos) comedido. Essa salada ficou sensacional comida direto da geladeira, hoje no almoço.

Se quiser, pode descascar as batatas, antes ou depois do cozimento. Eu acho um desperdício de sabor e nutrientes. Com certeza perde-se na apresentação, mas quem se importa com isso num almoço de domingo?

SALADA DE BATATAS E VAGENS ESTILO EUROPEU
(Adaptado do livro Professional Baking)
Tempo de preparo: 40 minutos + 20-60 minutos de espera
Rendimento: 4 porções


Ingredientes:
  • 500g de batatas
  • 400g de vagem macarrão
  • 1/2 cebola picada
  • 2 colh. (sopa) de vinagre de vinho tinto
  • 80ml de caldo de legumes
  • 1 colh. (sopa) de mostarda de Dijon
  • 2 colh. (sopa) de azeite de oliva extra-virgem
  • 1/4 colh. (chá) de açúcar orgânico claro
  • sal
  • pimenta-do-reino
  • 2-3 cebolinhas picadas
  • 1 punhado de salsinha picada

Preparo:
  1. Cozinhe as batatas inteiras e com casca, em água suficiente para cobri-las mais 5cm, até que um garfo as perfure facilmente mas não as desmanche.
  2. Enquanto isso, corte as duas extremidades das vagens, jogando-as fora, e corte as vagens em pedaços de cerca de 3cm. Coloque uma panela com água para ferver e, quando a água estiver em ebulição, junte as vagens e cozinhe até que fiquem macias.
  3. Escorra as batatas e volte-as à panela em fogo muito baixo, para que terminem de secar, até que nenhum vapor saia delas (menos de 1 minuto). Assim que conseguir manuseá-las, mas tendo-as ainda bem quentes (ou não absorverão o tempero), corte-as em fatias grossas ou quartos. Misture às vagens numa travessa.
  4. Em uma panela pequena, aqueça o vinagre, a cebola picada e o caldo de legumes, até que abra fervura. Desligue e misture a mostarda, o açúcar e sal e pimenta a gosto. Junte o óleo e bata de leve com um garfo ou fouet, para que o preparado emulsione bem e fique homogêneo.
  5. Junte o molho às batatas e vagens ainda quentes, misturando muito bem. Deixe descansando em temperatura ambiente por 20 minutos a 1 hora. Na hora de servir, misture a salsinha e cebolinha.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

PADARIA DE DOMINGO 7: nem tudo dá certo sempre

Parece uma linda ciabatta, meu pão favorito, mas quando o abri, tinha consistência de biscoito de polvilho. Só posso acreditar que o forno estivesse muito quente, pois toda a sua confecção se seguiu tranqüilamente, e todas as etapas correspondiam exatamente às imagens do livro. Fico chateada por ter desperdiçado bom azeite, e porque não via a hora de provar desse pão. Mas, nem sempre a gente acerta, há vezes em que as coisas simplesmente dão errado e ponto.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Panquecas de aveia

Gosto de manhãs de sexta-feira, pois é o único dia da semana em que posso tomar café-da-manhã com meu marido calmamente, sem me sentir culpada por ter faltado na corrida.

Hoje, especialmente, fui acordada não pelo cachorro, mas por meu marido dizendo "Panquecas. Panquecas". Ok, ok... Mas quero testar outra receita.

Estas são panquecas de aveia, adaptadas de uma receita de revista francesa Saveurs. Elas são mais massudas e ficaram muito boas para alguém como eu, que adora aveia. Meu marido torceu o nariz quando viu a receita, torceu o nariz quando as preparei e continuou torcendo o nariz enquanto comia. "Eu detesto aveia", resmungou. Bom... vivendo e aprendendo. Dessa eu não sabia. A sugestão da revista era que se derretesse geléia de frutas vermelhas numa panela e que se derramasse essa calda espessa sobre as panquecas. Nós continuamos no bom e velho maple syrup, que nunca decepciona.

PANQUECAS DE AVEIA
(Adaptado da revista Saveurs)
Tempo de preparo: 10 minutos
Rendimento: 4 panquecas do tamanho de um pratinho de sobremesa


Ingredientes:
  • 75g de farinha de trigo
  • 75g de aveia em flocos
  • 150ml de leite integral
  • 1 ovo
  • 1 colh. (chá) de fermento químico em pó
  • 1 colh. (chá) de açúcar orgânico claro
  • 1 pitada de sal
  • 1 pitada de canela
  • 1 pitada de noz-moscada ralada na hora

Preparo:
  1. Misture todos os ingredientes com um garfo até que fique mais ou menos homogêneo. Aqueça uma frigideira pequena, derreta um pouquinho de manteiga e despeje uma concha (80-100ml) da massa, girando a frigideira para que a massa se espalhe uniformemente. Deixe em fogo médio-baixo até que doure embaixo e forme buracos na superfície. Vire com uma espátula e deixe dourar do outro lado. Sirva quente, com manteiga e geléia, mel ou maple syrup.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Cookies de café e nozes



OK, eu não queria deixar ninguém com nojo pelo último post. Então, deixo aqui um docinho de adulto, para fazê-los esquecer aquela imagem grotesca de unhas sujas (juro que foi só daquela vez, e só porque achei ótimo provocar meus amigos mais preocupados). Esses cookies não são doces como os comuns, com gotas de chocolate; mas são gostosos, bons para comer com um café. Por isso mesmo resolvi prepará-los. Como vou pela primeira vez à casa de uma das meninas que correm comigo, achei de bom tom levar-lhe algum mimo.

Tive de fazer algumas substituições, já que não havia açúcar mascavo claro em casa, ou pó para espresso instantâneo. Como ela advertia a respeito da mudança de textura no uso de café solúvel ou café em pó comum, bati meu café para espresso no pilão antes, para ter certeza de que seus grãos eram bem pequenos. As alterações na receita fizeram com que os cookies não se espalhassem tanto quanto eu gostaria, o que, no entanto, de modo nenhum mudou o fato de que eles ficaram bons.

Resta saber se as meninas gostarão deles.

COOKIES DE CAFÉ E NOZES
(Ligeiramente adaptado do livro How to Be a Domestic Goddess)

Tempo de preparo: 45 minutos
Rendimento: 30-35 cookies


Ingredientes:
  • 3/4 xíc. + 2 colh. (sopa) de manteiga sem sal em temperatura ambiente
  • 1/4 xíc. de açúcar orgânico claro
  • 5 colh. (chá) de açúcar demerara orgânico
  • 4 colh. (chá) de açúcar mascavo orgânico
  • 2 colh. (sopa) de café em pó (moído fino)
  • 2 ovos extra-grandes orgânicos
  • 1 2/3 xíc. de farinha de trigo
  • 1 colh. (chá) de fermento químico em pó
  • 1/2 colh. (chá) de sal
  • 3/4 de xíc. de nozes picadas
Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 180ºC. Bata a manteiga e os açúcares até que fique cremoso. Junte o café em pó, deixe misturar, e acrescente um ovo de cada vez, misturando bem a cada adição.
  2. Misture a farinha, o sal e o fermento e junte à manteiga aos poucos, misturando com uma espátula até que fique homogêneo, mas sem bater em excesso. Incorpore as nozes de modo uniforme.
  3. Forre uma assadeira com papel-manteiga e, com uma colher de sopa como medida, disponha bolotas de massa, com 3-4cm de espaço entre elas. Deixe o resto da massa na geladeira enquanto a primeira leva assa. Leve ao forno por 15 minutos, até que estejam douradas na base e firmes ao toque. Deixe esfriar sobre uma grade e repita a operação até o fim da massa.

Tudo é relativo: até dedo sujo no queijo


Antes que você se revolte com a foto, deixe-me explicar. Adoro acampar, mas não o faço tanto quanto gostaria. E quando digo acampar, quero dizer botar a mochila nas costas e andar do ponto A ao ponto B, por alguns dias. Quanto menos interação com qualquer coisa semelhante à civilização, melhor.

A primeira vez que se acampa, principalmente quando se começa já adulto, pode ser ligeiramente traumática. Como assim, não tem banheiro?? Por isso meu primeiro acampamento foi uma baba, em camping, apesar de ser no meio do mato, e até chuveiro de água quente havia.

Conforme você vai pegando gosto pela coisa, vai aumentando a distância entre você e os confortos modernos. E aí é que entramos no verdadeiro assunto desse post. A primeira coisa que você deve pensar quando decide fazer uma travessia é levar pouco peso na mala. Mesmo assim, você terá 11kg nas costas. Boa parte desse peso é comida. [A-há! Tá vendo como tinha comida envolvida no texto?] A boa notícia é que, durante a viagem, você vai se livrando desse peso, uma vez que você o consome. Cada vez que vamos acampar é a mesma briga entre meu senso gastronômico e meu senso de acampamento. A comida deve ser leve de carregar, rápida de preparar, ocupar pouco espaço na mochila e não ser perecível. Quando comíamos carne, o negócio era levar salame. Mas e agora? Queijos amarelos curados, como minas meia-cura ou provolone são a melhor pedida para o almoço, quando não dá tempo de ligar o fogareiro.

Queijo??? Mas queijo não tem de ficar na geladeira???

ABERTURA DE MENTE NÚMERO 1: Não. Queijos curados agüentam bons dias fora da geladeira. Olha você tremendo, com medo de intoxicação... heheheh...

Então, você está andando há horas e a água do seu cantil acabou faz tempo. Está um calor do cão. Você encontra uma quedinha d´água cristalina. Normalmente você encheria seu cantil e colocaria nele uma pastilhinha de cloro, esperando uma meia hora antes de beber. Mas não dá para esperar. Tem uma subida enorme à sua frente e embaixo do sol.

ABERTURA DE MENTE NÚMERO 2: Se estiver no meio do mato há mais de dois dias e com muita sede, você ignora até aquelas aranhinhas que ficam na superfície da água e bebe com gosto, e esquece a partir de então de usar as pastilhinhas de cloro. Até chegar perto da civilização de novo. Aí não tem jeito. Sempre tem uma anta que constrói fossa séptica do lado de nascente de riozinho.

Continua andando e, de repente, encontra um lindo pé de amoras carregado, ou um belo dente-de-leão jovem, ambos piscando para você e dizendo: me coma. Há dias você come miojo e tudo o que você quer é um gostinho fresco na boca.

ABERTURA DE MENTE NÚMERO 3: Se encontrar um arbusto cheio de amoras, vai ignorar completamente o fato de que provavelmente um monte de pássaros e insetos já devem ter remexido naquilo, para não dizer roedores, e provavelmente vai pegar as folhas do dente-de-leão e, quando muito, passar embaixo da próxima quedinha d´água, só para tirar a terra. Sem pastilhinhas de cloro.

Então você pára para o almoço. Senta na grama, abre a mochila e olha para seu pãozinho e seu queijo imaculados. Olha para suas mãos e vê que elas estão recobertas de lama seca. Seu cantil está cheio, mas o próximo rio está a 3 horas de caminhada.

ABERTURA DE MENTE NÚMERO 4: Você vai comer seu pão com queijo com as mãos mais imundas que já teve e tirar uma foto para chocar sua mãe depois, pois nem a pau que você vai desperdiçar sua água para algo tão estúpido quanto lavar as mãos. O que você é? Um bibelot?

É claro, tudo isso é uma piada. Apesar de já ter passado por todas essas situações. E meus acampamentos foram leves, no máximo 3 dias de travessia. Minha cunhada já fez coisa pior, subiu o monte Roraima, e são muitos dias indo e outros tantos voltando. E lá sim é meio do mato. O caso é que, quando você passa 3 dias carregando sua casa nas costas, sem tomar banho, usando a mesma roupa, cobrindo com terra suas necessidades, bebendo água de rio e comendo queijo amolecido de calor com mão suja de terra, você muda RADICALMENTE o seu conceito do que é limpo ou seguro. Você volta para casa e acha tudo uma frescura sem tamanho. Vê como seu corpo é na verdade forte, e como o estamos enfraquecendo ao impedi-lo de lidar com determinados micróbios.

Costumo brincar dizendo que as crianças que moraram no meu prédio quando eu era nova têm os organismos mais fortes do mundo, pois todas nós brincávamos no mesmo tanquinho de areia, onde gatos de rua zanzavam livremente durante a noite, fazendo exatamente o que você imagina. O que nos torna imunes a tudo é o fato de que todo mundo se lembra do gosto daquela areia.

Claro, eu lavo muito bem minhas mãos antes de cozinhar qualquer coisa, prendo os cabelos com um lenço, e quero minha cozinha organizada e brilhando sempre. Odeio louça suja e tenho paúra de embalagens semi-abertas. A imagem de qualquer inseto rondando minha cozinha é demais para mim.

Mas algumas coisas que supostos cientistas e médicos falam na TV (ainda mais onde!) simplesmente não me convencem. A não ser que estejamos falando de práticas industriais.

Afinal, o que não mata engorda. E achei que seria bom explicar um pouco mais sobre mim e porque sou assim tão desconfiada...

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Elucubrações acerca de uma minúscula despensa

Minha despensa não é das maiores. Aliás, ela é minúscula. Composta de duas únicas prateleiras de 30x100cm, é preciso uma mente organizada e um grande autocontrole para não comprar mais do que elas comportam. Alguns problemas de estoque (e limpeza) resolvi com estas duas caixas de vime. Uma sem tampa, para os temperos, que manuseio todos os dias, e uma com tampa, tipo baú, para itens de confeitaria, que costumam sair do lugar uma vez por semana apenas. Farinhas e grãos de embalagens abertas vão para potes de vidro. E as validades, você me pergunta? Ah, depois da primeira vez que você deixa encher de caruncho quase 1kg de polenta italiana, você nunca mais deixa o pote encostado por mais de dois meses. Potes com coisas que vencem mais rápido, como farinha integral, ficam na frente. Na prateleira debaixo, massas, itens de café-da-manhã, alho e cebolas numa tigela branca, enlatados.

Tenho com minha despensa a mesma cisma que tenho com minha geladeira: gosto de vê-la esvaziando. Sinto-me muito competente e eficiente quando consigo usar toda a comida que tenho disponível. Então corro ao mercado para encher novamente as prateleiras de todos os itens sem os quais simplesmente não sei cozinhar. E esses, acredito, são os dez itens mais insuportavelmente cruciais na minha despensa, sem os quais fico na cozinha feito barata-tonta:


  1. Azeite extra-virgem: uso para absolutamente tudo; só uso outros óleos quando especificados numa receita ou para fritura por imersão.
  2. Manteiga sem sal: compro de quatro a seis pacotinhos de cada vez, pois entro em depressão quando não há manteiga em casa.
  3. Alho: bobeou, estou refogando alho. Se não tiver cebola, eu me viro. Se não tiver alho, f*deu.
  4. Tomates italianos pelados em lata: a salvação de todo macarrão de fim do mês e a promessa de tomates com gosto de tomates.
  5. Farinha de trigo: se tiver farinha na despensa, não preciso sair correndo para comprar nem massas nem pão.
  6. Ovos orgânicos: aqui em casa vão umas 2 dúzias por mês. Mas também, olha a quantidade de omelete, torta, massa, bolo e sorvete que sai dessa cozinha...
  7. Leite integral: o marido é umbezerro, mas fora isso há todos os itens mencionados acima: bolo, sorvete, massa, torta, molho...
  8. Arroz arbóreo: arroz comum aqui em casa é de vez em quando. O arbóreo, no entanto, é obrigatório. Se estiver acabando, corro para repor, porque nada é mais prático para duas pessoas do que um prato único e versátil como o risotto.
  9. Couscous marroquino: quando estou sem inspiração e pergunto ao Allex o que ele quer comer, a resposta é essa em 99% das vezes.
  10. Queijo parmesão: não dá para fazer massa sem ter queijo ralado em cima; não dá para fazer um risotto, sem queijo no final; não dá para fazer uma fritatta sem ele. Não dá para viver sem ele e ponto. Principalmente se for bom. E de pedaço, para ralar na hora. Meio quilo por mês.
Se tivesse um décimo-primeiro item, incluiria ervas, qualquer uma, fresca ou seca. Mas não, não vamos abusar. Dez está bom. Mas fico curiosa para saber se todo mundo tem essas mesmas necessidades gastronômicas (para não dizer vitais), de modo a prosseguir calmamente em sua vida culinária. E aí? Qual é o seu Top 10 "se não tiver isso na despensa eu peço uma pizza"?

Chovendo no molhado: meu item primordial contra o desperdício de coisas verdes folhosas

Quando morava com meus pais, verduras eram um problema sem solução. Minha mãe as comprava em grande quantidade, na esperança de que isso nos incentivasse a comer mais delas, mas a verdade é que o apetite mais voraz por coisas verdes não era capaz de exterminar as benditas antes que elas estragassem na geladeira.

Quando me mudei, contraí o mesmo mal. Peço a cesta orgânica uma vez por mês, pois o que vem costuma bastar para duas pessoas durante esse período. Quando vêm muitos legumes e raízes, tudo bem. Mas há meses em que recebo 6 pés de diferentes tipos de alface, mais espinafre, escarola, rúcula, couve... Então bate o desespero, pois você não acredita que seja possível consumir tudo aquilo em duas bocas dentro do "prazo de validade" das folhas.

Demorei muito tempo para adquirir minha centrífuga de saladas. Principalmente porque elas costumavam custar mais de cinqüenta reais, e Allex não me deixava comprá-las de jeito nenhum, considerando-as uma tranqueira inútil. Mas quando elas proliferaram nos mercados e surgiram por aí por menos de 30 merrecas, não consegui conter mais meu impulso. E, desde então, tem sido uma das minhas melhores aliadas contra o desperdício de coisas verdes.

Assim que as folhas chegam em casa, vão direto para a pia, onde são lavadas sob água corrente, folha pro folha. Eu pulo tudo aquilo de deixar de molho em vinagre ou cloro, porque:
  • acredito na força do meu organismo para combater qualquer invasor invisível não lavável;
  • não acredito nesse mambo-jambo de esterilização geral de tudo o que nos cerca (coliformes, germes e bactérias existem até na sua escova de dentes, e você não vive doente por isso);
  • os vegetais ficam ali absorvendo água, e por isso apodrecem mais rápido; fora que eu SINTO o gosto deles diferente depois do tempo de molho.
Depois da lavagem, vão para a centrífuga, e adoro ver a curiosidade do cachorro quando começo a girar a manivela, todo inquieto por causa do barulho leve de "turbina" provocado pelo movimento. E aqui vem os dois truques mais úteis que tenho a ensinar:
  1. Escolha um pote ou saco plástico que comporte todas as folhas folgadamente. Coloque uma ou duas folhas de papel-toalha no fundo do pote, cubra com as folhas, e cubra novamente com papel-toalha antes de fechar muito bem a tampa. Se usar o saco, empilhe as folhas uma em cima da outra, enrole-as em papel-toalha e então coloque-as no saco, tentando tirar boa parte do ar antes de fechá-lo bem. O papel absorverá toda a umidade excedente das folhas e fará com que elas continuem secas e crocantes por mais tempo.
  2. Antes de guardar as folhas separe as mais murchinhas ou manchadas das mais novas e frescas. Guarde-as em potes ou sacos separados; assim você pode usar as murchinhas primeiro, sabendo que as mais novas estão separadas e durarão mais tempo. Também porque as manchadas começarão a estragar antes e, uma vez estragadas, acelerarão o processo das outras mais novas.
Desta forma, já consegui manter pés inteiros de alface na gaveta de legumes da geladeira por duas semanas, sem que elas sofressem perda de crocância ou frescor. Se o papel encharcar, troque-o.

Caso, no entanto, seus pés de alface realmente tenham murchado e estejam muito sem graça para uma salada, não os jogue fora. Refogue-os e use-os como recheio para esse pão. Claro, também demorei uma eternidade para me dar conta de que poderia fazer o mesmo com os maços de cheiro-verde que murchavam na geladeira de um dia para o outro. Hoje, eles duram mais de uma semana.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Rigatoni (de uma designer ocupada) ao perfume de canela

Sabendo que em pouco tempo Allex chegaria com seu amigo para almoçar em casa, saí correndo a preparar um prato que servisse bem aos três, e que fosse ao mesmo tempo saboroso e fácil, pois ando ainda submersa em trabalho e não podia me dar ao luxo de passar uma manhã preparando um almoço sofisticado.

Desta necessidade surgiu esse rigatoni ao forno, que acabou ficando tão bom que pretendo repeti-lo outras vezes.


























RIGATONI
GRATINADO AO MOLHO DE TOMATE E CANELA
Tempo de preparo: 45 min.
Rendimento: 4 porções


Ingredientes:
  • 400g de rigatoni
  • 1 cebola picada
  • 1 dente de alho grande picado
  • 2 colh. (sopa) de azeite extra virgem
  • 1/2 colh. (chá) de orégano
  • 2 tomates italianos orgânicos
  • 1 lata (400g) de tomates italianos pelados
  • 1/4 colh. (chá) de canela em pó
  • 1/4 colh. (chá) de açúcar orgânico claro
  • sal e pimenta-do-reino a gosto
  • 1 punhado de salsinha picada
  • 1 1/2 xíc. de queijo parmesão ralado grosso

Preparo:
  1. Coloque a água do rigatoni para ferver e comece o molho. Quando a água do rigatoni estiver fervendo, salgue (1 colh. de sopa) e coloque nela o rigatoni, cozinhando por cerca de 80% do tempo descrito no pacote.
  2. Aqueça o azeite e refogue a cebola, o alho e o orégano em fogo baixo, até que fiquem bem macios e ligeiramente dourados.
  3. Corte os tomates frescos em quartos, no sentido do comprimento, e depois em pedaços de cerca de 2cm. Junte-os à cebola e mexa, cozinhando até que estejam bem moles, mas ainda sem virar purê.
  4. Junte o tomate em lata ao molho, com seus sucos, quebrando os tomates com uma colher de pau, e mexendo de vez em quando, e deixe em fogo baixo enquanto o rigatoni cozinha.
  5. Escorra a massa, passe-a sob água fria da torneira para parar o cozimento e coloque em uma travessa refratária.
  6. Nesse momento, você poderá ver uma camada de óleo na superfície do molho. Desligue o fogo, junte a canela, o açúcar e a salsinha e tempere a gosto. Cubra o rigatoni com o molho, misturando bem. Espalhe o queijo uniformemente por cima, deixe escorrer um fio de azeite e leve ao forno pré-aquecido a 200ºC por 15 minutos, até que o queijo esteja bem derretido. Sirva imediatamente com uma porção de queijo extra.

Felicidade é um prato de strogonoff!


Na época em que comia carne, há muitos anos atrás, meus dois pratos favoritos eram lasagne à bolonhesa e strogonoff de frango da minha mãe. Strogonoff, principalmente, a despeito do fato de ser um prato ligeiramente brega, era algo que eu reservava tempo e espaço no estômago para comer quantidades atrozes. Eu a-do-ra-va.

Imagine minha tristeza no dia em que me dei conta de que simplesmente não conseguia mais colocar um pedaço de frango na boca.

Nunca mais comi strogonoff desde então. Principalmente porque todas as versões vegetarianas que encontrava usavam proteína de soja texturizada (que detesto) ou eram mirabolantes misturebas de vegetais, incluindo milho (!!!), que me apeteciam muito pouco. Tentara uma vez com cogumelos secos chilenos, mas ao encontrar pequenas mariposas boiando na água dos cogumelos, desisti dos cogumelos e do strogonoff.

Então, folheando meu livro novo, eis que surge uma luz no fim do túnel: strogonoff vegetariano de cogumelos, usando shiitake, portobello e cogumelos de paris.

Não tive dúvidas: saí correndo ao mercado para comprar os cogumelos. Acabei não usando todas as espécies requeridas, pois daria uma quantidade abissal de strogonoff; troquei Xerez por Marsala, e fiz meu próprio sour cream, com um resto de creme de leite fresco que havia na geladeira. Claro, não me contive e acrescentei aos cogumelos um cubinho que eu congelara da água dos Porcini.

Ficou tão bom que comemos em dois uma porção para quatro.

STROGONOFF DE COGUMELOS
(Adaptado ligeiramente do livro Feast - Food that celebrates life)
Tempo de preparo: 30 minutos

Rendimento: 4 porções


Ingredientes:
  • 1 cebola
  • 1 dente de alho
  • 250g de cogumelos de paris
  • 150g de shiitake
  • 50g de manteiga sem sal
  • 1 colh. (chá) de sal
  • 2 colh. (sopa) de vinho Marsala
  • 1/2 colh. (sopa) de páprica picante
  • noz moscada ralada na hora (bastante, mas a gosto)
  • 250ml de creme azedo
  • 1 punhado de salsinha
Preparo:
  1. Pique as cebolas e o alho e refogue em um pouco de azeite, numa panela grande, em fogo baixo, até que fiquem bem macias, mas sem pegar cor.
  2. Retire os talos dos shiitake. Fatie os shiitake e os cogumelos de paris. Acrescente a manteiga à panela com as cebolas e deixe derreter. Junte os cogumelos, mexa bem, tampe, e deixe cozinhar por 15 minutos.
  3. Tire a tampa e junte o restante dos ingredientes, menos a salsinha. Mexa, deixe levantar fervura e desligue o fogo. Misture a salsinha picada e sirva com arroz branco.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Iêeeeei! Livro novo!

A despeito do fato de ela estar perdendo um pouco a noção das coisas, usando suco de limão em garrafinha e ganhando peso como um lutador de sumô, continuo gostando de Nigella. Seus programas de tv andam caindo numa breguice sem fim, e ela com certeza explora mais a imagem dos filhos do que deveria. Mas, ainda assim, suas receitas dão certo. Sempre. Já preparei pratos salgados seus muito mais saborosos do que outros de Jamie Oliver e afins, e suas panquecas já bateram as panquecas de um de meus livros favoritos, o Professional Baking, e são quase obrigatórias em minhas manhãs de domingo.

Por esse motivo mesmo ignorei completamente as críticas encontradas na Amazon, dizendo que ele continha poucas receitas 100% vegetarianas, e, tendo encontrado a versão inglesa do livro na Cultura (original, no sistema métrico), não resisti. Comprei o livro. Mesmo detestando a temporada de TV com mesmo nome, em que ela é aparentemente instruída pelo diretor a falar mais devagar e gesticular de forma pouco natural, como se para tentar ganhar o público americano (tanto que, vendo seu novo programa, Nigella Express, ainda sem data de estréia no Brasil, ela "volta ao normal", falando rápido e agindo mais naturalmente).

Tendo folheado o livro rapidamente, já encontrei muitos itens que me deixaram com vontade de correr para a cozinha. E tendo já preparado uma versão vegetariana de seu chilli e uma adaptação ligeira de seu quadruple chocolate cake, acredito que há muitas coisas boas por vir.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

PADARIA DE DOMINGO 6: Pão Cubano

O que torna esse pão cubano eu não sei, já que ele não tem nada de diferente da velha fórmula farinha, água, fermento, sal e açúcar. O que importa é que ouvi um "é um dos melhores que você já fez", e isso vindo do marido (pior crítico que eu) quer dizer muita coisa. De fato, não há nada nesse pão que eu não tenha gostado: a crosta é firme, fina e quebradiça, crocante sem ser dura como de pães italianos; o miolo é muito macio, denso e saboroso, sem gosto de fermento, perfeito para uma passadela de manteiga. Acredito que sua textura se deva à maior quantidade de água na massa, que fica ligeiramente pegajosa antes da primeira fermentação. É muito tentador sair acrescentando mais farinha ao processo, mas me contenho, lembrando que nem todos os pães são secos e lisos ao toque nessa etapa.

Este e um daqueles pães que me dão vontade de pegar com as duas mãos e separar suas metades com os polegares. Acho particularmente interessante o desenho da massa que estirou-se e rasgou-se ao crescer e endurecer no forno.

A receita é, como sempre, no Professional Baking, a não ser pelo fato de eu usar sempre fermento instantâneo ao invés do fresco (apenas por ter sempre dele em casa) e de andar usando açúcar demerara ao invés do comum. Não sei até que ponto isso afeta a textura do pão, mas lembro-me de já ter feito esse pão antes, e ele não tinha ficado tão saboroso. Será?

PÃO CUBANO
(Ligeiramente adaptado do livro Professional Baking)
Tempo de preparo: 2h30
Rendimento: 1 pão de 600g


Ingredientes:
  • 375g de farinha de trigo especial para pães
  • 235g de água morna
  • 5g de fermento ativo seco instantâneo
  • 15g de açúcar demerara orgânico
  • 7g de sal

Preparo:
  1. Misture todos os ingredientes em uma tigela até que se forme uma massa. Sove, tentando não acrescentar mais farinha ao processo, até que a massa fique lisa, mas ainda ligeiramente grudenta. Forme uma bola e deixe fermentando a 27ºC por 1 hora.
  2. Puxe as beiradas da massa para seu centro e afunde-a, para retirar-lhe todo o ar. Forme uma bola e deixe descansando na bancada por 5 minutos, para relaxar o glúten. Você verá que já nessa etapa a massa grudará menos.
  3. Achate a massa com as mãos, puxe as laterais para o centro e forme novamente uma bola lisa, sem fendas (para fazer isso, enrole-a com as duas mãos, como um brigadeiro gigante, numa superfície SEM farinha; é importante que a massa grude ligeiramente na bancada para que seja moldada corretamente).
  4. Coloque a massa moldada em uma assadeira polvilhada com farinha de milho. Deixe fermentar novamente, até que dobre de tamanho (cerca de 20-30 min.). Enquanto isso, pré-aqueça o forno a 200ºC.
  5. Pincele a massa com água e faça-lhe um corte em forma de cruz. Leve ao forno por cerca de 30 minutos, ou até que esteja bem dourado e que produza um som oco ao bater-lhe na parte de baixo com os nós dos dedos.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Nóis toma sol na laje: sorvete de ameixas e a fonte do mofo


Com um dia bonito de sol, sem perspectiva de chuva, tiramos o cãozinho e o levamos... para a laje. Não sei se é o vento, o sol, o fato de estar no alto; de qualquer forma, ele parece adorar a laje, e brinca mais ali do que quando o levamos ao parque. Muito prático, já que está a apenas um lance de escada de distância, e não temos de pegar carro de mãe emprestado nem pagar zona azul.

Foi numa dessas que descobrimos o motivo do mofo no nosso armário. Um furinho, coisa pequena, de nada... Só dá para passar um punho inteiro pelo buraco gigante na laje, que fica, por acaso, exatamente sobre a parede do meu quarto onde fica o armário embutido. É mole?

Corre para lá, corre para cá, o cão cansa, e, voltando para o apartamento, feliz e contente, desaba debaixo da mesa, seu lugar favorito para sonecas vespertinas. Enquanto ele dorme e Allex se deixa hipnotizar pelo video-game, resolvo fazer um sorvete de ameixas.

O pacotinho de ameixas da minha despensa era ainda da cesta de Natal de Allex, e eu nunca as teria comprado, pois vinham com caroço. Mas a madame-nada-de-desperdício resolveu descaroçá-las e colocá-las em uso, acreditando que seria uma tarefa fácil.

Para quê? Foi um verdadeiro "ameixacídio", uma carnificina escalafobética, e estou até agora com dorzinhas nas pontas dos dedos por causa de pedaços de ameixa que se enfiaram embaixo das unhas. Faça um favor a você mesmo: deixe o trabalho sujo para outra pessoa e compre ameixas sem caroço.

Havia duas receitas distintas para sorvete de ameixas, mas nenhuma era a que eu queria. Veja bem: no que se refere a sorvetes, nunca fui uma criança muito ortodoxa. Deixe morangos e chocolates para crianças menos aventureiras. Meus verdadeiros amores sempre foram sorvetes de gente grande: pistache, nozes, gianduia, ameixas, entre outros que normalmente fazem Allex torcer o nariz. A primeira receita, do Ultimate Frozen Desserts, usava a base de gelato italiano, com muitas gemas e pouco creme de leite. Mas só havia três ovos na minha geladeira, e eu os estava reservando para outra coisa. A segunda receita, do Perfect Scoop, e levava uma quantidade considerável de Armagnac e creme azedo, nenhum dos dois presentes na despensa. Mesmo porque eu não queria sorvete de ameixas com Armagnac; queria só sorvete de ameixas.

Decidi botar a cachola para funcionar e fazer uma mistureba muito bem feita das duas receitas, e a versão final ficou nem a cara de uma, nem a fuça de outra: acho que é filha do padeiro. Ficou, no entanto, inegavelmente sensacional, com um sabor muito mais rico e interessante do que eu esperava. E acredito que possa ser livremente adaptada para outras frutas secas melequentas, o que me faz olhar com outros olhos para aqueles cajus secos da despensa. Se você for fã de ameixas secas, esse é seu sorvete.

SORVETE DE AMEIXAS SECAS
Rendimento: 1 litro
Tempo de preparo: 30min. + 1 hora para esfriar


Ingredientes:
  • 200g de ameixas secas sem caroço
  • 1 xíc. de creme de leite fresco
  • 1 1/2 xíc. + 2 colh. (sopa) de leite integral
  • 1/2 xíc. de açúcar orgânico claro
  • 1/2 colh. (chá) de essência de baunilha
  • 1/2 colh. (chá) de rum escuro
  • 1/4 colh. (chá) de sal
Preparo:
  1. Coloque as ameixas, o açúcar, o leite e o creme de leite numa panela e leve ao fogo baixo, até que surjam pequenas bolhas nas laterais. Não deixe que ferva. Desligue o fogo, tampe e deixe descansar por 10 minutos.
  2. Bata o creme com o resto dos ingredientes num liqüidificador até misturar bem, mas deixe ainda alguns pedacinhos de ameixa. Leve à geladeira por 1 hora ou até que esteja bem frio. Coloque na sorveteira e prepare o sorvete segundo as instruções do fabricante.

Sweeny Todd e as tortas de carne com as quais nunca terei de me preocupar

Eu adoro o Tim Burton. Talvez seja meu passado pseudo-gótico que permanece mais enraizado do que eu gostaria de confessar. Adoro as histórias que ele escolhe filmar, adoro sua direção de arte, seu senso de humor bizarro, e seu talento para encontrar as pessoas perfeitas para seus papéis. Quando a parceria é com Johnny Depp, então, eu sou a primeira a comprar pipoca e esperar ansiosamente na fila do cinema. (Hmmm... pipoca...)

Ontem fui assistir ao filme Sweeny Todd. É claro. Não era tudo o que eu esperava, porque não é por ser fã que abdico de meu senso crítico. Mas adorei (como sempre) sua luz, sua cores (ou falta delas), a representação teatral, os ângulos de câmera, as roupas. Para um musical, as canções deixam a desejar. Já se foi o tempo de My Fair Lady. E Sasha Baron Cohen com certeza me impressionou mostrando que é mais do que um comediante sem um pingo de vergonha.

Agora, vocês me perguntam, por que demônios estou falando de cinema aqui?

Porque toda a história das "Meat Pies" me fez pensar... Acho que se existe uma vantagem em não consumir carne é que você nunca comerá uma torta de abobrinhas que tenha sido prévia e inadvertidamente um gato ou um ser humano. A não ser em outra vida. Mas se um ser humano renasceu como uma abobrinha, ele provavelmente fez por merecer ser comido de qualquer forma.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Delícia (queimada) de chocolate: Pierre Hermé 2x3 Ana Elisa




Meu lado masoquista estava dando pulinhos, pedindo para que eu desse mais uma chance ao livro amaldiçoado. A verdade é que continuo muito encasquetada, principalmente depois de ter nas mãos a versão original em francês e a traduzida para o português, uma ao lado da outra na livraria, e pude conferir todos os meus fracassos assim como Hermé as escreveu. O choque foi ver que o tal do Bolo Suzy não tem erros de tradução. É aquilo mesmo, com colher e tudo. A única diferença que havia em quase todas as receitas era no tipo de chocolate. Enquanto as brasileiras dizem "chocolate com tantos por cento de cacau ou meio amargo", as francesas especificam apenas a primeira opção. Sem substituições. O que para mim faz muito sentido, pois trocando um chocolate a 70% por um "tipo cobertura" da Nestlé, você está alterando a quantidade (e tipo) de gordura, quantidade de açúcar e quantidade de amido da receita, o que pode, dependendo da sensibilidade da mesma, provocar pequenas mas notáveis alterações no resultado.

De qualquer forma, continuo afirmando que não vou jogar o livro fora ainda. Se eu conseguir encontrar duas receitas "repetíveis", para mim está bom.

Apesar da estranheza que me causou o processo desta receita específica, resolvi levá-la a cabo, pois tinha um potinho de amêndoas moídas que logo sairia andando sozinho da geladeira. Eu nunca vi um bolo tão estranho. Bater gemas com açúcar. Ok. Derreter chocolate. Ok. Misturá-lo às gemas. Ok. Misturar a manteiga em temperatura ambiente às amêndoas e à farinha. O.. Hein? E quando virar uma massaroca com cara de marzipã, misturá-a ao reboco de chocolate e gemas (ficou mesmo parecendo reboco). Achei que a coisa toda viraria um tijolo, mas a manteiga acabou suavizando a mistura. Então, voltando à vida normal, bater claras em neve e misturá-las ao restante. Com cuidadinho.

Tudo para a forma milimetricamente untada e enfarinhada, e para o forno a exatos 200ºC. Vinte minutos?, pensei, lembrando do fiasco do bolo Suzy. O timer tilintou e lá fui eu com um palitinho. Porque dessa vez, pelo menos, Hermé avisa que o bolo tem que sair sequinho. Espeta. Ainda um tantinho úmido. Marquei mais cinco minutos. Incorri no erro fatal de ir responder a e-mail de cliente (ou você achava que eu passo o dia cozinhando? Fiz o bolo no meu horário de almoço, tá?!) , e, cinco minutos depois, o cheiro de queimado era inconfundível.

Desenformei a "delícia de chocolate", que mostrava para o mundo sua bunda tostada, e virei-o novamente na grade. Então eu vi. Vi aquele sorriso sarcástico para cima de mim, aquele bolo com cara de sapo rindo da minha cara. Ok, eu enlouqueci.

Deixei que esfriasse para experimentá-lo e... ok. Gostei. Deu certo. Não é demasiado rico para meu paladar, como fora o Suzy, mas suave, muito macio e úmido. Dá até para passar por cima do queimado e dizer que sim, deu certo. Sem adaptações. Eu faria de novo.

Mas antes... compraria uma tigela extra da batedeira. Afe, que dor no braço! Se você tem o livro e resolver fazer o bolo, faça um favor a você mesmo e compre uma tigela extra para sua batedeira. Ou escolha sabiamente suas batalhas. Bata as gemas e o açúcar na mão, e deixe as claras para a batedeira. Não o contrário, como eu fiz. Ê, antebraço fora de forma...

Eu só sei receber presentes quando eles vêm de longe...

Tenho de confessar uma coisa: eu não sei receber presente. Sempre gostei muito mais de dar presentes do que de receber, porque EU NÃO SEI RECEBER PRESENTES. Fico vermelha, sem graça, não sei se agradeço efusivamente ou se apenas um "obrigada" educado basta. E quanto maior a expectativa do presenteador, pior me sinto. Já houve terríveis mal-entendidos por causa disso, inclusive com meu marido, que já me deu presentes acreditando que eu pularia de alegria e, embora pulasse de alegria por dentro, teve de se contentr com minha cara desconfortavelmente constrangida. Não sei por que sou assim. Simplesmente sou. Não sei reagir, e por isso acabo ofendendo muita gente.

Por isso achei fantástico isso de receber presente pelo correio. É outra coisa poder abrir a caixa com calma, sem o presenteador em cima do seu pescoço aguardando ansiosamente. Porque mesmo eu avisando para os presenteadores que EU NÃO SEI RECEBER PRESENTES, ainda assim eu arrumo problemas quando não reajo do jeito que eles esperam.

Dessa forma, não. Eu relaxo, gosto do presente e posso pensar numa forma adequada de agradecer. Com calma.

Chegou hoje esse pacote de Recife, trazendo castanhas de caju, rosquinhas de bolo de rolo e rapadura. Quitutes enviados por Fernanda, que começou seu blog há pouco tempo. Se existe uma coisa de que estou gostando (sim, eu mesma, serzinho notoriamente anti-social) é essa interação com pessoas que, de outra forma, jamais teria a oportunidade de conhecer.

Obrigada, Fer! Adorei os quitutes e sua delicadeza!

A estréia da panela de barro não poderia ser mais simples: feijões

Dizer que a receita é de Jamie Oliver seria uma afronta a todos os cozinheiros do mundo que fazem feijão; principalmente os toscanos. Não há nada de novo na mistura de feijões, tomates, alho e ervas, principalmente quando você encontra a mesma receita em todos os seus livros.

No entanto, desde que comi meu primeiro prato de feijões na Toscana, é assim que os preparo sempre, e só cito J.O. para não ter de ouvir depois que peguei a receita de algum lugar e não dei crédito.

Deixei os feijões brancos de molho durante a noite e cozinhei-os na minha panela de barro, com três dentes gordos de alho com casca, um ramo de alecrim e um de tomilho colhidos da janela, um tomate cortado ao meio e algumas folhas de louro. Desliguei o fogo, retirei metade do líquido, amassei o tomate e o alho descascados e voltei-os à panela, retirando os galhos desfolhados das ervas. Temperei com sal, pimenta-do-reino, azeite extra-virgem e vinagre de champagne, acrescentando um punhado generoso de salsinha fresca picada.

Comi esses feijões no almoço, sobre duas grossas fatias de pão rústico integral grelhadas.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Aaaaah, polenta quentinha...

Não sou muito fã de polenta instantânea. Normalmente prefiro reclamar durante os 40 minutos que fico em frente à panela, mexendo a bendita da polenta de verdade, do que reclamar depois, com o gosto e a textura da polenta instantânea no meu prato. No entanto, quando a cunhada me deu um pacote da instantânea, quem sou eu para fazer desfeita?

A primeira coisa que notei foi o número de ingredientes da polenta: um. Pois é, 100% farinha di mais, dizia. Lembrei-me da Polentina e outras calamidades que já passaram por minhas mãos. Não gosto de Polentina porque ela já vem salgada, e acho o uso de sal em processos industriais sempre muito além do necessário, e acabo, após a refeição, bebendo água como se tivesse atravessado um deserto.

Ao contrário da Polentina, entretanto, essa polenta ficava pronta em menos de 2 minutos após ser acrescentada à água, um milagre conseguido por um processo misterioso de pré-cozimento, segundo a embalagem. No fim das contas, a danada ficou muito boa para uma polenta instantânea. Se conseguirem encontrá-la em algum empório por aqui, recomendo àqueles que têm medo da polenta tradicional: Molino di Ferro, chama-se.

Servi-a com lentilhas verdes cozidas com cebola, alho e ervas provençais, e temperadas com tomates, salsinha fresca e um vinaigrette de azeite, vinagre balsâmico e mostarda de Dijon.

Aliás, obrigada novamente à cunhada, que foi responsável, com seus presentes, por todas as nossas refeições desde sua chegada: tortellini di radicchio num dia, piadina com queijo e tomates no outro, polenta com lentilhas, sopa de cogumelos porcini, e spaghetti al pesto. Supermercado para quê?

Cozinhe isso também!

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