sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Terror de ontem, delícia de hoje

Coisas como gibis contribuíram para a formação de meu preconceito infantil contra legumes como o quiabo. Afinal, sempre que se coloca em uma história infantil algum alimento que a criança, dentro do contexto da trama, deva achar nojento, é sempre quiabo ou jiló. Por isso, detestava quiabo sem nunca tê-lo provado. E olha que eu era uma criança razoavelmente aventureira.

Demorei cerca de 23 anos para provar meu primeiro quiabo, e só porque minha mãe me garantiu que sua técnica o livrava da "baba". Bom, foi amor à primeira mordida, e me arrependi por ter demorado tanto tempo para me desfazer do preconceito.

Fiquei pensando o quanto o coitado do quiabo não sofre simplesmente pelo modo como é descrito. Se fosse dito que o legume tem o centro gelatinoso, isso seria mais ou menos repulsivo do que dizer que ele possui "baba"?

Acredito piamente no amadurecimento do paladar de um ser humano, e acho que isso está diretamente relacionado ao amadurecimento em geral de um indivíduo. Quando era pequena, coisas como espinafre e escarola faziam com que eu torcesse o nariz e cruzasse os braços à mesa, e ria quando meus pais diziam que começaria a gostar de coisas amargas quando ficasse adulta. De fato, as pessoas crescem e surgem um milhão de oportunidades de se experimentar novamente ou pela primeira vez algo que era um terror de infância, e, a não ser que haja algum episódio traumático relacionado, dificilmente obtém-se o mesmo veredito.

Sendo sincera, tenho uma cisma violenta com adultos que têm paladar de criança. Gente com mais de 20 anos na cara que se recusa a sair da tríade arroz, bife e batata-frita me dá verdadeiros calafrios, e normalmente não consigo conversar com uma pessoa que se recuse a experimentar qualquer coisa de nova. Parece-me falta de confiança no outro. Quando meus pais diziam "experimenta que é gostoso", eu confiava neles. Não prometia gostar da coisa, mas pelo menos tentaria, pois meus pais nunca mentiriam para mim ou tentariam me envenenar. Já ouvi calamidades na minha própria casa quando uma convidada fez cara de nojo para um pão recheado com molho pesto, simplesmente pelo recheio ser verde. Pode uma pessoa destas? Deveria ou não ter abandonado o bom senso e chutado a mulher para fora do prédio??

De qualquer forma, não preciso dizer para ninguém que hoje espinafre e escarola estão entre minhas verduras favoritas.

Quando recebi o quiabo na cesta orgânica, fiquei feliz, pois, apesar de gostar dele, acho que o marido jogaria uma tigela na minha cabeça se eu saísse especificamente para comprar algo que ele (de novo, ai, ai) não gosta. Usei como base algumas receitas árabes (o pessoal naquela parte do mundo sabe o que é bom e come muito quiabo) e as dicas maternas (o vinagre é a peça-chave), e o resultado não decepcionou. Allex nem provou ainda, mas acho que, desta vez e apenas desta vez, vou poupá-lo. Desde que o conheci até que ele tem sido muito colaborador, e tem experimentado de tudo, mesmo quando me garante de pé junto que não consegue nem ficar na mesma sala que a comida em questão.

Sem problemas. Fica tudo para mim, acompanhado de uma salada de alface e lentilhas verdes ao curry.

Quanto ao jiló, ainda não tive chances de experimentar. Quem sabe ele não vem um dia na cesta?

QUIABO (sem baba) DO MEU JEITO
Tempo de preparo: 30 minutos
Rendimento: 3-4 porções como acompanhamento


Ingredientes:
  • 400g de quiabo
  • 1/2 cebola fatiada fino
  • 1 dente de alho fatiado fino
  • 1 colh. (sopa) de azeite
  • 1/2 colh. (sopa) de vinagre branco suave (de Champagne)
  • 1 pitada de açúcar
  • sal e pimenta-do-reino
  • 1 punhado de salsinha picada

Preparo:
  1. Corte fora as duas extremidades dos quiabos. Corte-os em pedaços de 2-3cm e os coloque em uma tigela. Lave em umas 3 trocas de água e escorra.
  2. Em uma panela ou frigideira funda, aqueça o azeite e doure a cebola e o alho em fogo baixo, até que fiquem macios e ligeiramente dourados. Junte o quiabo, mexendo bem, por cerca de 5 minutos.
  3. Coloque água suficiente para quase cobri-los, salgue bem, tempere com pimenta e junte o açúcar e o vinagre. Mexa e deixe ferver em fogo baixo até que os quiabos estejam cozidos. Junte mais água se necessário.
  4. Escorra, acerte o tempero, polvilhe com a salsinha picada e sirva quente ou frio.

10 comentários:

Rogério disse...

Ana, eu simplesmente amo quiabo. Com baba ou sem...:)) E tem outra coisa que eu adoro, que é jiló. Jiló com angú é ótimo. Este prato é um dos grandes representantes da verdadeira culinária do Brasil.
Bom apetite!
Beijos
Rogério

Vitor Hugo disse...

Quiabo... refogado, com frango! =D Eu gosto tanto, e a baba dá um toque diferente, não sei. Mas gosto.

Jiló, pude experimentar ano passado e... gostei. Lembra berinjela/beringela, também puderá são "brimos", só que mais amargo.

Dani disse...

Oi, Ana!

Bom, também acredito que nosso paladar vai mudando com o passar do tempo (não suportava queijo quando criança e hoje não vivo sem), apesar de ter comigo uma coisinha de que nunca gostei e acho que nunca vou gostar, endívia...

P.s.: Aqui no RS não se encontra quiabo nos supermercados muito fácil, não...

yaralucas disse...

Ai que delícia, quiabo!!! Aqui em casa ele é feito refogado, com pedacinhos de tomate pra comer com arroz branquinho. Nossa, coitado do teclado, quase morreu afogado agora :o)

Jiló é muito bom também, é diferente do quiabo, é bem amargo, porém tão gostoso! Fica bom refogadinho também, ou frito em rodelas, mas a melhor forma é cortá-lo em quatro e cozinhar sobre o arroz. Hummm, delicioso! Pena que amado Dedé também não gosta de coisas "verdinhas". Já consegui fazê-lo gostar de vagem e abobrinha, mas o jiló tá difícil :o)

Yara - www.uiaqui.blogger.com.br

Anônimo disse...

Ana
impressionante: até quiabo (um verdinho pelo qual eu não nutro grandes paixões, apesar de adorar vegetais...) vc conseguiu transformar em um prato apetitoso.
Vi a foto e pensei: "puxa, apesar de ser quiabo, isso parece bom!"

Eu já provei quiabo algumas vezes, mas vivo sem ele tranquilamente, não adoro não...jiló eu ainda nunca experimentei.

Bom, obrigada pelas dicas dos chocolates. Vou atrás desses que vc sugeriu!
Bjos
Lu

carladuc disse...

Eu também acredito completamente na evolução do paladar. Eu passei a comer muitas coisas que não comia quando criança. Quiabo, jiló e rúcula, são apenas três exemplos e eu fui uma criança que comia verduras e legumes sem problemas.

Também fico indignada com pessoas que se recusam a experimentar coisas novas e a "re-experimentar" as coisas, porque as vezes não gostamos num determinado momento, mas em outros ou preparado de outra maneira, podemos gostar. Porque perder a chance de talvez enriquecer a sua alimentação?

Flávia J. F. Solís disse...

Eu adoro quiabo, cortado pequenininho (menor que o seu), refogado com milho verde! Prefiro que não cozinhe demais. Minha mãe costumava fazer tambêm o jiló cortado em 4 cozido em cima do arroz. Já comi um jiló num curry verde que ficou muito bom. :)

Ana Elisa disse...

Nossa, pessoas, fiquei impressionada com a aceitação do quiabo! Achei que a galera fosse cair matando por ir de cookies de chocolate a esse terror de infância, mas todo mundo se mostrou de paladar bastante amadurecido!! Que beleza!

Beijos!

Luciana disse...

Nossa amiga,é verdade, só aprendi comer essas coisas depois de adulta,antes recusava,e não foi falta da mãe fazer e insistir.
beijocas

Tatoo disse...

Eu amo quiabo. Sempre gostei. Frango com quiabo é tudo de bom. O último que provei foi em viagem a trabalho no exterior (cozinha do sul dos EUA) foi muito maneiro saber que os nossos africanos forçadamente importados eram os mesmo dos deles e por isso tem um base de cozinha que é igual.

bjos,

Rodrigo

Cozinhe isso também!

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