quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Mais uma de espinafre, porque é o que tem na geladeira...

Hoje posso dizer que terminei de fato minhas tarefas. Um por um, os post-its coloridos foram arrancados da parede atrás de meu computador, e consegui enfim respirar fundo e... morrer de sono. Sim, são oito horas da noite, eu já jantei e estou me segurando firme para não deitar e dormir. Fico contente de pensar, pelo menos, que os maiores pepinos que eu tinha já foram resolvidos (enfim!), e que semana que vem será uma semana mais normal, só corrida, trabalho e cachorro, sem nenhum compromisso ou pepino pessoal inesperado.

Por estar cansada e com fome, não quis inventar tanta moda quanto ontem à noite, quando resolvi usar da matemática culinária em cima das regras coladas à geladeira e preparei beringelas ao forno com muita (e permitida) mozzarella de búfala e um nadinha de molho de tomate.


Decidi, portanto, que o jantar seria uma salada e pronto. Muito, muito espinafre cru, coberto de 3 cogumelos portobello fatiados fino e ligeiramente refogados em 1/2 colh. (chá) de azeite (olha que menina comportada!), 1 ovo cozido fatiado, 2 colh. (sopa) de grão-de-bico cozido e 1 fatia fininha de queijo feta esmigalhado. Para temperar, 1 colh. (sopa) de azeite, 1 colh. (chá) de vinagre de vinho branco, 1 dente de alho pequenininho cru picado muito, muito fininho, e sal e pimenta-do-reino moída na hora. Muito gostoso, e vale vários repetecos ao longo das próximas semanas...

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Ô, dificuldade prá fazer um couscous...!


Onze e meia da manhã. Fui desligando devagar a cabeça do trabalho e dos inúmeros post-its colados na tela de meu computador, lembrando-me do que estou esquecendo de fazer. Apanhei o livro italiano de cozinha vegetariana que ganhara de presente e comecei a procurar o que fazer para o almoço. Couscous marroquino com ovos e pimentões parecia uma ótima idéia. Um tanto de carboidrato permitido, legumes cozidos e uma fritatta simples. Tudo dentro da lei.

Separei todos os ingredientes no balcão e, quando estava já prestes a medir 400g de couscous, lembrei: peraê, tem outra medida. Volto-me à geladeira, espiando as notas presas à porta. Cinco colheres de sopa de carboidrato. Oooook... Uma, duas, três... Mas... Peraê. Cozido ou cru??? Porque couscous marroquino infla. Deve ser cozido. Volta uma colher.

Próximo item: 4 colheres de sopa de legumes cozidos. Olho inconformada para meus pimentões e minha lata de tomates pelados. What the f*ck...! Como diabos eu vou medir isso? Corto metade da quantidade que pretendia, separo apenas um tomate da lata e prossigo.

Ok, hora da fritatta. Espio a cola. Posso comer uma omelete de 4 claras.

Aaeaeaeaeaeaaaaaaargh...

Perdoe-me, nutri, mas há coisas que eu faço e coisas que não faço. E omelete de claras eu não faço. Vai uma fritatta de dois ovos então.

No fim das contas, um almoço incrivelmente simples, que normalmente não me tomaria mais de 10 minutos, demorou mais de 30 para sair. Ficou bom? Ah, sim, ficou sensacional, e eu nunca diria que aquilo estava em conformidade com uma dieta. Deu trabalho? Para mim sim, que tive de ficar calculando quantidades. Para você, ah, para você vem de mão beijada. O bizarro foi apanhar minha tigela e ir colocando 5 colheres de couscous, 4 colheres do molho, meia fritatta.

E a preguiça de pensar no jantar?

COUSCOUS MARROQUINO COM PIMENTÕES E FRITATTA
(Adaptado do livro Piatti Unici do Verdure)
Tempo de preparo: 20 minutos Rendimento: 2 porções


Ingredientes:
  • 1/3 xíc. de couscous marroquino
  • 1/2 pimentão amarelo pequeno, sem sementes
  • 1/2 pimentão verde pequeno, sem sementes
  • 1 tomate sem pele
  • 4 ovos
  • 1/2 colh. (chá) de páprica picante
  • 2 dentes de alho picados fino
  • 1/2 colh. (sopa) de azeite de oliva
  • sal e pimenta-do-reino moída na hora
  • 1/2 colh. (chá) de canela para polvilhar
Preparo:
  1. Bata os ovos com 1 colh. (sopa) de água em uma tigela e tempere com sal e pimenta. Aqueça o azeite em uma frigideira grande e despeje os ovos, cozinhando-os em fogo baixo. Quando a parte de baixo tiver coagulado, leve a frigideira ao forno e finalize a fritatta sob o grill ligado. Mantenha-a aquecida.
  2. Corte os pimentões em pedaços de cerca de 1,5cm. Coloque-os em uma panela pequena com o tomate e o alho picado e mexa, cozinhando em fogo baixo. Junte a páprica e salgue. Apenas cubra com água, aumente o fogo e deixe que o molho engrosse, mexendo de vez em quando.
  3. Enquanto isso, coloque 1/3 de xíc. de água em outra panela, para ferver. Quando entrar em ebulição, salgue e junte o couscous, mexendo com um garfo. Desligue o fogo e tampe a panela, deixando que descanse por 5 minutos.
  4. Destampe o couscous. Afofe-o com um garfo. Despeje-o no prato de servir. Corte a frittata em quadrados do tamanho dos pedaços de pimentão e misture-os ao couscous. Derrame o molho de tomate e pimentões por cima. Polvilhe a canela e sirva.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Light uma ova: fui na nutri, tô de dieta...


Sempre fui muito avessa a nutricionistas. Nada contra a profissão, mas eles nunca me pareceram... bem... pessoas que gostam de comer. A impressão que tenho assistindo a determinados programas de TV (em especial aquele BemStar, do GNT, que me dá arrepios às vezes) é que eles ODEIAM comer e só o fazem porque ainda não aprenderam a viver de luz.

A verdade é que estou há tantos anos com meu peso no vai e volta, que perdi completamente a noção do meu tamanho. A roupa cabe, você tá bonita. Então tá bom. Mas na balança você não pesa a mesma coisa de quando tinha 19 anos. Então não tá bom. Nada bom.

Caramba. Para quem vê o blog e não me conhece, devo parecer uma maluca devoradora de doces. Mas a verdade é que sou uma chata que se alimenta bem. Não como porcarias, não como quase nada que seja industrializado ou processado, não fico beliscando salgadinhos, chocolates, bolachas, nuggets e afins. Eu corro. Ok, eu falto. Mas eu faço exercícios. Em algum lugar eu estava errando a matemática da coisa, e era justamente por querer saber onde que resolvi ir a uma nutricionista.

Não demorou muito para que descobrisse meus escorregões. Pequenas mas significativas coisas. Para quem não come carne é muito fácil errar a mão nos carboidratos. Afinal, eles são a base reconfortante para seus magníficos legumes. E aqui vem a desculpa esfarrapada: meus pratos são fora de padrão; eles são maiores do que pratos convencionais. Isso faz com que uma porção normal de comida pareça pequenininha no prato. Você acha que é pouco e preenche um pouquinho mais o vazio. Bem, eu sofro desse mal: apesar de tudo o que falo para os outros sobre tamanho de porção, eu erro na minha. Por isso achei logo de cara muito bom observar a quantidade de ervilhas que eu de fato deveria estar colocando na minha salada, em oposição ao que eu costumava colocar. A-há!

No fim das contas, a nutri foi bastante compreensiva com todas as minhas chatices e minha "rotulofobia" (meu "medo de rótulos", hehehe...), montando um cardápio bastante coerente em relação a meu estilo de vida. Agora essa é a parte interessante (e é aqui que quero que meus colegas de corrida e de dieta caiam sentados morrendo de raiva de mim): o bom de não comer carne é que minha dieta mega-restritiva está cheia de ovos e queijos! Tudo bem, nada de doces por um mês, a não ser uma mísera barrinha de chocolate a 70% de cacau. Mas, por duro que seja, mais duro seria ficar sem queijo.

Voltei da consulta e fui imediatamente ao supermercado rechear minha geladeira de espinafres, acelgas, cogumelos, beringelas, abobrinhas, vagens, maçãs, figos, morangos, bananas, mozzarella de búfala, queijo feta, cottage (que eu adoro), grão-de-bico, milho, cevadinha, trigo em grãos e soba de trigo sarraceno.

E é claro que a nutri tem o endereço do blog. Como não? Veja só que belo modo de vigiar sua paciente...

Não prometo que todos os posts tenham histórias interessantes atreladas às receitas. O desafio será cozinhar comida, essa sim interessante, dentro das linhas-guia coladas na porta de minha geladeira.

Será esse o fim do excesso de Ana Elisa?

SALADA DE ESPINAFRE, ERVILHAS E QUEIJO FETA, OU MINHA SALADA FAVORITA
(Do livro The Naked Chef, de Jamie Oliver)
Tempo de preparo: 5 minutos
Rendimento: 1 porção


Igredientes:
  • 1 tigela de folhas de espinafre orgânico fresco
  • 2 colh. (sopa) de ervilhas congeladas
  • 1 fatia bem fina de queijo tipo Feta
  • 1 colh. (sopa) de azeite de oliva extra-virgem
  • 1/3 colh. (sopa) de suco de limão, ou a gosto
  • sal e pimenta-do-reino moídos na hora
Preparo: Cozinhe as ervilhas congeladas por 1 ou 2 minutos em água fervente e escorra. Misture em uma tigela com o espinafre e o feta esmigalhado. Tempere e mande bala!

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Huevos rancheros, ou gororoba de café que virou jantar

Quando estive na Califórnia, minha parte preferida do dia era o café-da-manhã, como sempre é quando estou viajando, não importa onde. A oportunidade de mergulhar em hábitos que não são os meus e experimentar novas guloseimas matutinas sempre me empolga. No entanto, é preciso impor um limite em algum ponto. E, quando minha tia propôs que eu experimentasse huevos rancheros, encontrei o meu limite: feijão no café-da-manhã não rola.

A verdade é que quando já era tarde demais, com meus pezinhos de volta ao Brasil, arrependi-me de não tê-los provado. A perspectiva de ovos fritos sobre tortillas quentes e quebradiças, acompanhados de feijões, salsa de tomate e sour cream logo tornou-se uma das minhas inúmeras, pequenas e irritantes obcessões.

A idéia insistente então terminou de eclodir em meu cérebro e dominar meus pensamentos quando vi os huevos de Deb. Era o empurrãozinho de que eu precisava para apanhar os ingredientes na geladeira e colocar as mãos na massa. Metida como sou, no entanto, resolvi que, ainda que minha salsa não fosse autêntica, meus feijões não fossem refritos e eu estivesse sem queijo Cheddar ou sour cream, ao menos as tortillas de milho eu faria do zero.

As tortillas são tão fáceis que podem acabar virando a desculpa de que eu precisava para nunca mais gastar dinheiro em restaurantes mexicanos. A única diferença desta salsa para a que costumo fazer foi o fato de ter colocado meio pimentão verde picado no meio dela. Para os huevos rancheros, basta fritar os ovos em pouco azeite, temperá-los, cobri-los com um pouquinho de queijo, colocá-los sobre as tortillas quentes e servi-los com os feijões e a salsa de tomate.

TORTILLAS DE MILHO
(Adaptado do livro O Livro Essencial da Cozinha Vegetariana)
Tempo de preparo: 20 minutos

Rendimento: 4 tortillas grandes (20cm)


Ingredientes:
  • 45g de farinha de milho fina
  • 85g de farinha de trigo
  • 1/3 xíc. de água
  • 1 pitada de sal
Preparo:
  1. Misture as duas farinhas em uma tigela. Faça um buraco no meio e despeje a água devagar, mexendo com um garfo, trazendo mais farinha para dentro da água. Forme uma massa e sove por alguns minutos.
  2. Divida em quatro pedaços, forme bolas, achate-as e abra com o rolo de massa cada uma delas até que formem discos finos, de 20cm de diâmetro. Vá empilhando os discos, separando-os com filme plástico.
  3. Aqueça uma frigideira grande de fundo grosso. Quando estiver bem quente, abaixe o fogo para médio e coloque a primeira tortilla. Quando ela tiver muitas bolhas de um lado, vire-a e cozinhe-a do outro lado. Deixe-a num prato e prossiga com as outras.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

E ela desapareceu em meio a uma cortina de pó... *puft!*

Temos piso novamente.

Como posso explicar resumidamente minha semana? Hmmm...

Comecemos pelo atraso do pedreiro, que marcara comigo às 10h da manhã, chegando de fato às 13h, largando suas tranqueiras e saindo para o almoço, para começar a trabalhar apenas às 15h30...

Passemos pela encantadora constatação de que apenas as lajotas que eu já arrancara estavam soltas, e o restante teve de ser arrebentado com marreta, fazendo surgir uma inesperada névoa de sujeira por toda a casa. Detalhe: para melhorar a circulação, minha cozinha não tem porta.
No primeiro dia foi tranqüilo manter o cão longe da cozinha, apenas bloqueando sua passagem com alguns banquinhos. Ele continuou passeando pela sala e eu pude trabalhar "tranqüilamente", sempre de olho no pedreiro, a despeito das marretadas que pareciam ser aplicadas diretamente em minhas têmporas.

Concentrada no que fazia, não notei o pó chegando até ser tarde demais. Quando o pedreiro foi embora às 18h em ponto, apanhei aspirador de pó, pano e rodo e saí limpando por aí. "Amanhã é só assentar o piso", disse ele. Ótimo, pensei, vou limpar tudo hoje e amanhã vai ser sossegado.

Naquela segunda-feira de geladeira na sala e fogão no banheiro, dei sorte de receber um convite para jantar de meu pai.

No dia seguinte, surge o primeiro desespero da vida sem fogão: eram 6 horas da manhã, eu estava a caminho da corrida, e eu precisava — PRECISAVA — de café. Meti a roupa de ginastica o mais rápido que pude, aprontei minha mochila apressadamente, tudo para ter tempo suficiente para caçar na gaveta o fogareirozinho de acampamento, montar no micro-butijãozinho de gás e [*suspiro*] fazer meu café.

Corre, corre, corre, pega o cachorro, passeia, passeia, passeia, volta prá casa, espera o pedreiro e tudo começa de novo com o homem atrás de uma tomada 220v para ligar a serra circular que ele usaria para cortar o porcelanato.

"Vai fazer sujeira?", perguntei, sabendo já a resposta.
"Vixe, mais do que ontem!", respondeu.
"Então peraí, que eu vou pegar o que ficou na cozinha."

Logo percebi que fora uma péssima idéia não retirar a comida e as frigideiras no dia anterior, ao sentir pó sobre minhas cebolas e meus potes de farinha. Pobre de mim, só pensara em tirar o que ficava de fato SOBRE o chão.

Suspirei, apanhei uns lençóis velhos e cobri o que seria mais difícil de limpar (televisão, sofá, etc), e usei o último para, munida de muita fita crepe, aprisionar o pedreiro e sua sujeirada em minha cozinha sem porta.

Quando ele ligou a serra apoiada em meu balde (que ele eventualmente serraria ao meio sem querer), achei que havia sido transportada para uma consulta com o dentista dos infernos. A serra zuniu agudo, o cão começou a latir, e eu comecei a duvidar que conseguisse manter um pensamento não-suicida na cabeça e de fato terminar meu trabalho.

E o pó começou a surgir, atravessando sorrateiro as fendas entre os batentes e o lençol, grudando em meus braços, minha roupa, meu cabelo, e, para meu desespero, meu computador, que não podia cobrir porque, bem, eu tinha um prazo.

Mandei o pedreiro almoçar, passeei o cão novamente, e almocei o último pedaço de pizza gelada e dura que restara na geladeira, com muita preguiça para sequer requentar o desgraçado.

Ao fim do dia, eu desistira de trabalhar e passara a última hora olhando para a serra e contando mentalmente quantas peças de porcelanato faltavam ser assentadas. O cão, atrás de mim, fora impedido de sair do quarto por uma barricada de cadeiras, para que não resolvesse enfiar patas e focinho no cimento ou (pior) na serra. E agora ele latia e grunhia, inconformado com sua prisão temporária. Eu respirava devagar, tentando acalmar meus nervos, que queriam me convencer a pegar aquela maldita serra e enfiá-la na cabeça do pedreiro, definitivamente. Assim eu teria silêncio e paz de espírito, mas provavelmente não teria o piso da minha cozinha.

Paciência. Mantenha o pedreiro vivo. Por enquanto.

"Pronto", disse ele, "amanhã é só rejuntar."
"Não vai ter mais poeira?"
"Não, acabou. Pode limpar tudo hoje. Só não pode pisar na cozinha, senão entorta tudo."
"Ok, sem problemas!"

Assim que ele recolheu suas coisas e foi embora, comecei a juntar novamente panos mil, rodo e vassouras para começar a faxina novamente. Então me dei conta de que esquecera o item mais urgente na área de serviço, além da cozinha intransponível: o aspirador de pó.

Depois de passar panos úmidos pela terceira vez em toda a casa e em todos os cacarecos visíveis, queria sentar e chorar, achando que minha casa fora para sempre engolida por uma camada indelével de pó branco, fino e pegajoso. Continuei limpando, tentando não deixar que aquilo arrebentasse de vez meu espírito, e decidi que, apenas para fingir a mim mesma que as coisas não eram tão ruins, eu faria o jantar. Mas não sem passar no mercado antes e apanhar uma merecida garrafa de vinho. Para os nervos.

Voltei para casa, coloquei a garrafa de Chardonnay argentino na geladeira e coloquei a panelinha cheia de água sobre o fogareiro. Tomei um loooooooooongo banho, tentando esfregar fora aquela camada de sujeira que se fixara em minha pele. Relaxada, de pijamas, liguei a tv, apanhei tomates cereja vermelhos e amarelos, azeitonas kalamata e alcaparras e misturei numa tigela, com azeite, pimenta-do-reino e orégano, e deixei aquele molho improvisado ali, aguardando pela massa pelando. Resolvi que abriria o vinho enquanto esperava a água ferver. Estava sozinha àquela noite. Allex trabalharia até tarde.

Coloquei a garrafa sobre a mesa e fui pegar o saca-rolhas... Vi-me inerte, paralizada, etupidificada à porta da cozinha, com um olhar fixo e imbecil para a gaveta fechada onde estava meu saca-rolhas: a um metro e meio de distância e completamente inalcançável.

Sentar e chorar?

Voltei à sala, arranquei o lacre da garrafa e olhei para a rolha. Pensei em cortá-la em mil pedacinhos e coar o vinho; pensei em afundar a rolha na garrafa. Muitas idéias cretinas e perigosas passaram por minha mente enevoada pela exaustão até que decidisse pedir um saca-rolhas emprestado ao vizinho... que não estava em casa.

Andei de um lado para o outro, inquieta, sem saber o que fazer. Se meu amigo já tivesse se mudado para a casa nova, ele seria a solução mais viável, a um quarteirão de distância. Não conhecia nem simpatizava suficientemente com ninguém mais do prédio para pedir um favor. "Oi, eu não sei seu nome nem nunca perguntei. Você não me dá bom dia nem gosta do meu cachorro. Poderia me emprestar um saca-rolhas para que eu beba meu vinho sem te convidar? Obrigada."

Respirei fundo e violei o manual das pessoas que já saíram da casa dos pais há 3 anos: liguei para minha mãe. Que, ufa!, me emprestou o saca-rolhas.

Tenho plena consciência de quão alcoólatra todo esse episódio parece, mas dada a situação, me vejo no completo direito de PRECISAR DESESPERADAMENTE de uma taça de vinho. Isso só me ensina a, da próxima vez, comprar cerveja. O abridor de garrafas, afinal, estava ali, em cima da mesa.

No dia seguinte, mesma correria. Despedi-me rapidamente do marido que viajaria a trabalho aquele dia, saí para meu treino, passei o cão e esperei pelo pedreiro. Ao meio dia, estava tudo pronto. Sem mais sujeira, como prometido. No fim do dia poderia passar um pano seco na cozinha e, no dia seguinte, lavá-la.

Passei o resto da tarde trabalhando e, assim que vi que o rejunte secara, limpando a cozinha. Terminei uma primeira faxina sem água às nove da noite, quando o acesso de tosse por conta da poeira realmente se intensificou. Sentia-me absolutamente exaurida, razão pela qual, sem dinheiro na carteira e sem uma folha de cheque para uma pizza, resolvi jantar um dos miojos do marido. Fazer o quê? O acesso de tosse foi tão violento até o fim da noite (devo ter inalado muita poeira, ao contrário do pedreiro, que usava máscara), que acabei passando muito mal, e, digamos, foi como se eu nunca tivesse comido miojo àquela noite.

Fui dormir me sentindo um caco, e acordei me sentindo ainda pior. Mas, boa menina, fui correr mesmo assim, lembrando do que meu treinador me dissera uma vez: "Tá doente? Corre que passa!"

Onze horas da manhã, roupa de ginástica suada, esfregando chão, telefona um cliente querendo confirmar uma reunião ao meio-dia. Culpa de um e-mail que eu nunca recebera. Milagrosamente, consegui largar tudo, tomar banho, passar no banco para tirar dinheiro, pegar o metrô até o cliente e chegar razoavelmente apresentável e em ponto na reunião.

Quando voltei para casa, decidi que não agüentava mais. Dissera que esperaria o marido voltar na sexta para ele me ajudasse a voltar tudo para o lugar, mas nunca fui mulher de depender de homem. Ok, o móvel e a geladeira são pesados demais para uma pessoa só. Mas botei meu fogão no lugar e viva! guardei o fogareiro.

Agora, pela primeira vez de fato na semana, tenho cinco minutos para escrever esse texto. Apenas porque a cozinha está limpa, comida e temperos nas prateleiras, fogão funcionando, o cão está dormindo, a última reunião da semana acabou há 2 horas atrás e estou aguardando o parecer dos clientes a respeito de trabalho entregue.

Neste fim de semana quero dormir.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Sorvete de morango e a decrescente fé em fornecedores e fabricantes de qualquer coisa

(Já nem me lembro se a placa é do café chique ou do meleta.)


Noutro dia precisei da ajuda de um fornecedor meu. Coisa simples. Fazia parte do escopo do trabalho dele, não ia tomar nada de seu tempo e só manteria seu cliente (eu) feliz. Ao invés de simplesmente realizar a tarefa, ele enrolou, desconversou, engambelou e, quando finalmente deu o braço a torcer, ainda me enviou um e-mail recheado do mais puro sarcasmo.

Se eu tratasse meus clientes assim, estaria morrendo de fome.

Estou trocando de fornecedor.

Noutro dia ainda, fui ao banco tentar trocar minha cesta de serviços por uma mais barata, depois de aumento abusivo (e autorizado pelo gorverno) efetuado nos últimos meses. Sem problemas, uma vez que não uso quase nada daquilo que eles me oferecem. Sou cliente do mesmo banco há dez anos, e eles também têm a conta da minha empresa. Depois de cerca de 45 minutos de engambelação, não consegui mudar minha cesta, porque o gerente disse que eu deixaria de ter o benefício X. Dias depois, olhando a tabela de serviços na internet, descubro que o gerente mentira.

Estou trocando de banco.

Desde o começo do ano, já tive tantos problemas com meu provedor de banda larga, que acho que conheço nome e sobrenome de todo funcionário de atendimento ao consumidor da empresa. Vou trocar de provedor? Não, porque a alternativa é ainda pior.

Notamos também, aqui em casa, uma diminuição vertiginosa e contínua da qualidade da imagem da TV a cabo, e concluímos que, nessa onda de HDTV, a empresa só pode estar fazendo de propósito para incentivar a compra do pacote "digital", com imagem melhor. Sem nem entrar no mérito da cobrança por ponto extra (agora ilegal) que as empresas conseguiram distorcer, codificando o sinal e cobrando pelo "aluguel" de um aparelho extra, quando antes o cabo podia ser ligado diretamente na tv.

Houve um mês, neste ano, em que passei todos os dias ao telefone reclamando cada dia com um pobre coitado diferente, que só sabe ler apostilas e não daria uma informação de fato relevante se sua vida dependesse disso. Eita mês lascado.

E me pergunto: sou apenas eu que me sinto constantemente passada para trás?

Sinto às vezes que não há uma única empresa nesse país (ou no mundo) que tenha como missão REAL atender seu consumidor ou usuário da melhor forma possível, já que, afinal, ele está pagando por isso. Não parece justo que você receba por aquilo que pagou? Levante a mão quem puder citar uma empresa pela qual você nunca tenha sido ludibriado. Eu não consigo. Em um momento ou outro, todas me decepcionaram.

Eu pago por serviços e sou tratada pelas empresas como se elas estivessem me fazendo um favor, e não o contrário.

Compro produtos, e descubro que eles não têm a qualidade prometida por sua propaganda, por seu preço, ou mesmo pela brochura que acompanha o produto.

Pago caro em restaurantes por pratos requentados e ingredientes de terceira.

Compro bandejas de frutas na feira para descobrir que as frutas de baixo estão podres.

Minha fé na humanidade está por um fio. Queria uma vez na vida sentar numa mesa com os amigos e, ao invés de reclamar do golpe da empresa X, poder contar a respeito do brinde inesperado que a empresa Y me enviou, simplesmente por eu ser uma cliente antiga. Ah, e eles também vão me dar desconto, e eu nem pedi! Não é ótimo?

Por essa falta de fé em empresas de qualquer tamanho é que me pego tão surpresa quando descubro que o produto ou o serviço não é apenas tão bom quanto o que estou pagando, mas melhor. Se existe um tipo de situação em que qualquer um se sente enganado e muita gente já sabe evitar, são as armadilhas pega-turista. Em especial restaurantes e similares.

Sutter Creek é uma cidadezinha histórica da época da corrida do ouro na Califórnia. Ela é recheada de lojinhas de antigüidades; metade delas, interessante, a outra metade, pega-turista. Numa tarde agradável, depois de um longo passeio à pé pelas ruas laterais, observando os jardins floridos e incrivelmente bem cuidados das casas da cidade, resolvemos, minha tia e eu, tomar um sorvete. Nossa primeira opção, um pequeno e charmoso café espremido entre um restaurante e uma loja, estava fechado.

Acabamos entrando então em um outro café com cara de boteco velho, parte loja de souvenirs, parte sorveteria, parte lanchonete, mal iluminado mesmo às cinco da tarde num fim de primavera. Fomos atendidas por um casal de adolescentes franzinos e desinteressados, que prosseguiam rindo de piadas internas e olhando de soslaio para seus amigos do outro lado da loja. Não me lembro quanto foi o sorvete, mas me lembro que foi muito barato. Desestimulada pela cor verde-incandescente do sorvete de pistache, acabei pedindo o de morangos, rosa pálido e simples.

Frustrei-me novamente ao ver o moleque empilhando uma bola de sorvete do tamanho de minha cabeça em uma casquinha fina e quebradiça, e pensei: "pronto, esse sorvete deve ser uma m*rda. Nada tão grande e tão barato pode ser remotamente bom."

No entanto, após a primeira mordida, decidi que aquele sorvete gigantesco precisava ser fotografado e mencionado no blog. O melhor sorvete de morango do mundo. Talvez fosse o fato de os morangos estarem na estação e serem tão doces. Aquele sorvete tinha gosto de morangos com chantilly, e não duvidei que fossem apenas esses seus ingredientes: fruta, creme de leite e açúcar. Ele se tornou meu ideal no quesito sorvetes de morango, e mesmo o que produzi essa semana, de David Lebovitz, não chega a seus pés. Apesar de sua linda cor rosa-choque, seu "excesso" de fruta conferiu-lhe textura e gosto de sorbet, o que não era o objetivo, e nada tinha a ver com aquela sensacional massa gelada e rosa-parede-de-vó, com dulcíssimos e generosos pedaços de morango fresco surgindo mordida-sim, mordida-não.

Senti-me envergonhada por meu preconceito (coisa que aconteceu vezes demais durante a viagem), e fiquei preocupada por estar já tão programada para esperar o pior, uma vez que coisas boas a preços justos são tão raras. Ai, ai, ai, Ana. Má menina.

Vamos lá, alguém me conte uma história de empresas legais que fazem com que vocês mantenham sua fé na humanidade.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Buraco na cozinha, geladeira na sala, eu sem fazer bolos

Sim, senhores. Minha geladeira está na sala. Hoje, se tudo der certo, o piso da minha cozinha será trocado [insira suspiros aliviados e pulinhos de alegria aqui]. Tudo indica que a bagunça durará 3 dias. Mas, com irmã arquiteta e pai engenheiro, estou já para lá de escolada nesses prazos milagrosos de pedreiros, e estou prevendo uma semana de fogão desligado e batedeira do lado da televisão. Enquanto isso, pelo menos fica fácil sentar a busanfa no sofá e, no melhor estilo república de faculdade, abrir a geladeira e pegar uma cervejinha sem sair do lugar. Não, não, a quem estou enganando? Tenho é que trabalhar e passear o cão enquanto fico de olho no trabalho dos pedreiros e inventar o que fazer de janta usando uma panela só e o fogareiro de acampamento.

Agora é esperar para que tudo seja resolvido rapidamente. E se alguma receita esdrúxula aparecer aqui no meio do caminho, não terá sido mera coincidência.

domingo, 3 de agosto de 2008

PADARIA DE DOMINGO 16: repeteco do pan de mie

Sim, sim, a falta de inspiração bateu, o pedido do marido foi mais forte, e essa é, portanto, uma semana de repeteco. Pão de forma de novo. Pan de mie, de Bertinet, para ser mais precisa. A receita eu já dei por aqui, mas a diferença crucial desta vez foi ter acrescentado à mistura 10g de sal marinho, omitido na receita do livro por algum inexplicável motivo (eu culpo o estagiário de direção de arte a quem incumbiram de revisar as provas da gráfica).

Este pãozinho de forma de casca mais firme entrou na lista dos "faça sempre" que meu marido mantém na cabeça sempre que pergunto que tipo de pão ele gostaria de comer. Como eles são pequenos, faço dois, e mantenho-os muito bem fechados em sacos plásticos durante a semana em que são consumidos.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O bolo de chocolate e tangerina que nunca mais comerei

No meio da bagunça que são os recortes e anotações dos cadernos de minha avó, encontrara um pequeno pedaço de jornal ensinando a preparar um "doce de casca de tangerina", coisa comum nos "cadernos femininos" dos jornais antigos, pois me parece que as gerações passadas eram muito mais inclinadas a se preocuparem em aproveitar cada pedacinho de comida do que hoje.

Conforme fui comendo as tangerinas da minha cesta orgânica, no começo do mês passado, fui guardando as cascas, em um pote hermético, dentro da geladeira, interessadíssima em tentar o doce (que pelo preparo, parecia uma geléia), apesar das instruções e medidas vagas da receita. Pois, enquanto as medidas de açúcar e de água estavam ali, o jornal falhava em informar quantas mexericas, afinal, deveriam ser usadas. Eu guardara quatro cascas, e para mim era o suficiente.

Entre trocar a água de molho das cascas para tirar o amargor da parte branca e o cozimento propriamente dito, a empreitada do doce de casca durou sete dias. Ao fim do sexto dia, eu tinha uma espessa e perfumadíssima geléia laranja-escura esfriando na panela. Pensei em guardá-la naquele momento, mas decidi seguir o conselho da receita, esperar um dia inteiro e cozinhar mais uma vez. Quem me dera não tê-lo feito, pois ao ver como o preparado endurecera na panela, resolvi enfiar-lhe a colher de pau para tentar mexê-lo, temendo que o fundo queimasse antes que o restante amolecesse. Entristecida, observei enquanto a geléia cristalizava, como caramelo feito errado. E minha geléia translúcida ficou opaca.

Dei de ombros e resolvi prosseguir. Esterelizei um vidro grande com tampa, despejei-lhe o doce, fechei e fervi o pote. Quando ele esfriou, no entanto, fiquei na dúvida. O dia estava quente e tive medo de deixar aquela, que era minha primeira conserva, na despensa. Erroneamente, meti-a na geladeira.

Assim que vi o fim da torta de maçã, corri para descobrir qual seria o próximo doce. Queria alguma coisa com chocolate, uma vez que dos meus cookies comera apenas um [exatamente o tipo de coisa que tento explicar para as pessoas, quando elas se perguntam como diabos não estou gigantesca e diabética; saio distribuindo por aí e como muito pouco do que eu preparo]. Lembrei-me imediatamente de uma receita de Nigella que levava geléia e que há muito eu queria fazer. E, claro, pensei imediatamente no meu potinho de doce de casca, imaginando o perfume da tangerina no bolo de chocolate, uma vez que só o preparo da geléia fizera meu marido esticar a cabeça para dentro da cozinha umas cinco vezes, perguntando que cheiro bom era aquele.

No entanto, ao tirar o pote da geladeira, a primeira infeliz constatação: o doce não apenas estava cristalizado, mas estava completamente aprisionado dentro do vidro, duro e ressecado. Como faria com mel, coloquei o pote numa panela com água e fervi-o por um looooooooooongo tempo, até que o conteúdo estivesse mole o suficiente para ser retirado a duras colheradas de dentro do recipiente.

O bolo é o mais fácil que já produzi. E ele de fato ficou incrivelmente perfumado. As cascas, muito grandes, acabaram endurecendo um pouco mais do que eu previra, mas de modo nenhum estragaram a experiência. Se sua forma for antiaderente como a minha (quero jogar todas fora e comprar de alumínio), forre o fundo com papel vegetal, para evitar que queime. Como não pretendo fazer o doce novamente (pelo menos não tão cedo), acredito que uma boa geléia de tangerina, com ou sem pedaços, o substitua lindamente. A receita original usava geléia de laranja, mas a tangerina ficou excepcional, e me deu vontade de sempre usar a fruta e chocolate juntos. Suplico para que você use uma geléia de tangerina de qualidade, porém, sem conservantes, sem xarope de milho. E, antes que os comentários se encham de pedidos pela receita do doce de casca, aviso desde já: preciso ainda acertar a mão na receita e criar uma versão mais precisa e confiável.

Mas é engraçado pensar que, a não ser que faça o doce de novo, exatamente como esse o bolo jamais ficará novamente. De modo que nunca mais comerei especificamente esse bolo de chocolate.

BOLO DE CHOCOLATE E TANGERINA
(ligeiramente adaptado do livro How to be a Domestic Goddess)
Tempo de preparo: 1 hora
Rendimento: 1 bolo de 21cm


Ingredientes:
  • 100g de manteiga sem sal
  • 120g de chocolate amargo, cortado em pedaços
  • 1 xíc. cheia de geléia de tangerina
  • 1/2 xíc. de açúcar cristal orgânico
  • 1 pitada de sal
  • 2 ovos extra-grandes orgânicos
  • 1 xíc. de farinha de trigo
  • 1 colh. (chá) de fermento químico em pó
  • 1/8 de colh. (chá) de bicarbonato de sódio
Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 180ºC. Unte e enfarinhe uma forma de mola de 21cm. Forre o fundo com papel manteiga, se a forma for antiaderente.
  2. Coloque a manteiga em uma panela de fundo grosso e leve ao fogo baixo até derreter. Junte o chocolate e deixe amolecer por alguns instantes. Apague o fogo e mexa com uma colher de pau até que esteja homogêneo.
  3. Junte a geléia, o açúcar, o sal e os ovos e mexa até que tudo esteja bem incorporado.
  4. Peneire a farinha, o fermento e o bicarbonato. Junte aos poucos à mistura de chocolate, mexendo bem. Despeje na forma e asse por 40-50 minutos, até que um palito inserido no bolo saia limpo.

L´Aperô, bistrot de verdade

Fazia tempo que não falava de nenhum restaurante por aqui. Talvez por não ter conhecido nada que valesse a menção de fato, ou porque a noite fora tão ruim que não queria reviver os pratos requentados e risotti cozidos além da conta.

Ontem, no entanto, foi exceção.

Foi graças a um post do Pobre Também Come que coloquei meus pés no L´Aperô. Só tenho a agradecer pela indicação. O L´Aperô é um pequeno bistrot da Vila Madalena; chamá-lo de "charmoso" é um eufemismo para sua rusticidade, quando comparado a outros lugares de São Paulo que se dão o mesmo nome. Como nunca fui à França [*suspiro*], não tenho como saber o que seria mais autêntico, um bistrot simples ou um bistrot chiquérrimo. Só tenho cardápios como referência.

O menu é enxuto, ainda que não tanto quanto de outros restaurantes da mesma categoria: meia dúzia de saladas com a mesma base e que se diferenciam nos detalhes, meia dúzia de aperitivos e meia dúzia de carnes, com acompanhamentos à escolha do freguês.

Pára tudo.

Essa mania de restaurante de fazer o cliente escolher se quer vagens, batatas de diferentes formas ou o raio que o parta com seu franguinho grelhado me irrita sobremaneira. Se estou pagando pelo prato, nada me parece mais justo que esperar que o chef tenha o discernimento (não eu) de escolher o que combina melhor com minha proteína. Costumo sair decepcionada desse tipo de lugar, uma vez que, dentro desse esquema, os acompanhamentos são sempre insossos e neutros, sem tempero, de modo a combinar com a omelette de roquefort, o quiche de alho-poró, o franguinho grelhado, o salmão com alcaparras e o filé mignon do cardápio.

Suspirei, esperando mais um desastre culinário e, dentre todos os outros pratos nada vegetarianos, escolhi a lula do Chef, com batatas no alho e tomates à provençal, apenas porque não estava com vontade de comer salada. Meu amigo ficou com as coxas de pato confit e batatas no alho.

Em oposição a todos os outros bistrots em que estive até hoje, o prato chegou farto e rústico, sem frescuras, sem apresentações minimalistas e pretenciosas. As batatas eram fatiadas fino, douradas e sequinhas, crocantes por fora e macias por dentro, salgadas na medida certa e com aroma forte e delicioso de alho. As duas grandes metades de tomate recheados estavam incrivelmente bem temperadas. Já comi muito tomate à provençal com gosto de água. Esses eram excelentes, e a doçura da fruta e a refrescância das ervas casava bem com o sabor mais potente das batatas. A lula era macia, tenra, envolta num molho espesso e escuro de tomates, alcaparras e muitas outras coisas, e fui comendo tudo com gosto, um pouquinho de cada porção, na mesma ordem, para que nenhuma acabasse antes da outra, e tudo durasse mais tempo. Meu amigo também parecia bastante feliz com seu prato.

Ao contrário dos acompanhamentos insossos que esperava, esses pareciam ter sido feitos especialmente para aquela lula, uma vez que todos os temperos se completavam maravilhosamente. Foi, com certeza, a mais agradável surpresa dos últimos tempos, em termos de restaurante.

Pedi um bolo ópera de sobremesa, visualmente bem executado, mas um pouco doce demais para mim. Senti falta de um chocolate mais amargo, 70%, mas acho que é uma questão de paladar.

Único ponto negativo: o couvert é apenas um pratinho pequeno de amendoins. Senti falta (justo quem) de um cesto de pão enquanto esperava e, principalmente, para chuchar no molho da lula, no fim da refeição (nem um restaurante 5 estrelas e a presença do Papa me impediriam de chuchar pão em qualquer molho residual no meu prato, não importa o que digam os especialistas em etiqueta).

Durante todo o excelente jantar, dois homens mais velhos conversavam (e discutiam) animadamente em francês, falando sobre o melhor molho bérnaise que já haviam comido, e como suas mães faziam determinado prato em sua infância na França, etc e tal. De ouvidos atentos a qualquer oportunidade de treinar meu francês abandonado há anos, eu absorvia aquelas palavras, reconhecia algumas frases, me deixava levar pelos sons.

"Acho que eles são contratados para passar a noite aqui, conversando em francês, prá criar o ambiente", brinquei, enquanto pagávamos a conta.
"É que nem o cara de acordeon no La Tartine", emendou.

O melhor de tudo? Uma conta justa.

Vá lá:
L´Aperô
Rua Mourato Coelho, 1343, Vila Madalena

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