domingo, 17 de agosto de 2008

PADARIA DE DOMINGO 17: mais um pão de forma integral

Se por um lado a dieta me impede de exercitar um de meus maiores prazeres, que é fazer bolos, por outro lado ela não exclue meu amor pela panificação. Eu tinha uma escolha: podia fazer como todos os outros que conheço e comer duas fatias de pão light de manhã [alguém me explica como algo que só leva água, farinha e fermento pode ter versão light?], ou continuar preparando meus pães e me ater a uma fatia apenas.

Adivinha o que foi que escolhi. Vai, uma chance só.

Uma pena que o dia em que fiz o pão era frio, e nem o forno ligado ajudou muito. Preferi interromper a fermentação e ter um pão mais denso a deixá-lo fermentando devagar por tempo demais e interferir no sabor.

PÃO DE FORMA INTEGRAL COM AZEITE DE OLIVA
(Adaptado do livro Professional Baking)
Tempo de preparo: 10 minutos + 2h de fermentação + 30-40 minutos de forno
Rendimento: 1 pão de forma


Ingredientes:
  • 150g de farinha de trigo para pães
  • 230g de farinha de trigo integral
  • 210g de água
  • 20g de leite integral
  • 14g de fermento ativo fresco
  • 10g de sal
  • 15g de açúcar cristal orgânico
  • 15g de azeite de oliva extra-virgem
Preparo:
  1. Misture as duas farinhas em uma tigela. Esfarele o fermento com as pontas dos dedos e misture-o às farinhas. Junte o restante dos ingredientes, mexendo bem e sove, sem acrescentar mais farinha, até que a massa esteja lisa, elástica, mas ainda um pouco grudenta. Como alternativa, misture os ingredientes em uma batedeira planetária com gancho, por 10 minutos na velocidade 2.
  2. Em uma superfície ligeiramente enfarinhada, forma uma bola com a massa. Coloque-a em uma tigela enfarinhada, cubra com um pano e deixe fermentar em local quente (25-27ºC) por 1 hora meia. Se o dia estiver frio, deixe o forno ligado para aquecer a cozinha.
  3. Tire o ar da massa, trazendo suas laterais para o centro e afundando-a. Transfira a massa para uma superfície ligeiramente enfarinhada e forme uma bola novamente. Deixe descansar por 5 minutos.
  4. Abra a massa como um retângulo. Traga a beirada mais comprida para o centro, como quem dobra uma folha de papel para um aviãozinho, e aperte bem. Faça o mesmo com o outro lado. Agora dobre ao meio no sentido do comprimento, selando bem as abas com os dedos, e role a massa até atingir o tamanho da forma.
  5. Unte a forma de pão com manteiga ou óleo e coloque ali a massa, com a marca da fenda virada para baixo. Cubra com um pano e deixe dobrar de volume, por não mais que meia hora.
  6. Abra o forno pré-aquecido a 200ºC, pulverize um pouco de água e coloque o pão lá dentro. Asse por 30-40 minutos, ou até que ele esteja bem dourado e soe oco quando batido em baixo com os nós dos dedos.

sábado, 16 de agosto de 2008

Lembranças de pasta e vino...


Ao pensar em minhas recentes férias na Califórnia, dou-me conta de que há ainda muito sobre o que escrever. Meu grande problema literário é que quase todas as histórias começam da mesma forma: "eu não dava nada por aquele lugar; porém..." Depois da viagem à Itália e da descoberta dos mais deliciosos pratos nos lugares menos prováveis, era de se esperar que eu não viajasse mais munida de qualquer espécie de preconceito. Mas, fazer o quê, talvez tenha assistido a muitos documentários pixando os Estados Unidos como a Meca da junk food, e por isso mesmo desconfiasse de qualquer restaurante que não tivesse cara (ou nome) de bistrot francês. Atire a primeira pedra quem nunca julgou um livro pela capa.

No entanto, foi interessante notar que, no mesmo dia, tive diferentes experiências gastronômicas que contrariaram minhas expectativas: um lugar que sugeria comida ruim foi sensacional, e o que era caro, cheio de mequetrefes e prometia que era uma beleza, serviu-me comida insossa e com um péssimo atendimento.

Mas falemos das coisas boas, que já estou exausta de reclamar e você, querido e companheiro leitor, deve estar exausto de ter ouvidos de penico (ou seriam olhos?).

Naquela manhã acordáramos em Sonoma com um objetivo: degustação de vinhos. Para ser mais exata, eu acordara com esse objetivo, uma vez que minha tia, além de ser a motorista designada, não era lá muito fã da coisa. Sem ter feito minha lição de casa com a enorme apostila do curso de sommelier que deixara em São Paulo, decidi que o acaso e a opinião alheia nos direcionariam às vinícolas. Tenho vergonha de dizer que foi um cupom de desconto dado pelo escritório de turismo da cidade que nos levou à primeira. Ok, eram onze horas da manhã e tudo o que eu queria era vinho. Eu sei, eu sei, são os sinais do alcoolismo, mas ah! vá! eu estava de férias! Larga do meu pé.

Fomos atendidas em um salão amplo, de pé direito muito alto, com um comprido balcão de madeira escura. Tudo muito sóbrio, sério, combinando com o longo caminho de cascalhos ladeados de árvores antigas que nos trouxera do estacionamento até ali. Havia apenas mais um casal a uns dois metros de distância, e nossos pensamentos ecoavam no salão. Um senhor magro, grisalho, quase britânico com seus óculos de aros finos e perfeitamente redondos apoiados à ponta do nariz comprido, veio apanhar nossos cupons e nos mostrar o cardápio da degustação. "Esses são os do cupom; estes outros aqui são nossos vinhos especiais, reserva", disse ele, educadamente, servindo-nos nossa primeira taça.


O vinho era muito bom, e imediatamente comecei a comentar com minha tia, em português, ao que o senhor ficou curioso. Sem conhecer muito os termos específicos em inglês, enrolei um pouco os termos em francês e começamos a conversar sobre os vinhos. Ele quis saber o que eu achava daquele.

Segunda taça. Minha tia esboçou um tímido ok, e por isso mesmo surpreendeu-se com meu entusiasmado "hhhhhmmmmmmmmmm, que vinho booooooooooooooom..."

"Você gostou desse?", perguntou-me o senhor, com um meio sorriso suspeito.
"Nossa, ele é muito bom!"
"Jura? Você achou tudo isso?", perguntou minha tia, achando que o problema fosse seu paladar.
"Aaaaah", explicou ele, "eu não servi o mesmo vinho para as duas." Aproximou-se um pouco do balcão, mantendo ainda a postura, e baixando a voz quase em um cochicho. "Eu servi a você este aqui", disse, apoiando a ponta do dedo fino e comprido sobre um dos vinhos reserva. "Não conte a ninguém."

Terceira taça. Mesmo truque. "Eu vou mimar você um pouco", disse ele, sorrindo. Ao fim das cinco taças, quatro das quais custando o triplo dos vinhos que beberíamos com o cupom, não resisti e comprei uma garrafa de Pinot Noir. Excelente vendedor, pensei.

Seguimos para a próxima vinícola, mais ampla, réplica de château francês no limiar do bom gosto, prestes a cair para o lado Disney da coisa. Aproveitei para fotografar os vinhedos e as flores, olhar em volta e respirar aquele lugar tão diferente de minha casa.

Atravessamos os jardins bem cuidados em direção a um salão um pouco mais comercial, cheio de souvernirs e os mais diversos acessórios ligados a vinho. Assim que nos aproximamos do balcão, um homem veio nos avisar: "Daqui a cinco minutos um ônibus cheio de turistas barulhentos chegará aqui. Se vocês quiserem apreciar o vinho com calma, é melhor irem à sala reservada, do outro lado do jardim. Lá eles têm outras cartas de vinho, também." E a caminho da tal sala já podíamos ouvir a algazarra da turistada.

Nesta sala, fomos atendidas por uma mulher bonita, loira e entusiasmada, cheia de vontade de conversar sobre seu vinho com quem estivesse disposto. E eu estava disposta. E tão logo a conversa começou, começaram os mimos. Lá, bebi um dos Chardonnay mais fantásticos que já provei.

"O Chardonnay californiando tem fama de ser amanteigado", explicou ela, "o que nem sempre é bom. Mas esse é diferente, veja se você percebe... É um dos nossos melhores vinhos!"
"Uaaaau! É como... nossa! É como crème brulée engarrafado!!"
"Exato!"

Quando me dei conta, ela já estava servindo a sétima taça em uma degustação que previa apenas cinco, apenas pelo prazer de ver se eu conseguia sentir a diferença de um vinho para o outro. Correndo o risco de estragar na mala (o que não aconteceu), precisei comprar o Chardonnay, ao saber que ele era vendido apenas na vinícola. Aaaaah, se eu tivesse uma cave, teria levado uma caixa inteira...

Por indicação dela, fomos a uma pequena loja ali perto para provar alguns vinhos de boutique. Algumas taças depois, descobri um de sobremesa fortificado (é um Porto, mas eles não podem chamar de Porto) tão bom, mas tão bom, que até minha tia que não é fã levou uma garrafa para ela. E eu também.

Depois de tanto vinho, no entanto, eu estava faminta e precisando urgente de algo no estômago para não passar nenhum vexame. O senhor do vinho do Porto nos indicou um restaurante italiano ao lado. Por falta de paciência de procurar outra coisa, decidimos tentar.

Por fora, o lugar era simples. Por dentro, então, uma decepção. Um balcão separando você da cozinha, no melhor estilo Mc Donald´s, e uma lousa branca acima de nossas cabeças, com os molhos e tipos de massas escritos à caneta, à disposição para o freguês combinar como quisesse. Pedi penne ai funghi porcini e titia pediu penne alla putanesa. E fomos nos sentar do lado de fora, em cadeiras de plástico e mesas cobertas de toalhas também plásticas.

Já estava esperando o pior, quando nossos pratos chegaram. Sensacionais, perfumadíssimos, saborosíssimos. E não era apenas a fome falando. Os porcini eram frescos, macios, deliciosos, e em pedaços muito pouco tacanhas, a massa estava perfeitamente cozida, e o queijo era de qualidade. Titia fez tantos elogios a seu prato que insistiu para que também o fotografasse. Uma das melhores refeições que tive durante a viagem, e em um dos lugares mais capengas.


Sentindo gosto da Itália na boca, resolvemos aproveitar o tema e conhecer um tal de mercado italiano em uma das grandes vinícolas no outro extremo da região. Ao chegarmos lá, a grande quantidade de ônibus estacionados embaixo de auto-falantes tocando música italiana já nos avisava do que estava por vir. Claro, o lugar era um parque temático. O mercado não era nada interessante, e todo o complexo era uma armadilha para turistas. Tanto, que não tive vontade de experimentar seus vinhos, ao ver como eles faziam daquilo um espetáculo brega, ao contrário dos outros lugares onde estivéramos.


Restou-nos apreciar a vista, essa sim fantástica. Sentamo-nos em um dos amplos terraços e ficamos quietas, observando as vinícolas que se estendiam sobre colinas douradas e suaves. A música italiana tocava, o gosto dos porcini ainda estalava em minha língua; olhei à minha volta, para as flores, os pinheiros italianos, a cópia de villa num terracota que jamais será a terracota dos antigos casarões da Toscana, e me vi, ridícula, de olhos marejados. O peito apertou de saudades da Itália, e me perguntei como era possível que me doesse tanto a distância de um lugar onde passei tão pouco tempo de minha vida...

Levantei-me e fui embora, sem olhar para trás, revoltada com como algo tão falso pôde resgatar em mim saudades da experiência verdadeira. Pensei nos vinhos que me esperavam no porta-malas do carro e nas refeições que estavam por vir e segui em frente. E prometi a mim mesma não julgar mais os restaurantes por sua cara, mas continuar julgando vinícolas se suas cedes parecerem feitas de fibra de vidro.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Nada mudou, tudo ficou no lugar: cevada, abobrinha, grão-de-bico.

Estou esperando pela sensação purificadora da dieta. Aquela quando você passou uma semana comendo porcaria e resolve compensar com uma semana de saladas; aquela sensação de estar leve, limpa, renovada. No entanto, tenho me sentido... satisfeita. À parte a chateação de medir tudo milimetricamente, não tenho tido nenhuma dificuldade em seguir as novas diretrizes. Olho para meu prato e, bem, ele não parece diferente do que sempre esteve. A impressão que tenho é de que esqueci de comprar macarrão na última ida ao supermercado. Posso dizer, portanto, que estou contente. É bom perceber que o que estava errado era a quantidade, e não a qualidade do que eu preparava. Invertem-se proporções, mas no fim das contas, nada mudou: os ingredientes são os mesmos, os sabores também.

Ok, ok, tenho meio litro de creme de leite fresco na geladeira, comprado antes da dieta começar, que anda me incomodando um bocado. Não quero que estrague, mas também não posso usá-lo em nada. Tanto, que estou pensando em preparar sorvete de creme e deixar no freezer, para o marido que não está de dieta, evitando assim o desperdício.

Para não dizer que nada mudou, minha geladeira está subitamente cheia. Como as quantidades de legumes no prato aumentaram na proporção inversa às dos carboidratos, fui obrigada a comprar mais quantidade e mais variedade. Também passei a fazer algo que jamais fizera: cozinhar alguns elementos com antecedência para tê-los quando quiser, a exemplo dos grãos-de-bico e da cevada. Convenhamos, não vou ficar gastando gás e tempo para cozinhar 3 colheres de qualquer coisa. Melhor cozinhar uma xícara toda e usar durante a semana. Pois é, isso é novo para mim, uma vez que sempre gostei de preparar tudo na hora. E é por esse tipo de praticidade (e por ter ficado muito bom) que repeti hoje o almoço de ontem. E, na certeza de que não foi apenas a fome falando, deixo a receita aqui.

É difícil não chamar meu almoço de salada: tem cara de salada. Talvez apenas por estar tudo misturado. Poderia ter disposto os elementos no prato de forma organizada: um montinho de cevada, um montinho de grão-de-bico, um montinho de abobrinha. Mas deus sabe que eu detesto isso e que sou obcecada por "pratos únicos". O caso é que os sabores e texturas dessa "salada quente" de fato se complementam e se ajudam. Não é a primeira vez que uso dessa mistura de ingredientes e não será a última. E para quem quiser comprovar o fato de que apenas o tamanho do prato mudou, veja aqui a salada de cevada e beringela que já era uma de minhas favoritas há muito tempo atrás...

SALADA QUENTE DE CEVADA, ABOBRINHAS E GRÃO-DE-BICO
Tempo de preparo: 15 minutos com a cevada pronta
Rendimento: 1 porção


Ingredientes:
  • 3 colh. (sopa) de cevada em grão cozida
  • 2 colh. (sopa) de grão-de-bico cozido
  • 2 mini abobrinhas ou 1 abobrinha pequena
  • 1 dente de alho pequeno
  • 1/2 pimenta dedo-de-moça
  • 1/2 colh. (chá) de azeite
  • 1 fatia de queijo tipo Feta
  • 1 colh. (chá) de suco de limão
  • sal e pimenta-do-reino moída na hora
Preparo:
  1. Fatie as abobrinhas em rodelas finas. Pique o alho. Retire as sementes da pimenta, descartando-as, e pique-a.
  2. Aqueça 1/4 colh. (chá) de azeite em uma frigideira pequena e doure ligeiramente o alho e a pimenta. Junte a abobrinha fatiada e salgue ligeiramente. Salteie até que a abobrinha esteja suavemente dourada, mas ainda firme.
  3. Junte a cevada e o grão-de-bico e misture para que os dois aqueçam e absorvam os sabores. Desligue o fogo, tempere com sal, pimenta-do-reino, o suco de limão e o restante do azeite. Esmigalhe o queijo por cima e sirva quente sobre folhas de salada crocantes de sua preferência.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Mais uma de espinafre, porque é o que tem na geladeira...

Hoje posso dizer que terminei de fato minhas tarefas. Um por um, os post-its coloridos foram arrancados da parede atrás de meu computador, e consegui enfim respirar fundo e... morrer de sono. Sim, são oito horas da noite, eu já jantei e estou me segurando firme para não deitar e dormir. Fico contente de pensar, pelo menos, que os maiores pepinos que eu tinha já foram resolvidos (enfim!), e que semana que vem será uma semana mais normal, só corrida, trabalho e cachorro, sem nenhum compromisso ou pepino pessoal inesperado.

Por estar cansada e com fome, não quis inventar tanta moda quanto ontem à noite, quando resolvi usar da matemática culinária em cima das regras coladas à geladeira e preparei beringelas ao forno com muita (e permitida) mozzarella de búfala e um nadinha de molho de tomate.


Decidi, portanto, que o jantar seria uma salada e pronto. Muito, muito espinafre cru, coberto de 3 cogumelos portobello fatiados fino e ligeiramente refogados em 1/2 colh. (chá) de azeite (olha que menina comportada!), 1 ovo cozido fatiado, 2 colh. (sopa) de grão-de-bico cozido e 1 fatia fininha de queijo feta esmigalhado. Para temperar, 1 colh. (sopa) de azeite, 1 colh. (chá) de vinagre de vinho branco, 1 dente de alho pequenininho cru picado muito, muito fininho, e sal e pimenta-do-reino moída na hora. Muito gostoso, e vale vários repetecos ao longo das próximas semanas...

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Ô, dificuldade prá fazer um couscous...!


Onze e meia da manhã. Fui desligando devagar a cabeça do trabalho e dos inúmeros post-its colados na tela de meu computador, lembrando-me do que estou esquecendo de fazer. Apanhei o livro italiano de cozinha vegetariana que ganhara de presente e comecei a procurar o que fazer para o almoço. Couscous marroquino com ovos e pimentões parecia uma ótima idéia. Um tanto de carboidrato permitido, legumes cozidos e uma fritatta simples. Tudo dentro da lei.

Separei todos os ingredientes no balcão e, quando estava já prestes a medir 400g de couscous, lembrei: peraê, tem outra medida. Volto-me à geladeira, espiando as notas presas à porta. Cinco colheres de sopa de carboidrato. Oooook... Uma, duas, três... Mas... Peraê. Cozido ou cru??? Porque couscous marroquino infla. Deve ser cozido. Volta uma colher.

Próximo item: 4 colheres de sopa de legumes cozidos. Olho inconformada para meus pimentões e minha lata de tomates pelados. What the f*ck...! Como diabos eu vou medir isso? Corto metade da quantidade que pretendia, separo apenas um tomate da lata e prossigo.

Ok, hora da fritatta. Espio a cola. Posso comer uma omelete de 4 claras.

Aaeaeaeaeaeaaaaaaargh...

Perdoe-me, nutri, mas há coisas que eu faço e coisas que não faço. E omelete de claras eu não faço. Vai uma fritatta de dois ovos então.

No fim das contas, um almoço incrivelmente simples, que normalmente não me tomaria mais de 10 minutos, demorou mais de 30 para sair. Ficou bom? Ah, sim, ficou sensacional, e eu nunca diria que aquilo estava em conformidade com uma dieta. Deu trabalho? Para mim sim, que tive de ficar calculando quantidades. Para você, ah, para você vem de mão beijada. O bizarro foi apanhar minha tigela e ir colocando 5 colheres de couscous, 4 colheres do molho, meia fritatta.

E a preguiça de pensar no jantar?

COUSCOUS MARROQUINO COM PIMENTÕES E FRITATTA
(Adaptado do livro Piatti Unici do Verdure)
Tempo de preparo: 20 minutos Rendimento: 2 porções


Ingredientes:
  • 1/3 xíc. de couscous marroquino
  • 1/2 pimentão amarelo pequeno, sem sementes
  • 1/2 pimentão verde pequeno, sem sementes
  • 1 tomate sem pele
  • 4 ovos
  • 1/2 colh. (chá) de páprica picante
  • 2 dentes de alho picados fino
  • 1/2 colh. (sopa) de azeite de oliva
  • sal e pimenta-do-reino moída na hora
  • 1/2 colh. (chá) de canela para polvilhar
Preparo:
  1. Bata os ovos com 1 colh. (sopa) de água em uma tigela e tempere com sal e pimenta. Aqueça o azeite em uma frigideira grande e despeje os ovos, cozinhando-os em fogo baixo. Quando a parte de baixo tiver coagulado, leve a frigideira ao forno e finalize a fritatta sob o grill ligado. Mantenha-a aquecida.
  2. Corte os pimentões em pedaços de cerca de 1,5cm. Coloque-os em uma panela pequena com o tomate e o alho picado e mexa, cozinhando em fogo baixo. Junte a páprica e salgue. Apenas cubra com água, aumente o fogo e deixe que o molho engrosse, mexendo de vez em quando.
  3. Enquanto isso, coloque 1/3 de xíc. de água em outra panela, para ferver. Quando entrar em ebulição, salgue e junte o couscous, mexendo com um garfo. Desligue o fogo e tampe a panela, deixando que descanse por 5 minutos.
  4. Destampe o couscous. Afofe-o com um garfo. Despeje-o no prato de servir. Corte a frittata em quadrados do tamanho dos pedaços de pimentão e misture-os ao couscous. Derrame o molho de tomate e pimentões por cima. Polvilhe a canela e sirva.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Light uma ova: fui na nutri, tô de dieta...


Sempre fui muito avessa a nutricionistas. Nada contra a profissão, mas eles nunca me pareceram... bem... pessoas que gostam de comer. A impressão que tenho assistindo a determinados programas de TV (em especial aquele BemStar, do GNT, que me dá arrepios às vezes) é que eles ODEIAM comer e só o fazem porque ainda não aprenderam a viver de luz.

A verdade é que estou há tantos anos com meu peso no vai e volta, que perdi completamente a noção do meu tamanho. A roupa cabe, você tá bonita. Então tá bom. Mas na balança você não pesa a mesma coisa de quando tinha 19 anos. Então não tá bom. Nada bom.

Caramba. Para quem vê o blog e não me conhece, devo parecer uma maluca devoradora de doces. Mas a verdade é que sou uma chata que se alimenta bem. Não como porcarias, não como quase nada que seja industrializado ou processado, não fico beliscando salgadinhos, chocolates, bolachas, nuggets e afins. Eu corro. Ok, eu falto. Mas eu faço exercícios. Em algum lugar eu estava errando a matemática da coisa, e era justamente por querer saber onde que resolvi ir a uma nutricionista.

Não demorou muito para que descobrisse meus escorregões. Pequenas mas significativas coisas. Para quem não come carne é muito fácil errar a mão nos carboidratos. Afinal, eles são a base reconfortante para seus magníficos legumes. E aqui vem a desculpa esfarrapada: meus pratos são fora de padrão; eles são maiores do que pratos convencionais. Isso faz com que uma porção normal de comida pareça pequenininha no prato. Você acha que é pouco e preenche um pouquinho mais o vazio. Bem, eu sofro desse mal: apesar de tudo o que falo para os outros sobre tamanho de porção, eu erro na minha. Por isso achei logo de cara muito bom observar a quantidade de ervilhas que eu de fato deveria estar colocando na minha salada, em oposição ao que eu costumava colocar. A-há!

No fim das contas, a nutri foi bastante compreensiva com todas as minhas chatices e minha "rotulofobia" (meu "medo de rótulos", hehehe...), montando um cardápio bastante coerente em relação a meu estilo de vida. Agora essa é a parte interessante (e é aqui que quero que meus colegas de corrida e de dieta caiam sentados morrendo de raiva de mim): o bom de não comer carne é que minha dieta mega-restritiva está cheia de ovos e queijos! Tudo bem, nada de doces por um mês, a não ser uma mísera barrinha de chocolate a 70% de cacau. Mas, por duro que seja, mais duro seria ficar sem queijo.

Voltei da consulta e fui imediatamente ao supermercado rechear minha geladeira de espinafres, acelgas, cogumelos, beringelas, abobrinhas, vagens, maçãs, figos, morangos, bananas, mozzarella de búfala, queijo feta, cottage (que eu adoro), grão-de-bico, milho, cevadinha, trigo em grãos e soba de trigo sarraceno.

E é claro que a nutri tem o endereço do blog. Como não? Veja só que belo modo de vigiar sua paciente...

Não prometo que todos os posts tenham histórias interessantes atreladas às receitas. O desafio será cozinhar comida, essa sim interessante, dentro das linhas-guia coladas na porta de minha geladeira.

Será esse o fim do excesso de Ana Elisa?

SALADA DE ESPINAFRE, ERVILHAS E QUEIJO FETA, OU MINHA SALADA FAVORITA
(Do livro The Naked Chef, de Jamie Oliver)
Tempo de preparo: 5 minutos
Rendimento: 1 porção


Igredientes:
  • 1 tigela de folhas de espinafre orgânico fresco
  • 2 colh. (sopa) de ervilhas congeladas
  • 1 fatia bem fina de queijo tipo Feta
  • 1 colh. (sopa) de azeite de oliva extra-virgem
  • 1/3 colh. (sopa) de suco de limão, ou a gosto
  • sal e pimenta-do-reino moídos na hora
Preparo: Cozinhe as ervilhas congeladas por 1 ou 2 minutos em água fervente e escorra. Misture em uma tigela com o espinafre e o feta esmigalhado. Tempere e mande bala!

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Huevos rancheros, ou gororoba de café que virou jantar

Quando estive na Califórnia, minha parte preferida do dia era o café-da-manhã, como sempre é quando estou viajando, não importa onde. A oportunidade de mergulhar em hábitos que não são os meus e experimentar novas guloseimas matutinas sempre me empolga. No entanto, é preciso impor um limite em algum ponto. E, quando minha tia propôs que eu experimentasse huevos rancheros, encontrei o meu limite: feijão no café-da-manhã não rola.

A verdade é que quando já era tarde demais, com meus pezinhos de volta ao Brasil, arrependi-me de não tê-los provado. A perspectiva de ovos fritos sobre tortillas quentes e quebradiças, acompanhados de feijões, salsa de tomate e sour cream logo tornou-se uma das minhas inúmeras, pequenas e irritantes obcessões.

A idéia insistente então terminou de eclodir em meu cérebro e dominar meus pensamentos quando vi os huevos de Deb. Era o empurrãozinho de que eu precisava para apanhar os ingredientes na geladeira e colocar as mãos na massa. Metida como sou, no entanto, resolvi que, ainda que minha salsa não fosse autêntica, meus feijões não fossem refritos e eu estivesse sem queijo Cheddar ou sour cream, ao menos as tortillas de milho eu faria do zero.

As tortillas são tão fáceis que podem acabar virando a desculpa de que eu precisava para nunca mais gastar dinheiro em restaurantes mexicanos. A única diferença desta salsa para a que costumo fazer foi o fato de ter colocado meio pimentão verde picado no meio dela. Para os huevos rancheros, basta fritar os ovos em pouco azeite, temperá-los, cobri-los com um pouquinho de queijo, colocá-los sobre as tortillas quentes e servi-los com os feijões e a salsa de tomate.

TORTILLAS DE MILHO
(Adaptado do livro O Livro Essencial da Cozinha Vegetariana)
Tempo de preparo: 20 minutos

Rendimento: 4 tortillas grandes (20cm)


Ingredientes:
  • 45g de farinha de milho fina
  • 85g de farinha de trigo
  • 1/3 xíc. de água
  • 1 pitada de sal
Preparo:
  1. Misture as duas farinhas em uma tigela. Faça um buraco no meio e despeje a água devagar, mexendo com um garfo, trazendo mais farinha para dentro da água. Forme uma massa e sove por alguns minutos.
  2. Divida em quatro pedaços, forme bolas, achate-as e abra com o rolo de massa cada uma delas até que formem discos finos, de 20cm de diâmetro. Vá empilhando os discos, separando-os com filme plástico.
  3. Aqueça uma frigideira grande de fundo grosso. Quando estiver bem quente, abaixe o fogo para médio e coloque a primeira tortilla. Quando ela tiver muitas bolhas de um lado, vire-a e cozinhe-a do outro lado. Deixe-a num prato e prossiga com as outras.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

E ela desapareceu em meio a uma cortina de pó... *puft!*

Temos piso novamente.

Como posso explicar resumidamente minha semana? Hmmm...

Comecemos pelo atraso do pedreiro, que marcara comigo às 10h da manhã, chegando de fato às 13h, largando suas tranqueiras e saindo para o almoço, para começar a trabalhar apenas às 15h30...

Passemos pela encantadora constatação de que apenas as lajotas que eu já arrancara estavam soltas, e o restante teve de ser arrebentado com marreta, fazendo surgir uma inesperada névoa de sujeira por toda a casa. Detalhe: para melhorar a circulação, minha cozinha não tem porta.
No primeiro dia foi tranqüilo manter o cão longe da cozinha, apenas bloqueando sua passagem com alguns banquinhos. Ele continuou passeando pela sala e eu pude trabalhar "tranqüilamente", sempre de olho no pedreiro, a despeito das marretadas que pareciam ser aplicadas diretamente em minhas têmporas.

Concentrada no que fazia, não notei o pó chegando até ser tarde demais. Quando o pedreiro foi embora às 18h em ponto, apanhei aspirador de pó, pano e rodo e saí limpando por aí. "Amanhã é só assentar o piso", disse ele. Ótimo, pensei, vou limpar tudo hoje e amanhã vai ser sossegado.

Naquela segunda-feira de geladeira na sala e fogão no banheiro, dei sorte de receber um convite para jantar de meu pai.

No dia seguinte, surge o primeiro desespero da vida sem fogão: eram 6 horas da manhã, eu estava a caminho da corrida, e eu precisava — PRECISAVA — de café. Meti a roupa de ginastica o mais rápido que pude, aprontei minha mochila apressadamente, tudo para ter tempo suficiente para caçar na gaveta o fogareirozinho de acampamento, montar no micro-butijãozinho de gás e [*suspiro*] fazer meu café.

Corre, corre, corre, pega o cachorro, passeia, passeia, passeia, volta prá casa, espera o pedreiro e tudo começa de novo com o homem atrás de uma tomada 220v para ligar a serra circular que ele usaria para cortar o porcelanato.

"Vai fazer sujeira?", perguntei, sabendo já a resposta.
"Vixe, mais do que ontem!", respondeu.
"Então peraí, que eu vou pegar o que ficou na cozinha."

Logo percebi que fora uma péssima idéia não retirar a comida e as frigideiras no dia anterior, ao sentir pó sobre minhas cebolas e meus potes de farinha. Pobre de mim, só pensara em tirar o que ficava de fato SOBRE o chão.

Suspirei, apanhei uns lençóis velhos e cobri o que seria mais difícil de limpar (televisão, sofá, etc), e usei o último para, munida de muita fita crepe, aprisionar o pedreiro e sua sujeirada em minha cozinha sem porta.

Quando ele ligou a serra apoiada em meu balde (que ele eventualmente serraria ao meio sem querer), achei que havia sido transportada para uma consulta com o dentista dos infernos. A serra zuniu agudo, o cão começou a latir, e eu comecei a duvidar que conseguisse manter um pensamento não-suicida na cabeça e de fato terminar meu trabalho.

E o pó começou a surgir, atravessando sorrateiro as fendas entre os batentes e o lençol, grudando em meus braços, minha roupa, meu cabelo, e, para meu desespero, meu computador, que não podia cobrir porque, bem, eu tinha um prazo.

Mandei o pedreiro almoçar, passeei o cão novamente, e almocei o último pedaço de pizza gelada e dura que restara na geladeira, com muita preguiça para sequer requentar o desgraçado.

Ao fim do dia, eu desistira de trabalhar e passara a última hora olhando para a serra e contando mentalmente quantas peças de porcelanato faltavam ser assentadas. O cão, atrás de mim, fora impedido de sair do quarto por uma barricada de cadeiras, para que não resolvesse enfiar patas e focinho no cimento ou (pior) na serra. E agora ele latia e grunhia, inconformado com sua prisão temporária. Eu respirava devagar, tentando acalmar meus nervos, que queriam me convencer a pegar aquela maldita serra e enfiá-la na cabeça do pedreiro, definitivamente. Assim eu teria silêncio e paz de espírito, mas provavelmente não teria o piso da minha cozinha.

Paciência. Mantenha o pedreiro vivo. Por enquanto.

"Pronto", disse ele, "amanhã é só rejuntar."
"Não vai ter mais poeira?"
"Não, acabou. Pode limpar tudo hoje. Só não pode pisar na cozinha, senão entorta tudo."
"Ok, sem problemas!"

Assim que ele recolheu suas coisas e foi embora, comecei a juntar novamente panos mil, rodo e vassouras para começar a faxina novamente. Então me dei conta de que esquecera o item mais urgente na área de serviço, além da cozinha intransponível: o aspirador de pó.

Depois de passar panos úmidos pela terceira vez em toda a casa e em todos os cacarecos visíveis, queria sentar e chorar, achando que minha casa fora para sempre engolida por uma camada indelével de pó branco, fino e pegajoso. Continuei limpando, tentando não deixar que aquilo arrebentasse de vez meu espírito, e decidi que, apenas para fingir a mim mesma que as coisas não eram tão ruins, eu faria o jantar. Mas não sem passar no mercado antes e apanhar uma merecida garrafa de vinho. Para os nervos.

Voltei para casa, coloquei a garrafa de Chardonnay argentino na geladeira e coloquei a panelinha cheia de água sobre o fogareiro. Tomei um loooooooooongo banho, tentando esfregar fora aquela camada de sujeira que se fixara em minha pele. Relaxada, de pijamas, liguei a tv, apanhei tomates cereja vermelhos e amarelos, azeitonas kalamata e alcaparras e misturei numa tigela, com azeite, pimenta-do-reino e orégano, e deixei aquele molho improvisado ali, aguardando pela massa pelando. Resolvi que abriria o vinho enquanto esperava a água ferver. Estava sozinha àquela noite. Allex trabalharia até tarde.

Coloquei a garrafa sobre a mesa e fui pegar o saca-rolhas... Vi-me inerte, paralizada, etupidificada à porta da cozinha, com um olhar fixo e imbecil para a gaveta fechada onde estava meu saca-rolhas: a um metro e meio de distância e completamente inalcançável.

Sentar e chorar?

Voltei à sala, arranquei o lacre da garrafa e olhei para a rolha. Pensei em cortá-la em mil pedacinhos e coar o vinho; pensei em afundar a rolha na garrafa. Muitas idéias cretinas e perigosas passaram por minha mente enevoada pela exaustão até que decidisse pedir um saca-rolhas emprestado ao vizinho... que não estava em casa.

Andei de um lado para o outro, inquieta, sem saber o que fazer. Se meu amigo já tivesse se mudado para a casa nova, ele seria a solução mais viável, a um quarteirão de distância. Não conhecia nem simpatizava suficientemente com ninguém mais do prédio para pedir um favor. "Oi, eu não sei seu nome nem nunca perguntei. Você não me dá bom dia nem gosta do meu cachorro. Poderia me emprestar um saca-rolhas para que eu beba meu vinho sem te convidar? Obrigada."

Respirei fundo e violei o manual das pessoas que já saíram da casa dos pais há 3 anos: liguei para minha mãe. Que, ufa!, me emprestou o saca-rolhas.

Tenho plena consciência de quão alcoólatra todo esse episódio parece, mas dada a situação, me vejo no completo direito de PRECISAR DESESPERADAMENTE de uma taça de vinho. Isso só me ensina a, da próxima vez, comprar cerveja. O abridor de garrafas, afinal, estava ali, em cima da mesa.

No dia seguinte, mesma correria. Despedi-me rapidamente do marido que viajaria a trabalho aquele dia, saí para meu treino, passei o cão e esperei pelo pedreiro. Ao meio dia, estava tudo pronto. Sem mais sujeira, como prometido. No fim do dia poderia passar um pano seco na cozinha e, no dia seguinte, lavá-la.

Passei o resto da tarde trabalhando e, assim que vi que o rejunte secara, limpando a cozinha. Terminei uma primeira faxina sem água às nove da noite, quando o acesso de tosse por conta da poeira realmente se intensificou. Sentia-me absolutamente exaurida, razão pela qual, sem dinheiro na carteira e sem uma folha de cheque para uma pizza, resolvi jantar um dos miojos do marido. Fazer o quê? O acesso de tosse foi tão violento até o fim da noite (devo ter inalado muita poeira, ao contrário do pedreiro, que usava máscara), que acabei passando muito mal, e, digamos, foi como se eu nunca tivesse comido miojo àquela noite.

Fui dormir me sentindo um caco, e acordei me sentindo ainda pior. Mas, boa menina, fui correr mesmo assim, lembrando do que meu treinador me dissera uma vez: "Tá doente? Corre que passa!"

Onze horas da manhã, roupa de ginástica suada, esfregando chão, telefona um cliente querendo confirmar uma reunião ao meio-dia. Culpa de um e-mail que eu nunca recebera. Milagrosamente, consegui largar tudo, tomar banho, passar no banco para tirar dinheiro, pegar o metrô até o cliente e chegar razoavelmente apresentável e em ponto na reunião.

Quando voltei para casa, decidi que não agüentava mais. Dissera que esperaria o marido voltar na sexta para ele me ajudasse a voltar tudo para o lugar, mas nunca fui mulher de depender de homem. Ok, o móvel e a geladeira são pesados demais para uma pessoa só. Mas botei meu fogão no lugar e viva! guardei o fogareiro.

Agora, pela primeira vez de fato na semana, tenho cinco minutos para escrever esse texto. Apenas porque a cozinha está limpa, comida e temperos nas prateleiras, fogão funcionando, o cão está dormindo, a última reunião da semana acabou há 2 horas atrás e estou aguardando o parecer dos clientes a respeito de trabalho entregue.

Neste fim de semana quero dormir.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Sorvete de morango e a decrescente fé em fornecedores e fabricantes de qualquer coisa

(Já nem me lembro se a placa é do café chique ou do meleta.)


Noutro dia precisei da ajuda de um fornecedor meu. Coisa simples. Fazia parte do escopo do trabalho dele, não ia tomar nada de seu tempo e só manteria seu cliente (eu) feliz. Ao invés de simplesmente realizar a tarefa, ele enrolou, desconversou, engambelou e, quando finalmente deu o braço a torcer, ainda me enviou um e-mail recheado do mais puro sarcasmo.

Se eu tratasse meus clientes assim, estaria morrendo de fome.

Estou trocando de fornecedor.

Noutro dia ainda, fui ao banco tentar trocar minha cesta de serviços por uma mais barata, depois de aumento abusivo (e autorizado pelo gorverno) efetuado nos últimos meses. Sem problemas, uma vez que não uso quase nada daquilo que eles me oferecem. Sou cliente do mesmo banco há dez anos, e eles também têm a conta da minha empresa. Depois de cerca de 45 minutos de engambelação, não consegui mudar minha cesta, porque o gerente disse que eu deixaria de ter o benefício X. Dias depois, olhando a tabela de serviços na internet, descubro que o gerente mentira.

Estou trocando de banco.

Desde o começo do ano, já tive tantos problemas com meu provedor de banda larga, que acho que conheço nome e sobrenome de todo funcionário de atendimento ao consumidor da empresa. Vou trocar de provedor? Não, porque a alternativa é ainda pior.

Notamos também, aqui em casa, uma diminuição vertiginosa e contínua da qualidade da imagem da TV a cabo, e concluímos que, nessa onda de HDTV, a empresa só pode estar fazendo de propósito para incentivar a compra do pacote "digital", com imagem melhor. Sem nem entrar no mérito da cobrança por ponto extra (agora ilegal) que as empresas conseguiram distorcer, codificando o sinal e cobrando pelo "aluguel" de um aparelho extra, quando antes o cabo podia ser ligado diretamente na tv.

Houve um mês, neste ano, em que passei todos os dias ao telefone reclamando cada dia com um pobre coitado diferente, que só sabe ler apostilas e não daria uma informação de fato relevante se sua vida dependesse disso. Eita mês lascado.

E me pergunto: sou apenas eu que me sinto constantemente passada para trás?

Sinto às vezes que não há uma única empresa nesse país (ou no mundo) que tenha como missão REAL atender seu consumidor ou usuário da melhor forma possível, já que, afinal, ele está pagando por isso. Não parece justo que você receba por aquilo que pagou? Levante a mão quem puder citar uma empresa pela qual você nunca tenha sido ludibriado. Eu não consigo. Em um momento ou outro, todas me decepcionaram.

Eu pago por serviços e sou tratada pelas empresas como se elas estivessem me fazendo um favor, e não o contrário.

Compro produtos, e descubro que eles não têm a qualidade prometida por sua propaganda, por seu preço, ou mesmo pela brochura que acompanha o produto.

Pago caro em restaurantes por pratos requentados e ingredientes de terceira.

Compro bandejas de frutas na feira para descobrir que as frutas de baixo estão podres.

Minha fé na humanidade está por um fio. Queria uma vez na vida sentar numa mesa com os amigos e, ao invés de reclamar do golpe da empresa X, poder contar a respeito do brinde inesperado que a empresa Y me enviou, simplesmente por eu ser uma cliente antiga. Ah, e eles também vão me dar desconto, e eu nem pedi! Não é ótimo?

Por essa falta de fé em empresas de qualquer tamanho é que me pego tão surpresa quando descubro que o produto ou o serviço não é apenas tão bom quanto o que estou pagando, mas melhor. Se existe um tipo de situação em que qualquer um se sente enganado e muita gente já sabe evitar, são as armadilhas pega-turista. Em especial restaurantes e similares.

Sutter Creek é uma cidadezinha histórica da época da corrida do ouro na Califórnia. Ela é recheada de lojinhas de antigüidades; metade delas, interessante, a outra metade, pega-turista. Numa tarde agradável, depois de um longo passeio à pé pelas ruas laterais, observando os jardins floridos e incrivelmente bem cuidados das casas da cidade, resolvemos, minha tia e eu, tomar um sorvete. Nossa primeira opção, um pequeno e charmoso café espremido entre um restaurante e uma loja, estava fechado.

Acabamos entrando então em um outro café com cara de boteco velho, parte loja de souvenirs, parte sorveteria, parte lanchonete, mal iluminado mesmo às cinco da tarde num fim de primavera. Fomos atendidas por um casal de adolescentes franzinos e desinteressados, que prosseguiam rindo de piadas internas e olhando de soslaio para seus amigos do outro lado da loja. Não me lembro quanto foi o sorvete, mas me lembro que foi muito barato. Desestimulada pela cor verde-incandescente do sorvete de pistache, acabei pedindo o de morangos, rosa pálido e simples.

Frustrei-me novamente ao ver o moleque empilhando uma bola de sorvete do tamanho de minha cabeça em uma casquinha fina e quebradiça, e pensei: "pronto, esse sorvete deve ser uma m*rda. Nada tão grande e tão barato pode ser remotamente bom."

No entanto, após a primeira mordida, decidi que aquele sorvete gigantesco precisava ser fotografado e mencionado no blog. O melhor sorvete de morango do mundo. Talvez fosse o fato de os morangos estarem na estação e serem tão doces. Aquele sorvete tinha gosto de morangos com chantilly, e não duvidei que fossem apenas esses seus ingredientes: fruta, creme de leite e açúcar. Ele se tornou meu ideal no quesito sorvetes de morango, e mesmo o que produzi essa semana, de David Lebovitz, não chega a seus pés. Apesar de sua linda cor rosa-choque, seu "excesso" de fruta conferiu-lhe textura e gosto de sorbet, o que não era o objetivo, e nada tinha a ver com aquela sensacional massa gelada e rosa-parede-de-vó, com dulcíssimos e generosos pedaços de morango fresco surgindo mordida-sim, mordida-não.

Senti-me envergonhada por meu preconceito (coisa que aconteceu vezes demais durante a viagem), e fiquei preocupada por estar já tão programada para esperar o pior, uma vez que coisas boas a preços justos são tão raras. Ai, ai, ai, Ana. Má menina.

Vamos lá, alguém me conte uma história de empresas legais que fazem com que vocês mantenham sua fé na humanidade.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Buraco na cozinha, geladeira na sala, eu sem fazer bolos

Sim, senhores. Minha geladeira está na sala. Hoje, se tudo der certo, o piso da minha cozinha será trocado [insira suspiros aliviados e pulinhos de alegria aqui]. Tudo indica que a bagunça durará 3 dias. Mas, com irmã arquiteta e pai engenheiro, estou já para lá de escolada nesses prazos milagrosos de pedreiros, e estou prevendo uma semana de fogão desligado e batedeira do lado da televisão. Enquanto isso, pelo menos fica fácil sentar a busanfa no sofá e, no melhor estilo república de faculdade, abrir a geladeira e pegar uma cervejinha sem sair do lugar. Não, não, a quem estou enganando? Tenho é que trabalhar e passear o cão enquanto fico de olho no trabalho dos pedreiros e inventar o que fazer de janta usando uma panela só e o fogareiro de acampamento.

Agora é esperar para que tudo seja resolvido rapidamente. E se alguma receita esdrúxula aparecer aqui no meio do caminho, não terá sido mera coincidência.

Cozinhe isso também!

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