quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Chovendo no molhado: meu item primordial contra o desperdício de coisas verdes folhosas

Quando morava com meus pais, verduras eram um problema sem solução. Minha mãe as comprava em grande quantidade, na esperança de que isso nos incentivasse a comer mais delas, mas a verdade é que o apetite mais voraz por coisas verdes não era capaz de exterminar as benditas antes que elas estragassem na geladeira.

Quando me mudei, contraí o mesmo mal. Peço a cesta orgânica uma vez por mês, pois o que vem costuma bastar para duas pessoas durante esse período. Quando vêm muitos legumes e raízes, tudo bem. Mas há meses em que recebo 6 pés de diferentes tipos de alface, mais espinafre, escarola, rúcula, couve... Então bate o desespero, pois você não acredita que seja possível consumir tudo aquilo em duas bocas dentro do "prazo de validade" das folhas.

Demorei muito tempo para adquirir minha centrífuga de saladas. Principalmente porque elas costumavam custar mais de cinqüenta reais, e Allex não me deixava comprá-las de jeito nenhum, considerando-as uma tranqueira inútil. Mas quando elas proliferaram nos mercados e surgiram por aí por menos de 30 merrecas, não consegui conter mais meu impulso. E, desde então, tem sido uma das minhas melhores aliadas contra o desperdício de coisas verdes.

Assim que as folhas chegam em casa, vão direto para a pia, onde são lavadas sob água corrente, folha pro folha. Eu pulo tudo aquilo de deixar de molho em vinagre ou cloro, porque:
  • acredito na força do meu organismo para combater qualquer invasor invisível não lavável;
  • não acredito nesse mambo-jambo de esterilização geral de tudo o que nos cerca (coliformes, germes e bactérias existem até na sua escova de dentes, e você não vive doente por isso);
  • os vegetais ficam ali absorvendo água, e por isso apodrecem mais rápido; fora que eu SINTO o gosto deles diferente depois do tempo de molho.
Depois da lavagem, vão para a centrífuga, e adoro ver a curiosidade do cachorro quando começo a girar a manivela, todo inquieto por causa do barulho leve de "turbina" provocado pelo movimento. E aqui vem os dois truques mais úteis que tenho a ensinar:
  1. Escolha um pote ou saco plástico que comporte todas as folhas folgadamente. Coloque uma ou duas folhas de papel-toalha no fundo do pote, cubra com as folhas, e cubra novamente com papel-toalha antes de fechar muito bem a tampa. Se usar o saco, empilhe as folhas uma em cima da outra, enrole-as em papel-toalha e então coloque-as no saco, tentando tirar boa parte do ar antes de fechá-lo bem. O papel absorverá toda a umidade excedente das folhas e fará com que elas continuem secas e crocantes por mais tempo.
  2. Antes de guardar as folhas separe as mais murchinhas ou manchadas das mais novas e frescas. Guarde-as em potes ou sacos separados; assim você pode usar as murchinhas primeiro, sabendo que as mais novas estão separadas e durarão mais tempo. Também porque as manchadas começarão a estragar antes e, uma vez estragadas, acelerarão o processo das outras mais novas.
Desta forma, já consegui manter pés inteiros de alface na gaveta de legumes da geladeira por duas semanas, sem que elas sofressem perda de crocância ou frescor. Se o papel encharcar, troque-o.

Caso, no entanto, seus pés de alface realmente tenham murchado e estejam muito sem graça para uma salada, não os jogue fora. Refogue-os e use-os como recheio para esse pão. Claro, também demorei uma eternidade para me dar conta de que poderia fazer o mesmo com os maços de cheiro-verde que murchavam na geladeira de um dia para o outro. Hoje, eles duram mais de uma semana.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Rigatoni (de uma designer ocupada) ao perfume de canela

Sabendo que em pouco tempo Allex chegaria com seu amigo para almoçar em casa, saí correndo a preparar um prato que servisse bem aos três, e que fosse ao mesmo tempo saboroso e fácil, pois ando ainda submersa em trabalho e não podia me dar ao luxo de passar uma manhã preparando um almoço sofisticado.

Desta necessidade surgiu esse rigatoni ao forno, que acabou ficando tão bom que pretendo repeti-lo outras vezes.


























RIGATONI
GRATINADO AO MOLHO DE TOMATE E CANELA
Tempo de preparo: 45 min.
Rendimento: 4 porções


Ingredientes:
  • 400g de rigatoni
  • 1 cebola picada
  • 1 dente de alho grande picado
  • 2 colh. (sopa) de azeite extra virgem
  • 1/2 colh. (chá) de orégano
  • 2 tomates italianos orgânicos
  • 1 lata (400g) de tomates italianos pelados
  • 1/4 colh. (chá) de canela em pó
  • 1/4 colh. (chá) de açúcar orgânico claro
  • sal e pimenta-do-reino a gosto
  • 1 punhado de salsinha picada
  • 1 1/2 xíc. de queijo parmesão ralado grosso

Preparo:
  1. Coloque a água do rigatoni para ferver e comece o molho. Quando a água do rigatoni estiver fervendo, salgue (1 colh. de sopa) e coloque nela o rigatoni, cozinhando por cerca de 80% do tempo descrito no pacote.
  2. Aqueça o azeite e refogue a cebola, o alho e o orégano em fogo baixo, até que fiquem bem macios e ligeiramente dourados.
  3. Corte os tomates frescos em quartos, no sentido do comprimento, e depois em pedaços de cerca de 2cm. Junte-os à cebola e mexa, cozinhando até que estejam bem moles, mas ainda sem virar purê.
  4. Junte o tomate em lata ao molho, com seus sucos, quebrando os tomates com uma colher de pau, e mexendo de vez em quando, e deixe em fogo baixo enquanto o rigatoni cozinha.
  5. Escorra a massa, passe-a sob água fria da torneira para parar o cozimento e coloque em uma travessa refratária.
  6. Nesse momento, você poderá ver uma camada de óleo na superfície do molho. Desligue o fogo, junte a canela, o açúcar e a salsinha e tempere a gosto. Cubra o rigatoni com o molho, misturando bem. Espalhe o queijo uniformemente por cima, deixe escorrer um fio de azeite e leve ao forno pré-aquecido a 200ºC por 15 minutos, até que o queijo esteja bem derretido. Sirva imediatamente com uma porção de queijo extra.

Felicidade é um prato de strogonoff!


Na época em que comia carne, há muitos anos atrás, meus dois pratos favoritos eram lasagne à bolonhesa e strogonoff de frango da minha mãe. Strogonoff, principalmente, a despeito do fato de ser um prato ligeiramente brega, era algo que eu reservava tempo e espaço no estômago para comer quantidades atrozes. Eu a-do-ra-va.

Imagine minha tristeza no dia em que me dei conta de que simplesmente não conseguia mais colocar um pedaço de frango na boca.

Nunca mais comi strogonoff desde então. Principalmente porque todas as versões vegetarianas que encontrava usavam proteína de soja texturizada (que detesto) ou eram mirabolantes misturebas de vegetais, incluindo milho (!!!), que me apeteciam muito pouco. Tentara uma vez com cogumelos secos chilenos, mas ao encontrar pequenas mariposas boiando na água dos cogumelos, desisti dos cogumelos e do strogonoff.

Então, folheando meu livro novo, eis que surge uma luz no fim do túnel: strogonoff vegetariano de cogumelos, usando shiitake, portobello e cogumelos de paris.

Não tive dúvidas: saí correndo ao mercado para comprar os cogumelos. Acabei não usando todas as espécies requeridas, pois daria uma quantidade abissal de strogonoff; troquei Xerez por Marsala, e fiz meu próprio sour cream, com um resto de creme de leite fresco que havia na geladeira. Claro, não me contive e acrescentei aos cogumelos um cubinho que eu congelara da água dos Porcini.

Ficou tão bom que comemos em dois uma porção para quatro.

STROGONOFF DE COGUMELOS
(Adaptado ligeiramente do livro Feast - Food that celebrates life)
Tempo de preparo: 30 minutos

Rendimento: 4 porções


Ingredientes:
  • 1 cebola
  • 1 dente de alho
  • 250g de cogumelos de paris
  • 150g de shiitake
  • 50g de manteiga sem sal
  • 1 colh. (chá) de sal
  • 2 colh. (sopa) de vinho Marsala
  • 1/2 colh. (sopa) de páprica picante
  • noz moscada ralada na hora (bastante, mas a gosto)
  • 250ml de creme azedo
  • 1 punhado de salsinha
Preparo:
  1. Pique as cebolas e o alho e refogue em um pouco de azeite, numa panela grande, em fogo baixo, até que fiquem bem macias, mas sem pegar cor.
  2. Retire os talos dos shiitake. Fatie os shiitake e os cogumelos de paris. Acrescente a manteiga à panela com as cebolas e deixe derreter. Junte os cogumelos, mexa bem, tampe, e deixe cozinhar por 15 minutos.
  3. Tire a tampa e junte o restante dos ingredientes, menos a salsinha. Mexa, deixe levantar fervura e desligue o fogo. Misture a salsinha picada e sirva com arroz branco.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Iêeeeei! Livro novo!

A despeito do fato de ela estar perdendo um pouco a noção das coisas, usando suco de limão em garrafinha e ganhando peso como um lutador de sumô, continuo gostando de Nigella. Seus programas de tv andam caindo numa breguice sem fim, e ela com certeza explora mais a imagem dos filhos do que deveria. Mas, ainda assim, suas receitas dão certo. Sempre. Já preparei pratos salgados seus muito mais saborosos do que outros de Jamie Oliver e afins, e suas panquecas já bateram as panquecas de um de meus livros favoritos, o Professional Baking, e são quase obrigatórias em minhas manhãs de domingo.

Por esse motivo mesmo ignorei completamente as críticas encontradas na Amazon, dizendo que ele continha poucas receitas 100% vegetarianas, e, tendo encontrado a versão inglesa do livro na Cultura (original, no sistema métrico), não resisti. Comprei o livro. Mesmo detestando a temporada de TV com mesmo nome, em que ela é aparentemente instruída pelo diretor a falar mais devagar e gesticular de forma pouco natural, como se para tentar ganhar o público americano (tanto que, vendo seu novo programa, Nigella Express, ainda sem data de estréia no Brasil, ela "volta ao normal", falando rápido e agindo mais naturalmente).

Tendo folheado o livro rapidamente, já encontrei muitos itens que me deixaram com vontade de correr para a cozinha. E tendo já preparado uma versão vegetariana de seu chilli e uma adaptação ligeira de seu quadruple chocolate cake, acredito que há muitas coisas boas por vir.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

PADARIA DE DOMINGO 6: Pão Cubano

O que torna esse pão cubano eu não sei, já que ele não tem nada de diferente da velha fórmula farinha, água, fermento, sal e açúcar. O que importa é que ouvi um "é um dos melhores que você já fez", e isso vindo do marido (pior crítico que eu) quer dizer muita coisa. De fato, não há nada nesse pão que eu não tenha gostado: a crosta é firme, fina e quebradiça, crocante sem ser dura como de pães italianos; o miolo é muito macio, denso e saboroso, sem gosto de fermento, perfeito para uma passadela de manteiga. Acredito que sua textura se deva à maior quantidade de água na massa, que fica ligeiramente pegajosa antes da primeira fermentação. É muito tentador sair acrescentando mais farinha ao processo, mas me contenho, lembrando que nem todos os pães são secos e lisos ao toque nessa etapa.

Este e um daqueles pães que me dão vontade de pegar com as duas mãos e separar suas metades com os polegares. Acho particularmente interessante o desenho da massa que estirou-se e rasgou-se ao crescer e endurecer no forno.

A receita é, como sempre, no Professional Baking, a não ser pelo fato de eu usar sempre fermento instantâneo ao invés do fresco (apenas por ter sempre dele em casa) e de andar usando açúcar demerara ao invés do comum. Não sei até que ponto isso afeta a textura do pão, mas lembro-me de já ter feito esse pão antes, e ele não tinha ficado tão saboroso. Será?

PÃO CUBANO
(Ligeiramente adaptado do livro Professional Baking)
Tempo de preparo: 2h30
Rendimento: 1 pão de 600g


Ingredientes:
  • 375g de farinha de trigo especial para pães
  • 235g de água morna
  • 5g de fermento ativo seco instantâneo
  • 15g de açúcar demerara orgânico
  • 7g de sal

Preparo:
  1. Misture todos os ingredientes em uma tigela até que se forme uma massa. Sove, tentando não acrescentar mais farinha ao processo, até que a massa fique lisa, mas ainda ligeiramente grudenta. Forme uma bola e deixe fermentando a 27ºC por 1 hora.
  2. Puxe as beiradas da massa para seu centro e afunde-a, para retirar-lhe todo o ar. Forme uma bola e deixe descansando na bancada por 5 minutos, para relaxar o glúten. Você verá que já nessa etapa a massa grudará menos.
  3. Achate a massa com as mãos, puxe as laterais para o centro e forme novamente uma bola lisa, sem fendas (para fazer isso, enrole-a com as duas mãos, como um brigadeiro gigante, numa superfície SEM farinha; é importante que a massa grude ligeiramente na bancada para que seja moldada corretamente).
  4. Coloque a massa moldada em uma assadeira polvilhada com farinha de milho. Deixe fermentar novamente, até que dobre de tamanho (cerca de 20-30 min.). Enquanto isso, pré-aqueça o forno a 200ºC.
  5. Pincele a massa com água e faça-lhe um corte em forma de cruz. Leve ao forno por cerca de 30 minutos, ou até que esteja bem dourado e que produza um som oco ao bater-lhe na parte de baixo com os nós dos dedos.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Nóis toma sol na laje: sorvete de ameixas e a fonte do mofo


Com um dia bonito de sol, sem perspectiva de chuva, tiramos o cãozinho e o levamos... para a laje. Não sei se é o vento, o sol, o fato de estar no alto; de qualquer forma, ele parece adorar a laje, e brinca mais ali do que quando o levamos ao parque. Muito prático, já que está a apenas um lance de escada de distância, e não temos de pegar carro de mãe emprestado nem pagar zona azul.

Foi numa dessas que descobrimos o motivo do mofo no nosso armário. Um furinho, coisa pequena, de nada... Só dá para passar um punho inteiro pelo buraco gigante na laje, que fica, por acaso, exatamente sobre a parede do meu quarto onde fica o armário embutido. É mole?

Corre para lá, corre para cá, o cão cansa, e, voltando para o apartamento, feliz e contente, desaba debaixo da mesa, seu lugar favorito para sonecas vespertinas. Enquanto ele dorme e Allex se deixa hipnotizar pelo video-game, resolvo fazer um sorvete de ameixas.

O pacotinho de ameixas da minha despensa era ainda da cesta de Natal de Allex, e eu nunca as teria comprado, pois vinham com caroço. Mas a madame-nada-de-desperdício resolveu descaroçá-las e colocá-las em uso, acreditando que seria uma tarefa fácil.

Para quê? Foi um verdadeiro "ameixacídio", uma carnificina escalafobética, e estou até agora com dorzinhas nas pontas dos dedos por causa de pedaços de ameixa que se enfiaram embaixo das unhas. Faça um favor a você mesmo: deixe o trabalho sujo para outra pessoa e compre ameixas sem caroço.

Havia duas receitas distintas para sorvete de ameixas, mas nenhuma era a que eu queria. Veja bem: no que se refere a sorvetes, nunca fui uma criança muito ortodoxa. Deixe morangos e chocolates para crianças menos aventureiras. Meus verdadeiros amores sempre foram sorvetes de gente grande: pistache, nozes, gianduia, ameixas, entre outros que normalmente fazem Allex torcer o nariz. A primeira receita, do Ultimate Frozen Desserts, usava a base de gelato italiano, com muitas gemas e pouco creme de leite. Mas só havia três ovos na minha geladeira, e eu os estava reservando para outra coisa. A segunda receita, do Perfect Scoop, e levava uma quantidade considerável de Armagnac e creme azedo, nenhum dos dois presentes na despensa. Mesmo porque eu não queria sorvete de ameixas com Armagnac; queria só sorvete de ameixas.

Decidi botar a cachola para funcionar e fazer uma mistureba muito bem feita das duas receitas, e a versão final ficou nem a cara de uma, nem a fuça de outra: acho que é filha do padeiro. Ficou, no entanto, inegavelmente sensacional, com um sabor muito mais rico e interessante do que eu esperava. E acredito que possa ser livremente adaptada para outras frutas secas melequentas, o que me faz olhar com outros olhos para aqueles cajus secos da despensa. Se você for fã de ameixas secas, esse é seu sorvete.

SORVETE DE AMEIXAS SECAS
Rendimento: 1 litro
Tempo de preparo: 30min. + 1 hora para esfriar


Ingredientes:
  • 200g de ameixas secas sem caroço
  • 1 xíc. de creme de leite fresco
  • 1 1/2 xíc. + 2 colh. (sopa) de leite integral
  • 1/2 xíc. de açúcar orgânico claro
  • 1/2 colh. (chá) de essência de baunilha
  • 1/2 colh. (chá) de rum escuro
  • 1/4 colh. (chá) de sal
Preparo:
  1. Coloque as ameixas, o açúcar, o leite e o creme de leite numa panela e leve ao fogo baixo, até que surjam pequenas bolhas nas laterais. Não deixe que ferva. Desligue o fogo, tampe e deixe descansar por 10 minutos.
  2. Bata o creme com o resto dos ingredientes num liqüidificador até misturar bem, mas deixe ainda alguns pedacinhos de ameixa. Leve à geladeira por 1 hora ou até que esteja bem frio. Coloque na sorveteira e prepare o sorvete segundo as instruções do fabricante.

Sweeny Todd e as tortas de carne com as quais nunca terei de me preocupar

Eu adoro o Tim Burton. Talvez seja meu passado pseudo-gótico que permanece mais enraizado do que eu gostaria de confessar. Adoro as histórias que ele escolhe filmar, adoro sua direção de arte, seu senso de humor bizarro, e seu talento para encontrar as pessoas perfeitas para seus papéis. Quando a parceria é com Johnny Depp, então, eu sou a primeira a comprar pipoca e esperar ansiosamente na fila do cinema. (Hmmm... pipoca...)

Ontem fui assistir ao filme Sweeny Todd. É claro. Não era tudo o que eu esperava, porque não é por ser fã que abdico de meu senso crítico. Mas adorei (como sempre) sua luz, sua cores (ou falta delas), a representação teatral, os ângulos de câmera, as roupas. Para um musical, as canções deixam a desejar. Já se foi o tempo de My Fair Lady. E Sasha Baron Cohen com certeza me impressionou mostrando que é mais do que um comediante sem um pingo de vergonha.

Agora, vocês me perguntam, por que demônios estou falando de cinema aqui?

Porque toda a história das "Meat Pies" me fez pensar... Acho que se existe uma vantagem em não consumir carne é que você nunca comerá uma torta de abobrinhas que tenha sido prévia e inadvertidamente um gato ou um ser humano. A não ser em outra vida. Mas se um ser humano renasceu como uma abobrinha, ele provavelmente fez por merecer ser comido de qualquer forma.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Delícia (queimada) de chocolate: Pierre Hermé 2x3 Ana Elisa




Meu lado masoquista estava dando pulinhos, pedindo para que eu desse mais uma chance ao livro amaldiçoado. A verdade é que continuo muito encasquetada, principalmente depois de ter nas mãos a versão original em francês e a traduzida para o português, uma ao lado da outra na livraria, e pude conferir todos os meus fracassos assim como Hermé as escreveu. O choque foi ver que o tal do Bolo Suzy não tem erros de tradução. É aquilo mesmo, com colher e tudo. A única diferença que havia em quase todas as receitas era no tipo de chocolate. Enquanto as brasileiras dizem "chocolate com tantos por cento de cacau ou meio amargo", as francesas especificam apenas a primeira opção. Sem substituições. O que para mim faz muito sentido, pois trocando um chocolate a 70% por um "tipo cobertura" da Nestlé, você está alterando a quantidade (e tipo) de gordura, quantidade de açúcar e quantidade de amido da receita, o que pode, dependendo da sensibilidade da mesma, provocar pequenas mas notáveis alterações no resultado.

De qualquer forma, continuo afirmando que não vou jogar o livro fora ainda. Se eu conseguir encontrar duas receitas "repetíveis", para mim está bom.

Apesar da estranheza que me causou o processo desta receita específica, resolvi levá-la a cabo, pois tinha um potinho de amêndoas moídas que logo sairia andando sozinho da geladeira. Eu nunca vi um bolo tão estranho. Bater gemas com açúcar. Ok. Derreter chocolate. Ok. Misturá-lo às gemas. Ok. Misturar a manteiga em temperatura ambiente às amêndoas e à farinha. O.. Hein? E quando virar uma massaroca com cara de marzipã, misturá-a ao reboco de chocolate e gemas (ficou mesmo parecendo reboco). Achei que a coisa toda viraria um tijolo, mas a manteiga acabou suavizando a mistura. Então, voltando à vida normal, bater claras em neve e misturá-las ao restante. Com cuidadinho.

Tudo para a forma milimetricamente untada e enfarinhada, e para o forno a exatos 200ºC. Vinte minutos?, pensei, lembrando do fiasco do bolo Suzy. O timer tilintou e lá fui eu com um palitinho. Porque dessa vez, pelo menos, Hermé avisa que o bolo tem que sair sequinho. Espeta. Ainda um tantinho úmido. Marquei mais cinco minutos. Incorri no erro fatal de ir responder a e-mail de cliente (ou você achava que eu passo o dia cozinhando? Fiz o bolo no meu horário de almoço, tá?!) , e, cinco minutos depois, o cheiro de queimado era inconfundível.

Desenformei a "delícia de chocolate", que mostrava para o mundo sua bunda tostada, e virei-o novamente na grade. Então eu vi. Vi aquele sorriso sarcástico para cima de mim, aquele bolo com cara de sapo rindo da minha cara. Ok, eu enlouqueci.

Deixei que esfriasse para experimentá-lo e... ok. Gostei. Deu certo. Não é demasiado rico para meu paladar, como fora o Suzy, mas suave, muito macio e úmido. Dá até para passar por cima do queimado e dizer que sim, deu certo. Sem adaptações. Eu faria de novo.

Mas antes... compraria uma tigela extra da batedeira. Afe, que dor no braço! Se você tem o livro e resolver fazer o bolo, faça um favor a você mesmo e compre uma tigela extra para sua batedeira. Ou escolha sabiamente suas batalhas. Bata as gemas e o açúcar na mão, e deixe as claras para a batedeira. Não o contrário, como eu fiz. Ê, antebraço fora de forma...

Eu só sei receber presentes quando eles vêm de longe...

Tenho de confessar uma coisa: eu não sei receber presente. Sempre gostei muito mais de dar presentes do que de receber, porque EU NÃO SEI RECEBER PRESENTES. Fico vermelha, sem graça, não sei se agradeço efusivamente ou se apenas um "obrigada" educado basta. E quanto maior a expectativa do presenteador, pior me sinto. Já houve terríveis mal-entendidos por causa disso, inclusive com meu marido, que já me deu presentes acreditando que eu pularia de alegria e, embora pulasse de alegria por dentro, teve de se contentr com minha cara desconfortavelmente constrangida. Não sei por que sou assim. Simplesmente sou. Não sei reagir, e por isso acabo ofendendo muita gente.

Por isso achei fantástico isso de receber presente pelo correio. É outra coisa poder abrir a caixa com calma, sem o presenteador em cima do seu pescoço aguardando ansiosamente. Porque mesmo eu avisando para os presenteadores que EU NÃO SEI RECEBER PRESENTES, ainda assim eu arrumo problemas quando não reajo do jeito que eles esperam.

Dessa forma, não. Eu relaxo, gosto do presente e posso pensar numa forma adequada de agradecer. Com calma.

Chegou hoje esse pacote de Recife, trazendo castanhas de caju, rosquinhas de bolo de rolo e rapadura. Quitutes enviados por Fernanda, que começou seu blog há pouco tempo. Se existe uma coisa de que estou gostando (sim, eu mesma, serzinho notoriamente anti-social) é essa interação com pessoas que, de outra forma, jamais teria a oportunidade de conhecer.

Obrigada, Fer! Adorei os quitutes e sua delicadeza!

A estréia da panela de barro não poderia ser mais simples: feijões

Dizer que a receita é de Jamie Oliver seria uma afronta a todos os cozinheiros do mundo que fazem feijão; principalmente os toscanos. Não há nada de novo na mistura de feijões, tomates, alho e ervas, principalmente quando você encontra a mesma receita em todos os seus livros.

No entanto, desde que comi meu primeiro prato de feijões na Toscana, é assim que os preparo sempre, e só cito J.O. para não ter de ouvir depois que peguei a receita de algum lugar e não dei crédito.

Deixei os feijões brancos de molho durante a noite e cozinhei-os na minha panela de barro, com três dentes gordos de alho com casca, um ramo de alecrim e um de tomilho colhidos da janela, um tomate cortado ao meio e algumas folhas de louro. Desliguei o fogo, retirei metade do líquido, amassei o tomate e o alho descascados e voltei-os à panela, retirando os galhos desfolhados das ervas. Temperei com sal, pimenta-do-reino, azeite extra-virgem e vinagre de champagne, acrescentando um punhado generoso de salsinha fresca picada.

Comi esses feijões no almoço, sobre duas grossas fatias de pão rústico integral grelhadas.

Cozinhe isso também!

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