terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Aaaaah, polenta quentinha...

Não sou muito fã de polenta instantânea. Normalmente prefiro reclamar durante os 40 minutos que fico em frente à panela, mexendo a bendita da polenta de verdade, do que reclamar depois, com o gosto e a textura da polenta instantânea no meu prato. No entanto, quando a cunhada me deu um pacote da instantânea, quem sou eu para fazer desfeita?

A primeira coisa que notei foi o número de ingredientes da polenta: um. Pois é, 100% farinha di mais, dizia. Lembrei-me da Polentina e outras calamidades que já passaram por minhas mãos. Não gosto de Polentina porque ela já vem salgada, e acho o uso de sal em processos industriais sempre muito além do necessário, e acabo, após a refeição, bebendo água como se tivesse atravessado um deserto.

Ao contrário da Polentina, entretanto, essa polenta ficava pronta em menos de 2 minutos após ser acrescentada à água, um milagre conseguido por um processo misterioso de pré-cozimento, segundo a embalagem. No fim das contas, a danada ficou muito boa para uma polenta instantânea. Se conseguirem encontrá-la em algum empório por aqui, recomendo àqueles que têm medo da polenta tradicional: Molino di Ferro, chama-se.

Servi-a com lentilhas verdes cozidas com cebola, alho e ervas provençais, e temperadas com tomates, salsinha fresca e um vinaigrette de azeite, vinagre balsâmico e mostarda de Dijon.

Aliás, obrigada novamente à cunhada, que foi responsável, com seus presentes, por todas as nossas refeições desde sua chegada: tortellini di radicchio num dia, piadina com queijo e tomates no outro, polenta com lentilhas, sopa de cogumelos porcini, e spaghetti al pesto. Supermercado para quê?

PADARIA DE DOMINGO 5: quando a vida te dá limões, faça limonada; mas não reclame se estiver azeda demais.

Ou, traduzindo: se a vida der a você mofo no armário, goteira no quarto e um modem queimado (é, teve dessas também), faça um pão francês "country-style", mas evite ficar ainda mais estressado se o pão não sair exatamente como você esperava...

O humor aqui em casa até que está muito bom para duas pessoas que dormiram na sala (o pobre marido que dormiu no chão com o cachorro merece um prêmio) por duas noites e passaram os últimos dois dias plantados em casa fedendo a Lysoform e esperando pelo técnico da Net. Modem arrumado, armário limpo, uma tarde descabelada de arrumação de roupas com o cachorro pulando entre os cabides (aproveitando para separar boa parte para doação), e finalmente posso sentar ao computador e escrever um pouco.

Ontem, no auge de um surto psicótico, resolvi arregaçar as mangas, esquecer a dor de cabeça causada pelo spray fungicida e preparar esse pão francês. Não é um pão FRANCÊS, mas um pão que é DA França. Feito em parte com farinha integral e com uma esponja que demora cerca de 4 horas para fermentar. O processo foi todo muito fácil, mas talvez por causa da temperatura baixa na cozinha, da umidade do ar, do fato de haver instruções conflitantes no livro e eu ter decidido por uma delas (aparentemente a errada) e ter assado o pão sem vapor, ele não ficou tão interessante quanto eu gostaria. Apesar de charmoso, seu miolo ficou denso e sua crosta não ficou nem leve e quebradiça nem robusta e crocante, mas apenas borrachuda, como pão italiano amanhecido. O gosto ficou ok.

Em parte culpo a farinha, para falar a verdade. Costumo usar a farinha integral orgânica da Cotrimaio, que, em relação a esta que comprei dessa vez (Jasmine, também orgânica) é mais fina e mais clara. Como guardo farinhas em potes de vidro assim que as compro, não tenho as duas embalagens à mão para comparar seus nutrientes e propriedades, mas fiquei com essa impressão estranha de que a farinha da Jasmine é mais "pesada", e talvez isso tenha influenciado na textura do pão. Pelo menos foi divertido moldá-lo dessa forma.

Acho que fico devendo uma receita mais satisfatória para o domingo que vem. E prometo que será domingo mesmo, e não terça-feira...

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Vou passar esse mofo no leite e ver se faço gorgonzola

Calor. Muito calor. Ainda mais no seu "apertamento" cujo teto é a laje do prédio, sem cobertura. Forno. Ventilador não faz nem cócegas. Então chove. Chove a cântaros. Chove o suficiente para seu cachorro entrar em desespero por não poder sair de casa. E quando você o leva para passear debaixo de chuva, ele faz cara de coitado e o arrasta de volta para casa sem ter feito suas necessidades básicas.

Então sua cunhada chega do exterior para uma visita que durará um mês. O que é muito bom, porque você a adora, mas o primeiro fim de semana consome um pouco seu tempo. E chove. E faz calor.

Então você resolve pegar uma bolsa no fundo do armário e... surpresa: a bolsa está peluda. Peluda? É. Mofo. Começa a tirar do armário sapatos, agasalhos, casacos, pijamas e uma série de envelopes com seus mais recentes trabalhos de design, só para descobrir que o fundo do armário está úmido, mofado e repleto de bichos. Assim como muitas de suas coisas. Nojo. Você tira tudo, TUDO, do armário. Joga fora quatro pares de sapatos e uma bolsa, todos suficientemente peludos de mofo para que você não tenha vontade de salvá-los. Coloca todas as roupas que entraram em contato direto com o mofo na máquina de lavar e exagera no sabão em pó.

Fica enfurecido porque há 1 ano atrás avisara síndico e zelador da infiltração que começara em seu apartamento e fora desacreditado. Agora tem um armário mofado e uma goteira no quarto para provar sua tese.

Sai correndo para o churrasco de boas vindas da cunhada. Bebe um pouco e ri um monte. Esquece dos problemas por um tempo. Volta e passa na farmácia para comprar um spray antifúngico. De volta à realidade. Tudo o que você tem está espalhado pelo seu quarto, que está fedido de mofo e spray, e onde você não vai dormir hoje à noite. Não, hoje você dormirá na sala, no sofá. Marido no chão, porque ele foi gentil e cedeu o sofá para você.

Você tem vontade de cozinhar? Tem vontade de fazer pão? Tem vontade de fazer sobremesas elaboradas?

É.

Eu também não.

Desculpem-me os que aguardaram pelo Vítimas Culinárias ou pelo Padaria de Domingo essa semana. Vou ver se compenso essa falta ainda durante o carnaval. Mas não hoje. Hoje quero arrancar a cabeça de alguém.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Gostosuras da Itália

Minha cunhada chegou hoje da Itália para visitar a família e nos trouxe essas gostosuras que fazem parte de seu dia-a-dia. Metade da mala era de suas roupas, a outra metade, de comida para todo mundo, incluindo um enorme speck para seus pais. Afinal, o que há de melhor para se trazer da Itália que comida??

A lista inclui um pacote de polenta, um vidro de pesto alla genovese (o mesmo que ela nos enviara uma vez, muito gostoso), um de pesto alla siciliana (feito de ricotta e nozes), um pote de queijo mascarpone, um pacote de sopa de cogumelos porcini, piadelle da Barilla (a mesma também da outra vez), um pacote de tortellini de radicchio di Verona, e meu favorito e que estou louca para experimentar: um panettone de limoncello!

Grazie mille, Wenddi! Nossas barrigas agradecem!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Chuva das 18h

Depois de um dia inteiro de calor sufocante, a chuva das seis horas desceu como uma bênção. Estiquei minha cabeça para fora da janela do quarto e inspirei fundo seu cheiro. Um cheiro verde de mato molhado que não sei bem de onde veio, mas que me levou às épocas em que ia à chácara aos fins-de-semana, e a chuva refrescava mas também nos deixava, seis pessoas, trancafiadas dentro de uma casinha pequena de tijolos, sem muito mais do que fazer além de jogar rouba-monte e tomar sorvete de limão da minha avó.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Mais caseiro impossível: torta coringa da Sra. Minha Mãe

Há determinados pratos que, só de sentir o cheiro, transportam-nos imeditatamente à casa de nossos pais. Essa torta é um deles. Passei toda a minha vida comendo dela, cada vez com um recheio diferente, pois seu sabor dependia exclusivamente das sobras que havia na geladeira. Frango desfiado, batatas, ervilhas, milho, atum, vagens, cenouras, o que fosse. Sobrou, faz torta.

Aqui em casa, entretanto, como raramente há sobras de qualquer coisa (porque o que sobra de um jantar para dois eu costumo comer no meu almoço solitário), quase sempre saio para comprar ingredientes exclusivamente para a produção da mesma, quando bate o saudosismo. Adorava comê-la fria direto da geladeira, o que a torna uma excelente opção para ser assada numa assadeira retangular e cortada em quadradinhos, para ser servida fria, como aperitivo, acompanhando uma cervejinha de uma forma mais saudável. Só não façam como eu, que, contrariando as recomendações maternas, insisto em usar tomates. Eles são úmidos demais e deixam a massa muito molinha (como se vê na foto), quando, na verdade, ela deve sair bem sequinha do forno.

Divido aqui com vocês uma de minhas melhores lembranças de infância e uma ótima receita de sobras para começar minha campanha "JOGA FORA NÃO!", já que teve gente que me escreveu dizendo que não conhecia muitas receitas para aproveitar sobras de alimentos. Por enquanto, o Joga Fora Não vira só uma categoria no blog. Mas, como tempo, farei uma página específica para essa área, com dicas para aproveitar ingredientes específicos que andaram dando bobeira na despensa. Esperem só!


TORTA CORINGA DA SRA. MINHA MÃE
Tempo de preparo: 10min. + 45-60min. de forno
Rendimento: 6 porções


Ingredientes:
  • 9 colh. (sopa) de farinha de trigo
  • 3 ovos pequenos ou 2 extra-grandes
  • 3 colh. (sopa) de parmesão ralado
  • 1/2 xíc. de azeite (ou óleo vegetal)
  • 1 copo americano de leite (interpreto isso como sendo 200ml)
  • 1 colh. (sopa) de fermento químico em pó
  • sal e pimenta-do-reino a gosto
  • 3-4 xíc. de vegetais já cozidos (e carnes para quem come) em pedaços que sobraram na geladeira, mais ervas e temperos a gosto
Preparo:
  1. Bata todos os ingredientes menos o recheio num liqüidificador ou batedeira até ficar homogêneo.
  2. Unte uma travessa média (de uns 30cm) com manteiga e despeje metade da massa (bem líquida), inclinando a travessa para que a massa cubra o fundo. Parece nada, terá apenas 0,5cm de altura de massa. Espalhe o recheio por cima e cubra com o resto da massa, preenchendo os espaços da forma mais uniforme possível.
  3. Leve ao forno pré-aquecido a 180ºC até que a superficie esteja bem dourada e uma faquinha saia completamente seca ao ser espetada em seu interior. Sirva quente ou fria. A torta fica sensacional de um dia para o outro.

A torta da foto teve como recheio tomates sem sementes em pedaços (grande erro), queijo branco, milho, grão-de-bico e salsinha, temperados com sal e pimenta. Mas minha mistura favorita na época que morava com meus pais e comia carne era de peito de frango desfiadinho (ou atum), batatas cozidas cortadas em cubos, ervilhas e milho em lata.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Pão de forma para tostex



Sei que não é domingo. Mas ontem, quando Allex disse que estava com vontade de jantar sanduíche no tostex, não quis comprar pão industrializado. Preparei rapidamente a massa do pão de forma e saí para comprar queijo.

O pão cresceu maravilhosamente e adquiriu o tom dourado mais bonito de todos os pães de forma que já fiz. Mas Allex chegou mais cedo do que eu previra e acabei me apressando e tirando o pão do forno uns 5 minutinhos antes do que deveria, pois estávamos famintos. Erro besta justificável, pois pela cor e pelo som ele parecia prontíssimo. A verdade é que faltava secar mais um pouquinho, pois ele tinha pontinhos ainda densos e úmidos dentro do miolo. Coisa pouca, nada que nos impedisse de fazer os sanduíches no tostex velhaco que era da minha avó e tem um cabo de madeira com a tinta preta toda descascada. Apesar dos pontinhos densos, ele ficou excepcionalmente macio, de casca dura ao sair quentinho do forno e molinha como deve ser quando frio.

A receita é aquela mesma da outra vez. A diferença é que desta vez usei o leite em pó desnatado mesmo (só bebo leite integral, e o leite em pó desnatado é uma mão na roda para essas receitas) e usei açúcar demerara em lugar do comum. Se usar o fermento instantâneo seco, não precisa nem diluí-lo na água, é só misturar todos os ingredientes na batedeira ou na tigela e mandar ver.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Sorvete de Pitanga

Adoro pitangas. Mas não tenho uma pitangueira em casa [*suspiro*] nem qualquer espécie de fonte de pitangas frescas em qualquer lugar a não ser uma arvorezinha mirrada perto do clube que costuma ser assaltada por pássaros e mendigos antes que eu possa chegar perto dela. Por isso, quando tive vontade de preparar o sorvete, precisei apelar para o suco concentrado.

Comecei pela mesma fórmula do sorvete de caju (que é bastante doce), mas o gosto do leite condensado sobressaía demais. Mais um pouco do suco azedinho. Neh... ainda não. No fim das contas, acabei usando o vidro todo de suco, até que o sorvete ficasse doce mas com o sabor pronunciado das pitangas e um refrescante azedinho no final. Não sei nem se é preciso uma sorveteira para fazê-lo, pois minha avó costumava fazer sorvete de limão da mesma forma, apenas batendo tudo no liqüidificador e levando ao congelador.

SORVETE DE PITANGA
Tempo de preparo: 5 minutos (mais o tempo para gelar)
Rendimento: 1,5l


Ingredientes:
  • 1 lata de leite condensado
  • 1 xíc. de leite integral
  • 2 1/4 xíc. de suco concentrado de pitanga (sem açúcar)

Preparo:
  1. Bata tudo no liqüidificador e leve à sorveteira, seguindo as instruções do fabricante. Difícil, não?
Falando em sorvete, ontem fui à Vipiteno tomar o famosíssimo sorvete de pistache. De fato, excelente. Mas os outros sabores que experimentei não me animam a sair de casa e ir até o Itaim só para tomar sorvete. Fico por aqui mesmo, com os caseiros e, ocasionalmente, um bom Häagen-Dazs. Fora que achei muito pouco esperto da parte deles não ter um banquinho do lado de fora. Estava com o cão e o Allex teve de entrar sozinho para pegar o sorvete, que tivemos de tomar de pé, no meio da rua.

domingo, 27 de janeiro de 2008

PADARIA DE DOMINGO 4: Pão francês

"Acho que você deixou fermentando pouco tempo. Está um pouco denso...", disse Allex.
Ah, que orgulho! Foi isso mesmo!

Lembrando-me de que não havia coisa alguma de café-da-manhã hoje, comecei o pão ontem às 20h da noite. No entanto, o termômetro da cozinha marcava 20ºC, o que queria dizer que eu precisaria deixar a massa fermentando por 2 horas ao invés de 1h30. Às 22h, separei a massa em pedaços de 150g cada e moldei-os, na esperança de que inflassem e adquirissem a forma ovalada do pãozinho francês a que nos acostumamos. Mas deixei-os muito finos, e, mesmo após a segunda fermentação, eles continuavam com cara de mini-baguettes. Eram já 22h30, e eu sabia que àquela temperatura, deveria esperar cerca de 1 hora para completar a segunda fermentação. Mas não, não quero ir dormir depois da meia-noite. Sou velha. Tenho sono. Gosto de acordar cedo para aproveitar meu dia. Deveria, no entanto, ter deixado pelo menos meia hora. Mas os vinte minutos que o forno demorou para alcançar os 230ºC bastaram para mim, e lá foram os pães franceses para o forno. Meia hora depois estavam prontos e com um cheiro maravilhoso. Havia posicionado os quatro pães em duas fileiras, deixando que suas extremidades se tocassem e fundissem enquanto assassem. Foi uma delícia separar os pães quentinhos e ver aquele miolo macio se soltando, uma golfada de vapor perfumado invadindo minhas narinas. No entanto, de fato, eles poderiam ter ficado mais leves. Esperei que esfriassem completamente antes de guardá-los muito bem fechados em um saco plástico. Claro que tive de arrancar-lhes um naco antes de dormir. Boooom...


PÃO FRANCÊS

(Adaptado do livro Professional Baking)
Tempo de preparo: 30 minutos mais 2h30-3h de fermentação
Rendimento: 1 pão de 500g (ou a mesma medida dividida em pães menores)


Ingredientes:
  • 375g de farinha de trigo para pães
  • 215g de água morna
  • 3g de fermento ativo seco instantâneo ou 10g de femento fresco
  • 6g de sal
  • 8g de açúcar demerara (cristal dourado)
  • 6g de manteiga sem sal em temperatura ambiente

Preparo:
  1. Dissolva o fermento na água morna e deixe que forme bolhas na superfície. Junte ao restante dos ingrediente e sove bem até que a massa esteja lisa, elástica e não grude nos dedos. Deixe em uma tigela ou sobre a própria bancada, cubra com um pano e espere fermentar por 1h30 a 27ºC ou 2 horas a 24ºC ou menos.
  2. Afunde a massa com o punho, puxando suas pontas para o centro, tirando-lhe todo o ar. Se quiser um único pão, abra a massa com os punhos e estique-a com os dedos, até ficar com uns 20-25cm de comprimento. Enrole-a como um rocambole, mantendo seu comprimento, e apertando bem as bordas a cada rolagem, para que o miolo não tenha buracos depois de assado. Sele bem a aba e role o pão sob as palmas até atingir o tamanho de filão desejado. Senão, divida a massa em porções de mesmo peso (bolinhas do tamanho de bolas de golf — 50g — para pães de couvert; bolas de bilhar — 100g-150g — para pães de sanduíche). Deixe que relaxem por 5 minutos e então aplique o mesmo procedimento para moldá-las, mas deixando-as menos compridas.
  3. Coloque os pães em uma assadeira polvilhada com farinha de milho e deixe que fermentem uma segunda vez, até que dobrem de tamanho.
  4. Pré-aqueça o forno a 218ºC para um ou dois pães e 230ºC para pães de sanduíche ou couvert. Pincele os pães com água e, com uma faca bem afiada, faça um único corte nos pães no sentido do comprimento. Leve ao forno com uma assadeira com um pouco de água fervente na prateleira debaixo. Depois de 10 minutos, retire a assadeira e continue assando os pães até que estejam dourados.

sábado, 26 de janeiro de 2008

De louco e masoquista todo mundo tem um pouco: diamantes de chocolate

Eu sou chata. Costumo falar isso às pessoas assim que as conheço, pois é bom que elas estejam muito bem avisadas desde o começo de que, sim, eu sou chata. Sou insistente, exigente, perfeccionista, neurótica e, sobretudo, cabeça-dura. Meu marido que o diga. Experimente tentar tirar uma idéia da minha cabeça. Eu sou chata.

Por causa dessa chatice é que não me conformo em abandonar a porcaria de livro. Não é possível. E talvez seja preciso que eu produza todas as suas receitas para que me convença a jogá-lo fora (já que, também, não tive resposta nenhuma ao e-mail que enviei à Larousse). Tem gente que ama o Pierre Hermé e que daria o braço esquerdo para comer um de seus doces. Por que só comigo não daria certo? Por que só eu acharia que ele é mais uma fraude muito bem construída nesse mundinho de culto às celebridades gastronômicas? Também não gosto do Ferrán Adriá. Chovam e-mails de repúdia. Não gosto e ponto. Lembra-se de que sou chata? Pois é, também sou bastante conservadora no que se refere à comida. Sou chata.

Muni-me de toda a confiança do mundo hoje, então, depois de reler o post de Warda sobre os sablés de chocolate de Hermé, e decidi que se ela conseguira fazê-los, também conseguiria eu. O livro há de ter algo que preste, ou eu não me chamo Ana. Segui todos os passos absolutamente à risca, sem modificar um grama sequer nas medidas nem me aventurar a apressar etapas. Manteiga em temperatura ambiente, batida devagar até ficar cremosa, farinha bem peneirada, forno a 180ºC. Ao formar as bolas de massa, achei-as muito promissoras, pois tinham a mesma consistência, cor e cheiro de outro biscoito que eu já fizera uma vez, de Nigella, que havia ficado excelente (lembrei-me imediatamente da sensação melado-marrom que ela deixava nas palmas das mãos ao ser manipulada e moldada). Deixei exatos 30 minutos na geladeira, e era hora de moldá-la em forma de rolo.

A-há. É aí que entra o primeiro sinal de perigo, o momento em que as coisas poderiam ter começado a dar errado. Encontrei diversas críticas positivas aos livros de Hermé na Amazon, mas as negativas diziam todas a mesma coisa: instruções pouco precisas. De fato, pelo texto, não se sabe se ele quer que você role a massa sob as palmas até que vire um cilindro, ou que você abra a massa e enrole-a como um rocambole. Pela explicação de Warda e por minha própria experiência, acabei abrindo a massa com os punhos e enrolando-a, apertando-a e selando as fendas a cada rolagem, como, na verdade, faço com pães. Ele quer 4 cm de diâmetro? Juro que usei uma régua.

Levei de volta à geladeira, por exatas duas horas. Desta vez, no entanto, achei melhor seguir as instruções de Warda; não porque fossem mais precisas, mas porque eram mais inteligentes. O que você prefere: cortar rodelas, pincelar uma a uma com gema (só as laterais) e rolar uma a uma no açúcar, ou pincelar o cilindro, rolá-lo no açúcar e fatiar as rodelas? Ahn... dã. A segunda opção foi MUITO mais simples, e não interferiu em nada no resultado.

Forno pronto, coloquei meus 29 biscoitos nas duas assadeiras (muito bom, a receita dizia cerca de 30), fechei a porta e marquei 9 minutos no meu timer. Mas, por algum motivo (por ser gás de rua, porque é sábado na hora do almoço e o prédio inteiro está cozinhando, porque deus não gosta de mim, escolha o seu) o forno decidiu que não, 180ºC não era uma temperatura legal. O que tá na moda é 150ºC, então é isso que ele vai marcar. Aumentei o fogo para o máximo, para reaquecer o forno rapidamente, mas o marcador do termômetro subia com alarmante lentidão. Quando o timer tocou, a temperatura ainda não estava correta. Ainda assim, prossegui: troquei as assadeiras de lugar e marquei mais 9 minutos. Sentei-me em frente ao forno e fiquei torcendo para o termômetro chegar logo aos 180. Demorou mas chegou, e, ao disparar do alarme, meti meu dedinho de amianto em cima de um dos biscoitos ferventes, para checar sua firmeza. [Eu não sei se meus dedos estão calejando e sentindo menos calor ou se eu simplesmente parei de me importar com as queimaduras...]

Instrução imprecisa nº 2: "Ao final, os diamantes devem estar firmes ao toque." Eu não sei quanto a você, mas eu acredito que "firme" não é uma palavra que explique 100% da situação quando estamos lidando com biscoitos. Principalmente com um que entrou mais firme no forno do que saiu. Muitos biscoitos saem ainda moles do forno e esfriam e endurecem fora dele. Mas eu nunca fiz "diamates de chocolate de Pierre Hermé", e ele coloca a frase do "firmes ao toque" depois da frase sobre o tempo de cozimento e antes da frase que diz para que esfriem em um prato. Ergo, só posso acreditar que eles tenham de sair firmes do forno, ou a frase sobre firmeza seria a última da receita. Sou chata? Sou: eu penso demais.

Contudo, eu estava me afogando em um mar de imprecisão, pois, devido aos caprichos do forno, eu não tinha como saber se depois de fazer tudo certo, e depois de 18 minutos a 180ºC, aquilo era o mais firme que os sablés ficariam, ou se eles deveriam cozinhar mais por causa da baixa temperatura a que haviam sido submetidos. Você entende o ponto a que chega a loucura? Como meu dedo ainda afundava na massa, deixei mais dois minutos. E mais dois. E mais um, checando sempre, e o forno desistindo de chegar aos 180, com tanto abre-e-fecha de porta.

Acabei desligando o forno e retirando os sablés, pois a assadeira de baixo começara a queimar. Como imaginava, eles saíram facilmente do papel-manteiga e já estavam duros quando chegaram ao prato. Sua aparência era ótima, a não ser pelos seis que queimaram (23 se salvaram, perfeitos). Não poderiam ser mais iguais aos da foto do livro. Esperei que esfriassem antes de comê-los.

Sua textura ficou mais esfarelenta do que eu esperava, para dizer a verdade, mas isso é uma questão de gosto. O gosto. Bom... nhé. Achei-os um pouco farinhentos. Como disse, sua massa crua lembrara-me muito da receita de Granny Boyd´s Cookies, do How to be a Domestic Goddess. E, de fato, as receitas são até que parecidas. Mas enquanto os biscoitos de Nigella arrancaram elogios do meu marido, os de Hermé fizeram-no soltar um breve: ok. Mesmo tendo, finalmente, dado certo, não é o que se espera de um renomado chef pâtissier. Mas pode ser só uma questão de gosto, pois há quem os tenha feito e adorado.

Ficaram ok, e vou comê-los com sorvete, com chá ou com café. Vamos ver... Warda diz que eles vão melhorando no segundo e terceiro dias depois de prontos. Será?
Pelo menos deram certo. Certo?

Cozinhe isso também!

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