Acordei devagar, ainda que ao som histérico de dois despertadores. Sem abrir os olhos, rosto afundado no travesseiro de fronha nova, sentindo o peso do cachorro sobre uma de minhas pernas, estiquei o braço para desligar o alarme. Não precisei olhar para fora; pelo som, eu sabia que estava chovendo. Isso quer dizer que eu não correria àquela manhã, o que me irritou um bocado, já que faltara no dia anterior por não ter ouvido o toque do relógio.
Ainda de olhos fechados, concentrei-me na sensação desagradável de secura na boca e na garganta, fato que não mais ocorre desde que me treinei a respirar pelo nariz. Parece bobagem, mas eu tinha sérias dificuldades com isso, e dormir de boca aberta me dava sede e me fazia roncar. Engoli em seco e logo senti o ardor na garganta, narinas entupidas, pescoço dolorido. Abri os olhos, enfim, e levei as mãos ao maxilar, apalpando-os. Podia sentir os gânglios inchados sob a pele. Toda a minha cabeça parecia ter fechado temporariamente os caminhos de fluxo de fluidos e, por que não, de energia. Ela estava pesada, e por alguns minutos, não quis tirá-la do travesseiro.
Allex levantou-se para dar comida ao cão e começar seu dia, e eu fiquei ali, esparramada, letárgica, entupida, calculando mentalmente o tempo que tinha para o café-da-manhã, banho, pegar e-mails e sair, com uma hora de antecedência para a reunião na av. Faria Lima, que estaria completamente parada devido à chuva e à época de compras. Fiquei ligeiramente deprimida. Não queria sair da cama, que dirá sair de casa. Na chuva. Estava, no entanto, suficientemente doente para alimentar um mau humor constante até o fim do dia, mas não o bastante para faltar à reunião. Por isso levantei-me, devagar, tentando em vão esquivar-me das lambidas matinais do cachorro, que fica sempre à espreita, até nos levantarmos, pronto para dar o bote e dizer "bom dia" à sua maneira feliz e desastrada.
Minha voz soou rouca e irregular quando dei bom-dia ao marido. Meu mau humor desvaneceu-se suavemente quando ele me abraçou forte, como sempre me abraça de manhã, parecendo não ter me visto por décadas, como se dormir desse saudades. Enquanto minha micro-cafeteira individual estava no fogo, liguei o computador e comecei a ler os e-mails do dia. Lá estava o e-mail do cliente, pedindo que eu reenviasse o PDF da ilustração que eu lhe enviara ontem, mas com as correções, para que fosse anexado à apresentação da reunião daquele dia. Droga, eu fizera as correções, mas não digitalizara novamente, pois pretendia levá-la apenas em papel. Eu tinha 1 hora para fazer minhas torradas com requeijão, passar minha camisa, vestir-me, maquiar-me, arrumar o cabelo, escanear uma ilustração em folha super-A3 num scanner que só comporta A4, montar as quatro partes do desenho no Photoshop, ajustar o contraste, transformar em PDF, enviar ao cliente por e-mail, botar minhas tranqueiras na bolsa, fechar janelas, certificar-me de que o cão tem tudo do que precisa e não tem acesso a nada que ele possa destruir, ir até minha mãe, pegar o carro e dirigir enlouquecidamente até o prédio da reunião.
Estava já abrindo o portão do prédio, guarda-chuva em punho, quando o celular tocou em minha bolsa. Na tentativa de pegá-lo e fechar o guarda-chuva ao mesmo tempo, derrubei-o no chão de forma quase circense, e vi bateria para um lado, chip para o outro, corpo do celular aparentemente intacto no canto do hall. Corri para montar o aparelho novamente, reconfigurar data e hora e esperar o telefone tocar outra vez. Meio-toque e logo estava a escutar o cliente no outro lado da linha, avisando-me de que a reunião das 10h fora adiada para as 14h. Tudo bem? Tudo bem, fazer o quê?!
Subi de volta ao apartamento, sendo recebida pelo Gnocchi como se tivesse passado horas fora, mas tentando afastá-lo para que não sujasse ou rasgasse com suas unhas minha "roupa de reunião". Troquei a camisa impecável por uma camiseta velha, pendurando a peça bem passada em um cabide, para vesti-la outra vez mais tarde. Preparei um chá bem quente de camomila e resolvi terminar de tomar meu café-da-manhã com calma, servindo-me da penúltima fatia de panettone, ainda delicioso e razoavelmente úmido, para minha total surpresa (Bauducco que se cuide!).
A chuva aumentou conforme a manhã passou, e o cão começou a ficar histérico, sentindo falta de sua longa caminhada matutina. Apanhei alguns biscoitos caninos e aproveitei o tempo para treiná-lo. "Blaipdá!", dizia no meu alemão macarrônico, dando-lhe meio biscoito quando de fato ficava quieto no canto dele, esperando pelo meu comando.
A garganta continuava doendo, o chá em nada ajudara, e era preciso que eu começasse a preparar o almoço. Tudo o que havia na geladeira, porém, exigia muito pré-preparo, então resolvi dar uma de Allex e almoçar um "xis-egg" vegetariano. Coloquei o pequeno hambúrguer de soja na frigideira e, para não sujar mais panelas, quebrei um ovo diretamente ao seu lado. O cheiro pungente de enxofre atingiu minhas narinas como um soco, e amaldiçoei o mundo todo quando vi que o ovo estava completamente podre.
Joguei a mistura fétida no lixo, imediatamente fechando-o e tirando-o da casa antes que o cheiro impregnasse o ambiente. Lavei a frigideira e comecei tudo de novo, desta vez testando o ovo em um copo d´água antes de usá-lo (se o ovo afundar, está bom, se ficar de pé, está mais-ou-menos, e se flutuar, está podre).
Agora, faltando meia-hora para sair de casa, a chuva intensificou-se. Toda reunião dura no mínimo 3 horas: 1 hora para ir, 1 hora para a reunião de fato e 1 hora para voltar. No ritmo que anda meu dia, acredito que essa me tome cerca de 4 horas, o que quer dizer uma tarde inteira perdida. Com um maço lindo de espinafre orgânico na geladeira, tenho esperanças de voltar zen o suficiente para preparar o erbazzone reggiano (uma torta de espinafres da Reggio-Emilia) para o jantar. Tudo vai depender da quantidade (e tipo) de alterações que o cliente exigir com relação à ilustração e a quantidade de trânsito enfrentada ao voltar para casa. Pode ser que eu jogue a toalha de vez, admita que esse é um dia simplesmente horrível, e peça uma pizza.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
O que eu preciso fazer para conseguir bons figos nessa cidade??
Adorava figos quando criança. Assim como com morangos e alcachofras, esperava ansiosamente a temporada dos figos. Lembro-me de como eram estranhos a meus olhos infantis, suas sementinhas parecendo micro-insetinhos no meio de sua carne avermelhada, mas como eram também doces e deliciosos, e eu os comia inteiros, com casca e tudo, de uma vez, a promessa de sua doçura suplantando seu visual pouco apetitoso.
Hoje continuo maluca por figos, e passo todo o ano ignorando as caixinhas fora de época vendidas a altos preços nas gôndolas de supermercado, e espero, pacientemente, pelos plantados e colhidos no tempo certo. No entanto, assim como com tantas outras lembranças de infância, o sabor dos figos parece esmaecido. Vejo caixas de figos colhidos muito verdes em feiras e supermercados, e mesmo quando os compro muito maduros, quase passados, continuam rescendendo a água, em nada similares aos gostos de minha memória. O que eu preciso fazer para conseguir bons figos? Plantá-los eu mesma?
Minha última esperança é com os orgânicos, que não encontro nos mercados. Talvez a ausência de pesticidas traga de volta o gosto melífero de que me lembro. Mas para isso preciso esperar até quinta-feira, para fazer o pedido de figos, pêssegos (estou curiosa para prová-los, pois pêssegos costumam ser carregados de agrotóxicos), ameixas e physallis (na modinha) orgânicas. E recebê-los, só mesmo na terça-feira. Vixe! Mas terça é dia 25. Hum... terei de esperar mais, então. Bom.. Fazer o quê?! É melhor comer nada a comer fruta sem gosto.
Hoje continuo maluca por figos, e passo todo o ano ignorando as caixinhas fora de época vendidas a altos preços nas gôndolas de supermercado, e espero, pacientemente, pelos plantados e colhidos no tempo certo. No entanto, assim como com tantas outras lembranças de infância, o sabor dos figos parece esmaecido. Vejo caixas de figos colhidos muito verdes em feiras e supermercados, e mesmo quando os compro muito maduros, quase passados, continuam rescendendo a água, em nada similares aos gostos de minha memória. O que eu preciso fazer para conseguir bons figos? Plantá-los eu mesma?
Minha última esperança é com os orgânicos, que não encontro nos mercados. Talvez a ausência de pesticidas traga de volta o gosto melífero de que me lembro. Mas para isso preciso esperar até quinta-feira, para fazer o pedido de figos, pêssegos (estou curiosa para prová-los, pois pêssegos costumam ser carregados de agrotóxicos), ameixas e physallis (na modinha) orgânicas. E recebê-los, só mesmo na terça-feira. Vixe! Mas terça é dia 25. Hum... terei de esperar mais, então. Bom.. Fazer o quê?! É melhor comer nada a comer fruta sem gosto.
domingo, 16 de dezembro de 2007
Bad Food X Good Food
Não comprávamos sorvetes industrializados desde meu aniversário, quando ganhei minha amada sorveteira. Hoje, no entanto, Allex sentiu uma compulsão por sorvete de creme e deparou-se apenas com sorvete de nozes no freezer, para seu desespero. Ainda que eu dissesse que prepararia o sorvete para ele, o rapaz foi enfático ao explicitar sua vontade imediatista e foi ao mercado comprar um pote de 2 litros do sorvete "X", marca popular famosa que por muito tempo foi consumida em minha casa (antes da significativa viagem à Itália que mudou para sempre meu conceito de sorvete).
Sou neurótica sim, pode me internar, dar remédio tarja preta. Eu leio rótulos compulsivamente. Não se pode deixar uma garrafinha de pimenta no balcão da padaria e lá estou eu, olhos espremidos, lendo as letrinhas miúdas do rótulo manchado.
Enquanto o marido preparava um milkshake, eu apanhei o papelão descartado da embalagem, assim como quem não quer nada, e alimentei minha obsessão. Antes que eu começasse a listar em voz alta os ingredientes esdrúxulos (hábito ruim, confesso), Allex prontamente pediu-me que parasse, para que não estragasse seu apetite. Respeitei sua vontade, mas me pus a pensar que, se eu listasse os ingredientes de um Häagen-Dazs, um sorvete caseiro, ou qualquer BOM sorvete, dificilmente qualquer ser humano perderia o apetite.
Para que você (é, VOCÊ, que diz que não consegue parar de comer porcaria) perca seu apetite e comece a fazer escolhas melhores, listo aqui o conteúdo de um sorvete de creme genuíno e de um sorvete de creme da marca X, em nada diferente da marca concorrente Y, ambas provavelmete residindo em seu refrigerador nesse momento.
SORVETE DE CREME DA MARCA X
Leite desnatado reconstituído, açúcar, xarope de glicose, gordura vegetal, manteiga, soro de leite, carbonato de cálcio, aromatizantes, corantes naturais urucum e cúrcuma, espessantes goma guar, goma jataí, carragena, estabilizantes mono glicerídeos de ácidos graxos, polisorbato 80.
SORVETE DE CREME COMO TODO SORVETE DE CREME DEVERIA SER
Leite integral, creme de leite fresco, gemas de ovos, açúcar, extrato natural de baunilha, sal.
Levante a mão quem notou pelo menos 8 itens completamente alienígenas na receita industrial. Mesmo que a gente dê um desconto e diga "Ah, mas o sorvete é Philadelphia-style, não é para ter ovos mesmo, por isso os corantes para deixar mais amarelinho...", a diferença é ainda mais brutal, pois apenas os ovos deveriam ser omitidos, mantendo a lista de ingredientes absolutamente igual: leite, creme de leite, açúcar, sal e baunilha. Ponto.
O melhor de tudo é a propaganda de todas as marcas, X, Y, Z e afins, sobre a qualidade dos ingredientes, o fato de ser natural, cheio de leite, vitaminas, etc e tal. É... muito mais leite. Zero sabor. Zero qualidade. Ver a cara de frustração do Allex com o sorvete X foi engraçado, pois eu apenas fiquei quieta e deixei que ele falasse, enquanto futucava o sorvete com a colher: "Isso não tem gosto de nada... Eles estragaram o sorvete da X. Até a textura piorou...".
Fiquei quieta, provei, e, de fato, o sorvete é puro açúcar. Nada nele lembra baunilha de verdade. E dá licença: MANTEIGA NO SORVETE???
Revolta total.
Sou neurótica sim, pode me internar, dar remédio tarja preta. Eu leio rótulos compulsivamente. Não se pode deixar uma garrafinha de pimenta no balcão da padaria e lá estou eu, olhos espremidos, lendo as letrinhas miúdas do rótulo manchado.
Enquanto o marido preparava um milkshake, eu apanhei o papelão descartado da embalagem, assim como quem não quer nada, e alimentei minha obsessão. Antes que eu começasse a listar em voz alta os ingredientes esdrúxulos (hábito ruim, confesso), Allex prontamente pediu-me que parasse, para que não estragasse seu apetite. Respeitei sua vontade, mas me pus a pensar que, se eu listasse os ingredientes de um Häagen-Dazs, um sorvete caseiro, ou qualquer BOM sorvete, dificilmente qualquer ser humano perderia o apetite.
Para que você (é, VOCÊ, que diz que não consegue parar de comer porcaria) perca seu apetite e comece a fazer escolhas melhores, listo aqui o conteúdo de um sorvete de creme genuíno e de um sorvete de creme da marca X, em nada diferente da marca concorrente Y, ambas provavelmete residindo em seu refrigerador nesse momento.
SORVETE DE CREME DA MARCA X
Leite desnatado reconstituído, açúcar, xarope de glicose, gordura vegetal, manteiga, soro de leite, carbonato de cálcio, aromatizantes, corantes naturais urucum e cúrcuma, espessantes goma guar, goma jataí, carragena, estabilizantes mono glicerídeos de ácidos graxos, polisorbato 80.
SORVETE DE CREME COMO TODO SORVETE DE CREME DEVERIA SER
Leite integral, creme de leite fresco, gemas de ovos, açúcar, extrato natural de baunilha, sal.
Levante a mão quem notou pelo menos 8 itens completamente alienígenas na receita industrial. Mesmo que a gente dê um desconto e diga "Ah, mas o sorvete é Philadelphia-style, não é para ter ovos mesmo, por isso os corantes para deixar mais amarelinho...", a diferença é ainda mais brutal, pois apenas os ovos deveriam ser omitidos, mantendo a lista de ingredientes absolutamente igual: leite, creme de leite, açúcar, sal e baunilha. Ponto.
O melhor de tudo é a propaganda de todas as marcas, X, Y, Z e afins, sobre a qualidade dos ingredientes, o fato de ser natural, cheio de leite, vitaminas, etc e tal. É... muito mais leite. Zero sabor. Zero qualidade. Ver a cara de frustração do Allex com o sorvete X foi engraçado, pois eu apenas fiquei quieta e deixei que ele falasse, enquanto futucava o sorvete com a colher: "Isso não tem gosto de nada... Eles estragaram o sorvete da X. Até a textura piorou...".
Fiquei quieta, provei, e, de fato, o sorvete é puro açúcar. Nada nele lembra baunilha de verdade. E dá licença: MANTEIGA NO SORVETE???
Revolta total.
Deliciosa salada de lentilhas verdes
Adoro lentilhas. Adoro comê-las com arroz, em sopas, quentes, frias, verdes, vermelhas, comuns, como for. Em especial adoro essas lentilhas verdes francesas (que vemos em muitos livros estrangeiros chamadas de Puy lentils), que na verdade são mais acinzentadas do que de fato verdes. Elas são excelentes para saladas, pois ao contrário de suas irmãs comuns ou sem casca, mantêm forma e firmeza depois de cozidas.Esta receita, muito simples, é uma variação em cima de cerca de 3 ou 4 fontes diferentes, e tornou-se minha forma preferida (e também mais fácil) de servi-las. O vinaigrette feito com mostarda de Dijon e folhas de tomilho fresco realça o sabor das lentilhas e as traz mais para perto de sua origem. No almoço de hoje, elas serviram como acompanhamento para uma polenta simples de forno. O queijo pode ser trocado por qualquer outro tipo salgado e que se desmanche em grumos, como o Feta, por exemplo, ou pode mesmo ser omitido, pois as lentilhas se sustentam por si só.
SALADA DE LENTILHAS VERDES
Tempo de preparo: 20 minutos
Rendimento: 4 porções
Ingredientes:
- 1 xíc. de lentilhas verdes
- 1 dente de alho grande fatiado
- 1/2 colh. (chá) de pimenta calabresa seca
- 1 folha de louro
- 3 colh. (sopa) de azeite
- 1 1/2 colh. (chá) de mostarda de Dijon
- 1 colh. (chá) de vinagre de vinho tinto de qualidade
- 1 colh. (chá) de folhas de tomilho fresco
- pimenta-do-reino
- sal
- 50g de queijo Roquefort ou Gorgonzola (opcional)
Preparo:
- Refogue o alho, o louro e a pimenta-calabresa seca em 1 colher de azeite, até que o alho comece a dourar nas bordas. Junte a lentilha e mexa bem para cobri-la com o refogado. Não salgue: o sal no começo do cozimento deixa as cascas das lentilhas duras.
- Adicione água suficiente para cobri-las (cerca de 2 1/2 xíc.), deixe levantar fervura, abaixe o fogo e tampe. Cozinhe por cerca de 20 minutos, ou até que as lentilhas estejam macias mas não se desmanchando. Se necessário, mexa e acrescente mais água.
- Enquanto isso, misture com um garfo o restante dos ingredientes, menos o queijo, até que fique homogêneo.
- Escorra as lentilhas, se houver algum líquido ainda na panela, e diponha-as em uma tigela grande, para que esfriem mais rápido. Misture o vinaigrette com um garfo, cuidadosamente, para que as lentilhas não se desmanchem. Tempere com sal e pimenta a gosto. Se usar o queijo, salgue menos as lentilhas do que faria normalmente, ou o prato ficará excessivamente salgado. Deixe esfriar por 5-10 minutos e misture o queijo. Sirva em temperatura ambiente.
sábado, 15 de dezembro de 2007
Sopa de ervilhas e açafrão
A receita muito me apeteceu quando a vi na revista portuguesa Blue Cooking. Com marido meio borocochô e com dor de garganta depois de uma semana corrida, nada como sopinhas cremosas e adocicadas para, "ayurvedicamente", ajudá-lo a sarar logo.Comecei com a receita exatamente como ela era, omitindo apenas o vinho por sua ausência em minha despensa. Então começou a adaptação. Adicionei um naco de manteiga às cebolas, e resolvi incrementar a sopa com uma batata, pois temia que apenas as ervilhas resultassem em algo ralo demais. Como estava usando ervilhas secas ao invés das congeladas ou enlatadas, o cozimento demorou um pouco mais, e tive de acrescentar um pouco mais de água para que a sopa não pegasse no fundo. Na hora de bater no liqüidificador, então, a sopa estava bastante densa, e resolvi afiná-la com leite. Para mais untuosidade, um naco de manteiga, e um pouco de queijo parmesão ralado. Para um contraste, cortei em cubos duas fatias de pão preto e refoguei-os em fogo alto numa frigideira bem quente, com uma colher de azeite e generosas pitadas de sal e pimenta-do-reino, até que dourassem e secassem.
Allex, para minha supresa, adorou a sopa. Eu, no entanto, também para minha surpresa, não. Gostei de todas as minhas adaptações, pois não há como errar com ervilhas, batatas, leite e queijo. Gostei do fato de ela ter ficado incrivelmente densa e cremosa. O açafrão deu um toque interessante e ligeiramente exótico à sopa. Mas a erva-doce, que constava na receita original, dominou por demais o sabor e tornou-a um pouco mais adocicada e anisada do que eu gostaria. Numa próxima tentativa eu diminuiria a quantidade pela metade ou omitiria completamente as sementes. Como, no entanto, isso vai de gosto, deixo-as nesta receita, como uma opção.
SOPA DE ERVILHAS E AÇAFRÃO
Tempo de preparo: 1 hora
Rendimento: 4 porções
Ingredientes:
- 300g de ervilhas secas
- 1 batata pequena em cubos, com casca
- 1 cebola pequena picada
- 2 dentes de alho picada
- 1 pitada de açafrão em pó
- 2 colh. (sopa) de manteiga sem sal
- 1 colh. (sopa) de azeite
- 1 xíc. leite
- 1 colh. (chá) de sementes de erva-doce (opcional)
- queijo parmesão ralado
- sal e pimenta-do-reino
Preparo:
- Aqueça o azeite numa panela e doure ligeiramente o alho. Junte a cebola e refogue até amolecer. Se estiver usando a erva-doce, refogue-a junto com a cebola. Junte uma colher de manteiga de mexa para derreter.
- Junte a batata em cubos e misture bem por um minuto. Dissolva o açafrão em 1 litro de água e derrame na panela, misturando as ervilhas secas. Deixe levantar fervura, tampe, abaixe o fogo e deixe cozinhar por cerca de 30 minutos, ou até que as ervilhas estejam macias. Adicione um pouco mais de água durante o cozimento se necessário.
- Desligue o fogo, passe tudo pelo liqüidificador e volte para a panela. Junte o leite, um punhado de parmesão ralado e acerte o sal e a pimenta. Mexa em fogo baixo para reaquecer a sopa.
- Sirva com croûtons, um fio de azeite por cima e parmesão à parte.
La Cucinetta com novo e-mail
Se você tiver alguma pergunta, sugestão, reclamação ou dúvida existencial não pertinente a um simples comentário, entre em contato pelo novo e-mail do La Cucinetta:
contato@lacucinetta.com.br
Responderei o mais rápido e da melhor forma possível!
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sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
Mais um motivo para você preparar esse panettone (Updated)
"Allex, quer café?"
"Quero."
"Quer um pedaço de panettone?"
"Quero."
(Fatia, bota no prato, dá uma mordida, bebe o café, dá outra mordida.)
"Ô, muito bom esse panettone!"
Iêeeeei! Mais um chocottone-lover convertido!
Único aviso: o melhor é fazer panettones menores, de meio quilo no máximo e sair dando de presente, pois é ideal que ele seja comido em uns 2 dias. Ao contrário da versão industrial cheia de melecas químicas, este, como todo pão caseiro, seca rapidinho. Hoje, terceiro dia, ele ainda está saboroso, mas mais sequinho. Amanhã vai virar pavê (triffle) ou pudim de pão (bread-and-butter-pudding).
[UPDATE: Passaram-se já alguns dias e o panettone continua firme e forte, delicioso e leve, só um pouco mais seco que no dia em que o fiz. Estava torcendo para que ficasse logo "amanhecido", para que pudesse transformá-lo em alguma divina e cremosa sobremesa, mas, pelo visto, vou acabar com o benedetto às fatias antes que isso aconteça.]
"Quero."
"Quer um pedaço de panettone?"
"Quero."
(Fatia, bota no prato, dá uma mordida, bebe o café, dá outra mordida.)
"Ô, muito bom esse panettone!"
Iêeeeei! Mais um chocottone-lover convertido!
Único aviso: o melhor é fazer panettones menores, de meio quilo no máximo e sair dando de presente, pois é ideal que ele seja comido em uns 2 dias. Ao contrário da versão industrial cheia de melecas químicas, este, como todo pão caseiro, seca rapidinho. Hoje, terceiro dia, ele ainda está saboroso, mas mais sequinho. Amanhã vai virar pavê (triffle) ou pudim de pão (bread-and-butter-pudding).
[UPDATE: Passaram-se já alguns dias e o panettone continua firme e forte, delicioso e leve, só um pouco mais seco que no dia em que o fiz. Estava torcendo para que ficasse logo "amanhecido", para que pudesse transformá-lo em alguma divina e cremosa sobremesa, mas, pelo visto, vou acabar com o benedetto às fatias antes que isso aconteça.]
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
Sorvete de nozes, 3 reuniões, uma bolha no dedo, um panettone e 2 receitas
Pronto, de volta da terceira reunião, pappa al pomodoro pronta para o jantar, e ansiosa para comer de sobremesa meu panettone com sorvete de nozes. Mas antes... as receitas.Este sorvete de nozes realmente está uma verdadeira perdição. Aos munidos de paciência, suplico que o preparem. A única modificação feita sobre a receita original foi a inversão das quantidades de açúcar. A original pedia por mais açúcar mascavo claro e menos açúcar refinado. Como só tinha açúcar mascavo comum, usei-o em menor quantidade e aumentei a quantidade de açúcar cristal orgânico.
SORVETE DE NOZES
(Quase nada adaptado do livro The Ultimate Frozen Desserts)
Rendimento: 1 litro
Tempo de preparo: 1 hora
Ingredientes:
- 2 xíc. de nozes cortadas ao meio
- 3 1/2 xíc. de leite integral
- 4 gemas de ovo orgânicas grandes em temperatura ambiente
- 1/2 xíc. de açúcar cristal orgânico
- 1/4 xíc. de açúcar mascavo orgânico
- 1/4 xíc. de creme de leite fresco
- 1 colh. (chá) de essência de baunilha
- 1/4 colh. (chá) de sal
- Espalhe as nozes em uma assadeira e leve ao forno pré-aquecido a 180ºC por 5-7 minutos, para dourarem, mexendo uma ou duas vezes durante esse tempo. Deixe esfriarem por 5 minutos.
- Junte-as ao leite em uma panela e leve à fervura em fogo médio. Abaixe o fogo para o mínimo e deixe em fervura branda por 5 minutos, mexendo às vezes. Desligue o fogo, tampe, e deixe em infusão por 15 minutos.
- Passe a mistura pelo liquidificador. Forre uma peneira grande com um tecido para queijos limpo e posicione-a sobre uma tigela grande. Despeje a mistura e deixe pingando na tigela, através do pano, por 15-20 minutos. Junte as pontas do pano e esprema o restante do leite aromatizado para a tigela, totalizando 2 1/2 xíc. de leite de nozes.
- Bata as gemas e os dois açúcares com um fouet ou batedeira até fofo e claro, mas ainda granuloso. reserve.
- Aqueça o leite de nozes e o creme de leite fresco até o ponto de fervura. Não deixe que ferva. Junte um terço do leite às gemas, misturando rapidamente. Volte a mistura de gemas à panela, junto com o leite, e mexa em fogo baixo com uma colher de pau por cerca de 4 minutos, até que engrosse ligeiramente, sem deixar ferver.
- Passe por uma peneira para dentro de uma tigela limpa. Misture a baunilha e o sal e leve à geladeira por 4 horas ou durante a noite, semi-tampado.
- Tire da geladeira e prepare o sorvete na sorveteira como indicado pelo fabricante.
Este panettone, apesar de ter ficado muito, muito bom, não é dos mais simples de se preparar. Acredito que seja necessário um mínimo de experiência com pães em geral, ou mesmo com panettones. Ou, no mínimo, muita paciência. A última parte é realmente mais fácil se for feita na batedeira planetária com gancho. Se não houver uma, recomendo incorporar a manteiga muito devagarinho, pouco a pouco, e preparar-se para uma bagunça sem tamanho. Pode parecer que tudo dará errado, mas, garanto, tudo dá certo no final.
A receita é clássica do Cordon Bleu, do livro Professional Baking, mas tive de mexer nela um pouco. Como o Allex é mais fã de chocotone, fiz uma pesquisa com ele para saber frutas secas de que ele gostava, e essa mistura é o resultado do inquérito. Ignorei as amêndoas picadas, substituindo-as pelas colheradas extras de farinha de trigo, e acrescentei aroma de baunilha, pois para mim um panettone que não exala aroma de baunilha não é panettone.
PANETTONE
(Adaptado de uma receita de Le Cordon Bleu)
Rendimento: 1 panettone de 1,5kg, 2 de 750g ou 3 de 500g, a gosto do freguês
Tempo de preparo: 1 tarde inteira
Ingredientes:
- 100g de uvas passas sem sementes (uma mistura das claras e escuras)
- 100g de cascas de laranja cristalizadas
- 50g de cerejas secas
- 75g de abacaxi cristalizado em cubinhos
- raspas de casca de 2 limões
- raspas de casca de 1 laranja
- 60g de suco de limão
- 60g de suco de laranja
- 20g de rum escuro
- 1/2 colh. (chá) de noz moscada
- 700g de farinha de trigo orgânica e mais para sovar
- 285g de leite integral
- 40g de fermento ativo fresco
- 120g de gemas de ovos orgânicos
- 1 colh. (chá) de sal
- 1 colh. (chá) de essência de baunilha
- 125g de açúcar cristal orgânico baunilhado
- 225g de manteiga sem sal amolecida e mais para pincelar
- Misture todas as frutas, casca e noz-moscada ao rum e aos sucos. Cubra e deixe marinando de um dia para o outro na geladeira.
- Peneire a farinha e faça um buraco no centro. Aqueça o leite ligeiramente, dissolva nele o fermento esmigalhado e derrame-o no buraco da farinha. Polvilhe um pouco da farinha das laterais da tigela sobre o leite, cubra e deixe em temperatura ambiente por 45 minutos.
- Adicione as gemas, o sal e o açúcar e misture levemente até formar uma massa. Despeje-a sobre uma superfície enfarinhada e sove por cerca de 10 minutos, até que pareça homogênea e lisa. Coloque-a em uma tigela ligeiramente enfarinhada, cubra e deixe em temperatura ambiente até dobrar de tamanho.
- Escorra as frutas marinadas e, junto à manteiga e a essência de baunilha, incorpore-as à massa, cuidadosamente, sovando ou na velocidade 1 de uma batedeira planetária com gancho, até que a massa pareça homogênea. Acrescente 1 ou 2 colh. (sopa) de farinha se necessário. Se ainda estiver muito grudenta, mas em um só pedaço, não tem problema: volte-a para a tigela de qualquer forma, cubra e deixe dobrar de tamanho novamente. A massa ficará mais manipulável depois de fermentada.
- Forre uma, duas, ou 3 formas de panettone com papel manteiga, deixando alguns centímetros além da borda. Forre o fundo das formas com discos de papelão para evitar que queimem na base. Coloque as formas sobre uma assadeira. Com os punhos, retire o ar da massa, e faça uma bola com ela (ou separe-a em tantos pedaços quantos panettones você quiser). Deposite-a cuidadosamente no fundo da forma. Amasse-a ligeiramente com o punho contra o fundo da forma. Cubra e deixe fermentando pela última vez, até dobrar de tamanho.
- Com uma faca, faça uma marca em cruz sobre a massa e pincele com manteiga derretida. Leve a assadeira com as formas ao forno pré-aquecido a 190ºC até que a massa esteja ligeiramente escurecida (cerca de 40 minutos). Coloque um naco de manteiga no meio da cruz e continue a assar por 1 hora. Se estiver muito dourado, cubra com papel alumínio para evitar que queime.
- Diminua a temperatura do forno para 160ºC e continue assando até que um palito inserido no centro saia limpo. O tempo total de forno varia entre 1h45min a 2h.
- Remova do forno e pincele com mais manteiga derretida. Deixe esfriar sobre uma grade e polvilhe açúcar de confeiteiro.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
Sorvete de nozes, 2 reuniões, uma bolha no dedo e um panettone

Ando meio de mal humor, ultimamente, e talvez por isso mesmo tenha querido mergulhar em boas lembranças de infância e reproduzir aquilo que para mim durante muito tempo foi sinônimo de Natal: panettone com sorvete de nozes.
Peguei uma receita do The Ultimate Frozen Desserts Book, um livro que era um pouco renegado aqui em casa por conter muitas receitas de sorvetes de frutas feitos com enlatados e essências artificiais; o livro sempre se redime, no entanto, nos gelati mais substanciosos, como o de doce-de-leite, de chocolate, e este de nozes. Comecemos pelo fato de que meu marido não gosta de nozes. Ou era o que eu pensava. Acredito piamente na conversão alimentícia das pessoas; não aceito um "não gosto" sem antes fazer com que as pessoas passem por um verdadeiro interrogatório acerca dos modos como o indivíduo já provou esse ou aquele ingrediente. E já consegui converter muitos não-comedores de alcachofras, couve-flor e favas. Até mesmo o não-comedor de bolo, Allex, andou ciscando no último bolo que fiz, já que eu via o bolo diminuindo irregularmente ao longo da semana. Presumi, portanto, que com as nozes não seria diferente.
Não vou mentir para ninguém: quem pretende comprar uma sorveteira, com a intenção de eliminar o trabalho, faz melhor comprando sorvete no supermercado. A sorveteira serve para melhorar a textura do sorvete caseiro, mas o trabalho (fora a bateção de hora em hora, essa sim eliminada) continua o mesmo. Para um dia mais preguiçoso, é melhor um sorvete mais simples, Philadelphia-style, um sorbet, ou um frozen yogurt. Fazer gelato requer mais paciência, pois você precisa preparar o creme inglês (custard) antes. No caso deste de nozes (ou de amêndoas, pistache, avelãs, etc), ainda é preciso preparar o "leite" antes. Torra nozes no forno, esquenta nozes no leite (foto), bate tudo no liqüidificador, bota a massaroca num pano — que pano? Não achava pano de queijo em lugar nenhum e acabei arranjando uma espécie de tecido para fralda, que eu lavei e fervi antes de usar — tudo em cima de uma peneira sobre uma tigela grande, e deixa sorando por 15 minutos. Mas não cabe tudo na peneira pequena, então você tem que ficar apertando a massaroca e completando com o que resta no liqüidificador, por meia hora. Espreme, espreme, espreme, para tirar até a última gota. Joga a massaroca fora, lava o pano muito bem para usar de novo, e usa o "leite de nozes" para fazer o creme inglês. E só aí você começa o processo normal do sorvete. Afe!Mas valeu a pena. Valeu MUITO a pena. É o melhor (juro) sorvete de nozes que já provei na minha vida! Melhor do que a lembrança que tinha do da minha tia! Foi o primeiro sorvete que me fez sorrir e dar pulinhos de felicidade pela sala, pois quando provo algo sensacional, eu tendo (no melhor estilo Ana Maria Braga) a ficar meio ridícula. Fui correndo para a sala, colherinha em punho, dar o sorvete para que Allex provasse. Se existia algo que pudesse convertê-lo de walnut-hater para walnut-lover seria isso. (Pausa dramática.) Mas ele não gostou. "Eu ODEIO nozes", disse ele, enfaticamente, indo à cozinha beber água. "Ok, você me convenceu", respondi. "Se você não gostou disso, você realmente odeia, detesta, abomina nozes, e eu nunca mais vou fazer nada com nozes para você: eu desisto." De fato, ele admitiu que para quem gosta da coisa, o sorvete ficou o céu. E ficou: é o paraíso dos amantes de nozes.

Levei o sorvete ao freezer e me pus a preparar a marinada de frutas secas para o panettone. Deixei na geladeira, muito bem coberto, e fui dormir cedo, pois teria uma reunião de trabalho às nove da manhã. No dia seguinte, a reunião que deveria começar às nove, começou às nove e meia, e estendeu-se até onze horas. Bota chuva e trânsito nisso e cheguei em casa ao meio-dia. Antes de ir para o apartamento, passei no mercado para comprar algumas coisinhas para meu almoço. Como não tinha nada programado para a tarde, pus-me a preparar o panettone, duma receita diferente, do Cordon Bleu, com um zilhão de etapas. A balança voltara a funcionar por milagre, e comecei a medir os ingredientes. Bota farinha, bota farinha... acabou a farinha. E faltavam 85g para completar a medida. Volta para o supermercado, compra farinha e continua a brincadeira. E acaba o açúcar. Usa açúcar baunilhado, então. E acabam os ovos, faltando apenas uma gema. Suspira, volta ao supermercado e compra ovo. Nisso, perdi quase uma hora.Primeira fermentação. Almocei um sanduíche qualquer, sem paciência ou espaço físico para preparar uma refeição decente em meio a tanto ingrediente de panettone espalhado sobre minha diminuta bancada. Tudo ia bem, principalmente depois de ficar sabendo que panettones, assim como outras massas muito ricas em gordura, não podem fermentar demais, ou colapsam no forno. O ideal é que ela chegue a 3/4 da fermentação, para que a massa ainda tenha "forças" para expandir no forno.
Misturei o restante dos ingredientes daquela etapa, e fiquei surpresa ao ver como a massa combinou-se e tomou vida, pois a quantidade de farinha parecia-me muito maior do que o necessário. Segunda fermentação. Aproveitei para tirar uma soneca, pois ando dormindo muito mal, e estava bastante cansada. No meio da soneca, no entanto, toca o telefone. Reunião para discutir reunião. Prazos estourando. Naquele dia mesmo. Às 7 da noite. Hein???? Mas são 14h30, e eu tenho um panettone fermentando!
Lá fui eu reler a receita e fazer contas. Chovia muito e o trânsito prometia continuar infernal, de modo que eu deveria sair com uma hora de antecedência. Mas ainda restavam duas fermentações e mais duas horas de forno! E eu não estava disposta a jogar comida fora! Ai, ai, ai...
Passei o resto da tarde olhando no relógio e levantando o pano de prato que cobria a massa, na esperança de já ter fermentado o suficiente e eu poder passar para a próxima etapa. Etapa melequenta, diga-se de passagem. Massa fermentada: hora de incorporar as frutas e a manteiga amolecida. Abri a massa com os punhos, coloquei tudo no centro e fechei as abas, começando a sovar, me considerando muito esperta.Logo senti-me burra novamente, ao ver a manteiga fugindo pelos cantos da massa, e logo ela desmanchara-se e tornara-se impossível de ser sovada à mão. "Não é possível", falei para o cachorro, "deve ter algo errado com a receita". Cheguei a checar novamente todas as medidas, e era aquilo mesmo, 225g de manteiga. Com a bancada engordurada além do que uma pessoa normal suportaria, apanhei a massa aos punhados e joguei-a na batedeira com o gancho, usando-a em velocidade baixa para terminar de sová-la. Enquanto isso (ai, ai...) pus-me a limpar a mantegaiada que se espalhara pelo granito.
Na batedeira, a massa comportou-se melhor, lembrando-me do brioche melequento que fizera outro dia. Troca de tigela. Terceira fermentação. Brinca com o cachorro, olha no relógio, lê um pouco, olha no relógio. Ah, quer saber? Já tá bom, não vai crescer mais que isso. Depois da fermentação, massas muito meladas tendem a ficar mas manipuláveis. Então não foi difícil formar duas bolas e depositá-las nas formas de panettone (de ferro, compradas por meu pai quando eu era criança) forradas de papel manteiga. Amassa um pouco no fundo e... última fermentação. Nesse momento eu já estava torcendo para que alguém cancelasse a maledetta reunião.
Corta em cruz, pincela com manteiga e forno, finalmente. Por 45 minutos, até que começasse a dourar. Abre o forno e coloca um naco de manteiga sobre cada um. Queima o dedo na forma, uma bolha infla sob a pele quase que imediatamente. Isso é normal. Minha confiança entre panelas e fornos pelando é a de uma criança que nunca se queimou na vida, e eu tendo a acreditar que minhas mãos são mais resistentes ao calor do que de fato são. Mais uma hora de forno. Douradinhos, douradinhos, meus dois panettones. Abaixa o fogo e cobre com papel alumínio. Falta pouco! Falta pouco!
Está pronto, tira do forno, tira da forma, deixa esfriar, se arruma prá reunião, escova os dentes, dá jantar pro cachorro, tira foto do panettone (não dá tempo! não dá tempo!), polvilha açúcar, embala um deles, amarra uma fita, bota na sacola, pega o guarda-chuva, sai de casa prá pegar o carro da mãe a 3 quarteirões, dá o panettone quentinho de presente ("não sei se ficou bom, ainda não experimentei o meu, cadê a chave do carro?"), vai prá reunião, pega trânsito, chega 45 minutos atrasada, assim como todo mundo, reunião acaba, vai encontrar amigos, leva 45 minutos prá dar a volta no quarteirão e estacionar no bar, conversa vai, conversa vem, volta prá casa. Respira. Dorme.
Hoje experimentei meu panettone. Nham-nham! Ficou muito gostoso. Macio, leve, perfumado. Queimou um pouco na base, pois esqueci-me de forrar com um círculo de papelão. Mas nada de mais. Perfeito. Mas trabalhoso. Para quem não tem o hábito, recomendo começar com este panettone, o mais fácil que já fiz. Ainda assim, maravilhoso. E poder, enfim, combiná-lo ao sorvete de nozes, foi a compensação perfeita para um dia corrido e tudo o que eu precisava para me deixar de bom humor de novo. Retornam os natais da minha infância, e prevejo muitos panettones com sorvete de nozes daqui em diante (e alguns de baunilha para o walnut-hater-husband).
As receitas "postarei" mais tarde, pois tenho de sair correndo para (mais) uma reunião.
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
Saudades do meio do mato
Estas fotos são da travessia de 3 dias a pé de Petrópolis a Teresópolis, no Rio de Janeiro, que fiz com amigos no ano passado. Estava olhando-as novamente, pois ando com uma necessidade quase física de me enfiar no meio do mato de novo. Mas ultimamente nenhuma viagem que tenho planejado tem dado certo, então o jeito é ficar por aqui, com saudades de beber água de cachoeira, de comer pão com queijo, andar 15km por dia, ficar 3 dias sem tomar banho...
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