quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Just a perfect day...

Acordei devagar, ainda que ao som histérico de dois despertadores. Sem abrir os olhos, rosto afundado no travesseiro de fronha nova, sentindo o peso do cachorro sobre uma de minhas pernas, estiquei o braço para desligar o alarme. Não precisei olhar para fora; pelo som, eu sabia que estava chovendo. Isso quer dizer que eu não correria àquela manhã, o que me irritou um bocado, já que faltara no dia anterior por não ter ouvido o toque do relógio.

Ainda de olhos fechados, concentrei-me na sensação desagradável de secura na boca e na garganta, fato que não mais ocorre desde que me treinei a respirar pelo nariz. Parece bobagem, mas eu tinha sérias dificuldades com isso, e dormir de boca aberta me dava sede e me fazia roncar. Engoli em seco e logo senti o ardor na garganta, narinas entupidas, pescoço dolorido. Abri os olhos, enfim, e levei as mãos ao maxilar, apalpando-os. Podia sentir os gânglios inchados sob a pele. Toda a minha cabeça parecia ter fechado temporariamente os caminhos de fluxo de fluidos e, por que não, de energia. Ela estava pesada, e por alguns minutos, não quis tirá-la do travesseiro.

Allex levantou-se para dar comida ao cão e começar seu dia, e eu fiquei ali, esparramada, letárgica, entupida, calculando mentalmente o tempo que tinha para o café-da-manhã, banho, pegar e-mails e sair, com uma hora de antecedência para a reunião na av. Faria Lima, que estaria completamente parada devido à chuva e à época de compras. Fiquei ligeiramente deprimida. Não queria sair da cama, que dirá sair de casa. Na chuva. Estava, no entanto, suficientemente doente para alimentar um mau humor constante até o fim do dia, mas não o bastante para faltar à reunião. Por isso levantei-me, devagar, tentando em vão esquivar-me das lambidas matinais do cachorro, que fica sempre à espreita, até nos levantarmos, pronto para dar o bote e dizer "bom dia" à sua maneira feliz e desastrada.

Minha voz soou rouca e irregular quando dei bom-dia ao marido. Meu mau humor desvaneceu-se suavemente quando ele me abraçou forte, como sempre me abraça de manhã, parecendo não ter me visto por décadas, como se dormir desse saudades. Enquanto minha micro-cafeteira individual estava no fogo, liguei o computador e comecei a ler os e-mails do dia. Lá estava o e-mail do cliente, pedindo que eu reenviasse o PDF da ilustração que eu lhe enviara ontem, mas com as correções, para que fosse anexado à apresentação da reunião daquele dia. Droga, eu fizera as correções, mas não digitalizara novamente, pois pretendia levá-la apenas em papel. Eu tinha 1 hora para fazer minhas torradas com requeijão, passar minha camisa, vestir-me, maquiar-me, arrumar o cabelo, escanear uma ilustração em folha super-A3 num scanner que só comporta A4, montar as quatro partes do desenho no Photoshop, ajustar o contraste, transformar em PDF, enviar ao cliente por e-mail, botar minhas tranqueiras na bolsa, fechar janelas, certificar-me de que o cão tem tudo do que precisa e não tem acesso a nada que ele possa destruir, ir até minha mãe, pegar o carro e dirigir enlouquecidamente até o prédio da reunião.

Estava já abrindo o portão do prédio, guarda-chuva em punho, quando o celular tocou em minha bolsa. Na tentativa de pegá-lo e fechar o guarda-chuva ao mesmo tempo, derrubei-o no chão de forma quase circense, e vi bateria para um lado, chip para o outro, corpo do celular aparentemente intacto no canto do hall. Corri para montar o aparelho novamente, reconfigurar data e hora e esperar o telefone tocar outra vez. Meio-toque e logo estava a escutar o cliente no outro lado da linha, avisando-me de que a reunião das 10h fora adiada para as 14h. Tudo bem? Tudo bem, fazer o quê?!

Subi de volta ao apartamento, sendo recebida pelo Gnocchi como se tivesse passado horas fora, mas tentando afastá-lo para que não sujasse ou rasgasse com suas unhas minha "roupa de reunião". Troquei a camisa impecável por uma camiseta velha, pendurando a peça bem passada em um cabide, para vesti-la outra vez mais tarde. Preparei um chá bem quente de camomila e resolvi terminar de tomar meu café-da-manhã com calma, servindo-me da penúltima fatia de panettone, ainda delicioso e razoavelmente úmido, para minha total surpresa (Bauducco que se cuide!).

A chuva aumentou conforme a manhã passou, e o cão começou a ficar histérico, sentindo falta de sua longa caminhada matutina. Apanhei alguns biscoitos caninos e aproveitei o tempo para treiná-lo. "Blaipdá!", dizia no meu alemão macarrônico, dando-lhe meio biscoito quando de fato ficava quieto no canto dele, esperando pelo meu comando.

A garganta continuava doendo, o chá em nada ajudara, e era preciso que eu começasse a preparar o almoço. Tudo o que havia na geladeira, porém, exigia muito pré-preparo, então resolvi dar uma de Allex e almoçar um "xis-egg" vegetariano. Coloquei o pequeno hambúrguer de soja na frigideira e, para não sujar mais panelas, quebrei um ovo diretamente ao seu lado. O cheiro pungente de enxofre atingiu minhas narinas como um soco, e amaldiçoei o mundo todo quando vi que o ovo estava completamente podre.

Joguei a mistura fétida no lixo, imediatamente fechando-o e tirando-o da casa antes que o cheiro impregnasse o ambiente. Lavei a frigideira e comecei tudo de novo, desta vez testando o ovo em um copo d´água antes de usá-lo (se o ovo afundar, está bom, se ficar de pé, está mais-ou-menos, e se flutuar, está podre).

Agora, faltando meia-hora para sair de casa, a chuva intensificou-se. Toda reunião dura no mínimo 3 horas: 1 hora para ir, 1 hora para a reunião de fato e 1 hora para voltar. No ritmo que anda meu dia, acredito que essa me tome cerca de 4 horas, o que quer dizer uma tarde inteira perdida. Com um maço lindo de espinafre orgânico na geladeira, tenho esperanças de voltar zen o suficiente para preparar o erbazzone reggiano (uma torta de espinafres da Reggio-Emilia) para o jantar. Tudo vai depender da quantidade (e tipo) de alterações que o cliente exigir com relação à ilustração e a quantidade de trânsito enfrentada ao voltar para casa. Pode ser que eu jogue a toalha de vez, admita que esse é um dia simplesmente horrível, e peça uma pizza.

2 comentários:

Fer Ayer disse...

Olha Ana...lendo seu relato me diverti porque lembrei de uma amiga que fica repetindo um episódio de televisão onde o Falabella diz..."os anjos do céu fizeram rodízio e eu fiquei com o do Ronaldinho Gaúcho"... no seu caso hoje acho que você passou o do Ronaldinho para o próximo da fila...espero que você tenha um resto de dia melhor.
Beijos

Livia Luzete disse...

É incrível qdo resolvemos acreditar que o ovo está bom e arriscamos sem quebrar antes em uma tigela!!! Já aconteceu comigo. Nossa...aquilo era um filme de terror com cheiro! Blargh!

Cozinhe isso também!

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