terça-feira, 4 de março de 2008

Chocolate Caramel Cookie Vanilla IceCream: um nome comprido para sorvete de sobras


Neste domingo participei da prova da Batavo, na USP. Como andara muito displicente nos últimos meses, achei melhor não me arriscar na prova de 12km, e ficar só com a de 5km. Sábia decisão, pois estava um calor dos infernos, e eu terminei meu dia toda desmilingüida no sofá, como se tivesse corrido a maratona.

Como o clube fornecera um ônibus à equipe, porém, achei que seria gostoso levar um quitute para o pessoal beliscar após a corrida, e passei cerca de 4 horas do meu sábado preparando esses biscoitos de chocolate recheados de caramelo. A receita é de uma revista Food & Wine, e a foto por si só já era motivo para que eu tentasse preparar os cookies. No entanto, como nada na vida é fácil, tive algumas pedras (verdadeiras avalanches) no meio do caminho.

Comecemos pelos ingredientes: estou eu sossegada a separar farinha, cacau e afins, quando me deparo com o item "1 stick of butter". Oooook. É muito tentador acreditar que há padrões industriais no mundo todo, mas a verdade é: qual era a chance de uma barra de manteiga americana ser exatamente 200g, ainda por cima com o sistema maluco de medidas que eles têm por lá?! Google nele. Pesquisa, pesquisa, e descobre que 1 barra de manteiga americana tem 125g, arredondados.

Resolvido o primeiro entrave, consegui navegar pro águas tranqüilas durante a confecção dos biscoitos. A massa é fácil de fazer, ainda mais na batedeira, e quando foi para a geladeira, senti uma imensa e confortável sensação de "tudo vai dar certo".

Tirei-a da geladeira para abri-la e cortá-la. Para minha surpresa, já que nada disso era dito na revista, a massa era muito mole, mesmo depois de 45 minutos de resfriamento, e retirar as rodelas cortadas do filme-plástico sem rasgá-las ou deformá-las era trabalho para um neurocirurgião. Um "biscoitero" de primeira viagem enlouqueceria e mataria a família toda com o rolo de macarrão. Mas eu sou zen, ou ao menos era o que continuava repetindo para mim mesma, como em um mantra, e consegui colocar na assadeira todos os biscoitos intactos.

No forno foi tudo muito bem, e 20 minutos depois, eles haviam inflado e se espalhado ligeiramente, ficando um pouco maiores ainda do que eu gostaria. A revista pedia um cortador de 4cm, mas o meu era de 5.

Hora do caramelo. Todas as vezes em que preparei caramelo, aquecia o açúcar e a água até que dourasse, e só então, fora do fogo, acrescentava creme de leite e manteiga. A receita, no entanto, dizia para colocar tudo na panela, leite e creme inclusos, e apenas a manteiga seria misturada no fim do processo. Alguém sabe me dizer o que acontece quando leite ferve? Alguém? Levante a mão! Você, no fundão. É, ele sobe. Ele sobe e se esparrama no fogão, razão pela qual você nunca deve desgrudar os olhos de uma panela com leite fervendo. Sabe o que acontece quando você faz caramelo com leite? A mesma coisa. Foi virar as costas para pegar a manteiga, e a panela explodiu como um vulcão açucarado, derramando caramelo pegajoso a 120ºC por todo o meu fogão.

Ninguém avisa isso na receita.

Respirei fundo, fiz uma força descomunal para ignorar a lambança, passei o caramelo para uma panela maior e continuei, controlando o fogo, até que ele atingisse a temperatura certa. Derramei-o na assadeira com filme plástico e deixei-o ali, por 40 minutos, como indicado. Ele desenformou maravilhosamente sobre minha tábua, e achei que tudo se resolveria uma vez que eu comesse meu primeiro biscoito recheado. Mas foi tentar cortar o caramelo para me dar conta de que o dia estava muito quente e o recheio não firmara o suficiente. Deixei mais uma hora na geladeira, até conseguir com que o caramelo cortado mantivesse sua forma, mas, cinco minutos após terminar de rechear o último biscoito, vi que os primeiros começavam a derreter, espalhando caramelo para todos os lados.

Levei-os à geladeira, mas não adiantou muita coisa. Foi tirar os benditos por 5 minutos para fotografá-los e pronto, tudo começou a escorrer novamente. Imaginei a meleca que seria levá-los num pote e deixá-los num ônibus debaixo de sol durante mais de 1 hora, e, infelizmente, tive de desistir de dá-los ao pessoal da corrida. O pior: achei-os enjoativos. Allex gostou, mas eu não conseguia comer mais da metade de um deles sem precisar de muita água. Esperava um caramelo um pouco mais sofisticado e menos promessa de diabetes.

Foi então que percebi que tinha cerca de 30 cookies do tamanho de minha mão e não sabia o que diabos fazer com eles. Não tive dúvidas: cortei os biscoitos em pedaços, preparei um sorvete de baunilha e misturei a ele os cookies, criando meu próprio Chocolate Caramel Cookie Vanilla IceCream, que, desculpem-me pela ausência de modéstia, ficou sensacional. Pelo bom tempo que fiz na corrida e pela trabalheira que esses cookies me deram, era o mínimo que eu merecia... Não pode haver melhor uso para sobras de biscoito do que esse, e eu recomendo. A receita dos cookies está AQUI.

sábado, 1 de março de 2008

PADARIA DE DOMINGO 8: ciabatta fajuta

Para me redimir da última "ciabatta de polvilho", resolvi recorrer a uma receita do primeiro livro de Jamie Oliver, que eu já fizera outra vez com sucesso. Na época, Jamie era minha única fonte de receitas de panificação, e foi muito estranho voltar a ele depois de mais de um ano com o Professional Baking. Primeiro, dei-me conta dessa solução salafrária de Jamie de simplesmente adicionar qualquer coisa a uma receita-base e mudar-lhe o nome. Ok, ok, isso facilita as coisas para quem está começando. Mas, ainda que o resultado seja um pão bom e fácil, com cara de ciabatta, ele nada tem de autêntico, e seu miolo e casca nem de longe lembram o original que lhe dá o nome. O tipo de coisa que passa batido quando somos inexperientes e nosso único objetivo é que o pão seja "comível", mas que hoje em dia é de irritar um bocado.

A primeira coisa que notei na receita, contudo, foi a quantidade de fermento. Quando comecei a fazer pães em casa, a resposta que mais obtinha de Allex era que o pão tinha um retrogosto azedo. Não era implicância: era verdade. Demorei muito tempo para me dar conta de que isso era resultado de fermento em excesso. Quando vi, então, as medidas em inglês (30g yeast or 21g dry yeast), dei-me conta do erro cometido: fermento ativo seco (dry yeast) é diferente de fermento ativo seco instantâneo (instant dry yeast). Sinceramente, a única vez que vi à venda fermento ativo seco foi no Santa Luzia, em pacotes de 1kg. Esses vendidos em envelopes, que uso o tempo todo, são os instantâneos, o que quer dizer que, teoricamente, eles não precisam ser ativados em água morna: podem ir direto na farinha. Mas qual a diferença entre usar o comum e o instantâneo? A quantidade. E isso é crucial. Sempre que se substitui fermento fresco por ativo seco instantâneo, o segundo deve ser 35% a quantidade do primeiro. Ou seja, ao fazer o pão de Jamie, eu não deveria usar 21g, mas 10-11g de fermento seco instantâneo. É uma diferença substancial. Nunca vi os livros de Jamie em português, mas, para aqueles que já produziram pães insatisfatórios a partir de suas receitas, vale a pena averiguar quantidade e tipo de fermento requisitados.

Outro assunto deste post é a danada da sova do pão. Houve muita gente que me escreveu a respeito de pães e de como diabos se sova um. Realmente, para quem cozinha há já certo tempo, parece bobagem ensinar sova de pão, pois é um movimento que, uma vez aprendido, parece brincadeira de criança. Mas quantas vezes já não mandei amigos sovarem uma massa de pizza ou mesmo a massa do macarrão, e os vi sem saber o que fazer, sendo excessivamente delicados e cuidadosos?

Então, seguindo algumas sugestões que recebi, produzi um videozinho muito tosco, com minha pobre câmera que, coitada, só grava 1 minuto por vez, na tentativa de explicar (mais ou menos) o processo básico de sova. Eu poderia ficar aqui descrevendo passo-a-passo, mas acho que é o tipo de coisa que se aprende olhando, e não lendo a respeito. Desculpem-me pela tosquice, e aqueles que já forem bons padeiros, tentem não rir... muito.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Seed-crusted CORN biscuits

Desde o bizarro soufflé de amaranto que eu tinha da sementinha na geladeira, esperando por um novo uso. Quando decidi que faria farinha das sementes para produzir os biscoitos salgados de Heidi Swanson, sabia que seria chato amassá-las no pilão, tanto quanto fora com a quinua, mas não fazia idéia de que seria impossível. Voltei as sementes para o pacote, frustrada, olhando para os outros ingredientes misturados e a pequenina fortuna gasta com sementes de nigella e papoula.

Mmmmmm... Pensa, pensa, pensa.

Cortei a receita pela metade, para não desperdiçar tanta comida caso tudo desse errado, substituí parte da farinha integral por farinha comum e a de amaranto por farinha de milho fina. Como acontecera com o soufflé, Heidi fizera mais propaganda das sementes polvilhadas sobre o biscoito do que elas de fato merecem. Mas, apesar do efeito dramático ser mais por conta do visual, os biscoitos ficaram saborosos e com certeza devem ser repetidos por sua facilidade e versatilidade, lembrando um pouco a textura de scones, mais do que cookies ou shortbread, como a receita sugere. Acredito que isso seja devido à pequena quantidade de manteiga.

O "plus a mais" fica por conta da estréia dos meus cortadores de biscoito! A única estranheza da receita é o fato de Heidi indicar que a receita inteira produz cerca de 18 biscoitos de 4cm de diâmetro, quando, com metade dela, eu produzi 25. Talvez tenha estendido a massa um pouco mais fina do que deveria. Será? De qualquer forma, prefiro-os assim, com essa cara de biscoitos para serem tomados com chá ou café, no meio da tarde.


SEED-CRUSTED CORN BISCUITS

(Adaptado do livro Super Natural Cooking, de Heidi Swanson)
Tempo de preparo: 15min. + 20min. de forno
Rendimento: 20-25 biscoitos


Ingredientes:
  • 1/2 xíc. de farinha de trigo tipo 00 ou 1
  • 1/2 xíc. de farinha de milho fina orgânica
  • 1 xíc. de farinha de trigo integral orgânica
  • 1 colh. (sopa) de fermento químico em pó
  • 3/4 colh. (chá) de sal
  • 1/4 de xíc. de manteiga sem sal gelada
  • 3/4 de xíc. de leite integral
  • 1 clara de ovo
  • 3 colh. (sopa) de sementes à sua escolha (usei as do livro: gergelim, papoula e nigella, mas acredito que erva-doce, alcaravia, cominho, entre outras, possam ser tão boas quanto)
Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 220ºC e forre uma assadeira com papel-manteiga.
  2. Misture as farinhas, o fermento e o sal. Corte a manteiga em pedacinhos pequenos e junte-a às farinhas, esfregando entre os dedos até que tudo tenha a textura de uma farofa fina.
  3. Junte o leite e misture com um garfo até formar uma massa uniforme.
  4. Forme uma bola e achate-a sobre uma superfície levemente enfarinhada, abrindo com um rolo de massa até que tenha cerca de 1,5cm de espessura. Com um cortador de biscoito, uma carretilha de massa ou uma faca, corte biscoitos de cerca de 4cm de diâmetro. Junte as aparas, abra-as novamente e continue cortando até que toda a massa tenha sido usada.
  5. Coloque os biscoitos na assadeira, pincele-os com a clara de ovo e polvilhe as sementes por cima. Leve ao forno por 15-20 minutos, até dourarem muito ligeiramente. Retire-os com uma espátula e deixe que esfriem sobre uma grade.
[UPDATE: ignorância é fogo. A anta aqui achava que "biscuits" eram "biscoitos", quando na verdade são como scones. Não é a toa que a quantidade deu toda errada... Santa paciência...]

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Gosto se discute... exaustivamente.

Ando pensando muito nas questões do paladar. Minha mãe sempre foi boa cozinheira, ainda que nunca se aventurasse fora de seu mundo gastronômico já bem estabelecido. Comi, durante toda a minha vida, seu mesmo feijão com arroz, mesmo creme de espinafre, mesmo strogonoff, mesma lasagne, mesma caponata de berinjelas, mesmo bolo de liqüidificador. Foi só quando minha irmã e eu demonstramos algum interesse pela cozinha, que se começou a "inventar moda" por aqueles lados.

Minha primeira incursão na cozinha, como eu já falei por aqui outras vezes, foi com brownies, aos 11 anos, e talvez por isso mesmo seja obcecada por eles. O próximo prato foi uma sopa de cebolas francesa, gratinada no forno (uma de minhas favoritas). E daí fui para lasagne de massa verde com mozzarella de búfala, tomates e berinjelas, risotto de cogumelos, frango com molho de laranja (na época eu comia), vichyssoise, cheesecakes marmorizados e por aí foi. À parte alguns pudins de leite e molhos de tomate, minha mãe sempre vinha à cozinha com ares de preocupação e me perguntava porque eu não preparava algo mais simples, porque gostava de me complicar tanto. E enquanto alguns pratos eram sucesso com ela e meu pai, outros faziam toda a família torcer o nariz, e minha mãe dizia, sem jeito, que não era para seu paladar.

Depois que visitei a Itália (ai, que saudades...), as coisas só pioraram. Foram tortas piemontesas de alho-poró, alcachofras recheadas alla romana, ravioli de ricotta e menta, tortas della nonna (com pinoli), panna cotta com calda de chocolate, salada quente de folhas de beterraba... E me lembro de cada um desses pratos: dos que deram certo e dos que deram horrivelmente errado.

Quero acreditar que minha exploração alimentícia foi me conduzindo aos poucos a determinados sabores e texturas, mas não consigo deixar de levar em conta meu estranho gosto para sorvetes e doces quando ainda criança: enquanto minha irmã se esbaldava com sorvetes de uva ou chocolate, eu procurava nas geladeiras da antiga Brunella ou da Ofner, as cores pouco atraentes dos pistaches, das nozes e das ameixas secas. Ao menos o amor pelas frutas secas é algo que minha irmã compartilhava comigo, já que sempre fomos grandes defensoras do panettone tradicional, em detrimento das deturpações modernas, enjoativamente abarrotadas de chocolate. Tenho lembranças vivas do sabor dos biscoitos de passas que minha avó fazia e outro dia lembrei-me do gosto e da textura firme de um doce que, acredito, era feito com tâmaras ou figos secos; pequenos quadrados escuros passados no açúcar de confeiteiro, de que minha mãe se recorda mas não sabe a receita ou mesmo o nome. E é justamente esse tipo de coisa de que sempre gostei.

Adoro doces feitos com frutas secas, independente de quais sejam. Gosto de especiarias, gosto de frutas vermelhas, gosto de castanhas. Ainda que haja dias em que apenas brigadeiro resolva, prefiro um clafoutis de cerejas a um mousse de chocolate. E, muitas vezes, me pego alterando receitas para que se encaixem melhor em meu paladar, trocando pedaços de chocolate por cerejas cristalizadas, ou acrescentando alguma especiaria onde ela não existia. Mesmo as receitas mais populares no Brasil, como pudim de leite, prefiro fazê-lo pelo método tradicional, com ovos e leite, ignorando as versões com leite condensado, preferindo sabores mais suaves.

Ainda que, quando recebo convidados, tente não assustá-los com pratos demasiado diferentes, não foi apenas uma vez que notei um amigo ligeiramente desconfortável, empurrando seu risotto de radicchio ou seu clafoutis de pêssegos de um lado para o outro no prato. Não os culpo. Acredito que se deve experimentar de tudo, mas não condeno gosto pessoal. Não posso forçar ninguém a gostar de meu gargouillau de poires se o indivíduo só está acostumado a comer bolo de chocolate da Pullman.

E dizendo isso, não digo que um está certo e o outro errado. Apenas que é um cuidado que preciso ter, pois minha mãe tem de fato razão: eu gosto de complicar as coisas, e tenho um paladar muito "europeu", ainda que deteste o quão esnobe soa essa frase. Às vezes me esqueço disso, e erro muito a mão quando cozinhando para gente desavisada. Um bom exemplo disso é este último bolo aqui publicado, Il Moro; só depois me ocorreu que era melhor avisar que não era um bolo de chocolate para crianças, ou mesmo para adultos chocólatras, e sim um bolo de chocolate que se poderia esperar de uma avó italiana do século XIX, muito mais semelhante em textura e sabor aos bolos europeus de especiarias, do que a um bolo de chocolate de uma mãe brasileira.

Tentarei, então, ser mais cuidadosa por aqui e avisar quando um prato for um sucesso incontestável ou um gosto adquirido. Tenho certeza de que todos têm uma história de alguma receita que parecia fantástica pela descrição do autor, e, ao ficar pronta, revelou-se ótima... mas não para você. E ela fica ali, uma torta inteira, um bolo inteiro, um jantar inteiro, olhando para a sua cara, e você não quer chegar nem perto. Nada pior do que gastar fortunas em ingredientes e tempo na cozinha só para descobrir que você não divide com o autor da receita o mesmo entusiasmo por doces tradicionais de algum vilarejo perdido na Europa.

Cenouras gratinadas para variar um pouco



Resolvi tentar algo diferente ontem, e substituí por cenouras as batatas do gratinado que costumo fazer. Fatiei fino as cenouras e um dente de alho e levei ao fogo baixo com leite suficiente para cobrir, temperado com sal, pimenta e um ramo de tomilho, até que as cenouras estivessem parcialmente cozidas. Despejei a mistura em camadas em uma travessa untada com manteiga, temperando bem cada camada. Polvilhei muito parmesão por cima, cobri com papel alumínio e levei ao forno médio por 1 hora, retirando o papel no final e deixando que o queijo dourasse. Ficou bastante interessante.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

A curiosidade matou o gato: minha cozinha fica mais charmosa em preto-e-branco

Detesto Big Brother e todo reality show a que assisto precisa necessariamente ser sobre comida. No entanto, se existe uma coisa que aguça meu lado voyeur é a cozinha alheia. Adoro conhecer as cozinhas das casas de amigos, olhar suas panelas, fuçar em suas gavetas de utensílios, ver o que eles têm na despensa.

Mesmo o lugar onde cresci, a casa de meus pais, continua sendo constante fonte de curiosidade, e minha mãe bem o sabe, pois a primeira coisa que faço ao entrar é abrir sua geladeira. Não sei por quê. Talvez busque alguma inspiração.

Quero saber o que os outros estão comendo, se há xícaras novas no armário, se alguém arranjou algum utensílio novo e utilíssimo que eu possa estar precisando sem nem saber, que livros estão sempre sobre a bancada.

Alguns lêem sobre a vida das celebridades. Eu vejo cozinhas em revistas de decoração. Imagino se pintaria a parede da mesma cor, o que eu faria com aquele espaço, como organizaria minhas quinquilharias naquele armário, imagino como seria cozinhar olhando por aquela janela, para aquela vista. Então, pressupondo que também existam outros curiosos querendo saber com que infraestrutura seu próximo prepara quitutes, compartilho aqui a minha cozinhazinha, minha cucinetta.

Um bolo feio para um prato bonito (UPDATED)

Há uma semana atrás, pedi pela internet um prato de bolo de cerâmica preta, estilosíssimo, que eu queria havia muito tempo. Ok, meu lado prático diz: casa pequena, coisas demais; você não precisa de mais uma tranqueira. Mas meu lado cozinheira (e possivelmente meu lado menininha cor-de-rosa sem noção, completamente suprimido por uma personalidade "tô nem aí") acha um horror não ter um prato decente para expor um bolo.

Quando o bendito chegou, entretanto, foi a decepção das decepções. A cerâmica era vagabunda e o prato viera todo riscado. Estava na cara que a pintura não duraria nem três esfregões com esponja macia. Fazer o quê? Devolvi e pedi meu dinheiro de volta.

Tendo testemunhado minha profunda frustração por causa do prato, minha mãe resolveu ser um doce (para não dizer "mãe do ano") e aplacar minha tristeza com um prato de bolo decente (mais do que decente) da Le Creuset. Lindo, vermelho como minha panela, com bordinhas para aparar caldas que escorrem e que ainda por cima pode ir ao forno. Não fiquei contente, não...

Para estrear o prato, resolvi preparar um bolo do tipo "dá certo sempre", para evitar maiores problemas, e um a que sempre recorro quando estou com preguiça de lavar louça, pois ele não suja mais do que uma tigela e uma colher. Recorri a um livrinho que adoro, que comprei em Verona, nem tanto pelas receitas mas (e é aí que a profissão toma conta) pelo projeto gráfico: Torte Rustiche Come Le Faceva La Nonna ("Bolos rústicos como fazia a vovó"). A carinha de caderno pautado de páginas amareladas, as ilustrações aquareladas, as receitas italianíssimas (e algumas austríacas, como Sacher Torte, Stollen e Apfelstrudel; vê-se que os autores eram do norte)... Como eu poderia resistir?

A primeira vez que fiz esse bolo foi ainda na casa de meus pais, e lembro-me de ter ficado surpresa com sua intensidade. Adoro também seu nome: Il Moro ("O Mouro"), que sempre faz com que me lembre de quando li Othelo pela primeira vez, e me deixa curiosa a respeito da época em que a receita foi criada. Todos os bolos, doces e tortas do livro são, segundo seus idealizadores, parte de uma compilação de vários cadernos de receita antigos e tradicionais, e por isso quase todas as receitas são bastante simples e podem ser feitas com apenas uma colher de pau, ou, no máximo, um liqüidificador. Nada de processadores, nada de etapas complicadas, nada de ingredientes exóticos. E é justamente essa característica tão doméstica que me atrai a esse livro específico, o que considero estranho, já que, em geral, fujo de receitas-lambança "feitas para a dona de casa". Tudo o que, sou obrigada a admitir, afasta-me da cozinha "doméstica" brasileira, me atrai à cucina casalinga... Não consigo evitar, e sei que para muitos é como dizer que não gosto de música brasileira.

Desvios à parte, este não é o bolo mais bonito que eu poderia produzir para estrear o prato, mas é, sem sombra de dúvida, o bolo de chocolate mais fácil do mundo. Como não havia laranjas, usei 1 colher de chá de água de flor de laranjeira, mas acho que ainda prefiro o frescor das próprias frutas, ainda que a flor de laranjeira tenha contribuído com um sabor ligeiramente exótico e, por que não, um toque ainda mais "mourisco". Transcrevo aqui a receita, traduzida, pois eu sinceramente duvide-o-dó que alguém encontre esse livro para comprar em outra língua que não o italiano.

IL MORO
(do livro Torte Rustiche Come Le Faceva La Nonna)
Tempo de preparo: 10 minutos + 20-25 minutos de forno
Rendimento: 8 fatias


Ingredientes:
  • 150g de farinha de trigo
  • 170g de açúcar cristal orgânico
  • 1 ou 2 pitadas de canela
  • 2 colh. (chá) de fermento químico em pó
  • 80g de cacau em pó (NÃO USE chocolate em pó)
  • casca ralada de 1 laranja
  • 100ml de leite
  • 1 ovo

Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 200ºC. Unte e enfarinhe uma forma de bolo de 20cm, forrando o fundo com papel vegetal manteiga. Como o bolo leva muito cacau, ele tende a queimar mais rapidamente.
  2. Peneire os ingredientes secos em uma tigela, misturando-os bem. Junte a casca de laranja e o ovo e misture com uma colher de pau (esqueça aquela sua espátula delicada e use o utensílio mais bruto que tiver, pois a massa é um reboco!). Vá diluindo com o leite, até que fique homogêneo. A massa ficará espessa, escura e brilhante.
  3. Espalhe-a da melhor forma possível na forma, mas não se preocupe demais, pois ela preencherá a forma conforme esquentar. Leve ao forno. A receita original diz para deixar 30 minutos, mas aos 20 ele já dá sinais de estar pronto. Fique de olho e teste com um palito assim que a superfície estiver seca e inflada, pois o bolo precisa conservar certa umidade. Se o palito tiver ainda alguns indícios de massa, está pronto. Se estiver completamente limpo, passou. Ele ficará ainda muito gostoso, mas será um pouco seco. Desenforme, retire o papel do fundo do bolo e deixe esfriar sobre uma grade.
Já fiz esse bolo com sucesso em uma forma de bolo com furo no meio, bem pequena.

[UPDATE: Levei parte do bolo à minha mãe, e minha irmã fez um comentário pertinente: a textura lembra um pouco a de pão-de-mel. Não a agradou muito, pois, segundo ela, é um "bolo de chocolate que não tem gosto de bolo de chocolate". De fato, ele tem qualquer coisa que lembra a intensidade dos bolos de especiarias que europeus adoram fazer no natal. Claro, o livro sendo italiano, com receitas de avós italianas de verdade, não poderia se esperar um bolo com gosto de brasileiro. De qualquer forma, achei bom deixar isso muito bem avisado, para que ninguém saísse produzindo o bendito desavisado, achando que é um daqueles bolos que qualquer criança gosta. Ok?]

"Não gosto" não é desculpa

Desde que nos mudamos ouço do Allex "não gosto de mandioquinha; nem precisa fazer, que eu não vou comer". Eu, contudo, adoro mandioquinha. Mas até aí eu gosto de tudo. E lá veio a danada na cesta orgânica. Pobre Allex, pensei.

Como preparara arroz e feijão preto para o jantar, resolvi aproveitar a deixa para preparar as danadas. Mas não as queria de um jeito muito comum, ou Allex sequer as olharia. Era preciso um algo mais, um quê de exótico, que tornasse o tubérculo mais interessante aos seus olhos.

Folheando o livro de Nigella, Feast, encontrei uma receita de parsnips assados com maple syrup, e imediatamente soube o que fazer com minhas mandioquinhas.

Para duas pessoas, descasquei e cortei em palitos grossos 1 mandioquinha grande; cobri os palitos com água e sal e levei ao fogo até que elas estivessem macias, mas não se desmanchando. Escorri-as, e misturei-as a 3 colh. (sopa) de azeite de oliva e 1 colh. (sopa) de maple syrup, e levei a assadeira ao forno a 200ºC por cerca de 20 minutos, virando-as uma ou duas vezes, até que estivessem douradas e crocantes por fora.

O Sr. "Não Gosto De Mandioquinhas" confessou ter ido à cozinha surrupiar mais alguns palitos crocantes e adocicados após o jantar. Acabou tudo tão rápido, que nem foto deu para tirar.

Encerro meu caso.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Torta "Fui ver Waitress e fiquei morrendo de vontade de fazer torta"

Ontem finalmente consegui ver o filme Waitress, e tive, provavelmente, a mesma reação que todos os outros expectadores: corri para casa e fiz uma torta.

Há pontos positivos e negativos nessa receita inventada à la Jenna. Por um lado, os sabores realmente funcionaram (e não havia por que ser diferente). Por outro, a pressa e a distração quase puseram a torta a perder.

Havia pêras orgânicas na geladeira e um pote de mascarpone pela metade, e imediatamente soube que queria uma torta feita dessa mistura. Descasquei três pêras pequenas, retirei seus miolos e cozinhei-as em fogo baixo em 625ml de água e 150g de açúcar cristal orgânico, até que estivessem macias. Este é o primeiro ponto negativo: tive tanto medo de que as pêras desmanchassem, que não as cozinhei o suficiente, e elas ficaram mais firmes do que eu pretendia. Deixei que elas esfriassem no xarope enquanto preparava a massa.

Esta, por sua vez, foi tirada ipsis literis do livro Jamie At Home, com a única substituição de raspas de limão por noz-moscada. Adianto desde já que não gostei do resultado. Estou acostumada a produzir massas de torta muito leves e flocosas, e esta ficou dura como um biscoito, o que não era meu objetivo quando imaginei essa torta suave e macia. De qualquer forma, fiz metade da receita do livro e forrei com 2/3 da massa (o resto foi para o freezer) uma forma de 21cm. Assei-a no forno a 180ºC, forrada com papel alumínio e feijões por 15 minutos e depois terminei de dourá-la, sem os feijões e o papel, por mais 10 minutos. Retirei-a da forma e deixei que esfriasse sobre uma grade, para que eu aplicasse o recheio.

Em uma tigela, misturei a cerca de 150g de mascarpone 3 colh. (sopa) de açúcar baunilhado, 2 colh. (chá) de aguardente de pera, 1 colh. (chá) de leite e uma pitada de noz-moscada, até que o creme ficasse homogêneo e acetinado. Apliquei essa mistura sobre o fundo da torta fria, espalhando bem. Então fatiei as pêras e as dispus de forma um pouco displicente sobre o mascarpone.

Aí entra a distração que causou o erro no julgamento. A torta estava pronta, e poderia ir à geladeira ou à mesa. No entanto, eu não estava satisfeita com o aspecto pálido das frutas, e queria que elas tivessem as pontas mais coradas. Se tivesse um maçarico e boa pontaria, teria resolvido isso rapidamente, carmelizando apenas as pêras e deixando o creme (que jazia por baixo das fatias de fruta, devidamente escondido e protegido) intacto. No entanto, polvilhei açúcar por cima e coloquei a torta sob o grill do forno, apenas para me dar conta de que as pêras jamais caramelizariam sob o grill tão rapidamente a ponto de não interferir na textura do creme, pelo simples fato de terem sido cozidas, e precisarem de tempo para perder toda a água absorvida até que só restasse o açúcar a ser queimado. Além disso, esqueci-me do fato de que a equação fruta+açúcar+calor geraria um xarope indesejado, que tornaria o queijo aguado. A mistura do queijo, antes firme, de repente não suportava mais o peso das frutas, que afundaram, colocando a perder a minha trabalheira de tentar construir alguma forma geométrica visualmente agradável com três pêras de formatos tão variados.

Na hora de servir, fiquei decepcionada com justamente esses atributos, mas só hoje, depois de uma noite na geladeira, seu sabor suplantou seus defeitos e me arrependi de ter falado tão mal dela ontem ao meu convidado.

É uma torta a ser repetida com certeza, mas com pêras muito bem cozidas, sem a parte do grill e com uma massa melhor.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Risotto de alho-poró e mascarpone

O vício em risotto sempre fala mais alto quando me falta inspiração para fazer qualquer outra coisa com um legume.

Para 300g de arroz arbóreo, refoguei no azeite 2 ramos de tomilho, 1 dente de alho e 1/2 cebola picados até amaciar, juntei 2 alhos-poró médios fatiados fino e deixei que amaciassem e ficassem translúcidos, sem dourar. Acrescentei o arroz e prossegui normalmente, com caldo de legumes. Quando risotto estava no ponto, juntei um naco generosíssimo de manteiga, um punhado igualmente exagerado de parmesão ralado na hora, pimenta-do-reino e o toque final: 2 colheres (sopa) cheias de queijo mascarpone trazido diretamente da Itália pela cunhada.

Barriga cheia e paladar satisfeitíssimo.

Cozinhe isso também!

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