quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Gosto se discute... exaustivamente.

Ando pensando muito nas questões do paladar. Minha mãe sempre foi boa cozinheira, ainda que nunca se aventurasse fora de seu mundo gastronômico já bem estabelecido. Comi, durante toda a minha vida, seu mesmo feijão com arroz, mesmo creme de espinafre, mesmo strogonoff, mesma lasagne, mesma caponata de berinjelas, mesmo bolo de liqüidificador. Foi só quando minha irmã e eu demonstramos algum interesse pela cozinha, que se começou a "inventar moda" por aqueles lados.

Minha primeira incursão na cozinha, como eu já falei por aqui outras vezes, foi com brownies, aos 11 anos, e talvez por isso mesmo seja obcecada por eles. O próximo prato foi uma sopa de cebolas francesa, gratinada no forno (uma de minhas favoritas). E daí fui para lasagne de massa verde com mozzarella de búfala, tomates e berinjelas, risotto de cogumelos, frango com molho de laranja (na época eu comia), vichyssoise, cheesecakes marmorizados e por aí foi. À parte alguns pudins de leite e molhos de tomate, minha mãe sempre vinha à cozinha com ares de preocupação e me perguntava porque eu não preparava algo mais simples, porque gostava de me complicar tanto. E enquanto alguns pratos eram sucesso com ela e meu pai, outros faziam toda a família torcer o nariz, e minha mãe dizia, sem jeito, que não era para seu paladar.

Depois que visitei a Itália (ai, que saudades...), as coisas só pioraram. Foram tortas piemontesas de alho-poró, alcachofras recheadas alla romana, ravioli de ricotta e menta, tortas della nonna (com pinoli), panna cotta com calda de chocolate, salada quente de folhas de beterraba... E me lembro de cada um desses pratos: dos que deram certo e dos que deram horrivelmente errado.

Quero acreditar que minha exploração alimentícia foi me conduzindo aos poucos a determinados sabores e texturas, mas não consigo deixar de levar em conta meu estranho gosto para sorvetes e doces quando ainda criança: enquanto minha irmã se esbaldava com sorvetes de uva ou chocolate, eu procurava nas geladeiras da antiga Brunella ou da Ofner, as cores pouco atraentes dos pistaches, das nozes e das ameixas secas. Ao menos o amor pelas frutas secas é algo que minha irmã compartilhava comigo, já que sempre fomos grandes defensoras do panettone tradicional, em detrimento das deturpações modernas, enjoativamente abarrotadas de chocolate. Tenho lembranças vivas do sabor dos biscoitos de passas que minha avó fazia e outro dia lembrei-me do gosto e da textura firme de um doce que, acredito, era feito com tâmaras ou figos secos; pequenos quadrados escuros passados no açúcar de confeiteiro, de que minha mãe se recorda mas não sabe a receita ou mesmo o nome. E é justamente esse tipo de coisa de que sempre gostei.

Adoro doces feitos com frutas secas, independente de quais sejam. Gosto de especiarias, gosto de frutas vermelhas, gosto de castanhas. Ainda que haja dias em que apenas brigadeiro resolva, prefiro um clafoutis de cerejas a um mousse de chocolate. E, muitas vezes, me pego alterando receitas para que se encaixem melhor em meu paladar, trocando pedaços de chocolate por cerejas cristalizadas, ou acrescentando alguma especiaria onde ela não existia. Mesmo as receitas mais populares no Brasil, como pudim de leite, prefiro fazê-lo pelo método tradicional, com ovos e leite, ignorando as versões com leite condensado, preferindo sabores mais suaves.

Ainda que, quando recebo convidados, tente não assustá-los com pratos demasiado diferentes, não foi apenas uma vez que notei um amigo ligeiramente desconfortável, empurrando seu risotto de radicchio ou seu clafoutis de pêssegos de um lado para o outro no prato. Não os culpo. Acredito que se deve experimentar de tudo, mas não condeno gosto pessoal. Não posso forçar ninguém a gostar de meu gargouillau de poires se o indivíduo só está acostumado a comer bolo de chocolate da Pullman.

E dizendo isso, não digo que um está certo e o outro errado. Apenas que é um cuidado que preciso ter, pois minha mãe tem de fato razão: eu gosto de complicar as coisas, e tenho um paladar muito "europeu", ainda que deteste o quão esnobe soa essa frase. Às vezes me esqueço disso, e erro muito a mão quando cozinhando para gente desavisada. Um bom exemplo disso é este último bolo aqui publicado, Il Moro; só depois me ocorreu que era melhor avisar que não era um bolo de chocolate para crianças, ou mesmo para adultos chocólatras, e sim um bolo de chocolate que se poderia esperar de uma avó italiana do século XIX, muito mais semelhante em textura e sabor aos bolos europeus de especiarias, do que a um bolo de chocolate de uma mãe brasileira.

Tentarei, então, ser mais cuidadosa por aqui e avisar quando um prato for um sucesso incontestável ou um gosto adquirido. Tenho certeza de que todos têm uma história de alguma receita que parecia fantástica pela descrição do autor, e, ao ficar pronta, revelou-se ótima... mas não para você. E ela fica ali, uma torta inteira, um bolo inteiro, um jantar inteiro, olhando para a sua cara, e você não quer chegar nem perto. Nada pior do que gastar fortunas em ingredientes e tempo na cozinha só para descobrir que você não divide com o autor da receita o mesmo entusiasmo por doces tradicionais de algum vilarejo perdido na Europa.

15 comentários:

Flávia J. F. Solís disse...

Sem querer provocar, mas o que é paladar europeu? Quer dizer que você prefere alcachofra a mandioca? Ou de que canto da Europa ele é?(tá bom vai... queria provocar só um pouquinho. E eu sei que é da Itália essencialmente). Eu tenho paladar universal, acho. :D

Ana Elisa disse...

Haha! Como eu disse, foi minha mãe que inventou isso. Foi o jeito dela de explicar porque não gostava de determinados pratos que eu cozinhava, e minha irmã dizia o mesmo. Foi o que elas disseram quando mostrei-lhe o último livro do Jamie Oliver: europeu demais. Muitas frutas vermelhas, combinações de sabores que não são usuais da cozinha do dia-a-dia do sudeste brasileiro, ou mesmo ingredientes que só estão começando a chegar aqui.

;)

Dani disse...

Adorei o texto, Ana.

Déjavu: O bolo de aniversário da minha mãe, quando fiz um recheio de ameixa seca maravilhoso e o que o povo gostou mais foi o inevitável bolo de chocolate com recheio de chocolate... E quando fiz um clafoutis de ameixa e ele ficou lá, coitadinho, de canto...

Lu disse...

Ana
minha avó diria que o seu paladar é "granfino", o que eu acho que equivale ao que sua mãe chamou de "europeu"...

acho muito bacana vc ter essa noção de como era o seu paladar e como algumas coisas foram "evoluindo" no seu gosto pelos alimentos.

É curioso como alguns sabores da infância ficam marcados na nossa memória visual e gustativa, mesmo que depois - já adultos - não mais tenhamos o hábito de comer aquela determinada coisa.

O que eu acho legal do seu blog é que, a despeito do seu paladar "granfino" (o que para alguns poderia ser um dificultador), as receitas costumam ser bastante convidativas, mesmo quando um ou outro ingrediente não faz parte da minha alimentação diária.
E os seus textos costumam explicar e às vezes até justificar o uso de alguma iguaria que foge ao cotidiano das receitas que encontramos por aí, deixando o leitor "avisado" - digamos assim...

Bom, era isso!
Gostei muito do post!
Bjos!

Márcia disse...

Ana,
entendo perfeitamente esse seu sentimento, pois acho q todos nós q temos o prazer de cozinhar e descobrir novas receitas e sabores já nos deparamos com essa sensação q vc tão bem descreveu.
No meu caso, a minha luta constante tem sido para gostar de verduras e legumes, pois tais nunca fizeram parte do meu cardápio e, agora, sinto q meu corpo precisa de comidas mais saudáveis. Ainda é muito difícil para mim fazer um prato "verdural" que me agrade. Mas eu sigo tentando...

Silvia Fochesato disse...

Ana , entendo perfeitamente o que você disse , pois sendo italiana de nascença e criação em minha casa sempre tinha ingredientes nada usuais por aqui , ainda mais há 34 anos atrás , tipo funghi porcini , aspargos , carne de coelho e por aí vai , meu marido quando começou a namorar e frequentar minha casa , não acreditava que comiamos tais coisas , era sempre muito engraçado! Hoje ele aprendeu a comer coisas muito diferentes sem preconceito algum , coisa que muitas pessoas que conheço tem com alguns ingredientes, e são bem radicais neste ponto . Assim penso que devemos respeitar sim o gosto e paladar alheios , porem sempre que possivel tentar mostrar que também existe sabor e texturas em cogumelos , aspargos , alcachofras etc...
Grande beijo

Andreia T. Farias Britez disse...

Oi Ana,
Achei este post super bacana! NA minha casa minha mãe tbém é muito boa cozinheira mas nenhum pouco aventureira assim como sua mãe. Cresci com um paladar "normal" mas depois que casei minha alimentação mudou bastante pois gosto de tentar coisas diferentes e é aí que seu blog me ajuda muuuito!! Meu maridão tem adorado as coisas que tenho feito!! Só queria um help: tô com um livro da Nigella e quero fazer uma receita que pede bake soda. O que é isso? Vc sabe? Beijão!

Ana Elisa disse...

Ufa! Que bom que todo mundo entendeu meu ponto! EStava morrendo de medo de ser mal interpretada!

Andreia, baking soda é bicarbonato de sódio.

Beijos!

laila disse...

ii ana uma vez fiz um jantar toda cuidadosa, com sabores asiáticos, mas cuidei pra não ser tão exótica, teve uma amiga q recusou tudo e acabou comendo literalmente pão com manteiga, me senti mal n a hora, mas bem, cada um com seu paladar!!!

bjs

carladuc disse...

Ana,

Muito legal o seu texto! hehe :)

Bom, eu acredito que só tem um jeito de ampliar nosso paladar que é testando e se aventurando por novos caminhos. O que acontece nesse processo, é que nem sempre o que pensamos que irá agradar, agrada. Ou melhor, as vezes não agrada de imediato, mas certamente abre portas para novos sabores nunca antes experimentados. É um risco que se corre, mas qual a graça se não o corrermos? :)

Abraços,

Carla

Gourmandise disse...

Adorei o seu texto! Somos uma soma de vários fatores: descendência racial, cidade onde crescemos, terroir, alergias/intolerâncias, traumas alimentares...
Cada organismo digere um alimento de maneira diferente.
Mas qto estamos abertos à novos sabores? Será que é costume do brasileiros experimentar novos sabores, arriscar? O paladar nacional não pede mais açúcar (cultura da cana de açúcar) que o europeu/asiático? E o amargor, suportamos (tem gente que acha que alcachofra é amarga/desagradável)?
Minha irmã não aceita novos sabores e tivemos a mesma criação.
Eu gosto de experimentar de tudo (evito apenas baratas....rs)
bjo,
Nina.

Rogério disse...

Bem, Ana, o que dizer? Todo mundo já comentou mais ou menos o que penso...

Entendo bem seu ponto de vista. E concordo. Só acho que você não precisa mudar nada do belo trabalho que vem fazendo por aqui. Não precisa avisar se esta ou aquela receita é mais exótica ou inusitada. Faz parte do aprendizado culinário de seus leitores ir percebendo isto...(na minha opinião).

Um outro ponto: eu acho que o paladar evolui, se aprimora, muda (assim como o gosto musical também...você é violinista, sabe do que estou falando...). E neste ponto você está contribuindo, de uma forma ou de outra para esta evolução.

Quanto a meu paladar? Particularmente ele não é europeu, brasileiro ou asiático...ele é muito é curioso. Eu tenho um paladar curioso e experimento tudo o que é inusitado e diferente!

Parabéns pelo post.

Beijos
Rogério

bruna lyrio disse...

Oi, Ana. Quando a sua família diz que vc tem "paladar europeu", significa que vc gosta de produtos que nao fazem parte do dia-a-dia do brasileiro médio, digamos. Pelo menos, foi o que entendi. E isso me fez pensar em outra coisa, e, se eu viajar, desconsidere. Acho que o europeu mesmo, de forma geral, é bem mais fechado em relaçao a comidas "diferentes" (pelo menos, os que têm cozinhas bem regionalistas: italianos, espanhóis, franceses...) do que o brasileiro, pelo menos na minha percepçao. Tudo aquilo que saia do seu mundinho gastronômico é considerado "exótico", e isso, tenho que confessar, nao entra na minha cabeça. Bom, isso pode ser conseqüência do europocentrismo gastronômico, ou de outros mil fatores, vai saber?! Pelo menos, hoje em dia já podemos conhecer melhor outras grandes cozinhas, como a turca, a indiana, a chinesa, a japonesa, a marroquina, a tailandesa, a vietnamita, e por aí vai. E, pelo que tenho lido no seu blog, vc me parece bem aberta gastronomicamnte.
E isso é bom! ;-)
Um beijo,
Bruna.

Flávia J. F. Solís disse...

Oi Ana.
Postei aqui em cima uma pergunta bobinha, mas entendi sim o que vc disse. Achei interessante seu post e, como eu disse, só estava fazendo uma gracinha sem graça. :) E também tenho o mesmo sentimento que você. Muita gente tem muito mais dificuldade (ou falta de interesse, não sei) para testar o que não é do cotidiano. Eu sou do time dos que gostam de se aventurar, sem compromisso de adorar tudo.

vanessa . disse...

esse blog ta sendo uma das minhas melhores descobertas do ano. Grazie

Cozinhe isso também!

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