sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Terror de ontem, delícia de hoje

Coisas como gibis contribuíram para a formação de meu preconceito infantil contra legumes como o quiabo. Afinal, sempre que se coloca em uma história infantil algum alimento que a criança, dentro do contexto da trama, deva achar nojento, é sempre quiabo ou jiló. Por isso, detestava quiabo sem nunca tê-lo provado. E olha que eu era uma criança razoavelmente aventureira.

Demorei cerca de 23 anos para provar meu primeiro quiabo, e só porque minha mãe me garantiu que sua técnica o livrava da "baba". Bom, foi amor à primeira mordida, e me arrependi por ter demorado tanto tempo para me desfazer do preconceito.

Fiquei pensando o quanto o coitado do quiabo não sofre simplesmente pelo modo como é descrito. Se fosse dito que o legume tem o centro gelatinoso, isso seria mais ou menos repulsivo do que dizer que ele possui "baba"?

Acredito piamente no amadurecimento do paladar de um ser humano, e acho que isso está diretamente relacionado ao amadurecimento em geral de um indivíduo. Quando era pequena, coisas como espinafre e escarola faziam com que eu torcesse o nariz e cruzasse os braços à mesa, e ria quando meus pais diziam que começaria a gostar de coisas amargas quando ficasse adulta. De fato, as pessoas crescem e surgem um milhão de oportunidades de se experimentar novamente ou pela primeira vez algo que era um terror de infância, e, a não ser que haja algum episódio traumático relacionado, dificilmente obtém-se o mesmo veredito.

Sendo sincera, tenho uma cisma violenta com adultos que têm paladar de criança. Gente com mais de 20 anos na cara que se recusa a sair da tríade arroz, bife e batata-frita me dá verdadeiros calafrios, e normalmente não consigo conversar com uma pessoa que se recuse a experimentar qualquer coisa de nova. Parece-me falta de confiança no outro. Quando meus pais diziam "experimenta que é gostoso", eu confiava neles. Não prometia gostar da coisa, mas pelo menos tentaria, pois meus pais nunca mentiriam para mim ou tentariam me envenenar. Já ouvi calamidades na minha própria casa quando uma convidada fez cara de nojo para um pão recheado com molho pesto, simplesmente pelo recheio ser verde. Pode uma pessoa destas? Deveria ou não ter abandonado o bom senso e chutado a mulher para fora do prédio??

De qualquer forma, não preciso dizer para ninguém que hoje espinafre e escarola estão entre minhas verduras favoritas.

Quando recebi o quiabo na cesta orgânica, fiquei feliz, pois, apesar de gostar dele, acho que o marido jogaria uma tigela na minha cabeça se eu saísse especificamente para comprar algo que ele (de novo, ai, ai) não gosta. Usei como base algumas receitas árabes (o pessoal naquela parte do mundo sabe o que é bom e come muito quiabo) e as dicas maternas (o vinagre é a peça-chave), e o resultado não decepcionou. Allex nem provou ainda, mas acho que, desta vez e apenas desta vez, vou poupá-lo. Desde que o conheci até que ele tem sido muito colaborador, e tem experimentado de tudo, mesmo quando me garante de pé junto que não consegue nem ficar na mesma sala que a comida em questão.

Sem problemas. Fica tudo para mim, acompanhado de uma salada de alface e lentilhas verdes ao curry.

Quanto ao jiló, ainda não tive chances de experimentar. Quem sabe ele não vem um dia na cesta?

QUIABO (sem baba) DO MEU JEITO
Tempo de preparo: 30 minutos
Rendimento: 3-4 porções como acompanhamento


Ingredientes:
  • 400g de quiabo
  • 1/2 cebola fatiada fino
  • 1 dente de alho fatiado fino
  • 1 colh. (sopa) de azeite
  • 1/2 colh. (sopa) de vinagre branco suave (de Champagne)
  • 1 pitada de açúcar
  • sal e pimenta-do-reino
  • 1 punhado de salsinha picada

Preparo:
  1. Corte fora as duas extremidades dos quiabos. Corte-os em pedaços de 2-3cm e os coloque em uma tigela. Lave em umas 3 trocas de água e escorra.
  2. Em uma panela ou frigideira funda, aqueça o azeite e doure a cebola e o alho em fogo baixo, até que fiquem macios e ligeiramente dourados. Junte o quiabo, mexendo bem, por cerca de 5 minutos.
  3. Coloque água suficiente para quase cobri-los, salgue bem, tempere com pimenta e junte o açúcar e o vinagre. Mexa e deixe ferver em fogo baixo até que os quiabos estejam cozidos. Junte mais água se necessário.
  4. Escorra, acerte o tempero, polvilhe com a salsinha picada e sirva quente ou frio.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

VÍTIMAS CULINÁRIAS 4: cookies sensacionais para o mais analfabeto dos cozinheiros

Uni agradavelmente minha recente vontade de fazer cookies ao apetite de meus colegas de corrida. Eu lhes prometi que levaria quitutes amanhã, e me pus logo a procurar uma receita de cookies que superasse a última batelada que lhes levara. Fui a meu livro mais confiável e a foto (a única de todo o capítulo) dos Double Chocolate Macadamia Chunk Cookies me conquistou com sua cor castanha intensa pontilhada de branco e dourado. Fiz muito poucas adaptações à receita, de acordo com o que havia na despensa e com meus caprichos.

Estes são sem sombra de dúvida os cookies mais deliciosamente intensos, e ao mesmo tempo mais ridiculamente fáceis que já provei. A massa feita de muito chocolate amargo derretido e cacau em pó fica escura, intensa, macia, derretendo na boca. O que lhe adiciona profundidade e um toque extra de doçura são, respectivamente, as castanhas de caju sem sal e o chocolate branco, crocantes. Com certeza encontrei um novo favorito.

No que se refere à produção, que tal fazer cookies que não requerem nem batedeiras nem braços fortes? Basta uma colher. É inclusive aconselhável que não se misture demais a massa. Podia ser mais fácil? Esses são os doces perfeitos para um cozinheiro de primeira viagem ou para crianças. Mas peço encarecidamente para que sejam usados ingredientes de qualidade: um chocolate tipo cobertura que não tenha cacau suficiente pode deixar o cookie doce demais. Mas, até aí, há quem goste de qualquer coisa.

Os biscoitos já estão devidamente guardados, esperando para serem devorados amanhã de manhã. E azar de quem faltar no treino...

COOKIES DE CHOCOLATE COM CASTANHAS DE CAJU
(Ligeiramente adaptado do livro Professional Baking)
Tempo de preparo: 30 minutos
Rendimento: 30 cookies de 5cm de diâmetro


Ingredientes:
  • 250g de chocolate amargo com 50% de cacau
  • 85g de manteiga sem sal
  • 45g de açúcar cristal orgânico
  • 1 ovo extra-grande orgânico
  • 2 pitadas de sal
  • 125g de farinha de trigo
  • 10g de cacau em pó de qualidade (NÃO use chocolate em pó)
  • 3g de fermento químico em pó
  • 95g de chocolate branco de qualidade picado (que tenha como única gordura a manteiga de cacau)
  • 45g de castanhas de caju SEM SAL picadas
Preparo:
  1. Derreta o chocolate amargo e a manteiga em banho maria e reserve.
  2. Misture em uma tigela grande o ovo, o açúcar e o sal, apenas até que fique homogêneo. (Não deixe que espume, ou o cookie crescerá muito e ficará esfarelento demais.) Junte o chocolate derretido e misture.
  3. Peneire a farinha, o cacau e o fermento e misture ao chocolate, incorporando bem. Junte as castanhas e o chocolate branco e mexa até que fiquem bem espalhados na massa, que parecerá um pouco com massa de brownies.
  4. Forre uma assadeira bem grande com papel-manteiga e, com a ajuda de uma colher de sopa, disponha os pedaços de massa, uns 3-4cm distantes umas das outras. Você pode fazê-los menores, com uma colher de chá. Faça isso rapidamente, pois a massa endurece conforme passa o tempo.
  5. Com as costas de uma colher ou o socador de um pilão, pressione ligeiramente os pedaços de massa para que fiquem com 1cm de altura. Leve ao forno pré-aquecido a 180ºC por 15 minutos (10 minutos, de os biscoitos forem menores).
  6. Retire do forno. Os biscoitos parecerão secos na superfície, sem aquele aspecto brilhante de massa crua, mas estarão bastante moles. Deixe-os na assadeira por 5 minutos (longe de correntes de ar, pois elas podem rachar os cookies) e então retire-os cuidadosamente com uma espátula fina de metal, deixando que terminem de esfriar sobre uma grade. Quando frios, guarde-os em um pote fechado hermeticamente.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Pierre Hermé 3 x 3 Ana Elisa: uma guerra que quero muito perder


Na hora do almoço tive um comichão incontrolável, uma vontade incrível de fazer bolo. Olhei para todos os meus livros, mas aquele continuava me assombrando. E lá vamos nós...

A receita é bastante simples, na verdade, ainda que bizarra. Hermé pede para que se derreta a manteiga antes de batê-la com o açúcar, ao invés do processo normal de batê-la apenas em temperatura ambiente, para obter um creme fofo. Seguindo seus passos, não é um creme fofo, nem de longe, que se obtém.

Mas vamos lá, nada de derrotismo logo no começo. Junto as gemas, um pouco de baunilha (que não constava na receita, mas não suportaria comer um bolo branco com gosto de ovo) e junto a farinha peneirada. A coisa toda fica com cara de massa choux, e muito pouco semelhante a qualquer coisa que remeta à massa de bolo. Cabeça erguida, e vamos em frente. Acredito que esse é o único momento que tende ao desastre: a hora de incorporar algo leve e delicado como claras em neve a uma massa espessa e pesada como a que havia à minha frente. Ainda bem, no entanto, que a experiência nessas horas fala mais alto, e, depois de incorporadas as claras, a massa era leve e uniforme, como deveria ser.

Divido a massa em duas e acrescento a quantidade fenomenal de cacau, que, por sorte, era exatamente o que restava na despensa. A metade de massa misturada ao cacau tomou forma de... como posso descrever? De lama seca, para não dizer outra coisa. Impossível de ser "despejada" na forma, a massa teve de ser arrancada da tigela e atirada à forma untada e enfarinhada, violentamente.

Eu não sei o que houve comigo nessa hora. Havia lido a receita de cabo a rabo, como sempre faço, antes de começar. Por algum motivo (talvez fosse o espanto com a textura da massa ao longo dos processos), não a reli e acabei pisando na bola. Esqueci de forrar a forma com papel-manteiga. E ainda por cima (porque chocolate nem queima fácil não) inverti toda a ordem e despejei na forma: massa com cacau, sem cacau, com cacau, sem cacau. De modo que ao invés de obter um lindo bolo dourado com uma camada escura escondida, consegui um bolo tipo "mancha de nascença".

Tudo no forno. Como sou prevenida, deixei marcados 45 minutos no timer em lugar dos 50 pedidos no livro. Aos 40, abri a porta e testei o bolo com uma faca. Apenas a parte de chocolate deixara vestígios na lâmina. Aos 45 (veja bem: 45, não 50), o bolo estava queimado. Pronto, porém queimado.

Sabia que se o deixasse na forma, ele continuaria o cozimento, e, vendo como ele se desprendia facilmente das laterais, tentei desenformá-lo. Vi, desalentada, apenas sua metade superior despencar na minha mão.

Xinguei um pouco.

Apanhei então uma espátula de bambu que ganhara dos sogros e que, para dizer a verdade, jamais usara, e encontrei para ela grande serventia: consegui retirar a parte de baixo do bolo sem maiores estragos e encaixá-la à sua metade solitária, de modo que, olhando para o bendito, nem se vê a fenda.

Deixei que esfriasse antes de experimentá-lo, e surpreendi-me. Ainda que prefira bolos marmorizados mais leves, este ficou muito bom e muito rico. Sua parte de chocolate é quase um brownie no meio do bolo branco. O excesso descomunal de manteiga para um bolo tão pequeno, contudo, torna-o mais esfarelento do que minhas receitas favoritas de bolo marmorizado. Estas costumam ter ambas as massas bastante líquidas, de modo que, após depositá-las em camadas na forma, pode-se, com uma faca, criar desenhos que de fato façam com que o bolo faça jus ao nome.

De qualquer forma, o bolo ficou bom, deu tudo certo, Hermé está quase perdoado. Mas nunca mais asso um só bolo seu sem papel manteiga no fundo. Afe!

BOLO MÁRMORE DE PIERRE HERMÉ
(Descaradamente copiado do livro Larousse do Chocolate, apesar de isso não ser do meu feitio, só porque ainda estou com raivinha do cara)
Tempo de preparo: 20 minutos + 50 min. de forno
Rendimento: 6-8 fatias


Ingredientes:
  • 175g de manteiga
  • 200g de açúcar
  • 175g de farinha de trigo
  • 1/2 colh. (sopa) de fermento químico em pó
  • 3 ovos
  • 50g de cacau em pó
Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 180ºC. Separe as claras das gemas.
  2. Derreta a manteiga em fogo baixo. Bata com o açúcar. Junte as gemas e misture bem até ficar homogêneo. Peneire a farinha com o fermento e incorpore à mistura de manteiga.
  3. Bata as claras em picos firmes e misture aos poucos e com cuidado à massa, mexendo com uma espátula sempre no mesmo sentido. Divida a massa em duas partes iguais.
  4. Peneire o cacau sobre uma das tigelas de massa e misture.
  5. Unte e enfarinhe uma forma de bolo inglês de 22cm e forre com papel manteiga. Despeje metade da massa sem cacau, cubra com a massa com cacau e novamente com a sem cacau. Leve ao forno e deixe assar por 50 minutos, ou até que uma faquinha saia limpa quando inserida em seu centro. Desenforme e deixe esfriar antes de servir.

Meu blog é bom prá burro

Fiquei lisonjeada hoje por ter recebido esse prêmio de dois blogs diferentes: da Fer e da Lara. Agora nem sei o que faço, se nomeio 7 ou se tenho de nomear 14. Mas sempre acho engraçado esses prêmios em que quem recebe tem que nomear mais 7, que têm de nomear mais 7, e assim numa progressão geométrica que resulta em todo mundo recebendo o prêmio e todo mundo feliz. É com certeza uma das idéias mais democráticas da internet. Mas e aí? E se o blog que você lê já foi nomeado por alguém que te nomeou? Pode repetir?

Eu nomeio... hm... dexeuver... é tanta gente... Ok, vou ter de fazer uni-duni-tê, e espero que ninguém fique ofendido. Seguem os escolhidos, sem ordem de preferência:
Khodair
Brincando de Casinha
Technicolor Kitchen
Comidinhas do Bem
Agdá
The Inner Life of Food
Amouse Bouche

Vamos às regras:
1 - Este prémio deve ser atribuído aos blogs que considerem serem bons. Entende-se como "bom" os blogs que costuma visitar regularmente e onde deixa comentários;
2 - Só se recebeu o "É um blog muito bom sim senhora", deve escrever um post incluindo:. a pessoa que lhe deu o prémio com um link para o respectivo blog; a tag do prémio;. as regras;. e a indicação de outros 7 blogs para receberem o prémio;

Às vezes nada dá certo, mas de vez em quando a salada de batatas compensa o pão porqueira

Ontem, no mesmo fatídico domingo em que, pela primeira vez, não produzi um pão ciabatta semi-decente, saiu de minha cozinha uma salada de batatas de repetir até não sobrar nem molho no fundo da travessa. Ainda bem que aqui em casa todo mundo é (mais ou menos) comedido. Essa salada ficou sensacional comida direto da geladeira, hoje no almoço.

Se quiser, pode descascar as batatas, antes ou depois do cozimento. Eu acho um desperdício de sabor e nutrientes. Com certeza perde-se na apresentação, mas quem se importa com isso num almoço de domingo?

SALADA DE BATATAS E VAGENS ESTILO EUROPEU
(Adaptado do livro Professional Baking)
Tempo de preparo: 40 minutos + 20-60 minutos de espera
Rendimento: 4 porções


Ingredientes:
  • 500g de batatas
  • 400g de vagem macarrão
  • 1/2 cebola picada
  • 2 colh. (sopa) de vinagre de vinho tinto
  • 80ml de caldo de legumes
  • 1 colh. (sopa) de mostarda de Dijon
  • 2 colh. (sopa) de azeite de oliva extra-virgem
  • 1/4 colh. (chá) de açúcar orgânico claro
  • sal
  • pimenta-do-reino
  • 2-3 cebolinhas picadas
  • 1 punhado de salsinha picada

Preparo:
  1. Cozinhe as batatas inteiras e com casca, em água suficiente para cobri-las mais 5cm, até que um garfo as perfure facilmente mas não as desmanche.
  2. Enquanto isso, corte as duas extremidades das vagens, jogando-as fora, e corte as vagens em pedaços de cerca de 3cm. Coloque uma panela com água para ferver e, quando a água estiver em ebulição, junte as vagens e cozinhe até que fiquem macias.
  3. Escorra as batatas e volte-as à panela em fogo muito baixo, para que terminem de secar, até que nenhum vapor saia delas (menos de 1 minuto). Assim que conseguir manuseá-las, mas tendo-as ainda bem quentes (ou não absorverão o tempero), corte-as em fatias grossas ou quartos. Misture às vagens numa travessa.
  4. Em uma panela pequena, aqueça o vinagre, a cebola picada e o caldo de legumes, até que abra fervura. Desligue e misture a mostarda, o açúcar e sal e pimenta a gosto. Junte o óleo e bata de leve com um garfo ou fouet, para que o preparado emulsione bem e fique homogêneo.
  5. Junte o molho às batatas e vagens ainda quentes, misturando muito bem. Deixe descansando em temperatura ambiente por 20 minutos a 1 hora. Na hora de servir, misture a salsinha e cebolinha.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

PADARIA DE DOMINGO 7: nem tudo dá certo sempre

Parece uma linda ciabatta, meu pão favorito, mas quando o abri, tinha consistência de biscoito de polvilho. Só posso acreditar que o forno estivesse muito quente, pois toda a sua confecção se seguiu tranqüilamente, e todas as etapas correspondiam exatamente às imagens do livro. Fico chateada por ter desperdiçado bom azeite, e porque não via a hora de provar desse pão. Mas, nem sempre a gente acerta, há vezes em que as coisas simplesmente dão errado e ponto.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Panquecas de aveia

Gosto de manhãs de sexta-feira, pois é o único dia da semana em que posso tomar café-da-manhã com meu marido calmamente, sem me sentir culpada por ter faltado na corrida.

Hoje, especialmente, fui acordada não pelo cachorro, mas por meu marido dizendo "Panquecas. Panquecas". Ok, ok... Mas quero testar outra receita.

Estas são panquecas de aveia, adaptadas de uma receita de revista francesa Saveurs. Elas são mais massudas e ficaram muito boas para alguém como eu, que adora aveia. Meu marido torceu o nariz quando viu a receita, torceu o nariz quando as preparei e continuou torcendo o nariz enquanto comia. "Eu detesto aveia", resmungou. Bom... vivendo e aprendendo. Dessa eu não sabia. A sugestão da revista era que se derretesse geléia de frutas vermelhas numa panela e que se derramasse essa calda espessa sobre as panquecas. Nós continuamos no bom e velho maple syrup, que nunca decepciona.

PANQUECAS DE AVEIA
(Adaptado da revista Saveurs)
Tempo de preparo: 10 minutos
Rendimento: 4 panquecas do tamanho de um pratinho de sobremesa


Ingredientes:
  • 75g de farinha de trigo
  • 75g de aveia em flocos
  • 150ml de leite integral
  • 1 ovo
  • 1 colh. (chá) de fermento químico em pó
  • 1 colh. (chá) de açúcar orgânico claro
  • 1 pitada de sal
  • 1 pitada de canela
  • 1 pitada de noz-moscada ralada na hora

Preparo:
  1. Misture todos os ingredientes com um garfo até que fique mais ou menos homogêneo. Aqueça uma frigideira pequena, derreta um pouquinho de manteiga e despeje uma concha (80-100ml) da massa, girando a frigideira para que a massa se espalhe uniformemente. Deixe em fogo médio-baixo até que doure embaixo e forme buracos na superfície. Vire com uma espátula e deixe dourar do outro lado. Sirva quente, com manteiga e geléia, mel ou maple syrup.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Cookies de café e nozes



OK, eu não queria deixar ninguém com nojo pelo último post. Então, deixo aqui um docinho de adulto, para fazê-los esquecer aquela imagem grotesca de unhas sujas (juro que foi só daquela vez, e só porque achei ótimo provocar meus amigos mais preocupados). Esses cookies não são doces como os comuns, com gotas de chocolate; mas são gostosos, bons para comer com um café. Por isso mesmo resolvi prepará-los. Como vou pela primeira vez à casa de uma das meninas que correm comigo, achei de bom tom levar-lhe algum mimo.

Tive de fazer algumas substituições, já que não havia açúcar mascavo claro em casa, ou pó para espresso instantâneo. Como ela advertia a respeito da mudança de textura no uso de café solúvel ou café em pó comum, bati meu café para espresso no pilão antes, para ter certeza de que seus grãos eram bem pequenos. As alterações na receita fizeram com que os cookies não se espalhassem tanto quanto eu gostaria, o que, no entanto, de modo nenhum mudou o fato de que eles ficaram bons.

Resta saber se as meninas gostarão deles.

COOKIES DE CAFÉ E NOZES
(Ligeiramente adaptado do livro How to Be a Domestic Goddess)

Tempo de preparo: 45 minutos
Rendimento: 30-35 cookies


Ingredientes:
  • 3/4 xíc. + 2 colh. (sopa) de manteiga sem sal em temperatura ambiente
  • 1/4 xíc. de açúcar orgânico claro
  • 5 colh. (chá) de açúcar demerara orgânico
  • 4 colh. (chá) de açúcar mascavo orgânico
  • 2 colh. (sopa) de café em pó (moído fino)
  • 2 ovos extra-grandes orgânicos
  • 1 2/3 xíc. de farinha de trigo
  • 1 colh. (chá) de fermento químico em pó
  • 1/2 colh. (chá) de sal
  • 3/4 de xíc. de nozes picadas
Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 180ºC. Bata a manteiga e os açúcares até que fique cremoso. Junte o café em pó, deixe misturar, e acrescente um ovo de cada vez, misturando bem a cada adição.
  2. Misture a farinha, o sal e o fermento e junte à manteiga aos poucos, misturando com uma espátula até que fique homogêneo, mas sem bater em excesso. Incorpore as nozes de modo uniforme.
  3. Forre uma assadeira com papel-manteiga e, com uma colher de sopa como medida, disponha bolotas de massa, com 3-4cm de espaço entre elas. Deixe o resto da massa na geladeira enquanto a primeira leva assa. Leve ao forno por 15 minutos, até que estejam douradas na base e firmes ao toque. Deixe esfriar sobre uma grade e repita a operação até o fim da massa.

Tudo é relativo: até dedo sujo no queijo


Antes que você se revolte com a foto, deixe-me explicar. Adoro acampar, mas não o faço tanto quanto gostaria. E quando digo acampar, quero dizer botar a mochila nas costas e andar do ponto A ao ponto B, por alguns dias. Quanto menos interação com qualquer coisa semelhante à civilização, melhor.

A primeira vez que se acampa, principalmente quando se começa já adulto, pode ser ligeiramente traumática. Como assim, não tem banheiro?? Por isso meu primeiro acampamento foi uma baba, em camping, apesar de ser no meio do mato, e até chuveiro de água quente havia.

Conforme você vai pegando gosto pela coisa, vai aumentando a distância entre você e os confortos modernos. E aí é que entramos no verdadeiro assunto desse post. A primeira coisa que você deve pensar quando decide fazer uma travessia é levar pouco peso na mala. Mesmo assim, você terá 11kg nas costas. Boa parte desse peso é comida. [A-há! Tá vendo como tinha comida envolvida no texto?] A boa notícia é que, durante a viagem, você vai se livrando desse peso, uma vez que você o consome. Cada vez que vamos acampar é a mesma briga entre meu senso gastronômico e meu senso de acampamento. A comida deve ser leve de carregar, rápida de preparar, ocupar pouco espaço na mochila e não ser perecível. Quando comíamos carne, o negócio era levar salame. Mas e agora? Queijos amarelos curados, como minas meia-cura ou provolone são a melhor pedida para o almoço, quando não dá tempo de ligar o fogareiro.

Queijo??? Mas queijo não tem de ficar na geladeira???

ABERTURA DE MENTE NÚMERO 1: Não. Queijos curados agüentam bons dias fora da geladeira. Olha você tremendo, com medo de intoxicação... heheheh...

Então, você está andando há horas e a água do seu cantil acabou faz tempo. Está um calor do cão. Você encontra uma quedinha d´água cristalina. Normalmente você encheria seu cantil e colocaria nele uma pastilhinha de cloro, esperando uma meia hora antes de beber. Mas não dá para esperar. Tem uma subida enorme à sua frente e embaixo do sol.

ABERTURA DE MENTE NÚMERO 2: Se estiver no meio do mato há mais de dois dias e com muita sede, você ignora até aquelas aranhinhas que ficam na superfície da água e bebe com gosto, e esquece a partir de então de usar as pastilhinhas de cloro. Até chegar perto da civilização de novo. Aí não tem jeito. Sempre tem uma anta que constrói fossa séptica do lado de nascente de riozinho.

Continua andando e, de repente, encontra um lindo pé de amoras carregado, ou um belo dente-de-leão jovem, ambos piscando para você e dizendo: me coma. Há dias você come miojo e tudo o que você quer é um gostinho fresco na boca.

ABERTURA DE MENTE NÚMERO 3: Se encontrar um arbusto cheio de amoras, vai ignorar completamente o fato de que provavelmente um monte de pássaros e insetos já devem ter remexido naquilo, para não dizer roedores, e provavelmente vai pegar as folhas do dente-de-leão e, quando muito, passar embaixo da próxima quedinha d´água, só para tirar a terra. Sem pastilhinhas de cloro.

Então você pára para o almoço. Senta na grama, abre a mochila e olha para seu pãozinho e seu queijo imaculados. Olha para suas mãos e vê que elas estão recobertas de lama seca. Seu cantil está cheio, mas o próximo rio está a 3 horas de caminhada.

ABERTURA DE MENTE NÚMERO 4: Você vai comer seu pão com queijo com as mãos mais imundas que já teve e tirar uma foto para chocar sua mãe depois, pois nem a pau que você vai desperdiçar sua água para algo tão estúpido quanto lavar as mãos. O que você é? Um bibelot?

É claro, tudo isso é uma piada. Apesar de já ter passado por todas essas situações. E meus acampamentos foram leves, no máximo 3 dias de travessia. Minha cunhada já fez coisa pior, subiu o monte Roraima, e são muitos dias indo e outros tantos voltando. E lá sim é meio do mato. O caso é que, quando você passa 3 dias carregando sua casa nas costas, sem tomar banho, usando a mesma roupa, cobrindo com terra suas necessidades, bebendo água de rio e comendo queijo amolecido de calor com mão suja de terra, você muda RADICALMENTE o seu conceito do que é limpo ou seguro. Você volta para casa e acha tudo uma frescura sem tamanho. Vê como seu corpo é na verdade forte, e como o estamos enfraquecendo ao impedi-lo de lidar com determinados micróbios.

Costumo brincar dizendo que as crianças que moraram no meu prédio quando eu era nova têm os organismos mais fortes do mundo, pois todas nós brincávamos no mesmo tanquinho de areia, onde gatos de rua zanzavam livremente durante a noite, fazendo exatamente o que você imagina. O que nos torna imunes a tudo é o fato de que todo mundo se lembra do gosto daquela areia.

Claro, eu lavo muito bem minhas mãos antes de cozinhar qualquer coisa, prendo os cabelos com um lenço, e quero minha cozinha organizada e brilhando sempre. Odeio louça suja e tenho paúra de embalagens semi-abertas. A imagem de qualquer inseto rondando minha cozinha é demais para mim.

Mas algumas coisas que supostos cientistas e médicos falam na TV (ainda mais onde!) simplesmente não me convencem. A não ser que estejamos falando de práticas industriais.

Afinal, o que não mata engorda. E achei que seria bom explicar um pouco mais sobre mim e porque sou assim tão desconfiada...

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Elucubrações acerca de uma minúscula despensa

Minha despensa não é das maiores. Aliás, ela é minúscula. Composta de duas únicas prateleiras de 30x100cm, é preciso uma mente organizada e um grande autocontrole para não comprar mais do que elas comportam. Alguns problemas de estoque (e limpeza) resolvi com estas duas caixas de vime. Uma sem tampa, para os temperos, que manuseio todos os dias, e uma com tampa, tipo baú, para itens de confeitaria, que costumam sair do lugar uma vez por semana apenas. Farinhas e grãos de embalagens abertas vão para potes de vidro. E as validades, você me pergunta? Ah, depois da primeira vez que você deixa encher de caruncho quase 1kg de polenta italiana, você nunca mais deixa o pote encostado por mais de dois meses. Potes com coisas que vencem mais rápido, como farinha integral, ficam na frente. Na prateleira debaixo, massas, itens de café-da-manhã, alho e cebolas numa tigela branca, enlatados.

Tenho com minha despensa a mesma cisma que tenho com minha geladeira: gosto de vê-la esvaziando. Sinto-me muito competente e eficiente quando consigo usar toda a comida que tenho disponível. Então corro ao mercado para encher novamente as prateleiras de todos os itens sem os quais simplesmente não sei cozinhar. E esses, acredito, são os dez itens mais insuportavelmente cruciais na minha despensa, sem os quais fico na cozinha feito barata-tonta:


  1. Azeite extra-virgem: uso para absolutamente tudo; só uso outros óleos quando especificados numa receita ou para fritura por imersão.
  2. Manteiga sem sal: compro de quatro a seis pacotinhos de cada vez, pois entro em depressão quando não há manteiga em casa.
  3. Alho: bobeou, estou refogando alho. Se não tiver cebola, eu me viro. Se não tiver alho, f*deu.
  4. Tomates italianos pelados em lata: a salvação de todo macarrão de fim do mês e a promessa de tomates com gosto de tomates.
  5. Farinha de trigo: se tiver farinha na despensa, não preciso sair correndo para comprar nem massas nem pão.
  6. Ovos orgânicos: aqui em casa vão umas 2 dúzias por mês. Mas também, olha a quantidade de omelete, torta, massa, bolo e sorvete que sai dessa cozinha...
  7. Leite integral: o marido é umbezerro, mas fora isso há todos os itens mencionados acima: bolo, sorvete, massa, torta, molho...
  8. Arroz arbóreo: arroz comum aqui em casa é de vez em quando. O arbóreo, no entanto, é obrigatório. Se estiver acabando, corro para repor, porque nada é mais prático para duas pessoas do que um prato único e versátil como o risotto.
  9. Couscous marroquino: quando estou sem inspiração e pergunto ao Allex o que ele quer comer, a resposta é essa em 99% das vezes.
  10. Queijo parmesão: não dá para fazer massa sem ter queijo ralado em cima; não dá para fazer um risotto, sem queijo no final; não dá para fazer uma fritatta sem ele. Não dá para viver sem ele e ponto. Principalmente se for bom. E de pedaço, para ralar na hora. Meio quilo por mês.
Se tivesse um décimo-primeiro item, incluiria ervas, qualquer uma, fresca ou seca. Mas não, não vamos abusar. Dez está bom. Mas fico curiosa para saber se todo mundo tem essas mesmas necessidades gastronômicas (para não dizer vitais), de modo a prosseguir calmamente em sua vida culinária. E aí? Qual é o seu Top 10 "se não tiver isso na despensa eu peço uma pizza"?

Cozinhe isso também!

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