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terça-feira, 14 de abril de 2015

Sobre livros de cozinha: começando a selecionar quem fica e quem vai


Tem aquele dia em que você compra aquele vestido para o corpo que quer ter um dia, quando resolver começar a frequentar a academia que você paga há meses.

E tem aquele dia em que você compra um livro de cozinha natureba pensando em quando você vai ser aquela pessoa fantástica que faz leite de aveia e usa óleo de coco no lugar do desodorante.

Eu consegui, há muitos anos atrás, eliminar o hábito de comprar roupas para a pessoa que eu não sou mas quero ser. Eu compro o que cabe agora, no meu corpo, no meu armário, no meu estilo de vida e, principalmente, no meu bolso. Mas durante todos esses anos, continuei comprando livros de culinária para o dia em que vivesse numa fazenda e ordenhasse minha própria vaca. Para o dia em que eu recebesse quinze pessoas importantes para um jantar de oito pratos. Para o dia em que houvesse uma hecatombe nuclear e eu fosse a única pessoa que soubesse fazer pão no mundo. Para o dia em que eu fosse aquela mãe perfeita que faz refeições com carinhas felizes. Para o dia em que eu me tornasse o tipo de pessoa que leva para os amigos éclairs de chá verde e maracujá com intrincados desenhos de fondant colorido. Para o dia em que eu virasse uma avó que só faz comida italiana tradicional. Para o dia em que eu vivesse na França e tivesse acesso a queijos incríveis que nem chegam ao Brasil. Para o dia em que eu tivesse um pomar para transformar o excesso de frutas em uma parede inteira de vidros de geleia. Para o dia em que eu quisesse fazer um autêntico banquete libanês. Para o dia em que eu me tornasse aquela pessoa fantástica que faz leite de aveia e usa óleo de coco no lugar do desodorante.

E é bizarro que eu esteja escrevendo isso agora, porque eu já escrevi isso antes. Em algum lugar entre uma mudança de apartamento e outra, provavelmente quando estava grávida do Matador de Dragões ou quando ele era nenê, e tentando me livrar de pesos mentais através da expurgação de bens materiais.

Naquela época mandei embora saias curtas que achei que não usaria mais por ser mãe (ledo engano) e livros de cozinha que julgava complicados demais para o parco tempo que me restava para cozinhar. Mandei livros embora como se eu fosse ser aquela pessoa para sempre. Não deu outra, peguei quase tudo de volta da casa dos meus pais e de minha irmã.

Mas agora é um pouco diferente. Sinto que minha cozinha amadureceu. Eu já sei muito bem o tipo de coisa de que gosto e o que não gosto. Qual comida me nutre o corpo e qual me nutre o coração. E conheço minhas flutuações de humor e de paladar. E agora que não preciso mais pensar em qual prato melhor vira papinha, ou como colocar escarola no prato de uma criança que não come nem salsinha, vejo-me selecionando o que quero cozinhar de uma forma diferente. Primeiro, pelo que tenho em casa, para não gastar dinheiro à toa. Segundo, pelo que mais me apetece ao estômago. Terceiro, pelo que melhor se adequa ao tempo que tenho e à situação. Para isso, o Eat Your Books tem me ajudado MUITO. E por conta dele, tenho usado mais meus livros e revistas do que o que costumava usar.

No entanto... percebi que mesmo com a ajuda do EYB, alguns livros continuam encostados. Muitos deles. Ou porque não estão indexados ou porque suas receitas nunca se encaixam nos meus parâmetros de seleção.

Vendo meu estúdio mais entulhado em livros de receita do que em material de arte, resolvi que é hora de fazer um corte brutal na minha coleção. Porque se antes eu comprava livros loucamente, hoje em dia fuço, fuço, fuço, e não encontro nada de muito diferente daquilo que já tenho. Preciso mesmo de mais um livro com receita de pesto ou de bolo de limão? (O mesmo, aliás, vai acontecer com equipamento de cozinha: formas e utensílios sem uso por um ano irão embora.)

Tirei da estante tudo aquilo que não uso faz tempo. Apanhar alguns e sentei na cama com um bolinho de post-it coloridos na mão e marquei nos livros tudo aquilo que me apetecia, tendo ou não ingredientes, para fazer agora ou daqui a um ano, para ver se os livros mereciam ao menos serem testados. Tentei me lembrar de pratos que já tinha preparado deles e se os faria novamente. Essa é a primeira fase do processo: se nada no livro me parece suficientemente interessante para me atiçar a curiosidade culinária, então, UT.

["Ut" foi uma brincadeira idiota que surgiu na primeira mudança de casa, quando criei a "out box" para os itens que deveriam ser mandados embora. No meio da seleção, começamos a inventar sotaques, e o "out" virou "ut". E ficou. Se vai embora, vai pro "ut".]

Esses dois são campeões do vai-e-volta da casa de minha mãe:

Comecei com o Saturday & Sundays – Seasonal Weekend Menus, de Kay Francis. Um livro australiano comprado há muuuuuuuuuuuuuitos anos atrás (talvez dez?), numa época em que eu tinha uma dificuldade brutal de montar cardápios quando as pessoas vinham comer em casa.

O livro era razoavelmente centrado em carnes, e eu ainda era vegetariana. Havia muitas coisinhas doces interessantes que eu queria fazer, mas ainda sofria daquele mal de quem espera uma ocasião especial, para não "desperdiçar a receita". ¬_¬ Também olhava para opções como uma travessa de pão de centeio, queijo de cabra e rabanete com extrema desconfiança, e não acreditava que pudesse servir isso aos meus amigos na época. O tempo passou, passou, eu aprendi a montar cardápios, eu deixei de ser vegetariana, e quando fui olhar o livro de novo, as receitas já não pareciam tão diferentes de tudo o que eu preparara ao longo dos anos. Um repeteco de outros livros mais usados. Além disso, os ingredientes já não estão mais dentro da minha realidade, pois não saio mais comprando aspargos e queijos de cabra franceses e nunca na vida comprei ostras.

O QUE COZINHEI DO LIVRO?
  • Num natal em que minha mãe trouxe o tender, usei um cardápio do livro que usava porco assado da mesma forma que o tender, e preparei um relish de tomate muito gostoso e uma salada de aspargos (viu?), batatas novas e avelãs, que teria ficado deliciosa se eu não tivesse me esquecido de tirar as cascas das avelãs... :P
  • Em outra ocasião, preparei a tarte de pêssegos assados com mascarpone e base de nozes e cardamomo. Muito promissora, foto linda, mas pouco saborosa.
  • E, numa noite qualquer, uma massa com beterrabas e atum fresco, essa sim, estranha e gostosa e que veio inclusive parar aqui no blog: FETTUCCINE COM BETERRABAS, RADICCHIO E ATUM

Parece-me pouco para um livro que ficou na minha estante pelos últimos dez anos. :(

Numa primeira olhada, pensei: FORA. Aí folheando novamente, achei que havia algumas coisinhas para preparar e testar de vez o livro. Porque você fica morrendo de dó de mandar embora e morrendo de dó de perder o que pode ser sua receita favorita de alguma coisa que você nunca cozinhou. No entanto, enquanto comecei a fazer a lista de ingredientes a comprar para poder executar os pratos que marcara, percebo que é toda uma profusão de prosciutto, ricotta, queijo de cabra e coisinhas encarecedoras de orçamento doméstico, ou coisas como soufflé de queijo e cerefólio servido com bacon e cogumelos. Tipo, posso usar receitas que eu já tenho pra isso.

RECEITAS SEPARADAS PARA TESTAR:

  • panforte
  • muffins de ameixa seca, nozes e xarope de maple
  • pão de nozes
  • bruschetta com purê de berinjela, menta e alho
  • pãezinhos de especiarias com creme de mascarpone e canela (olha a coisa ficando cara com o mascarpone)

VEREDITO: UT

Agora o Nature, do Alain Ducasse, é outra história. O livro é lindo, cheio de fotos bonitas e ilustrações fofas. Até capa é fofa. De verdade. É um livro gostoso até de segurar. Maaaas... não sei quem foi a besta que sugeriu listar os ingredientes coloridos DENTRO da receita ao invés de no início, de forma ordenada. Parece uma boa ideia, mas o que acontece é que você precisa ficar caçando no texto tudo aquilo de que precisa para cozinhar, e vira e mexe, esquece alguma coisa. E no meio do preparo percebe que não tem algo crucial. Ou o título da receita sugere algo simples, até perceber que há ingredientes ali difíceis de achar ou caros, como queijos específicos, aspargos (loucamente, aspargos para todo o lado), ervas que quase nunca têm na feira, como estragão, cerefólio e azedinha, cogumelos morille (tem no santa luzia e custa um mês de supermercado), e carnes como "fromage de tête", que é um tipo de um patê, um embutido, feito da cabeça do porco. Oi? Não tem disso aqui não.

Folheio, folheio, e não tem nada que eu queira fazer. Até tem, minto. Tomates Concassés. Preciso fazer tomate concassés do Alain Ducasse? Não, tenho pelo menos mais oito receitas dos tais tomates em outros livros. Gazpacho. Idem. Panisse. Idem. Com certeza outros livros não tem Foie Gras poché com nabos. Mas tipo... olha pra mim. Pega na minha mão. Me diz que eu vou cozinhar um dia fois gras poché com nabo. Pois é.

O QUE COZINHEI DO LIVRO?

Dentro daquele problema da listagem de ingredientes, calhou que sempre faltava alguma coisa. E dentro do perfil das receitas de chefs como o Alain Ducasse, um ingrediente que falta é um sabor ou textura que não está lá, tornando o prato incompleto e insatisfatório.

  • Crêpes à la farine de sarrasin, andouille et poireaux (crepes de sarraceno com alho poró e andouille). Ok. Obviamente falta a tal andouille, um embutido especificamente francês que não se encontra aqui. Na época eu não comia carne. Poderia substituir por um salame? Não sei. Faria de novo? Não me lembro se era bom o bastante para repetir e crêpe é um negócio que hoje em dia faço sem receita.
  • Soccas et légumes d'une niçoise (um tipo de crepe de farinha de grão de bico recheado com os mesmos ingredientes de uma salada niçoise). Bom? Ótimo. Meu marido e eu adoramos. Mas tive de omitir metade da enorme lista de ingredientes que levava erva-doce, que eu nunca encontro orgânica, pimentões confit, tomates confit e tapenade (que eu teoricamente já deveria ter feito e só no meio da receita você se dá conta disso). Fiz uma salada niçoise como sei fazer e enfiei dentro dos crepes. Então é metade mérito do livro, metade meu. 
  • Cocotte de quinori, légumes croquants et pistou d'herbes (ou mais ou menos isso AQUI.) Adaptado, como sempre. Gostoso. Mas eu nem lembrava que tinha feito até dar uma busca no blog. 
  • Orge perlé, salsifis et rasins de Corinthe cuisinés ensemble. Tipo isso AQUI. Como eu disse no post, ficou interessante. Feito com cevadinha descascada como pede o original deve ficar menos rústico. Como eu fui a única que terminou o prato aquele dia, nunca mais preparei. 
  • Aubergines en clafoutis ou ISSO. Não segui a receita à risca pois era para fazer porções individuais de clafoutis, o que torna a sua vida um inferno se você precisar servir ramequins recém-tirados do forno a duas crianças pequenas. Tipo, não. Ficou bom? Ficou ótimo, como todo clafoutis doce ou salgado que sai do meu forno. Nunca comi clafoutis ruim. A mistura berinjela + queijo de cabra + manjerona é fantasticamente inovadora a ponto de eu precisar de um livro para me lembrar dela? Tipo, não. 
Faria tudo isso de novo? Acho que sim, mas da mesma forma como não segui as receitas originais, sinto que não preciso delas para reproduzi–las. Até porque, elas estão aqui no blog do jeito que eu fiz e não do jeito que estão no livro. Olho, olho, vejo coisas que quero preparar, mas a quantidade de receitas com cogumelos chanterelle e outros ingredientes que não tenho por aqui me dão preguiça de manter o livro. Assim como me dá preguiça ter que escrever uma lista de ingredientes à parte da receita para ver se tenho tudo ou não antes de começar a cozinhar. 

Algumas receitas me parecem interessantes para tentar, muitos pratos parecem deliciosos e de preparo simples... se eu ainda morasse em São Paulo, com acesso fácil a peixes frescos de qualidade, carnes confiáveis, queijos e toda sorte de ingredientes exóticos. E, claro, se estivesse ganhando três vezes mais do que ganho para bancar lagostas, cogumelos chanterelle, queijos franceses, magret de pato e afins. 

Resultado: as receitas acessíveis são parecidas com outras que tenho em outro livro, e as inacessíveis são DE FATO inacessíveis. Vale o espaço que não tenho?

RECEITAS SEPARADAS PARA TESTAR:

    • Condiment cocombre-pomme (molhinho de pepino e maçã)
    • Salade de chou blanc à loeuf mollet (salada de repolho e ovo cozido)
    • Galettes moelleuses de pommes de terre (panquequinhas de batata)

    VEREDITO: UT




    quarta-feira, 1 de abril de 2009

    Olha o título de livro de auto-ajuda: "Como cortei meus gastos e fiquei mais saudável" ;)

    Finalmente, depois de analisar um bocado os hábitos aqui de casa e de ficar esmiuçando cada notinha de supermercado, consegui reduzir em 17% meus gastos com supermercado. Não é muito, mas já é um começo.

    Meus dois grandes problemas em tentar diminuir esse gasto quando primeiro notei o valor que andava saindo de minha conta eram:
    1. Eu já comprava pouco ou nenhum alimento industrializado.
    2. Os preços em si haviam aumentado ao longo dos anos, e não a quantidade de comida que eu comprava.
    Tendo isso em vista, onde diabos eu poderia fazer cortes???

    A primeira coisa que fiz foi continuar comprando e comendo da mesma forma por uns dois meses, para que pudesse anotar tudo o que era comprado, em que quantidade e seu preço, e comparar isso com o que restava na despensa no fim do mês. Assim eu saberia se aquilo que eu comprava estava de fato sendo consumido ou se estava apenas ocupando lugar na prateleira de casa, esperando um dia de inspiração. E vamos lá, confessem: todo mundo tem no armário da cozinha algum item comprado para "ter quando precisar", e do qual você só lembra perto da data de vencimento. O resultado é sempre igual: acabamos preparando o tal item completamente sem vontade, só para não jogar no lixo... :P

    Tendo a lista pronta, defini o que ali era de fato necessário e o que não era. Dentre os necessários, identifiquei os "estocáveis" (leite longa vida, farinha, açúcar, café, alguns grãos, tomate pelado em lata, macarrão, etc...). Fiz minha lista, fui até a loja de atacado mais próxima e comprei APENAS os itens da lista que estavam disponíveis, sem abrir mão da qualidade das marcas de que gosto.

    Resistir às ofertas de coisas de que não precisamos num atacado é bem mais fácil quando você busca apenas alimentos mais próximos de seu estado natural. Você simplesmente pula todo o corredor de bolachas e doces, pula a geladeira dos congelados, e continua focado não em comida pronta, mas comida-ingrediente, que você usa para produzir sua comida de fato. Quanto aos "estocáveis", fico satisfeita se nada no carrinho de compras puder ser comido, por exemplo, na fila do caixa.

    Manter-me presa à lista evitou (na maioria das vezes) que eu cometesse o erro do "tá tão barato!". "Noooossa! O coco ralado tá tão barato!" E eu coloco 1kg de coco ralado no carrinho. Convenhamos, eu uso coco ralado uma vez por ano, e nunca mais de 100 ou 200g. Ao invés de pensar "um dia eu posso precisar de coco ralado", comecei a lembrar que eu moro perto de dois ou três supermercados, e que comprar um saquinho de 100g de coco ralado quando eu de fato precisar não vai ser um problema nem um gasto exorbitante.

    Foi preciso também esmiuçar mais meus hábitos. Você vê aquele paredão de massas italianas em embalagens de 1,5kg e pensa "ah, eu quero três ou quatro tipos de massa". Já cometi esse erro. Hoje em dia, não comemos massa mais do que umas cinco vezes por mês. Há coisas que não valem a pena serem compradas em quantidade, pois ou elas vão vencer antes que você consiga consumi-las [se for sozinho ou casal, como eu], ou você entrará num frenesi de "acabou o fusilli, então preciso comprar mais", apesar de ainda ter outros dois tipos de massa na despensa.

    O interessante é que há dois anos atrás eu já tentara economizar planejando dessa forma, mas não dera certo. Em parte pelo frenesi do fusilli, em parte por causa de nosso estilo de alimentação na época. Depois dos meses de reeducaçnao, é minha geladeira que vê mais rotatividade de produtos, e não minha despensa, que deixou de ser uma base para alimentos frescos, para virar acompanhamento. E isso foi crucial para cortar os gastos.

    Saio normalmente com muito pouca coisa do atacadão: leite integral, açúcar orgânico, alguma massa se for preciso, tomate em lata, atum. Então passo no supermercado ao lado de casa e compro itens como o café de que gosto, farinha orgânica branca e 1kg de qualquer outra que esteja acabando (centeio, integral, milho, sarraceno...), arroz integral orgânico (1kg dura meses para nós) e um pacote de meio quilo de algum outro grão (feijão, cevada, quinua...), para se unir aos outros pacotes de meio quilo que compõem minha despensa [vivendo em casal é impossível comprar grãos em mais de meio quilo, a menos que você goste ou não se importe de comer o mesmo tipo de feijão todo dia, ou não se importe em jogar fora. Eu não gosto de nenhuma das alternativas.]

    Então chegou a hora dos perecíveis. Ainda no supermercado, compro ovos, manteiga, fermento fresco, um belo pedaço de meio quilo de parmesão e algum queijo fresco. Então, a não ser que seja uma emergência de geladeira vazia, espero o dia da feira e levo comigo a lista dos produtos da estação. Compro comida suficiente para duas semanas, levando sempre mais legumes do que folhas, para que nada seja jogado fora. Como vou sempre à mesma banca, o cheiro verde sai sempre de graça. Aproveito e já compro minhas frutas na banca de trás. Volto para casa carregada, tendo gasto 1/5 do que gastaria em qualquer dos supermercados da região, e só entro de novo no supermercado para comprar um vinho, algum item especial (como cacau em pó ou creme de leite fresco) ou para repor queijos e ovos.

    Parece que não há nada de novo em relação ao que eu já fazia, mas a diferença está na quantidade de perecíveis versus estocáveis. Quanto mais legumes e frutas fui colocando em meu cardápio, menos fui gastando com o restante. Comprando sazonais, evito também de comprar importados, bem mais caros. Não parei de tomar meu café gourmet ou de comprar meu queijo Feta, mas comecei a manter minha lista de compras muito, muito simples. Parei de comprar, inclusive, sucos. A única bebida que entra pronta na minha cozinha é alcoólica (hehehe). Um litro de suco custa uma barbaridade, e você tem muito mais nutrientes se comer uma fruta fresca de sobremesa ao invés de um copo de suco de caixinha na hora do almoço.

    Claro, um estressadinho dirá: "Aaaah, mas você tem tempo para preparar tudo do zero. Imagina se eu vou fazer massa fresca de macarrão numa terça-feira ou se vou fazer pão toda semana!" E digo: terça-feira levei 35 minutos entre misturar farinha com ovo, abrir e cortar o pappardelle, preparar o molho e cozinhar a massa. Há seis anos atrás eu provavelmente demoraria 2 horas e daria errado. Enquanto escrevo esse post, meu pão, que demorou dez minutos para ser sovado, está crescendo, sozinho na cozinha. Meu iogurte, preparo-o em cinco minutos às 22h, vou dormir e às 6h, quando acordo para correr, coloco-o na geladeira. Nenhum trabalho. Lavo e seco todas as folhas assim que chego da feira, e as envolvo com papel-toalha e acondiciono em potes fechados. Isso me poupa tempo depois, quando só preciso abrir o pote, pegar as folhas e colocar no prato. Costumava demorar uma eternidade para picar uma cebola bem fininho, e hoje em dia meu marido acha divertido me ver picando coisas. PRÁTICA. E prática só se consegue se você fizer todo dia.

    Por ter prática em preparar tudo do zero, cozinhar não dá trabalho e não consome tempo. Por isso, pude simplificar muito minha lista de compras e diminuir um bocado meus gastos. De quebra, sinto que comer assim está me tornando muito mais leve e enérgica.

    Mas acho que ainda é possível aparar algumas arestas.

    Antes que eu receba mais e-mails insandescidos de gente com o dedo em riste na minha cara, deixo MUITO CLARO que não acho que eu estou certa e todo mundo, errado. Esse foi o MEU modo de cortar gastos. Como funcionou para mim, acredito que pode funcionar para outra pessoa. E é claro que eu não sei como é para quem compra carne, por exemplo. Ou para quem tem 10 filhos e trabalha 18 horas por dia. É um desabafo. Relaxe. :D

    terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

    Um mês sem (com menos) açúcar e mousse de chocolate, porque a coerência, né?!

    O Inverno de verdade demorou para chegar, mas quando chegou, chegou chegando.
    Sabe resolução de ano novo? Eu detesto resolução de ano novo, e não me invento uma desde a minha adolescência. Porque, né? eu gosto de ser do contra. Foi meio sem querer que Janeiro acabou virando um mês que teve feeling de resolução de ano novo, mas foi engraçado por isso mesmo: porque não foi uma resolução de ano novo. Muitas transformações aconteceram, no meio do clima louco que despencou dos 5 graus positivos para os 36 negativos durante duas semanas, inclusive minha primeira exposição em Toronto, no Starving Artist Café, que exibiu minhas aquarelas durante 8 semanas. :)



    Acordei no dia primeiro do ano incomodada. Muita coisa passara pela minha cabeça durante o mês de dezembro, e quando me levantei da cama para tomar o primeiro cappuccino do ano, conseguia sentir minhas caraminholas se movendo no meu cérebro.

    Mamãe, quer waffle? perguntaram as crianças. Não, respondi. Acho que quero dar um tempo do açúcar. Quero ver o que acontece.

    Não era dieta, não era modismo, era mera curiosidade. Eu achava que era uma pessoa que já não consumia lá muito açúcar mesmo (vide o post do que como num dia normal), mas fiquei curiosa em saber se eu conseguiria ficar sem o pouco que a que eu me acostumara. Sabia que o ponto fraco era o goró, meu tipo de açúcar preferido, e eu acreditava que a experiência me ajudaria a ter mais clareza dos gatilhos emocionais e circunstanciais que me faziam comer uma fatia de bolo ou abrir uma cerveja.

    Minha pele andava mais manchada do que o normal, sentia meu corpo inchado, e meu padrão de sono havia um tempo parecia errático, e intuí que deveria ter a ver com o quanto de álcool e açúcar que andava ingerindo (não a quantidade, porque não sou de exagerar há já uns anos, mas a frequência). Pois ainda que a "regra" aqui em casa seja de não beber durante a semana (até porque bebida alcoólica aqui em Ontario é cara), eu pareço sair do eixo toda vez que temos visitas, pois a visita está de férias e você entra no ritmo do convidado mesmo que sem se dar conta, aproveita para relaxar também... e nós tivemos um bocado de visitas no segundo semestre de 2018, e eu claramente não conseguira voltar a meu ponto de equilíbrio desde então.

    Além disso, numa terça-feira em que as crianças perguntaram se havia sorvete de sobremesa do jantar, surpreendi-me com a resposta contundente de meu marido: "Ué, por que teria? É terça-feira!", E naquele momento me dei conta de que por boa parte da vidinha dos meus filhos, essa fora a regra de casa: podia até ter um bolo ou biscoito indo de lanche da escola, mas o conceito de "sobremesa", de "doce depois das refeições", sempre foi meio que coisa de fim de semana apenas. Sobremesa durante a semana é fruta. Ponto. Se quiser. Se não quiser fruta, vai escovar os dentes e xô.

    Acontece que durante o verão, com a Saga-do-Sorvete-de-Fruta-Para-Fazer-Thomas-Comer-Mais-Fruta, continuei o embalo e quando me dei conta, todo mundo estava terminando o dia com sorvete. Mas agora de chocolate, de baunilha, de iogurte, de cheesecake, do que fosse.

    "Ok, papai tem razão. Acabou a festa do doce e estamos voltando à normalidade. Sobremesa é só de fim de semana."

    Antes que alguém revire os olhos e me xingue nos comentários, as crianças reclamaram no primeiro dia. Perguntaram da sobremesa no módulo automático no segundo dia. No terceiro já pediram licença da mesa e foram escovar os dentes e brincar. E quando chegou a sexta-feira, vieram felizes da vida perguntar qual era a sobremesa do fim de semana e está todo mundo contente e tranquilo. Esperar faz bem. (Tempo de tela é a mesma coisa aqui em casa: tv e video-game é só de fim de semana, e ninguém está sofrendo por isso.) E os dois sempre foram acostumados com uma casa que não tinha um monte de biscoito e chocolate dentro do armário.

    Enfim.

    No mesmo dia em que decidi cortar o açúcar (ou pelo menos diminuir, sabendo que o aniversário da Laura viria e que eu me permitiria alguma bebida durante os eventos já marcados com amigos, só pra evitar encheção de saco), também foi o dia em que propus a meu marido que começássemos a exercitar melhor nossa frugalidade. Sentei com nossas finanças e esmiucei todas os gastos do último ano, que agora finalmente haviam entrado num ritmo estável depois da mudança de país,e poderiam ser melhor avaliados. Saímos fazendo cortes onde podíamos, e estabelecemos algumas novas metas. Cortar cabelo em casa (um corte besta de máquina no barbeiro por aqui sai bem uns 50 dólares com gorjeta!! - e sim, cortei meu próprio cabelo e ficou muito bom, diga-se de passagem), ficar de olho nos horários mais baratos da companhia elétrica (aqui você tem horários e dias em que o preço da energia cai quase que pela metade), e mais várias outras pequenas e grandes mudanças, inclusive... tentar pela primeira vez realmente se manter dentro da meta de supermercado, que em muitos meses estourava em uns 20 a 30%, principalmente por aquelas autoindulgências típicas da nossa geração "eu mereço (item), porque...(insira seu motivo aqui)". Ou porque esquecíamos de deixar guardado aquele tanto para gastar no produto de limpeza que estava acabando, ou na ração do cachorro, que incluímos na categoria Groceries para simplificar nosso orçamento.
    A comida do cachorro entra na nossa lista de comida porque, né? cachorro também é gente.
    Um site que me ajudou um bocado nesse pensamento frugal esse mês foi o https://www.frugalwoods.com/ . Recomendo.

    E lá fui eu.

    Como mostrei no post anterior, sobre as compras de mercado, a primeira coisa que fiz foi verificar meu inventário: tudo o que havia de comida, bebida, ingredientes, produtos de limpeza, comida de cachorro, para verificar o que de imprescindível precisaria ser comprado aquele mês e para o qual eu teria de deixar uma "verba alocada". Montei na minha lousa da geladeira a maior quantidade possível de refeições com o que eu tinha em casa, indo de coisas bonitas como "quiche de abóbora e salada verde com rabanetes" até pratos tão absurdamente simples que pareciam saídos de uma verdadeira economia de guerra, como o dia da "Sopa Daquilo Que Sobrou", das fotos aqui em baixo. O objetivo era usar a criatividade para de fato esmiuçar a despensa e a geladeira até o último ingrediente disponível. E aproveitar para colocar à prova aquela minha teoria do último post de que você aprende a cozinhar de verdade com os ingredientes básicos, e não com com ingredientes caros.

    Como transformar uma cenoura, uma cebola, um talo de salsão, um ramo de salsinha, borda de pizza de ontem, uma casca de parmesão e 1/4 xic de arroz para risotto em uma refeição para quatro pessoas?
    Faça uma SOPA.
    A sopa é simples e intuitiva: refogue em azeite a cebola, a cenoura e o salsão picadinhos, junte o arroz como se fosse fazer um risotto, tempere com sal  e a salsinha picada, e cubra com o dobro de água quente que você usaria para fazer um risotto (no caso, eu usei a água do cozimento do grão de bico, pois usara o grão de bico para fazer hommus e guardei o caldo no freezer - eu guardo água de cozimento de QUALQUER coisa no freezer pra incrementar sopas ou tornar um arroz simplesinho em algo mais nutritivo). Junte a casca de queijo, que vai cozinhar junto, e dar sabor e complexidade à sopinha e deixe cozinhar até o arroz estar macio. Não tem problema se passar do ponto. Se o arroz tiver absorvido muita água, junte mais e acerte o tempero. Doure a borda da pizza ou pão velho em cubinhos em azeite com uma pitada de sal e sirva com a sopa. Ficou com fome depois do jantar leve? Come uma fruta. Aqui, ninguém ficou com fome. Estava uma delícia e alimentou todo mundo muito bem. ;)

    Enquanto isso, lá ia eu sem açúcar.

    A manhã começou bem: eu nunca coloco açúcar no meu cappuccino, pois gosto de sentir a doçura da gordura do leite e o amargo do café. Para mim, açúcar adicionado só atrapalha. E prefiro um pão com manteiga e sal a qualquer outra coisa doce quando acordo. Foi no lanche das dez que a coisa entornou um pouco. Voltei da corrida, e quando fui montar meu potinho de iogurte e fruta, percebi que não usaria o mel de sempre. O iogurte que eu comprara aquele mês, mais barato que o meu habitual, era também mais ácido, e a fruta cortada em pedaços não foi um contraponto doce o bastante. Mas logo percebi que se RALASSE a fruta dentro do iogurte, ela soltaria seus sucos, distribuindo doçura mais uniformemente e tornando o mel desnecessário. #ficaadica.

    O almoço, por sua vez, manteve-se igual.

    Pão caseiro, abacate, o queijo feta que sobrara do reveillon, salsinha, cebolinha, azeite, limão e sal. Clementinas de sobremesa. Tudo, como sempre, no prato lindo da minha amiga Marina, do @ateliegaroa
    Foi de novo no lanche que eu me vi mudando hábitos. Onde antes eu cataria um pedaço de bolo, ou uma das goiabinhas que minha mãe trouxe do Brasil, e correria para fora para buscar as crianças em mais uma deliciosa (note o sarcasmo) nevasca de janeiro, eu me vi catando uma banana.

     *** Aliás, uma curiosidade: não sei por que cargas d'água, mas é impossível separar as bananas canadenses do cacho com as mãos. As cascas são tão fortes, que preciso de uma faca para cortar a banana fora do cacho, como se estivesse tirando o cacho inteiro da bananeira. BIZARRO. Fim da curiosidade. De volta ao post. ***

    Hora do jantar. Tudo corre normalmente, apenas evitando receitas cujo tempero envolvesse açúcar ou mel no preparo.

    E aí veio o snack da noite. Aquele, que eu andava querendo evitar. Num dia uma banana bastou. Em outro, que desejava algo salgado, me vali dos legumes com hommus, que sempre tenho na geladeira. Mas meu snack da noite favorito, descobri, são fatias de maçã mergulhas em manteiga de amendoim e um bocado de canela. Parece estranho mas é na verdade delicioso e muito satisfatório.

    Então quer dizer que foi muito fácil ficar sem açúcar e deu tudo muito certo?

    Sim e não.

    Como eu já comia pouco açúcar e eu já tinha um mindset de tentar buscar coisas mais saudáveis para beliscar, não foi difícil mudar o HÁBITO, porque foram poucos os momentos do meu dia em que eu precisei buscar uma alternativa. Eu nunca como sobremesas logo depois das refeições, então eu não me vi em momento nenhum "procurando um docinho".

    O que eu vi foram algumas "condições de temperatura e pressão" em que eu ficava sim buscando desculpa para terminar o dia com alguma coisinha alcoólica. Não todos os dias. Eram alguns específicos. Normalmente no fim dos dias difíceis. Ou nas sextas-feiras, por exemplo, quando eu começava a preparar a pizza. Foi quando senti falta do meu vinhozim. Mas muito rapidamente, e aí foi a parte interessante, percebi que não era do gosto ou do buzz que eu sentia falta. Era de ter o copo na mão. Então assim como fiz durante aquele um ano e meio em que fiz dieta com nutricionista antes de engravidar, troquei o copo de vinho por uma xícara de chá. E tudo correu bastante bem.

    Então foi tudo tranquilo e maravilhoso?

    Não.

    Assim como eu havia pesquisado, no terceiro dia sem açúcar minha energia e meu humor foram para o buraco. Eu queria gritar com todo mundo, tudo parecia difícil e horrível, todos estavam no meu caminho, e minha cabeça doía, não pela falta de açúcar, mas pela quantidade de tempo que mantive o cenho franzido, cultivando o ranço dentro mim. Esse foi o único dia em que não comi um snack da noite: porque fui dormir às oito e meia, enfurecida e exausta com o universo.

    Um amigo do Allex, que fizera essa mesma desintoxicação de açúcar na época em que tentava descobrir a que diabos tinha alergia (a fermentos, no final ele descobriu), explicou a ele: Ih, o terceiro e o sétimo dia são os piores, e depois passa.

    Dito e feito. No sétimo dia eu parecia igualmente confusa e mal humorada. Mas o que se seguiu depois foi sensacional.

    "Minha cabeça está funcionando!", eu disse a Allex, que me olhou sem entender. "Sério, é como se tivessem passado um limpa-vidros no meu para-brisa sujo pela primeira vez."

    O que eu sentia era clareza mental. Andava acordando mais facilmente e com muito mais foco. Eu sabia o que precisava ser feito e estava fazendo. Foi nesse momento, inclusive, que corri atrás e consegui minha primeira exposição de arte em Toronto. Foi quando voltei a produzir mais. Foi quando comecei a enxergar melhor algumas coisas acontecendo no meu dia-a-dia que poderiam ser melhoradas.

    E meu corpo?
    Ao final de duas semanas eu havia desinchado visivelmente e as manchas vermelhas em meu rosto haviam sumido. E a melhor parte de tudo, e que mais me chamou a atenção, é que pela primeira vez em minha vida, eu não tive NENHUMA TPM. Há dois dias por mês em que eu viro um monstro descontrolado, em que grito com as crianças sem motivo e fico procurando pêlo em ovo para arrumar briga: o da ovulação e o dia antes da menstruação descer. É tão certeiro, que uso isso até como guia para saber quando as duas coisas estão acontecendo ou vão acontecer. Nesse mês... não teve... NADA.

    Outros efeitos interessantes:

    - a partir da segunda semana, eu parei de ter vontade de beber. Quando Allex me perguntou se queria uma cerveja, respondi que SIM, mas logo em seguida mudei de ideia, porque me dei conta de que respondera automaticamente, e não de fato porque tinha vontade.
    - nos momentos em que bebi, foi muito mais fácil parar ainda na primeira ou segunda, sem me sentir sequestrada emocionalmente por qualquer espécie de pressão social.
    - os efeitos da bebida (mesmo que tão pouca) no dia seguinte ficaram MUITO mais evidentes, principalmente a quantidade de tempo que meu corpo levou para voltar ao normal depois. Essa velocidade de reparação parecia sempre mascarada pelo consumo de outros açúcares no meu dia-a-dia e não me permitia entender meu corpo.
    - a vontade de comer doce sumiu. Mas quando eu comi açúcar, tive os mesmos sintomas de uma ressaca. No fim de semana do aniversário da Laura, em que tive 2 eventos em que bebi (pouco) e comi bolo, toda aquela clareza mental DESAPARECEU por uns 3 dias e meu humor voltou a ficar instável.

    Era aniversário da Laura, e como ela pedira para chamar umas amiguinhas em casa no sábado, disse a ela que haveria bolo apenas no dia da festa, ao que ela concordou. No entanto, sem que ela soubesse, preparei esse bolo simplíssimo de baunilha da Alice Medrich, apanhei as framboesas congeladas, e fiz uma geleia rápida e azedinha. Depois da escola, enquanto Laura tomava seu banho compriiiiido de banheira, Thomas me ajudou a cortar o bolo ao meio, recheá-lo, e cobri-lo com chantilly recém-batido. Ele decorou com mais algumas framboesas e posicionou as velas. E Laura ficou felicíssima depois do jantar, quando anunciamos que, apesar de ser uma quarta-feira, teríamos sobremesa.

    Thomas recheou e decorou o bolo-surpresa da Laura, que achava que só cantaria Parabéns no dia em que as amigas viessem.

    Foi unânime que esse tem que ser o novo bolo oficial de aniversário, pois ficou infinitamente mais gostoso que o de chocolate.
    O bolo estava delicioso. Leve e fresco. As crianças adoraram, Allex que não gosta de bolos se serviu mais de uma vez, e eu comi uma fatia gordinha e satisfatória.

    O jantar também fora especial: pão de queijo e pastel, a pedido da aniversariante. Usei a receita da massa da Rita Lobo. A receita diz para abrir a massa até a espessura 3 da máquina de macarrão, mas o pastel acabou saindo mais com textura de panzerotti que de pastel de feira. Tive de abrir novamente toda a massa depois do primeiro teste, até uma espessura quase transparente, se não me engano, no nível 8. Preparei o dobro e deixei guardado o que sobrou para fazermos mais pastel no fim de semana.



    O sabor escolhido pela aniversariante foi Pastel de Pizza. Essa foto foi da massa teste, que saiu muito grossa.
    No sábado, preparei o bolo de aniversário clássico de chocolate, que nunca me parecera excessivamente doce até aquele momento. Quando também Laura e Thomas comentaram que preferiam o de baunilha. Metade de uma fatia bastou para mim, e deixei o restante para as crianças comerem de sobremesa durante o fim de semana.

    E no fim de semana seguinte, quando Allex resolveu preparar sozinho um pudim de leite, e pesquisou uma receita do "melhor pudim de leite do Brasil", que levava uma tonelada de leite condensado e uma quantidade brutal de gemas de ovos, também um pedaço para mim bastou. Estava uma delícia. Mas depois de uma colherada gorda, eu sentia REALMENTE que eu já tinha matado a vontade.
    Tudo isso me fez pensar a respeito da minha relação com açúcar, seja em forma de doce ou de álcool. Desde como somos ensinadas a enfiar o pé no doce para compensar nossas frustrações (pense na cena clássica da mulher rejeitada, chorando, comendo um pote inteiro de sorvete, ou na frase também clássica "ai, estou de TPM, tô precisando de um chocolatinho"), até na minha relação a cozinha.

    Porque se eu não como doce, eu não faço doce (exceto pelo aniversário da Laura). E se eu não faço doce, ninguém em casa come doce. De novo, a não ser pela uma goiabinha que mando no lanche da escola e pelas sobremesa do fim de semana, todo mundo aqui em casa começou a comer MUITO MAIS FRUTAS. Inteiras, in natura. Não dentro de sorvete, pudim ou bolo. Dá pra contar nos dedos das mãos quantos doces a família toda comeu esse mês. E eu não enchi o saco de ninguém, nunca falei que era para a família inteira cortar doce, eu deixei bem claro que era uma experiência MINHA.

    Mas acabou sendo melhor para todo mundo.

    O que sobrou da quantidade BRUTAL e bananas, maçãs e clementinas que eu comprara no começo da semana.

     Na minha busca por uma vida tranquila, tem entrado muito a MME: Maternidade do Mínimo Esforço. Um termo que vou acabar cunhando, marca registrada, fui eu que inventei (hahaha), porque me deu um bode geral de soluções complicadas para problemas simples. Comida simples. Direta ao ponto. Fruta de sobremesa. Tem sido meu novo lema. Agora, mais ainda.

    Maaaas...na minha primeira semana sem açúcar, saí correndo internet afora atrás de receitas de sobremesa sem açúcar para toda a família. Comprei chia para fazer geleia sem açúcar para as crianças. Compilei receitas usando bananas e abacates e tâmaras. DE NOVO.

    DE

    NOVO

    AFE

    *Suspiro*.

    Cara, eu já fiz isso quantas vezes? QUANTAS??

    Benzadeus pela clareza mental.

    Parei. Apaguei tudo.

    Quero mesmo passar meu dia fazendo bolinha de tâmara? Eu quero ficar preparando mousse de abacate com cacau quando posso só morder uma pera?

    Qual é a solução mais simples? Se você não quer comer açúcar mas quer comer algo doce, QUAL É A SOLUÇÃO MAIS SIMPLES? Um mousse de abacate com tâmara e cacau... ou uma maçã?

    Uma maçã basta. E que o mais complicado seja uma polvilhada de canela.

    No meu mês frugal, o arroz e feijão voltou com tudo. Jantar de ontem foi arroz integral, feijão preto, brócolis refogado e abóbora assada, e o prato estava tão lindo que me arrependi de não ter fotografado. Assim, simples. Sem temperos complicados. Laura resolveu ontem que gosta de abóbora (então agora são 3 contra 1 aqui em casa! hahaha!). Simples. Comida boa e gostosa. Com cara de casa, não de restaurante.

    Quando Allex me disse que queria dar um tempo da carne novamente e voltar a fazer hambúrguer vegetariano, a primeira coisa que fiz foi pegar na bilioteca de novo todos os livros do Green Kitchen Stories e aqueles vegetarianos que eu tinha no Brasil. E depois de folheá-los extensamente, suspirei e me dei conta de que não queria fazer nada daquilo. Não queria criar de novo aquela despensa imensa que eu tivera no Brasil. Não queria de novo ficar seguindo receitas para combinar vinte e sete ingredientes. Sabe o que é vegetariano? Arroz, feijão, legumes deliciosamente refogados em azeite e uma salada muito bem temperada. E lá vinha o bode outra vez. Bode desse hábito de se complicar, bode do FOMO que faz com que eu acredite que preciso tentar coisas novas O TEMPO TODO.

    Bode, bode, bode. 

    O resultado do mês é que passei menos tempo na cozinha. Eu voltei a fazer pães com regularidade, mas não fiquei me sentindo pressionada a fazer bolo ou biscoito toda semana para as crianças levarem para a escola. A comida mais simples e mais previsível é mais fácil de preparar e de reaproveitar. Cortei as idas semanais no supermercado e comecei a ir realmente apenas quando itens imprescindíveis acabassem (como leite, ovos e farinha), ou quando não conseguisse mais produzir nenhuma refeição com o que havia na despensa. O que quer dizer que também passei menos tempo indo a supermercados.

    Ainda que eu continue encucada com a nutrição das crianças na escola, principalmente nesse ambiente norte-americano meio trash, confesso que fiquei menos paranoica com o valor nutricional dos pratos que cozinhei. Se é comida de verdade e compõe uma refeição decente, tá bom, obrigada. Hoje em dia sou feliz com essa cozinha simples de dia-a-dia. Sou feliz com banana com canela, sou feliz com o mesmo bom e velho bolinho de iogurte, com minha torrada de abacate e com spaghetti com molho de tomate. Sou feliz com brócolis no alho e azeite e com batatas assadas com alecrim. Com feijão e ovo frito e com tapioca com queijo.

    Se um dia eu me fartei de cozinhar panquecas de todos os jeitos e scones e biscuits e toda sorte de itens diversos de café da manhã, minha felicidade hoje reside em pão com manteiga e café quente.

    Simples.

    Eu tenho certeza que essas pessoas que a gente acaba seguindo internet afora devem ser muito felizes com as soluções que elas encontraram para a vida delas. Que dão certo no contexto delas. Mas para mim o diagnóstico é sempre o mesmo: basta desligar a internet um pouco para a paz de espírito retornar.

    Cada vez mais, todas as soluções complicadas são as soluções erradas para mim, para o meu contexto, para minha vida e para minha família.

    .....

    No último fim de semana do mês, comemorei o fato de ter ficado, PELA PRIMEIRA VEZ desde que chegamos ao Canadá (ou pela primeira vez desde que saí da casa dos meus pais) ABAIXO da meta de supermercado (e de bebida alcoólica!). A comemoração veio de uma forma bastante frugal: usando todas as claras de ovos não utilizadas no pudim de leite do Allex para produzir um Mousse de Chocolate. Porque meu filho disse que não sabia o que era mousse, e isso me desconcertou. Mousse de chocolate era minha sobremesa favorita de infância. E eu fiz tanta sobremesa complicada ao longo dos meus anos, e tantas sobremesas com substituições "saudáveis", e tantas sobremesas com ingredientes exóticos, que eu sequer tinha uma receita "oficial" de mousse de chocolate, daquelas testadas e aprovadas repetidamente.

    Fui direto ao meu livrão de todas as coisas francesas, o I Know How to Cook, da Ginette Mathiot.

    Esse mousse de chocolate é muito leve e muito fácil, e foi unanimemente aprovado na família. Além de tudo, é simples e doce na medida, e me deixou felicíssima em saber que finalmente tenho outra coisa para fazer com o mar de claras congeladas que sempre tenho no freezer, além de Angel Food Cake.

     
    A receita pede apenas 2 colheres de sopa de açúcar e não especifica o teor de cacau do chocolate. Usei 70% da Callebaut, que é mais suave do que o Lindt, que tem um final mais amargo. Mas, temendo que as duas colheres somente produzissem um mousse muito "francês" e "adulto" (porque Allex disse que gosta muito do meu pudim de leite, mas que é muito "adulto", e que o dele alimentava a criança gordinha dentro dele. Hahaha), acabei aumentando a quantidade aos poucos, e usando 4 colheres de sopa (ou seja, 1/4 xic.). Mas pretendo fazer novamente apenas com duas. O mousse não ficou muito doce, o chocolate amargo ainda era o principal sabor. Aliás, para esse chocolate, acho que ficou perfeito. Mas recomendo que você experimente o seu chocolate e decida se prefere a quantidade original de açúcar ou um pouco mais.

    Enfim.

    O mês com menos açúcar foi uma experiência excelente. Eu descobri que me sinto infinitamente melhor com nenhum açúcar durante a semana, inclusive álcool. Descobri que continuo precisando do meu snack à noite, não para acompanhar a cerveja ou porque quero açúcar, mas porque de fato TENHO FOME. Descobri que consigo ficar sem beber álcool tranquilamente, e agora sei quando realmente quero e quando é meu emocional pedindo compensação, quando nesse caso, volto pro meu chá e tento de fato resolver meu problema ao invés de entorpecê-lo de açúcar. Descobri que a família toda se beneficia dos caminhos mais simples. Redescobri meu amor pelas frutas. Descobri que consigo sim economizar no supermercado sem fazer ninguém sofrer por isso. Descobri que esse desafio foi fácil não porque eu já não comia muito açúcar, mas porque eu não entrei nele com uma mentalidade de restrição: eu nunca disse EU NÃO POSSO comer açúcar, mas EU NÃO QUERO. Entrei nessa com curiosidade científica, com vontade de explorar minhas possibilidades, e não querendo me punir. E com isso, consegui o presente de me entender melhor.

    Vou continuar fazendo sobremesas com açúcar. Quando eu tiver vontade. Para o fim de semana. Porque esperar o fim de semana para ver seu desenho e comer mousse de chocolate é gostoso. Assim como sei que é gostoso esperar o domingo para sentar no sofá com uma caipirinha. Assim como esperamos a pizza de sexta-feira. E da mesma forma como faço a pizza de forma relaxada, porque está inserida como algo bom na minha rotina, começo a ficar contente pensando qual será o doce da vez. E é só ele, e não precisa ser complicado. Não precisa ter cara de especial, porque por ser raro, é especial em si mesmo.

    Mas nesse mundo internetístico em que as pessoas querem ver receitas mais gourmet, preparos mais complexos, pratos com temperos exóticos, saladas nutricionalmente perfeitas, novidades incríveis para seu paladar, variação infinita... fico me perguntando qual será o futuro desse blog. Com os legumes refogadinhos e os mesmo bolo de sempre. No espaço virtual, há espaço para uma cozinha simples? Quão instagramável é uma clementina?

    MOUSSE DE CHOCOLATE
    (do livro I Know How to Cook, de Ginette Mathiot)

    Ingredientes:
    • 200g de chocolate amargo
    • 6 claras de ovo
    • 2 colh (sopa) de açúcar

    Preparo:
    1. Em banho-maria, derreta o chocolate picado, misturado a 2 colheres (sopa) de água, mexendo de vem em quando com uma colher para que derreta uniformemente. 
    2. Enquanto isso, bata as claras até picos moles. Junte o açúcar e continue a bater até que fiquem bem firmes (mais do que você faria para um bolo). 
    3. Junte 1/3 das claras ao chocolate e misture energicamente, para que fique homogêneo e o chocolate misture mais fácil ao restante das claras. 
    4. Incorpore o restante das claras, agora com delicadeza, e, quando o creme estiver homogêneo, coloque em uma tigela ou potinhos individuais, cubra com filme plástico e deixe firmar por várias horas, no mínimo quatro.



     


       


    quarta-feira, 27 de março de 2019

    Caindo do cavalo, levantando de novo, um frango, um croquete, uma torta de maçã, um funcho e sei lá o que mais

    Passeando sobre o lago congelado. Tão congelado, que fiz até anjinho de neve, bem no meio dele, deitadona olhando pra cima, a uns 30 metros de distância da beirada.
    Gnocchi se diverte horrores no inverno. Mas estou feliz que é Primavera de novo.

     Fevereiro e Março foram meses estranhos. Cansaço generalizado do inverno que nunca tem fim, com direito a palavrões e bufadas a cada abrir de janela de manhã, revelando uma nova nevasca. Chega! Chega de neve! Chega de gelo na calçada! Chega de slush, neve suja, derretida, tornando a rua (e o parque) um pântano! Vejo fotos da Europa primaveril com verde e flores e casacos leves, e a carranca de todo mundo aqui aumenta. Nos poucos dias que surgem com temperaturas positivas, 4 graus, 8 graus, saímos sem gorro e sem luvas, casaco aberto, e Laura diz contente: "parece Verão, mamãe!" Seres humanos se apinham sob os raios de sol, esquentando o rosto e fingindo que o Inverno acabou.

    Depois de passar os últimos dois meses resolvendo um momento bastante turbulento relativo a trabalho, a família parece ter voltado à rotina no mesmo momento em que a última (espero) neve se foi e os primeiros pássaros retornam à cidade. A Primavera chegou enfim, ainda que apenas no calendário.

    Foram dois meses de bastante... economia. De colocar à prova aquilo que havia tempos eu exercitava pelo mero prazer criativo: gastar pouco e fazer refeições renderem, coisa que nesses meses precisei fazer por necessidade e não escolha. Abri mão de muitos itens orgânicos em detrimento dos comuns, evitei repor qualquer item que não fosse absolutamente necessário (como tahini, ou azeitonas, por exemplo), e eliminei completamente as carnes, que são o elemento mais caro de qualquer cardápio. Baseando nossos pratos no bom e velho arroz e feijão, no entanto, que comprados em sacos grandes saem muito baratos, e evitando preparar sobremesas, mantive a família toda maravilhosamente bem alimentada e dentro do budget emergencial.

    Arroz integral, feijão preto, abóbora assada e espinafre refogado. Uma combinação deliciosa, que fez Laura começar a gostar de abóbora E de espinafre.
    Em tempo, porque acho que nunca mencionei isso antes: eu nunca refogo o feijão com bacon; o que uso para trazer defumado e complexidade é um pouco de sementes de cominho, refogadas junto com a cebola e o alho, e, recentemente, uma polvilhada de páprica picante. Logo antes de servir, tempero com uma colher de vinagre (cuja acidez aviva o sabor do feijão) e misturo a salsinha ou coentro picado, se houver.

    Essa mistura de arroz integral, feijão preto, espinafre refogado com cebola e manteiga e abóbora assada (com casca ou sem, fatiada, temperada com azeite, sal, pimenta, dentes de alho e folhas de sálvia ou alecrim, e levada ao forno médio até dourar dos dois lados) virou uma de minhas favoritas de todos os tempos, e já preparei de novo umas quatro vezes desde a primeira. Allex continua torcendo o nariz para a abóbora, mas come na frente das crianças, que dão um show e raspam o prato com gosto. "Não precisa gostar, papai", diz Laura. "Só precisa experimentar."

    Em momentos como esse, foi muito bom já ter no automático o hábito de comprar as frutas e verduras da promoção e de saber reaproveitar as sobras.

    A foto é feia mas o sabor é muito bom.

    A couve-flor, que estava baratíssima e foi cortada, temperada com sal, azeite, pimenta-do-reino e espalhada numa assadeira, para ir ao forno a 180oC e cozinhar e dourar até chamuscar as pontinhas (uns dez, quinze minutos?) Dourada, misturei  a cebolas fatiadas bem fininhas, que eu deixara marinando em vinagre e sal, e cuja marinada entrou também como tempero dessa salada quente. Eu tinha coentro, então ele entrou na dança, mas poderia ter sido salsinha. Se tivesse azeitonas pretas, teriam ficado deliciosas ali.

    Num dia, essa salada quente de couve-flor acompanhou o arroz e feijão. No outro, foi jogada crua e temperada com sal e azeite sobre a massa da pizza com molho de tomates e levada para assar. No meio do cozimento acrescentei o queijo e as azeitonas pretas (que tinha poucas e escolhera não usar na salada, para complementarem a pizza), e enquanto o queijo derretia, elas terminaram de chamuscar e amaciar. Adoro pizza de couve-flor! (E às vezes substituo metade da farinha branca da pizza por integral, porque acho que fica saborosa.)

    Quando há batatas (com alho e cebolas, se houver), sempre dou um jeito de preparar alguma versão desse tray bake, cujo processo já descrevi inúmeras vezes aqui: as batatas foram primeiro, a 190oC, e quando já estavam quase perfeitamente douradas, vieram os brócolis, tudo sempre previamente temperado com sal e azeite. Quando esses ficaram prontos, vieram os ovos. E quando as claras estavam já opacas, as ervilhas congeladas entraram apenas para se aquecerem. Coloco a assadeira inteira na mesa, às vezes com um vidro de mostarda ao lado, e o jantar está servido. O trabalho foi de cortar batatas e os brócolis e só, pois o forno fez todo o resto, e com o timer apitando sempre que era hora de acrescentar mais um elemento, tive tempo de cuidar de outras coisas ou mesmo sentar e ler enquanto as crianças tomavam banho. (Vantagem de deixar a pimpolhada se virar sozinha de vez em quando: criança independente é sinônimo de menos ocupações para pai a mãe.)


    O que restou do tray bake entrou nessa torta. Esta é uma versão com iogurte do Mark Bittman, que resolvi testar, mas que achei muito seca em relação à de minha mãe, que continua campeã. Talvez ficasse melhor com o recheio original pretendido por Bittman, pois as verduras soltam mais líquido e a massa ficaria mais úmida. A de minha mãe é ótima para aproveitar legumes que já fora cozidos ou assados.



    Uma receita, no entanto, que também veio de Mark Bittman, e valeu a pena ser anotada, foram os hambúrgueres de feijão. Eu já havia feito anteriormente pequenos hambúrgueres de grão de bico e abóbora assada que haviam sobrado do jantar anterior, mas sempre preparei tudo muito no olho, mesmo naquela época em que era de fato vegetariana. Gostei de ter uma receita básica com as proporções "corretas", para não ter que ficar brincando de cientista maluca enquanto misturo os ingredientes. 

    Hambúrgueres empanados de feijão preto, com queijo derretido por cima e saladinha. Almocinho danado de bom!
    HAMBÚRGUERES DE FEIJÃO E AVEIA
    (Do livro How to Cook Everything Vegetarian, de Mark Bittman)
    Rendimento: 4 hamburgueres grandes oi 8 pequenos

    Ingredientes:
    • 2 xíc de qualquer tipo de feijão já cozido (sem o caldo - reserve para outro uso)
    • 1 cebola picada
    • 1/2 xic de aveia laminada
    • sal e pimenta-do-reino
    • (qualquer outra erva, tempero, verduras ou legumes cozidos que queira acrescentar)

    Preparo:
    1. Bata o feijão e a cebola no processador até que vire um purê grosseiro. Junte a aveia (e qualquer outro tempero) e pulse algumas vezes até que vire uma maçaroca que você consegue tirar com uma colher de forma razoavelmente firme. Se estiver muito seco, junte um pouco do caldo dos feijões. Se estiver muito molenga, junte mais aveia. Acerte o tempero. 
    2. Forme hambúrgueres do tamanho que quiser (os do tamanho de sua palma, com 2cm de altura são ideais) e coloque em uma assadeira untada de azeite, para que não grudem. Você também pode empaná-los em farinha de rosca  e colocá-los na assadeira sem untar. Leve à geladeira por umas duas horas para que firmem bem antes de fritar. 
    3. Frite os dois lados por 1-2 minutos cada em um pouco de azeite e sirva quente.


    Na corrida do simples, foi momento de relembrar uns clássicos de muito tempo atrás, de um livrinho que vendi há muito muito tempo (acho que se chamava As Ervas do Sítio, ou algo assim). É uma massa com molho de espinafre, simplíssima, mas que na minha parca experiência, sempre virava uma sopa rala láaaaa quando eu ainda tinha acabado de mudar para meu apartamentinho com meu então namorado. Acontece que eu nunca deixava a água do espinafre evaporar o suficiente e, ainda influenciada pelo macarrão nadando em molho dos restaurantes de São Paulo até então, sempre colocava mais creme de leite do que o necessário na receita, achando que não havia molho o bastante. Isso fazia com que o molho ficasse todo no fundo da panela e o macarrão totalmente pelado na hora de servir.

    Eu tinha uma porçãozinha pequena de espinafre congelado (o equivalente a 1 xícara de espinafre congelado bem apertado na xícara) e um restinho de creme de leite fresco, restinho mesmo, acho que nem meia xícara. Refoguei cebola picada em manteiga até dourar, juntei o espinafre descongelado (que já vinha picado), temperei com sal e pimenta e mexi com uma colher de pau até que ele tivesse sequinho de toda aquela água que ele solta e tivesse absorvido bem a manteiga e o gostinho da cebola. Juntei o creme de leite, misturei bem e deixei apenas levantar fervura, o bastante para o molho engrossar levemente, e desliguei o fogo. Se o creme estiver muito líquido, ele simplesmente não vai aderir ao macarrão. Taí o pulo do gato que eu não sabia quando era jovenzinha. (Fica a dica: molho de macarrão não pode sobrar, aguado, no fundo da panela. Se sobrou, é porque tinha que ter reduzido mais. Bem reduzido, ele adere à massa corretamente e a tempera direito.)

    Acertei o tempero. Escorri o macarrão (linguini funciona bem nesse caso), juntei à panela do molho com mais um naco de manteiga e um punhado de parmesão e voi là: linguini ao molho de espinafre. Sucesso geral.

    Lembrei com certa alegria e saudades daquela época em que comecei a cozinhar de fato todo dia, recém saída da casa de meus pais, e como um fettuccine com molho de tomates crus parecia o ápice da sofisticação. Logo antes de eu começar o blog, há tantos anos atrás, havia uma inocência deliciosa na cozinha, pois ela era exclusivamente para mim e para quem comia comigo. Eu tinha pouquíssimos livros de cozinha e assistia aos programas do Jamie Oliver, e aquela comida pseudo-italiana simples era o o que havia de mais complexo a que meu ego aspirava. Não havia encontrado blogs e sites de cozinha, eu era a única pessoa da minha idade de meu círculo social que gostava de cozinhar, e a aventura de testar uma receita ou uma técnica nova era uma jornada individual cujo prazer não se equipara a essa estranha ansiedade gerada pela postagem de uma foto e uma receita nas redes sociais. Às vezes simplesmente paro e volto àquela época, e cozinho para mim, e esqueço os ingredientes que usei e como preparei, e o prato fica lindo e colorido, mas o celular está desligado, e sinto um prazer imenso naquela beleza fugaz desaparecendo aos poucos a cada garfada até nunca ter existido, a não ser no sabor no fundo da língua, que se demora antes de dissolver-se para sempre.

    O prazer do particular que nossa sociedade começa a desconhecer, ao transformar todo privado em público. (Sim, a ironia de escrever isso num blog a respeito de minha vida e minha comida.)

    .....

    Quando vieram as boas notícias e pudemos todos relaxar novamente, logo antes do Carnaval, as maçãs que eu havia comprado em promoção foram transformadas num bolo. Ou torta. Ou bolo-torta, porque "torta" em italiano quer dizer bolo, de qualquer forma. Essa receita da Tessa Kiros é facílima e deliciosa. Num primeiro momento achei até que levava pouco açúcar, mas ela é doce o bastante e acho inclusive que pode ser preparada com um pouco menos de açúcar na massa sem nenhum prejuízo. O resultado me lembrou demais os Apfelkuchen (acho que era esse o nome) que eu costumava comer na casa da avó do Allex, e eu não duvidaria se as receitas fossem de fato parecidas. A torta, ou bolo de maçã da avó alemã era maior e mais fina, baixinha, não sei se de propósito ou por razões circunstanciais. Acabamos saboreando a torta no café da manhã de um dia particularmente frio e sem graça, e as maçãs envolvidas nessa massinha macia com certeza foram bom acompanhamento para o cappuccino.


    TORTA-BOLO DE MAÇÃS
    (Do livro Recipes and Dreams from an Italian Kitchen, de Tessa Kiros)

    Ingredientes:
    • 9 colh. (sopa) manteiga em temperatura ambiente (cerca de 130g)
    • 2/3 xic. açúcar demerara
    • 1 ovo
    • 1 2/3 xic. farinha de trigo
    • 1/2 colh(chá) fermento químico em pó
    • 1/2 colh(chá) bicarbonato de sódio
    • 1/2 colh (chá) extrato de baunilha
    • 4 maçãs (de preferência com alguma acidez) - cerca de 450g
    • açúcar de confeiteiro para polvilhar

    Preparo: 
    1. Pré-aqueça o forno a 160oC. Unte com manteiga e farinha uma forma de 22-24cm de diâmetro, de mola ou fundo falso.
    2. Na batedeira, bata a manteiga com o açúcar até que fique bem cremosa.
    3. Junte o ovo e misture bem.
    4. Junte a farinha, o fermento, o bicarbonato e a baunilha e misture em velocidade baixa até que comece a ficar firme demais para o batedor. Pare e termine de sovar ligeiramente com as mãos, apenas até que todos os ingredientes estejam bem incorporados. 
    5. Ponha 2/3 da massa na forma. Pressione firmemente com as mãos a massa no fundo, empurrando-a paredes acima, até que a massa ocupe todo o fundo e cerca de 2/3 da altura da forma, mais ou menos. Pode parecer que está muito fina, mas está tudo bem. 
    6. Descasque as maçãs, retire as sementes e descarte (não jogue no lixo, guarde para fazer geleia!). Pique as maçãs e cubos de 1,5-2cm. 
    7. Distribua os cubos sobre a massa de forma uniforme, checando para não deixar nenhum espaço sem maçãs. 
    8. Esfarele o restante da massa entre os dedos, em pedaços de tamanhos variados, e espalhe esses pedacinhos de massa por sobre a maçã. 
    9. Asse por 55-60 minutos, ou até que a massa esteja dourada e firme. Lá pelo fim do tempo, cubra a massa com uma folha de papel-alumínio se estiver com cara de que começa a queimar.
    10. Remova do forno e deixe esfriar. Polvilhe com açúcar de confeiteiro. O bolo/torta se mantém em temperatura ambiente de um dia para o outro, e depois disso deve ir à geladeira.


    Vida de volta ao normal, e marido viajando para o treinamento de seu novo emprego. E daí que resolvi fazer a vontade das crianças e preparar um frango assado, assim numa terça-feira, porque as crianças sempre pedem, e como Allex não gosta, nunca faço. (Também porque frango aqui não é lá muito barato, ainda mais orgânico.)

    A receita que escolhi era da Marcella Hazan, simplíssima. Você apanha um limão siciliano, rola ele entre a palma e a bancada para soltar bem os sucos, e espeta todo ele diversas vezes com um palito. O limão vai assim, furado e inteiro, para dentro do frango já bem temperado com sal  e pimenta. Fecha-se a cavidade do frango com linha ou palitos de dente, e ele é colocado na assadeira, sem óleo nem nada, de peito para baixo. Assa-se no forno a 180oC por meia hora, e então com cuidado ele é virado de peito para cima e volta ao forno por mais meia hora. Aumenta-se a temperatura para 200oC e ele fica ali mais meia hora até dourar e e os sucos saírem claros quando a carne é espetada com um garfo na junção da sobrecoxa com o corpo. (Calcula-se uns 25 minutos para cada meio quilo de frango.)

    Junto do frango ainda cru, coloquei batatas cortadas e temperadas com sal e azeite, para assarem junto, absorvendo os sucos que o frango libera. Nos últimos quinze minutos, acrescentei os brócolis temperados para assarem e chamuscarem também.

    O frango acabou ficando super suculento, ainda que não suficientemente dourado (a pele do peito, no entanto, estava crocante), porque eu esqueci de aumentar a temperatura do forno naquela última meia hora, e ele acabou assando a 200 graus apenas nos quinze minutos finais. Mas priorizei carne suculenta à pele crocante. Frango seco é uma desgraça.

    O frango já cortado em pedaços, como foi servido à mesa.

    A refeição foi uma alegria, seguida de sorvete de amêndoas com cerejas em calda, que eu preparara do livro The Perfect Scoop. O sorvete ficou gostoso sim, mas também mais doce e mais intenso do que eu imaginava (Laura não gostou, porque não gosta de nada muito doce). Eu provara um sorvete de missô com cerejas em calda na Bang Bang, minha sorveteria favorita em Toronto (porque é a única que não coloca um quilo de açúcar no sorvete), e era isso o que eu tinha em mente: um sabor e uma textura mais delicada. Todo o mini-banquete de frango assado com sorvete de terça-feira acabou servindo para comemorar a queda do primeiro dentinho da Laura. Foi mesmo uma comemoração, pois depois de ter de levar Thomas duas vezes ao dentista para arrancar os dentes de leite teimosos que se recusavam a dar espaço para o permanente já nascido atrás, foi um alívio ver Laura correndo para a sala com minúsculo dente na mão, feliz, contente, e de boca sangrando. ;) A animação dela foi tanta que, no dia seguinte, ela chacoalhou tanto o dente do lado, que também estava mole, que conseguiu fazê-lo cair também, ao que ela teve uma visita dupla da fada do dente, e agora, ao invés de uma janelinha, exibe um janelão com vista pro lago. A gente brinca e pede para ela "fazer o Ogro", ao que ela empurra o maxilar pra frente, com os dentes laterais por sobre o lábio superior e envesga os olhos, meu mini-ogro que sai correndo atrás do irmão com uma espada na mão, fazendo sons de monstro.

    "Laura, o que você quer ser quando crescer?" 
    "Uma guerreira, mamãe."

    Como eu adoro transformar tudo em bolinho, o que sobrou do frango virou croquete. Claro. Tessa Kiros ao resgate, como sempre. Já disse o quanto amo os livros dela? Claro que sim.

    Do frango inteiro, eu comera uma sobrecoxa, e as crianças haviam dado cabo das duas coxas, uma sobrecoxa, as duas asinhas e meio peito. Daí que havia sobrado um peito e meio e todo aquele frango desfiado que a gente consegue esmiuçando a carcaça com os dedos, nos lugares em que a lâmina da faca não tira um corte limpo e bonito para apresentar no prato. Depois de dar uns naquinhos de frango pro Gnocchi, que estava aguando do meu lado o tempo todo em que eu mexia na carcaça, considerei que se tratava de meio frango, assim no olho, e, como a receita da Tessa pedisse um frango inteiro, fiz meia receita. Trata-se de um croquete tradicional: carne com molho bechamel grosso, empanado e frito. Renderam bem uns seis ou sete croquetes para cada um de nós, que servi com uma salada simples de cenoura e bok choy (acelga chinesa, a verdura em promoção), fatiada, refogada em alho e óleo de gergelim e temperada com shoyu. 

    A parte especial foi ter Laura como ajudante, que moldou e empanou metade dos croquetes comigo. 

    CROQUETE DE FRANGO
    (ligeiramente adaptado do Livro Apples for Jam)
    Faz cerca de 25-30 croquetes, dependendo do tamanho.
     
    Ingredientes:
    • carne de 1 frango inteiro, picada
    • 3 colh. (sopa) manteiga
    • 1 cebola pequena, picada
    • 1 1/2 colh (sopa) folhas de salsão, picadas (eu não tinha salsão e usei um talinho de erva-doce)
    • 1 1/2 colh (sopa) folhas de salsinha, picadas
    • 2 dentes de alho pequenos, picados
    • 1 tomate, picado
    • 1 1/2 colh. (sopa) farinha de trigo
    • 1 xic. leite
    • 1 ovo
    • sal
    • farinha de rosca
    • óleo para fritar

    Preparo:
    1. Derreta metade da manteiga numa frigideira e junte a cebola e uma pitada de sal, mexendo até começar a dourar. 
    2. Junte o salsão, salsinha e alho e misture bem, até que sentir o aroma do alho.
    3. Junte o tomate, amassando bem com a colher e misturando, até que ele se dissolva bem.
    4. Junte o frango picado, misture muito bem, acerte o tempero e transfira para uma tigela. 
    5. Em outra panela, derreta o resto da manteiga. 
    6. Junte a farinha, misturando bem, e então o leite, aos poucos, misturando com um fouet, até formar um molho branco, espesso e liso. Tempere com sal e pimenta e transfira para a tigela com o frango.
    7. Junte o ovo, misture bem, acerte o tempero e leve a tigela à geladeira por pelo menos meia hora, até que tudo firme o bastante para que você consiga formar os croquetes. 
    8. Se ainda estiver mole demais, junte um pouco de farinha à mistura. 
    9. Apanhe colheradas da mistura, e forme os croquetes, do comprimento do seu dedão e com não mais que dois dedos de espessura (achei esse tamanho fácil de manusear - até a Laura conseguiu). Passe o croquete na farinha de rosca, e deixe num prato. Repita com o restante da mistura até ter todos os croquetes estejam formados. Leve à geladeira enquanto esquenta o óleo (uns 2 dedos de óleo na panela). 
    10. Frite os croquetes até que dourem por igual, alguns por vez, em óleo a 180oC. Deixe escorrer sobre papel-toalha e sirva ainda quente.
     

    Só eu achei isso lindo?

    No dia seguinte, eu ainda tinha farinha de rosca e óleo de fritura, e resolvi dar cabo de tudo com esse funcho empanado da Marcella Hazan. Taí uma vantagem de ter menos livros de cozinha: tantos anos na minha estante, e eu NUNCA preparara essa lindeza. Você coloca o bulbo em pé e corta dele fatias de 1,5cm de espessura, tentando manter a raiz firme para que as camadas não se soltem. Como meu funcho era bem grande, cortei também ao meio, para facilitar na hora de empanar e fritar. Cozinhe as fatias de funcho na água fervente com sal por alguns minutinhos, apenas até o miolo próximo à raiz pareça macio, mas ainda resistente, ao ser espetado por um garfo. Escorra bem, passe as fatias cozidas em ovo batido, depois farinha de rosca, apertando para que os farelos de pão grudem, e frite normalmente, até dourar dos dois lados. 

    As crianças e eu comemos o bulbo de funcho frito inteirinho, e houve até briga pelos dois últimos pedaços, que consegui guardar para meu almoço do dia seguinte. Para acompanhar, no jantar, arroz cozido com talos de brócolis e temperado com salsinha, e uma saladinha simples de tomates.  No dia seguinte, em meu almoço solitário, cobri os dois pedaços de funcho empanado com fatias grossas de tomate, orégano e mozzarella, e esquentei no forno minha parmiggiana vegetariana, que acompanhei com uma saladinha de alface.
    Meu prato.
    Prato to Thomas, que me pediu para fotografar a montagem sua montagem super criativa.

    Agora, de volta à vida normal, que depois de dois meses de incertezas, visitas durante o Carnaval (que não existe aqui, by the way), March Break (uma semana de férias escolares) e uma semana com marido fora de casa, eu preciso literalmente sair correndo, e retomar minha rotina: minha meditação, meus exercícios físicos, minha escrita, minha pintura... e veja só: semana que vem meu Matador de Dragões faz 8 anos e eu ainda tenho que descobrir que bolo ele vai querer. :)



    quarta-feira, 18 de setembro de 2019

    Verão, visita, gatilhos positivos, acampamento, livros que transformam e ghee


    Eu me lembrava do verão passado com carinho: longas caminhadas com as crianças, descoberta de novas prainhas, novos parquinhos, trilhas escondidas; piqueniques sem pressa no meio do caminho, pés na areia, horas sem fim de leitura silenciosa enquanto meus filhos brincavam soltos por aí.
    Mas o tempo passa, a novidade se esvai, e as caminhadas deixam de parecer uma exploração para virarem rotina. Dos parquinhos cada um tem seu preferido, e escolher aonde ir provoca quase sempre conflitos. As crianças agora têm amigos com os quais fazem questão de encontrar, e eu fecho o meu livro para passar longas horas em conversas de elevador com pais de coleguinhas. Não, talvez isso seja injustiça: algumas dessas conversas foram realmente boas em dias que eu precisava trocar figurinhas. Mas sendo a eterna introvertida que sou, preciso de um dia de silêncio para me recuperar de um dia de constante falatório. E esse dia de silêncio calhou que nunca veio. Porque mesmo que você não marque nada com ninguém, os bairros de Toronto são como mini cidades do interior: todo mundo que estuda naquela escola mora no mesmo bairro e frequenta os mesmos parquinhos. Logo, você está sempre fadado a encontrar alguém conhecido.

    Além disso, boa parte dos amiguinhos dos meus filhos estava em creches ou summer camps (os tais programas de férias que servem para ocupar seu filho em horário comercial quando você tem que trabalhar ou não está afim de passar seus dias no playground). E como as tais crianças só saem dos camps às 3h30 da tarde, precisei mudar toda aquela rotina boa de sair sem destino por aí, gastar energia logo cedo, almoçar piquenique, e voltar exausto no meio da tarde pra tomar banho e ver um desenho... para o completo oposto: ver desenho de manhã, almoçar em casa, sair pro parque com horário marcado no parquinho de sempre, voltar tarde pra casa, fazer manha pra tomar banho, jantar tarde, ainda querer jogar jogo de tabuleiro depois do jantar com o papai e ir dormir às dez da noite.

    Um dos vários almoços piquenique: frutas, wrapp de abacate, queijo e legumes, coco fresco em pedaços, amêndoas e tâmaras, frutas da estação.
    O dormir tarde não seria um problema, afinal são férias, tudo bem. Mas quando eles dormem as dez da noite e continuam acordando às seis da manhã, a falta de sono vai acumulando, e Laura, principalmente, vira um bicho quando está cansada (exatamente como eu). Além disso, o meu tão prezado "horário de adulto", tão importante para a manutenção de minha sanidade mental, foi também pro beleléu. Ao invés de ir dormir às dez e meia (porque as crianças estariam na cama desde as oito), vi-me indo pra cama à meia noite, uma da manhã. Pra acordar às seis no dia seguinte ao som de criança brincando e/ou brigando.

    Isso poderia ter transformado o verão num estresse.

    Mas eu me mantive concentrada nos meus gatilhos positivos. Pois é, aquelas pequenas coisas que você faz para te manter no rumo. Acordar cantando uma musiquinha besta que faz todo mundo dar risada da minha cara. Alongar antes do café para botar a coluna no lugar e fazer a energia fluir. Alongar parece ser o passo número um para me lembrar de me cuidar o resto do dia. Quando não alongo tendo a esquecer de fazer outras coisas importantes para a manutenção da minha sanidade. Uma coisa puxa a outra. Quando alongo, acabo meditando. Quando medito, acabo indo correr. Quando corro, tenho vontade de comer comida fresca e leve. Quando como bem, me sinto melhor ao longo do dia e acabo pintando mais. Quando pinto, sinto-me competente e satisfeita. Quando me sinto competente e satisfeita, sinto-me mais calma para lidar com os conflitos com as crianças. Lidando de forma zen com as crianças, me sinto uma mãe melhor. No fim do dia tomo minha cerveja porque quero e não porque preciso. Vou dormir cedo. Durmo bem. E o dia seguinte já começa com o pé direito.

    E tudo começa com a minha saudaçãozinha ao sol. Um alongamento de nada. Meu gatilho.

    E mesmo num dia ruim, sei que esse alongamentozinho de dois minutos e meio é aquela migalhinha no caminho de que preciso. Quando as coisas saem do controle e me vejo querendo ir atrás daqueles famosos "confortos" que no fim pioram minha autoestima (os doces, o álcool, o famoso "hoje não vou correr porque meu dia está ruim e eu mereço não fazer nada"), troco por cuidados comigo: ler um livro, tomar um chá, lavar o cabelo, uma caminhada no mato, um lanche que seja bonito e me faça sentir que estou cuidando de mim e me dando amor de verdade, ao invés de me punir com aquilo que a mídia ensina que é amor (se entupir de sorvete no sofá chorando as mágoas - isso resolve como?). Ou simplesmente peço um abraço. Quantas vezes, num dia ruim, a gente lembra de simplesmente pedir um abraço?

    Meus gatilhos positivos me mantiveram de bom humor para lidar com as pequenas coisas do verão que não eram de acordo com minhas expectativas (expectativa é uma m*rda). Ajudou também marido chegar em casa num horário bom para jantar conosco e jogar jogos com as crianças enquanto eu relaxava a cabeça passeando o cachorro no parque. Oito horas da noite e a luz era de quatro e meia, as cigarras cantando, os passarinhos se aninhando para encerrar o dia.

    Enfim, lá pelo meio das férias o que ajudou mesmo foi a liberdade das crianças. Havia visto internet afora um video sobre Free Range Parenting, um termo meio piada para tratar da liberdade das crianças no mundo moderno, e caí num livro da jornalista Lenore Skenazy: Free Range Kids. O livro compara a liberdade das crianças de décadas anteriores com as atuais, fala dos medos modernos dos quais mães e pais sofrem e combate tudo isso com dados e fatos, mostrando que, pelo menos na América do Norte e na Europa, o mundo está mais seguro para as crianças. Fala sobre confiança. A mesma confiança que tenho em dar facas nas mãos dos meus filhos para que cortem as próprias frutas, ou que tenho em Thomas para usar o fogão e preparar seu próprio ovo frito com torradas de manhã.

    Foi num dia no meio das férias, em que Allex estava em casa trabalhando e nós atravessávamos o parque para ir a uma padaria vinte minutos dali que, cansada de ouvir as reclamações de Thomas, virei e perguntei: "Se eu te desse a chave de casa agora e mandasse você pra casa pra ficar com seu pai, o que você faria?" Ao que ele se empertigou todo o respondeu que voltaria numa boa. "Como você volta pra casa daqui?", perguntei. E ele descreveu todo o caminho, incluindo os momentos em que teria de parar para atravessar a rua olhando para os lados e respeitando a sinalização. Explicou como entrar no prédio e como abrir a porta. E disse que ficaria em casa brincando de Lego enquanto papai trabalha. Pensei por um instante. Mas ele acabou indo para a padaria comigo, reclamando até ganhar um croissant de chocolate, que fez toda a andança valer a pena.

    Foram dois os motivos que me impediram de mandar meu filho de oito anos para casa sozinho: primeiro, eu não havia discutido esse passo importante com Allex ainda (parecia-me uma decisão que deveria ser tomada junto) e segundo, eu não sabia se isso era legalmente permitido, uma vez que há alguns lugares do mundo que podem botar uma mãe na cadeia por deixar uma criança dessa idade saracoteando sozinha por aí. (Eu pesquisei a lei de Ontario, claro, e é uma mera questão de bom senso.)

    Esse episódio me fez pensar bastante a respeito do meu controle sobre meus filhos e olhá-los de uma outra forma: sob a ótica de suas reais capacidades e não das minhas preocupações. Morar numa cidade segura ajuda um bocado, claro.

    E a partir daquele dia, comecei a soltá-los um pouco mais. Ciente de que eles são extremamente responsáveis e não saem mexendo no que não devem nem se inventando encrenca, comecei a a deixá-los experimentarem um pouco de liberdade conforme a oportunidade aparecia, sempre conversando muito a respeito de perigos reais e como reagir a cada um deles (desde a abordagem de estranhos até fogo no prédio). Ao fim do verão eu já estava podendo deixá-los em casa enquanto ia ao mercado rapidamente sem o menor problema. E ir ao mercado sozinha é o tipo de sonho de verão que só uma mãe em tempo integral entende.

    Hoje, com as aulas já começadas, a alegria do meu filho é poder ir para casa fazendo um caminho diferente do meu. 

    As pequenas liberdades deles trouxeram mais paz aos nossos dias e nosso relacionamento. Fui me vendo mais segura deles e de mim mesma. Num outro dia, Thomas veio me pedir um lanche. Olhei para ele e, rindo, expliquei: "Filho, você tem quase nove anos. Quando você era pequeno, eu precisava escolher o que você comia e quando, pra garantir que você ia crescer forte, porque você ainda não sabia fazer essas coisas. Agora você sabe. Tá com fome? Você sabe abrir a geladeira, usar o fogão e a air fryer. Go crazy. Se alimente. Só peço algum bom senso pra não sair fazendo lanche perto da hora do jantar, por favor, e avisar quando alguma coisa acabou ou está prestes a acabar pra eu poder comprar mais."

    Ele demorou alguns minutos pra entender o que eu tinha dito e assimilar aquilo. E saiu correndo pra fazer um enorme sanduíche de tudo o que ele encontrou na geladeira.

    Claro, ajuda o fato da minha casa não ter comida "porcaria", como Laura diz. E quando tem, eles perguntam se pode pegar. 

    Cafés da manhã tem sido assim ultimamente. Aquela época de "hoje tem mingau" não existe mais. Cada um prepara o seu conforme seus gostos. Se pedem ajuda, ajudo. Hoje quiseram montar o próprio almoço para levar para a escola. Aos fins de semana já aconteceu de eu acordar e os dois já terem tomado café da manhã. A mesa estava posta com as coisas que eu costumo comer de manhã e Laura tinha feito meu cappuccino (ok, a máquina é automática, mas ela ainda tem que lembrar a ordem certa de apertar os botões e lembrar de conectar o reservatório de leite que fica na geladeira).

    Eu respiro fundo e fecho os olhos quando eles exageram na quantidade de mel na torrada ou quando resolvem colocar maple syrup no cereal que já vem ligeiramente adoçado. Tá tudo bem. Larga. Sei que sou mais feliz controlando menos e tento abafar o monstro Control-Freak dentro de mim quando ele começa a dar as caras novamente, o que sempre acontece quando estou ou muito cansada ou frustrada com outra situação que saiu do meu controle.

    Ao invés de estressar com a bagunça e ficar pedindo um milhão de vezes pra tomar cuidado pra não derrubar o leite na mesa, simplesmente peço pra limpar quando acontece. Agora é automático. Eles sempre limpam a mesa quando cai comida e nem preciso pedir mais. E ninguém mais fica estressado.

    Um outro livro que me ajudou com isso foi da Rebeca Wild. Eu já havia lido o Calidad de Vida, sobre ritmos de desenvolvimento infantil, e, achando que precisava reler, peguei outro dela por engano, sobre a vida escolar: The Pestalozzi Experiment, que terminou sendo fantástico, lembrando-me de olhar meus filhos sob outros pontos de vista e compreendê-los melhor.

    Em termos de olhar as coisas sob outros pontos de vista e entender melhor, dois outros livros foram fundamentais para mim: Wild Power, de Sjane Hugo Wurlitzer e Alexandra Pope (que fala sobre o ciclo feminino como se fossem estações do ano e como a compreensão de cada fase pode ser usada a seu favor como fonte de força ao invés de limitação) e Mulheres que correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés, PhD (não é só hype, o livro é de fato EXCELENTE - eu tinha pego na biblioteca, mas no meio da leitura resolvi me comprar uma cópia para ler e reler quando precisar e eventualmente dá-lo à Laura).

    O verão que se seguiu à minha viagem à Portugal foi uma jornada de reencontro com minha criança interior e a força feminina escondida embaixo de cobranças e expectativas. Foi um verão repleto de energia, força e alegria.

    Foi nessa fase boa que minha irmã chegou, depois de dois anos sem vê-la. Fiquei esses dois anos esperando para tomar Aperol Spritz com ela novamente.



    Concentramos em parcos sete dias tudo o que queríamos mostrar a ela. Cataratas de Niagara, Niagara on The Lake (uma cidadezinha linda quase com cara de cenográfica), piquenique e "tubing" (descer o rio de bóia) em Elora Gorge park, longos passeios de bicicleta por Toronto, hambúrguer, brunch e ramen nos nossos restaurantes favoritos, muita cerveja e conversa e muitos, muitos jogos de cartas  e tabuleiro com as crianças.
    Elora Gorge Park.
    Almoço-piquenique, a quintessência do verão canadense.(Muffins de mirtilo, Pão de queijo, Blue corn tortilla chips, melancia, pepinos.)


    Niagara Falls
    Quando minha irmã foi embora, deixando na gente essa impressão de o tempo ter passado muito rápido, tratamos de nos inventar coisa pra fazer. Aproveitamos as promoções de fim de verão para comprar algo que queríamos havia muito tempo: equipamento de acampar. Costumávamos acampar antes das crianças nascerem. Mas seja por excesso de trabalho, falta de grana, medo pela segurança ou qualquer outro motivo, enquanto moramos no Brasil, o único lugar em que as crianças acamparam foram na sala de casa.

    Estava na hora de corrigir isso.

    Reservamos um espaço num parque a pouco tempo daqui e lá fomos nós. Compramos nosso equipamento não pensando nos car-campings que os canadenses costumam fazer durante o verão, mas sim nas trilhas que pretendemos fazer com as crianças um dia. Barraca pra quatro ultraleve, saco de dormir que aguenta frio e isolante térmico. Um fogareirozinho potente e minúsculo e uma panela pequenininha, só pra esquentar água. Foi também uma lona e cordas para poder fazer um abrigo do sol e da chuva além da barraca. Allex se arranjou um livro que ensina a fazer nós e se divertiu descobrindo formas diferentes de amarrar a lona às árvores.

    No quesito comida, no entanto, confesso que exagerei. Querendo tornar a experiência suficientemente gostosa para que eles quisessem repetir, levei milho e linguiças e queijo haloumi (que parece o coalho) para fazermos no fogo, itens para sanduíches no almoço, legumes e frutas (banana, melancia e mirtilos) de snack, chips, e para o café da manhã, iogurtes e mingau instantâneo, que me trouxe uma lembrança calorosa dos acampamentos com Allex, durante nosso namoro. (Acho até que tem foto aqui no blog de nós dois comendo gororoba em acampamento).

    Lá, as crianças se divertiram ajudando a acender a fogueira e depois esculpindo galhos com serra e canivete para fazer os próprios espetos de marshmallow. Claro, esqueci: também houve uma quantidade absurda de Smores (os marshmallows tostados no fogo que vão dentro de dois biscoitos doces com um quadradinho de chocolate que derrete devagar). Vê-los lidando com as lâminas cuidadosamente, focados, me encheu de orgulho. E temos já um canivete para cada um, que ganharão de presente no próximo acampamento.

    Desligamos o celular durante toda a viagem. O silêncio era delicioso. Na hora de dormir, confesso que fiquei aflita. As crianças se incomodariam de dormir no chão duro? Há muita gente que leva colchões infláveis, mas quisemos mostrar a eles como se faz de verdade, como nós costumávamos acampar. Para minha surpresa, entraram exaustos na tenda e dormiram imediatamente, a noite toda. Quando acordei, brinquei com Allex, não sabia se o chão duro havia entortado minhas costas ou finalmente colocado elas no lugar. ;) Sei que não dormi a noite toda. Lembrava-me disso dos nossos acampamentos. De acordar toda vez que me virava no saco de dormir. De ouvir os insetos do lado de fora. De ter essa impressão de despertar por 1 minuto a cada meia hora e então voltar a dormir. Ainda assim, acordei descansada e cheia de energia pela primeira vez em muito tempo.

    O tamanho desse menino.
    Acender o fogo às cinco e meia da manhã e comer o mingau-gororoba quentinho ouvindo o despertar dos pássaros, pés no mato. Sentia-me em casa. Gnocchi parecia feliz e relaxado ali no mato. Raspando as patas e cavocando a terra e o mato antes de dormir como faz em casa, e ríamos: "É, bichinho, faz muito mais sentido fazer isso aqui do que no apartamento, né?" Celular desligado por dois dias. Mato. Cigarras. Pássaros. Aquela sensação de precisar de tão pouco que o acampamento dá. Acordar descansada, mesmo dormindo no chão. É o silêncio do mato que descansa, ou é o silêncio do celular?

    Foi bom ter encontrado um mingau-gororoba de uma empresa orgânica de British Columbia que faz misturas de fato gostosas. Porque aquele da Dr. Oetker que a gente costumava levar em trilhas no Brasil tinha gosto de papelão molhado. :P

    Estava tudo indo bem até sermos surpreendidos pela chuva no meio de uma trilha. A desvantagem de desligar o celular é não ter acesso à previsão do tempo. Encharcados, precisamos criar uma estratégia inteligente para não enlamearmos a barraca por dentro. Ajudei as crianças, que ficaram secas e quentinhas na barraca lendo gibis enquanto Allex e eu consertávamos a lona que caíra pelo peso da água e tentávamos usar o que havia de carvão molhado para improvisar um churrasco debaixo da lona, protegidos pela chuva. Gnocchi, cheio de lama, aos nossos pés, assistiu por duas horas a saga para acender o fogo já na escuridão da noite. Allex se afastava e oferecia o lugar mais perto do fogo tímido para que eu tentasse secar meus pés e me esquentar. Meus cabelos ainda pingavam da chuva e naquele momento, vendo meu casaco pesado e encharcado a me cobrir, decidi que era hora de investir numa jaqueta de chuva decente.

    As crianças correram rápido da barraca seca para debaixo da lona e sentaram-se conosco para comer. Um cruzamento de mariposa gigante e besouro do inferno voou na nossa direção, atraído pelos head-lamps e Allex quase tacou fogo na própria camiseta com o susto. É um monstro-inseto!, Thomas gritou. Conseguimos manter o fogo aceso tempo bastante para assar as últimas linguiças e espigas de milho e prometemos às crianças Smores de café da manhã, já que seria impossível fazê-los debaixo da chuva.

    A chuva caiu intensa e cheia de raios e trovões até as quatro da manhã. Gnocchi, com medo, ficava subindo em cima de mim e tentando dormir em cima da minha cara. Mais uma noite de sono intermitente. Mais uma manhã em que parecia renovada e capaz de conquistar o mundo.

    Fizemos Smores até acabar com todos os marshmallows do pacote. As crianças brincaram apagar o fogo com arminhas de água e vieram nos ajudar a desmontar a barraca. Gnocchi, que é boy de apê, era o único ansioso para ir para casa e ficou esperando na porta do carro.

    Quando voltamos para Toronto e entramos em casa, ansiosos por um banho quente, aqueles dois dias fora pareciam dois meses.

    A melhor parte do verão foi acampar, disseram as crianças. "Mas eu quero ficar mais no meio do mato da próxima vez", disseram.

    Ok.

    O verão ainda está aí apenas como dias num calendário. Setembro começa, as aulas retornam, piscinas públicas são esvaziadas, há mais chuva que dias de sol. O lago está frio demais para convidar a um mergulho. Acabaram os piqueniques. Mas a sensação de ser eu, de ser forte, de poder correr longe continua. A vontade de ver meus filhos crescendo e aprendendo me move cada vez mais. Quando confio neles, vejo suas posturas mudarem, vejo quando olham o mundo de peito aberto. Eles acreditam em si mesmos quando acredito neles. E acredito neles quando acredito em mim.

    Não vejo a hora de me enfiar no mato de novo. De dormir e acordar com os pássaros. De sentir o chão. É bom sentir os pés firmes no chão. É essa segurança que te dá vontade de tirá-los do chão e alçar vôo.

    Ou talvez sejam os quarenta chegando. Sempre disse a meu marido que depois dos quarenta eu iniciaria meu processo de me tornar a velha louca que pretendo ser.  Taí. Velha louca em formação.


    .....

    E a comida? Isso ainda é um blog de cozinha? Já não sei bem. Tenho cada vez menos vontade de ficar testando receitas por aí. Às vezes acho mesmo é que precisava fazer um post compilando meus favoritos de todos os tempos e que viraram clássicos insubstituíveis. Porque é desses clássicos que tenho vivido. E o que é invencionice, é feito assim de supetão, valendo-me completamente da intuição e daquilo que aprendi nos últimos vinte anos de cozinha. Não tenho lá muitas receitas para dividir aqui, mas talvez tenha sugestões de como pensar a refeição. Será que basta?

    Nas últimas incursões da churrasqueira, resolvi fazer camarões, que estavam fresquinhos e em promoção. Ensinei Laura a limpar os camarões e ela se armou de uma faca com ponta afiada e abriu as costas de um por um, tirando os intestinos deles com precisão. Thomas ficou encarregado de temperá-los e passá-los pelo espeto. Uma marinada rápida em azeite, alho picado e salsinha antes de levá-los ao fogo, uns poucos minutos de cada lado. Acompanharam as últimas espigas de milho da estação, também feitas na churrasqueira, e uma salada simples.


    Num outro dia, assei diferentes batatas-doces temperadas com azeite e sal até dourarem, em fogo médio, numa assadeira grande. Quando prontas, afastei as batatas para o lado e depositei ali um filé inteiro de salmão selvagem com a pele para baixo, e que eu já tinha temperado com uma salsa verde improvisada, com muito dill e salsinha e raspas de limão. Juntei um punhado de ervilhas congeladas. Assei por uns dez minutos, até peixe e ervilhas estarem cozidos e servi com salada verde. Achei que faltou sal. Ainda tenho dificuldade de salgar apropriadamente cortes grandes de carnes de qualquer animal, por falta de prática.



    Num dia em que eu não achei que tivesse muita coisa na geladeira, grelhei fatias finas da única berinjela grande que eu tinha. Recheei com fatias de queijo, que era para ser mozzarella, mas nem sei mais se usei cheddar branco ou Havarti, que eu considero como sendo "o queijo Prato do Canadá". A gente usa o que tem, substitui com o que pode, e faz tempo que parei com frescuras e preciosismos com ingredientes. Libertação emocional começa também com menos perfeccionismo na cozinha. Enrolei as berinjelas em volta do queijo, coloquei os rolinhos na travessa untada com azeite e reguei com uma mistura de tomates cereja, cebola, salsinha e manjericão, que eu temperara com sal e azeite e deixara meia hora sorando e criando o próprio caldinho. Levei ao forno para gratinar e servi com arroz integral e salada verde.

    A foto é feia mas a comida é gostosa. :)

    Num almoço tranquilo só com as crianças, antes de ir para o parque, dourei mandioca cozida  (sim! aqui acho mandioca no supermercado!) em muito ghee (porque ando fazendo ghee toda semana para terapia ayurvédica dessa minha família de Vhattas, e ando adorando cozinhar com isso, pois o ghee doura tudo lindamente sem queimar como a manteiga). Tirei a mandioca e foi a vez da batata-doce. Voltei tudo para a panela quente para servir com ervilhas-tortas branqueadas. Tudo polvilhado de salsinha, uma espremida de limão, pimenta-do-reino e acompanhado de uma saladinha rápida de tomates, abacates e queijo.


    Ghee e uma joaninha que pelo jeito veio com a gente pra Toronto lá do acampamento.
    Para quem quiser fazer ghee, eu considero o melhor jeito (e mais prático) ESSE AQUI.

    No restante, a comida aqui em casa tem sido, como há já muitos meses, essencialmente improviso. Algo aconteceu durante toda essa transformação de verão que meio que matou minha vontade de comer doces. Ando me refestelando com frutas de um jeito que nunca havia feito antes. Talvez inspirada pelos lindos pratos de fruta fresca que minha filha se prepara de manhã cedo. Talvez as recomendações ayuvédicas, que me fizeram interromper a febre dos biscoitos e dos bolos há uns meses atrás, tenham influenciado minha cozinha mais do que eu imaginava que fariam. Talvez seja a abundância de frutas frescas e gosotas do verão, que depois desaparecem ao primeiro sinal do outono.

    A vontade de ficar fazendo bolos e tortas e afins anda meio sumida. Engraçado, ninguém anda sentindo muita falta. As únicas sobremesas que me aventurei a fazer em agosto (e que não eram sorvetes de fruta) ou não deram certo (como a pamonha de forno que nunca firmou) ou ficaram doces demais e ninguém quis (como o crumble de pêssegos da Alice Medrich - aliás, mesmo os doces da Alice, que sempre me pareceram pouco doces, andam puro açúcar para mim ultimamente. Bizarro.)

    Agora a cozinha volta à velha rotina: o famoso quebra-cabeça dos almoços escolares, com dois filhos que gostam e desgostam tudo diferente, precisando pensar em comida que não vire paçoca dentro da lancheira revirada, onde não posso enviar nada com castanhas, e onde tento manter a coisa toda relaxada e enviar lanches que "pareçam" as porcarias industrializadas dos amiguinhos mas que não são.

    O verão acabou.

    PS: eu havia escrito todo um outro post antes desse que eu escrevi e editei tantas vezes que tinha ficado completamente sem pé nem cabeça e eu não gostei dele. Mas apertei Publish sem querer. Deve ter gente que recebeu por email. Desconsidera a loucura da cabeça da pessoa. No fim eu estava muito mais empolgada em contar as desventuras do verão do que ficar elucubrando sobre processos emocionais. 

    Cozinhe isso também!

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