quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Risoni, fagiolini e fave al pesto di basilico


Um título bem metido à besta para esse post, pois tenho uns amigos que não são chegados em coisas verdes, e talvez "risoni com vagens e favas ao pesto de castanha de caju" não soe tão apetitoso quanto o prato na verdade é.

Ontem Allex veio até a sala segurando a caixinha azul já aberta de risoni da Barilla, com um olhar bastante curioso.

"O que foi?"
"Faz alguma coisa com isso amanhã?"
"Faço. Mas isso é macarrão de sopa. Tem que ser sopa ou pode ser outra coisa?"
"Qualquer coisa tá bom."

Lá fui eu ver o que tinha na geladeira e pensar o que poderia fazer com o risoni (massa em forma de grão de arroz) que não fosse sopa, já que anda tão quente que o pobre cão tem passado o dia dormindo de barriga para cima em frente ao ventilador. Mencionei vagamente que fizera uma salada de Jamie Oliver ontem. Aliás, no espírito de terminar algum livro de receitas, fiz no dia 1º um fettuccine com molho de alho-poró e mascarpone. Gostoso, mas faltava profundidade; profundidade essa que consigo num molho já clássico aqui em casa, de alho-poró, creme de leite e manteiga, com raspas de limão, que fazem toda a diferença. Sorry, Jamie, but mine is better.

Mas voltando ao que interessa... Favas (adoro favas), vagens francesas (adoro vagens) e aspargos (adoro aspargos) com molho de mostarda e vinagre balsâmico. Parecia promissor. Mas a salada ficou... ok. Para quem adora tudo o que tem nela, acho que deixou muito a desejar. Fiquei frustrada, pois a receita é do primeiro livro dele (assim como a massa com alho-poró), e está justamente ao lado de uma de minhas saladas favoritas: espinafre, ervilhas e queijo de cabra.

Os aspargos foram todos para a salada, mas sobraram vagens francesas (vagens comuns, só que mais fininhas) e favas. Cozinhei-as separadamente, al dente, e preparei enquanto isso um pesto com manjericão, castanha de caju, alho e azeite, usando muito mais castanhas do que manjericão, pois eu queria textura no prato, e queria a doçura das castanhas não salgadas para amansar o alho. Misturei as vagens e as favas ao pesto, experimentei e, por si só, estava uma delícia. Poderia servir assim mesmo, ou fazer um purê de tudo e espalhar sobre torradas de pão ciabatta, com um fio de azeite e uma bola de mozzarella. Mas Allex pediu o risoni.

Tampei a tigela com filme plástico e levei à geladeira, para marinar, fortalecer e amalgamar os sabores, e depois misturar os feijões frios e temperados à massa fumegante. Só tive de ficar muito atenta ao cozimento do risoni, para que não virasse uma papa. Você pode (e deve) usar favas frescas ao invés das congeladas quando for sua estação. Mas lembre-se de descascar as maiores. As menores podem ser acrescentadas cruas à massa. O prato final ficou absolutamente delicioso, reconfortante e, sobretudo, leve.

RISONI COM FAVAS E VAGENS AO PESTO DE CASTANHAS DE CAJU
Tempo de preparo: 30 minutos
Rendimento: 3-4 porções


Ingredientes:
  • 350g de risoni
  • 200g de favas congeladas
  • 200g de vagens francesas orgânicas
  • 1 xíc. de castanhas de caju
  • 1/2 xíc. de folhas de manjericão fresco
  • 1 dente de alho pequeno
  • 1 pitada de sal grosso
  • 1/4 de xíc. de azeite extra-virgem
  • 1 xíc. de queijo parmesão ralado grosso
Preparo:
  1. Em um pilão, amasse o alho e o sal grosso até obter uma pasta. Junte as castanhas e amasse com força, até que elas estejam bem misturadas à pasta de alho e bem trituradas. Acrescente o manjericão e faça o mesmo. Junte o azeite e misture bem.
  2. Corte as pontas das vagens, jogando-as fora. Corte as vagens em pedaços de 2 cm.
  3. Ferva 1,5l de água em uma panela grande. Não salgue. Coloque as favas na água fervente e cozinhe por 5-7 minutos, até que fiquem tenras mas ainda verdes e com gosto fresco. Se cozidas demais, suas cascas ficam cinza. Retire com uma escumadeira e reserve-as em uma tigela. Misture-as com metade do pesto.
  4. Junte as vagens na mesma água e cozinhe-as até que fiquem macias, mas al dente e ainda de um verde bem vivo. Retire-as com uma escumadeira e junte-as às favas, misturando o resto do pesto. Mexa bem com uma colher, para que todos os feijões estejam bem recobertos de molho.
  5. Na mesma panela, junte mais 1-1,5l de água e leve novamente à fervura. Salgue com 1 1/2 colh. (sopa) de sal. Junte o risoni e cozinhe até estar al dente. Cuidado, pois alguns segundos a mais pode tornar o risoni uma papa. O ideal é tirar um pouco antes de estar no ponto, pois ela continuará cozinhando no prato.
  6. Escorra a massa e misture os feijões, acrescentando mais um fio de azeite e o queijo parmesão. Misture bem com um garfo e sirva imediatamente.

Larousse do Chocolate e um chuchu de bolo: redenção, talvez...? (Updated)

Desde o fiasco do rocambole de natal que eu estava louca para acabar com os doces da casa e tentar uma nova receita do livro. Pesquisei um bocado e descobri várias críticas positivas sobre o livro e receitas que haviam dado certo. Não havia por que apenas na minha mão as coisas degringolarem... Ou havia?

Fui cuidadosa: escolhi a receita de bolo mais fácil de todo o livro: "Bolo Fofo". Era derreter a manteiga e o chocolate, juntar com todo o resto, bater no liqüidificador, botar na forma e assar. Não há margem para erros aqui. A não ser erros de tradução.

Quando vocês olham para o bolo da fotografia, qual descrição é a melhor na sua opinião: bolo mousse ou bolo fofo? Porque no How to be a Domestic Goddess, de Nigella, há uma foto muito semelhante, e o título é "chocolate mousse cake". Ambos tratam-se do mesmo princípio: uma casquinha assada por fora e massa quente semicrua macia e escorrendo por dentro. Quem foi o panaca que traduziu isso como bolo "fofo"? Talvez o tradutor tenha achado o bolo "uma gracinha"...

Bom, frustrações etimológicas à parte, já que eu poderia (*suspiro*) ter pesquisado sobre a receita antes de fazê-la... A receita DEU certo. Em partes. Nunca pensei que encontraria dificuldades em uma massa tão simples, mas havia uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho havia uma pedra. A primeira pedra era um monolito, chamado "liqüidificador de quinta categoria". O bolo de Nigella que fizera da mesma forma há um tempo era assustadoramente líquido, e por isso bateu sem problema nenhum, ficando completamente uniforme em pouco tempo. Esta massa, entretanto, não é do tipo "despeje" (mais uma vez, esse tradutor mostra que tem chocolate no lugar de miolos); é do tipo "coloque a colheradas". Ela é muito densa. Tão densa, que você tem de espalhá-la na forma com uma espátula e alisá-la, ou ela corre o risco de não ter um tamanho uniforme. E, de fato, os pequenos picos e marcas da espátula que tinham ficado na massa ao ir para o forno permaneceram, mesmo depois de assados. Sou capaz de de apostar dinheiro como, ou Hermé tem um liqüidificador potentíssimo e esqueceu que nós mortais não temos, ou a receita original usava um processador de alimentos e o tradutor abrasileirou-o para "liqüidificador".

O resultado: quase fundi o coitadinho. O liqüidificador começou a andar pela bancada, a despeito das ventosas nos pés, fazendo um barulho assustador e exalando um cheiro de óleo de motor esquisitíssimo, seguido do suave odor de peças de metal superaquecendo. Não consegui deixar o bichinho ligado pelos enormes 3 minutos que a receita pedia, e tive de misturar tudo com uma espátula, até ficar homogêneo.

"Coloquei às colheradas" na forma, espalhei bem, alisei o mais que pude, e levei ao forno que estava exatamente a 180ºC pelos 15 minutos (e nem um segundo a mais) indicados na receita. "Retire do forno e desenforme no prato de servir", dizia. Assim, logo de cara...? Ok, lá vai, então. Virei o bolo, tirei a forma e... o bolo quebrou. Alguns pedacinhos estavam muito delicadamente grudados na forma. E olha que eu sou a senhora unta-forma: não havia um milímetro da desgraçada da forma antiaderente que não estivesse coberta de manteiga e farinha. Meus bolos nunca grudam. NUNCA GRUDAM. E esse grudou mesmo assim.

Retirei com uma faquinha as partes grudadas, colocando-as novamente sobre o bolo como um quebra-cabeça. Polvilhei o cacau por cima e deixei o bolo amornando na cozinha, enquanto almoçava o resto da salada de aspargos, vagens francesas e favas de Jamie Oliver, que fizera na noite anterior (salada decepcionante; nada de mais). Depois de comer, tirei-lhe um pedaço, fiz as fotos e experimentei-o.

Ahn... é, ficou gostoso. Para quem gosta do tipo. Ainda que eu tenha usado chocolate amargo da Callebaut a 50% de cacau, ao invés dos 60% indicados na receita, o bolo ainda apresentou aquele amargo-doce que evito em bolos. O que quero dizer com isso é que tenho a impressão, enquanto o saboreio, de que minha língua está sentindo o amargo do chocolate e o doce do açúcar separadamente, ao invés de dois sabores se complementando. É difícil descrever. Mas é o mesmo motivo pelo qual não fiquei maluca pelo bolo do "O melhor bolo de chocolate do mundo". Mas se você gostou, tenho certeza de que gostará desse também. É uma sobremesa rapidíssima para quando se tem convidados de última hora, mas é para se comer com uma jarra de água gelada do lado...

Lógico que parte da frustração foi a textura inesperada. Achava que teria um bolo muito denso e úmido, como são normalmente os bolos sem fermento e que levam amêndoas moídas, mas não... derretido.

Então, fica assim: o livro está parcialmente redimido. Terá valido a pena quando produzir algo de chocolate de que eu goste. Eu não sou uma chocólatra. Prefiro bolos e doces com frutas. Acho que compro barras de chocolate para comer, e não para cozinhar, umas 2 vezes por ano, se tudo isso. De vez em quando me vem uma vontade louca de comer bolo de chocolate, muffins de chocolate, brownies, etc e tal. Só que não serve qualquer receita: precisa ser aquela de que eu tinha vontade. E não era desse bolo que eu tinha vontade. Eu queria um bolo fofo.

[UPDATE: Levei metade do bolo-não-fui-muito-com-a-cara à casa de minha mãe, onde deixei-o, na geladeira, com um post-it cor-de-rosa dando-lhes boas-vindas (ela e minha irmã voltam de Fortaleza hoje). Não que eu esteja dando comida que não gostei, porque geralmente não faço isso; mas porque somos em apenas dois por aqui, e elas estão também em duas por lá (com meu pai fora a trabalho), e Allex e eu não conseguimos comer um bolo inteiro sozinhos, nem quando o adoramos. Por isso, sempre saio distribuindo as gostosuras. [Vocês acabaram de descobrir o segredo de porque não somos dois elefantes, apesar de eu preparar tantos doces. Ok, talvez não o Allex, mas eu preciso eliminar alguns excessos de Ana Elisa que andam sobrando na cintura.] O caso é que o livro diz que o bolo deve ser servido morno. E elas o comerão gelado. Pensei nisso e, voltando para casa, apanhei uma faquinha e tirei um pedacinho de nada do bolo que já estava na geladeira desde que escrevera esse post (não me atrevo a deixá-lo fora, com esse calor). E não é que o danado fica bem melhor gelado? Aquela melação toda de chocolate adquiriu uma textura de brigadeiro molinho, bem mais apetitosa (para mim, pelo menos), e o fato de estar geladinho torna seu sabor denso mais interessante nesse dia quente. Vou comê-lo depois do jantar com uma bola de sorvete de mascarpone, que ficou com um gosto muito amanteigado para ser comido sozinho, mas perfeito para affogatto (como sugere David em seu livro, de onde tirei a receita) ou para acompanhar um bolo como esse. Ok, ok, livro 90% redimido.]

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Tiramisù de Reveillon

Finalmente terminei de usar todo o mascarpone que sobrara do feitio do tiramisù para a noite de reveillon. Isso porque todas as receitas da sobremesa que conheço pedem 500g de mascarpone, mas todas as embalagens do queijo aqui no Brasil tem apenas 400g. Acho que é um complô para nos obrigar a comprar sempre dois potes...

Já expliquei anteriormente os probleminhas que tive com a receita. Usei líquido demais, o que empapou as bolachas champagne mais do que eu gostaria. Também bati o creme de leite fresco menos do que o necessário. Se estivesse mais firme, o creme de mascarpone teria, da mesma forma, ficado mais consistente. Logo, acredito que prestando atenção a esses dois pontos, você terá um delicioso tiramisù. A quantidade de líquido descrita aqui não é a que usei, mas a quantidade original da receita. Eu usei 150ml de café e saí respingando Marsala feito louca. Não faça isso.

A sobremesa fica muito mais saborosa se preparada no dia anterior.

TIRAMISÙ
(Ligeiramente adaptado do livro Culinária Itália)
Tempo de preparo: 30 minutos
Rendimento: 6 porções


Ingredientes:
  • 200ml de creme de leite fresco
  • 5 colh. (sopa) de açúcar
  • 4 gemas grandes
  • 500g de queijo mascarpone
  • 200g de biscoitos champagne ou mesmo volume de pão-de-ló feito em casa
  • 4 colh. (sopa) de café forte (espresso ou de bialetti) adoçado a gosto ou deixado amargo
  • 4 colh. (sopa) de vinho Marsala
  • 1 colh. (chá) de essência de baunilha
  • raspas da casca de 1 laranja
  • cacau em pó belga para polvilhar
  • raspas de chocolate amargo (mínimo 50% de cacau)

Preparo:
  1. Bata o creme de leite fresco e 1 colh. (sopa) de açúcar como se para chantilly, até ficar bem firme, mas ainda liso e suave, sem granular, ou ficará com gosto de manteiga. Guarde na geladeira.
  2. Bata as gemas e o restante do açúcar até que fique amarelo-pálido e cremoso. Incorpore o mascarpone às colheradas, batendo devagar para misturar bem. Com cuidado, misture o creme de leite batido. Misture metade das raspas de laranja, a baunilha e 1 colh. (sopa) do vinho Marsala.
  3. Disponha metade dos biscoitos no fundo de uma travessa de fundo plano. Misture o resto do Marsala com o café frio e regue-os com metade do líquido, sem encharcá-los. Espalhe metade do creme de mascarpone por cima. Cubra com outra camada de biscoitos, regue novamente, e espalhe o restante do creme.
  4. Polvilhe o cacau por cima. Cubra com as raspas de chocolate e de laranja e leve à geladeira de um dia para o outro.

Feliz ovo novo!

A Sílvia deixou-me uma pergunta sobre ovos num comentário que me deixou revoltada (não com ela nem com a pergunta, mas com o tema) como sempre fico quando vejo reportagens a respeito dos "perigos" dos ovos ou quando vejo um restaurante com plaquinha avisando que não servirá ovos de gema mole por causa da vigilância sanitária. Adoro a vigilância sanitária quando ela garante que a pessoa que está preparando minha salada lavou as mãos. Odeio a vigilância sanitária quando ela manda embalar canudinho por canudinho e guardanapo por guardanapo em saquinhos plásticos hermeticamente fechados, contribuindo cada vez mais para a geração sem controle de lixo que poderia ser evitado. Minha cunhada que é esperta, bióloga e meio bicho do mato (mais do que eu) costuma dizer que nossa noção de higiene é completamente ilusória. O canudinho pode até estar esterilizado dentro do plástico. Você pode até ter ido ao banheiro para lavar as mãos. Mas ao voltar, teve de pegar na maçaneta da porta do banheiro para sair, nas costas da cadeira para puxá-la, e provavelmente brincou com um saleiro que estava sobre a mesa, ou passou as mãos no cabelo ou nas pernas. Pronto, tudo "contaminado" de novo. E quando você apanhar o canudinho, ele já não estará estéril. Sempre dou risada em lanchonetes ao ver as pessoas apanhar os sanduíches com guardanapos e as batatas-fritas com os dedos. Ahn... seja consistente pelo menos!

Essa obsessão moderna com germes e bactérias nos levará à ruína. Estamos criando uma sociedade cada vez mais frágil dessa forma, pois nosso corpo não cria anticorpos sem ser primeiro exposto ao invasor. E a primeira parte de nós a sofrer com a obsessão de médicos e governos é nosso paladar. Deste a extinção de muitos queijos de leite cru até o surgimento de ovos pasteurizados para consumidor final nos supermercados. Entendo a utilização de ovos pasteurizados em processos industriais, pois seria dificílimo checar um por um e garantir a segurança do consumidor mais banana. Eles não querem ser processados. Ok. Mas eu não conheço ninguém — NINGUÉM — que tenha contraído salmonela por comer uma gemada, um mousse de chocolate ou um tiramisù. E eu comia gemada a rodo quando era criança. Era completamente viciada, e acabava com todos os ovos da casa; um dos motivos pelo qual eu era uma criança definitivamente roliça. Se alguém no mundo esgotou suas chances de pegar alguma porcaria através de ovos crus, essa pessoa sou eu. Pegar salmonela assim deve ser tão comum quanto ganhar na Mega Sena.

Acredito que a má fama dos ovos e as estranhas estatísticas usadas para embasá-la sejam pura intriga da oposição; obra de ficção, um plano maléfico da indústria da maionese industrializada, que há tempos parou de usar ovos por serem muito caros para a composição de um produto que precisa ser posicionado e precificado como "popular". Allex compra maionese Hellmann´s de vez em quando. Um potinho minúsculo, pois ele sabe que eu não chego nem perto daquilo. A mesma ojeriza que algumas pessoas têm por ovos crus, eu tenho por maionese industrializada, com seu gosto azedo e químico, seus espessantes, conservantes, aromatizantes, corantes, e todos os "antes" que não deveriam ser consumidos por um ser vivo que ama o próprio corpo. Quando quero maionese, preparo um potinho de 300ml de com apenas 1 gema de ovo e 250ml de azeite de oliva extra-virgem (mais suco de limão e um pouquinho de mostarda de Dijon), o que é mais do que suficiente para uma salada de batatas para 8 pessoas. Quem me disser que isso não é saudável toma um tapa. Quem me disser que eu vou pegar salmonela toma outro.

Além da maionese, também a salada Ceasar sofre um bocado. É servida hoje com molhos espessos de mostarda, ao invés da fina e reluzente, quase gelatinosa, camada de clara e gema de ovo cru recobrindo as folhas crocantes de alface romana. Não troco isso por nada. E se um dia pegar salmonela, terá sido por um bom motivo. Passarei um bocado mal, tomarei remédio, e estarei preparando outra salada Ceasar e outro tiramisù em dois tempos. Unam-se a mim contra a embromação da indústria e da vigilância sanitária: comam queijos de leite cru, comam maionese caseira, mousses, tiramisù, gemadas e o que for! Façam iogurtes e queijos em casa! (Ah, é, a vigilância também é contra queijo caseiro). Choque o mundo produzindo pão de massa azeda, deixando a biga uma semana com um pedaço de maçã dentro em temperatura ambiente!!!

*Inspira... Expira...*

Aparentemente, comecei o ano meio nervosa. Ok, ok, nada que o último pedaço de tiramisù molenguinha não resolva.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Ai, as resoluções...

No ano passado, escrevi em uma folha de caderno tudo o que queria/precisava mudar em mim em 2007 e colei na geladeira, onde pudesse ler aquelas frases todo santo dia e não esquecê-las. O resultado foi que, ao contrário de outros anos, eu de fato consegui cumprir algumas das promessas (uns 60% pelo menos). Por isso resolvi repetir a dose esse ano.

Definitivamente preciso meditar mais. Foi-se a época em que eu era mais disciplinada, e não é à toa que minha cabeça anda uma loucura... E meditação de menos aliada a bebida de mais... vixe... Só beber em casa de fim de semana é uma promessa. Senão, quando você percebe, é terça-feira e você está no sofá bebendo vinho às três horas da tarde, num dia sem trabalho... E bebida engorda um bocado. E tudo o que eu tinha emagrecido começando a correr voltou quando fiquei relapsa e comecei a faltar. Nada mais de faltar então, e se chover, vou para a esteira. Só isso vai fazer com que eu pule fora do trem Nigella: próxima parada, obesidade acima dos 30 anos. Essa gordura ninguém tira!

Quando era mais viciada em academia, também lia muito, pois levava livros para a bicicleta. Aliás, eu costumava ser uma traça de livros quando mais nova, e de uns tempos para cá minha freqüência de leitura de livros não-culinários diminuiu consideravelmente, o que é uma vergonha. Para que eu não tenha de parar de ler sobre comida, acho que um livro por mês é uma boa meta. Tenho que começar pelo (afe!) Madame Bovary, que está pela metade há uns 2 anos e não desempaca nunca... E falando em livros, enquanto lia Julie & Julia me dei conta de que nunca fiz todas as receitas (pelo menos as veggies) de nenhum dos livros das minhas estantes. Quero ver se esse ano consigo matar pelo menos um. Nem que seja do Jamie Oliver, que são fáceis e bem dia-a-dia. Pelo menos para me sentir menos idiota por gastar tanto dinheiro em livros de cozinha... Mas calma, o blog não virará nenhuma cópia fajuta do projeto de Julie Powell, como já vi em vários outros lugares (é até feio, de tão óbvio).

É, e acho que se juntasse toda a grana que gastei em 2007 com livros de receitas e quinquilharias culinárias, provavelmente daria para pagar uma mensalidade de financiamento de uma casa... Graças a Deus esse ano foi muito bom para minha empresa (ao contrário de 2006). Mas tem que ser melhor. Ganhar mais din-din é importante, porque quero uma casa com quintal para plantar um bocado de tomates e para que o Gnocchi possa correr e perseguir insetos. Será que esse ano minha casinha vem?

A última resolução de ano novo deveria ser de muita gente também: reclamar menos e agradecer mais. Às vezes passo dias inteiros reclamando da vida. Então paro e percebo que não tenho problema nenhum. Pelo menos nada com o qual eu não possa conviver ou para o qual eu já não tenha uma solução. Menos reclamação, mais agradecimento. Da mesma forma, menos raiva, mais amor. Luv, luv, luv... Vai ser difícil, pois minha porção cínica geralmente ganha no braço-de-ferro da minha porção cor-de-rosa...

Tudo na geladeira. Agora é esperar 31 de dezembro para ver quanto disso conseguirei manter... Ai, ai, ai...

Reveillon de comilança, bebedeira, biribinha e video-game

O Reveillon começou 3 dias antes, quando fui com um amigo ao mercado para comprar ingredientes para a comilança da noite de ano novo. No ano anterior exageráramos na dose, e sobrara comida demais; portanto, desta vez, decidimos manter as coisas simples.

Compramos duas pastinhas feitas no Santa Luzia, uma de pimentão e uma de gorgonzola, queijo brie, uvas, cerejas, e os ingredientes para uma pissaladière (minha responsabilidade) e um quiche de tomates e queijo de cabra (responsabilidade dele). Havia pouco tempo eu fora à sua casa ensiná-lo a preparar quiches, e esse seria seu primeiro vôo solo. Você deve estar se perguntando onde está a salada em nosso cardápio. A quem estamos tentando enganar? Quem come salada com cerveja??

Decidi que faria um tiramisù para sobremesa, e preparei-o no dia seguinte. Estava em dúvida entre fazer a receita de tiramisù veloce de Jamie Oliver, e a versão clássica, do meu livro gigante de comida italiana, que leva gemas de ovos. Acabei preparando o clássico, incorporando algo da outra receita. Usei os biscoitos champagne que vieram na cesta de natal, que de outra forma ficariam abandonados na despensa. Mas decidi-me a preparar um pão-de-ló da próxima vez. Bati o creme de leite, bati as gemas, incorporei o mascarpone e depois o creme batido. Embebi os biscoitos em café forte adoçado e vinho Marsala, que usei também para aromatizar o creme, junto com raspas de laranja, montei o doce em camadas, cobri de cacau em pó, raspas de chocolate e de laranja. Tudo para a geladeira.

No dia seguinte, comprei pães e comecei a fazer a pissaladière, com uma receita da revista francesa Saveurs, seguida, dessa vez, ipsis literis. Foi desanimador descascar e fatiar 2kg de cebola, e agradeci mais uma vez ao Allex por dar-me a panelona Le Creuset, pois nenhuma outra panela minha comportaria tanta cebola. Espalhei as cebolas caramelizadas sobre a massa estendida numa assadeira surrupiada de minha mãe, dipus os filés de anchova e as azeitonas gregas Kalamata, e levei ao forno.

Chegando no Guilherme, dispusemos toda a comida sobre a mesa. Ele estava inseguro quanto a seu quiche, pois não ficara (segundo ele) tão bonito quando esperava. Por favor, aplausos a meu amigo e seu primeiro quiche, que ficou delicioso; tanto, que só sobrou um pedaço. A massa estava flocosa e leve, o recheio macio e saboroso, o gosto forte e picante do queijo de cabras apimentado combinando bem com os refrescantes tomatinhos-cereja. A pissaladière ficou melhor na versão da revista do que a primeira que eu fizera. A massa ficou mais macia, e a quantidade abissal de cebolas descascadas e fatiadas com certeza era necessária, pois tornou-se uma espessa cobertura de cebolas quase se desmanchando, adocicadas, perfeitamente complementadas pelas azeitonas e anchovas salgadas.

À meia-noite, que chegou muito rápido, subimos à cobertura do prédio (assim como todos os vizinhos) para ver fogos e abrir o espumante, bebido moderadamente, pois a cerveja fora a bebida da noite (Original de garrafa, trazida pela Haydée). Rimos da folia dos vizinhos, que me lembrou muito o entusiasmo de festas de escritório descrito pela Fer, que também em mim evoca todo o cinismo que meu corpo pode produzir. E voltamos ao apartamento para a sobremesa.

Ainda que tenha ficado muito saboroso, o tiramisù não firmou como acreditava que faria. O creme ficou muito mole, e os biscoitos desapareceram por completo.

Tenho certeza de que exagerei na quantidade de café e Marsala, e que da próxima vez fico com as medidas da receita clássica (que pedia apenas 3 ou 4 colheres de sopa), ao invés de confiar num inglês metido a italiano (que mandava usar quase 300ml de líquido — usei 150ml, mas obviamente foi demais para os pobres biscoitos). Não sei também até que ponto o calor não afetou a consistência do doce.

Allex levara seu video-game, e passamos quase todo o resto da noite em pequenos campeonatos de Virtua Fighter V e Naruto (muuuuuito mais legal do que eu imaginava). Surgiram então biribinhas, que ficamos jogando feito um bando de crianças, e que Allex tentava acertar no meu pé.

Queria ter ficado mais, mas fiquei com dó do pobre Gnocchi, sozinho, com medo de fogos, e acabamos voltando para casa uma 4 horas da manhã. Ok, ok, não é exatamente cedo, mas estava tão divertido...

domingo, 30 de dezembro de 2007

Bolinhos de mandioquinha improvisados sob 35ºC e nenhum vento natural

Calor de mais de 30 graus sob o teto fervente desse apartamento e zero vontade de cozinhar um prato inteiro. Levantei do sofá para onde o ventilador estrategicamente apontava e fui fuçar na geladeira, em busca de quitutes beliscáveis para o jantar. Encontrei um pote com o resto do recheio dos raviollini do outro dia, e tive uma idéia.

Misturei um pouco de queijo ralado e farinha ao purê de mandioquinha, apenas o suficiente para firmá-lo um pouco mais, fiz pequenas bolinhas, do tamanho de nozes, passei-as no ovo e em farelos de pão e fritei-as em um dedo de óleo de canola. Moí um pouco de sal grosso por cima e levei para a sala, onde Allex e eu comemos os pequenos bolinhos, com Tabasco e ketchup Heinz. Se tivesse uma cervejinha para acompanhar, teria sido perfeito!

sábado, 29 de dezembro de 2007

Retrospectiva 2007: se a Globo pode, eu também posso!

Sejamos óbvios. Fim de ano, vêm as lembranças de tudo o que fizemos, os arrependimentos pelo que não fizemos, as esperanças para o ano seguinte e as resoluções que... sejamos francos, não vamos cumprir. Essa sensação meio nostálgica, meio ansiosa, fez-me pensar a respeito dos melhores momentos do ano, culinários ou não. E fica aqui, então, o resumão de 2007...

MELHORES RECEITAS, MINHAS OU NÃO

Pedi ajuda ao Allex para selecionar ao menos aquelas que ele considerava memoráveis, para cruzar com minhas preferidas e chegar a um meio termo. Afinal, de nada adianta só eu ter gostado, já que gosto é um lance discutível sempre (ainda mais o meu, que, segundo minha mãe e minha irmã, é "europeu demais" — até hoje não descobri se isso é uma coisa boa ou ruim).

  1. Bao - Quando perguntei ao Allex o que eu cozinhara nesse ano que ele estava louco para comer de novo, respondeu "Bao" sem titubear. E olha que ele nunca lembra os nomes dos pratos que faço! Pãezinhos chineses no vapor recheados com shiitake são campeões!
  2. Panettone com sorvete de nozes - Esse item é um dois em um, pois ambas as receitas ficaram sensacionais, e juntas, elas foram um retorno à infância sem preço! E só está em segundo lugar porque o Allex não gosta de nozes e tive de comer o sorvete sozinha (enoooorme sacrifício de minha parte).
  3. Risotto à indiana - "Todas as suas comidas indianas ficaram animais!", disse Allex, para minha felicidade. Escolhi o risotto pelo adicional de ser uma receita minha, e porque, apesar da foto não lhe fazer jus, o sabor ficou fantástico!
  4. Baguettes - O desafio é sempre produzir pães perfeitos numa cozinha não profissional, num forno não confiável e com ingredientes nem sempre 100% adequados. Quando experimentei dessas baguettes, fui ao céu, pois seu sabor e sua textura estavam melhores do que os de qualquer padaria da região. Fica em quarto pela técnica bem executada.
  5. Bombas - Quinto lugar merecido também em função da técnica e da persistência em refazer toda a pâte à choux depois da primeira leva ir para o saco. O resultado ficou maravilhoso, principalmente para uma primeira tentativa. "Melhor que de padaria", foi o comentário geral de quem comeu (olha a lagriminha de orgulho escorrendo pela cara...).
  6. Chocolate Chip Cookies - A maratona da Páscoa rendeu muito mais biscoitos do que eu planejara, mas também rendeu muitos elogios. Quem lembrou de incluí-los aqui foi o marido. O curioso é que o priminho dele (de segundo grau, na verdade), altamente intolerante à lactose, comeu-os numa boa, sem nenhum sintoma de alergia, apesar do alto teor de manteiga do cookie. Que bom, não?
  7. Salmão com legumes e aïoli, de Jamie Oliver - Porque ficou de fato delicioso, porque acertei o ponto de todos os legumes, porque Allex e eu nos descobrimos grandes fãs de aïoli feito em casa, e porque eu nunca cozinhei um pedaço de salmão com tamanha perfeição em minha vida.
  8. Panna cotta - Aaaaah, panna cotta. Que começou a pipocar em trocentos menus de restaurante em versões bizarras e apareceu, de repente, em quase todos os blogs que conheço. Tanta saudades da panna cotta com calda de chocolate do Seu Giovanni, ou da panna cotta con frutti di bosco do restaurante de Riva del Garda. Finalmente, panna cotta! Só ficou em oitavo lugar porque talhou misteriosamente.

MELHORES MOMENTOS, COISAS E AFINS

Até meus 16 anos, eu só desenhava. Não tinha uma escrivaninha decente, então eu apanhava uma lousa de criança, apoiava em cima da cama, colocava um fone de ouvido, ligava o cd player e desenhava, toda curvada sobre o papel, o dia todo. Aos 19, eu só escrevia. Ficava enfiada no quartinho do computador escrevendo livros inteiros, de 200, 300 páginas, de fantasia, de vampiros, do que fosse. Cheguei a enviá-los a editoras, muito crus ainda (hoje dá até vergonha), e um deles até chegou na 2ª leitura na editora Rocco, olha só. Depois, aos vinte e tantos, eu era pura balada. Estudava, trabalhava, e saia toda santa noite. Precisava de vinho à noite para dormir e suco de laranja com pó de guaraná para acordar, e me entupia de café o dia todo. Não muito saudável.

Hoje, cozinho o dia todo. Se não estou trabalhando, cuidando do cachorro, dando atenção para o marido ou saindo com amigos, estou comendo, fazendo comida, lendo sobre comida, assistindo algo sobre comida. Constantemente. 99% dos livros que comprei esse ano eram de ou continham receitas. Comprei mais quinquilharias de cozinha do que roupas. É natural, então, que grande parte dos meus melhores momentos tenha a ver com comida. Só espero que também esse hobby não passe...

  • Presente do ano - É um empate técnico: a panela da Le Creuset era sonho altíssimo de consumo, e o Allex deve ter vendido um rim prá comprar. Apesar de ter usado poucas vezes, eu amo mais meu marido por causa dela (hehehe). A sorveteira não é tão emocional, deu inclusive todo um pepino familiar, porque minha tia de Los Angeles queria me dar de presente de casamento, mas a estamos utilizando num ritmo frenético...
  • Quinquilaria do ano - minha batedeira Kitchen Aid, hours concours!!!
  • Livro do ano - Professional Baking, com certeza. Nunca aprendi tanto, nunca pude corrigir tanto meus erros idiotas. Cozinho melhor por causa desse livro.
  • Filme com temas culinários do ano - Ainda que fique tentada a dizer "Ratatouille", sinto os olhos marejarem na cena em que Ana Pascal explica como pretende salvar o mundo com biscoitos, todas as vezes que assisto. O filme é de 2006, mas só chegou aqui em 2007, então, "Mais estranho que a ficção" é o meu filme com temas culinários do ano.
  • Alívio do ano - Arrumar a louça toda no móvel novo da cozinha, tirar a despensa da área de serviço e finalmente ter uma linda bancada de granito onde sovar meus pães.
  • Viagem do ano - A travessia da Trilha do Ouro, na Serra da Bocaina, apesar de um pouco mais bucólica que o esperado, foi absolutamente fantástica.
  • Decisão do ano - Começar a correr. Apesar de ter ficado completamente relapsa depois da prova da Nike, foi a melhor coisa que poderia ter feito para minha saúde física e mental. Pontos extras por todos os bons amigos que fiz por lá!
  • Fé restaurada do ano - Encontrar morangos doces novamente. Achei que isso nunca mais aconteceria, mas fui salva pelos excelente morangos orgânicos da fazenda Nata da Serra.
  • Tristeza do ano - Descobrir que são abandonados 200 Pitbulls por mês em São Paulo, e que todos são considerados cães perigosos pela prefeitura e por isso, ao invés de postos para adoção, são sacrificados. Mais uma raça de cães condenada por causa da estupidez de seus donos. O meu Border Collie é um doce. Tem outro no bairro que é um assassino. A tratadora me contou que é porque os donos só passeiam com ele uma vez por mês. A culpa é dos Border Collies ou do dono imbecil??
  • Notícia do ano - Não ter mais de pagar CPMF. Ainda que eu acredite que isso ainda vai voltar prá morder a gente na bunda.
  • Revolta do ano - As pessoas na rua achando que meu cachorro é corrimão só porque ele é bonitinho. Ninguém tem noção nesse mundo? Meter a mão em cachorro que não conhece? E se o bicho resolve, pela primeira vez, não ir com a cara de alguém? Se você bota a mão em cachorro antes de perguntar pro dono se pode, sinta minha ira!
  • Show do ano - Symphony X.
  • Restaurante do ano - Obá. Já fui várias vezes e nunca decepcionou.
  • Decepção gastronômica do ano - Douce France. Fui correndo quando vi que o chef de lá ganhara o título de "melhor chef pâtissière de São Paulo". Comprei uma bomba de chocolate e uma de creme. A aparência era feia, a massa tinha gosto de queimada e o recheio não tinha gosto de nada. Mesmo. Não volto nunca mais e nunca mais acredito nos prêmios da Gula. Pior. Bomba. Do mundo. Deve ter sido feita pelo estagiário.
  • Alegria do ano - Descobrir quanta gente anda lendo La Cucinetta e conhecer tanta gente diferente e interessante através do blog!
  • Momento nunca vou esquecer do ano - A noite em que Allex chegou em casa com uma caixa de papelão contendo uma bolinha laranja, um cobertorzinho azul e um filhote de 2 meses de Border Collie que não conseguia subir no colchão do meu quarto, de tão piquitico.
A todos os que acompanharam todos esses momentos culinários, alegrias, novidades e siricuticos, uma feliz passagem de ano, cheia de guloseimas, boas companhias e felicidade! Fiquem com Deus! Nos vemos em 2008!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Quinquilharia nova!

Parece muito besta, mas estou feliz porque finalmente comprei uma grade para esfriar bolos e biscoitos. Minha mãe achou uma idiotice quando lhe disse que queria uma, mas quem assa biscoitos sabe que eles podem ficar molengões caso não sejam esfriados corretamente.

Eba!

Un dîner à la française e muito video-game





Ontem veio nos visitar uma antiga colega de trabalho de Allex, que acabou se tornando uma grande amiga sua. Em princípio, todas as vezes que ele chama qualquer pessoa em casa, é sempre a mesma ladainha: "Ah, convidei fulano de tal prá comer uma pizza". Depois da compra do video-game (à qual ele resistira bravamente por quase dois anos), a frase metamorfoseou-se um pouco: "Ah, convidei fulano de tal prá comer uma pizza e jogar video-game". Reconheço que seja uma frase que poderia vir de um moleque, mas ela vem de um homem de 26 anos. Fazer o quê? Os homens de hoje em dia são estranhos, e eu concordei quando ele me disse que os video-games dessa geração são feitos para adultos, não para crianças.

De qualquer forma, sempre tenho de usar de certo poder de convencimento para que ele deixe que eu mesma prepare alguma coisa.

"Pizza é mais fácil, Ana! Prá quê você vai ter trabalho?"
"Porque eu gosto, ué!"
"Bom, você que sabe..."
"É coisa simples, vou usar o que tem na geladeira!"
"Tá, mas qualquer coisa, a gente pede uma pizza..."

Apanhei logo de cara um número da revista francesa Saveurs, e saí à caça das receitas de que me lembrava. Como consegui, de novo, estourar meu orçamento de supermercado esse mês (maldito seja, panettone com sorvete de nozes!), teria mesmo de improvisar com o que havia na geladeira. Agradeço à minha mãe por ter viajado de geladeira cheia, no entanto.

Mesmo após ter passado boas horas preparando meus raviollini de mandioquinha, ainda queria continuar me complicando. Mesmo porque, com o calor infernal que fazia ontem (agravado por morar no último andar de um prédio sem telhado, transformando a laje e meu teto em um aquecedor monstrinho, e toda a minha casa em um forno particular), eu REALMENTE não me imaginava comendo nada QUENTE.

Lá estava o que eu queria: Tarte à la Tomate et aux Olives, uma torta de tomates e azeitonas pretas, muito simples, de Nice, no sul da França. O que me atraiu na receita foi tanto o fato de ser feita com tudo o que havia na minha despensa, quanto o de poder ser servida quente ou fria. Como não havia tomates cereja, no entanto, tratei de substituí-los por tomates comuns, incrivelmente vermelhos, sem as sementes, para que seus sucos não encharcassem a torta. A massa era engraçada de ser feita, e, ainda que a receita sugerisse substituição por pâte brisée, eu tinha muito fermento fresco que precisava ser usado, então resolvi tentá-la, sob o risco de ficar sem jantar por causa dessa minha mania de testar receitas novas quando vem gente em casa. O preparo é como o de um pão muito fácil, com apenas uma fermentação, e a textura final é semelhante ao de uma base de pizza muito fofa e macia. Com certeza uma base que pretendo repetir com outros recheios. Servi a torta com uma salada de alface romana ao molho de mostarda de Dijon.

Havia trazido da casa de minha mãe uma tigela inteira de pêssegos maduros o suficiente para ser um inferno descascá-los. Precisava aproveitar a presença de uma terceira pessoa aqui para acabar com eles, pois Allex não é fã de pêssegos e eu sozinha não conseguiria comê-los todos (parece que é sempre o mesmo problema!).

Minha vontade de complicar-me havia passado e decidi por uma sobremesa muito simples: clafoutis, uma espécie de pudim com frutas frescas francês. Fiz uso da dica do clafoutis de ameixas do La Tartine Gourmande, e cozinhei ligeiramente as frutas em manteiga e açúcar antes. Mas acabei preparando o creme segundo a revista mesmo, pois usava farinha no lugar de amido de milho. Não gosto do retrogosto acentuado de milho que o amido pode deixar em certos doces.

Tirei a torta do forno e coloquei o clafoutis no lugar, e ele assou maravilhosamente bem, a despeito de ter formado uma enorme bolha no centro, onde não havia frutas (uma delas tive de jogar fora, o que me deixou com um pêssego a menos para preencher a forma). Essa bolha, muito mais alta que o restante do doce, acabou queimando, transformando-se em algo semelhante a uma (desculpem-me) verruga gigante (como pode ser visto em uma das fotos), não sei bem se estragando ou enfatizando o caráter ligeiramente pornográfico do doce assim, com as frutas escancaradas.

O clafoutis fez mais sucesso com Allex do que eu imaginava, apesar de ele ficar retirando os pêssegos e comendo apenas o pudinzinho de leite. "Ficou gostoso, isso aqui!", disse, servindo-se de mais uma porção. De fato, a sobremesa ficou bastante suave, como gosto, tanto em textura como em sabor, e fiz bem em cozinhar os pêssegos antes, uma vez que não estavam doces o bastante ao natural. No entanto, numa próxima vez, farei clafoutis em uma travessa refratária, pois a forma antiaderente queimou as beiradas, e sei bem que esse é um problema comum no uso de formas antiaderentes ao se preparar sobremesas delicadas, ou mesmo madeleines.

Após o jantar, video-game até cansar. Ao menos para eles dois; eu tentava distrair o cachorro, para evitar que ele pulasse nos dois a cada risada e babasse nos controles.

TARTE À LA TOMATE ET AUX OLIVES
(Ligeiramente adaptado da revista Saveurs)
Tempo de preparo: 2h
Rendimento: 4 porções


Ingredientes:
  • 1kg de tomates bem vermelhos, de preferência italianos
  • 300g de farinha de trigo
  • 15g de fermento fresco
  • 1/2 colh. (chá) de açúcar
  • 5 colh. (sopa) de azeite extra-virgem
  • 1/2 colh. (chá) de orégano
  • 20 azeitonas pretas sem caroço
  • 1 colh. (chá) de sal
  • pimenta-do-reino
Preparo:
  1. Esmigalhe o fermento e misture a 125ml de água morna e o açúcar. Deixe em repouso por 5 minutos, até que a mistura borbulhe.
  2. Numa tigela, misture a farinha e o sal. Junte a água com fermento e o azeite e misture com um garfo até começar a formar uma massa. Despeje numa superfície enfarinhada e sove até conseguir uma bola razoavelmente lisa.
  3. Abra a massa com um rolo e forre uma forma de tortas (a da foto é de 23cm). Cubra com um pano de prato e deixe levedar por 1 hora em local sem vento.
  4. Enquanto isso, corte os tomates em quartos no sentido do comprimento. Retire as sementes com uma colher e divida-os mais uma vez no sentido do comprimento. Tempere com sal, pimenta e o orégano, misture bem e reserve.
  5. Aqueça o forno a 200ºC. Espalhe os tomates sobre a massa, apertando-os para que ocupem todo o espaço, e espalhe as azeitonas por cima. Leve ao forno por 30 minutos. Sirva quente ou fria, com um fio de azeite por cima.
Você pode substituir a massa por pâte brisée ou mesmo massa para pizza, se quiser. A torta continua gostosa e macia de um dia para o outro, conservada na geladeira.

CLAFOUTIS DE PÊSSEGOS
(Adaptado da revista Saveurs e blog La Tartine Gourmande)
Tempo de preparo: 45 minutos
Rendimento: 4-6 porções


Ingredientes:
  • 6-7 pêssegos maduros
  • 2 colh. (sopa) de manteiga sem sal
  • 100g de farinha de trigo
  • 4 ovos
  • 1 pitada de sal
  • 100g de açúcar cristal orgânico mais 2 colh. (sopa)
  • 75g de açúcar cristal orgânico baunilhado
  • 400ml de leite integral
Preparo:
  1. Descasque, corte ao meio e retire os caroços dos pêssegos. Derreta a manteiga em uma frigideira grande, junte 2 colh. (sopa) do açúcar e coloque os pêssegos, cozinhando por cerca de 5 minutos. Reserve.
  2. Misture em uma tigela a farinha, o sal e os açúcares restantes. Em outra tigela, bata os ovos com um fouet ligeiramente. Misture os ovos à farinha, acrescentando o leite e mexendo bem.
  3. Despeje a mistura em uma travessa refratária untada com manteiga, deixando ainda um ou dois dedos de espaço para a massa crescer um pouco. Disponha os pêssegos na massa, face cortada para cima, e leve ao forno por 35 minutos. Deixe esfriar antes de servir.

Cozinhe isso também!

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