quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Julie & Julia: a batalha intelectualóide entre Ana Elisa e um best-seller

Quando vi o livro nas livrarias pela primeira vez, senti-me atraída pela capa, mas não pela proposta. Deixei-o.

Então comecei a ver pipocar posts em outros blogs a respeito do danado, e comecei a ficar curiosa. Não pela proposta em si, mas por esse estranho rumo que o mundo editorial, a indústria cinematográfica e, principalmente, a fonográfica andam tomando, de encontrar seus novos sucessos em blogs e comunidades virtuais. Prevejo livros de auto-ajuda com títulos como "Como alcançar fama e fortuna através de um blog". Seria engraçado.

Sou uma pessoa incrivelmente cética e sinto um impulso muito natural em ir contra o que todo mundo está fazendo. Sou muito desconfiada em relação a tudo o que é "sucesso de público", "blockbuster", "best seller". Mas também sou do tipo "conheça seu inimigo", e freqüentemente compro livros ruins e vejo programas de tv e filmes porcaria apenas pelo prazer de conhecer melhor aquilo que pretendo criticar. É... ninguém disse que só porque faço bolos eu era uma pessoa FÁCIL.

Por isso comprei o livro: queria muito saber o por quê de tanto barulho. (Mas nem toda curiosidade do mundo me faria ler O Código Da Vinci. Ver o filme já foi tortura suficiente.)

Sendo muito sincera, os primeiros dois capítulos estimularam minha vontade de falar mal das coisas. A mim parecia um "Diário de Bridget Jones — Brigando Com As Panelas Depois Que Me Casei Com Mark Darcy" (é, desta água também bebi). Havia um excesso de referências a sexo ruim e muito pouca a comida; e quando a comida era mencionada era em paralelo a sexo de qualidades variadas. Gosto de sexo e gosto de comida, mas nunca tive nenhuma tara específica por "9 1/2 semanas de amor". O livro acabou encostado por alguns dias, junto à pilha dos "um dia eu termino só porque eu comprei o desgraçado".

Mas Allex resolveu dar-se de presente de natal adiantado um video-game novo. Sem poder ficar à toa no sofá zapeando canais, acabei apanhando o livro novamente, por parecer-me, à primeira vista, tão descompromissado com funções cerebrais quanto zapear canais.

Então, de repente, a coisa começou a ficar mais interessante, no momento em que Julie começa a tratar de comida com o respeito que comida merece. E as bizarras lembranças de infância são substituídas por um relato sincero de seu dia-a-dia de mulher real com problemas reais, com um casamento bom, mas que não é perfeito, amigos bons, mas que não são perfeitos, e jantares excelentes, bons, medianos, ruins e desastrosos. Quando você menos espera, já se identificou com a autora-personagem, e bum! gostou do livro. Droga!

Aí é que reside a grande diferença (acredito eu) entre o blog de sucesso de Julie e outros menos famosos que há por aí. Julie me parece perfeitamente honesta quanto a seus pecados. E verificar que o outro é também humano e acorda de mau humor faz com que você, na condição de leitor, sinta-se menos inadequado. É assim que me sinto, ao menos. Adoro ler sobre jantares de sucesso, mas foi fantástico saber que o creme bávaro de laranja de Julie, assim como minha pannacotta, talhou. É ótimo saber que, apesar de amar o marido, ela também tem vontade de esganá-lo de vez em quando. A saga do sofá lembrou-me de um episódio semelhante, em que um amigo nosso ficara de buscar as poltronas brancas da sala.

Tudo isso, no fim das contas, foi para ilustrar a você que não, eu não recomendo qualquer porcaria. Estou na metade do livro e estou gostando. Sim, também pretendo ver o filme (suspiro derrotado). Dei o braço a torcer em público, e só deus sabe (e meu marido) o quanto eu detesto dar o braço a torcer. De orgulho ferido, digo que esta é uma boa leitura de entretenimento, que provavelmente dará um filme igualmente divertido.

Quão chata é comida imprevista quando a gente é metódica na cozinha?!

Acordei esta manhã para uma cidade de São Paulo inacreditavelmente silenciosa. Mesmo às 7h30 da manhã. Meu primeiro impulso foi grunhir, preguiçosa, pensando no trabalho a fazer. Então lembrei-me de que não havia nenhum. NENHUM. "A AnEgg Design deu férias coletivas", brinquei. Posso, por toda essa semana, dedicar-me única e exclusivamente a mim. (Ok, ao Allex e ao Gnocchi também.)

Enquanto tomava meu café, imaginava o que faria de almoço. Sinto, depois de dois dias de comilança desenfreada de todos os tipos de alimentos muito pouco recomendados ao clima abafado que São Pedro nos enviou, uma necessidade incrível de comer folhas verdes frescas e amargas e muitas frutas, numa tentativa de purificar meu corpo novamente (ainda que o advérbio falsamente denote que ele uma vez foi puro). Minha pele exala um cheiro que eu reconheço bem como o de uma pessoa que passou os últimos dias devorando queijos adoravelmente fedidos, em substituição aos pratos natalinos com carnes que não como. Ao menos nozes e castanhas fazem bem ao coração, e destas também me esbaldei.

Olho para minha despensa inchada. Quando me refiro a ela, pobre despensa, refiro-me a duas prateleiras de compensado imitando mogno, de trinta centímetros por um metro, com tanta comida quanto possa ficar empilhada sem o risco de despencar sobre algum desavisado. Normalmente acredito que ela seja, não saudável, mas... "zen" é a única palavra que me vem à mente. Há dois ou três tipos de massas Barilla (spaghetti, uma massa curta e lasagne, quase sempre), couscous marroquino, arroz branco orgânico e arbóreo, alguns tipos de feijão, latas de tomate pelado Raiola (os de que mais gostei até hoje), latas de grão-de-bico Annalisa, aveia em flocos, alguma massa asiática, um vidro repleto de deliciosas castanhas-de-caju trazidas de Fortaleza, algumas frutas secas, tomates secos, sardinhas e atum em lata, potes de vidro com várias farinhas, creme de leite e leite condensado, leite de coco, um cesto de vime que ocupa um terço da prateleira abarrotado de ervas, sementes e uma infinidade de outros temperos, alguns ainda lacrados, e um outro cesto, com tampa (esse sim "my goodie chest"), com chocolates e cacau belgas, essências, fermentos, gelatinas, e toda a sorte de ingredientes para confeitaria. Sou eu quem mantém a ordem por ali, e nunca compro mais ingredientes do que as duas pobres prateleiras comportam.

Mas então veio a cesta de natal, e com ela, saquinhos e pacotinhos de itens usáveis, mais ou menos usáveis e "este eu vou passar prá frente". Aparentemente passarei o resto da vida tentando livrar minha despensa dos pêssegos em calda, uma vez que sempre que uso uma lata outra surge, do nada, para substituí-la. Não bastasse a cesta, ganhamos de amigos e parentes bolos de natal, caixas de bombons, pães de mel e pelo menos três tipos de biscoitos de natal alemães cujos nomes não sei pronunciar (razão pela qual ainda não estreei meus cortadores), sem contar sobras da ceia que mães, sogras e avós sempre nos fazem levar para casa.

Quase podia sentir as prateleiras envergando.

Então meus pais embarcaram para o reveillon em Fortaleza. Antes disso, tiveram certeza de que eu passaria em sua casa para esvaziar sua geladeira de todos os itens que pudessem criar vida e evoluir como sociedade até sua volta. Ontem entrei no apartamento vazio, impecavelmente arrumado, como fica apenas quando meus pais viajam. Abri a geladeira, acreditando que haveria pouca coisa aproveitável, uma vez que eles haviam feito uma ceia modesta com objetivo de não haver sobras. Mas havia tigelas inteiras de pêssegos, nectarinas e cerejas explodindo de maduras, meia dúzia de queijos já abertos e outros dois ou três ainda fechados, sucos, tomates, e tanta coisa, que, emergencialmente, apanhei apenas as frutas e os queijos abertos e deixei para catalogar o restante mentalmente no dia seguinte, com mais calma.

Minha geladeira está tão cheia que não consigo enxergar a lampadinha no fundo. E (pasme!) eu odeio geladeira cheia. Gosto dela meio vazia, quando consigo enxergar todos os itens sem esforço, suas respectivas datas de validade, e sei que não vou esquecer nenhum pé de alface lá no fundo. Longe de mim reclamar por excesso de comida, ainda mais de graça, com tanta gente no mundo passando fome. Mas isso meio que mata alguns planos culinários que eu tinha para essa semana de sossego. A primeira coisa que fiz foi apanhar todas as caixas de bombons, doces industrializados e salgadinhos que vieram na cesta da empresa e enfiar na mochila do Allex, para que ele levasse ao trabalho e os distribuísse entre os amigos. Eu não como essas coisas (de verdade, não estou fazendo gênero), e não tinha porque aquilo ficar ocupando espaço na cozinha. Agora é questão de me organizar e pensar o quanto daquela comidaiada toda eu consigo aproveitar para nosso reveillon e o que é prioritário que eu use rápido, durante a semana. Algumas das frutas provavelmente virarão torta, ainda que eu tivesse comprado mascarpone com intenção de fazer um tiramisù, que vai ter que esperar. O jeito é respirar fundo e lançar mão de todo meu poder de planejamento, fazendo o melhor possível com o excesso à disposição.

Lá se foram meus planos de saladas purificadoras.

(Infelizmente não foi esse ano que tive oportunidade de cozinhar uma ceia de natal, o que me frustra um bocado; o apartamento simplesmente não comporta a família toda confortavelmente. Por isso, nada de fotos... snif... snif... Quem sabe no reveillon??)

domingo, 23 de dezembro de 2007

E se eu não aparecer por aqui amanhã, Feliz Natal!!

(Clique na imagem para ampliá-la...)

Biscotti de parmesão e pimenta-do-reino para uma tarde com café (Updated)




Meu pai veio a São Paulo para passar o natal, e levará todo mundo embora (minha mãe e minha irmã) para Fortaleza para o Reveillon. Allex e eu ficaremos aqui, pois ele não tem férias coletivas. Como no ano passado passamos o natal com minha família, esse ano é a vez do lado alemão, e por isso mesmo convidei meu pai para passar esta tarde conosco, tomar um café e brincar com o Gnocchi. Cada vez que meu pai vê o cão é um novo susto, pois de mês em mês o bicho cresce horrores. Lembro-me de quando ele ainda conseguia se enfiar no estreito vão entre a parede e a geladeira. Hoje, com 20 quilos, o bichinho desistiu de se espremer em cantos apertados, após entalar embaixo do armário do banheiro.

Bom, voltanto a meu pai... Há já algum tempo ele não pode consumir doces, gordura, sal, ou qualquer coisa que seja gostosa. Não consegui imaginar o que servir a ele nessas condições, mas tendo mais preocupação com o princípio de diabetes do que com o colesterol, e sabendo que ele mesmo trapaceia o regime de vez em quando, resolvi fazer essa receita de biscotti de parmesão e pimenta-do-reino, um pequeno tira-gosto salgadinho e apimentado. Apesar da receita ter queijo e manteiga, a quantidade total não é lá grande coisa, e mesmo que meu pai coma metade dos biscotti, ainda assim não terá consumido quantidades alarmantes dos "perigosos" ingredientes.

Ando um pouco distraída, no entanto, por causa da dor de garganta, que andou piorando, e acabei me esquecendo de achatar os rolos de massa antes de levá-los ao forno. Da mesma forma, esqueci-me de cortá-los na diagonal. Razões pelas quais os biscotti saíram mais rechonchudos e menos estilosos. Isso não influencia em nada, claro, no sabor.

A receita é de um blog que adoro, chamado Smitten Kitchen.

[UPDATE: os biscotti fizeram tanto sucesso, que meu pai levou para casa um saquinho cheio deles para comer depois!]

sábado, 22 de dezembro de 2007

Nada de desperdício: fantástico quiche de talos de espinafre




Desperdiçar comida é, definitivamente, uma das coisas que mais me irrita, seja por estragar uma receita, por não ter visto aquela alface no fundo da geladeira ou por não saber como utilizar determinadas partes de um vegetal.

No fim das contas, naquele dia de mal humor, o erbazzone acabou não saindo. Não por falta de vontade, mas porque eu só tinha 1/3 do espinafre necessário para produzi-lo. O jantar aquela noite foi, então, um delicioso fusilli com molho de espinafre ao gorgonzola. Depois do jantar, contudo, fiquei a olhar aqueles talinhos verdes e fibrosos sobre a tábua, e fiquei muito aborrecida ao pensar em jogá-los fora. É comida, e comida não se joga no lixo. Por isso, guardei-os, na esperança de sentir-me inspirada a fazer algo com eles.

A inspiração veio hoje, justamente. Resolvi que faria com eles um quiche, um quiche lindo e maravilhoso, com cara de comida fina, para ninguém achar que só se faz maçaroca caseira com as partes menos nobres dos alimentos. Este quiche ficou sensacional e eu o serviria a qualquer convidado num jantar, sem a menor vergonha.

Preparei a massa como sempre, ainda que ela tenha me feito pensar... Tenho visto muitos programas de TV e livros em que chefs celebridades ensinam a fazer pâte brisée usando uma quantidade muito menor de manteiga (uma proporção de 50% em relação à farinha). Isso me incomodou durante um tempo, até ver a facilidade com que eles estendiam a massa. Admito: no que se refere a massas de torta, gosto de viver perigosamente, no limite da insanidade, pois gosto de minha massa muito leve e flocosa, o que só é possível com grandes nacos de manteiga em meio à farinha, o que torna a massa perigosamente instável na hora de abri-la, precisando de paciência e um pouquinho de experiência para manuseá-la. De modo que, de fato, para iniciantes, uma massa com menor teor de manteiga será mais fácil de utilizar, ainda que mais densa e compacta.

Quanto ao recheio, contive minha vontade de fazer um purê dos talos e misturá-los ao creme de ovos, pois imaginei que o tom esverdeado dominante talvez não desse o efeito apetitoso que esperava. Resolvi então que a torta teria um pouco de tudo: o creme de ovos e queijo com toques de mostarda de Dijon, o purê verde vivo em desenhos irregulares e um pontilhado de talos verdes picadinhos, espalhados pela superfície. A torta é um sucesso absoluto, e espero que nunca mais os talos de espinafre vão para o lixo na casa de ninguém.

QUICHE DE TALOS DE ESPINAFRE
Tempo de preparo: 2h
Rendimento: 1 quiche de 23 cm


Ingredientes:
(massa)
  • 210g de farinha
  • 140g de manteiga sem sal bem gelada
  • 70g de água gelada
  • 1 colh. (chá) de sal
(recheio)
  • 150-200g de talos espinafre (de um maço de 500g de espinafre)
  • 1 dente de alho grande
  • 1 colh. (sopa) de azeite extra-virgem
  • 1 colh. (sopa) de manteiga sem sal
  • 3 ovos extra-grandes orgânicos
  • 1/2 xíc. de creme de leite fresco
  • 1 xíc. de queijo parmesão ralado
  • 2 colh. (chá) de mostarda de Dijon
  • sal e pimenta-do-reino moída na hora

Preparo:
  1. Prepare a massa como indicado aqui e leve à geladeira por no mínimo meia hora.
  2. Pique os talos de espinafre e o alho. Refogue o alho no azeite em uma frigideira larga, em fogo médio, até ligeiramente dourado. Junte os talos e mexa bem. Tempere com sal e pimenta e cozinhe, mexendo de vez em quando, por uns 5 minutos, até amaciar. Junte a manteiga e cozinhe por mais 5 minutos. Reserve.
  3. Tire a massa da geladeira, abra-a sobre uma superfície enfarinhada e forre a forma. Faça furos no fundo com um garfo, cubra de papel-alumínio e feijões secos e leve ao forno pré-aquecido a 180ºC por 15 minutos. Retire os feijões e o papel com cuidado e asse por mais 15 minutos.
  4. Enquanto isso, bata com um garfo os 3 ovos, o creme de leite, a mostarda e o queijo. Tempere com sal e pimenta moída na hora.
  5. Bata metade dos talos de espinafre em um processador de alimentos (é muito pouco para bater no liqüidificador). Como eles são um pouco fibrosos, o purê não ficará homogêneo. Junte 4 colh. (sopa) do creme de ovos ao purê de talos e bata novamente.
  6. Retire a base do quiche do forno. Misture os talos remanescentes ao creme de ovos e despeje-os sobre a massa. Deposite no centro da torta o purê de talos e vá espalhando-o devagar com a ponta de um garfo, fazendo um desenho irregular, mas não misturando totalmente. Volte ao forno e asse por mais 25 minutos, ou até que a massa esteja dourada e quebradiça e o recheio esteja firme e ligeiramente dourado.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Rocambole de natal: se quiser algo bem feito, faça você mesmo! (Updated)



Depois da ecatombe do rocambole de natal, eu não quis me dar por vencida. Recusei-me a acreditar que tudo fazia parte de um complô do universo para me deixar de mau humor, e por isso resolvi colocar a mão na massa e correr atrás do prejuízo. Eu teria um rocambole de natal! Ah, teria sim!

Primeiro, precisava de uma base de rocambole confiável. Não estava disposta a testar mais novas receitas. Encontrei em meu caderno um papel de recados avulso, onde escrevera certa vez a receita em francês de um rocambole de damascos que minha irmã preparara. Ela gosta de cozinhar, mas o faz uma vez a cada seis meses. De modo que estava certa de que se ela produzira um rocambole saboroso e perfeito com aquela receita, mesmo não tendo muita prática, aquela era a base que eu estava procurando.

Contudo, a massa era branca, para um recheio de geléia, o que me obrigou a trocar um pouco da farinha por cacau belga (como fazer isso corretamente você vê aqui); só um pouco, pois não queria uma massa amarga. De imediato a receita revelou-se mais sensata que a de (teoricamente) Hermé. Bate as gemas com açúcar, bate as claras com açúcar, mistura com cuidado, incorpora farinha e cacau. Simples, com mais ou menos a mesma quantidade de ovos, mas metade da farinha e do açúcar, o que quer dizer que a massa ficou muito macia e aerada. Acrescentei também aroma de baunilha, que não constava na massa original. Desta vez a massa espalhou-se maravilhosamente pela assadeira, e comportou-se à perfeição no forno. Enquanto isso, apenas para tirar a pulga atrás da orelha, telefonei à minha mãe, exímia fazedora de rocamboles de doce-de-leite e de goiabada. "Não, Ana, a receita estava errada, você não pode deixar esfriar para desenformar, senão o bolo fica com textura de biscoito champagne!" A-há!

Desenformei tão logo tirei a massa do forno, imediatamente virando-a sobre outra folha de papel manteiga polvilhada com açúcar, segundo indicações maternas. Fiz a ganache rapidamente (ganache como sempre faço, sem manteiga, apenas chocolate e creme de leite fresco) e aromatizei com um pouco de Cointreau. Misturei as cascas de laranja e abacaxi cristalizado em cubinhos. Despi o bolo do papel manteiga ainda grudado, impressionada com a fofura da massa. Respinguei um pouco de Cointreau e espalhei a ganache, agora uma quantidade adequada, tomando cuidado para não levá-la muito às bordas. Enrolei com cuidado o bolo ainda morno (novamente, segundo indicações de mãe), e outra vez senti-me extasiada ao ver a facilidade com que a massa deixava-se enrolar, sem em momento nenhum ameaçar rachar ou quebrar. Embrulhei em filme plástico e levei à geladeira enquanto preparava a cobertura.

A receita do rocambole original, do Larousse, pedia uma nova ganache, feita com creme ao invés de leite, para a cobertura. Mas eu queria algo mais úmido, mais doce, mais pegajoso, que compensasse com sua doçura a presença das frutas cristalizadas, que talvez não agradassem a todo mundo. Cobertura de brigadeiro! Apanhei a caixinha de leite condensado que viera na cesta de natal e fiz um brigadeiro firme, que afinei com creme de leite fresco e, novamente, aromatizei com Cointreau. Espalhei a mistura sobre o rocambole sem muita preocupação estética, deixando que o excesso escorresse para o fundo do prato para ser comido às colheradas depois. Decorei com mais um pouco de cascas de laranja e voltei à geladeira.

O resultado é esse que vocês podem ver, muito mais delicioso do que imaginara que ficaria, muito mais fácil do que a receita do livro e muito mais apetitosa. Para quem gosta de chocolate com laranja, é um prato cheio! E o bom da cobertura de brigadeiro é que ela continua cremosa e pegajosa, mesmo deixada na geladeira.

ROCAMBOLE DE NATAL: A VINGANÇA
(inspirado por uma receita do Larousse do Chocolate)
Tempo de preparo: 1 hora
endimento: 8 a 10 porções


Ingredientes:
(bolo)
  • 6 ovos extra-grandes orgânicos
  • 90g de farinha de trigo
  • 30g de cacau em pó belga
  • 200g + 1 colh. (sopa) de açúcar cristal orgânico
  • 1/2 colh. (sopa) de açúcar baunilhado
  • 1/2 colh. (chá) de essência de baunilha
(recheio)
  • 150g de chocolate meio-amargo para cobertura Callebaut
  • 100g de creme de leite fresco
  • 1/4 xíc. de abacaxi cristalizado em cubinhos
  • 1/2 xíc. de casca de laranja cristalizada picada
  • 1/2 colh. (chá) de Cointreau ou outro licor de laranja
(cobertura)
  • 200g de leite condensado
  • 100g de creme de leite fresco
  • 10g de manteiga
  • 1 colh. (sopa) de cacau em pó belga
  • 1/2 colh. (chá) de Cointreau ou outro licor de laranja
(decoração)
  • cascas de laranja cristalizadas
Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 200ºC. Forre uma assadeira grande para pão-de-ló com papel-manteiga. Não é preciso untar.
  2. Coloque 3 ovos inteiros mais 3 gemas (reserve as claras) em uma tigela. Junte 2/3 do açúcar comum, o baunilhado e a essência de baunilha e misture com um fouet (ou na batedeira) até que fique untuoso e leve. Reserve.
  3. Monte as 3 claras em neve com o restante do açúcar, até formar picos firmes (vire de ponta-cabeça; as claras devem permanecer no lugar). Junte delicadamente com uma espátula as claras batidas à mistura de ovos e gemas, até que fique homogêneo.
  4. Peneire a farinha e o cacau sobre a mistura e incorpore-os com cuidado, usando uma espátula. Espalhe a mistura sobre o papel-manteiga, deixando com mais ou menos 1cm de altura. Leve ao forno por 15 minutos.
  5. Espalhe a colher de açúcar remanescente sobre a massa assada. Cubra com uma segunda folha de papel-manteiga e vire o bolo sobre uma bancada, desenformando-o. Deixe-o amornar, enquanto você prepara o recheio (isso fará com que o bolo fique novamente de altura uniforme, caso haja partes mais infladas e abauladas do que outras).
  6. Aqueça o creme de leite até o ponto de fervura. Desligue o fogo e misture o chocolate picado, mexendo bem para derretê-lo completamente. Junte o Cointreau e as frutas.
  7. Retire o primeiro papel-manteiga do bolo ainda morno, com cuidado (o bolo é bastante fofo, e dobras no papel podem acabar puxando pedaços da massa). Respingue um pouco do licor sobre a massa, a gosto, apenas para aromatizá-lo. Espalhe a ganache com as frutas de modo uniforme, evitando ir muito em direção às bordas, para que o recheio não vaze quando o bolo for enrolado. Parecerá pouco recheio, mas não é.
  8. Com ajuda do papel-manteiga de baixo, suba uma das extremidades do bolo e comece a enrolá-lo. Vá empurrando o bolo, puxando o papel, de forma que ele se enrole quase sozinho, auxiliando com a outra mão. Quando todo enrolado, embrulhe-o cuidadosamente em filme plástico e leve-o à geladeira.
  9. Prepare a cobertura fazendo um brigadeiro razoavelmente firme com o leite condensado, o cacau e a manteiga, em fogo baixo. Desligue o fogo e junte o creme de leite e o Cointreau. Deixe amornar por 5 minutos. Retire o bolo da geladeira, retire o filme plástico e cubra o bolo com o brigadeiro ainda morno, decorando com as tiras de casca de laranja. Mantenha na geladeira até a hora de servir.
[UPDATE: Olha a tosquice... demorei um zilhão de anos para me dar conta de que a receita de rocambole de natal tratava-se da Bûche de Noël, aquele rocambole com cara de tronco de árvore caído... Se tivesse me dado conta, teria feito a decoração do danado mais condizente com o tema...]

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Meu natal frutado



Não, não é "frustrado", não foi erro de digitação. É "frutado" mesmo. Porque enquanto discorri cansativamente a respeito de natais na minha tia e afins, os natais na casa de meus pais, quando passávamos apenas nós quatro, passaram batido. Verdade seja dita: minha mãe nunca foi lá muito doceira. Alguns bolos aqui e acolá, brigadeiro no aniversário. Por isso, além do tender, do arroz com passas, da farofa fresquinha, da salada, sempre havia na mesa de natal cestas e mais cestas de frutas frescas: pêssegos, ameixas, nectarinas, nêsperas, damascos, uvas e cerejas. Eu achava lindas aquelas cores fortes e harmônicas em fruteiras de cristal sobre a toalha de mesa vermelha. Passávamos a tarde toda, enquanto meus pais arrumavam a casa, beliscando das uvas e das cerejas, esperando pelos pratos principais da ceia. Isso sem contar com as tigelinhas de nozes, castanhas e pistaches que meu pai deixava espalhados pela casa toda, para a conveniência de todos. Nada me traz mais para casa novamente, para os natais íntimos e aconchegantes da minha família, como uma tigela de frutas da estação. Quando vi essas cerejas no mercado, das vermelhas e das amarelas, não resisti a trazê-las para casa, colocá-las em uma tigela branca e deixá-las sobre a mesa, para ir beliscando, enquanto a ceia do natal não chega.

Cesta de natal boa prá cachorro



Só o Gnocchi para gostar de cesta de natal de empresa (ele adora destruir qualquer coisa feita de papelão). Acho-as engraçadíssimas, pois sempre me perguntei o que faria se um dia tivesse de preparar uma ceia de natal inteira apenas com o que as empresas de cestas colocam no caixote.

Desta vez, resolvi botar a cachola para funcionar, ainda que não vá de fato fazer nada disso (porque não como salame, coisas industrializadas com glutamato monossódico, azeite de terceira, vinho porcaria e porque o Allex não come — como já ficou muito bem estabelecido aqui — nozes). Se eu tivesse, realmente, que bolar um cardápio apenas com o que há aqui, o que diabos eu faria?

A lista de itens da cesta é a seguinte:
  • 1 pacote de macarrão
  • 1 pacote de farofa de mandioca pronta
  • 1 salame
  • 1 provolone
  • nozes
  • castanhas-do-pará
  • uvas-passas
  • frutas cristalizadas sortidas
  • ameixas secas
  • 1 pacote de amendoim japonês
  • 1 pacotinho de amendoim coberto de chocolate
  • 1 lata de pêssegos em calda
  • 1 panettone
  • 1 pacote de bolachas champagne
  • 1 caixa de bombons
  • 1 pacote de azeitonas verdes
  • 1 salgadinho de queijo
  • 1 torrone
  • 1 pacote de palitos de chocolate
  • 1 pacote de balas de caramelo
  • 1 vidro de geléia de goiaba
  • 1 caixinha de creme de leite
  • 1 caixinha de leite condensado
  • 1 pacote de mistura pronta para bolo de chocolate
  • 1 latinha de azeite
  • 1 garrafa de vinho "de mesa suave" (exatamente a classificação de vinhos brasileiros da qual você deve fugir, porque quer dizer que o vinho foi feito com uvas não viníferas)
  • 1 garrafa de cidra
  • 1 garrafa de suco concentrado de caju
O movimento mais óbvio é abrir o pacote de salgadinhos e o de amendoim japonês e deixar ali de aperitivo, junto com um pouco das nozes e castanhas-do-pará caramelizadas no forno e com o queijo e as azeitonas no azeite. Para beber, bateria os pêssegos em calda e misturaria à cidra, para um bellini abrasileirado. Para as crianças, suco de caju. A farofa pronta, misturaria com um pouco de passas e frutas cristalizadas. Cortaria o salame em cubinhos, refogaria no azeite, juntaria um pouco do vinho porqueira para reduzir bem e faria disso meu molho para o macarrão, se eu comesse carne e... bem... se eu não tivesse outra opção. Sobremesa é o que não falta nessa cesta; é um absurdo a quantidade de doce que veio nela! O pessoal que monta as cestas gosta de um natal bastante enjoativo! O panettone eu deixaria quieto, porque é da Bauducco. Se fosse porqueira, viraria outra coisa. Assim, de cabeça, talvez eu fizesse um pavê bem enjoativo (ou um "triffle" para quem anda viciado em programa da Nigella): bolachas champagne, creme de leite misturado ao leite condensado e às ameixas secas picadas. Se minha geladeira tivesse o que falta à receita, prepararia o tal bolo de chocolate semi-pronto, e cobriria, ainda no forno, com uma farofa dos palitos de chocolate. Só porque o Claude Troisgros fez um estranhíssimo panettone de chocolate e goiabada, eu rechearia o bolo de chocolate com a geléia de goiaba. Serviria os bombons, as balas e os amendoins cobertos de chocolate na hora do cafezinho, e comeria o torrone enquanto lavo louça, porque eu adoro torrone.

É, só forçando um pouco a barra mesmo. Mas fiquei curiosa! Alguém por aí teria outras idéias de refeição usando todos os ingredientes da cesta?
; )

E hoje estava indo tudo tão bem... (Updated)

Ao contrário de ontem, meu dia começou ótimo. Tomei café-da-manhã com calma, fui passear com o cachorro, e resolvi que estrearia o livro Larousse do Chocolate, que comprara faz um tempo, com uma receita de Pierre Hermé para Rocambole de Natal, para terminar de usar as passas que tinha na geladeira e alimentar meu desejo por doces, agora que o panettone acabou.

Parecia tudo muito, muito simples. Macerar as uvas no rum, preparar o bolo, a ganache, rechear, enrolar, botar na geladeira e cobrir com mais ganache no dia seguinte. Nada que uma pessoa com um pouco de experiência não dê conta.

Macerei as uvas passas e comecei o bolo. Esse é um daqueles livros que faz você pipocar de um lado a outro dele, usando sempre a mesma receita de bolo xyz, e a mesma receita de cobertura, fazendo com que você calcule as quantidades proporcionalmente. Até aí, nenhuma novidade. A base do rocambole, ao contrário do que eu esperava, não era um pão-de-ló, mas uma "massa de biscoito de chocolate com farinha", segundo estava escrito no livro. Ok, vamos lá. Pierre é quem manda. Minhas claras em neve estavam lindas, e até o momento de incorporá-las à mistura de manteiga e ovos, tudo ia muito bem. Então era chegada a hora de incorporar os ingredientes secos: 100g de farinha e 100g de cacau em pó. Ahn... sim, 100g de cacau em pó. Você também acha muito? Bom, eu resolvi confiar na receita. E o que eu obtive foi a massa de biscoitos mais espessa e grudenta que já vi na vida. "Despeje na assadeira até atingir a altura de 1cm", dizia. "Despejar???" Só pode ser erro de tradução. Tive de ESPALHAR a mistura com uma espátula, fazendo uma força incrível para alisá-la e deixá-la uniforme sobre a folha de papel-vegetal que dançava na assadeira. E quase quebrei minha espátula, fazendo isso.

Deixei no forno por 8 minutos, o tempo mínimo indicado na receita, e, para falar a verdade, quando tirei a massaroca de lá ela até tinha cara de algo que poderia dar certo. Estava assada e ligeiramente inflada. Deixei que esfriasse antes de virá-la de ponta cabeça e "desenformá-la" (ou seja, retirar o vegetal da base, que saiu com incrível facilidade). Tudo segundo o texto do livro, ipsis literis.

Preparei a calda de canela e rum. Uma quantidade absurda para um bolo tão pequeno. Provavelmente o bolo absorverá tudo, imaginei. Ahn... não. Vi poças formando-se sobre a massa assada, e nada da calda adentrá-la e umedecê-la. Fiz-lhe pequenos furos, pensando que isso ajudaria, mas... ahn... não. Preparei a ganache com uma barra e meia de chocolate Lindt a 70% de cacau, leite integral aromatizado com canela e o quantia absurda de 160g de manteiga. Ao contrário de outras ganaches que eu já fizera em minha vida, essa não parecia querer firmar tão logo. E, mais uma vez, a quantidade requerida na receita era talvez três vezes superior ao que de fato era preciso para cobrir o bolo.

Hora de enrolá-lo, com muito, muito cuidado. Quem disse que o bicho tem alguma flexibilidade? Zero. Suas laterais ressequidas começaram a rachar tão logo puxei a massa para cima, e a ganache, encharcada pelo rum ainda empoçado sobre a massa, começou a escorrer para baixo e para as laterais. Larguei tudo, amaldiçoando o livro e o desperdício de 160g de chocolate Lindt, 5 ovos, 200g de manteiga, e 100g de cacau belga da melhor qualidade!!!

Sem falar no preço do livro! Estou absolutamente enfurecida, pois segui a receita a risca, não alterei absolutamente nada, a temperatura do forno estava perfeita, usei os melhores ingredientes e minhas melhores habilidades e deu tudo, TUDO errado.

Eu tinha altas expectativas com esse rocambole. Entendam que minha maior frustração nessa época do ano é morar num apartamento por demais pequeno para que eu possa comemorar nele o natal com minha família. E eu adoraria ser a anfitriã de uma festa de natal. Adoraria preparar um banquete para minha família. Como isso não acontecerá até que eu tenha dinheiro para comprar minha casa com quintal (sabe-se lá quando), meu prazer nesse época reside em pequenos momentos gastronômicos temáticos, como um panettone, um sorvete de nozes, um bolo com gostinho de fim de ano. Esse seria meu último doce antes da comilança do natal, na casa dos outros, pois não adianta ter doce em casa e chegar em casa refestelado, pois o doce há de estragar com certeza.

Foi tudo para o lixo: os bons ingredientes, o bom humor, a disposição para cozinhar, e quase (quase mesmo) que o livro também vai junto.

Se alguém por aí tem esse livro, por favor, dê-me uma luz: diga que não é dinheiro jogado fora! Diga que as receitas DÃO certo sim! Que não é apenas um embuste com o nome "Pierre Hermé" ao lado para enganar os pobres confeiteiros não profissionais!

: (

É... acho que meu anjo da guarda culinário entrou em férias coletivas... realmente...
Sabe o que é o pior? Comi um pedaço do bolo com a ganache, só para ver se daria para salvar de alguma forma, e o choque foi descobrir que o bolo ficara amargo demais, e a ganache, amanteigada e sem graça, e ambos, completamente sem gosto! Lixo, lixo, lixo.

[UPDATE: como sou turrona, no entanto, resolvi fazer o MEU rocambole de natal, à minha maneira. Apanhei uma outra receita de base de rocambole, transformei-a em base de chocolate, fiz minha ganache como sempre faço, misturei outras frutas, montei e... o resultado vocês verão daqui a pouco, quando o bichinho estiver bem firme na geladeira...]

:)

[UPDATE 2 - A MISSÃO: Depois do comentário da Bruna e de muita pesquisa na internet, concluí que só pode ter sido uma confluência de maus olhados a responsável pelo desastre culinário produzido pelo livro. De modo que assim que a comilança de natal na casa dos outros terminar, vou testar a receita mais dummy-proof do livro, de modo a redimi-lo.]

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Just a perfect day...

Acordei devagar, ainda que ao som histérico de dois despertadores. Sem abrir os olhos, rosto afundado no travesseiro de fronha nova, sentindo o peso do cachorro sobre uma de minhas pernas, estiquei o braço para desligar o alarme. Não precisei olhar para fora; pelo som, eu sabia que estava chovendo. Isso quer dizer que eu não correria àquela manhã, o que me irritou um bocado, já que faltara no dia anterior por não ter ouvido o toque do relógio.

Ainda de olhos fechados, concentrei-me na sensação desagradável de secura na boca e na garganta, fato que não mais ocorre desde que me treinei a respirar pelo nariz. Parece bobagem, mas eu tinha sérias dificuldades com isso, e dormir de boca aberta me dava sede e me fazia roncar. Engoli em seco e logo senti o ardor na garganta, narinas entupidas, pescoço dolorido. Abri os olhos, enfim, e levei as mãos ao maxilar, apalpando-os. Podia sentir os gânglios inchados sob a pele. Toda a minha cabeça parecia ter fechado temporariamente os caminhos de fluxo de fluidos e, por que não, de energia. Ela estava pesada, e por alguns minutos, não quis tirá-la do travesseiro.

Allex levantou-se para dar comida ao cão e começar seu dia, e eu fiquei ali, esparramada, letárgica, entupida, calculando mentalmente o tempo que tinha para o café-da-manhã, banho, pegar e-mails e sair, com uma hora de antecedência para a reunião na av. Faria Lima, que estaria completamente parada devido à chuva e à época de compras. Fiquei ligeiramente deprimida. Não queria sair da cama, que dirá sair de casa. Na chuva. Estava, no entanto, suficientemente doente para alimentar um mau humor constante até o fim do dia, mas não o bastante para faltar à reunião. Por isso levantei-me, devagar, tentando em vão esquivar-me das lambidas matinais do cachorro, que fica sempre à espreita, até nos levantarmos, pronto para dar o bote e dizer "bom dia" à sua maneira feliz e desastrada.

Minha voz soou rouca e irregular quando dei bom-dia ao marido. Meu mau humor desvaneceu-se suavemente quando ele me abraçou forte, como sempre me abraça de manhã, parecendo não ter me visto por décadas, como se dormir desse saudades. Enquanto minha micro-cafeteira individual estava no fogo, liguei o computador e comecei a ler os e-mails do dia. Lá estava o e-mail do cliente, pedindo que eu reenviasse o PDF da ilustração que eu lhe enviara ontem, mas com as correções, para que fosse anexado à apresentação da reunião daquele dia. Droga, eu fizera as correções, mas não digitalizara novamente, pois pretendia levá-la apenas em papel. Eu tinha 1 hora para fazer minhas torradas com requeijão, passar minha camisa, vestir-me, maquiar-me, arrumar o cabelo, escanear uma ilustração em folha super-A3 num scanner que só comporta A4, montar as quatro partes do desenho no Photoshop, ajustar o contraste, transformar em PDF, enviar ao cliente por e-mail, botar minhas tranqueiras na bolsa, fechar janelas, certificar-me de que o cão tem tudo do que precisa e não tem acesso a nada que ele possa destruir, ir até minha mãe, pegar o carro e dirigir enlouquecidamente até o prédio da reunião.

Estava já abrindo o portão do prédio, guarda-chuva em punho, quando o celular tocou em minha bolsa. Na tentativa de pegá-lo e fechar o guarda-chuva ao mesmo tempo, derrubei-o no chão de forma quase circense, e vi bateria para um lado, chip para o outro, corpo do celular aparentemente intacto no canto do hall. Corri para montar o aparelho novamente, reconfigurar data e hora e esperar o telefone tocar outra vez. Meio-toque e logo estava a escutar o cliente no outro lado da linha, avisando-me de que a reunião das 10h fora adiada para as 14h. Tudo bem? Tudo bem, fazer o quê?!

Subi de volta ao apartamento, sendo recebida pelo Gnocchi como se tivesse passado horas fora, mas tentando afastá-lo para que não sujasse ou rasgasse com suas unhas minha "roupa de reunião". Troquei a camisa impecável por uma camiseta velha, pendurando a peça bem passada em um cabide, para vesti-la outra vez mais tarde. Preparei um chá bem quente de camomila e resolvi terminar de tomar meu café-da-manhã com calma, servindo-me da penúltima fatia de panettone, ainda delicioso e razoavelmente úmido, para minha total surpresa (Bauducco que se cuide!).

A chuva aumentou conforme a manhã passou, e o cão começou a ficar histérico, sentindo falta de sua longa caminhada matutina. Apanhei alguns biscoitos caninos e aproveitei o tempo para treiná-lo. "Blaipdá!", dizia no meu alemão macarrônico, dando-lhe meio biscoito quando de fato ficava quieto no canto dele, esperando pelo meu comando.

A garganta continuava doendo, o chá em nada ajudara, e era preciso que eu começasse a preparar o almoço. Tudo o que havia na geladeira, porém, exigia muito pré-preparo, então resolvi dar uma de Allex e almoçar um "xis-egg" vegetariano. Coloquei o pequeno hambúrguer de soja na frigideira e, para não sujar mais panelas, quebrei um ovo diretamente ao seu lado. O cheiro pungente de enxofre atingiu minhas narinas como um soco, e amaldiçoei o mundo todo quando vi que o ovo estava completamente podre.

Joguei a mistura fétida no lixo, imediatamente fechando-o e tirando-o da casa antes que o cheiro impregnasse o ambiente. Lavei a frigideira e comecei tudo de novo, desta vez testando o ovo em um copo d´água antes de usá-lo (se o ovo afundar, está bom, se ficar de pé, está mais-ou-menos, e se flutuar, está podre).

Agora, faltando meia-hora para sair de casa, a chuva intensificou-se. Toda reunião dura no mínimo 3 horas: 1 hora para ir, 1 hora para a reunião de fato e 1 hora para voltar. No ritmo que anda meu dia, acredito que essa me tome cerca de 4 horas, o que quer dizer uma tarde inteira perdida. Com um maço lindo de espinafre orgânico na geladeira, tenho esperanças de voltar zen o suficiente para preparar o erbazzone reggiano (uma torta de espinafres da Reggio-Emilia) para o jantar. Tudo vai depender da quantidade (e tipo) de alterações que o cliente exigir com relação à ilustração e a quantidade de trânsito enfrentada ao voltar para casa. Pode ser que eu jogue a toalha de vez, admita que esse é um dia simplesmente horrível, e peça uma pizza.

Cozinhe isso também!

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