quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Nossos vícios de todos os dias...

Estou achando muito interessante o relatar de Rita Lobo a respeito de sua tentativa de largar o vício do café. Tanto, que isso me fez pensar: quais são os meus vícios? São eles mesmo vícios? Conseguiria livrar-me deles se quisesse?

Com certeza café está em primeiro lugar, disparado, pois quando ela contou de sua experiência, eu soube de imediato que jamais conseguiria fazer o mesmo. Manhãs não são manhãs (ou pelo menos não manhãs agradáveis) sem o aroma inebriante de uma pequena xícara de café preto e fumegante. Sou um pouco chata com relação ao meu café — ok, com qualquer coisa que se coma ou que se beba, eu admito: ele precisa ser forte, pois detesto café fraquinho; o pó precisa ser 100% arábico e deve ser torrado à perfeição, pois retrogosto de queimado ou de fumaça são para mim defeitos imperdoáveis. Demorei a descobrir o café que mais me agradava, especificamente o melhor para cafeteiras Bialetti, sem estourar meu orçamento, claro. (Até o momento, o vencedor tem sido o café "Fazenda" da Caffera.)

Vê-se logo que não tenho intenções de parar de beber café tão cedo. Mas tento limitar-me a dois (ok, três) cafezinhos por dia, para não sobrecarregar meu organismo...

Além do café, confesso ter momentos Bridget Jones vez ou outra, por menos que eu goste de admiti-lo... O dia após a entrega de um projeto longo e estressante costuma ser levado a base de taças de um Chardonnay gelado e uma barra de qualquer chocolate Lindt que exista na despensa. Os entendedores de vinho ficaram arrepiados nesse momento, pois sabem que eu provavelmente não sinto o gosto nem da bebida nem do chocolate, provando dos dois juntos, mas fazer o quê?! Vício não precisa fazer sentido. Tive um professor de história no colégio que adorava comer mamão com maionese. É. Volte e leia a frase de novo: você não leu errado.

Engraçado, na verdade, pois não sou, como muitas mulheres, uma chocólatra. Já fui. Quando comia chocolate porcaria. Quando comecei a comer bons chocolates, mais amargos, comecei a comer menos, mais devagar, com mais gosto. E, para falar a verdade, mesmo os doces que me apetecem mais não são os de chocolate. Gosto de doces com frutas, sabores cítricos, azedinhos, contrastes de sabor, em oposição ao velho bolo de chocolate com cobertura enjoativa. Salvo brigadeiro. Há dias em que apenas brigadeiro de colher resolve. E eu como tudo (vergonha!).

Na verdade, é difícil pensar num vício alimentício hoje. Já fui viciada em coca-cola, em pão de batata com catupiry da cantina do colégio, em suco de mamão com laranja na padoca da faculdade, em suco de laranja com pó de guaraná quando comecei a trabalhar enquanto estudava, em chá verde, em polenta frita, em bomba de Bailey´s da Cristallo, em cappuccino com croissant recheado de creme na Itália (até hoje estou em crise de abstinência!), em donuts, em pão na chapa, entre vários outros. Mas hoje é difícil viciar em qualquer coisa, porque eu enjôo muito rápido. Pode-se dizer que minha inconstância seja um vício, e que eu esteja viciada em variedade. Não me conformo em fazer duas vezes o mesmo prato; tanto, que só repito receita quando o sucesso é incontestável. Pode ter ficado bom. Se não ficou sensacional, eu testarei outras receitas ou farei modificações e adaptações até ficar "uau!". Perfeccionismo é vício?

Talvez haja apenas um vício, um tanto genérico, muito emparelhado com o café; digamos que seja uma disputa acirrada, cabeça a cabeça, e grande responsável pelo arrombo no orçamento doméstico: laticínios. Sejam iogurtes, sorvetes (caseiro, claro!), cremes, ou queijos (queijos! principal e indiscutivelmente queijos !), eu sou completamente viciada neles. Não sei cozinhar sem manteiga, sem parmesão, sem leite e creme de leite; não resisto a um queijo brie, camembert, gorgonzola, feta, ricotta, cottage, mascarpone, queijo branco, mozzarella, peccorino romano, queijo coalho, cacio cavallo, gruyère, ementhal, fontina, asiago, grana padano, taleggio, parmiggiano-reggiano...

Ok. Eu babei no meu teclado. Acho que sou viciada em queijo.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Pães de canela noruegueses de corrida: será?!




Prometi (agora que estou de volta à cozinha e de volta à corrida) levar algum quitute amanhã para o café-da-manhã. Estou em débito com o pessoal, já que me machuquei logo depois de produzir os gostosos, suaves, porém "inservíveis" muffins (minha irmã veio em casa e comeu uns dois ou três deles, "descascando-os" com invejável paciência). Desta vez ainda é mais especial, pois meu treinador casa neste sábado e sairá de lua-de-mel, amanhã sendo o último treino antes do fatídico evento.

Resolvi tentar esta receita de cinnamon buns noruegueses, do How to Be a Domestic Goddess, na qual estava de olho havia já bastante tempo. Afinal, pãezinhos de canela parecem perfeitos para um café-da-manhã-pós-treino.

Mas vamos ao que interessa: eu detesto, detesto, DETESTO receitas de panificação e confeitaria que não dão as medidas equivalentes em peso. Depois que você se habitua a usar a balança, dá-se conta de como as receitas começam a precisar de menos ajustes, como os pães dão certo, os bolos crescem, nada fica com gosto de fermento ou sem sal. Sinto-me completamente perdida hoje em dia medindo ingredientes por volume. Quase sempre você acaba tendo que corrigir as medidas.

Esses pães não fugiram à regra. Quatro xícaras de farinha parecem muito, mas não foram suficientes para a quantidade abissal de leite e manteiga derretida requeridos. Estou acostumada a lidar com massas grudentas, mas essa era absolutamente impossível de ser manipulada, caindo na tigela em pingos grossos por entre seus dedos. Fui acrescentando colheres de sopa de farinha, e fiquei em choque ao ver que foram precisas 10 colheres de farinha para que a massa atingisse a consistência grudento-manipulável de massa de brioche. Mas agora, depois de prontos os pães, acredito que deveria ter acrescentado ainda mais.

Depois de levedada, a massa revelou-se mais fácil de abrir do que eu esperava. Foi muito simples recheá-la de manteiga, açúcar e canela, enrolá-la e cortá-la. Mas fica uma dica para quem tem o livro ou a receita: ainda que os rolinhos caibam folgadamente em uma assadeira pequena, de 29x22cm (que costumo usar para todos os pãezinhos recheados em forma de caracol que já fiz na vida), os centímetros a mais requeridos na receita são cruciais: são apenas 2 cm de cada lado, e sua ausência foi responsável pela fumaceira dentro do meu forno, quando os pães cresceram demais e começaram a pingar a mistura de manteiga e açúcar no chão do forno. Tive de abrir a porta no meio do cozimento para colocar uma travessa na prateleira inferior e empurrar o pão de volta para a forma, o que causou grande perda de calor e com certeza comprometeu a qualidade final do pão. Tive de compensar essa perda deixando o pão quase 10 minutos a mais no forno, uma vez que não estavam completamente assados, ainda que já bastante dourados.

Pela foto e por experiência, digo que esperava uma outra textura. Os pãezinhos ficaram de fato muito macios, perfumados, bons para comer de manhã, quentinhos, com café. Mas são muito pouco "transportáveis". Todos os outros pães que já fiz desta forma eram facilmente destacáveis uns dos outros, de modo que você obtivesse pãezinhos individuais. No entanto, estes precisam de uma faca para se desgrudarem, quase como um bolo, e seu formato não os torna muito estáveis nem muito bonitos assim solitários. De modo que estou num impasse.... Não sei se os levo ou se preparo outra coisa. De qualquer forma, ainda que tenham ficado gostosos, o volume de trabalho e as adaptações não são compensados, e já vi outras receitas mais confiáveis e mais fáceis com melhores resultados. Valeu pela experiência e pelos pãezinhos, mas não pretendo repetir essa receita tão cedo, e por isso mesmo não a deixo aqui.

Nem só de doces vive essa casa: risotto de limão, agrião e salmão defumado (Updated)

Queria fazer alguma coisa com aquela meia xícara de creme de leite fresco que restara da feitura do sorvete, e não conseguia decidir o quê. Enquanto qualquer outro ser humano pensaria em bater chantilly para tomar com café (ou pelo menos o ser humano com quem casei), eu segui o raciocínio: creme de leite, fettuccine Alfredo, fettuccine com molho de limão, hum... creme de leite com limão, risotto de limão com creme de leite, azedinho, amarguinho, agrião, rúcula, hum... risotto de limão com agrião e rúcula, ficaria ótimo com um peixe grelhado, mas não estou com paciência...salmão, salmão defumado, risotto de limão ao creme de leite, agrião e rúcula com salmão defumado! Jantar!


RISOTTO DE LIMÃO AO CREME DE LEITE, AGRIÃO E RÚCULA, COM SALMÃO DEFUMADO
Tempo de preparo: 20 minutos
Rendimento: 4 porções


Ingredientes:
  • 2 xíc. de arroz arbóreo
  • 1 litro de caldo de legumes
  • 2 colh. (sopa) de azeite
  • 1 cebola grande picada
  • 1 limão
  • 1/2 xíc. de creme de leite fresco
  • 50g de manteiga
  • 100g de parmesão ralado
  • 100g de agrião e rúcula
  • 100g de salmão defumado
  • sal e pimenta-do-reino

Preparo:
  1. Aqueça o caldo de legumes numa panela. Em outra, grande, aqueça o azeite. Junte a cebola e refogue em fogo médio, até que amoleça e comece a dourar.
  2. Acrescente o arroz e mexa bem, em fogo médio-alto, até que os grãos fiquem translúcidos. Junte uma concha de caldo de legumes e mexa bem, para que o arroz absorva todo o líquido.
  3. Abaixe o fogo para mínimo e prossiga acrescentando conchas, mexendo sempre, esperando que quase todo o líquido tenha sido absorvido antes de juntar mais. Faça isso por cerca de 15-17 minutos, até que o arroz esteja cozido e al dente.
  4. Desligue o fogo. Misture as raspas da casca do limão e suco de uma metade, o creme de leite, o queijo parmesão, a manteiga, sal e pimenta. Misture bem e prove o tempero, ajustando se necessário. O risotto estiver muito líquido, junte um pouco mais de queijo, mas deixe-o um pouco mais molenga que o normal, para que as folhas sejam misturadas depois mais facilmente. Tampe e deixe descansar por 5 minutos.
  5. Na hora de servir, misture metade das folhas de agrião e rúcula, inteiras, sem os talos mais grossos, e metade do salmão defumado. Sirva as porções nos pratos, espalhe algumas tiras de salmão e faça por cima um montinho com as folhas. (Pode-se polvilhar por cima mais raspas de limão, se houver.)
[UPDATE: Preciso admitir que não consegui fotografar o prato ontem à noite; esta é a sobra, que comi no almoço, por isso não está tão molinho e esparramado quanto deveria. Risotto requentado é um pecado, mas, se for preciso fazê-lo, requente-o no vapor; microondas terminará de arruinar a textura do arroz.]

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Sorvete de pêssegos e nectarinas para uma tarde quente (Updated)

Eu tinha toda uma tarde inteira desprovida de internet e tv a cabo para matar (a falta de energia nas redondezas derrubara o servidor). Não havia como trabalhar sem e-mail, estava quente demais para passear com o cão... então decidi usar meus dois braços (enfim!!) para fazer sorvete com os pêssegos e nectarinas que estavam já mais do que no ponto. A receita que usei foi, como sempre, de David Lebovitz. E ainda que ele sugira a substituição de pêssegos por nectarinas, integralmente, achei que não faria mal preparar o sorvete com uma mistura de ambos. Eu estava certa. No entanto, continuo com a balança de cozinha quebrada, e não fazia idéia do peso dos 6 frutos pequenos. Acredito que tenha usado um pouco menos que os 600g indicados no livro, pois o sorvete ficou cremoso apenas ao derreter durante a foto (impossível fotografar sorvete no verão!). Tirado direto do freezer, ao contrário de suas outras receitas, este sorvete de pêssegos e nectarinas ficou um pouco duro. Sem problemas, no entanto, pois o sabor doce e refrescante compensa tudo. [UPDATE: além de usar as duas frutas juntas, aumentei as quantidades de baunilha e suco de limão].

(Muito obrigada a todos que se preocuparam comigo e com esta cozinheira desastrada. Estou feliz em dizer que tudo voltou a normal!!)

SORVETE DE PÊSSEGO E NECTARINA
(quase nada adaptado do livro Perfect Scoop)
Tempo de preparo: 30 minutos + 2 horas de resfriamento + 20 minutos na máquina
Rendimento: 1 litro


Ingredientes:
  • 2 pêssegos médios
  • 4 nectarinas médias
  • 1/2 xíc. de água
  • 3/4 xíc. de açúcar orgânico claro
  • 1/2 xíc. de creme de leite azedo
  • 1 xíc. de creme de leite fresco
  • 1 colh. (chá) de essência de baunilha
  • suco de 1/2 limão

Preparo:
  1. Descasque os pêssegos, retire o caroço e corte-o em pedaços. Faça o mesmo às nectarinas, mas não as descasque.
  2. Coloque as frutas em uma panela com a água e cozinhe em fogo brando por 10 minutos, mexendo de vez em quando. Desligue o fogo, junte o açúcar e deixe voltar à temperatura ambiente.
  3. Bata o conteúdo da panela (frutas e água) no liquidificador, junto com o creme azedo, creme de leite, baunilha e suco e limão. Coloque em uma tigela semi-tampada e leve à geladeira para resfriar.
  4. Faça o sorvete na máquina conforme instruções do fabricante.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

O triste fim dos cortadores de biscoito

Fui toda contente mostrar à minha sogra os cortadores de biscoitos alemães que ganhei de minha irmã. "Ah, eu tinha um monte desses, de vários tamanhos, mas meu marido jogou fora porque, segundo ele, eu não fazia mais biscoitos de cortar." É ou não é para matar o homem?!
(Ai do Allex se joga fora alguma quinquilharia culinária minha!)

Só preciso terminar de comer os deliciosos Spekulatius (biscoitos de natal, de cravo e canela) que ela nos trouxe para que eu possa começar a usar os cortadores!

E a biblioteca continua crescendo...

Esses dois livros foram adquiridos durante a semana, pois decidi que se não podia cozinhar direito, pelo menos leria a respeito.

Eu não gosto de livros vegetarianos. Os que tenho, ganhei, mas é raríssimo eu pegar um nas mãos numa livraria para folhear, porque eles são quase todos iguais. Sua proposta é sempre uma suposta "alimentação saudável", e não "boa comida", e costumam ser recheados de pratos "sem gordura", "sem açúcar", "sem sal"... bem... sem sabor. Este foi a exceção apenas por fazer parte da mesma coleção de um excelente livro de aperitivos que meu pai me deu num aniversário. Apanhei o livro, folheei-o, e tive vontade de levá-lo imediatamente. Estava escrito ali, com todas as letras, que aquele era um livro de receitas vegetarianas que não se presta a quem está de dieta, pois seu objetivo é mostrar que é possível ser gourmet sem comer carne. Eureka! Enfim alguém que fala minha língua! De fato, o volume é recheado de queijos e manteigas, legumes de todas as formas, pães, doces, sopas, assados, aperitivos, massas, tortas, o que for, tudo tão apetitoso que é difícil sentir falta de um bife no meio da abundância de cores e sabores. Tudo com bonitas e apetitosas fotos, dicas de como montar um cardápio vegetariano, fotos e informações sobre ingredientes... O tipo de livro de que gosto.

O outro, de chocolates, não fazia parte dos meus planos. Estava na livraria comprando livros para outras pessoas, e resolvi perguntar — encafifada que ando com as inúmeras referências de blogs estrangeiros ao Chef Pâtissier — se havia algo de Pierre Hermé na loja. Havia dois livros da coleção Larousse (o de sobremesas e o de chocolate) e alguns outros em francês, mais completos, que me pareciam maravilhosos. O mais interessante deles, que era preciso encomendar, entrou para a minha lista de "ver na Amazon", pois custava "apenas" 580 reais. Não, não, não é 58. É quinhentos e oitenta mesmo. Ficou na loja. CLARO. Acabei folheando este de chocolate, muito desconfiada, achando que se tratava de um daqueles livros que anuncia na capa um chef famoso e, quando compramos o livro, descobrimos que o tal chef apenas escreveu um texto de abertura. Mas não é esse o caso. A maior parte das receitas é de fato de Pierre Hermé, salvo uma meia dúzia de chefs convidados por ele. Há receitas desde bolos simples de chocolate até misturas mais sofisticadas, como trufas de chocolate branco, chá verde e pistache. Ainda não testei nenhuma delas, mas estou louca para experimentar o bolo de chocolate e cassis. O ponto fraco do livro é que apenas 25% das receitas têm fotografia. O que é passável para um livro de pratos salgados, mas muito ruim quando estamos falando de uma centena de receitas com nomes como "Bolo Suzy", todas compostas de farinha, chocolate, ovos e manteiga. Como decidir por uma delas???

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Minha primeria panela de barro

Hoje meu pai voltou novamente de Fortaleza para uma visita e me trouxe essa belezinha: a panela de barro mais dengosa que já vi. Achei que fosse apenas decorativa, mas, segundo meu pai, basta lavá-la e começar a preparar moquecas. Estou tentando encontrar informações por aí a respeito dela, mas encontro apenas sobre panelas de barro do Espírito Santo, que têm todo um acabamento diferente. Então estou completamente no mato sem cachorro, pois também não quero usá-la sob o risco de estragá-la. Meu conhecimento de culinária brasileira (vergonhosamente) é inversamente proporcional ao meu conhecimento de cozinha italiana. Nem receita de moqueca eu tenho, olha que feio!

E agora? Será que eu lavo? Será que passo óleo? Será que boto no forno? Será que vai direto no fogo? Ela é tão delicada, que dá vontade de usar só para guardar biscoitos!

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Nem toda a boa vontade do mundo pode tornar um sucesso um bolo fadado ao fracasso (Updated)


Seu corpo pede para que você fique quieta no seu canto. Sua mãe pede que você não de mexa. Seu marido pede que você não faça nada. No entanto, você é obsessiva, compulsiva, psicologicamente desequilibrada, e resolve, ainda que com um braço na tipóia, que vai — simplesmente VAI — fazer um bolo. Não qualquer bolo, mas um a respeito do qual você tinha grandes expectativas. Um bolo de amêndoas e cerejas, que tinha tudo para dar certo, tão simples que era. A foto no livro era promissora: lindas fatias amarelo-claras, fofas, pontuadas por circunferências vermelho escuro. A receita era muito muito fácil, e, feita na batedeira, não exigiria o uso de mais de um braço mesmo a um cozinheiro não-debilitado.

Ah, mas nós nos sabotamos o tempo todo! Eu nunca cozinho quando estou doente ou machucada: é uma regra minha. Pode ser uma simples dor-de-cabeça, mas geralmente é o bastante para arruinar o mais simples spaghetti. Se você não está 100%, grandes são as chances de transferir sua energia debilitada para a comida. Eu ACREDITO nisso. Desta vez, no entanto, resolvi ignorar minhas próprias leis em nome de uma fatia de bolo.

Tudo começou quando comprei as cerejas erradas: secas, ao invés de glaceadas. Ok, pensei, isso não interferirá na textura do bolo; vou reidratá-las em água quente e um pouco de Kirsch. Então, aconteceu-me um surto de impaciência, pois eu tinha horário para sair de casa, e resolvi colocar a manteiga ainda fria na batedeira. Contra tudo o que sei a respeito de bolos, liguei a batedeira na velocidade máxima. Por causa da temperatura muito fria da manteiga (abaixo de 21ºC) e por tê-la batido rápido demais (o ideal seria em velocidade média), a estrutura fofa da manteiga não era forte o bastante e não suportou a adição dos ovos, fazendo com que toda a emulsão talhasse irremediavelmente.

Nesse momento, a experiência deveria ter-me feito jogar a maçaroca fora e começar de novo. Mas não, eu prossegui, aumentando ao máximo a velocidade na esperança de que a gordura e a água resolvessem ficar amiguinhas novamente. Não contente, mesmo que a aparência da massa estivesse grotesca, adicionei a farinha sem peneirá-la e o leite ainda gelado. Quando juntei as cerejas, a massa até parecia suficientemente promissora para que desse certo apesar dos pesares.

Você acha que terminou? Para mais desastres culinários, continue lendo.

Como se forra com papel-manteiga e se unta uma forma de bolo inglês com apenas um braço disponível? Mal, muito mal. Forrar a maledetta não foi a pior parte, ainda que tivesse parecido um ocidental tentando montar aqueles origamis em que se tem de dobrar 4 pontas ao mesmo tempo, num movimento só. Como untar com manteiga QUALQUER coisa, com uma só mão? É como pedir para uma mão ensaboar o próprio braço. (É, eu sei que você visualizou a cena e está tentando achar uma solução, mas quem já quebrou um braço sabe do que estou falando.) Minha solução foi usar óleo de canola e um pincel, passado com leveza sobre o papel para não tirá-lo do lugar e não mover a forma.

Adivinhe se o forno estava suficientemente quente quando a massa foi para a forma. Claro que não. A receita pedia o forno a 160ºC, e eu simplesmente não conseguia manter essa temperatura. O bolo foi para o forno depois de 10 minutos esperando o pré-aquecimento, e mesmo lá dentro a temperatura variava no meu termômetro entre 150º e 180ºC.

O bolo cresceu. O bolo dourou. O bolo começou a soltar um cheiro de pipoca queimada muito perturbador. O óleo de canola!! O bolo ficou pronto. O bolo esfriou. Tirei foto do bolo na forma. O bolo foi fatiado. A decepção. O bolo estava escuro, denso e absolutamente sem gosto. Pego meu livro para ter certeza dos meus pecados, e eles estão ali, listados um a um como os motivos do desastre: gordura muito fria, primeira etapa de mistura feita muito rápido, excesso de mistura, forno muito frio.

Como na velha piada em que "aranha sem perna é surda", aparentemente Ana Elisa sem braço é burra. E cabeçuda, porque conseguiu escrever esse texto imenso com apenas dois dedos, sem enlouquecer.

[UPDATE: óleo de canola queima a 107ºC, razão pela qual não serve para untar formas, e porque meu bolo ficou com cheiro de pipoca queimada. Ah, se eu tivesse derretido a manteiga...]

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Uns dias de molho... e não é de tomate...

O pior tipo de machucado é aquele que o impede de fazer o que mais gosta. Dei um mal jeito idiota no ombro enquanto brincava com o cão, pincei um nervo e agora tenho que ficar quietinha, tomando antiinflamatório e com o braço o mais imóvel possível até a dor passar. Ainda que tenha sido o braço esquerdo (o que quer dizer que pelo menos escrever catando milho eu consigo), é difícil cozinhar com um braço só. Falta a outra mão para segurar a panela, ajudar a cortar as cebolas, ou mesmo... ahn... fotografar os pratos. Tentarei sarar o mais rápido possível. Principalmente porque acabei de ganhar da minha irmã um conjunto de cortadores de biscoito, e eu PRECISO colocá-los em uso assim que puder estender a massa...

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Muffins de corrida 2: quando a receita não atravessa a linha de chegada

Faz muito tempo que não levo quitutes para o pessoal da corrida. Por isso, resolvi preparar uma receita na qual estava de olho havia muito tempo, mas para o qual sempre faltavam dois ingredientes cruciais: leitelho e mapple syrup. O leitelho já procurei a torto e a direito, e ninguém — ninguém! — vende por aqui. Já em outra receita (para falar a verdade nem me lembro mais de qual) eu resolvera o problema com uma dica de um outro blog (que também não me lembro mais qual é) dizendo que, na falta do leitelho, pode-se substituí-lo misturando uma colher de sopa de vinagre ou suco de limão para cada xícara de leite e deixando-se a mistura quieta por 10 minutos. Sucesso total! O mapple syrup não é problema, tem no supermercado e sempre em nossa geladeira, mas eu ficava morrendo de dó de gastar 200ml de um Grade A numa receita. Por isso apenas agora, com um Grade C que Allex achou fraquinho demais para panquecas, pude experimentar os muffins.

Acabei adaptando (isso está começando a se tornar um hábito) segundo o que havia na despensa: substituí o farelo de trigo por flocos de aveia passados no processador para deixar os flocos mais finos; e as avelãs, por castanhas de caju, que acredito que vão super bem com maçãs. Também não havia (e nunca há, na verdade) farinha com fermento na despensa. Desde que vi a dica de Nigella, nunca mais vi necessidade de comprar o produto. No entanto, só depois de prontos os bolinhos é que descobri que anotara no livro a "receita" errada para farinha com fermento. E acabei usando muito menos bicarbonato do que o necessário, razão pela qual ele não reagiu com o "leitelho" como deveria, não crescendo tanto quanto seu potencial.

O processo, como é com todos os muffins, foi muito fácil. Mas na hora de distribuir a massa nas forminhas, veio o primeiro obstáculo: apesar da receita indicar 12 muffins, havia muito mais massa na tigela. Acabei incorrendo no mesmo erro de sempre, e preenchendo as formas até a boca. Ainda assim havia massa sobrando, e acabei colocando-as em ramequins de 90ml e colocando-os junto no forno. A receita na verdade produz 16-18 muffins no lugar dos 12 anunciados.

Outro problema foi constatado apenas depois de experimentá-los, o que me deixou muito muito MUITO frustrada: pela primeira vez na história dos muffins, eles grudaram nas forminhas de papel. Grudaram irremediavelmente, de uma forma que ou você destrói o muffin na tentativa de "descascá-lo" ou o come com cuidado, mordiscando em torno da forma, como quem tira com os dentes uma bala do papel. Isso me entristeceu demais, pois, apesar de eles terem ficado saborosíssimos, ficaram imprestáveis para serem dados de presente. Também fiquei muito encasquetada, pois, apesar de a massa ter ficado mais líquida que o normal, sua textura depois de assada ficou muito fofa, leve e aerada, bastante úmida, mas não mais do que qualquer bom muffin deva ser. Tenho vontade de me dar uma panelada na testa, pois justamente antes de enformar os muffins eu pensara "será que desta vez não é melhor fazer sem os papéis?". Deveria tê-lo feito, pois a forma untada e enfarinhada impediria esse pequeno desastre.

De qualquer forma, deixo aqui a receita adaptada, muito saborosa, ainda que o mapple syrup tenha dado uma contribuição um pouco mais sutil do que eu esperava... Sorry, guys, a corrida ficará sem muffins amanhã...

MUFFINS DE MAÇÃ E MAPPLE SYRUP
(ligeiramente adaptado do livro Biscuits et Petits Gâteaux)
Tempo de preparo: 40 minutos
Rendimento: 16-18 muffins


Ingredientes:
  • 60g de farelo de aveia
  • 375ml de leite integral
  • 1 colh. (sopa) de vinagre branco suave ou suco de limão
  • 185ml de mapple syrup (Grade C para um sabor suave e B ou A para um sabor mais forte)
  • 1 ovo ligeiramente batido
  • 60ml de óleo vegetal
  • 1 maçã descascada e cortada em cubinhos bem pequenos
  • 70g de castanhas de caju bem picadas
  • 250g de farinha de trigo
  • 1 colh. (chá) de fermento químico em pó
  • 1 colh. (chá) de bicarbonato de sódio
  • 1 colh. (chá) de canela em pó

Preparo:
  1. Em uma tigela, misture o leite em temperatura ambiente ao vinagre e deixe por 10 minutos, até talhar. Misture com o farelo de aveia e deixe descansar por 5 minutos.
  2. Junte o mapple syrup, o óleo e o ovo e misture bem até ficar homogêneo. Junte a maçã e as castanhas picadas.
  3. Em outra tigela, peneire a farinha, o fermento, o bicarbonato e a canela. Misture bem e junte aos ingredientes líquidos, misturando com uma colher apenas para que a farinha seja incorporada, mas sem desfazer os grumos.
  4. Distribua entre as formas untadas e enfarinhadas e leve ao forno pré-aquecido a 180ºC por 20-25 minutos, até que estejam bem dourados e um palito saia limpo quando inserido em um dos muffins. Deixe descansar por 2 minutos antes de removê-los das formas.

Cozinhe isso também!

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