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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Elucubrações acerca de uma minúscula despensa

Minha despensa não é das maiores. Aliás, ela é minúscula. Composta de duas únicas prateleiras de 30x100cm, é preciso uma mente organizada e um grande autocontrole para não comprar mais do que elas comportam. Alguns problemas de estoque (e limpeza) resolvi com estas duas caixas de vime. Uma sem tampa, para os temperos, que manuseio todos os dias, e uma com tampa, tipo baú, para itens de confeitaria, que costumam sair do lugar uma vez por semana apenas. Farinhas e grãos de embalagens abertas vão para potes de vidro. E as validades, você me pergunta? Ah, depois da primeira vez que você deixa encher de caruncho quase 1kg de polenta italiana, você nunca mais deixa o pote encostado por mais de dois meses. Potes com coisas que vencem mais rápido, como farinha integral, ficam na frente. Na prateleira debaixo, massas, itens de café-da-manhã, alho e cebolas numa tigela branca, enlatados.

Tenho com minha despensa a mesma cisma que tenho com minha geladeira: gosto de vê-la esvaziando. Sinto-me muito competente e eficiente quando consigo usar toda a comida que tenho disponível. Então corro ao mercado para encher novamente as prateleiras de todos os itens sem os quais simplesmente não sei cozinhar. E esses, acredito, são os dez itens mais insuportavelmente cruciais na minha despensa, sem os quais fico na cozinha feito barata-tonta:


  1. Azeite extra-virgem: uso para absolutamente tudo; só uso outros óleos quando especificados numa receita ou para fritura por imersão.
  2. Manteiga sem sal: compro de quatro a seis pacotinhos de cada vez, pois entro em depressão quando não há manteiga em casa.
  3. Alho: bobeou, estou refogando alho. Se não tiver cebola, eu me viro. Se não tiver alho, f*deu.
  4. Tomates italianos pelados em lata: a salvação de todo macarrão de fim do mês e a promessa de tomates com gosto de tomates.
  5. Farinha de trigo: se tiver farinha na despensa, não preciso sair correndo para comprar nem massas nem pão.
  6. Ovos orgânicos: aqui em casa vão umas 2 dúzias por mês. Mas também, olha a quantidade de omelete, torta, massa, bolo e sorvete que sai dessa cozinha...
  7. Leite integral: o marido é umbezerro, mas fora isso há todos os itens mencionados acima: bolo, sorvete, massa, torta, molho...
  8. Arroz arbóreo: arroz comum aqui em casa é de vez em quando. O arbóreo, no entanto, é obrigatório. Se estiver acabando, corro para repor, porque nada é mais prático para duas pessoas do que um prato único e versátil como o risotto.
  9. Couscous marroquino: quando estou sem inspiração e pergunto ao Allex o que ele quer comer, a resposta é essa em 99% das vezes.
  10. Queijo parmesão: não dá para fazer massa sem ter queijo ralado em cima; não dá para fazer um risotto, sem queijo no final; não dá para fazer uma fritatta sem ele. Não dá para viver sem ele e ponto. Principalmente se for bom. E de pedaço, para ralar na hora. Meio quilo por mês.
Se tivesse um décimo-primeiro item, incluiria ervas, qualquer uma, fresca ou seca. Mas não, não vamos abusar. Dez está bom. Mas fico curiosa para saber se todo mundo tem essas mesmas necessidades gastronômicas (para não dizer vitais), de modo a prosseguir calmamente em sua vida culinária. E aí? Qual é o seu Top 10 "se não tiver isso na despensa eu peço uma pizza"?

segunda-feira, 23 de março de 2015

Uma sopa de quiabo e como eu reduzi minha conta de supermercado comendo melhor


á escrevi duzentas vezes ao longo desses anos o modo como organizava minhas compras, minha despensa, minha rotina na cozinha. Mas nada culminou tanto em uma melhora na minha alimentação e na minha conta bancária quanto meus hábitos mais recentes.

Como mencionei no post anterior, o ambiente me influenciou um bocado. Quando você tem acesso a frutas e legumes orgânicos de qualidade mas não tem a mesma sorte com laticínios e carnes, você começa a comprar mais de um do que do outro. De repente, o centro do seu prato vira o legume ao invés da proteína, de qualquer espécie. E para dar mais força a esses legumes, você se mune de grãos e cereais e castanhas e sementes, que servem de coadjuvantes para que o legume possa ter uma performance brilhante. O arroz, o feijão, a quinua, a cevada, viram veículo para transportar melhor o sabor dos legumes, ao invés de tratar o brócolis como acompanhamento do arroz. Inverti tudo.

Daí que, ao contrário de outras épocas em que tentei me alimentar mais de grãos integrais, mas deixei estragar sacos inteiros de cevadinha, parei de usar os grãos e farinhas integrais apenas em pratos especiais para isso e os incorporei de vez ao meu dia-a-dia. Comecei a tentar usar a maior quantidade de legumes por refeição e a maior quantidade de grãos e farinhas integrais por semana possíveis. E evitar usar a farinha branca como se a guardasse para uma ocasião especial – ou seja, o contrário.

E a comida no supermercado ficou tão cara, que parei de comprar enlatados e comecei a fazer tudo em casa. O tomate orgânico da feira de fato ficou o mesmo preço do italiano enlatado. Nunca mais comprei tomate em lata. Ou feijões. Iogurte é feito em casa. Queijo cottage é feito em casa. Pão é feito em casa, a não ser pelo ocarional pão francês, quando não deu tempo de fazer mais. Não compro sucos, mas também não faço. Fruta é pra comer de dentada, não pra beber. Quando é pra beber, vira vitamina, que é lanche ou café da manhã, e não acompanhamento pra mais comida. Suco, só limonada. Limonada rende e não estufa a barriga durante a refeição. De resto, só água. Ou chá. Feito em casa, com pouco ou nenhum açúcar. Chá gelado dá pra fazer de litro, e dura uma semana na geladeira. As crianças levam pra escola. De hibisco, de erva-doce, de chá-verde com laranja, preto com limão, de hortelã, de casca de abacaxi...

Comecei a ler livros sobre como as pessoas se alimentavam durante a guerra e tive vergonha de deixar comida estragar. Pirei com a possibilidade de usar mais dos alimentos do que eu usava. E comecei a usar cascas de vegetais e aparas para fazer caldo de legumes, comecei a congelar a água do cozimento de feijões e grãos e verduras para usar em sopas, ensopados, para cozinhar arroz, e assim economizar água da torneira e consumir mais sabores e nutrientes. Comecei a cozinhar com partes de alimentos que eu não sabia que podiam ser consumidos, como a casca da manga, da banana, talos de espinafre e de couve, folhas de cenoura, de beterraba, de nabo, de rabanete... Isso transforma a cenoura que você compra em dois ingredientes diferentes, e vai fazendo render suas refeições e cortando sua conta do mercado. Não precisa comprar espinafre quando as folhas de beterraba estão bonitas, por exemplo.

Ao mesmo tempo em que voltei a comer carne, me interessei pela cozinha vegan, macrobiótica, sem glúten, natureba em geral. E comecei a ver boas substituições e opções. E, ao invés de ir ao mercado comprar leite, comecei a suar as amêndoas que tinha em casa para fazer leite de amêndoas, e ao invés de comprar farinha de trigo, comecei a usar outras farinhas diferentes. Essa gama de opções em casa me fez ir menos ao supermercado. Indo menos ao supermercado para comprar um item que faltava, comprei menos por impulso daquilo de que minha despensa não precisava. De quebra, tornei minha comida ainda mais variada.

E, impulsionada pela condição árida da minha conta bancária de ilustradora no ano passado, quando, por conta da Copa do Mundo, quase nada de trabalho apareceu, comecei a passar uma semana por mês sem ir ao mercado ou à feira. Nesta uma semana sem compras, dou-me a missão de dar fim a tudo que permanece abandonado no freezer ou na despensa. Seja uma sopa de legumes esquecida, seja aqueles últimos 50g de macarrão de arroz que não dá nem pra uma porção, seja o vidrinho de pasta de trufas que minha irmã me trouxe de viagem e que estava fadado a ser guardado para uma ocasião especial até enfim estragar. Esse hábito diminui muito seu desperdício, pois você de fato faz a rapa no armário e na geladeira, estimula sua criatividade e evita que você compre itens supérfluos, duplicados, caros, desnecessários. Faz você olhar para aquele vidro de qualquer coisa em conserva que você comprou há quatro anos e julgava suuuuuper importante para a sua cozinha e descobrir que não, você nunca mais precisa comprar aquilo de novo. Faz você parar de ficar economizando ingrediente especial para uma ocasião especial pra convidados especiais, e começa a transformar o almoço de terça feira em algo especial por causa daquele ingrediente diferente. Mesmo que seja só pra você.

Certo dia, resolvi fazer as contas e descobri que andava gastando 30% menos em comida, apesar de comprar quase tudo orgânico e de qualidade. Quase caí sentada de espanto.

30% é muita coisa. Principalmente quando você lembra que alimenta duas bocas a mais.

A verdade é que cozinhar em casa é mais barato. E cozinhar legumes é mais barato. E cozinhar saudável é mais barato. A verdade é que você não precisa comprar um pacote de 20 reais de quinua pra comer bem. Arroz integral tá mais que bom e é mais em conta. Não precisa de queijo importado. Um cottage feito em casa sai o preço de um litro de leite. Infinitamente mais em conta do que a porcaria cheia de goma vendida em potes plásticos. E melhor pro seu corpinho lindo e da sua família.

De vez em quando me dou um presente. Saí e comprei um salame artesanal de porquinhos felizes. Bem mais caro que um da grande indústria. Mas bem mais gostoso. Bem melhor para meu corpinho, para o da minha família e, claro, para os porquinhos que viraram salame.

Continuo comprando macarrão de grano duro italiano. Mas faço menos macarrão.

Gasto uma fábula em cacau orgânico. Mas cozinho menos doces.

Dá trabalho? Bom, trabalhar para ganhar dinheiro também dá. Se é para ter trabalho, prefiro um que me dê saúde. Trabalhar mais para pagar por conveniências que te deixam, no fim, doente... hmmm... prefiro não. Ganho menos mas faço leite de coco em casa.

Houve gente no facebook que me perguntou sobre minha rotina de compras. Então lá vai: uma vez por mês, mais ou menos, dou uma abastecida nos grãos, leguminosas, castanhas e sementes. Se puder, já cozinho pacotes inteiros de feijões e congelo em porções de 500ml. Só me abasteço de novo quando realmente estou sem opções. Enquanto houver mais de duas variedades de grãos ou feijões, não compro mais nenhum. O objetivo é sempre limpar a despensa e o freezer. Acabo indo ao mercado para compras mais pontuais durante a semana, como para comprar leite, manteiga ou café, itens que não podem esperar eu acabar com a geladeira para sair para comprar. Mas tento não comprar mais nada além do item faltante, a não ser que seja uma promoção fenomenal, como quando encontrei bom chocolate orgânico por metade do preço de um belga. Mas minha regra é só ceder a essas promoções quando são itens que duram bastante. Vou à feira, na banca de orgânicos, uma vez por semana. E compro verduras e frutas e ervas para um batalhão. Quanto mais variedade, melhor. Lá também compro ovos. No mesmo dia já "processo" tudo o que dura mais assim: lavo e seco todas as ervas e verduras, já boto aparas no saco do caldo de legumes no freezer, asso beterrabas, separo folhas de espinafre dos talos (que, assim como as cenouras e outras raízes, duram mais sem as folhas), pelo e congelo tomates muito maduros.

E aí vai a dica: assim que tenho tudo organizado, faço uma lista de todos os itens frescos na cozinha (legumes, verduras, frutas, laticínios ou outros produtos que estragam rápido) e deixo na porta da geladeira. Isso me ajuda a visualizar melhor o que tenho para o almoço sem precisar abrir a geladeira e, de repente, esquecer a berinjela que ficou embaixo do alface. Também corro para o Eat Your Books, ou a internet, e tento encontrar alguns pratos que usem uma boa variedade daquilo que comprei, começando a procurar sempre pelos itens que estragam mais rápido ou que são mais especiais. Escolho alguns pratos para fazer durante a semana e anoto embaixo da lista de produtos na porta da geladeira. Assim, num dia mais atrapalhado, eu consigo em lembrar do que planejara cozinhar e consigo me manter organizada, preparar partes com antecedência, etc.

Quando fui à feira semana passada e vi os quiabos, pequenos e bonitos, lembrei do espinafre que estava na geladeira e precisava ser usado A.S.A.P. Imediatamente pensei na sopa que tomara na viagem a Trinidad e Tobago. Aproveitei que tinha de passar no mercado para comprar leite, e comprei também um coco seco para fazer leite de coco. Chegando em casa, apanhei o livro de cozinha Trini que comprara lá e descobri que a receita levava carne de porco e caranguejo e fiz o que mais tem me ajudado a economizar hoje em dia: adaptei com o que tinha em casa. Isso é novo para mim. Morei a vida toda a dez passos de bons mercados e, se faltasse um ingrediente super específico, frufru e caro, eu corria para comprar. Hoje, não mais. Se só faltou UM ingrediente para o almoço, e dá pra adaptar, eu NÃO SAIO para comprar. É o único momento da minha vida em que acho a preguiça um benefício.

Transformei a sopa num caldo vegan. Usei óleo de coco no lugar de manteiga, refoguei tudo (coisa que não se faz em cozinha africana normalmente, descobri, e a sopa original faz parte da origem africana em Trinidad), mudei proporções segundo o que eu tinha (mais quiabo do que espinafre), e o resultado foi uma sopa deliciosa, que Madame Bochechas repetiu e repetiu e repetiu (ela adora quiabo, e come inclusive cru). Meu Matador de Dragões gostou e queria comer mais, mas a pimenta que coloquei por engano era mais forte do que eu previa, e o pouco que ele conseguiu comer foi acompanhado de um grande copo de leite. O único que comeu mas não gostou foi o marido. Pudera, ele odeia quiabo. E essa é uma sopa para adoradores de quiabo. Sua textura tem uma ligeira viscosidade e seu sabor é um equilíbrio delicioso entre o quiabo, o espinafre e o coco. Pretendo fazê-la muitas vezes mais. Desta vez foi acompanhada de pão sueco caseiro. Outra coisa infinitamente mais barata de fazer em casa (e fácil). Pagar 9 reais em meia dúzia de lascas de pão sueco ninguém merece.


SOPA DE QUIABO E ESPINAFRE
Rendimento: 4 porções pequenas, como entrada ou para ter um acompanhamento

Ingredientes:

  • 1 colh. (sopa) óleo de coco
  • 1 cebola picada
  • 2 dentes de alho picados
  • 1/2 pimenta fresca, picada (com ou sem sementes, variedade à sua escolha)
  • 2-3 ramos de tomilho fresco, só as folhas
  • 250-300g de quiabo, cortado em rodelas, cabinhos descartados
  • 2 xícaras de folhas frescas e espinafre, apertadas na xícara para medir
  • 1 xic. leite de coco (de preferência caseiro)
  • 1 xic. água
  • sal e pimenta-do-reino a gosto
  • um punhado de cebolinha picada


Preparo:

  1. Aqueça o óleo de coco numa panela média, em fogo médio e junte o alho, a cebola, a pimenta e o tomilho. Misture bem e polvilhe uma pitada de sal. Refogue, mexendo às vezes, até a cebola murchar um pouco. 
  2. Junte o quiabo em rodelas e misture bem por um minuto ou dois, até que o quiabo esteja bem encoberto de tempero.'
  3. Junte o espinafre, misture uma ou duas vezes, e acrescente o leite de coco e a água. Misture, deixe levantar fervura, abaixe o fogo e tampe. Cozinhe por cerca de 15-20 minutos, até que o quiabo esteja bem macio e a sopa mais encorpada. 
  4. Junte metade da cebolinha e bata no liquidificador até que fique homogêneo. Volte à panela, acerte o tempero de sal e pimenta, aqueça novamente e sirva, quente, polvilhada com cebolinha.  

A receita do pão sueco vai de brinde, depois do povo pedir pelo facebook. As crianças adoraram levar de lanche na escola, pois é salgado e crocante. Perfeito com queijos e maçãs. Se seus filhos não estão acostumados aos sabores fortes de especiarias, omita ou diminua o cominho, que tem um gosto bastante assertivo nesse pão.

PÃO SUECO DE CENTEIO
(Quase nada adaptado do EXCELENTE Vegetarian Everyday, de David Frenkiel e Luise Vindahl, do blog Green Kitchen Stories)
Rendimento: 12 pães

Ingredientes: 

  • 1 xic. água morna
  • 2 colh. (chá) sal marinho
  • 3 colh. (chá) fermento ativo seco
  • 2 colh. (sopa) sementes de cominho
  • 1/2 xic. buttermilk (os autores dizem que pode-se usar kefir, mas usei soro do queijo cottage, e você pode juntar leite com uma colherinha de vinagre, ou afinar iogurte natural com água)
  • 1 2/3 xic. farinha integral de centeio
  • 1 1/2 xic. farinha integral de trigo (original era spelta, que não se encontra por aqui)
  • 1/4 xic. sementes de linhaça, esmagadas num pilão
  • 2 colh. (sopa) flor de sal ou qualquer sal de grânulos maiores


Preparo:

  1. Numa tigela média, coloque a água, o sal, o fermento, metade das sementes de cominho e misture. Junte o buttermilk. 
  2. Numa outra tigela, misture as farinhas. Junte metade delas à mistura líquida. Gradualmente junte mais das farinhas, misturando até que você consiga sovar. Dependendo da textura das suas farinhas, ou da umidade do ar no dia, talvez seja preciso colocar mais farinha de trigo integral. Acrescente bem aos poucos. A massa não pode grudar nas mãos, mas também não pode ficar seca como massa de macarrão. 
  3. Sove por alguns minutos dentro da tigela. Então divida em 12 bolinhas iguais, coloque numa superfície enfarinhada e cubra com um pano úmido. Deixe descansar por 1 hora.
  4. Pré-aqueça o forno a 205ºC. Coloque uma das bolinhas numa folha de papel-manteiga e abra com um rolo, até virar um disco de 20cm. Os discos devem ficar BEM finos. Corte um circulozinho no dentro, para garantir que vai ficar crocante por igual (não jogue fora, você pode assar todos os circulozinhos no final, como biscoitinhos). Polvilhe com a linhaça moída, sementes de cominho e sal. Espete o disco com um garfo, por toda a superfície, e transfira para a assadeira. Repita com o restante. 
  5. Dependendo da assadeira, podem caber de 2-3 pães por vez. Asse cada assadeira por 8-10 minutos, até que estejam castanhos e crocantes. Fique de olho, pois queimam muito rápido
  6. Transfira para uma grade para que esfriem. Frios, guardados em pote hermético, duram meses. 

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Como um supermercado vira refeição e a simplicidade dos ingredientes

De uma cervejaria artesanal aqui perto.

 Quem estava esperando um post de Natal aqui, lascou-se.

O Natal anda devagar quase parando. Ainda mais porque meus pais (💓) vieram visitar por dez dias no início de Dezembro, e eu é que não ia ficar enfurnada na cozinha - fui é passear. Hoje foi o primeiro dia em que assei biscoitos, os Spekulatius de sempre, porque marido pediu e porque a receita é simples o bastante (e certeira) para triplicar e presentear os professores que foram mais que pacientes e carinhosos com meus filhos nesse semestre.

Aquela lambança de um biscoito por semana, panetone, panforte, torroni e o caramba... eh... cansei.

Além disso, se você me perguntar o que vou preparar de ceia de Natal, a resposta será um sonoro "não sei!". Passei os últimos trinta dias matutando no cardápio, sem chegar a conclusão nenhuma. Será  o primeiro Natal que passaremos apenas nós quatro, e, sem ter uma multidão para alimentar, confesso estar meio perdida. Pensei em vários cortes de carne diferentes de diferentes animais, mas mesmo o mercado municipal não tem aquilo que eu desejava. Então, no melhor estilo Vida Tranquila, dei de ombros e decidi que vou cozinhar o que eu encontrar de interessante no mercado orgânico uns dias antes: ao invés de correr todos os açougues de Toronto e me estressar procurando especificidades, vou na lei do mínimo esforço. Tenho zero interesse de transformar o que deveria ser um bom momento em família numa fonte inesgotável de estresse culinário. Qualquer coisa que encontrar vai bem com batatas. E ficando na cozinha italiana e francesa, nada pedirá temperos exóticos que me façam sair explorando ansiosamente supermercados de outras vizinhanças.

Enfim.

Sou melhor com comida de todo dia do que com comida de festa.

Então estou tentando aplicar à comida de festa a mesma estratégia que uso com a de todo dia.

Porque toda semana, aqui, é sempre igual. Chega sábado e domingo, e eu dou uma vasculhada rápida na geladeira, na despensa e no freezer em busca do que há e do que falta.

Simplificar a cozinha foi um ato de amor próprio. O que um dia fora uma aventura deliciosa, uma empolgante exploração de sabores e técnicas desconhecidas na busca da minha identidade na cozinha, ao longo do tempo tornou-se um fardo, um peso nos ombros provocado pela pressão da nutricionista louca e da chef megalomaníaca dentro de mim, impulsionada pelo mundinho internetístico que me fazia sentir sempre incapaz e insatisfeita com a comida que eu colocava à mesa. Levanta a mão quem segue no Instagram as mães hipster-vegan-gluten-free-quarenta-e-sete-tipos-de-castanha-dentro-de-um prato e não fica depois se sentindo uma mãe nhanha e uma cozinheira meleta porque o seu filho nunca experimentou falafel de moyashi  com queijo de semente de abacate e molho de umbu e sal do himalaia, e agora o paladar dele está arruinado para sempre e ele com certeza não vai mais ser uma pessoa incrível quando crescer.

o/

Parar de surtar na batatinha com essas coisas e voltar a comer comida foi a melhor coisa que fiz por mim e pela minha família. Eu continuo adorando várias receitas que aprendi nas minhas fases naturebas mais enlouquecidas, assim como aprendi horrores quando tinha uma obsessão doida por confeitaria francesa e técnicas complicadas.

Mas basta.

Chega uma hora na vida que você só quer curtir seu macarrãozinho. Com glúten.

A cozinha ficou mais fácil de gerenciar, a lista de compras diminuiu e ficou mais barata, e, a não ser quando coloco nozes nas coisas, não ouço mais nenhum mimimi da família. É mais fácil reutilizar as sobras, há menos itens perecíveis com os quais me preocupar, o desperdício é zero, eu passo menos tempo do meu dia pensando em comida e mais tempo... fazendo qualquer outra coisa, e todo mundo está saudável e feliz.

Ainda tenho a tendência de overthink. Pensar demais e me inventar preocupação é minha maldição, e tenho que lutar contra isso constantemente. No caso, cortar os gatilhos para esse comportamento é o que mais funciona para mim e me dá paz de espírito. Razão pela qual sumi do Instagram, para quem estiver se perguntando. Internet em geral alimenta meu monstro.

Chega de alimentar o monstro.

Prefiro alimentar minha família.

A lista que deixo no Keep é essa, de tudo o que é essencial na minha cozinha. Deixo a lista na ordem em que encontro os produtos no meu mercado. Os itens em azul são aqueles que eu compro quase que invariavelmente toda semana.
  • 3 tipos de fruta (quantidades depende da fruta)
  • 2 tipos de legumes (idem)
  • 2 tipos de folhas (idem)
  • Cebolas
  • Alho
  • Salsão / Aipo
  • Cenouras
  • Salsinha
  • Cebolinhas
  • Avocados
  • Limas /limões
  • 500g de algum grão, normalmente arroz
  • 500g de qualquer tipo de leguminosa (grão de bico, feijão ou lentilha)
  • milho para pipoca
  • 1kg de aveia laminada 
  • 4 litros de leite
  • Iogurte integral (eu compro um pote de 1,75kg, e sai o mesmo preço de fazer o meu e esse é muito bom)
  • Creme de leite fresco (um potinho de 500ml)
  • 1 ou 2 tabletes de manteiga (cada um vem com 450g; depende das receitas a fazer na semana)
  • 500g queijo cheddar branco
  • 500g queijo mozzarella para a pizza
  • 1kg de parmesão
  • 2 caixas de ovos com 12 unidades cada
  • 1 pacote de 250g de prosciutto ou bacon (que uso essencialmente para refogar com cebola e dar gosto a pratos simples)
  • 1 pacote de cereal matinal (tem uma marca orgânica de que gosto muito que usa vários grãos integrais e não tem quase nada de açúcar)
  • 5kg de farinha ( normalmente trigo branca, mas pode ser integral também)
  • 1kg de alguma farinha especial (polvilho, trigo sarraceno, centeio ou farinha de milho para polenta)
  • Cacau em pó (que é mais versátil para ter sempre do que barras de chocolate)
  • Fermento químico
  • Fermento biológico seco
  • Bicarbonato de sódio
  • 2 pacotes de macarrão (de 450g cada)
  • 1 lata de tomate pelado (de 750g, dá para o molho da pizza e mais algum preparo)
  • Azeite de oliva
  • Óleo de semente de uva (que uso quando não quero o gosto forte do azeite, ou para frituras)
  • Vinagre de maçã
  • Tahini (resquício da minha onda uber-natureba, mas que adoro)
  • Manteiga de amendoim natural (que adoro comer no iogurte com frutas)
  • Mostarda de Dijon
  • Ketchup
  • Azeitonas
  • Mel
  • Melado de cana
  • Sal
  • Pimenta-do-reino
  • Açúcar
  • Açúcar mascavo 
  • Extrato de baunilha
  • Café em grão
  • Chás variados
  • 1 pacote grande de chips de tortillas de milho sem sal
  • pão e/ou tortillas de trigo frescas

É  claro que às vezes coloco na lista itens especiais, como um chocolate, um peixe, uma erva diferente, castanhas. Mas essa lista é, via de regra, o que eu faço questão de ter sempre em casa para o bom funcionamento da minha cozinha e da minha sanidade.

Então chega sábado e domingo, varro com os olhos os armários da cozinha e tico no aplicativo tudo o que ainda tem (mesmo que seja bem pouquinho, porque só compro mais quando REALMENTE não tem mais) e tudo o que acabou. Aí entra o pulo do gato: ANTES de botar TUDO o que falta na lista, eu faço o exercício mental (e essa é minha parte favorita, acreditem) de tentar criar refeições com o que há no armário, no freezer e na despensa, como se fosse impossível ir ao mercado àquela semana. Há semanas em que consigo cozinhar apenas com o que está ali, por mais vazia que a geladeira pareça, e vou ao mercado apenas para a manteiga e o leite do café da manhã. Há outras em que todos os vidros e prateleiras estão vazios (por conta do esforço em usar o que tem dos outros dias) e volto de fato carregada da lista toda ali em cima. Mas isso é bem mais raro.

Sabendo quantas refeições consigo produzir com o que tenho, sei exatamente o que eu de fato preciso comprar da lista para completar as refeições que faltam. Anoto as refeições num quadrinho na geladeira, mais o menos na ordem do que vai estragar mais rápido para aquilo que pode esperar mais. E faço a listinha do Keep.

O mais comum é que eu volte do mercado mais ou menos assim, faltando apenas o saco de batatas e o leite, que esqueci de fotografar:

Em sentido horário: couve-flor, lentilhas, cevadinha, creme de leite fresco, ovos, azeitonas pretas, broccolini, folhas de mostarda, cenouras, alho, echalotas (compra de impulso), avocados, grapefuit, 3 tipos diferentes de maçã (duas de cada) e bananas.

 Parece pouco para a semana, mas é preciso lembrar que só faço os jantares. Allex sempre leva de almoço a porção que costuma sobrar do jantar anterior, e o almoço das crianças varia entre diferentes tipos de sanduíche, macarrão com legumes e queijo, ou algum bolinho feito com sobras de grãos e legumes. O meu almoço também faz uso de sobras e quase sempre uma fatia de pão, como mostrei no post anterior. Também isso não costuma contar para o final de semana, quando saímos para comer ou inventamos alguma porcaria no improviso. Fim de semana é dia de almoçar sanduíche, jantar pipoca, e descansar a cabeça.

O cardápio inventado vai para o quadrinho da geladeira. Se eu tiver qualquer ideia diferente para os almoços das crianças e o meu, anoto embaixo.
  
Naquela semana, em que eu tinha umas três linguiças que haviam sobrado dos cachorros-quentes do fim de semana, pensei nas lentilhas e alguma verdura escura. O flyer do mercado dizia que as folhas de mostarda estavam em promoção, então elas foram as escolhidas. Também em promoção estavam os broccolini e a cevadinha. Logo, decidi não comprar arroz aquela semana e levar cevadinha no lugar, que havia muito tempo não comia. Levei o bastante para o jantar com as sobras e mais um tanto para produzir orzotto na semana seguinte.

A promoção se estendia às couves-flor, que eram mais em conta se levadas em par. Uma delas virou aquele bolo de couve-flor maravilhoso do Ottolenghi, e outra virou cobertura de pizza, cheia de azeitonas pretas, segundo a receita do Jim Lahey

Eu pretendia assar as batatas com ervilhas num tray bake, mas de última hora resolvi cozinhá-las e misturá-las a um pouco daquele pesto de folha de erva-doce que ainda havia no freezer. Acompanhei com ovos fritos e um purê de ervilha que estava uma delícia, mas que as crianças não gostaram. (Uns dias depois, o purê de ervilha recusado foi misturado a ovos e farinha e fermento e transformado em  panquequinhas para o lanche da escola. Sucesso.)

Os abacates foram para meu almoço junto com aquele grapefruit pequeno, as maçãs foram para os lanches da escola, e as bananas viraram bolo. O creme de leite e os ovos viraram sorvete de baunilha e a despensa estava novamente vazia no domingo seguinte. 
 

As lentilhas com salsicha não têm segredo. Dourar as linguiças na panela até estarem cozidas, dourar cebola e alho na gordura das linguiças e mais um fio de azeite, e juntar as lentilhas já cozidas, misturando bem para os gostos apurarem. (No caso, minha lentilha sempre leva cenouras e louro.). Uma bela polvilhada de salsinha e um fio de vinagre e pronto. Servir. As folhas de mostarda foram branqueadas e puxadas no azeite e alho. Só.

No caso da cevadinha, eu tinha uma memória fugaz de um prato da Heidi Swanson com cevadinha e raspas de limão, temperada como se fosse um risotto. Primeiro branqueei o broccolini, e depois usei a água do legume para cozinhar a cevadinha. Quando ela estava no ponto, refoguei os broccolini em azeite, alho e pimenta calabresa, juntei a cevadinha com um pouco de caldo, para os gostos se misturarem, e quando o líquido evaporou quase todo, juntei uma bela quantidade de azeite, raspas de limão siciliano, uma espremida do limão para trazer acidez, e um belo punhado de parmesão ralado. O ovo frito é sempre meu acompanhamento favorito para completar uma refeição.



O jeito que melhor funciona para mim na hora de pensar no que fazer para comer, é fazer um quebra cabeças de PRINCIPAL + ACOMPANHAMENTO QUENTE + SALADA com o que tem na geladeira, tentando trocar os papéis dos legumes, como se fosse um jogo de combinações em que as posições não podem se repetir. Ou seja: quem é acompanhamento quente hoje, amanhã tem que ser salada ou principal. O brócolis pode ser o principal se estiver gratinado, por exemplo, e o arroz é o acompanhamento. Mas se o arroz, por sua vez, for de forno, com ovos e queijo, o brócolis e só refogado e acompanha. A cenoura num dia é cozida e temperada com manteiga, no outro dia vai dentro do soufflé, e no outro é raladinha como salada. Se o principal for mais robusto e já tiver legumes, pulo ou o acompanhamento quente ou a salada. 

Eu era muito fã de pratos únicos quando éramos só Allex e eu. Mas com crianças, é com certeza mais fácil pensar em pares ou trios de pratos. Se Laura ou Thomas teimam de não gostar de algo, tem sempre outro elemento no prato para mantê-los alimentados. A única obrigação deles é experimentar de tudo. Mas não precisam gostar nem precisam comer um monte do que não gostaram.(Aliás, sempre foi a melhor estratégia com os dois: eu dizia que só precisava experimentar, e que não precisava gostar; se não gostassem, não precisavam comer mais; mas se eles nem experimentassem, eu nunca saberia que eles não gostam, e então continuaria preparando aquilo TODOS OS DIAS; em contrapartida, se eles experimentassem e não gostassem e me dissessem, eu NUNCA MAIS faria aquilo para eles. FUNCIONA SEMPRE. E quase sempre eles acabam gostando.)

O fato de ter os pratos ali anotados não quer dizer que eu vá de fato prepará-los. Mas tendo eles ali, e sabendo quanto tempo eles levam para ficar prontos, posso trocar, misturar e reinventar, ou escolher de acordo com o meu dia o que é melhor preparar. Se o dia foi um lixo e eu mando tudo às favas e preparo um spaghetti cacio e pepe, não tem problema. Como comprei pouco, nada vai estragar só porque não usei naquele dia. Não há pressão. A cozinha é leve.

No fim, como disse, o exercício de criatividade quando há pouco na geladeira é o que mais empolga como cozinheira. Quem me recomendou o show Salt Fat Acid Heat, com certeza sabe o quando adorei o último episódio, quando Samin Nosrat diz que o que a faz feliz é cozinhar ingredientes simples, de todo dia, que estão disponíveis o ano todo, como cenouras e batatas. Demorei muito para entender esse prazer, contaminada pelos shows e livros de cozinha cheios de ingredientes exóticos e caros para o brasileiro médio. 

Daí que quando o Masterchef Profissionais propôs aquela prova de cozinhar com uma cebola como elemento principal, eu tive essa epifania: se você quer ser um bom cozinheiro, não precisa de nada mais do que cebola, cenoura e salsão. Não apenas como temperos, mas como elementos em si. Quantas refeições você consegue fazer numa semana, se tiver apenas esses três legumes em mãos? Inúmeras. 

Náo existe foto bonita de salsáo gratinado, ainda mais com essa nhaca de luz branca horrorosa do meu teto.
E houve mesmo uma semana depois desta das fotos, em os únicos legumes na minha geladeira eram esses três. E rolou clafoutis de cebola com cenouras vichy, teve risotto de salsão (super delicado) com caldo caseiro, teve arroz integral com salada de cenoura e um incrível salsão gratinado da Marcella Hazan, que estava delicioso. Sim, salsão gratinado. Você tira os filamentos mais duros dos talos externos de uns dois maços de salsão, corta em pedaços de uns sete centímetros e branqueia os pedaços em água fervente. Numa panela larga, você refoga um pouco de cebola e umas fatias picadas de prosciutto na manteiga e azeite, junta os pedaços de salsão, e um de pouco de caldo de carne, só o bastante para brasear. Eu não tinha caldo de carne, mas tinha o caldo do cozimento de grão de bico (que estava bem temperado e uma delícia), e foi isso que usei. Deixa o caldo ferver até quase sumir e o salsão ficar macio. Coloca os talos de salsão numa travessa refratária como se fossem canoinhas, espalhando as cebolas e prosciutto por cima. Polvilha generosamente de parmesão e leva ao forno médio-alto até formar uma casquinha dourada. MARAVILHOSO. Thomas, que não gosta de salsão cru, repetiu e pediu para fazer sempre. Laura, como sempre, para ser do contra, ama salsão cru, mas não gostou dele cozido. Minha sina. Eu faria sim isso de novo. Com simples cogumelos refogados e um panelão de arroz integral, foi uma refeição deliciosa.   

terça-feira, 27 de julho de 2021

Abraça o perrengue e vai: a jornada épica de uma mudança


Ready.
Set.
Go.

Acordamos às seis da manhã. Bem, honestamente, acordar não é o termo correto. Acordar infere um anterior estado adormecido, que, no caso, nunca aconteceu. Num misto de ansiedade e excesso de adrenalina pela noite passada desmontando móveis e encaixotando coisas, o sono nunca veio. 

Fomos buscar café da manhã no Tim Horton's, a Starbucks canadense, enquanto as crianças terminavam de acordar. Elas sim acordaram, uma vez que de fato dormiram. Um copo de café e um english muffin com presunto e queijo para cada um parecia suficiente. O plano era sair de Toronto ao meio-dia e meia, e almoçar na estrada. O apartamento tinha cheiro de empolgação e aquele excesso de confiança que deveria ativar um sensor interno de que tudo está prestes a dar errado. 

Mais uma vez, deixamos as crianças e seus english muffins, e levei Allex de carro até a garagem da U-Haul, para que fizesse o check-out do caminhão que havíamos reservado para as 7:30. "Volte para casa e me espere nos fundos do prédio, para me ajudar  dar ré ali", disse ele, e foi o que fiz. Pedi às crianças que tirassem os lençóis de seus colchões para que eu os colocasse na mala com os meus, e descemos todos para esperar o papai e seu caminhão.

Assim que fui ao fundo dos prédios, dei-me conta de que a equipe de manutenção havia deixado todas as caçambas de lixo na entrada do prédio, e que o caminhão não poderia passar. Também não tínhamos tido nenhum contato com o responsável por nos ensinar como travar um dos elevadores para que apenas nós pudéssemos usá-lo. Enquanto as crianças corriam pela área comum do prédio, se dependurando em corrimãos e fazendo buquês de flores arrancadas do jardim do condomínio, eu telefonava para o Serviço ao Residente, tentando fazer com que alguém removesse as caçambas e viesse falar comigo sobre os elevadores, intercalando as musiquinhas de espera com minha delicada gritaria com os pimpolhos hiperativos: "Pára de arrancar as flor do jardim, cáspita, e vê se não se pendura aí que isso não aguenta o teu peso e eu não tenho tempo de te levar no hospital se você quebrar teus dentes no chão!"

Respira. Minha paciência é inexistente quando estou com sono.

Enquanto isso, na U-Haul, Allex inspecionava o caminhão, para descobrir que o cadeado que trancaria nossa vida inteira estava quebrado. Depois de esperar na fila por vinte minutos para reclamar do cadeado, a senhora fofa que o atendeu foi tão delicada com ele quanto eu era com as crianças: "O problema não é meu. Se você quer um cadeado que funcione, pode comprar esse por dez dólares."

Dez dólares a menos, Allex chegou dando ré no caminhão nos fundos do prédio. Fazia trinta e dois segundos que um faxineiro me havia ajudado a empurrar as caçambas e ensinado a operar a trava do elevador. 

Ainda assim, tínhamos sorrisos no rosto e tudo parecia perfeitamente alinhado com os planos. Estava tudo pronto para começarmos e eram exatamente nove horas, como previsto.


It's show time.

As crianças ficaram de olho no caminhão, enquanto nós dois subíamos até o apartamento para descer as primeiras caixas pesadas de livros com a ajuda de carrinhos de mão igualmente alugados.

Esse é aquele momento em que você deve estar se perguntando: mas cadê a equipe de mudança? 

A equipe de mudança custa caro num país em que os serviços são bem remunerados. América do Norte: terra do Do It Yourself. Sabe todas aquelas séries e filmes passadas em Nova Iorque, em que o personagem principal chama os melhores amigos para descer a poltrona e as caixas de livro pro caminhãozinho? Pronto. Você entendeu. Sim. Nós estávamos fazendo a mudança inteira sozinhos. Nós dois. De encaixotar livros, embalar louça, desmontar mesa e sofá, a transportar tudo para o caminhão e então dirigir o caminhão até a casa nova, descarregar tudo, remontar e reguardar. O plano era descer tudo para o caminhão das nove ao meio-dia, dar aquela última limpadinha no apartamento, largar as chaves no escritório da manutenção e, à uma da tarde, partir para Ottawa. Allex dirigiria o caminhão,  e eu, o carro, com as crianças, e os itens mais frágeis. 

Esse era o plano. 

Conforme carregávamos o caminhão, no entanto, algo ficou dolorosamente claro: a caçamba era muito pequena. "Temos poucas coisas", eu havia dito. "Vai ser fácil", ele concordara.

Não foi. 

"Sobe você e vai trazendo tudo, e eu fico aqui montando o quebra-cabeça", eu disse, depois de cinco minutos de discussão sobre termos ou não desmontado os bancos, ter ou não comprado mais caixas, levar ou não minhas plantas e P*TA QUE PARIU, PÁRA DE ARRANCAR PLANTA E DESCE DO CARRINHO DE MÃO QUE SE VOCÊ PERDER OS DENTES VOU TE DEIXAR BANGUELA PRO RESTO DA VIDA, CÁSPITA!

Mudança é super divertido, eu sempre disse. Né?

As crianças desta vez foram gentilmente obrigadas a carregar tralha do apartamento para o caminhão junto com o pai. Não porque eles poderiam ajudar muito, mas como estratégia para pararem de aprontar. Enquanto eles ficavam no sobe e desce de elevador, eu desmontava todo o caminhão e remontava tudo de novo, como apenas uma criança que jogou Tetris na cadeira do dentista durante oito diferentes obturações conseguiria. Ana Elisa: oito cáries na boca, mas campeã de Tetris. Há!

Com precisão cirúrgica e velocidade que me fez sentir como aqueles japoneses em competição de resolver cubo mágico, fui combinado as variáveis peso, fragilidade, tamanho, resistência e flexibilidade, para criar paredões herméticos de caixas, objetos e partes de mobília do chão ao teto do caminhão.

"Não vai caber tudo. Ainda tem as bicicletas e aquele monte de coisa solta que sobrou lá em cima", resmungou Allex, exasperado. Coisas soltas. Mudança tem disso de ser afrodisíaca par tralha que não cabe em lugar nenhum, e, nos quarenta e cinco do segundo tempo, elas se reproduzem feito coelhos.  "Cabe sim", eu disse, tentando encontrar no meu eu sonolento alguma esperança de não ter de me desfazer das minhas plantas."Não cabe", ele disse. "Vou buscar o carro pra deixar aqui e ver o que cabe nele e P*RRA, TUA MÃE JÁ NÃO DISSE QUE O CARRINHO DE MÃO NÃO É SKATE, CARAMBA?"

Enquanto ele buscava o carro na garagem, eu tentava explicar para as crianças porque é que já eram duas da tarde e a gente ainda não tinha almoçado, e porque apesar de estar todo mundo com fome, a gente não tinha tempo de parar pra comer, porque iam cancelar nosso elevador e tinha um caminhão de construção querendo a nossa vaga e a gente ia ser expulso dali sem ter terminado de carregar tudo.

Allex estacionou o carro atrás do caminhão, e começou a tentar encaixar a maior quantidade de tralha lá dentro entre a TV e a cafeteira, enquanto as crianças e eu trazíamos a tralha solta do apartamento usando o elevador comum, pois nosso tempo de elevador acabara, mesmo com a boa vontade do pessoal da manutenção, e agora tínhamos os moços da reforma no nosso pescoço. 

Num dado momento, o colchão king size escorregou e empurrou pra fora do caminhão minha poltrona amarela, que caiu de ponta cabeça no chão, a dois centímetros do monitor do computador.

Gente, que divertido que é fazer mudança! Né?

"Termina de espremer tudo aí dentro eu vou limpar o apartamento!", berrei, correndo para o lobby. Varre varre varre, esfrega esfrega esfrega. Olha o lago pela última vez. Tchau lago. Tchau, apartamento. A foto mal enquadrada e fora de foco dá uma ideia da pressa que eu tinha de fechar tudo e ir embora.

 

"Coube tudo?", perguntei, apanhando a chave do Allex para juntar ao restante e devolver no escritório. "Sim. Espero que não quebre nada."
"E a TV? Tá no carro?"
"Tá. Eu abaixei um lado do banco e coube em pé."
"Vamos?"
"Vamos."

Fui até o carro, apanhei duas plantinhas que iam pro lixo e enfiei nas laterais das portas do carro. Plantinha muquiada. Beijoca, te amo, se cuida na estrada, vou te seguindo, a gente pára no On Route de Port Hope pra comer.

O bom humor e a paciência foram restaurados com o fechar do cadeado de dez dólares na porta do caminhão e o ligar dos motores.


"Mãe, tô com fome".
"Eu sei, filho. Eu também."

A pessoa lembrou de deixar um lanche pronto pra emergência? CLARQUENÃO.

Quando deixamos os fundos do prédio em direção à estrada, eram QUATRO E MEIA DA TARDE.

Port Hope fica a 89km de Toronto. Às quatro e meia da tarde numa quinta-feira, adivinhe só, havia um trânsito digno da Marginal Pinheiros com chuva. Não fosse o carro e o caminhão serem automáticos, seriam uma hora e meia de engata primeira, engata segunda, primeira, segunda, primeira, segunda. 

Já contei que a Laura enjoa? Laura enjoa. Desde bebê. Ela enjoa e vomita muito bem vomitado toda vez que seu transporte chacoalha ou fica nesse anda e pára, anda e pára. Ela já vomitou até no bonde de Toronto uma vez. É super divertido. Né? Uhú! É claro que eu dei remédio de enjoo pra ela antes de a gente sair. É claro que não funcionou porque ela estava de estômago vazio. Ieeei. 

"Mamãe, eu tô enjoada".  

Olho pelo espelho retrovisor e a criança está cinza. Olho em volta. Numa estrada de seis pistas, estou presa no trânsito bem no meio, sem a menor chance de chegar num acostamento. Abro as janelas, ligo o ventilador no máximo, começo a usar o acelerador e o freio com a delicadeza de uma bailarina.

"Tá melhor, Laura?"
"Um pouco. Mas eu ainda tô enjoada."
"Você vai vomitar?"
"Talvez."
"Ok. Deixa eu pensar. Não tem nenhuma sacolinha plástica aqui. Laura! Laura! O cesto de roupa suja tá do seu lado, não tá?"
"Tá."
"Enfia a mão nele e vê se você acha alguma camiseta grande da mamãe ou uma toalha."
"Achei uma toalha."
"ÓOoooooooteeeemo! Espalha ela no colo, aberta, e se for vomitar, vomita na toalha, please."
"Tá bom."

Laura é muito boa de vomitar com mira. Desde pequena ela sabe quando vai vomitar e sempre dá tempo de ela correr no banheiro e vomitar no vaso, sem sujar nada. Muito prático. 

Mas no fim não precisou. O trânsito aliviou, o enjoo passou e ela acabou pegando no sono. Não sem antes eu pedir pra que ela por favor deitasse a cabeça no ombro do irmão, porque do outro lado estava a tela da TV embalada em plástico-bolha.

Chegamos ao posto de conveniência de Port Hope às seis e meia, doze horas depois de nossa última refeição. Ninguém reclamou dos hambúrgueres de fast food e da batata frita. Nem eu, veja só. Quando comentei do meu cansaço para Allex, ele sugeriu açúcar no lugar do café. Antes de voltar para o carro, compramos chocolates para as crianças, e eu me dei o drink de café mais doce que encontrei no Starbucks antes de voltarmos à estrada. 

"Quanto tempo falta, mamãe?", Thomas perguntou, querendo acertar o timmer no seu relógio novo.
"Três horas e meia, filho." Laura ficou consternada. Por conta do trânsito até ali, uma viagem que costumava levar quatro horas e meia, demoraria cinco e meia no total. "Mas agora não tem trânsito, Laura", expliquei. "Só que agora troca o assento: Thomas vem pro meio, Laura vai pra janela, que eu não quero que ela enjoe mais."

A viagem seguiu tranquila. O super Caramel Vanilla Cookie Crunch Açúcar Com Mais Açúcar Coffee Frappuccino com Chantilly da Porcaria Toda do Starbucks funcionou, e pelo menos eu não sentia mais o cansaço da noite insone e das SEIS HORAS carregando peso. É lógico que eu esqueci de baixar no celular uma playlist de música para ouvir na estrada. Mas o Universo foi meu amigo e me ajudou a encontrar uma estação de rádio de Napanee que parecia uma seleção de karaoke feita sob medida para meu gosto musical eclético. As crianças já se acostumaram com a mãe cantando e dançando nas viagens de carro, e só sentiram falta da coreografia dramática dos braços enquanto eu me jogava em Roxette, Kelly Clarkson, Erasure, Backstreet Boys e Taylor Swift. Afinal, eu estava dirigindo. Só rolava chacoalhar os ombrinhos, como toda pessoa crescida nos anos 80 sabe fazer.

"Gente, olha pela janela. Esses bosquezinhos no meio das fazendas são ótimos para ver Deer (veado)!"
Laura suspirou.
"Ih, mamãe, eu tava aqui pensando que a gente justamente não viu NENHUM bicho na estrada até agora. E isso é muito estranho, porque a gente SEMPRE vê bicho na estrada. Aí eu pensei que é porque você tá dirigindo. Você não pode olhar em volta pra achar bicho, então a gente não vê nenhum. Depois disso só o papai vai dirigir, porque você tem que achar os bichos no caminho!"
"Hahah. Mamãe bruxa dos bichos."

Meia hora depois, numa estradinha menor e mais tranquila, apontei um campo de trigo ao lado da estrada, onde meia dúzia de veados com filhotes pastavam tranquilos. 

"Tá vendo só, mamãe? Você tem olho de ver bicho."
"Pois é."

A noite veio devagar, e as crianças foram silenciando no escuro. Ao nosso lado, uma lua cheia alaranjada do tamanho de um prato de bolo se escondia sob fiapos de nuvens cor de chumbo, feito uma lenta dança dos sete véus. Eu continuava seguindo o caminhão, agora de coração leve. A lua foi dormir e deixou em seu lugar uma chuva fina que sussurrava nos vidros.

Faltando uma hora para chegarmos, olho pelo retrovisor e me dou conta de que os dois adormeceram. Suspiro feliz por um segundo, até me dar conta de que Thomas está com o cabeção apoiado à tela da TV. Chamo seu nome. Chamo mais uma vez. Mais alto. Jogo o braço pra trás e cutuco sua perna. Leves tapinhas. Thomas. Thomas. THOOOOOOMAAAAAAAS. Lembro quando ele era pititico na cadeirinha do carro, e sua cabeça adormecida pendia para frente, sobre o cinto de segurança, e eu, aflita no meio da Marginal ou da Castelo Branco, esticava o braço para trás sem tirar o olho da direção, e ajeitava sua cabeça numa posição melhor, quase deslocando o ombro sobre o assento. THOOOOOOOMAAAAAAAS! Ele acorda. "Joga a cabeça no ombro da Laura, filho!" Ele obedece, sem dizer nada, e volta a dormir. TV sã e salva.

Chegamos à casa às onze da noite. A casa em que dormimos um mês antes, nos sacos de dormir que ainda estão ali nos quartos. Tiro tudo do carro, menos a TV e a cafeteira. As crianças vão à cozinha e se fazem um sanduíche com o pão e o salame comprados na estrada, e comem sobre os pratinhos de acampamento que havíamos deixado ali. Enquanto isso, Allex procurava uma vaga na vizinhança para estacionar o caminhão, já que nossa rua é rota de caminhão de bombeiro e não pode ter nada estacionado no meio-fio. O plano de descarregar o caminhão no mesmo dia foi pra cucuia.

"Vão escovar os dentes e cama, agora", diz Allex, quando volta da rua. Eu rio de nervoso. "O que foi?"
"As escovas estão num tupperware... no caminhão."
"Eita, p*rra."
"Pimpolhada, enxagua bem a boca e vai pra cama."
"E os nossos colchões?', Thomas pergunta.
"Estão no caminhão, ué."
"E a gente não vai pegar?"
"São onze e meia da noite, Thomas. A gente vai pegar amanhã, com todo o resto."

Beijo, abraço, abraço de novo, Thomas vai dizer boa noite pra Laura, pois estão separados pela primeira vez, e em dez minutos estão completamente adormecidos.

E foi assim que, depois de uma noite insone, seis horas carregando peso, cinco horas e meia dirigindo, e uma cerveja dividida no chão de nossa nova sala vazia, fomos todos dormir em sacos de dormir.


A pessoa dormiu? CLARQUENÃO.

Às seis e meia da manhã seguinte "acordamos" e fomos andar até a Starbucks a 500 metros dali para comprar café. Um cappuccino gigantesco e um croissant com queijo, levado de volta para comer em casa. Meu corpo inteiro se move como um brinquedo antigo cujos parafusos enferrujaram. Minha mente continua evitando pensar no trabalho que vai dar descarregar o caminhão. Mas quando levo meu café para a varanda da sala, abro um sorriso largo e solto um grito. "UM COELHO! Tem um COELHO no quintal!" Nhóin. Este brinquedo velho usa pilhas recarregáveis à base de fofura.

Às oito, o caminhão está estacionado em frente à casa. Allex alinha a agenda do dia comigo: "Seguinte. Eu tenho a tarde de folga, mas agora de manhã tenho dois calls da empresa. A gente vai descarregar tudo o mais rápido possível, que à tarde vêm os caras da máquina de lavar e depois o cara da internet. Quando eu estiver em reunião, você espera eu voltar pra ajudar, que a gente não tem pressa."

A gente não tinha pressa. Aí vem o vizinho novo, com quem a gente quer começar com o pé direito, e pede pra tirar o caminhão ao meio-dia, porque ele precisa sair da garagem.

"Ok, então enquanto eu estiver na reunião, você faz o que conseguir."

Desta vez, as crianças quiseram e puderam ajudar no processo todo. O que puderam carregar ou ajudar a carregar, carregaram. Esse vai na sala, esse vai na cozinha, esse vai pra garagem, esse você coloca no basement, esse vai pro meu quarto, esse pro seu, esse pro da Laura. Mas o que era pesado era pesado e ponto, e só adulto carregava. E como tinha caixa pesada! Já falei quanto livro eu tenho? Pois é. E os kettlebells? Ai, que divertido carregar kettlebelll, gente! Né? Não.

Allex, super empolgado, prepara os carrinhos de mão para descer tudo do caminhão e levar pra dentro. Eu rio. "Carrinho sobe escada, Allex?"

"Merda."

Haha. Vai tudo no braço. Um por um.

Chegou a hora do colchão de casal. Segura. Segura. Usa o carrinho pra descer o bicho do caminhão. E agora? Agora f*deu. A desgraça passou pela porta feito bala Toff entalando na garganta. Pensa um colchão PESADO. Agora vem a parte divertida. Já falei que minha casa não é térrea? Pois é. Já falei que ela é meio que feita em zigzag? Pois é. Quer dizer que ela não tem dois andares inteiros, mas que cada plano ocupa um meio-andar. Sete degraus pra sala, sete degraus pra cozinha, sete degraus pro meu quarto, sete degraus pro quarto das crianças. Praticamente uma espiral de degraus desenhada por alguém que não tinha transferidor pra fazer curva e desenhou um caracol quadrado. Agora pensa dois adultos cansados tentando subir um COLCHÃO DE MOLA KING SIZE três lances de escada acima. Ieeeeei! Divertido, né? Super. A gente ria muito, porque lembrava da cena do Friends, em que tentavam fazer curva com um sofá numa escada igualzinha. Ó. Foi ÓOOTEMO.

Depois disso, Allex foi para a reunião dele, porque é importante continuar pagando os boletos, e eu liberei as crianças para brincarem de Lego no quarto, enquanto eu terminava de descarregar as últimas caixas. Laura ainda quis me ajudar (ajuda bem-vinda) a  levar partes do sofá escada acima, e fez um ótimo trabalho. 

A última caixa de livros eu carreguei até a porta. Precisava subir um degrau para entrar. Coloquei um pé na soleira e fiz força, com a caixa nos braços. Nada. Vai, perna, sobe! Ahn-ahn. Tô mandando, perna, me obedece, cáspita! Nananinanão. Coloquei a caixa em cima do degrau e subi sem caixa nos braços, e foi desse jeito que eu fui "rolando" a caixa escada acima, usando a desgraça como se fosse um andador. A última vez em que meu corpo DESISTIU desse jeito foi quando terminei a travessia de Petrópolis-Teresópolis, acampando, e precisei que alguém me puxasse pra sair do carro pra ir à padaria tomar café, porque minhas pernas não tinham mais energia para erguer meu corpo em pé. Isso foi antes das crianças nascerem. Nem os 42km corridos na Maratona de Toronto em 2019 me cansaram desse jeito. Quando terminei a maratona, lembro de ter ido tomar banho, abrir uma cerveja e ainda ficar em pé fazendo o almoço pra galera toda. E ainda desci o cachorro.


Eram exatamente meio-dia quando eu fechei a rampa do caminhão pra que Allex o levasse para a vaga lá longe. O vizinho agradeceu. Ufa. Allex terminou de trabalhar, e veio montar a mesa da cozinha, e saímos para comprar esfihas na bakery ao lado. Almoçamos pela primeira vez no quintal, ouvindo o som dos pássaros e esquilos que habitam o minibosque que corre ao longo da parte de trás das casas. Mas o trabalho não havia terminado. Ele cuidou do cara da máquina de lavar e do cara da internet ao mesmo tempo, enquanto eu desempacotava toda a tralha da cozinha. Porque se tem um negócio que tem que estar funcionando em primeiro lugar é a cozinha. Alegria é descobrir que minha habilidade de empacotadora em mudança continua na garantia: nenhuma taça de vinho se feriu durante a mudança. 

No fim do dia, Allex instalou a cafeteira, enquanto eu descansava em minha poltrona, que não sofrera nenhum dano visível na queda do caminhão. As crianças escovaram os dentes COM MUITO CAPRICHO e foram dormir em suas camas, com lençóis fresquinhos da máquina de lavar nova. Fiquei chocada em descobrir que Thomas é um menino organizado, pois suas roupas já estavam em cabides e seu quarto estava todo em ordem, enquanto Laura parecia ter chacoalhado seu quarto com tudo dentro, feito um globo de neve. Lembrei de quando saí da casa de meus pais e minha mãe ficou igualmente chocada em descobrir que era minha irmã a bagunceira, e não eu.

Levei minha cerveja para a varanda, tentando ignorar a exaustão. Fechei os olhos para ouvir o canto dos últimos corvos atravessando os céus para se recolher ao bando, e quando os abri novamente, havia vaga-lumes por entre as árvores. Lembrei de quando havia vaga-lumes em São Paulo. Eu, pequenina, recolhendo os insetos brilhantes em caixas de fósforos, no parquinho do prédio.

Dormir no colchão que você mesma carregou escada acima tem gosto de justiça. 

Na manhã seguinte, bebericando meu cappuccino, eu brincava de ligue-os-pontos nas manchas roxas de meus braços e pernas. Eu parecia (e ainda pareço, enquanto escrevo isso) um dálmata. Minhas panturrilhas ardiam, de tanto sobe e desce degrau, e os músculos de meus antebraços estavam duros feito pedra.

"Me perguntaram por que é que a gente não pediu ajuda", comentei, rindo. "E eu disse que foi um misto de inocência com excesso de confiança."
"Ué", respondeu Allex."A gente fez, não fez? A gente fez sozinho. Chegou tudo inteiro. Foi difícil, mas deu tudo certo. Como é excesso de confiança se a gente foi lá e fez? Eu digo que a gente sabia exatamente do que era capaz."
"Você tem razão. Parabéns pra gente, então."
"Parabéns pra gente."

Epílogo: Allex pegou suas coisas, e foi dirigir quatro horas e meia de volta a Toronto para devolver o caminhão, e então pegar quatro horas e meia de trem para voltar a Ottawa, já que entregar o caminhão em outra cidade custava o dobro. "Pára de desmontar caixa", ele disse. "Descansa. Vai passear. A gente faz o resto junto depois, que vai mais rápido." Sim, senhor. Teve passeio de bicicleta pela vizinhança nova, teve visita ao mercado pra comprar flores e comidinhas, almoço no quintal, e cochilo. Merecido cochilo.

Fomos buscar Allex na estação de trem no fm do dia, e, quando atravessamos a porta, eu estava em casa.



quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Verão, visita, gatilhos positivos, acampamento, livros que transformam e ghee


Eu me lembrava do verão passado com carinho: longas caminhadas com as crianças, descoberta de novas prainhas, novos parquinhos, trilhas escondidas; piqueniques sem pressa no meio do caminho, pés na areia, horas sem fim de leitura silenciosa enquanto meus filhos brincavam soltos por aí.
Mas o tempo passa, a novidade se esvai, e as caminhadas deixam de parecer uma exploração para virarem rotina. Dos parquinhos cada um tem seu preferido, e escolher aonde ir provoca quase sempre conflitos. As crianças agora têm amigos com os quais fazem questão de encontrar, e eu fecho o meu livro para passar longas horas em conversas de elevador com pais de coleguinhas. Não, talvez isso seja injustiça: algumas dessas conversas foram realmente boas em dias que eu precisava trocar figurinhas. Mas sendo a eterna introvertida que sou, preciso de um dia de silêncio para me recuperar de um dia de constante falatório. E esse dia de silêncio calhou que nunca veio. Porque mesmo que você não marque nada com ninguém, os bairros de Toronto são como mini cidades do interior: todo mundo que estuda naquela escola mora no mesmo bairro e frequenta os mesmos parquinhos. Logo, você está sempre fadado a encontrar alguém conhecido.

Além disso, boa parte dos amiguinhos dos meus filhos estava em creches ou summer camps (os tais programas de férias que servem para ocupar seu filho em horário comercial quando você tem que trabalhar ou não está afim de passar seus dias no playground). E como as tais crianças só saem dos camps às 3h30 da tarde, precisei mudar toda aquela rotina boa de sair sem destino por aí, gastar energia logo cedo, almoçar piquenique, e voltar exausto no meio da tarde pra tomar banho e ver um desenho... para o completo oposto: ver desenho de manhã, almoçar em casa, sair pro parque com horário marcado no parquinho de sempre, voltar tarde pra casa, fazer manha pra tomar banho, jantar tarde, ainda querer jogar jogo de tabuleiro depois do jantar com o papai e ir dormir às dez da noite.

Um dos vários almoços piquenique: frutas, wrapp de abacate, queijo e legumes, coco fresco em pedaços, amêndoas e tâmaras, frutas da estação.
O dormir tarde não seria um problema, afinal são férias, tudo bem. Mas quando eles dormem as dez da noite e continuam acordando às seis da manhã, a falta de sono vai acumulando, e Laura, principalmente, vira um bicho quando está cansada (exatamente como eu). Além disso, o meu tão prezado "horário de adulto", tão importante para a manutenção de minha sanidade mental, foi também pro beleléu. Ao invés de ir dormir às dez e meia (porque as crianças estariam na cama desde as oito), vi-me indo pra cama à meia noite, uma da manhã. Pra acordar às seis no dia seguinte ao som de criança brincando e/ou brigando.

Isso poderia ter transformado o verão num estresse.

Mas eu me mantive concentrada nos meus gatilhos positivos. Pois é, aquelas pequenas coisas que você faz para te manter no rumo. Acordar cantando uma musiquinha besta que faz todo mundo dar risada da minha cara. Alongar antes do café para botar a coluna no lugar e fazer a energia fluir. Alongar parece ser o passo número um para me lembrar de me cuidar o resto do dia. Quando não alongo tendo a esquecer de fazer outras coisas importantes para a manutenção da minha sanidade. Uma coisa puxa a outra. Quando alongo, acabo meditando. Quando medito, acabo indo correr. Quando corro, tenho vontade de comer comida fresca e leve. Quando como bem, me sinto melhor ao longo do dia e acabo pintando mais. Quando pinto, sinto-me competente e satisfeita. Quando me sinto competente e satisfeita, sinto-me mais calma para lidar com os conflitos com as crianças. Lidando de forma zen com as crianças, me sinto uma mãe melhor. No fim do dia tomo minha cerveja porque quero e não porque preciso. Vou dormir cedo. Durmo bem. E o dia seguinte já começa com o pé direito.

E tudo começa com a minha saudaçãozinha ao sol. Um alongamento de nada. Meu gatilho.

E mesmo num dia ruim, sei que esse alongamentozinho de dois minutos e meio é aquela migalhinha no caminho de que preciso. Quando as coisas saem do controle e me vejo querendo ir atrás daqueles famosos "confortos" que no fim pioram minha autoestima (os doces, o álcool, o famoso "hoje não vou correr porque meu dia está ruim e eu mereço não fazer nada"), troco por cuidados comigo: ler um livro, tomar um chá, lavar o cabelo, uma caminhada no mato, um lanche que seja bonito e me faça sentir que estou cuidando de mim e me dando amor de verdade, ao invés de me punir com aquilo que a mídia ensina que é amor (se entupir de sorvete no sofá chorando as mágoas - isso resolve como?). Ou simplesmente peço um abraço. Quantas vezes, num dia ruim, a gente lembra de simplesmente pedir um abraço?

Meus gatilhos positivos me mantiveram de bom humor para lidar com as pequenas coisas do verão que não eram de acordo com minhas expectativas (expectativa é uma m*rda). Ajudou também marido chegar em casa num horário bom para jantar conosco e jogar jogos com as crianças enquanto eu relaxava a cabeça passeando o cachorro no parque. Oito horas da noite e a luz era de quatro e meia, as cigarras cantando, os passarinhos se aninhando para encerrar o dia.

Enfim, lá pelo meio das férias o que ajudou mesmo foi a liberdade das crianças. Havia visto internet afora um video sobre Free Range Parenting, um termo meio piada para tratar da liberdade das crianças no mundo moderno, e caí num livro da jornalista Lenore Skenazy: Free Range Kids. O livro compara a liberdade das crianças de décadas anteriores com as atuais, fala dos medos modernos dos quais mães e pais sofrem e combate tudo isso com dados e fatos, mostrando que, pelo menos na América do Norte e na Europa, o mundo está mais seguro para as crianças. Fala sobre confiança. A mesma confiança que tenho em dar facas nas mãos dos meus filhos para que cortem as próprias frutas, ou que tenho em Thomas para usar o fogão e preparar seu próprio ovo frito com torradas de manhã.

Foi num dia no meio das férias, em que Allex estava em casa trabalhando e nós atravessávamos o parque para ir a uma padaria vinte minutos dali que, cansada de ouvir as reclamações de Thomas, virei e perguntei: "Se eu te desse a chave de casa agora e mandasse você pra casa pra ficar com seu pai, o que você faria?" Ao que ele se empertigou todo o respondeu que voltaria numa boa. "Como você volta pra casa daqui?", perguntei. E ele descreveu todo o caminho, incluindo os momentos em que teria de parar para atravessar a rua olhando para os lados e respeitando a sinalização. Explicou como entrar no prédio e como abrir a porta. E disse que ficaria em casa brincando de Lego enquanto papai trabalha. Pensei por um instante. Mas ele acabou indo para a padaria comigo, reclamando até ganhar um croissant de chocolate, que fez toda a andança valer a pena.

Foram dois os motivos que me impediram de mandar meu filho de oito anos para casa sozinho: primeiro, eu não havia discutido esse passo importante com Allex ainda (parecia-me uma decisão que deveria ser tomada junto) e segundo, eu não sabia se isso era legalmente permitido, uma vez que há alguns lugares do mundo que podem botar uma mãe na cadeia por deixar uma criança dessa idade saracoteando sozinha por aí. (Eu pesquisei a lei de Ontario, claro, e é uma mera questão de bom senso.)

Esse episódio me fez pensar bastante a respeito do meu controle sobre meus filhos e olhá-los de uma outra forma: sob a ótica de suas reais capacidades e não das minhas preocupações. Morar numa cidade segura ajuda um bocado, claro.

E a partir daquele dia, comecei a soltá-los um pouco mais. Ciente de que eles são extremamente responsáveis e não saem mexendo no que não devem nem se inventando encrenca, comecei a a deixá-los experimentarem um pouco de liberdade conforme a oportunidade aparecia, sempre conversando muito a respeito de perigos reais e como reagir a cada um deles (desde a abordagem de estranhos até fogo no prédio). Ao fim do verão eu já estava podendo deixá-los em casa enquanto ia ao mercado rapidamente sem o menor problema. E ir ao mercado sozinha é o tipo de sonho de verão que só uma mãe em tempo integral entende.

Hoje, com as aulas já começadas, a alegria do meu filho é poder ir para casa fazendo um caminho diferente do meu. 

As pequenas liberdades deles trouxeram mais paz aos nossos dias e nosso relacionamento. Fui me vendo mais segura deles e de mim mesma. Num outro dia, Thomas veio me pedir um lanche. Olhei para ele e, rindo, expliquei: "Filho, você tem quase nove anos. Quando você era pequeno, eu precisava escolher o que você comia e quando, pra garantir que você ia crescer forte, porque você ainda não sabia fazer essas coisas. Agora você sabe. Tá com fome? Você sabe abrir a geladeira, usar o fogão e a air fryer. Go crazy. Se alimente. Só peço algum bom senso pra não sair fazendo lanche perto da hora do jantar, por favor, e avisar quando alguma coisa acabou ou está prestes a acabar pra eu poder comprar mais."

Ele demorou alguns minutos pra entender o que eu tinha dito e assimilar aquilo. E saiu correndo pra fazer um enorme sanduíche de tudo o que ele encontrou na geladeira.

Claro, ajuda o fato da minha casa não ter comida "porcaria", como Laura diz. E quando tem, eles perguntam se pode pegar. 

Cafés da manhã tem sido assim ultimamente. Aquela época de "hoje tem mingau" não existe mais. Cada um prepara o seu conforme seus gostos. Se pedem ajuda, ajudo. Hoje quiseram montar o próprio almoço para levar para a escola. Aos fins de semana já aconteceu de eu acordar e os dois já terem tomado café da manhã. A mesa estava posta com as coisas que eu costumo comer de manhã e Laura tinha feito meu cappuccino (ok, a máquina é automática, mas ela ainda tem que lembrar a ordem certa de apertar os botões e lembrar de conectar o reservatório de leite que fica na geladeira).

Eu respiro fundo e fecho os olhos quando eles exageram na quantidade de mel na torrada ou quando resolvem colocar maple syrup no cereal que já vem ligeiramente adoçado. Tá tudo bem. Larga. Sei que sou mais feliz controlando menos e tento abafar o monstro Control-Freak dentro de mim quando ele começa a dar as caras novamente, o que sempre acontece quando estou ou muito cansada ou frustrada com outra situação que saiu do meu controle.

Ao invés de estressar com a bagunça e ficar pedindo um milhão de vezes pra tomar cuidado pra não derrubar o leite na mesa, simplesmente peço pra limpar quando acontece. Agora é automático. Eles sempre limpam a mesa quando cai comida e nem preciso pedir mais. E ninguém mais fica estressado.

Um outro livro que me ajudou com isso foi da Rebeca Wild. Eu já havia lido o Calidad de Vida, sobre ritmos de desenvolvimento infantil, e, achando que precisava reler, peguei outro dela por engano, sobre a vida escolar: The Pestalozzi Experiment, que terminou sendo fantástico, lembrando-me de olhar meus filhos sob outros pontos de vista e compreendê-los melhor.

Em termos de olhar as coisas sob outros pontos de vista e entender melhor, dois outros livros foram fundamentais para mim: Wild Power, de Sjane Hugo Wurlitzer e Alexandra Pope (que fala sobre o ciclo feminino como se fossem estações do ano e como a compreensão de cada fase pode ser usada a seu favor como fonte de força ao invés de limitação) e Mulheres que correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés, PhD (não é só hype, o livro é de fato EXCELENTE - eu tinha pego na biblioteca, mas no meio da leitura resolvi me comprar uma cópia para ler e reler quando precisar e eventualmente dá-lo à Laura).

O verão que se seguiu à minha viagem à Portugal foi uma jornada de reencontro com minha criança interior e a força feminina escondida embaixo de cobranças e expectativas. Foi um verão repleto de energia, força e alegria.

Foi nessa fase boa que minha irmã chegou, depois de dois anos sem vê-la. Fiquei esses dois anos esperando para tomar Aperol Spritz com ela novamente.



Concentramos em parcos sete dias tudo o que queríamos mostrar a ela. Cataratas de Niagara, Niagara on The Lake (uma cidadezinha linda quase com cara de cenográfica), piquenique e "tubing" (descer o rio de bóia) em Elora Gorge park, longos passeios de bicicleta por Toronto, hambúrguer, brunch e ramen nos nossos restaurantes favoritos, muita cerveja e conversa e muitos, muitos jogos de cartas  e tabuleiro com as crianças.
Elora Gorge Park.
Almoço-piquenique, a quintessência do verão canadense.(Muffins de mirtilo, Pão de queijo, Blue corn tortilla chips, melancia, pepinos.)


Niagara Falls
Quando minha irmã foi embora, deixando na gente essa impressão de o tempo ter passado muito rápido, tratamos de nos inventar coisa pra fazer. Aproveitamos as promoções de fim de verão para comprar algo que queríamos havia muito tempo: equipamento de acampar. Costumávamos acampar antes das crianças nascerem. Mas seja por excesso de trabalho, falta de grana, medo pela segurança ou qualquer outro motivo, enquanto moramos no Brasil, o único lugar em que as crianças acamparam foram na sala de casa.

Estava na hora de corrigir isso.

Reservamos um espaço num parque a pouco tempo daqui e lá fomos nós. Compramos nosso equipamento não pensando nos car-campings que os canadenses costumam fazer durante o verão, mas sim nas trilhas que pretendemos fazer com as crianças um dia. Barraca pra quatro ultraleve, saco de dormir que aguenta frio e isolante térmico. Um fogareirozinho potente e minúsculo e uma panela pequenininha, só pra esquentar água. Foi também uma lona e cordas para poder fazer um abrigo do sol e da chuva além da barraca. Allex se arranjou um livro que ensina a fazer nós e se divertiu descobrindo formas diferentes de amarrar a lona às árvores.

No quesito comida, no entanto, confesso que exagerei. Querendo tornar a experiência suficientemente gostosa para que eles quisessem repetir, levei milho e linguiças e queijo haloumi (que parece o coalho) para fazermos no fogo, itens para sanduíches no almoço, legumes e frutas (banana, melancia e mirtilos) de snack, chips, e para o café da manhã, iogurtes e mingau instantâneo, que me trouxe uma lembrança calorosa dos acampamentos com Allex, durante nosso namoro. (Acho até que tem foto aqui no blog de nós dois comendo gororoba em acampamento).

Lá, as crianças se divertiram ajudando a acender a fogueira e depois esculpindo galhos com serra e canivete para fazer os próprios espetos de marshmallow. Claro, esqueci: também houve uma quantidade absurda de Smores (os marshmallows tostados no fogo que vão dentro de dois biscoitos doces com um quadradinho de chocolate que derrete devagar). Vê-los lidando com as lâminas cuidadosamente, focados, me encheu de orgulho. E temos já um canivete para cada um, que ganharão de presente no próximo acampamento.

Desligamos o celular durante toda a viagem. O silêncio era delicioso. Na hora de dormir, confesso que fiquei aflita. As crianças se incomodariam de dormir no chão duro? Há muita gente que leva colchões infláveis, mas quisemos mostrar a eles como se faz de verdade, como nós costumávamos acampar. Para minha surpresa, entraram exaustos na tenda e dormiram imediatamente, a noite toda. Quando acordei, brinquei com Allex, não sabia se o chão duro havia entortado minhas costas ou finalmente colocado elas no lugar. ;) Sei que não dormi a noite toda. Lembrava-me disso dos nossos acampamentos. De acordar toda vez que me virava no saco de dormir. De ouvir os insetos do lado de fora. De ter essa impressão de despertar por 1 minuto a cada meia hora e então voltar a dormir. Ainda assim, acordei descansada e cheia de energia pela primeira vez em muito tempo.

O tamanho desse menino.
Acender o fogo às cinco e meia da manhã e comer o mingau-gororoba quentinho ouvindo o despertar dos pássaros, pés no mato. Sentia-me em casa. Gnocchi parecia feliz e relaxado ali no mato. Raspando as patas e cavocando a terra e o mato antes de dormir como faz em casa, e ríamos: "É, bichinho, faz muito mais sentido fazer isso aqui do que no apartamento, né?" Celular desligado por dois dias. Mato. Cigarras. Pássaros. Aquela sensação de precisar de tão pouco que o acampamento dá. Acordar descansada, mesmo dormindo no chão. É o silêncio do mato que descansa, ou é o silêncio do celular?

Foi bom ter encontrado um mingau-gororoba de uma empresa orgânica de British Columbia que faz misturas de fato gostosas. Porque aquele da Dr. Oetker que a gente costumava levar em trilhas no Brasil tinha gosto de papelão molhado. :P

Estava tudo indo bem até sermos surpreendidos pela chuva no meio de uma trilha. A desvantagem de desligar o celular é não ter acesso à previsão do tempo. Encharcados, precisamos criar uma estratégia inteligente para não enlamearmos a barraca por dentro. Ajudei as crianças, que ficaram secas e quentinhas na barraca lendo gibis enquanto Allex e eu consertávamos a lona que caíra pelo peso da água e tentávamos usar o que havia de carvão molhado para improvisar um churrasco debaixo da lona, protegidos pela chuva. Gnocchi, cheio de lama, aos nossos pés, assistiu por duas horas a saga para acender o fogo já na escuridão da noite. Allex se afastava e oferecia o lugar mais perto do fogo tímido para que eu tentasse secar meus pés e me esquentar. Meus cabelos ainda pingavam da chuva e naquele momento, vendo meu casaco pesado e encharcado a me cobrir, decidi que era hora de investir numa jaqueta de chuva decente.

As crianças correram rápido da barraca seca para debaixo da lona e sentaram-se conosco para comer. Um cruzamento de mariposa gigante e besouro do inferno voou na nossa direção, atraído pelos head-lamps e Allex quase tacou fogo na própria camiseta com o susto. É um monstro-inseto!, Thomas gritou. Conseguimos manter o fogo aceso tempo bastante para assar as últimas linguiças e espigas de milho e prometemos às crianças Smores de café da manhã, já que seria impossível fazê-los debaixo da chuva.

A chuva caiu intensa e cheia de raios e trovões até as quatro da manhã. Gnocchi, com medo, ficava subindo em cima de mim e tentando dormir em cima da minha cara. Mais uma noite de sono intermitente. Mais uma manhã em que parecia renovada e capaz de conquistar o mundo.

Fizemos Smores até acabar com todos os marshmallows do pacote. As crianças brincaram apagar o fogo com arminhas de água e vieram nos ajudar a desmontar a barraca. Gnocchi, que é boy de apê, era o único ansioso para ir para casa e ficou esperando na porta do carro.

Quando voltamos para Toronto e entramos em casa, ansiosos por um banho quente, aqueles dois dias fora pareciam dois meses.

A melhor parte do verão foi acampar, disseram as crianças. "Mas eu quero ficar mais no meio do mato da próxima vez", disseram.

Ok.

O verão ainda está aí apenas como dias num calendário. Setembro começa, as aulas retornam, piscinas públicas são esvaziadas, há mais chuva que dias de sol. O lago está frio demais para convidar a um mergulho. Acabaram os piqueniques. Mas a sensação de ser eu, de ser forte, de poder correr longe continua. A vontade de ver meus filhos crescendo e aprendendo me move cada vez mais. Quando confio neles, vejo suas posturas mudarem, vejo quando olham o mundo de peito aberto. Eles acreditam em si mesmos quando acredito neles. E acredito neles quando acredito em mim.

Não vejo a hora de me enfiar no mato de novo. De dormir e acordar com os pássaros. De sentir o chão. É bom sentir os pés firmes no chão. É essa segurança que te dá vontade de tirá-los do chão e alçar vôo.

Ou talvez sejam os quarenta chegando. Sempre disse a meu marido que depois dos quarenta eu iniciaria meu processo de me tornar a velha louca que pretendo ser.  Taí. Velha louca em formação.


.....

E a comida? Isso ainda é um blog de cozinha? Já não sei bem. Tenho cada vez menos vontade de ficar testando receitas por aí. Às vezes acho mesmo é que precisava fazer um post compilando meus favoritos de todos os tempos e que viraram clássicos insubstituíveis. Porque é desses clássicos que tenho vivido. E o que é invencionice, é feito assim de supetão, valendo-me completamente da intuição e daquilo que aprendi nos últimos vinte anos de cozinha. Não tenho lá muitas receitas para dividir aqui, mas talvez tenha sugestões de como pensar a refeição. Será que basta?

Nas últimas incursões da churrasqueira, resolvi fazer camarões, que estavam fresquinhos e em promoção. Ensinei Laura a limpar os camarões e ela se armou de uma faca com ponta afiada e abriu as costas de um por um, tirando os intestinos deles com precisão. Thomas ficou encarregado de temperá-los e passá-los pelo espeto. Uma marinada rápida em azeite, alho picado e salsinha antes de levá-los ao fogo, uns poucos minutos de cada lado. Acompanharam as últimas espigas de milho da estação, também feitas na churrasqueira, e uma salada simples.


Num outro dia, assei diferentes batatas-doces temperadas com azeite e sal até dourarem, em fogo médio, numa assadeira grande. Quando prontas, afastei as batatas para o lado e depositei ali um filé inteiro de salmão selvagem com a pele para baixo, e que eu já tinha temperado com uma salsa verde improvisada, com muito dill e salsinha e raspas de limão. Juntei um punhado de ervilhas congeladas. Assei por uns dez minutos, até peixe e ervilhas estarem cozidos e servi com salada verde. Achei que faltou sal. Ainda tenho dificuldade de salgar apropriadamente cortes grandes de carnes de qualquer animal, por falta de prática.



Num dia em que eu não achei que tivesse muita coisa na geladeira, grelhei fatias finas da única berinjela grande que eu tinha. Recheei com fatias de queijo, que era para ser mozzarella, mas nem sei mais se usei cheddar branco ou Havarti, que eu considero como sendo "o queijo Prato do Canadá". A gente usa o que tem, substitui com o que pode, e faz tempo que parei com frescuras e preciosismos com ingredientes. Libertação emocional começa também com menos perfeccionismo na cozinha. Enrolei as berinjelas em volta do queijo, coloquei os rolinhos na travessa untada com azeite e reguei com uma mistura de tomates cereja, cebola, salsinha e manjericão, que eu temperara com sal e azeite e deixara meia hora sorando e criando o próprio caldinho. Levei ao forno para gratinar e servi com arroz integral e salada verde.

A foto é feia mas a comida é gostosa. :)

Num almoço tranquilo só com as crianças, antes de ir para o parque, dourei mandioca cozida  (sim! aqui acho mandioca no supermercado!) em muito ghee (porque ando fazendo ghee toda semana para terapia ayurvédica dessa minha família de Vhattas, e ando adorando cozinhar com isso, pois o ghee doura tudo lindamente sem queimar como a manteiga). Tirei a mandioca e foi a vez da batata-doce. Voltei tudo para a panela quente para servir com ervilhas-tortas branqueadas. Tudo polvilhado de salsinha, uma espremida de limão, pimenta-do-reino e acompanhado de uma saladinha rápida de tomates, abacates e queijo.


Ghee e uma joaninha que pelo jeito veio com a gente pra Toronto lá do acampamento.
Para quem quiser fazer ghee, eu considero o melhor jeito (e mais prático) ESSE AQUI.

No restante, a comida aqui em casa tem sido, como há já muitos meses, essencialmente improviso. Algo aconteceu durante toda essa transformação de verão que meio que matou minha vontade de comer doces. Ando me refestelando com frutas de um jeito que nunca havia feito antes. Talvez inspirada pelos lindos pratos de fruta fresca que minha filha se prepara de manhã cedo. Talvez as recomendações ayuvédicas, que me fizeram interromper a febre dos biscoitos e dos bolos há uns meses atrás, tenham influenciado minha cozinha mais do que eu imaginava que fariam. Talvez seja a abundância de frutas frescas e gosotas do verão, que depois desaparecem ao primeiro sinal do outono.

A vontade de ficar fazendo bolos e tortas e afins anda meio sumida. Engraçado, ninguém anda sentindo muita falta. As únicas sobremesas que me aventurei a fazer em agosto (e que não eram sorvetes de fruta) ou não deram certo (como a pamonha de forno que nunca firmou) ou ficaram doces demais e ninguém quis (como o crumble de pêssegos da Alice Medrich - aliás, mesmo os doces da Alice, que sempre me pareceram pouco doces, andam puro açúcar para mim ultimamente. Bizarro.)

Agora a cozinha volta à velha rotina: o famoso quebra-cabeça dos almoços escolares, com dois filhos que gostam e desgostam tudo diferente, precisando pensar em comida que não vire paçoca dentro da lancheira revirada, onde não posso enviar nada com castanhas, e onde tento manter a coisa toda relaxada e enviar lanches que "pareçam" as porcarias industrializadas dos amiguinhos mas que não são.

O verão acabou.

PS: eu havia escrito todo um outro post antes desse que eu escrevi e editei tantas vezes que tinha ficado completamente sem pé nem cabeça e eu não gostei dele. Mas apertei Publish sem querer. Deve ter gente que recebeu por email. Desconsidera a loucura da cabeça da pessoa. No fim eu estava muito mais empolgada em contar as desventuras do verão do que ficar elucubrando sobre processos emocionais. 

Cozinhe isso também!

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