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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Elucubrações acerca de uma minúscula despensa

Minha despensa não é das maiores. Aliás, ela é minúscula. Composta de duas únicas prateleiras de 30x100cm, é preciso uma mente organizada e um grande autocontrole para não comprar mais do que elas comportam. Alguns problemas de estoque (e limpeza) resolvi com estas duas caixas de vime. Uma sem tampa, para os temperos, que manuseio todos os dias, e uma com tampa, tipo baú, para itens de confeitaria, que costumam sair do lugar uma vez por semana apenas. Farinhas e grãos de embalagens abertas vão para potes de vidro. E as validades, você me pergunta? Ah, depois da primeira vez que você deixa encher de caruncho quase 1kg de polenta italiana, você nunca mais deixa o pote encostado por mais de dois meses. Potes com coisas que vencem mais rápido, como farinha integral, ficam na frente. Na prateleira debaixo, massas, itens de café-da-manhã, alho e cebolas numa tigela branca, enlatados.

Tenho com minha despensa a mesma cisma que tenho com minha geladeira: gosto de vê-la esvaziando. Sinto-me muito competente e eficiente quando consigo usar toda a comida que tenho disponível. Então corro ao mercado para encher novamente as prateleiras de todos os itens sem os quais simplesmente não sei cozinhar. E esses, acredito, são os dez itens mais insuportavelmente cruciais na minha despensa, sem os quais fico na cozinha feito barata-tonta:


  1. Azeite extra-virgem: uso para absolutamente tudo; só uso outros óleos quando especificados numa receita ou para fritura por imersão.
  2. Manteiga sem sal: compro de quatro a seis pacotinhos de cada vez, pois entro em depressão quando não há manteiga em casa.
  3. Alho: bobeou, estou refogando alho. Se não tiver cebola, eu me viro. Se não tiver alho, f*deu.
  4. Tomates italianos pelados em lata: a salvação de todo macarrão de fim do mês e a promessa de tomates com gosto de tomates.
  5. Farinha de trigo: se tiver farinha na despensa, não preciso sair correndo para comprar nem massas nem pão.
  6. Ovos orgânicos: aqui em casa vão umas 2 dúzias por mês. Mas também, olha a quantidade de omelete, torta, massa, bolo e sorvete que sai dessa cozinha...
  7. Leite integral: o marido é umbezerro, mas fora isso há todos os itens mencionados acima: bolo, sorvete, massa, torta, molho...
  8. Arroz arbóreo: arroz comum aqui em casa é de vez em quando. O arbóreo, no entanto, é obrigatório. Se estiver acabando, corro para repor, porque nada é mais prático para duas pessoas do que um prato único e versátil como o risotto.
  9. Couscous marroquino: quando estou sem inspiração e pergunto ao Allex o que ele quer comer, a resposta é essa em 99% das vezes.
  10. Queijo parmesão: não dá para fazer massa sem ter queijo ralado em cima; não dá para fazer um risotto, sem queijo no final; não dá para fazer uma fritatta sem ele. Não dá para viver sem ele e ponto. Principalmente se for bom. E de pedaço, para ralar na hora. Meio quilo por mês.
Se tivesse um décimo-primeiro item, incluiria ervas, qualquer uma, fresca ou seca. Mas não, não vamos abusar. Dez está bom. Mas fico curiosa para saber se todo mundo tem essas mesmas necessidades gastronômicas (para não dizer vitais), de modo a prosseguir calmamente em sua vida culinária. E aí? Qual é o seu Top 10 "se não tiver isso na despensa eu peço uma pizza"?

segunda-feira, 23 de março de 2015

Uma sopa de quiabo e como eu reduzi minha conta de supermercado comendo melhor


á escrevi duzentas vezes ao longo desses anos o modo como organizava minhas compras, minha despensa, minha rotina na cozinha. Mas nada culminou tanto em uma melhora na minha alimentação e na minha conta bancária quanto meus hábitos mais recentes.

Como mencionei no post anterior, o ambiente me influenciou um bocado. Quando você tem acesso a frutas e legumes orgânicos de qualidade mas não tem a mesma sorte com laticínios e carnes, você começa a comprar mais de um do que do outro. De repente, o centro do seu prato vira o legume ao invés da proteína, de qualquer espécie. E para dar mais força a esses legumes, você se mune de grãos e cereais e castanhas e sementes, que servem de coadjuvantes para que o legume possa ter uma performance brilhante. O arroz, o feijão, a quinua, a cevada, viram veículo para transportar melhor o sabor dos legumes, ao invés de tratar o brócolis como acompanhamento do arroz. Inverti tudo.

Daí que, ao contrário de outras épocas em que tentei me alimentar mais de grãos integrais, mas deixei estragar sacos inteiros de cevadinha, parei de usar os grãos e farinhas integrais apenas em pratos especiais para isso e os incorporei de vez ao meu dia-a-dia. Comecei a tentar usar a maior quantidade de legumes por refeição e a maior quantidade de grãos e farinhas integrais por semana possíveis. E evitar usar a farinha branca como se a guardasse para uma ocasião especial – ou seja, o contrário.

E a comida no supermercado ficou tão cara, que parei de comprar enlatados e comecei a fazer tudo em casa. O tomate orgânico da feira de fato ficou o mesmo preço do italiano enlatado. Nunca mais comprei tomate em lata. Ou feijões. Iogurte é feito em casa. Queijo cottage é feito em casa. Pão é feito em casa, a não ser pelo ocarional pão francês, quando não deu tempo de fazer mais. Não compro sucos, mas também não faço. Fruta é pra comer de dentada, não pra beber. Quando é pra beber, vira vitamina, que é lanche ou café da manhã, e não acompanhamento pra mais comida. Suco, só limonada. Limonada rende e não estufa a barriga durante a refeição. De resto, só água. Ou chá. Feito em casa, com pouco ou nenhum açúcar. Chá gelado dá pra fazer de litro, e dura uma semana na geladeira. As crianças levam pra escola. De hibisco, de erva-doce, de chá-verde com laranja, preto com limão, de hortelã, de casca de abacaxi...

Comecei a ler livros sobre como as pessoas se alimentavam durante a guerra e tive vergonha de deixar comida estragar. Pirei com a possibilidade de usar mais dos alimentos do que eu usava. E comecei a usar cascas de vegetais e aparas para fazer caldo de legumes, comecei a congelar a água do cozimento de feijões e grãos e verduras para usar em sopas, ensopados, para cozinhar arroz, e assim economizar água da torneira e consumir mais sabores e nutrientes. Comecei a cozinhar com partes de alimentos que eu não sabia que podiam ser consumidos, como a casca da manga, da banana, talos de espinafre e de couve, folhas de cenoura, de beterraba, de nabo, de rabanete... Isso transforma a cenoura que você compra em dois ingredientes diferentes, e vai fazendo render suas refeições e cortando sua conta do mercado. Não precisa comprar espinafre quando as folhas de beterraba estão bonitas, por exemplo.

Ao mesmo tempo em que voltei a comer carne, me interessei pela cozinha vegan, macrobiótica, sem glúten, natureba em geral. E comecei a ver boas substituições e opções. E, ao invés de ir ao mercado comprar leite, comecei a suar as amêndoas que tinha em casa para fazer leite de amêndoas, e ao invés de comprar farinha de trigo, comecei a usar outras farinhas diferentes. Essa gama de opções em casa me fez ir menos ao supermercado. Indo menos ao supermercado para comprar um item que faltava, comprei menos por impulso daquilo de que minha despensa não precisava. De quebra, tornei minha comida ainda mais variada.

E, impulsionada pela condição árida da minha conta bancária de ilustradora no ano passado, quando, por conta da Copa do Mundo, quase nada de trabalho apareceu, comecei a passar uma semana por mês sem ir ao mercado ou à feira. Nesta uma semana sem compras, dou-me a missão de dar fim a tudo que permanece abandonado no freezer ou na despensa. Seja uma sopa de legumes esquecida, seja aqueles últimos 50g de macarrão de arroz que não dá nem pra uma porção, seja o vidrinho de pasta de trufas que minha irmã me trouxe de viagem e que estava fadado a ser guardado para uma ocasião especial até enfim estragar. Esse hábito diminui muito seu desperdício, pois você de fato faz a rapa no armário e na geladeira, estimula sua criatividade e evita que você compre itens supérfluos, duplicados, caros, desnecessários. Faz você olhar para aquele vidro de qualquer coisa em conserva que você comprou há quatro anos e julgava suuuuuper importante para a sua cozinha e descobrir que não, você nunca mais precisa comprar aquilo de novo. Faz você parar de ficar economizando ingrediente especial para uma ocasião especial pra convidados especiais, e começa a transformar o almoço de terça feira em algo especial por causa daquele ingrediente diferente. Mesmo que seja só pra você.

Certo dia, resolvi fazer as contas e descobri que andava gastando 30% menos em comida, apesar de comprar quase tudo orgânico e de qualidade. Quase caí sentada de espanto.

30% é muita coisa. Principalmente quando você lembra que alimenta duas bocas a mais.

A verdade é que cozinhar em casa é mais barato. E cozinhar legumes é mais barato. E cozinhar saudável é mais barato. A verdade é que você não precisa comprar um pacote de 20 reais de quinua pra comer bem. Arroz integral tá mais que bom e é mais em conta. Não precisa de queijo importado. Um cottage feito em casa sai o preço de um litro de leite. Infinitamente mais em conta do que a porcaria cheia de goma vendida em potes plásticos. E melhor pro seu corpinho lindo e da sua família.

De vez em quando me dou um presente. Saí e comprei um salame artesanal de porquinhos felizes. Bem mais caro que um da grande indústria. Mas bem mais gostoso. Bem melhor para meu corpinho, para o da minha família e, claro, para os porquinhos que viraram salame.

Continuo comprando macarrão de grano duro italiano. Mas faço menos macarrão.

Gasto uma fábula em cacau orgânico. Mas cozinho menos doces.

Dá trabalho? Bom, trabalhar para ganhar dinheiro também dá. Se é para ter trabalho, prefiro um que me dê saúde. Trabalhar mais para pagar por conveniências que te deixam, no fim, doente... hmmm... prefiro não. Ganho menos mas faço leite de coco em casa.

Houve gente no facebook que me perguntou sobre minha rotina de compras. Então lá vai: uma vez por mês, mais ou menos, dou uma abastecida nos grãos, leguminosas, castanhas e sementes. Se puder, já cozinho pacotes inteiros de feijões e congelo em porções de 500ml. Só me abasteço de novo quando realmente estou sem opções. Enquanto houver mais de duas variedades de grãos ou feijões, não compro mais nenhum. O objetivo é sempre limpar a despensa e o freezer. Acabo indo ao mercado para compras mais pontuais durante a semana, como para comprar leite, manteiga ou café, itens que não podem esperar eu acabar com a geladeira para sair para comprar. Mas tento não comprar mais nada além do item faltante, a não ser que seja uma promoção fenomenal, como quando encontrei bom chocolate orgânico por metade do preço de um belga. Mas minha regra é só ceder a essas promoções quando são itens que duram bastante. Vou à feira, na banca de orgânicos, uma vez por semana. E compro verduras e frutas e ervas para um batalhão. Quanto mais variedade, melhor. Lá também compro ovos. No mesmo dia já "processo" tudo o que dura mais assim: lavo e seco todas as ervas e verduras, já boto aparas no saco do caldo de legumes no freezer, asso beterrabas, separo folhas de espinafre dos talos (que, assim como as cenouras e outras raízes, duram mais sem as folhas), pelo e congelo tomates muito maduros.

E aí vai a dica: assim que tenho tudo organizado, faço uma lista de todos os itens frescos na cozinha (legumes, verduras, frutas, laticínios ou outros produtos que estragam rápido) e deixo na porta da geladeira. Isso me ajuda a visualizar melhor o que tenho para o almoço sem precisar abrir a geladeira e, de repente, esquecer a berinjela que ficou embaixo do alface. Também corro para o Eat Your Books, ou a internet, e tento encontrar alguns pratos que usem uma boa variedade daquilo que comprei, começando a procurar sempre pelos itens que estragam mais rápido ou que são mais especiais. Escolho alguns pratos para fazer durante a semana e anoto embaixo da lista de produtos na porta da geladeira. Assim, num dia mais atrapalhado, eu consigo em lembrar do que planejara cozinhar e consigo me manter organizada, preparar partes com antecedência, etc.

Quando fui à feira semana passada e vi os quiabos, pequenos e bonitos, lembrei do espinafre que estava na geladeira e precisava ser usado A.S.A.P. Imediatamente pensei na sopa que tomara na viagem a Trinidad e Tobago. Aproveitei que tinha de passar no mercado para comprar leite, e comprei também um coco seco para fazer leite de coco. Chegando em casa, apanhei o livro de cozinha Trini que comprara lá e descobri que a receita levava carne de porco e caranguejo e fiz o que mais tem me ajudado a economizar hoje em dia: adaptei com o que tinha em casa. Isso é novo para mim. Morei a vida toda a dez passos de bons mercados e, se faltasse um ingrediente super específico, frufru e caro, eu corria para comprar. Hoje, não mais. Se só faltou UM ingrediente para o almoço, e dá pra adaptar, eu NÃO SAIO para comprar. É o único momento da minha vida em que acho a preguiça um benefício.

Transformei a sopa num caldo vegan. Usei óleo de coco no lugar de manteiga, refoguei tudo (coisa que não se faz em cozinha africana normalmente, descobri, e a sopa original faz parte da origem africana em Trinidad), mudei proporções segundo o que eu tinha (mais quiabo do que espinafre), e o resultado foi uma sopa deliciosa, que Madame Bochechas repetiu e repetiu e repetiu (ela adora quiabo, e come inclusive cru). Meu Matador de Dragões gostou e queria comer mais, mas a pimenta que coloquei por engano era mais forte do que eu previa, e o pouco que ele conseguiu comer foi acompanhado de um grande copo de leite. O único que comeu mas não gostou foi o marido. Pudera, ele odeia quiabo. E essa é uma sopa para adoradores de quiabo. Sua textura tem uma ligeira viscosidade e seu sabor é um equilíbrio delicioso entre o quiabo, o espinafre e o coco. Pretendo fazê-la muitas vezes mais. Desta vez foi acompanhada de pão sueco caseiro. Outra coisa infinitamente mais barata de fazer em casa (e fácil). Pagar 9 reais em meia dúzia de lascas de pão sueco ninguém merece.


SOPA DE QUIABO E ESPINAFRE
Rendimento: 4 porções pequenas, como entrada ou para ter um acompanhamento

Ingredientes:

  • 1 colh. (sopa) óleo de coco
  • 1 cebola picada
  • 2 dentes de alho picados
  • 1/2 pimenta fresca, picada (com ou sem sementes, variedade à sua escolha)
  • 2-3 ramos de tomilho fresco, só as folhas
  • 250-300g de quiabo, cortado em rodelas, cabinhos descartados
  • 2 xícaras de folhas frescas e espinafre, apertadas na xícara para medir
  • 1 xic. leite de coco (de preferência caseiro)
  • 1 xic. água
  • sal e pimenta-do-reino a gosto
  • um punhado de cebolinha picada


Preparo:

  1. Aqueça o óleo de coco numa panela média, em fogo médio e junte o alho, a cebola, a pimenta e o tomilho. Misture bem e polvilhe uma pitada de sal. Refogue, mexendo às vezes, até a cebola murchar um pouco. 
  2. Junte o quiabo em rodelas e misture bem por um minuto ou dois, até que o quiabo esteja bem encoberto de tempero.'
  3. Junte o espinafre, misture uma ou duas vezes, e acrescente o leite de coco e a água. Misture, deixe levantar fervura, abaixe o fogo e tampe. Cozinhe por cerca de 15-20 minutos, até que o quiabo esteja bem macio e a sopa mais encorpada. 
  4. Junte metade da cebolinha e bata no liquidificador até que fique homogêneo. Volte à panela, acerte o tempero de sal e pimenta, aqueça novamente e sirva, quente, polvilhada com cebolinha.  

A receita do pão sueco vai de brinde, depois do povo pedir pelo facebook. As crianças adoraram levar de lanche na escola, pois é salgado e crocante. Perfeito com queijos e maçãs. Se seus filhos não estão acostumados aos sabores fortes de especiarias, omita ou diminua o cominho, que tem um gosto bastante assertivo nesse pão.

PÃO SUECO DE CENTEIO
(Quase nada adaptado do EXCELENTE Vegetarian Everyday, de David Frenkiel e Luise Vindahl, do blog Green Kitchen Stories)
Rendimento: 12 pães

Ingredientes: 

  • 1 xic. água morna
  • 2 colh. (chá) sal marinho
  • 3 colh. (chá) fermento ativo seco
  • 2 colh. (sopa) sementes de cominho
  • 1/2 xic. buttermilk (os autores dizem que pode-se usar kefir, mas usei soro do queijo cottage, e você pode juntar leite com uma colherinha de vinagre, ou afinar iogurte natural com água)
  • 1 2/3 xic. farinha integral de centeio
  • 1 1/2 xic. farinha integral de trigo (original era spelta, que não se encontra por aqui)
  • 1/4 xic. sementes de linhaça, esmagadas num pilão
  • 2 colh. (sopa) flor de sal ou qualquer sal de grânulos maiores


Preparo:

  1. Numa tigela média, coloque a água, o sal, o fermento, metade das sementes de cominho e misture. Junte o buttermilk. 
  2. Numa outra tigela, misture as farinhas. Junte metade delas à mistura líquida. Gradualmente junte mais das farinhas, misturando até que você consiga sovar. Dependendo da textura das suas farinhas, ou da umidade do ar no dia, talvez seja preciso colocar mais farinha de trigo integral. Acrescente bem aos poucos. A massa não pode grudar nas mãos, mas também não pode ficar seca como massa de macarrão. 
  3. Sove por alguns minutos dentro da tigela. Então divida em 12 bolinhas iguais, coloque numa superfície enfarinhada e cubra com um pano úmido. Deixe descansar por 1 hora.
  4. Pré-aqueça o forno a 205ºC. Coloque uma das bolinhas numa folha de papel-manteiga e abra com um rolo, até virar um disco de 20cm. Os discos devem ficar BEM finos. Corte um circulozinho no dentro, para garantir que vai ficar crocante por igual (não jogue fora, você pode assar todos os circulozinhos no final, como biscoitinhos). Polvilhe com a linhaça moída, sementes de cominho e sal. Espete o disco com um garfo, por toda a superfície, e transfira para a assadeira. Repita com o restante. 
  5. Dependendo da assadeira, podem caber de 2-3 pães por vez. Asse cada assadeira por 8-10 minutos, até que estejam castanhos e crocantes. Fique de olho, pois queimam muito rápido
  6. Transfira para uma grade para que esfriem. Frios, guardados em pote hermético, duram meses. 

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Como um supermercado vira refeição e a simplicidade dos ingredientes

De uma cervejaria artesanal aqui perto.

 Quem estava esperando um post de Natal aqui, lascou-se.

O Natal anda devagar quase parando. Ainda mais porque meus pais (💓) vieram visitar por dez dias no início de Dezembro, e eu é que não ia ficar enfurnada na cozinha - fui é passear. Hoje foi o primeiro dia em que assei biscoitos, os Spekulatius de sempre, porque marido pediu e porque a receita é simples o bastante (e certeira) para triplicar e presentear os professores que foram mais que pacientes e carinhosos com meus filhos nesse semestre.

Aquela lambança de um biscoito por semana, panetone, panforte, torroni e o caramba... eh... cansei.

Além disso, se você me perguntar o que vou preparar de ceia de Natal, a resposta será um sonoro "não sei!". Passei os últimos trinta dias matutando no cardápio, sem chegar a conclusão nenhuma. Será  o primeiro Natal que passaremos apenas nós quatro, e, sem ter uma multidão para alimentar, confesso estar meio perdida. Pensei em vários cortes de carne diferentes de diferentes animais, mas mesmo o mercado municipal não tem aquilo que eu desejava. Então, no melhor estilo Vida Tranquila, dei de ombros e decidi que vou cozinhar o que eu encontrar de interessante no mercado orgânico uns dias antes: ao invés de correr todos os açougues de Toronto e me estressar procurando especificidades, vou na lei do mínimo esforço. Tenho zero interesse de transformar o que deveria ser um bom momento em família numa fonte inesgotável de estresse culinário. Qualquer coisa que encontrar vai bem com batatas. E ficando na cozinha italiana e francesa, nada pedirá temperos exóticos que me façam sair explorando ansiosamente supermercados de outras vizinhanças.

Enfim.

Sou melhor com comida de todo dia do que com comida de festa.

Então estou tentando aplicar à comida de festa a mesma estratégia que uso com a de todo dia.

Porque toda semana, aqui, é sempre igual. Chega sábado e domingo, e eu dou uma vasculhada rápida na geladeira, na despensa e no freezer em busca do que há e do que falta.

Simplificar a cozinha foi um ato de amor próprio. O que um dia fora uma aventura deliciosa, uma empolgante exploração de sabores e técnicas desconhecidas na busca da minha identidade na cozinha, ao longo do tempo tornou-se um fardo, um peso nos ombros provocado pela pressão da nutricionista louca e da chef megalomaníaca dentro de mim, impulsionada pelo mundinho internetístico que me fazia sentir sempre incapaz e insatisfeita com a comida que eu colocava à mesa. Levanta a mão quem segue no Instagram as mães hipster-vegan-gluten-free-quarenta-e-sete-tipos-de-castanha-dentro-de-um prato e não fica depois se sentindo uma mãe nhanha e uma cozinheira meleta porque o seu filho nunca experimentou falafel de moyashi  com queijo de semente de abacate e molho de umbu e sal do himalaia, e agora o paladar dele está arruinado para sempre e ele com certeza não vai mais ser uma pessoa incrível quando crescer.

o/

Parar de surtar na batatinha com essas coisas e voltar a comer comida foi a melhor coisa que fiz por mim e pela minha família. Eu continuo adorando várias receitas que aprendi nas minhas fases naturebas mais enlouquecidas, assim como aprendi horrores quando tinha uma obsessão doida por confeitaria francesa e técnicas complicadas.

Mas basta.

Chega uma hora na vida que você só quer curtir seu macarrãozinho. Com glúten.

A cozinha ficou mais fácil de gerenciar, a lista de compras diminuiu e ficou mais barata, e, a não ser quando coloco nozes nas coisas, não ouço mais nenhum mimimi da família. É mais fácil reutilizar as sobras, há menos itens perecíveis com os quais me preocupar, o desperdício é zero, eu passo menos tempo do meu dia pensando em comida e mais tempo... fazendo qualquer outra coisa, e todo mundo está saudável e feliz.

Ainda tenho a tendência de overthink. Pensar demais e me inventar preocupação é minha maldição, e tenho que lutar contra isso constantemente. No caso, cortar os gatilhos para esse comportamento é o que mais funciona para mim e me dá paz de espírito. Razão pela qual sumi do Instagram, para quem estiver se perguntando. Internet em geral alimenta meu monstro.

Chega de alimentar o monstro.

Prefiro alimentar minha família.

A lista que deixo no Keep é essa, de tudo o que é essencial na minha cozinha. Deixo a lista na ordem em que encontro os produtos no meu mercado. Os itens em azul são aqueles que eu compro quase que invariavelmente toda semana.
  • 3 tipos de fruta (quantidades depende da fruta)
  • 2 tipos de legumes (idem)
  • 2 tipos de folhas (idem)
  • Cebolas
  • Alho
  • Salsão / Aipo
  • Cenouras
  • Salsinha
  • Cebolinhas
  • Avocados
  • Limas /limões
  • 500g de algum grão, normalmente arroz
  • 500g de qualquer tipo de leguminosa (grão de bico, feijão ou lentilha)
  • milho para pipoca
  • 1kg de aveia laminada 
  • 4 litros de leite
  • Iogurte integral (eu compro um pote de 1,75kg, e sai o mesmo preço de fazer o meu e esse é muito bom)
  • Creme de leite fresco (um potinho de 500ml)
  • 1 ou 2 tabletes de manteiga (cada um vem com 450g; depende das receitas a fazer na semana)
  • 500g queijo cheddar branco
  • 500g queijo mozzarella para a pizza
  • 1kg de parmesão
  • 2 caixas de ovos com 12 unidades cada
  • 1 pacote de 250g de prosciutto ou bacon (que uso essencialmente para refogar com cebola e dar gosto a pratos simples)
  • 1 pacote de cereal matinal (tem uma marca orgânica de que gosto muito que usa vários grãos integrais e não tem quase nada de açúcar)
  • 5kg de farinha ( normalmente trigo branca, mas pode ser integral também)
  • 1kg de alguma farinha especial (polvilho, trigo sarraceno, centeio ou farinha de milho para polenta)
  • Cacau em pó (que é mais versátil para ter sempre do que barras de chocolate)
  • Fermento químico
  • Fermento biológico seco
  • Bicarbonato de sódio
  • 2 pacotes de macarrão (de 450g cada)
  • 1 lata de tomate pelado (de 750g, dá para o molho da pizza e mais algum preparo)
  • Azeite de oliva
  • Óleo de semente de uva (que uso quando não quero o gosto forte do azeite, ou para frituras)
  • Vinagre de maçã
  • Tahini (resquício da minha onda uber-natureba, mas que adoro)
  • Manteiga de amendoim natural (que adoro comer no iogurte com frutas)
  • Mostarda de Dijon
  • Ketchup
  • Azeitonas
  • Mel
  • Melado de cana
  • Sal
  • Pimenta-do-reino
  • Açúcar
  • Açúcar mascavo 
  • Extrato de baunilha
  • Café em grão
  • Chás variados
  • 1 pacote grande de chips de tortillas de milho sem sal
  • pão e/ou tortillas de trigo frescas

É  claro que às vezes coloco na lista itens especiais, como um chocolate, um peixe, uma erva diferente, castanhas. Mas essa lista é, via de regra, o que eu faço questão de ter sempre em casa para o bom funcionamento da minha cozinha e da minha sanidade.

Então chega sábado e domingo, varro com os olhos os armários da cozinha e tico no aplicativo tudo o que ainda tem (mesmo que seja bem pouquinho, porque só compro mais quando REALMENTE não tem mais) e tudo o que acabou. Aí entra o pulo do gato: ANTES de botar TUDO o que falta na lista, eu faço o exercício mental (e essa é minha parte favorita, acreditem) de tentar criar refeições com o que há no armário, no freezer e na despensa, como se fosse impossível ir ao mercado àquela semana. Há semanas em que consigo cozinhar apenas com o que está ali, por mais vazia que a geladeira pareça, e vou ao mercado apenas para a manteiga e o leite do café da manhã. Há outras em que todos os vidros e prateleiras estão vazios (por conta do esforço em usar o que tem dos outros dias) e volto de fato carregada da lista toda ali em cima. Mas isso é bem mais raro.

Sabendo quantas refeições consigo produzir com o que tenho, sei exatamente o que eu de fato preciso comprar da lista para completar as refeições que faltam. Anoto as refeições num quadrinho na geladeira, mais o menos na ordem do que vai estragar mais rápido para aquilo que pode esperar mais. E faço a listinha do Keep.

O mais comum é que eu volte do mercado mais ou menos assim, faltando apenas o saco de batatas e o leite, que esqueci de fotografar:

Em sentido horário: couve-flor, lentilhas, cevadinha, creme de leite fresco, ovos, azeitonas pretas, broccolini, folhas de mostarda, cenouras, alho, echalotas (compra de impulso), avocados, grapefuit, 3 tipos diferentes de maçã (duas de cada) e bananas.

 Parece pouco para a semana, mas é preciso lembrar que só faço os jantares. Allex sempre leva de almoço a porção que costuma sobrar do jantar anterior, e o almoço das crianças varia entre diferentes tipos de sanduíche, macarrão com legumes e queijo, ou algum bolinho feito com sobras de grãos e legumes. O meu almoço também faz uso de sobras e quase sempre uma fatia de pão, como mostrei no post anterior. Também isso não costuma contar para o final de semana, quando saímos para comer ou inventamos alguma porcaria no improviso. Fim de semana é dia de almoçar sanduíche, jantar pipoca, e descansar a cabeça.

O cardápio inventado vai para o quadrinho da geladeira. Se eu tiver qualquer ideia diferente para os almoços das crianças e o meu, anoto embaixo.
  
Naquela semana, em que eu tinha umas três linguiças que haviam sobrado dos cachorros-quentes do fim de semana, pensei nas lentilhas e alguma verdura escura. O flyer do mercado dizia que as folhas de mostarda estavam em promoção, então elas foram as escolhidas. Também em promoção estavam os broccolini e a cevadinha. Logo, decidi não comprar arroz aquela semana e levar cevadinha no lugar, que havia muito tempo não comia. Levei o bastante para o jantar com as sobras e mais um tanto para produzir orzotto na semana seguinte.

A promoção se estendia às couves-flor, que eram mais em conta se levadas em par. Uma delas virou aquele bolo de couve-flor maravilhoso do Ottolenghi, e outra virou cobertura de pizza, cheia de azeitonas pretas, segundo a receita do Jim Lahey

Eu pretendia assar as batatas com ervilhas num tray bake, mas de última hora resolvi cozinhá-las e misturá-las a um pouco daquele pesto de folha de erva-doce que ainda havia no freezer. Acompanhei com ovos fritos e um purê de ervilha que estava uma delícia, mas que as crianças não gostaram. (Uns dias depois, o purê de ervilha recusado foi misturado a ovos e farinha e fermento e transformado em  panquequinhas para o lanche da escola. Sucesso.)

Os abacates foram para meu almoço junto com aquele grapefruit pequeno, as maçãs foram para os lanches da escola, e as bananas viraram bolo. O creme de leite e os ovos viraram sorvete de baunilha e a despensa estava novamente vazia no domingo seguinte. 
 

As lentilhas com salsicha não têm segredo. Dourar as linguiças na panela até estarem cozidas, dourar cebola e alho na gordura das linguiças e mais um fio de azeite, e juntar as lentilhas já cozidas, misturando bem para os gostos apurarem. (No caso, minha lentilha sempre leva cenouras e louro.). Uma bela polvilhada de salsinha e um fio de vinagre e pronto. Servir. As folhas de mostarda foram branqueadas e puxadas no azeite e alho. Só.

No caso da cevadinha, eu tinha uma memória fugaz de um prato da Heidi Swanson com cevadinha e raspas de limão, temperada como se fosse um risotto. Primeiro branqueei o broccolini, e depois usei a água do legume para cozinhar a cevadinha. Quando ela estava no ponto, refoguei os broccolini em azeite, alho e pimenta calabresa, juntei a cevadinha com um pouco de caldo, para os gostos se misturarem, e quando o líquido evaporou quase todo, juntei uma bela quantidade de azeite, raspas de limão siciliano, uma espremida do limão para trazer acidez, e um belo punhado de parmesão ralado. O ovo frito é sempre meu acompanhamento favorito para completar uma refeição.



O jeito que melhor funciona para mim na hora de pensar no que fazer para comer, é fazer um quebra cabeças de PRINCIPAL + ACOMPANHAMENTO QUENTE + SALADA com o que tem na geladeira, tentando trocar os papéis dos legumes, como se fosse um jogo de combinações em que as posições não podem se repetir. Ou seja: quem é acompanhamento quente hoje, amanhã tem que ser salada ou principal. O brócolis pode ser o principal se estiver gratinado, por exemplo, e o arroz é o acompanhamento. Mas se o arroz, por sua vez, for de forno, com ovos e queijo, o brócolis e só refogado e acompanha. A cenoura num dia é cozida e temperada com manteiga, no outro dia vai dentro do soufflé, e no outro é raladinha como salada. Se o principal for mais robusto e já tiver legumes, pulo ou o acompanhamento quente ou a salada. 

Eu era muito fã de pratos únicos quando éramos só Allex e eu. Mas com crianças, é com certeza mais fácil pensar em pares ou trios de pratos. Se Laura ou Thomas teimam de não gostar de algo, tem sempre outro elemento no prato para mantê-los alimentados. A única obrigação deles é experimentar de tudo. Mas não precisam gostar nem precisam comer um monte do que não gostaram.(Aliás, sempre foi a melhor estratégia com os dois: eu dizia que só precisava experimentar, e que não precisava gostar; se não gostassem, não precisavam comer mais; mas se eles nem experimentassem, eu nunca saberia que eles não gostam, e então continuaria preparando aquilo TODOS OS DIAS; em contrapartida, se eles experimentassem e não gostassem e me dissessem, eu NUNCA MAIS faria aquilo para eles. FUNCIONA SEMPRE. E quase sempre eles acabam gostando.)

O fato de ter os pratos ali anotados não quer dizer que eu vá de fato prepará-los. Mas tendo eles ali, e sabendo quanto tempo eles levam para ficar prontos, posso trocar, misturar e reinventar, ou escolher de acordo com o meu dia o que é melhor preparar. Se o dia foi um lixo e eu mando tudo às favas e preparo um spaghetti cacio e pepe, não tem problema. Como comprei pouco, nada vai estragar só porque não usei naquele dia. Não há pressão. A cozinha é leve.

No fim, como disse, o exercício de criatividade quando há pouco na geladeira é o que mais empolga como cozinheira. Quem me recomendou o show Salt Fat Acid Heat, com certeza sabe o quando adorei o último episódio, quando Samin Nosrat diz que o que a faz feliz é cozinhar ingredientes simples, de todo dia, que estão disponíveis o ano todo, como cenouras e batatas. Demorei muito para entender esse prazer, contaminada pelos shows e livros de cozinha cheios de ingredientes exóticos e caros para o brasileiro médio. 

Daí que quando o Masterchef Profissionais propôs aquela prova de cozinhar com uma cebola como elemento principal, eu tive essa epifania: se você quer ser um bom cozinheiro, não precisa de nada mais do que cebola, cenoura e salsão. Não apenas como temperos, mas como elementos em si. Quantas refeições você consegue fazer numa semana, se tiver apenas esses três legumes em mãos? Inúmeras. 

Náo existe foto bonita de salsáo gratinado, ainda mais com essa nhaca de luz branca horrorosa do meu teto.
E houve mesmo uma semana depois desta das fotos, em os únicos legumes na minha geladeira eram esses três. E rolou clafoutis de cebola com cenouras vichy, teve risotto de salsão (super delicado) com caldo caseiro, teve arroz integral com salada de cenoura e um incrível salsão gratinado da Marcella Hazan, que estava delicioso. Sim, salsão gratinado. Você tira os filamentos mais duros dos talos externos de uns dois maços de salsão, corta em pedaços de uns sete centímetros e branqueia os pedaços em água fervente. Numa panela larga, você refoga um pouco de cebola e umas fatias picadas de prosciutto na manteiga e azeite, junta os pedaços de salsão, e um de pouco de caldo de carne, só o bastante para brasear. Eu não tinha caldo de carne, mas tinha o caldo do cozimento de grão de bico (que estava bem temperado e uma delícia), e foi isso que usei. Deixa o caldo ferver até quase sumir e o salsão ficar macio. Coloca os talos de salsão numa travessa refratária como se fossem canoinhas, espalhando as cebolas e prosciutto por cima. Polvilha generosamente de parmesão e leva ao forno médio-alto até formar uma casquinha dourada. MARAVILHOSO. Thomas, que não gosta de salsão cru, repetiu e pediu para fazer sempre. Laura, como sempre, para ser do contra, ama salsão cru, mas não gostou dele cozido. Minha sina. Eu faria sim isso de novo. Com simples cogumelos refogados e um panelão de arroz integral, foi uma refeição deliciosa.   

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Olha o título de livro de auto-ajuda: "Como cortei meus gastos e fiquei mais saudável" ;)

Finalmente, depois de analisar um bocado os hábitos aqui de casa e de ficar esmiuçando cada notinha de supermercado, consegui reduzir em 17% meus gastos com supermercado. Não é muito, mas já é um começo.

Meus dois grandes problemas em tentar diminuir esse gasto quando primeiro notei o valor que andava saindo de minha conta eram:
  1. Eu já comprava pouco ou nenhum alimento industrializado.
  2. Os preços em si haviam aumentado ao longo dos anos, e não a quantidade de comida que eu comprava.
Tendo isso em vista, onde diabos eu poderia fazer cortes???

A primeira coisa que fiz foi continuar comprando e comendo da mesma forma por uns dois meses, para que pudesse anotar tudo o que era comprado, em que quantidade e seu preço, e comparar isso com o que restava na despensa no fim do mês. Assim eu saberia se aquilo que eu comprava estava de fato sendo consumido ou se estava apenas ocupando lugar na prateleira de casa, esperando um dia de inspiração. E vamos lá, confessem: todo mundo tem no armário da cozinha algum item comprado para "ter quando precisar", e do qual você só lembra perto da data de vencimento. O resultado é sempre igual: acabamos preparando o tal item completamente sem vontade, só para não jogar no lixo... :P

Tendo a lista pronta, defini o que ali era de fato necessário e o que não era. Dentre os necessários, identifiquei os "estocáveis" (leite longa vida, farinha, açúcar, café, alguns grãos, tomate pelado em lata, macarrão, etc...). Fiz minha lista, fui até a loja de atacado mais próxima e comprei APENAS os itens da lista que estavam disponíveis, sem abrir mão da qualidade das marcas de que gosto.

Resistir às ofertas de coisas de que não precisamos num atacado é bem mais fácil quando você busca apenas alimentos mais próximos de seu estado natural. Você simplesmente pula todo o corredor de bolachas e doces, pula a geladeira dos congelados, e continua focado não em comida pronta, mas comida-ingrediente, que você usa para produzir sua comida de fato. Quanto aos "estocáveis", fico satisfeita se nada no carrinho de compras puder ser comido, por exemplo, na fila do caixa.

Manter-me presa à lista evitou (na maioria das vezes) que eu cometesse o erro do "tá tão barato!". "Noooossa! O coco ralado tá tão barato!" E eu coloco 1kg de coco ralado no carrinho. Convenhamos, eu uso coco ralado uma vez por ano, e nunca mais de 100 ou 200g. Ao invés de pensar "um dia eu posso precisar de coco ralado", comecei a lembrar que eu moro perto de dois ou três supermercados, e que comprar um saquinho de 100g de coco ralado quando eu de fato precisar não vai ser um problema nem um gasto exorbitante.

Foi preciso também esmiuçar mais meus hábitos. Você vê aquele paredão de massas italianas em embalagens de 1,5kg e pensa "ah, eu quero três ou quatro tipos de massa". Já cometi esse erro. Hoje em dia, não comemos massa mais do que umas cinco vezes por mês. Há coisas que não valem a pena serem compradas em quantidade, pois ou elas vão vencer antes que você consiga consumi-las [se for sozinho ou casal, como eu], ou você entrará num frenesi de "acabou o fusilli, então preciso comprar mais", apesar de ainda ter outros dois tipos de massa na despensa.

O interessante é que há dois anos atrás eu já tentara economizar planejando dessa forma, mas não dera certo. Em parte pelo frenesi do fusilli, em parte por causa de nosso estilo de alimentação na época. Depois dos meses de reeducaçnao, é minha geladeira que vê mais rotatividade de produtos, e não minha despensa, que deixou de ser uma base para alimentos frescos, para virar acompanhamento. E isso foi crucial para cortar os gastos.

Saio normalmente com muito pouca coisa do atacadão: leite integral, açúcar orgânico, alguma massa se for preciso, tomate em lata, atum. Então passo no supermercado ao lado de casa e compro itens como o café de que gosto, farinha orgânica branca e 1kg de qualquer outra que esteja acabando (centeio, integral, milho, sarraceno...), arroz integral orgânico (1kg dura meses para nós) e um pacote de meio quilo de algum outro grão (feijão, cevada, quinua...), para se unir aos outros pacotes de meio quilo que compõem minha despensa [vivendo em casal é impossível comprar grãos em mais de meio quilo, a menos que você goste ou não se importe de comer o mesmo tipo de feijão todo dia, ou não se importe em jogar fora. Eu não gosto de nenhuma das alternativas.]

Então chegou a hora dos perecíveis. Ainda no supermercado, compro ovos, manteiga, fermento fresco, um belo pedaço de meio quilo de parmesão e algum queijo fresco. Então, a não ser que seja uma emergência de geladeira vazia, espero o dia da feira e levo comigo a lista dos produtos da estação. Compro comida suficiente para duas semanas, levando sempre mais legumes do que folhas, para que nada seja jogado fora. Como vou sempre à mesma banca, o cheiro verde sai sempre de graça. Aproveito e já compro minhas frutas na banca de trás. Volto para casa carregada, tendo gasto 1/5 do que gastaria em qualquer dos supermercados da região, e só entro de novo no supermercado para comprar um vinho, algum item especial (como cacau em pó ou creme de leite fresco) ou para repor queijos e ovos.

Parece que não há nada de novo em relação ao que eu já fazia, mas a diferença está na quantidade de perecíveis versus estocáveis. Quanto mais legumes e frutas fui colocando em meu cardápio, menos fui gastando com o restante. Comprando sazonais, evito também de comprar importados, bem mais caros. Não parei de tomar meu café gourmet ou de comprar meu queijo Feta, mas comecei a manter minha lista de compras muito, muito simples. Parei de comprar, inclusive, sucos. A única bebida que entra pronta na minha cozinha é alcoólica (hehehe). Um litro de suco custa uma barbaridade, e você tem muito mais nutrientes se comer uma fruta fresca de sobremesa ao invés de um copo de suco de caixinha na hora do almoço.

Claro, um estressadinho dirá: "Aaaah, mas você tem tempo para preparar tudo do zero. Imagina se eu vou fazer massa fresca de macarrão numa terça-feira ou se vou fazer pão toda semana!" E digo: terça-feira levei 35 minutos entre misturar farinha com ovo, abrir e cortar o pappardelle, preparar o molho e cozinhar a massa. Há seis anos atrás eu provavelmente demoraria 2 horas e daria errado. Enquanto escrevo esse post, meu pão, que demorou dez minutos para ser sovado, está crescendo, sozinho na cozinha. Meu iogurte, preparo-o em cinco minutos às 22h, vou dormir e às 6h, quando acordo para correr, coloco-o na geladeira. Nenhum trabalho. Lavo e seco todas as folhas assim que chego da feira, e as envolvo com papel-toalha e acondiciono em potes fechados. Isso me poupa tempo depois, quando só preciso abrir o pote, pegar as folhas e colocar no prato. Costumava demorar uma eternidade para picar uma cebola bem fininho, e hoje em dia meu marido acha divertido me ver picando coisas. PRÁTICA. E prática só se consegue se você fizer todo dia.

Por ter prática em preparar tudo do zero, cozinhar não dá trabalho e não consome tempo. Por isso, pude simplificar muito minha lista de compras e diminuir um bocado meus gastos. De quebra, sinto que comer assim está me tornando muito mais leve e enérgica.

Mas acho que ainda é possível aparar algumas arestas.

Antes que eu receba mais e-mails insandescidos de gente com o dedo em riste na minha cara, deixo MUITO CLARO que não acho que eu estou certa e todo mundo, errado. Esse foi o MEU modo de cortar gastos. Como funcionou para mim, acredito que pode funcionar para outra pessoa. E é claro que eu não sei como é para quem compra carne, por exemplo. Ou para quem tem 10 filhos e trabalha 18 horas por dia. É um desabafo. Relaxe. :D

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Simples é bom. Como o desperdício me ensinou a cozinhar. E um Clafoutis pra se divertir.



Eu sofro de um caso sério de FOMO (Fear of Missing Out), e desta vez não é nem culpa da Internet. Sim, as redes sociais e o acompanhar constante de blogs de estilo de vida e sites de cozinha e viagem com certeza intensificam essa sensação de não estar sendo / fazendo / experimentando o bastante, mas confesso que isso é mesmo um problema intrínseco à minha personalidade, muito antes do advento da conexão discada.

Há quem diga (eu digo) que é culpa dos planetas: isso de ser Libriana com ascendente em Gêmeos não me ajuda em nada na hora de tomar decisões. Se quiser me ver num momento simples de angústia, pergunte-me se quero jantar pizza ou japonês. Se eu decidir por pizza e você me perguntar quais coberturas eu quero combinar em cima da minha, partindo de um cardápio com trinta e duas opções, eu sento num cantinho e choro. Metaforicamente, é claro.

Passei os seis meses de frio dessa terra estranha ansiando pelos meses de calor que trariam alguma variedade de volta à minha mesa, um frescor, um verde que não fosse couve, cores que não viessem de beterrabas. A Primavera custou a chegar. Com a última neve em Abril (argh!), aqueles lindos ingredientes primaveris ainda eram caros e não pareciam combinar com as temperaturas geladas lá fora. Foi apenas quando os termômetros começaram a estabilizar nos vinte graus, e o calor começou a aumentar, que os preços dos aspargos e das cerejas tiveram o efeito inverso, despencando de uma forma tão convidativa quanto os gramados ensolarados nos parques.

O Verão trouxe tudo aquilo que no Brasil parecia comum e sem graça, tem o ano todo, ninguém liga muito: abobrinhas, vagens, berinjelas, melancias, melões, alfaces, milho na espiga. Você nunca se empolgou com uma abobrinha? Fique seis meses sem uma, aí a gente conversa.

Saíram as cerejas e vieram os morangos, os mirtilos, as framboesas, as amoras, e então os pêssegos e as nectarinas e uma fabulosa variedade de ameixas. E as vagens vêm amarelas, verdes e roxas. E os dentes-de-leão vêm vermelhos. Há cinco variedades de rabanetes no mercado. Há melancias de casca tão escura quanto o céu à noite e outras de polpa amarelo-forte. Há manjericão genovês, manjericão gigante, manjericão tailandês. Há tomates de todas as formas e cores e tamanhos. Há batatas jovens de nomes que nunca vi, algumas roxas (mas que não são doces), outras de cascas manchadas, há batatas Viking, batatas Mozart, batatas Fingerling. Há berinjelas gigantes e brancas como um ovo de avestruz. E outras pequeninas e esverdeadas. Há pimentões para combinar com qualquer cor de prato que você tenha em casa. Há legumes e verduras tão coloridos, que têm seu nome precedido do epíteto "Rainbow".

E uma ida ao supermercado ou ao Farmer´s Market, de repente, parece uma visita ao saldão do outlet multimarcas em véspera de Natal. Eu não sei nem o que olhar primeiro.

Tenho minha lista. Depois de um ano aqui, finalmente sou dona de minha cozinha. Sei exatamente o que a gente consome e em qual ritmo. A busca por uma rotina na mudança brusca que lhe tira o chão, e a necessidade do simples e do conforto em momentos emocionalmente complicados e desconfortáveis, transformou minha cozinha num ambiente mais previsível e ordenado, com cardápios um pouco mais fixos, que me permitiram entender melhor nosso padrão de consumo e alimentação.

Sei o que vale a pena comprar no atacado e o que vale a pena pegar em pequenas quantidades toda semana. Sei também exatamente quantas patacas posso gastar toda semana no horti-fruti. Lá vou eu com meu folhetinho do mercado com todas as frutas e verduras em promoção. A meta é comprar três frutas, dois legumes, duas verduras, e repor qualquer básico que esteja faltando, como salsão, cenoura, cebola e alho, salsinha, cebolinha e coisas como pepino e abacate que são consumidos feito água aqui em casa. Lá vou eu, acreditando em minha disciplina e força de vontade zen. E lá me lasco, assim que vejo que já tenho ameixas, melancia e amoras pretas na cesta, mas os pêssegos estão num preço incríiiiiiivel, e pode ser que semana que vem eles não estejam mais aí, afinal, as cerejas sumiram de um dia para o outro, e aquele melão óoooootimo de duas semanas atrás também não deu mais as caras. E pego minhas vagens roxas, minha acelga suíça de talos amarelos, meu pézinho de alface (eita! tá pequeno, essa semana!), e meus tomates coloridos, mas então vejo aqueles pepinos pequeninos que há tempos eu queria transformar em picles, e lembro que precisava de folha de repolho para cobri-los, e olha lá! O repolho está por 99 centavos o pound! Pô! Mas será que levo mesmo essas ameixas? Estão mais baratas porque é época, ou porque não estão tão boas quanto as outras? Porque não pego as outras, amarelas, Mirabeille, que ainda estão aí e a Laura adorou? Será que vou mesmo deixas os pêssegos? As nectarinas estão mais doces que as ameixas? E morango? O morango está sumindo. Vixe. Morango. Será que levo abobrinha de novo? Seis meses sem abobrinha, Ana, seis meses! Nunca comi berinjela branca. Será que tem o  mesmo gosto? Vou levar manjericão. Fiz muito pouco pesto nesse verão, e preciso fazer mais pesto. Cogumelos. Não, péra, deixa os cogumelos para o Outono, que combina mais. Ai! Meu! Deus! Olha aquelas batatas roxas!!! Eu lembro da receita do primeiro livro do Jamie Oliver usando aquelas batatas roxas e eu achava que eram batatas doces e não eram! Caraca!!! Ieeeei! PRECISO EXPERIMENTAR! PODE NÃO TER MAIS SEMANA QUE VEM!

Lou-ca.

Nunca mais na vida critico gente enlouquecida em Shopping com vinte e oito sacolas. Tá? Nunca mais.

Quando cheguei em casa e coloquei tudo na fruteira e na geladeira, tendo carregado uma melancia inteira dentro da minha mochila, porque eu não aguentava mais o peso das duas imensas sacolas da Ikea rasgando meus dedos, Allex começou a rir. "Caramba! O que aconteceu? Estamos estocando para a guerra?"

Pois é. Só que não. Ainda bem.

No dia seguinte, comento com minha amiga: "Eu sou minha melhor versão sob restrição, isso com certeza. Essa abundância de opções me deixa completamente desbaratinada. No Inverno, quando eram só batatas, couve e maçã, eu resolvia a compra da semana em quinze minutos, voltava pra casa e já sabia tudo o que ia cozinhar todos os dias, e a parte mais divertida era criar pratos diferentes com aqueles mesmos ingredientes, pra não enjoar, não encher o saco. Agora, minha geladeira tá tão entulhada que eu não consigo enxergar a luzinha no fundo, e pareço daquelas mulheres com closets do tamanho de quartos de hotel, que dizem que não têm o que vestir: olho para a comida e não sei o que cozinhar."

De fato, fiquei longos períodos de tempo em pé em frente à geladeira aberta, braço apoiado à porta, escaneando todas as frutas e verduras ali e tentando montar na minha mente o melhor quebra-cabeça culinário. A acelga suíça vai murchar antes do repolho, tenho que usar antes. Mas tenho dois tipos de batata e os rabanetes, que vão começar a soltar raízes por conta da umidade. Hmmm... os tomates que deixei na fruteira para amadurecerem estão passando do ponto. Não vou abrir a melancia, porque essa geladeira queima tudo, congela tudo, então vou oferecer as uvas e as amoras antes para as crianças. O que eu faço com essa acelga? Gratin de novo? Afe, a gente comeu gratin semana passada. Mas não quero fazer torta. Tá quente demais para abrir massa. Meu Deus! As crianças voltam às aulas daqui a dois dias! O que elas vão levar de snack?? Rabanete? Hmmm...

Acho muito difícil não cair nessa pegadinha, e acho difícil porque sempre caio quando a oferta é muita. No Inverno, a restrição de comprar apenas "Local" e "Da Estação" (que por conta dessas duas qualidades, também existem em abundância, e, portanto, estão sempre "Em Promoção" - win-win situation), evitava olhar para aquela abobrinha vinda do outro hemisfério e custando um quilo de ouro. Mas no Verão, TUDO é local e da estação, e tudo está com preços relativamente bons. Que é que eu faço? Convenço-me de que todas aquelas verduras vão durar duas semanas, então está tudo bem. Mas a verdade é que compro mais perecíveis do que consigo consumir em uma semana, e acabo preparando legume acompanhado de legume em todas as refeições para não deixar nada estragar, e acabo esquecendo de usar os feijões e o arroz da despensa, que normalmente entram justamente para "dar sustância" e baratear a refeição. Daí que na última semana do mês, acabou a verba do horti-fruti, e rola solto um arroz-feijão-e-ovo, ou spaghetti cacio e pepe. É para essas semanas de prato bege, que eu acabo guardando sempre um potinho de pesto no freezer ou ervilhas congeladas. Ou pelo menos um pouco de salsinha para ter algum frescor no prato. A parte boa é que quando vira o mês, todo mundo está louco para comer salada de novo. ;)

O fato é que eu nunca tinha DE FATO me dado conta disso tudo. 

Daí que durante o último mês assisti a um excelente programa da TV canadense, meio que sem querer, pois eu estava procurando informações sobre a segunda temporada do The Great Canadian Baking Show. O programa, chamado Back In Time for Dinner, mostrava uma família típica canadense, que concordara em ver sua casa, suas roupas e seus hábitos (principalmente alimentares) transformados por uma semana como se vivessem na década de 40. E depois 50 e 60, e assim sucessivamente até os tempos atuais. A série, que depois descobri que se trata da versão canadense do original da BBC britânica (a versão original tem no YouTube!), é muito bem produzida, e mostra a progressão da indústria alimentícia, o impacto da tecnologia e das guerras na produção e disponibilidade de comida, e sobre a relação estreita entre comida e as relações familiares. É muito bom.

Uma das coisas mais interessantes da série, para mim, foi ver a economia doméstica não apenas em tempos de guerra, mas no momento em que a classe média britânica e norte-americana se viu sem a ajuda (cozinheira e empregada) que costumavam ter antes. Foi toda uma geração de mulheres se vendo sozinhas na cozinha, sem nenhum conhecimento ou orientação, tendo que fazer duzentos gramas de carne render uma semana toda para cinco pessoas, correndo o risco de serem multadas ou irem para a cadeia por jogar no lixo uma fatia de pão.

Faz pensar no desperdício de comida, na dureza da guerra e da pobreza, na importância que ganha um prato de comida (lembro as histórias de Marcella Hazan em sua autobiografia), mas essas foram elucubrações minhas e que sei que todos terão ao assistir ao programa. O ponto desse texto é outro, na verdade. Porque ao assistir àquilo, lembrei-me de um livrinho ótimo que li há muitos anos atrás, justamente a respeito da economia doméstica na época da guerra: Como Cozinhar Um Lobo, de M.K.Fisher, livro que já devo ter mencionado aqui, em tantos posts em que falei sobre desperdício de comida. (O modo como ela pedia para que se raspasse com a faquinha qualquer restinho de manteiga que pudesse ter caído do pão, para que pudesse ser usada em outra refeição faz você pensar naquele resto de macarrão que ninguém quis e que você jogou no lixo despreocupadamente.) 

Durante as guerras, os governos criaram cartilhas ensinando como transformar quase nada em uma refeição para sua família. Uma vez ganhei de um amigo uma dessas cartilhas britânicas. Foi esclarecedor ler aquelas palavras e aquelas receitas, não porque eu quisesse implantar uma economia de guerra aqui em casa - ainda que exista sim a piada interna de que nossa despensa parece uma de 1940, mas porque me fez repensar completamente o modo como eu enxergava os ingredientes e montava meus cardápios.

Foi naquele momento em que comecei a pensar minha cozinha com a seguinte restrição: não pode haver desperdício.

Durante anos, esforcei-me, dentro de toda a minha esquizofrenia culinária, alterando completamente a despensa cada vez que conhecia novos sabores e gastronomias, sempre sem muita rotina no que eu decidia cozinhar, a nunca jogar fora o que podia se transformar em refeição. Até chegar ao ponto em que meu lixo da cozinha só contivesse partes realmente não comestíveis. Foi preciso devagarinho educar a família a nunca se servir de mais do que se vai comer, que é melhor repetir do que jogar fora. Pegue pouco, digo às crianças, e depois, se estiver com fome ainda, você pode se servir de mais, ou esperar pela sobremesa. E nunca há sobras no prato a ir para a lixeira. Se sobrou Maple Syrup no prato, repito sempre, é porque tem Maple demais para pouca panqueca. Certa vez, para ilustrar o tamanho do desperdício, cheguei a juntar todo o xarope restante em seus pratos num medidor. Havia mais de três colheres de sopa de Maple Syrup ali, indo para o ralo. Ao ver a quantidade ali numa medida que eles compreendiam, passaram a ser mais cuidadosos na hora de se servirem. Quando exageram, alerto mas não estresso a respeito: boto as minhas panquecas em seus pratos e deixo que elas absorvam aquela pocinha açucarada enquanto eles saem para brincar.

O que finalmente me dei conta, assistindo àquele programa, foi como essa meta de não desperdiçar me ajudou a entender a cozinha, mudou meu olhar em relação à comida e, invariavelmente, tornou-me uma cozinheira melhor, mais prática, mais rápida, e com certeza mais econômica. E percebi que essa é a parte difícil: PENSAR a cozinha. Quando converso com amigos que eu considero ótimos cozinheiros, que gostam de preparar bolos e tortas e criar boas refeições, as reclamações são sempre as mesmas: como é difícil pensar os cardápios todos os dias, criar esse quebra-cabeças com a sua despensa. Seguir a receita é fácil. Executar a técnica aprendida é fácil. Olhar a geladeira e criar algo com o que está lá: essa é a parte complicada.

E é CLARO que é complicada. Porque esse é o tipo de coisa que se aprendia com sua família, observando e ajudando, você via sua avó transformando o arroz de ontem em bolinho, fritando as aparas de massa fresca de macarrão, polvilhando açúcar e servindo de lanche. Ou que se aprende na prática, ao longo de anos cozinhando e cozinhando e cozinhando. Há dez anos atrás, eu precisava dos meus 267 livros de cozinha e mais duas dúzias de sites e blogs para me dizer o que fazer com uma berinjela. Hoje, confesso, quase nunca abro os poucos livros que trouxe, a não ser que a memória traga à tona aquela receita que eu vira um dia enquanto folheava  o livro há meses atrás e que parecia usar os ingredientes que eu tenho.

Isso não quer dizer nada. Não faz de ninguém melhor ou pior cozinheiro. Só tornou minha vida mais fácil. 

Se você não teve uma mãe, um pai, uma avó, um amigo para ensiná-lo o pulo do gato na cozinha, só a experiência vai trazer. Aprendi muito com minha mãe e com minhas avós, e até hoje lembro de meu pai me dizendo que  um bom cozinheiro não joga comida fora. Mas foi o livro de Tamar Adler, An Everlasting Meal, presente de uma leitora querida, que de fato mudou tudo. Trata-se de, grosso modo, um livro sobre sobras. O que fazer com o arroz que empapou, como usar o óleo do vidrinho de anchovas, como transformar um frango só em diversas refeições diferentes. Há quem diga (eu digo) que Tamar Adler é a M.K.Fisher na nossa geração. Se você lê em inglês, leia esse livro. Infelizmente, não acho que exista em português, mas deveria. (Tenho recomendado a todas as pessoas que vêm se queixar dessa dificuldade de pensar a cozinha, e até peguei o livro de novo na biblioteca para reler, pois o meu está com minha irmã, emprestado. Aliás, peguei todos os da M.K. Fisher também.)

O que esse livro me mostrou, e que foi genial na minha evolução como cozinheira, foi que as sobras são (voltando à metáfora do closet cheio de roupa e nada para vestir) uma espécie de peça obrigatória. Você tem que ir a esse evento, mas tem que ser de calça jeans. E o resto? Sei lá, mas tem que ser de jeans. É uma restrição que elimina uma decisão da sua vida e facilita tudo. As sobras funcionam do mesmo jeito: elas precisam ser usadas e já estão lá, muitas vezes já no meio do caminho, até poupando seu tempo na cozinha. São uma base já pronta e obrigatória para se construir algo novo em cima. O que dá pra fazer com a carne de panela que sobrou? Botar no sanduíche? Cobrir de purê e transformar em escondidinho? Misturar a molho de tomate e servir com macarrão? Ou com polenta? Juntar as carninhas a uma alface romana e alguns picles e fazer uma salada, guardando o caldinho da carne para dar sabor a um molho de massa ou uma sopa? Misturar aquela colherada de arroz que sobrou, temperar com coentro e rechear tortillas de trigo? Ou crepes? Que tal crepes de farinha de milho? Ideias infinitas. Mas a base está lá, e se você estiver no pique de ser criativo e construir algo novo ao invés de só requentar no microondas, a brincadeira fica bem mais fácil do que olhar a geladeira cheia de coisa nova e caçar receita para fazer tudo do zero, coisa que, pelo menos para mim, costumava ser mais estressante, porque achava mais receitas para um mesmo ingrediente e nada para outro, e começava a ficar aflita porque precisava de três abobrinhas mas só comprei duas, ou tenho iogurte mas não tenho sour cream, ou porque a receita pedia coentro e só comprei salsinha, ou porque não vou conseguir usar TODAS as berinjelas na torta e aí vai sobrar uma mísera berinjela e eu não queria que sobrasse porque depois vou ter de pensar o que fazer com ela, e ela vai murchar... enfim. Já viu.

Seja um arroz com feijão ou um peixe tchananans com verduras exóticas e molho complicado, minha mente se acostumou a esse quebra-cabeça, de pensar o que dá pra fazer com o que sobrar depois. Vida corrida de mãe (mas que também podia ser vida corrida de quem tem um emprego fora o dia todo e fica três horas no trânsito todo dia), ensinou-me a pensar além daquela refeição, e cozinhar alguns itens a mais para poder recombinar as sobras nos dias seguintes ou simplesmente congelar para uma semana bege de orçamento estourado. Essa restriçãozinha, que parece tão pequena, foi o que me tornou uma cozinheira mais inteligente. E há anos tenho esse desafio comigo mesma, que me faz sentir criativa e virtuosa: na última semana do mês só cozinho com o que tem em casa, até ver todos os potes da despensa e da geladeira vazios; nesses dias costumam sair os pratos mais interessantes, e recorro muito à cucina povera italiana, para transformar um maço de salsão ou meia dúzia de cebolas em algo delicioso, quando não há mais nada de fresco disponível. Acredite, você só pensa em salsão gratinado quando é só isso que sobrou na geladeira.

O não poder desperdiçar fez também com que ao longo dos anos as refeições fossem ficando mais tranquilas, com menos pressão para ter o Selo Internacional de Aprovação dos Chefs Nutricionistas Gourmets Convidados de Fim de Semana e Aquele Seu Primo que Cozinha Bem Doadores de Likes Infinitos da Suprema Rede Social Regente da Vida de Todos os Seres Humanos da Internet e Além.
Um jantar improvisado que parecia impossível para mim há dez anos atrás.

Afinal, tem vezes em que me sinto super esperta, transformando 1/4 de xícara de painço esquecido na despensa há um ano (porque nunca mais comprei painço), uma abobrinha, um ovo e um naco de queijo, em uma refeição para quatro pessoas (o ovo foi na receita dos crepes de sarraceno, que preparei enquanto o painço cozinhava; refoguei a abobrinha com cebola e alho até quase desmanchar, misturei ao painço e ao queijo e recheei os crepes, que foram ao forno com manteiga e foram acompanhados do que sobrara do - pequeno - pé de alface e meio tomate. Alimentou nós quatro e sobrou para o marido levar na marmita no dia seguinte). E tem vezes que pego meia porção de spaghetti, requento na frigideira com azeite e um punhado grande de ervilhas congeladas para dar volume, acompanho com a colher de sopa que sobrou da salada de ontem, e completo com uma torrada com a uma fatia de presunto e queijo que restava, passada no grill pra gratinar. Eu ri muito quando vi que a foto tinha ficado bonita. Porque é macarrão com pão.

Eu sei que normalmente as pessoas jogam fora a salada quando sobra só uma colherada. Mas eu guardo até a próxima refeição. Dependendo da folha, ela não perde muito a textura. Às vezes guardo a salada, mesmo que murchinha, para enfiar num sanduíche de queijo, quando não ligo para a textura e sim para o sabor.

O pior foi Laura, olhando para o prato, uma sobrancelha erguida, as mãos na cintura: "Mamãaaae! Macarrão com sanduíche?? Isso não faz o menor sentido! Macarrão NÃO TEM acompanhamento! A gente come ele sozinho!"

Toma essa.

"Não é pra fazer sentido, Laura. É pra ser comida. Parece ruim?"
"Não. Tá com uma cara gostosa."
"Então, pronto. Coma."

 E  a vida segue.
 
A melhor parte de aprender a pensar as sobras, os restos, as aparas, é relaxar e lembrar que não precisa ter vinte e quatro ingredientes, não precisa ter cara de restaurante, não precisa ter quinze super-foods virtuosos do momento. Pode ser só um prato de comida gostoso. Mesmo que seja macarrão com sanduíche. Ficou todo mundo alimentado para poder correr lá fora no parque nos últimos dias de férias. Não precisa mais que isso. A nossa geração que se encantou de novo com a cozinha como hobby e não como obrigação, que cresceu vendo os programas de culinária mais deliciosos de chefes famosos, e que depois foi massacrada por uma avalanche de informações nutricionais conflitantes e alertas de saúde, às vezes se perde um pouco nisso tudo, e acredita que cozinha é só técnica e receita exata e um amontoado de nutrientes.

Num outro livro de Tamar Adler (acho que recém-lançado, não sei, catei na biblioteca), ela comenta justo sobre isso, sobre a prisão que às vezes é se cozinhar com precisão: 100g disso, 1 colher de chá daquilo, cubinhos de 2cm. As receitas antigas não tinham medidas exatas e muitas vezes sequer instruções muito claras. Lembro sempre das receitas de minhas avós: farinha o quanto baste, coloque na forma e asse até ficar pronto, um cálice de leite, uma colher (qual colher???) de fermento, um pires de açúcar, ou tão somente uma lista de ingredientes, um título e NENHUMA instrução. Essa cozinha intuitiva, aprendida com a observação, com o cozinhar junto e absorver a experiência dos outros, é a coisa mais difícil de se conseguir hoje em dia. Mesmo. Demorei quinze anos para fazer pão sem medida nenhuma, ou pra saber quantos maços de espinafre cru equivalem ao bastante dele cozido para encher uma torta. Ou quanto de cada especiaria colocar no meu curry improvisado para aquela quantidade de lentilhas.

Mas todo mundo chega lá. Tamar Adler e M.K. Fisher me ajudaram muito nisso. E não desperdiçar nada foi o empurrão que eu precisava para continuar. Porque há momentos em que simplesmente não há receita de livro ou de internet que use o desconjunto absurdo de ingredientes e sobras do fundo da sua geladeira, e você tem que simplesmente se jogar e inventar alguma coisa, ao contrário de fazer o que eu fazia há anos atrás, que era sair ao mercado para comprar dez itens que compusessem um prato com aquela uma berinjela na geladeira. O que isso faz é gastar dinheiro e criar mais sobras. E você continua preso à receita. Eu costumava recalcular receitas para fazê-las todos os dias só para duas pessoas, quando não tinha filhos. Hoje, adoro preparar receitas que alimentam seis ou oito bocas, porque sei que terei muitas sobras para reaproveitar e que me pouparão MUITO tempo e trabalho nas próximas refeições.

A melhor coisa é se jogar na aventura de combinar o que tem disponível, usando o que você já sabe fazer como inspiração. Às vezes fica muito bom. Às vezes sua família que te ama come por pura educação (muitas vezes). Outras vezes, na tentativa de não desperdiçar cascas de bananas, você usa vários outros ingredientes para criar algo tão pouco comestível que tudo vai para o lixo mesmo assim, e você se sente uma nhaca, mas aprende que aquilo, daquele jeito, não dá muito certo e não faz mais. Não se sinta mal se ficar ruim. Noutro dia, ao invés de ler livros, Thomas me pediu para contar histórias de todas as comidas ruins que eu já preparara na vida. Olha... dava para virar a noite contando. Muitas dessas histórias viraram piadas de família. Ria, coma como for possível (ketchup serve pra isso), aprenda, siga em frente.

Mas quase sempre, tio Google está aí para receber com carinho as perguntas mais escalafobéticas no seu celular, enquanto volta da escola com as crianças já tarde, sabendo que daqui a uma hora o jantar precisa estar na mesa e que você não tem a mais parca ideia do que fazer: "O que fazer com 1 xícara de curry + 1 batata + meio pepino?" Sempre vai ter uma bizarrice por aí que sirva pelo menos de inspiração para aquela comida virar algo bom e não ir para o lixo. 

Senão, quase tudo pode ser transformado em sanduíche.



.....

ALGUMAS DICAS ÚTEIS E IMPERTINENTES...

 
Uma refeição típica resultado da compra exagerada de legumes: salada de batatas com rabanete e salsão, frittata de cenoura ralada e folhas de rabanete refogadas em cebola e manteiga, e salada de tomates.
Eu coloco de tudo na salada de batatas, dependendo do que tenho. Cenouras cozidas, salsão cru, rabanetes, pepinos, picles, alcaparras, cebolas, nabos, beterrabas, legumes cozidos... na hora de temperar, tento manter uma certa coerência entre ingredientes e nacionalidade da cozinha. Mas se já estiver uma mistureba, azeite, vinagre, sal e pimenta bastam.

Se sobrar tanta salada de batata, que não dá para comer tudo no dia seguinte, coloque tudo dentro de uma boa e velha torta de liquidificador ou transforme em um purê e junte a ovo e farinha e fermento e frite como panquequinhas em manteiga. Se sobrou super pouco, tipo mal dando pra uma pessoa, junte abacate, tomates, pepinos e alface, tempere com azeite e limão e se esbalde (foi meu almoço hoje).

Sobras de verduras ficam ótimas não só em frittatas, mas em massas de panqueca americana, sem açúcar. Tempere com sal e pimenta, misture às verduras à massa e frite. Comecei a fazer isso inspirada nessas blinis de agrião, que usavam fermento biológico.

Quando compro verduras e legumes a mais, pego um momento ocioso e preparo todos de um jeito básico: as folhas de rabanete já estavam refogadas e guardadas num potinho, esperando uso ao longo da semana.

Clafoutis de acelga suíça com milho.
Foi o mesmo com esse clafoutis. Eu já tinha branqueado a acelga suíça (swiss chard), com medo de que murchasse. No fim, nessa receita, esse passo era desnecessário. Sem problemas, piquei e refoguei tudo, e no fim deu na mesma. Não tinha alho poró, então refoguei as partes brancas das cebolinhas super-crescidas que eu tinha no meu freezer e mais uma cebola. Não tinha queijo Gruyere, usei mozzarella. Não tinha dill, usei salsinha. Achei desnecessário o queijo parmesão por cima para dourar, já que tinha mozzarella flutuando na superfície da massa, então ignorei. Esse clafoutis pede crème fraîche, que até tem aqui pra comprar, mas eu não queria sair de casa de novo e nem gastar dinheiro, então usei metade iogurte, metade creme de leite. Dizia para fazer direto na frigideira com os legumes refogados, mas eu bem sei que tudo o que tem ovo GRUDA HORRORES se não tiver sido untado com manteiga, então transferi tudo para uma travessa untada.

Moral da história: ADAPTE. Adapte o quanto puder. Use o que você já sabe e confie mais nisso do que na receita. Substitua livremente ingredientes que você sabe que têm propriedades semelhantes uns com os outros. Esse clafoutis ficou um desbunde, super cremoso e saboroso, e eu tive de prometer sorvete de sobremesa para fazer as crianças pararem de se servir para que sobrasse um teco pra marmita do Allex no dia seguinte (que foi clafoutis e o que sobrou daquela salada de batata roxa).

O tempo é pouco? Salada. Salada no prato transforma uma omelete em refeição. Uma fatia grande de pão dourada do azeite, coberta com os legumes que sobraram de ontem vira refeição com uma salada do lado. Sempre tenho alface em casa e sempre tenho mostarda. Um vinaigrette de azeite, mostarda de dijon, vinagre, cebola picadinha, salsinha e cebolinha faz algumas folhas de alface ficarem robustas e satisfatórias, e é sempre assim que sirvo, pois é meu vinaigrette favorito e combina com tudo o mais que possa acompanhar o alface: o último rabanete da gaveta, cenoura ralada, um teco de pepino, umas batatas cozidas, o meio tomate que alguém esqueceu na geladeira, o talo de salsão.
Qualquer coisa vira refeição com uma salada do lado.
E não precisa ser só salada de alface. Comprara na feira uns cogumelos novos, e Thomas pediu para prepará-los no almoço, com ovos mexidos. Havia muito poucos cogumelos, no entanto, pois eu não esperava dar de cara com o Farmers Market e muito menos com aqueles cogumelos, e estava sem dinheiro na carteira. Os poucos dólares que tinha em moedas compraram dois punhados de Chanterelles. (Aquele tantinho ali na foto lá em cima, era o que eu tinha para transformar em almoço para mim e as crianças, considerando que os cogumelos tinham que ser a estrela do prato.) Chegando em casa, refoguei os cogumelos na manteiga e na cebola, polvilhei com salsinha, servi com os ovos mexidos, completei com uma fatia dourada de pão e... uma salada de tomates. Tomate, sal e azeite. Só. E pronto. Basta.

(Aliás, uma das coisas que mais me entristece nessa onda do sem glúten - a moda, e não sobre quem é de fato celíaco - é o fato de o pão ter sumido das mesas. Nada completa mais um prato que uma fatia de pão, sabem bem os povos lá do Mediterrâneo. Fez o panelão de comida, achou que é pouco? Uma bela fatia de pão dourada em azeite, esfregada com um dente de alho, vai bem com qualquer coisa, principalmente se houver um molho ali esquecido no prato, pronto para ser absorvido pelo miolo do pão.)


 Foram vários os dias de férias em que almoçamos milho grelhado e... uma salada de tomates. As espigas eram imensas e saborosas, e não precisavam de nada além de manteiga e sal. Os tomates vieram apenas para arrematar.


Faça crepes. Montes. O recheio que se coloca neles é super pouco (duas ou três colheres de sopa por crepe?) e faz a sobra de qualquer carne ou legume parecer algo novo e delicioso. Rende, e se sobrar, você pode servir com limão, açúcar e canela de sobremesa no dia seguinte, mesmo que a massa de crepe não leve açúcar. Ou enrolar com alface, queijo e maionese e cortar em rolinhos, e mandar de lanche para as crianças, como wrapps. Ou servir de sobremesa com sorvete e frutas. Ou congelar. Quando estiverem frios, coloque num ziplock e congele. Eles reaquecem na frigideira, um por um. Sobrou arroz e curry? Fica ótimo dentro dos crepes. Sobrou algo mais italiano, recheie os crepes, cubra com molho de tomate, queijo e forno. 

Enfim, faça crepes. Muitos.


Use a água de cozimento das coisas. Branqueou verduras? Use a mesma água para fazer o arroz, que ficará perfumado e nutritivo. Algumas verduras, como espinafre e acelga suíça, deixam a água metálica e preta se deixar que esfrie, então use a água ainda quente imediatamente.

Acelga suíça gratinada, arroz cozido na água da acelga, e a boa e velha salada de tomates.
Vai fazer macarrão com molho de tomates frescos? Pele o tomate na água do macarrão antes da massa entrar. Nunca entendi o povo na TV ter dois, três potes de água fervendo. Tem uma receita italiana de massa com erva-doce que faz isso: a água em que se cozinha a erva-doce (funcho) cozinha a massa em seguida, justamente para a massa pegar o sabor da verdura. Faça isso.

 Se não tiver nada com muita cara de elemento principal, gratine. Pegue sua verdura ou legume, meta no forno com um pouco de queijo e é isso. Esse gratin de verdura do Nigel Slater nada mais é do que verdura branqueada, coberta com um pouco de creme, mostarda e um punhado de queijo. É muito bom. E o creme que sobra no fundo da travessa fica SENSACIONAL sobre o arroz.

O feijão branco que eu descongelei, o molho de tomate que eu tinha pronto, um ovo para cada um cozido ali dentro. Achei pouco, então completei com uma fatia de pão e uma abobrinha refogada.
 Faça muito feijão de uma vez e congele. Tenha sempre molho de tomate. Se você estiver preparando qualquer outra coisa e tiver uma boca de fogão sobrando, vale a pena fazer um molho de tomate. Eu sempre tenho por conta da pizza de sexta-feira. Sei que uma vez por semana comeremos macarrão com o molho de tomate que sobrou da pizza (ou faremos pizza com o molho de tomate que sobrou do macarrão). Às vezes, junto uma sobra com a outra: o feijão de ontem, o molho de tomate de transantontem, e bum! Uma coisa nova. Ovos poché dentro disso tudo, e uma abobrinha refogada para completar, porque achei que tinha ficado pouco.
 Legumes refogados fazem uma porção de macarrão de ontem alimentar três bocas hoje.
 Tinha sobrado um nada de macarrão com molho de tomate, e eu não queria transformar em frittata de novo. Legumes. Refogue legumes o bastante para dar volume e misture à massa na panela até o macarrão ficar quente de novo. Se achar que o macarrão já tava meio passado e não vai rolar um repeteco assim, envolva em um bechamél ou creme de leite e queijo e leve ao forno. Gratinado e borbulhante, ninguém vai falar que o penne passou um pouquinho.

Descomplique.

Sabe arroz? Sabe feijão? Tá ótimo!

No fim das contas, depois de toda a loucura de ingredientes e cozinhas internacionais, e vegan-gluten-free-natureba pela qual minha cozinha passou, sempre que pergunto a meus filhos e meu marido quais são seus pratos favoritos de todos os tempos, a resposta é unânime: arroz, feijão, couve e ovo frito. (Com um empate técnico com spaghetti com molho de tomate.)

Simples é bom. Dá um abraço no simples e convida pra ficar, que ele é seu melhor amigo e você nem sabia.

Agora, GO CRAZY com esse clafoutis. Adorei as proporções do creme, e pretendo usar essa receita mais vezes com outros ingredientes. A quantidade de recheio parece imensa em relação ao creme, mas acho que foi isso que ficou tão bom. Você pode fazer numa travessa maior, mas isso quer dizer que vai cozinhar mais rápido: você QUER que ele fique CREMOSO, e não firme como uma frittata, e por isso gostei de assá-lo numa travessa pequena de paredes altas. Dourou em volta mas não ressecou por dentro. A receita está exatamente como fiz. Deixei na lista de ingredientes apenas o que considero "obrigatório", e meti nos processos a sugestão do que eu coloquei ou colocaria. Essa receita está escrita exatamente como eu penso, com todos os pensamentos que me ocorreram enquanto preparava a receita, de como poderia modificá-la ou adaptá-la.

Divirta-se.

CLAFOUTIS DE VERDURA E MILHO VERDE
(do NY Times - receita original AQUI.)

Ingredientes:
(creme)
  • ¾ xic. leite
  • ¾ xic. de crème fraìche, creme de leite, iogurte, sour cream ou uma mistura de quaisquer deles
  • 4 ovos grandes
  • 2 ½ colh. (sopa) farinha de trigo
  • salsinha picada a gosto ou qualquer outra erva que você goste e que combine com os seus legumes
  • sal a gosto (a receita original dá uma medida exata, mas isso vai depender muito do quanto você salgou seus legumes e de quão salgado é o queijo que está usando - experimente)
  • pimenta do reino a gosto
  • 1 xic. queijo ralado grosso (o que você tiver)
(Legumes)
  • um fio de azeite para refogar os legumes ou um naco de manteiga
  • 1 alho poró grande, ou uma cebola em rodelas ou meias luas finas
  • 2 xic. de milho verde fresco debulhado ou congelado (umas 2-3 espigas)
  • 1 dente de alho picado
  • 1 maço grande de acelga suíça, cortada grosseiramente (ou rasgue com a mão, em pedaços médios, como você rasgaria um pilha de contas vencidas - haha!) ou qualquer outra verdura verde escura que seja mais suave, como espinafre, folhas de mostarda ( se você gosta de amargo, acho que almeirão deve ficar ótimo e eu faria até mesmo com couve, branqueada antes de refogar, talvez, para que fique bem macia.)
Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 190oC. Unte com manteiga * uma forma refratária com capacidade para 2 litros (a minha quadrada tem 20cm e 5cm de altura).  
  2. Numa frigideira, aqueça o azeite ou manteiga ou qualquer gordura que esteja usando e junte a cebola ou alho-poró e uma pitada de sal para que eles liberem um pouco de água e não queimem antes de dourarem.
  3. Quando estiverem brilhantes e macios, junte o alho. Refogue, mexendo com uma colher de pau (sabe por que se pede colher de pau? Pra não riscar sua panela.) até que esteja tudo macio e começando a dourar.
  4. Junte o milho, uma pitada de sal (se quiser, um nadinha de pimenta calabresa fica ótimo), e mexa, recobrindo bem o milho com os temperos.
  5. Junte as verduras cortadas, uma pitada de sal para ajudar a murchá-las, misture, e cozinhe em fogo mais baixo até que as folhas estejam murchas e brilhantes. Cuidado com o fogo para não queimar as cebolas enquanto as folhas murcham por cima (já fiz isso várias vezes). Quando estiver tudo cozido, tire do fogo, experimente, acerte o sal e a pimenta a seu gosto e deixe de lado. 
  6. Numa tigela grande, bata os ovos com um fouet até que espumem um pouco. Junte o creme (ou a mistura que estiver usando) , o leite, e misture. Junte a farinha, misture com o fouet até que ela esteja incorporada, sem pelotas, e então o queijo. Salgue cuidadosamente, pensando em quão salgado é seu queijo. Junte a salsinha e quaisquer outras ervas, pimenta-do-reino e, se quiser, um pouco de noz-moscada ralada na hora, que vai bem com tudo que leva ovo, mas que não é obrigatório. Experimente e corrija o tempero. 
  7. Espalhe os legumes na travessa e cubra com o creme, dando uma cutucada para que o creme escorra por entre os legumes e para que os legumes flutuem um pouco no meio do creme e do queijo. Leve ao forno por 40 minutos, checando de vez em quando, dependendo do tamanho da sua forma. Quando estiver dourado nas bordas e parecer inflado e firme no meio, enfie uma faquinha no centro. Ele vai desinflar, mas a faca deve sair úmida e pegajosa de queijo. Se estiver completamente molhada e pingando, ainda está cru, e se estiver completamente limpa, assou demais - mas ainda vai ser gostoso, então nem comente nada e simplesmente tire do forno e manda o povo sentar pra comer. 
  8. Retire, espere uns cinco minutinhos para não queimar a boca de ninguém, e sirva com uma salada. 

* Um truque que aprendi com a Nigella: guardar os papéis que embrulham a manteiga para esfregar nas formas, assim você não gasta a manteiga para isso. Tenho um saco plástico na geladeira apenas para guardar as embalagens de manteiga até a hora de untar alguma coisa - a louca. 

Cozinhe isso também!

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