terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

A curiosidade matou o gato: minha cozinha fica mais charmosa em preto-e-branco

Detesto Big Brother e todo reality show a que assisto precisa necessariamente ser sobre comida. No entanto, se existe uma coisa que aguça meu lado voyeur é a cozinha alheia. Adoro conhecer as cozinhas das casas de amigos, olhar suas panelas, fuçar em suas gavetas de utensílios, ver o que eles têm na despensa.

Mesmo o lugar onde cresci, a casa de meus pais, continua sendo constante fonte de curiosidade, e minha mãe bem o sabe, pois a primeira coisa que faço ao entrar é abrir sua geladeira. Não sei por quê. Talvez busque alguma inspiração.

Quero saber o que os outros estão comendo, se há xícaras novas no armário, se alguém arranjou algum utensílio novo e utilíssimo que eu possa estar precisando sem nem saber, que livros estão sempre sobre a bancada.

Alguns lêem sobre a vida das celebridades. Eu vejo cozinhas em revistas de decoração. Imagino se pintaria a parede da mesma cor, o que eu faria com aquele espaço, como organizaria minhas quinquilharias naquele armário, imagino como seria cozinhar olhando por aquela janela, para aquela vista. Então, pressupondo que também existam outros curiosos querendo saber com que infraestrutura seu próximo prepara quitutes, compartilho aqui a minha cozinhazinha, minha cucinetta.

Um bolo feio para um prato bonito (UPDATED)

Há uma semana atrás, pedi pela internet um prato de bolo de cerâmica preta, estilosíssimo, que eu queria havia muito tempo. Ok, meu lado prático diz: casa pequena, coisas demais; você não precisa de mais uma tranqueira. Mas meu lado cozinheira (e possivelmente meu lado menininha cor-de-rosa sem noção, completamente suprimido por uma personalidade "tô nem aí") acha um horror não ter um prato decente para expor um bolo.

Quando o bendito chegou, entretanto, foi a decepção das decepções. A cerâmica era vagabunda e o prato viera todo riscado. Estava na cara que a pintura não duraria nem três esfregões com esponja macia. Fazer o quê? Devolvi e pedi meu dinheiro de volta.

Tendo testemunhado minha profunda frustração por causa do prato, minha mãe resolveu ser um doce (para não dizer "mãe do ano") e aplacar minha tristeza com um prato de bolo decente (mais do que decente) da Le Creuset. Lindo, vermelho como minha panela, com bordinhas para aparar caldas que escorrem e que ainda por cima pode ir ao forno. Não fiquei contente, não...

Para estrear o prato, resolvi preparar um bolo do tipo "dá certo sempre", para evitar maiores problemas, e um a que sempre recorro quando estou com preguiça de lavar louça, pois ele não suja mais do que uma tigela e uma colher. Recorri a um livrinho que adoro, que comprei em Verona, nem tanto pelas receitas mas (e é aí que a profissão toma conta) pelo projeto gráfico: Torte Rustiche Come Le Faceva La Nonna ("Bolos rústicos como fazia a vovó"). A carinha de caderno pautado de páginas amareladas, as ilustrações aquareladas, as receitas italianíssimas (e algumas austríacas, como Sacher Torte, Stollen e Apfelstrudel; vê-se que os autores eram do norte)... Como eu poderia resistir?

A primeira vez que fiz esse bolo foi ainda na casa de meus pais, e lembro-me de ter ficado surpresa com sua intensidade. Adoro também seu nome: Il Moro ("O Mouro"), que sempre faz com que me lembre de quando li Othelo pela primeira vez, e me deixa curiosa a respeito da época em que a receita foi criada. Todos os bolos, doces e tortas do livro são, segundo seus idealizadores, parte de uma compilação de vários cadernos de receita antigos e tradicionais, e por isso quase todas as receitas são bastante simples e podem ser feitas com apenas uma colher de pau, ou, no máximo, um liqüidificador. Nada de processadores, nada de etapas complicadas, nada de ingredientes exóticos. E é justamente essa característica tão doméstica que me atrai a esse livro específico, o que considero estranho, já que, em geral, fujo de receitas-lambança "feitas para a dona de casa". Tudo o que, sou obrigada a admitir, afasta-me da cozinha "doméstica" brasileira, me atrai à cucina casalinga... Não consigo evitar, e sei que para muitos é como dizer que não gosto de música brasileira.

Desvios à parte, este não é o bolo mais bonito que eu poderia produzir para estrear o prato, mas é, sem sombra de dúvida, o bolo de chocolate mais fácil do mundo. Como não havia laranjas, usei 1 colher de chá de água de flor de laranjeira, mas acho que ainda prefiro o frescor das próprias frutas, ainda que a flor de laranjeira tenha contribuído com um sabor ligeiramente exótico e, por que não, um toque ainda mais "mourisco". Transcrevo aqui a receita, traduzida, pois eu sinceramente duvide-o-dó que alguém encontre esse livro para comprar em outra língua que não o italiano.

IL MORO
(do livro Torte Rustiche Come Le Faceva La Nonna)
Tempo de preparo: 10 minutos + 20-25 minutos de forno
Rendimento: 8 fatias


Ingredientes:
  • 150g de farinha de trigo
  • 170g de açúcar cristal orgânico
  • 1 ou 2 pitadas de canela
  • 2 colh. (chá) de fermento químico em pó
  • 80g de cacau em pó (NÃO USE chocolate em pó)
  • casca ralada de 1 laranja
  • 100ml de leite
  • 1 ovo

Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 200ºC. Unte e enfarinhe uma forma de bolo de 20cm, forrando o fundo com papel vegetal manteiga. Como o bolo leva muito cacau, ele tende a queimar mais rapidamente.
  2. Peneire os ingredientes secos em uma tigela, misturando-os bem. Junte a casca de laranja e o ovo e misture com uma colher de pau (esqueça aquela sua espátula delicada e use o utensílio mais bruto que tiver, pois a massa é um reboco!). Vá diluindo com o leite, até que fique homogêneo. A massa ficará espessa, escura e brilhante.
  3. Espalhe-a da melhor forma possível na forma, mas não se preocupe demais, pois ela preencherá a forma conforme esquentar. Leve ao forno. A receita original diz para deixar 30 minutos, mas aos 20 ele já dá sinais de estar pronto. Fique de olho e teste com um palito assim que a superfície estiver seca e inflada, pois o bolo precisa conservar certa umidade. Se o palito tiver ainda alguns indícios de massa, está pronto. Se estiver completamente limpo, passou. Ele ficará ainda muito gostoso, mas será um pouco seco. Desenforme, retire o papel do fundo do bolo e deixe esfriar sobre uma grade.
Já fiz esse bolo com sucesso em uma forma de bolo com furo no meio, bem pequena.

[UPDATE: Levei parte do bolo à minha mãe, e minha irmã fez um comentário pertinente: a textura lembra um pouco a de pão-de-mel. Não a agradou muito, pois, segundo ela, é um "bolo de chocolate que não tem gosto de bolo de chocolate". De fato, ele tem qualquer coisa que lembra a intensidade dos bolos de especiarias que europeus adoram fazer no natal. Claro, o livro sendo italiano, com receitas de avós italianas de verdade, não poderia se esperar um bolo com gosto de brasileiro. De qualquer forma, achei bom deixar isso muito bem avisado, para que ninguém saísse produzindo o bendito desavisado, achando que é um daqueles bolos que qualquer criança gosta. Ok?]

"Não gosto" não é desculpa

Desde que nos mudamos ouço do Allex "não gosto de mandioquinha; nem precisa fazer, que eu não vou comer". Eu, contudo, adoro mandioquinha. Mas até aí eu gosto de tudo. E lá veio a danada na cesta orgânica. Pobre Allex, pensei.

Como preparara arroz e feijão preto para o jantar, resolvi aproveitar a deixa para preparar as danadas. Mas não as queria de um jeito muito comum, ou Allex sequer as olharia. Era preciso um algo mais, um quê de exótico, que tornasse o tubérculo mais interessante aos seus olhos.

Folheando o livro de Nigella, Feast, encontrei uma receita de parsnips assados com maple syrup, e imediatamente soube o que fazer com minhas mandioquinhas.

Para duas pessoas, descasquei e cortei em palitos grossos 1 mandioquinha grande; cobri os palitos com água e sal e levei ao fogo até que elas estivessem macias, mas não se desmanchando. Escorri-as, e misturei-as a 3 colh. (sopa) de azeite de oliva e 1 colh. (sopa) de maple syrup, e levei a assadeira ao forno a 200ºC por cerca de 20 minutos, virando-as uma ou duas vezes, até que estivessem douradas e crocantes por fora.

O Sr. "Não Gosto De Mandioquinhas" confessou ter ido à cozinha surrupiar mais alguns palitos crocantes e adocicados após o jantar. Acabou tudo tão rápido, que nem foto deu para tirar.

Encerro meu caso.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Torta "Fui ver Waitress e fiquei morrendo de vontade de fazer torta"

Ontem finalmente consegui ver o filme Waitress, e tive, provavelmente, a mesma reação que todos os outros expectadores: corri para casa e fiz uma torta.

Há pontos positivos e negativos nessa receita inventada à la Jenna. Por um lado, os sabores realmente funcionaram (e não havia por que ser diferente). Por outro, a pressa e a distração quase puseram a torta a perder.

Havia pêras orgânicas na geladeira e um pote de mascarpone pela metade, e imediatamente soube que queria uma torta feita dessa mistura. Descasquei três pêras pequenas, retirei seus miolos e cozinhei-as em fogo baixo em 625ml de água e 150g de açúcar cristal orgânico, até que estivessem macias. Este é o primeiro ponto negativo: tive tanto medo de que as pêras desmanchassem, que não as cozinhei o suficiente, e elas ficaram mais firmes do que eu pretendia. Deixei que elas esfriassem no xarope enquanto preparava a massa.

Esta, por sua vez, foi tirada ipsis literis do livro Jamie At Home, com a única substituição de raspas de limão por noz-moscada. Adianto desde já que não gostei do resultado. Estou acostumada a produzir massas de torta muito leves e flocosas, e esta ficou dura como um biscoito, o que não era meu objetivo quando imaginei essa torta suave e macia. De qualquer forma, fiz metade da receita do livro e forrei com 2/3 da massa (o resto foi para o freezer) uma forma de 21cm. Assei-a no forno a 180ºC, forrada com papel alumínio e feijões por 15 minutos e depois terminei de dourá-la, sem os feijões e o papel, por mais 10 minutos. Retirei-a da forma e deixei que esfriasse sobre uma grade, para que eu aplicasse o recheio.

Em uma tigela, misturei a cerca de 150g de mascarpone 3 colh. (sopa) de açúcar baunilhado, 2 colh. (chá) de aguardente de pera, 1 colh. (chá) de leite e uma pitada de noz-moscada, até que o creme ficasse homogêneo e acetinado. Apliquei essa mistura sobre o fundo da torta fria, espalhando bem. Então fatiei as pêras e as dispus de forma um pouco displicente sobre o mascarpone.

Aí entra a distração que causou o erro no julgamento. A torta estava pronta, e poderia ir à geladeira ou à mesa. No entanto, eu não estava satisfeita com o aspecto pálido das frutas, e queria que elas tivessem as pontas mais coradas. Se tivesse um maçarico e boa pontaria, teria resolvido isso rapidamente, carmelizando apenas as pêras e deixando o creme (que jazia por baixo das fatias de fruta, devidamente escondido e protegido) intacto. No entanto, polvilhei açúcar por cima e coloquei a torta sob o grill do forno, apenas para me dar conta de que as pêras jamais caramelizariam sob o grill tão rapidamente a ponto de não interferir na textura do creme, pelo simples fato de terem sido cozidas, e precisarem de tempo para perder toda a água absorvida até que só restasse o açúcar a ser queimado. Além disso, esqueci-me do fato de que a equação fruta+açúcar+calor geraria um xarope indesejado, que tornaria o queijo aguado. A mistura do queijo, antes firme, de repente não suportava mais o peso das frutas, que afundaram, colocando a perder a minha trabalheira de tentar construir alguma forma geométrica visualmente agradável com três pêras de formatos tão variados.

Na hora de servir, fiquei decepcionada com justamente esses atributos, mas só hoje, depois de uma noite na geladeira, seu sabor suplantou seus defeitos e me arrependi de ter falado tão mal dela ontem ao meu convidado.

É uma torta a ser repetida com certeza, mas com pêras muito bem cozidas, sem a parte do grill e com uma massa melhor.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Risotto de alho-poró e mascarpone

O vício em risotto sempre fala mais alto quando me falta inspiração para fazer qualquer outra coisa com um legume.

Para 300g de arroz arbóreo, refoguei no azeite 2 ramos de tomilho, 1 dente de alho e 1/2 cebola picados até amaciar, juntei 2 alhos-poró médios fatiados fino e deixei que amaciassem e ficassem translúcidos, sem dourar. Acrescentei o arroz e prossegui normalmente, com caldo de legumes. Quando risotto estava no ponto, juntei um naco generosíssimo de manteiga, um punhado igualmente exagerado de parmesão ralado na hora, pimenta-do-reino e o toque final: 2 colheres (sopa) cheias de queijo mascarpone trazido diretamente da Itália pela cunhada.

Barriga cheia e paladar satisfeitíssimo.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Terror de ontem, delícia de hoje

Coisas como gibis contribuíram para a formação de meu preconceito infantil contra legumes como o quiabo. Afinal, sempre que se coloca em uma história infantil algum alimento que a criança, dentro do contexto da trama, deva achar nojento, é sempre quiabo ou jiló. Por isso, detestava quiabo sem nunca tê-lo provado. E olha que eu era uma criança razoavelmente aventureira.

Demorei cerca de 23 anos para provar meu primeiro quiabo, e só porque minha mãe me garantiu que sua técnica o livrava da "baba". Bom, foi amor à primeira mordida, e me arrependi por ter demorado tanto tempo para me desfazer do preconceito.

Fiquei pensando o quanto o coitado do quiabo não sofre simplesmente pelo modo como é descrito. Se fosse dito que o legume tem o centro gelatinoso, isso seria mais ou menos repulsivo do que dizer que ele possui "baba"?

Acredito piamente no amadurecimento do paladar de um ser humano, e acho que isso está diretamente relacionado ao amadurecimento em geral de um indivíduo. Quando era pequena, coisas como espinafre e escarola faziam com que eu torcesse o nariz e cruzasse os braços à mesa, e ria quando meus pais diziam que começaria a gostar de coisas amargas quando ficasse adulta. De fato, as pessoas crescem e surgem um milhão de oportunidades de se experimentar novamente ou pela primeira vez algo que era um terror de infância, e, a não ser que haja algum episódio traumático relacionado, dificilmente obtém-se o mesmo veredito.

Sendo sincera, tenho uma cisma violenta com adultos que têm paladar de criança. Gente com mais de 20 anos na cara que se recusa a sair da tríade arroz, bife e batata-frita me dá verdadeiros calafrios, e normalmente não consigo conversar com uma pessoa que se recuse a experimentar qualquer coisa de nova. Parece-me falta de confiança no outro. Quando meus pais diziam "experimenta que é gostoso", eu confiava neles. Não prometia gostar da coisa, mas pelo menos tentaria, pois meus pais nunca mentiriam para mim ou tentariam me envenenar. Já ouvi calamidades na minha própria casa quando uma convidada fez cara de nojo para um pão recheado com molho pesto, simplesmente pelo recheio ser verde. Pode uma pessoa destas? Deveria ou não ter abandonado o bom senso e chutado a mulher para fora do prédio??

De qualquer forma, não preciso dizer para ninguém que hoje espinafre e escarola estão entre minhas verduras favoritas.

Quando recebi o quiabo na cesta orgânica, fiquei feliz, pois, apesar de gostar dele, acho que o marido jogaria uma tigela na minha cabeça se eu saísse especificamente para comprar algo que ele (de novo, ai, ai) não gosta. Usei como base algumas receitas árabes (o pessoal naquela parte do mundo sabe o que é bom e come muito quiabo) e as dicas maternas (o vinagre é a peça-chave), e o resultado não decepcionou. Allex nem provou ainda, mas acho que, desta vez e apenas desta vez, vou poupá-lo. Desde que o conheci até que ele tem sido muito colaborador, e tem experimentado de tudo, mesmo quando me garante de pé junto que não consegue nem ficar na mesma sala que a comida em questão.

Sem problemas. Fica tudo para mim, acompanhado de uma salada de alface e lentilhas verdes ao curry.

Quanto ao jiló, ainda não tive chances de experimentar. Quem sabe ele não vem um dia na cesta?

QUIABO (sem baba) DO MEU JEITO
Tempo de preparo: 30 minutos
Rendimento: 3-4 porções como acompanhamento


Ingredientes:
  • 400g de quiabo
  • 1/2 cebola fatiada fino
  • 1 dente de alho fatiado fino
  • 1 colh. (sopa) de azeite
  • 1/2 colh. (sopa) de vinagre branco suave (de Champagne)
  • 1 pitada de açúcar
  • sal e pimenta-do-reino
  • 1 punhado de salsinha picada

Preparo:
  1. Corte fora as duas extremidades dos quiabos. Corte-os em pedaços de 2-3cm e os coloque em uma tigela. Lave em umas 3 trocas de água e escorra.
  2. Em uma panela ou frigideira funda, aqueça o azeite e doure a cebola e o alho em fogo baixo, até que fiquem macios e ligeiramente dourados. Junte o quiabo, mexendo bem, por cerca de 5 minutos.
  3. Coloque água suficiente para quase cobri-los, salgue bem, tempere com pimenta e junte o açúcar e o vinagre. Mexa e deixe ferver em fogo baixo até que os quiabos estejam cozidos. Junte mais água se necessário.
  4. Escorra, acerte o tempero, polvilhe com a salsinha picada e sirva quente ou frio.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

VÍTIMAS CULINÁRIAS 4: cookies sensacionais para o mais analfabeto dos cozinheiros

Uni agradavelmente minha recente vontade de fazer cookies ao apetite de meus colegas de corrida. Eu lhes prometi que levaria quitutes amanhã, e me pus logo a procurar uma receita de cookies que superasse a última batelada que lhes levara. Fui a meu livro mais confiável e a foto (a única de todo o capítulo) dos Double Chocolate Macadamia Chunk Cookies me conquistou com sua cor castanha intensa pontilhada de branco e dourado. Fiz muito poucas adaptações à receita, de acordo com o que havia na despensa e com meus caprichos.

Estes são sem sombra de dúvida os cookies mais deliciosamente intensos, e ao mesmo tempo mais ridiculamente fáceis que já provei. A massa feita de muito chocolate amargo derretido e cacau em pó fica escura, intensa, macia, derretendo na boca. O que lhe adiciona profundidade e um toque extra de doçura são, respectivamente, as castanhas de caju sem sal e o chocolate branco, crocantes. Com certeza encontrei um novo favorito.

No que se refere à produção, que tal fazer cookies que não requerem nem batedeiras nem braços fortes? Basta uma colher. É inclusive aconselhável que não se misture demais a massa. Podia ser mais fácil? Esses são os doces perfeitos para um cozinheiro de primeira viagem ou para crianças. Mas peço encarecidamente para que sejam usados ingredientes de qualidade: um chocolate tipo cobertura que não tenha cacau suficiente pode deixar o cookie doce demais. Mas, até aí, há quem goste de qualquer coisa.

Os biscoitos já estão devidamente guardados, esperando para serem devorados amanhã de manhã. E azar de quem faltar no treino...

COOKIES DE CHOCOLATE COM CASTANHAS DE CAJU
(Ligeiramente adaptado do livro Professional Baking)
Tempo de preparo: 30 minutos
Rendimento: 30 cookies de 5cm de diâmetro


Ingredientes:
  • 250g de chocolate amargo com 50% de cacau
  • 85g de manteiga sem sal
  • 45g de açúcar cristal orgânico
  • 1 ovo extra-grande orgânico
  • 2 pitadas de sal
  • 125g de farinha de trigo
  • 10g de cacau em pó de qualidade (NÃO use chocolate em pó)
  • 3g de fermento químico em pó
  • 95g de chocolate branco de qualidade picado (que tenha como única gordura a manteiga de cacau)
  • 45g de castanhas de caju SEM SAL picadas
Preparo:
  1. Derreta o chocolate amargo e a manteiga em banho maria e reserve.
  2. Misture em uma tigela grande o ovo, o açúcar e o sal, apenas até que fique homogêneo. (Não deixe que espume, ou o cookie crescerá muito e ficará esfarelento demais.) Junte o chocolate derretido e misture.
  3. Peneire a farinha, o cacau e o fermento e misture ao chocolate, incorporando bem. Junte as castanhas e o chocolate branco e mexa até que fiquem bem espalhados na massa, que parecerá um pouco com massa de brownies.
  4. Forre uma assadeira bem grande com papel-manteiga e, com a ajuda de uma colher de sopa, disponha os pedaços de massa, uns 3-4cm distantes umas das outras. Você pode fazê-los menores, com uma colher de chá. Faça isso rapidamente, pois a massa endurece conforme passa o tempo.
  5. Com as costas de uma colher ou o socador de um pilão, pressione ligeiramente os pedaços de massa para que fiquem com 1cm de altura. Leve ao forno pré-aquecido a 180ºC por 15 minutos (10 minutos, de os biscoitos forem menores).
  6. Retire do forno. Os biscoitos parecerão secos na superfície, sem aquele aspecto brilhante de massa crua, mas estarão bastante moles. Deixe-os na assadeira por 5 minutos (longe de correntes de ar, pois elas podem rachar os cookies) e então retire-os cuidadosamente com uma espátula fina de metal, deixando que terminem de esfriar sobre uma grade. Quando frios, guarde-os em um pote fechado hermeticamente.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Pierre Hermé 3 x 3 Ana Elisa: uma guerra que quero muito perder


Na hora do almoço tive um comichão incontrolável, uma vontade incrível de fazer bolo. Olhei para todos os meus livros, mas aquele continuava me assombrando. E lá vamos nós...

A receita é bastante simples, na verdade, ainda que bizarra. Hermé pede para que se derreta a manteiga antes de batê-la com o açúcar, ao invés do processo normal de batê-la apenas em temperatura ambiente, para obter um creme fofo. Seguindo seus passos, não é um creme fofo, nem de longe, que se obtém.

Mas vamos lá, nada de derrotismo logo no começo. Junto as gemas, um pouco de baunilha (que não constava na receita, mas não suportaria comer um bolo branco com gosto de ovo) e junto a farinha peneirada. A coisa toda fica com cara de massa choux, e muito pouco semelhante a qualquer coisa que remeta à massa de bolo. Cabeça erguida, e vamos em frente. Acredito que esse é o único momento que tende ao desastre: a hora de incorporar algo leve e delicado como claras em neve a uma massa espessa e pesada como a que havia à minha frente. Ainda bem, no entanto, que a experiência nessas horas fala mais alto, e, depois de incorporadas as claras, a massa era leve e uniforme, como deveria ser.

Divido a massa em duas e acrescento a quantidade fenomenal de cacau, que, por sorte, era exatamente o que restava na despensa. A metade de massa misturada ao cacau tomou forma de... como posso descrever? De lama seca, para não dizer outra coisa. Impossível de ser "despejada" na forma, a massa teve de ser arrancada da tigela e atirada à forma untada e enfarinhada, violentamente.

Eu não sei o que houve comigo nessa hora. Havia lido a receita de cabo a rabo, como sempre faço, antes de começar. Por algum motivo (talvez fosse o espanto com a textura da massa ao longo dos processos), não a reli e acabei pisando na bola. Esqueci de forrar a forma com papel-manteiga. E ainda por cima (porque chocolate nem queima fácil não) inverti toda a ordem e despejei na forma: massa com cacau, sem cacau, com cacau, sem cacau. De modo que ao invés de obter um lindo bolo dourado com uma camada escura escondida, consegui um bolo tipo "mancha de nascença".

Tudo no forno. Como sou prevenida, deixei marcados 45 minutos no timer em lugar dos 50 pedidos no livro. Aos 40, abri a porta e testei o bolo com uma faca. Apenas a parte de chocolate deixara vestígios na lâmina. Aos 45 (veja bem: 45, não 50), o bolo estava queimado. Pronto, porém queimado.

Sabia que se o deixasse na forma, ele continuaria o cozimento, e, vendo como ele se desprendia facilmente das laterais, tentei desenformá-lo. Vi, desalentada, apenas sua metade superior despencar na minha mão.

Xinguei um pouco.

Apanhei então uma espátula de bambu que ganhara dos sogros e que, para dizer a verdade, jamais usara, e encontrei para ela grande serventia: consegui retirar a parte de baixo do bolo sem maiores estragos e encaixá-la à sua metade solitária, de modo que, olhando para o bendito, nem se vê a fenda.

Deixei que esfriasse antes de experimentá-lo, e surpreendi-me. Ainda que prefira bolos marmorizados mais leves, este ficou muito bom e muito rico. Sua parte de chocolate é quase um brownie no meio do bolo branco. O excesso descomunal de manteiga para um bolo tão pequeno, contudo, torna-o mais esfarelento do que minhas receitas favoritas de bolo marmorizado. Estas costumam ter ambas as massas bastante líquidas, de modo que, após depositá-las em camadas na forma, pode-se, com uma faca, criar desenhos que de fato façam com que o bolo faça jus ao nome.

De qualquer forma, o bolo ficou bom, deu tudo certo, Hermé está quase perdoado. Mas nunca mais asso um só bolo seu sem papel manteiga no fundo. Afe!

BOLO MÁRMORE DE PIERRE HERMÉ
(Descaradamente copiado do livro Larousse do Chocolate, apesar de isso não ser do meu feitio, só porque ainda estou com raivinha do cara)
Tempo de preparo: 20 minutos + 50 min. de forno
Rendimento: 6-8 fatias


Ingredientes:
  • 175g de manteiga
  • 200g de açúcar
  • 175g de farinha de trigo
  • 1/2 colh. (sopa) de fermento químico em pó
  • 3 ovos
  • 50g de cacau em pó
Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 180ºC. Separe as claras das gemas.
  2. Derreta a manteiga em fogo baixo. Bata com o açúcar. Junte as gemas e misture bem até ficar homogêneo. Peneire a farinha com o fermento e incorpore à mistura de manteiga.
  3. Bata as claras em picos firmes e misture aos poucos e com cuidado à massa, mexendo com uma espátula sempre no mesmo sentido. Divida a massa em duas partes iguais.
  4. Peneire o cacau sobre uma das tigelas de massa e misture.
  5. Unte e enfarinhe uma forma de bolo inglês de 22cm e forre com papel manteiga. Despeje metade da massa sem cacau, cubra com a massa com cacau e novamente com a sem cacau. Leve ao forno e deixe assar por 50 minutos, ou até que uma faquinha saia limpa quando inserida em seu centro. Desenforme e deixe esfriar antes de servir.

Meu blog é bom prá burro

Fiquei lisonjeada hoje por ter recebido esse prêmio de dois blogs diferentes: da Fer e da Lara. Agora nem sei o que faço, se nomeio 7 ou se tenho de nomear 14. Mas sempre acho engraçado esses prêmios em que quem recebe tem que nomear mais 7, que têm de nomear mais 7, e assim numa progressão geométrica que resulta em todo mundo recebendo o prêmio e todo mundo feliz. É com certeza uma das idéias mais democráticas da internet. Mas e aí? E se o blog que você lê já foi nomeado por alguém que te nomeou? Pode repetir?

Eu nomeio... hm... dexeuver... é tanta gente... Ok, vou ter de fazer uni-duni-tê, e espero que ninguém fique ofendido. Seguem os escolhidos, sem ordem de preferência:
Khodair
Brincando de Casinha
Technicolor Kitchen
Comidinhas do Bem
Agdá
The Inner Life of Food
Amouse Bouche

Vamos às regras:
1 - Este prémio deve ser atribuído aos blogs que considerem serem bons. Entende-se como "bom" os blogs que costuma visitar regularmente e onde deixa comentários;
2 - Só se recebeu o "É um blog muito bom sim senhora", deve escrever um post incluindo:. a pessoa que lhe deu o prémio com um link para o respectivo blog; a tag do prémio;. as regras;. e a indicação de outros 7 blogs para receberem o prémio;

Às vezes nada dá certo, mas de vez em quando a salada de batatas compensa o pão porqueira

Ontem, no mesmo fatídico domingo em que, pela primeira vez, não produzi um pão ciabatta semi-decente, saiu de minha cozinha uma salada de batatas de repetir até não sobrar nem molho no fundo da travessa. Ainda bem que aqui em casa todo mundo é (mais ou menos) comedido. Essa salada ficou sensacional comida direto da geladeira, hoje no almoço.

Se quiser, pode descascar as batatas, antes ou depois do cozimento. Eu acho um desperdício de sabor e nutrientes. Com certeza perde-se na apresentação, mas quem se importa com isso num almoço de domingo?

SALADA DE BATATAS E VAGENS ESTILO EUROPEU
(Adaptado do livro Professional Baking)
Tempo de preparo: 40 minutos + 20-60 minutos de espera
Rendimento: 4 porções


Ingredientes:
  • 500g de batatas
  • 400g de vagem macarrão
  • 1/2 cebola picada
  • 2 colh. (sopa) de vinagre de vinho tinto
  • 80ml de caldo de legumes
  • 1 colh. (sopa) de mostarda de Dijon
  • 2 colh. (sopa) de azeite de oliva extra-virgem
  • 1/4 colh. (chá) de açúcar orgânico claro
  • sal
  • pimenta-do-reino
  • 2-3 cebolinhas picadas
  • 1 punhado de salsinha picada

Preparo:
  1. Cozinhe as batatas inteiras e com casca, em água suficiente para cobri-las mais 5cm, até que um garfo as perfure facilmente mas não as desmanche.
  2. Enquanto isso, corte as duas extremidades das vagens, jogando-as fora, e corte as vagens em pedaços de cerca de 3cm. Coloque uma panela com água para ferver e, quando a água estiver em ebulição, junte as vagens e cozinhe até que fiquem macias.
  3. Escorra as batatas e volte-as à panela em fogo muito baixo, para que terminem de secar, até que nenhum vapor saia delas (menos de 1 minuto). Assim que conseguir manuseá-las, mas tendo-as ainda bem quentes (ou não absorverão o tempero), corte-as em fatias grossas ou quartos. Misture às vagens numa travessa.
  4. Em uma panela pequena, aqueça o vinagre, a cebola picada e o caldo de legumes, até que abra fervura. Desligue e misture a mostarda, o açúcar e sal e pimenta a gosto. Junte o óleo e bata de leve com um garfo ou fouet, para que o preparado emulsione bem e fique homogêneo.
  5. Junte o molho às batatas e vagens ainda quentes, misturando muito bem. Deixe descansando em temperatura ambiente por 20 minutos a 1 hora. Na hora de servir, misture a salsinha e cebolinha.

Cozinhe isso também!

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