sexta-feira, 21 de junho de 2013

Sopa de cenoura e tomate na canequinha e panqueca de agrião

Juro que vou voltar a postar com mais regularidade. Juro. O problema não tem sido falta de receitas. Tem saído muita coisa dessa cozinha que chega a passar pelo crivo da fotografia, mas empaca justo na hora do texto. Nenhuma inspiração. E receita por receita, convenhamos que há blogs e livros o bastante por aí apenas com uma receita de sopa, sem mais nada a acrescentar. [Aqui entra minha suprema pretensão de que meus textos de fato agreguem algo ao blog; uso de referência o feedback de vocês, leitores infinitamente pacientes com meus faniquitos.]

Além da falta de inspiração para escrever, andava engolida pela rotina sem rotina, essa coisa enlouquecedora que é tentar manter horários e padrões quando você tem duas crianças pequenas que mudam de comportamento toda semana. E enquanto pequena Laura é iniciada no lindo mundo das papinhas de fruta, meu matador de dragões resolveu ficar enjoado para comer. De novo. E por mais que eu tente manter a calma, oferecer mais de um elemento em seu prato para que pelo menos um ele coma, não surtar quando ele resolve massagear a comida com as mãos, ameaçando comer, e então decidindo que não vai comer nada, depois de ter tornado seu prato imprestável para o consumo de outro ser humano...

...não dá. Eu surto. Um bocado. Eu perco a paciência. Eu dou uns berros. Mando pro banho sem jantar.

Então, uma série de pequenos eventos sem importância sucederam.

Patrícia comentou internet afora sobre adorar assistir aos programas do Nigel Slater. Aquilo me atiçou e, num raríssimo momento de relaxamento, busquei seu programa de TV no YouTube. Assisti a todos os programas numa sentada só, praticamente, com os pimpolhos ao meu lado – atenta ao fato de que Thomas pulou do sofá e correu para a TV, empolgadíssimo com a imagem de peras caramelizadas com queijo Gorgonzola. Nisso, resolvi folhear novamente os livros que possuo dele, em especial o Tender. Eu tinha tudo de que precisava para essa sopa de cenoura e tomate, e sentira-me inspirada pelo fato de ele sair fazendo massinhas de panqueca a torto e a direito para envolver legumes durante o show.

Sopas.

Fiquei muito tempo sem prepará-las, porque Thomas se recusa a me deixar ajudá-lo com a colher, que ele vira de cabeça para baixo ao enfiar na boca, fazendo com que dois terços do conteúdo de sua tigela vão parar no moletom. Então, semana passada, assisti maravilhada enquanto minha mãe servia-lhe sopa de mandioquinha num copinho pequenino, quase do tamanho de um copo de shot.

Gênio.

Comecei a servir-lhe a sopa numa canequinha de ágata branca, pequenina até para suas mãos de filhote de labrador, perfeita para beber a sopa aos goles e para que ele não invente de meter a mão inteira nela, como acontecia com a tigela.


Poder dar-lhe sopa regularmente era a solução para o problema da fase enjoada. Um jeito de garantir que ele comeria mais que pão com ovo. 

Sou totalmente contra enganar crianças, colocando legumes no bolo de chocolate sem contar a elas. Isso só incentiva o hábito da guloseima ao invés de ensinar a comer os deliciosos legumes. No caso do Thomas, percebo que não é o gosto o problema. Às vezes é a textura, como quando descobri que não era da berinjela que ele não gostava, mas do difícil ato de mastigar a casca da mesma. Uma vez sem casca, ele começou a comê-la sem problemas. Outras vezes, ele cisma com o visual do prato. Aquele florete de brócolis não o apetece. Mas em forma de pesto no macarrão, ou como sopa, sim. E picar ou moer algo para inserir em outro prato, para mim, não é enganar a criança: é fazer com que ela tenha a oportunidade de se habituar e gostar do sabor, para que, conforme for crescendo, ir entendendo que aquele molho é feito daquele legume, que assim, inteiro, também é gostoso. Enquanto a lógica ainda não funciona, tasco-lhe sopa de brócolis e gorgonzola, sem a guarnição, e me delicio ao vê-lo ir até o fogão com a canequinha, pedindo repeteco.

A panqueca foi a mesma coisa. Lembrei-me dos blinis de agrião, mas, com pressa, preparei uma massinha básica de panqueca e misturei a agrião muito bem picadinho. Deixei a panqueca no mesmo formato das panquecas doces de café da manhã, e antes que me desse conta, Thomas não apenas comera a sua, assim, com as mãos, como esticava os dedinhos para roubar uma minha e uma do pai. E daí que, numa refeição, o matador de dragões se entupiu de coisinhas saudáveis sem fazer mamãe passar pelo estresse de vê-lo apanhando a folha de agrião e jogando para fora do prato.

Fica a dica. :)

Agora, já que senhor Nigel Slater também foi preguiçoso na hora de escrever a receita, repito a preguiça aqui. Para a sopa, basta refogar uma cebola picada em azeite; juntar um pouco menos de meio quilo de cenoura picada e deixar dourar um pouquinho. Mais meio quilo de tomate picado, uma folha de louro, um pouco de pimenta-do-reino e 1 litro de água ou caldo (usei meio litro de água e meio de caldo de legumes caseiro, que tenho sempre no freezer). Deixe ferver, abaixe o fogo e cozinhe por meia hora. Retire a folha de louro, bata no liquidificador e sirva. Se for usar a estratégia da canequinha, lembre-se de deixar a sopa um pouco mais rala, pois sopas muito cremosas são difíceis de beber na caneca. E também evite qualquer guarnição que possa dificultar para a criança beber a sopa, como ervas picadas.

Para a panqueca, piquei 2 xícaras de agrião muito finamente e juntei a um ovo, uma xícara de leite, uma colher de sopa de manteiga derretida e uma colher de chá de cominho moído. Bati com um fouet e misturei mais 1 xícara de farinha de trigo e 1 colher de sopa de fermento químico em pó. Salguei a gosto (cerca de 1/2 colh. de chá) e fiz as panquecas numa frigideira grande, em porções de 1/4 de xícara cada, mas podem ser preparadas ainda menorzinhas, como bolinhos.

24 comentários:

Silvia disse...

Oi Ana,

Seu meninão tá lindo!!!

Adorei a idéia de sopa de tomates com cenoura. Aprendi a gostar de sopa de tomates ao fazer uma receita com eles assados, junto com cebola e alho. Será que rola assar a cenoura junto e depois liquidificador/caldo?
Deve acentuar ainda mais o sabor. Vou testar. :)

beijos.

Carolina Frîncu disse...

Entrei aqui para pegar a receita do bolo anterior (tô com um melado lindo e um paladar doidão me dizendo que talvez tenha gente na fôrma novamente...) e me deparo com post novo. Coisa linda de filhote vc tem! Essa ideia das xícaras é sábia mesmo. Mas, escrevo porque pela primeira vez na história de 3 anos do meu filho ele se recusa a comer. Creio que foi fruto dos quase 3 meses longe de casa. A petica de um ano também está chata. Ela só quer arroz (mais rôix, mamãe). E me vejo como vc. Alterando ingredientes aqui e ali para enriquecer o que creio que comerão. Fase chata por um lado, porque sei que eles comem muito melhor que isso. Fase criativa por outro. Nunca fiz molhos tão suculentos, diferentes e nutritivos para as massas e polentas. A maternidade... Tomara que a Laura seja boa de garfo! Bjão, Ana!

Camila Pedrini Marques Vieira disse...

Ana
Pode ter certeza de que seus textos agregam muito ao blog! Mesmo que nao escreva com a frequencia que voce deseja nao tem importancia; quando escreve é sempre muito bom te ler..... Agradeço a sua disposicão dividir sua experiência com os leitores.

Carol disse...

Olá, Ana Elisa
Conhecei seu blog há cerca de um ano, quando a aproximação da introdução de sólidos para minha primeira filha me fez renovar meu interesse por comida e sair pesquisando. Logo aderi a duas perspectivas que hoje me parecem o óbvio, mas na verdade precisaram ser construídas na minha cabeça: a de que comida saudável é simplesmente comida, fresca e variada, e pode e merece ser gostosa; e a de que comida de criança é uma invenção que no mais das vezes tem como resultado reduzir as possibilidades da alimentação, o que é uma pena, quando comer é um ato de tantas possibilidades.
Nas minhas escolhas sobre a alimentação da minha filha, ela nem passou pela fase das papinhas: sempre comeu daquilo que é feito para todos nós, claro que de acordo com suas possibilidades mastigatórias; como mama muito bem, a questão nutricional na fase de transição não nos preocupou.
Acho lindo o modo como você procura apresentar os alimentos a seu filho, com criatividade e compreensão, e sem condescendência, sem rebaixá-lo. A ideia da sopa na caneca é genial, mesmo – eu não tomo muita sopa, mas as vezes em que tentei fazer para mim e a pequena realmente desanimei com a logística da colher-tigela...
Se você se interessar, teve um livro sobre alimentação infantil que adorei ler: Mi niño no me come, de Carlos González. Há uma reprodução neste link, se não quiser compar o livro, que não tem edição brasileira: http://pt.scribd.com/doc/7194590/Gonzalez-Carlos-Mi-Nino-No-Me-Come-Pediatria. Entre muitas outras coisas, ele fala dos picos de apetite e falta de apetite ao longo do desenvolvimento da criança.
A foto de seu filho está linda, e seus textos são uma delícia de ler...
Abraço
Carol

Anônimo disse...

Ana, já estava saudosa dos seus posts qdo da minha ronda nos meus blogs de culinária favoritos ;)
Para mim, além das receitas, contam as histórias com os filhotes, já que tenho uma quase da mesma idade do seu mais velho (1 e 7).
Adorei a idéia das sopas para as fases enjoadas, só tenho medo de que ela derrame, já que ainda o faz com água :(
Preparo bolinhos e panquecas de legumes quase toda semana e sempre funcionam! Coloco nuts, farinha integral, de centeio...vou inventando...faço uma de brócolis com parmesão maravilhosa (já que está na época, fica a dica).
Bjs, Roberta

Patricia Scarpin disse...

Cataploft de fofura com o Thomas tomando sopinha na xicrinha. <3

Luciana Betenson disse...

Que post fofura :-) As mães sabem das coisas hehe... Ana, adoro ler suas histórias dos filhos porque você é sincera, real e verdadeira. E não é fácil achar gente que escreve assim. Todo mundo é tão perfeito nas redes sociais... acho que na próxima encarnação quero nascer sua filha viu? ;-)

thatiana Bandeira disse...

Oi Ana,
Escreva sim, sempre... Vc é mais que inspiração! Tenho um MIOJO a tempos esperando para ser feito e não tenho vontade! Posso compartilhar parte do seu post de hoje lá no meu blog? Claro que com todos os créditos? Beijos e obrigada
P.S. Em sopas sou especialista, mas fico quebrando a cabeça para saber como é alguma papinha de frutas...

Talita disse...

Ana, o que você faz pelos seus filhos não há dinheiro que pague! Eles terão saúde pro resto da vida!

Anotei a receitinha porque quero reproduzir aqui em casa também. Meu 'toquinho' de 19 meses AMA cenoura.

Beijos

Kálien disse...

Oi Ana
Tu não imaginas a minha alegria em abrir o email sabado de manha e ver um post do blog.
Sei que não me conheces, mas esses dias, decidi ler todo o seu blog, e percebi que só precisava de alguém tão jovem quanto eu para mostrar que comer comida, de verdade, é possível e fácil.
Quando o li, tive esperanças de ter a calma e o cuidado que você tem com suas receitas e filhos no futuro e comecei a mudar e aprender coisas novas, tanto na vida quanto na cozinha (inclusive tentando mudar o paladar de um namorado com um "não provei, não gostei" irritante).
Fiquei apaixonada pela sua descrição da Laura, enfim, tenho muito mais coisas a te agradecer e a relatar mas não quero ser muito prolixa.
Muito obrigada pelo blog e pelas experiências compartilhadas!
Um abraço virtual de quem te admira muito! Parabéns!

Cynthia Nogueira disse...

Olá Ana,
Nem me fale em correria e stress com menino que não come. O Nathan tem evoluído a passos de tartaruga.Um dia come bem outro dia não come nada, mas eu decidi relaxar e aceitar que nesta fase eu vou ter que me conformar em por fora no lixo toda a comida que passar pela cadeirinha dele. Sim, porque vai para todo o lado, menos pra dentro dele.
Nessa saga, deixo no prato de tudo o que tem, também não disfarço os alimentos. Ás vezes ele come até folhas, mas ainda reluta!
Minha esperança é que com a ida para a escolinha ele imite os coleguinhas comendo e acabe se habituando com o sabor dos legumes.
No fim das contas, acho que alguma coisa dá certo, porque ele está forte, saudável, crescendo muito, falando mais e com todos os exames em dia!
Vai que o moleque é um magricelo mesmo!
Aqui em casa, mesmo depois de ganhar a cozinha dos sonhos não anda saindo nem panqueca (minha filha adora aquela de abobrinha e cenoura que você fez quando voltou da viagem) porque simplesmente eu não consigo mais ter tempo nem de ferver água. E isso tem me causado muita tristeza!
Espero que com as férias da universidade na próxima semana, eu possa voltar a produção de doces, conservas, compotas, pães (nossa, como sinto falta do cheiro de pão caseiro!!!), raviólis,etc.
Seu filho é a coisa mais linda desse mundo! Parabéns! (Pode inflar!)

Anônimo disse...

Olá Ana, quero dizer que você esta de parabens, o seu menino é muito fofo. Cybelle

Ana Carolina disse...

Que bom, que bom que você está de volta!!! Seu filho é mesmo uma belezura! Já o meu (tb lindo de morrer :)), resolveu ser mto, mto seletivo aos exatos 1 ano e 3 meses de idade??? Como não pirar??? Tb solto meus berros e continuo pensando positivo! Será que Deus mandaria mesmo um menino tão enjoado pra uma mãe que AMA cozinhar??? Veremos!!! Tudo de bom! Bjos

Sil disse...

Ana,
seus textos são ótimos, agregam muito valor ao blog! Continue a escrevê-los, please!!
Q lindo e fofo o Thomas, tomando sopa! Essas xicrinhas carregam sabores de infância, ele vai lembrar disso, vc vai ver só!
Bjs

Denise disse...

Ana, vc tem razão. Existem blogs e livros de receitas, mas acabo sempre usando as suas! Te acompanho desde antes do Thomas, vibrei qdo descobri que estamos gravidas juntas (minha filha Isabela tem 2anos e meio). Já fiz muita receita aqui do blog e geralmente faço no dia seguinte ao post! Meus filhos gostam das receitas salgadas...ótimo! Mas não consegui fazê-los apreciarem o muffin de quinua...
Nos todos adoramos a sopa de cenoura com a panqueca de agrião! Idéia genial!!!acrescentei parmesão! Hummmm.
Acho que sou igual a você: não quer comer??? Banho e cama! Rsrsrsrs. Um beijo!

casadaju disse...

fiz a panqueca! fantástica! amo seu blog! e suas receitas são demais! meu filho comeu as panquecas até falar chega rsrs

Ulysses Borges disse...

Ana.
Acho que entrei em depressão sem os seus posts. Amo suas aventuras e seu senso de humor! Tá na hora de começa a rabiscar um livro né? Eu iria comprar na hora. Seu filho tá lindo!

Nana disse...

Querida Ana, não se prenda a atualizar o La Cucinetta desesperadamente... Entendo seus motivos... Você já fez muito... E pode, é claro, continuar fazendo... Basta escrever uma vez por mês, mas não me abandone. Fica a dica. Coraçõezinhos e um bolo de 20 cm para você.

hvianna disse...

Caraca Ana que filho fofo que você tem!

Eu sinceramente acho legal quando você não posta tão frequentemente, eu sinto que o post, o texto, a receita escolhida é mais especial. Melhor do que alguns blogs que ficam vomitando conteúdo para os números não pararem de rodar. Mas não fique muito tempo sem postar não! :P

Mari disse...

Ana,
Passo aqui só pra contar "um causo" sobre a imprevisibilidade do paladar infantil!
Outro dia fomos jantar fora depois de buscar o pequeno de um ano e cinco meses (que come muito bem na creche e não come bem em casa! Deve ser a falta da rotina, de sentar com os amiguinhos). Ele bateu palminhas e soltou um "papááááá" quando nossos pratos chegram à mesa!
Pedi uma colher pequena ao garçom e ofereci - sem esperanças - um pouquinho do risoto de manjericão do meu prato!
E daí que o pimpolho comeu a metada da minha porção! E ele já havia jantado na escola! Acompanhado de suco de abacaxi no canudo (que ele nunca tinha conseuido sugar!!!) o_O
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Eles são mesmo imprevisíveis!!!

Anônimo disse...

Ana? Tá tudo bem? Fiquei preocupada apenas. Espero que esteja tudo bem com você e sua família minha linda. Enquanto isso, vejo a sua despensa e me inspiro cada vez mais. Nós te amamos pode ter certeza. Passe o tempo que for. Manda notícias do Gnoche (ele teve ciúmes ou por algum instante se sentiu excluído, chateado?)do Thomas, da Justiceira, do esposo ou seja, da sua família.

Pergunta: Vejo que você guarda seus grãos (igredientes) em potes com tampinhas de plástico. Eles possuem o mesmo efeito daqueles herméticos caríssimos de vidro? E em que tipos e potes você guarda suas alfaces, verduras e legumes. Guardo as minhas folhas em tigelas de vidro com tampa de plástico na gaveta da geladeira já os legumes em sacolinhas herméticas ok? Certo?

Me inspiro em você para me organizar também. Você não sabe o quanto você já faz parte da minha vida.

Amo, amo ,amo.

Nana.

Quéroul disse...

não aguento essa mãozinha segurando a xícara. que mocinho sério e compenetrado tomando sua sopinha...

foto linda de olhar. :)

Kathleen Miozzo disse...

Ana, com certeza Nigel Slater é incrível. Sou tradutora de legendas e meu último projeto foi o programa dele Nigel Slater's Dish of the Day em que ele aproveita tudo que comprou na semana, sem deixar sobras na geladeira, já viu? Vale a pena!

Bjs

isabel seabra disse...

Revi-me neste texto há uns bons anos atrás...as mães sentem sempre uma espécie de realização cósmica quando as suas crias, finalmente, ao fim de verdadeiros malabarismos culinários ,entremeados por ataques de stress e fanicos irracionais baixam a guarda e gozam o prazer da comida.

Gosto muito de passar por aqui, sinto o calor de um lar verdadeiro.

Cozinhe isso também!

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