quarta-feira, 24 de julho de 2013

Sopa de abóbora-menina pra criança que não come, bebê que começa a comer e mãe que esquece de comer

Thomas de férias.

Pronto, meu sumiço está explicado.

Daí que decidi que esse mês eu começaria a substituir uma mamada da Laura por uma papinha. Ela anda interessada em comida, olhinhos ávidos atentos a tudo que comem na frente dela, e percebi que, por conta da correria, é mais simples começar logo de uma vez a substituição do que continuar tentando inserir papinhas entre mamadas, como eu vinha fazendo.

Aí entra minha loucura.

Pensar em refeições de adultos que pudessem se tornar papinhas, de acordo com as restrições de cada fase (sem queijo, sem ovos, sem peixes, sem castanhas, etc...) foi muito fácil na época do Thomas. Principalmente porque bastava preparar um pouco a mais e eu teria papinhas para aqueles momentos em que você não pode dar um sanduíche de queijo com kimchi batido no liquidificador para seu bebê. Mesmo porque boa parte das refeições vegetarianas dá papinhas bastante nutritivas.

Mas o que fazer quando seu filho mais velho resolve que só come coisa amarela? Macarrão com queijo, pão com queijo, ovo com queijo. Ah, e queijo. Lembra aquela minha alegria de ter filho que comia pad thai com 1 ano e 3 meses? Pois é, passou. Se houver salsinha picada na fritatta, ele simplesmente apanha o prato da bandeja do cadeirão e coloca em cima da mesa. Assim, sem escândalo, apenas com ligeiro olhar de decepção. E então torce o corpo e aponta o dedinho em riste para o prato de bolo, ao que houve um sonoro "não". Explico que só ganha sobremesa quem come o almoço, ele faz bico, chego mesmo a mostrar o livro da gatinha Frida, que comeu a vagem e ganhou biscoito, e, ainda que me peça para ler a história todas as noites, ele não toma Frida de exemplo. Pede para sair do cadeirão e vai brincar, assim, sem almoço.

Tem sido assim quase todos os dias. Minha preocupação com que não morra de inanição me faz preparar uma vitamina de frutas no lanche da tarde, que ele toma com gosto, principalmente se tiver ajudado a escolher as frutas. No fim, não estresso mais, pois ele continua crescendo, é cheio de energia e está saudável. Cansei de berrar, então não berro mais, que não quero que ele associe refeições a momentos desagradáveis. No fim, não é meu lado maníaco-nutricionista que anda chateado, mas meu lado mãe italiana, com filho recusando meu amor em forma de comida.

Então vira questão de honra.

Realmente me recuso a ceder aos caprichos alimentares dos meus filhos. Não cedi aos do meu marido, então não me deixarei dobrar por uma criança de dois anos. Continuo colocando salsinha na comida, até o dia em que, morrendo de fome, ele resolva comer com salsinha e tudo. Quero dizer, minha mãe é enfática ao sugerir que eu simplesmente lhe sirva macarrão e ovo frito pelo resto da vida, porque, tadinho, é só isso que ele come. Mas como eu mesma não suportaria essa dieta por muito tempo, fã de variedade que sou, me veria rapidamente presa à rotina dos múltiplos pratos por refeição, como vi minha mãe fazer a vida toda: arroz com cebola para um, sem cebola para outro, prato que não seja requentado para o terceiro. Tiro no pé.

Depois então de ver meu filho se sustentando a base de suco e pão do café da manhã por alguns dias, resolvi retornar à boa e velha sopa. Chamei-o à cozinha para ver as abóboras inteiras e depois cortadas, seu cheiro, sua cor. Coloquei-o para me ajudar a misturar os pedaços com as ervas que ele fora apanhar comigo no quintal. E quando estava tudo já assado, chamei-o para ligar o botão do liquidificador, o que imediatamente atiça seu interesse pelo conteúdo da jarra. Servi-lhe a sopa na xícara de chá, e ele saiu pela casa bebendo dela feliz e contente, e me devolveu a xícara vazia e lambida.

Para Laura, dei a sopa às colheradinhas, e ela também acabou com toda a sua porção, maior ainda do que eu imaginei que ela tomaria, e, vendo que eu alimentava a irmã com a mesma sopa que ele mesmo ganhara primeiro, Thomas não fez caso de vê-la sentada em seu cadeirão e foi fazer outra coisa.

Feliz com o sucesso de ver meus dois filhos cheios de legumes, fui cuidar da casa e trabalhar um pouco, ao que, lá pelas três da tarde, o ronco do meu estômago me lembrou de que eu mesma não almoçara ainda. A sopinha caiu maravilhosamente bem, quentinha, adocicada, acompanhada da fritatta de tomate que Thomas recusara na noite anterior.

Laura almoçou a mesma sopa por mais dois dias, dando risadinhas e tentando puxar a colher para si. Já avisei o marido que enfrentaremos uma longa temporada de sopas esse ano, e desta vez com certeza não vou sair por aí contando vantagem sobre o apetite aventureiro da minha filha, que sabe-se deus lá até quando isso dura...

SOPA DE ABÓBORA-MENINA E ERVAS
Tempo de preparo: 40-50 minutos
Rendimento: 3-4 porções

Ingredientes:
  • 2 abóboras meninas do tamanho do seu antebraço
  • 2 dentes de alho grandes
  • 1 ramo de sálvia
  • 1 ramo de alecrim
  • 500ml caldo de legumes caseiro
  • azeite de oliva extra-virgem
  • sal e pimenta-do-reino moída na hora

Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 205ºC.
  2. Lave as abóboras, descasque-as e coloque as cascas numa panela junto com o caldo de legumes e mais 250ml de água. Leve o caldo e as cascas à fervura, com a panela tampada, abaixe o fogo para mínimo e cozinhe por mais uns 15 minutos. Desligue e deixe descansando.
  3. Enquanto isso, corte a abóbora em cubos de cerca de 2-3cm, e coloque numa assadeira onde todos os pedaços fiquem numa camada só. Coloque os dentes de alho ainda com casca e as ervas (sem os galhos, ou lembre-se de tirar os galhos lenhosos depois), tempere com uma pitada de sal, pimenta e um fio generoso de azeite, e misture com as mãos. Leve ao forno por trinta a quarenta minutos, ou até que a abóbora esteja macia e ligeiramente dourada. 
  4. Retire do forno. Coloque na jarra do liquidificador a abóbora, as ervas e os alhos espremidos de suas cascas (descarte as cascas)
  5.  Retire do caldo as cascas de abóbora com uma escumadeira, descartando-as. Coloque o caldo na jarra e bata tudo até que fique homogêneo.
  6. Volte a sopa à panela para reaquecer. Acerte o tempero e acrescente mais água se quiser a sopa mais rala, para beber na xícara, ou deixe apurar no fogo, mexendo sempre, para engrossar um pouco.

20 comentários:

Dani disse...

Só pra avisar: logo, logo, a caçula vai comer muuuuuuito, e o mais velho quase nada, e vc vai ficar doidinha se der trela à comparação. É fato que até dois anos os meninos têm que crescer muito (dobram de tamanho), então comem bastante. Depois dos dois anos, no entanto... todo aquele brócolis comido com gosto se vai, e fica só a vontade de brincar, que menino nenhum quer ficar parado tempo suficiente pra comer alguma coisa de fato, e parece que eles se alimentam de brisa. Estressa não (e não se esqueça de comer ;)
Obrigada por me ajudar que concluir que a meninada aqui de casa também é normal!

Ana Sílvia disse...

Ana, adoro seus posts, fazem com que eu me lembre que sou tipo um ser humano, uma mãe como tantas outras tentando entender a cabecinha de uma criança de dois anos...lançando mão de mil e uma estratégias para melhorar a alimentação da pequena e lutando para não me tornar uma mãe louca histérica...rs

Anna Flavia Ganut disse...

Oi Ana! Já dizia a minha mãe: nenhuma criança morre de fome com um prato de comida na frente. E vou fazer esta receita para minha pequena :-)

Mirtes Aquino disse...

Hum, na idade de Thomas minha filha decidiu que não gostava de nada amarelo, e cuspia abóbora, empurrava cenoura pro canto do prato, ignorava o copo de suco de maracujá. Aí passou, e as recusas já mudaram infinita vezes... mamão sempre foi a fruta preferida, agora só come se estiver com muita fome e sem opção. Vive uma tumultuada relação de amor e ódio com o brócolis, e nunca sei se estão às boas ou "rompidos" rsrs Procuro respirar fundo e não me abalar tanto, mas nem sempre é fácil. Como consolo, sei que ela tem uma alimentação incomparavelmente melhor que a minha na sua idade. E vou seguindo, com criatividade e malabarismo. Obrigada por fazer parte do processo ;)
bjs,
Mirtes Aquino

Milena Batista disse...

Não consegui não comentar depois de ler EXATAMENTE o que está acontecendo comigo e minha filha atualmente (que deve ter a mesma idade do seu mais velho)... Concordo que não temos que ceder e que, mesmo com os "Não quero!", temos que oferecer comida de verdade aos nossos pequenos. Ah, e por mais simples que seja, ainda não havia pensado na sopa na canequinha... vou tentar. Obrigada!

susana disse...

Olá Ana!

Tenho duas pimpolhas (6 e 3 anos).
Comiam este mundo e o outro, de olhos fechados... a mais velha até aos 4 e a mais nova até aos 2,5 anos... O pediatra tinha avisado que depois dos 3 anos ficam com manias a comer...
Da mais velha achei que isso NUNCA ia ser possível (tipo tu e o Thomas...).
Agora comem este mundo e o outro, mas de olhos abertos! A mais nova, basta ter qualquer coisa VERDE, que encosta. (tirando a pizza caseira que faço... já pensei às vezes dar a sopa verde na pizza...ahahaha!)
Ora, se não tem fome, não há fome para a sobremesa, certo?
Já ficaram sem jantar /almoçar (raras vezes), mas é como a Anna Flavia Ganut (ver comentários) diz - nenhuma criança morre de fome com um prato de comida na frente. E como diz um pediatra catalão: em África, as crianças correm atrás da mãe a pedir comida, não é a mãe que anda atrás deles de colher cheia em punho.

Mensagem de esperança: a mais velha, agora que se aproxima dos 7 anos, já retomou lentamente às verduras: comeu couve-de-bruxelas salteada há pouco tempo e gostou!

bjs e ânimo,
Susana

Amanda disse...

Anna, são os 'terrible two' em breve ele vai voltar a ter interesse em coisas novas. Verde ainda vai demorar um pouco, mas voltam! Beijocas nessas gostosuras!

Livia Luzete disse...

Saudades de notícias e das aventuras.
Um pedido: uma fotEnha da Laura, please!!!

Luciana Betenson disse...

Ana, adoro suas postagens :-D :-D

Também não cedi aos caprichos do filho número 2 - o número um foi fácil e continua até hoje. Tentei de um tudo rsrs... Primeiro deixava ele sentado no cadeirão ATÉ comer. Não podia ir brincar. Ele chegou a ficar uma hora olhando o prato... teimoso. Aí perdi a paciência CLARO e mandei andar. Furiosa haha! Depois deixava sem comer. Simplesmente. Até hoje é assim. Não quer, pula pra próxima refeição. E a p´roxima dou só um lanche, pra não entrar no círculo vicioso de comer bem só nos lanches. E a regra aqui é: fora de hora, só pode comer fruta. Nada mais. Tem dia que eles vêm com um "tô com fome...". Se estão mesmo, comem fruta. Se não querem é porque não estão com fome rsrs... Mas não é fácil. Eu morria e morro até hoje com a frescura do meu filho. Uva sem casca e semente ("meu Deus, quem ensinou ISTO pra est emenino?")

Minha mãe muitas vezes me criticou. Pensa que uma vez na casa dela ele estava brincando e batendo no Dudu (aquele boneco que faz xixi depois que mama, sabe?) e minha mãe perguntou "por que você está batendo no Dudu?" E ele "porque ele é feio, não comeu nada!". IMAGINA o meu estupor depois desta!!

Bjs ;-)

Anônimo disse...

Ana, querida, isso é normal. Meu irmão era exatamente assim. Minha mãe chegou a quase estrangular o moleque, pq se ela forçava, ele vomitava. Se não forçava, não comia. O pediatra disse pra ela ficar calma, que quando ele sentir fome mesmo, ele vai acabar comendo. E foi assim mesmo. Depois dos 3 anos, ele começou a comer de tudo e muito bem. Até hoje o cara é bom de garfo :-)
E quando bater desespero, lembre-se que até a Nigella passa por isso. Beijo.

Nico

Ana Carolina disse...

Ai Ana...o que dizer quando é o filho de 1 ano e 3 meses que já seleciona tuuudo o que quer comer? Batataw? Cenoura? Nem pizza ele come! Eu aqui me vendo louca e pensando como vai ser quando chegar a fase dos 2 anos...Sorte pra vc! Não deixe de mandar notícias! Bjos

Marcia disse...

Olá Ana,
Somos unânimes nas respostas (risos), quando se trata de alimentação infantil. Por mais que ensinemos, eles tiram "da cartola" que não comem mais isso ou aquilo. Pode ficar pior ou não.
Aqui em casa, meu mais velho está aos poucos comendo melhor (e olhe, tem 10 anos!) e o mais novo sempre foi o difícil, desde bebê (acho que veio com defeito de fábrica).
Mas eu não faço pratos distintos, o que tem está no prato... tampouco deixo de colocar cebola ou qualquer tempero que já estamos acostumados por conta de uma "nova moda". Já deixei prato na mesa, frio e avisei que na hora da fome, era o que teria para comer - nem me dei ao trabalho de dar o lanche da tarde. E quer saber? O danadinho pediu ajuda ao irmão para esquentar a comida e comeu tudo lá pelas 16:00!
Abraços

Fernanda Amarante disse...

Adoro o tanto que você escreve bem, querida Ana!!! Estava sentindo falta dos seus textos. Mesmo que de vez em quando, é bom ler. Se esta arrumando tempo até pra começar a tela grandona, é que as coisas estão se tranquilizando! Beijo enorme!

MoLiNe disse...

Olá! Passeando no mundo virtual, vim parar aqui pelo seu simples caldo de legumes. E já avisando, minha tigelinha com sobrinhas de legumes e casquinhas se encontra na geladeira aguardado o delicioso momento de perfumar a casa. Muito obrigada por compartilhar coisas tão maravilhosas conosco!
Ainda, não sou mãe, mas boa sorte com seus filhotes!!!!!

Bertha S. disse...

Oi Ana, seu Thomas lembra de perto minha Isadora, no início da introdução a outros alimentos era tudo lindo, Isa comia tão bem! E assim foi até seus 11 meses, quando ela resolveu me fazer arrancar os cabelos, e veja você, mesmo eu sendo nutricionista me vi as voltas indo a consultas com uma psicopedagoga, na tentativa de aprender a lidar com essas chatices para comer. Hoje isa com um ano e um mês, continua chatinha para comer, porém eu estou menos angustiada, pq assim como Thomas, ela também cresce e se desenvolve cheia de energia ( e bote energia nisso, a menina é uma pimenta)!

Aline Gemaque disse...

Oi Ana, seu Thomas lembra de perto minha Isadora, no início da introdução a outros alimentos era tudo lindo, Isa comia tão bem! E assim foi até seus 11 meses, quando ela resolveu me fazer arrancar os cabelos, e veja você, mesmo eu sendo nutricionista me vi as voltas indo a consultas com uma psicopedagoga, na tentativa de aprender a lidar com essas chatices para comer. Hoje isa com um ano e um mês, continua chatinha para comer, porém eu estou menos angustiada, pq assim como Thomas, ela também cresce e se desenvolve cheia de energia ( e bote energia nisso, a menina é uma pimenta)!

Fulana disse...

Ana! Põe uma foto da Laura para a gente ver, por favor!

Estou relendo o seu blogue desde a primeira postagem, como parte de um plano para recuperar minha vontade de cozinhar e abandonar o delivery de pizza. E está surtindo efeito! Obrigada mais uma vez!

Anônimo disse...

Oi Ana o meu bebê nasceu há 23 dias... Desde então, vejo o quanto és guerreira em administrar todas as tarefas/obrigaões... E ainda nos deleita com o La Cucinetta.

Não durmo há dias e dias e não sei até quando isso vai durar...

Conte-nos sobre suas aventuras com Laura... Se você dormir a noite, sobre amamentação... e quem sabe assim eu tenha mais forças!

Confesso que cheguei a pensar: Meus Deus! O que é que eu fiz da minha vida! Estou tentando adaptar-me com a existência de um bebê em casa, com novos trabalhos e rotina...

Nana.

Leiloca disse...

Ana, igualzinho ao meu, não esquenta. Não come muito, mas vai crescendo a toda, o importante é a saúde.
O pior é ouvir a sogra toda hora: " ah, os meus sempre comeram de tudo"...
Beijão!

Anônimo disse...

Seus textos são ótimos! Muito divertidos!

Cozinhe isso também!

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