domingo, 25 de novembro de 2007

Crumble de maçãs: a sobremesa mais fácil do mundo



Crumble é provavelmente a sobremesa mais fácil, mais dummy-proof do mundo, sendo apenas frutas cobertas de uma farofa baseada em farinha, açúcar e manteiga, deixada em forno médio até que a fruta esteja cozida e a farofa, crocante. Quente, perfumada, num equilíbrio perfeito entre as duas texturas, é um acompanhamento maravilhoso para qualquer tipo de sorvete. E hoje, era exatamente o que eu queria.

Este crumble de maçãs não leva canela. Ah! Ultraje! Uma sobremesa de maçã sem canela! Leva farinha integral no lugar da comum, para um sabor de nozes, aveia e coco ralado para uma textura e sabor diferentes, açúcar mascavo para um toque de caramelo e uvas passas para... bem, porque gosto de uvas passas com maçãs. Usei maçãs Fuji, para que mantivessem a forma mesmo depois de bastante cozidas. Como pretendia servir com frozen yogurt, que é azedo, omiti esse toque na receita. Mas para servir com um bom sorvete de baunilha, eu talvez acrescentasse raspas de limão para que sua acidez equilibrasse a doçura do prato, ou mesmo usasse maçãs verdes.

CRUMBLE DE MAÇÃS
(livremente adaptado de uma receita do livro Biscuits et Petit Gâteaux)
Tempo de preparo: 10 minutos + 25-30 min. no forno

Rendimento: 2 porções


Ingredientes:
  • 2 maçãs Fuji grandes
  • 1/4 de xícara de farinha de trigo integral orgânica
  • 3 colh. (sopa) de açúcar mascavo orgânico
  • 1 colh. (sopa) de coco ralado grosso
  • 2 colh. (sopa) de aveia em flocos
  • 80g de manteiga sem sal gelada mais um pouco para untar
  • 1/4 de xíc. de uvas passas sem sementes
Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 180ºC. Unte com manteiga uma travessa pequena (20cm). Corte as maçãs em fatias finas e disponha-as na travessa, sobrepondo ligeiramente as travessas ou de forma desordenada.
  2. Em uma tigela, misture a farinha, o coco, a aveia e o açúcar. Junte a manteiga cortada em pedaços e esfregue com as pontas dos dedos até formas pequenas bolotas ou uma farofa grossa. Não importa se ela ficar úmida.
  3. Espalhe a farinha sobre as maçãs e polvilhe as passas por cima. Leve ao forno por 25-30 minutos, até que as maçãs estejam bem cozidas e a cobertura, seca e dourada. Sirva quente, acompanhado de sorvete ou sozinho.

Spaghetti vapt-vupt

Tomates marinados em azeite, um dente de alho muito bem picado, um punhado de salsinha, sal e pimenta do reino, sobre spaghetti al dente e queijo roquefort esmigalhado. Yummy!

sábado, 24 de novembro de 2007

Japonês de verdade

Sempre que Allex e eu vamos à liberdade, vagamos sem destino certo, na vã esperança de entrar por acaso em algum restaurante japonês escondidinho, que se revele fantástico, no melhor estilo "você não acredita no lugar que eu descobri!". Muito ao contrário de nossas expectativas, agora no melhor estilo "turista na Liberdade", nós sempre caímos em fria.

Miraculosamente, no entanto, desta vez foi exceção. Depois de andar um bocado em círculos, completamente perdidos debaixo do sol do meio-dia, entramos no primeiro lugar que encontramos (pois estávamos desesperados de fome, encontrando dezenas de cabeleireiros e botecos, e nenhum restaurante decente).

Atravessamos uma pequena amurada de pedra, subindo alguns degraus em meio a um pequeno jardim de entrada, na direção de uma porta de madeira que revelava muito pouco do interior do restaurante. Senti-me imediatamente intimidada com a decoração de madeira escura, à meia-luz, com a clientela silenciosa 100% japonesa sentada em um balcão, assistindo a um japonês preparando robata, e com uma senhora que me cumprimentou com um bom-dia apressado em meio às comandas, com um sotaque tão forte que simplesmente não entendi quando ela tentou me direcionar para o segundo andar do restaurante. Era com certeza completamente diferente dos restaurantes japoneses moderninhos aos quais estava acostumada. Mas, lembrando-me dos melhores lugares onde comi quando na Itália, sabia que aquilo prometia ser bom.

Subimos as escadas para um segundo-andar muito semelhante ao primeiro, com dois balcões de sushi e um número limitado de mesas grandes, todas ocupadas por japoneses. Aquele com certeza não era meu ambiente, mas nenhum sinal é melhor para mim do que japoneses comendo num restaurante japonês. Sentamo-nos no balcão exatamente em frente ao chef, que preparava os pratos, solitário e silencioso. É preciso mencionar que também ele era japonês ou isso é chover no molhado?

Pedimos duas cocas (em garrafa de vidro) a uma garçonete que nos trouxe o cardápio. Decidimos não nos deixar levar pelo olho gordo e a barriga vazia, e pedimos apenas um combinado simples, que trazia cerca de 15 sashimis, 8 sushis, alguns uramakis e outras coisinhas mais. Não tínhamos nenhuma expectativa. Juro. Fui vendo enquanto o chef tirava fatias idênticas, grossas e suculentas dos peixes frescos, montando tudo no prato com muito cuidado. Para quem está acostumado aos rolinhos repletos de cream cheese e cobertos de tarê, a simplicidade visual do combinado é um choque. Mas para o paladar... A simplicidade é garantia de que aquele sabor fantástico vem única e exclusivamente do frescor e da qualidade do peixe, sem nenhum outro ingrediente para mascará-lo. E, de fato, o sabor explodiu na boca, e o sashimi derreteu na língua como manteiga.

Outro choque: já foi feita uma pesquisa que demonstrou que os comedores brasileiros adoram salmão (e quase que exclusivamente salmão) quando em restaurantes japoneses; no entanto, não havia nenhum no prato, o que foi inédito para mim. Os gordinhos e simétricos sashimis eram de Olho-de-Boi, Taínha, Robalo (com finíssimas fatias de limão), Atum e Serra, o último servido ainda com a pele, coberto de gengibre e cebolinhas, para um lindo e saboroso efeito.

Já ao final da refeição, o chef perguntou-nos se éramos de São Paulo, e começamos a conversar. Ele (Marcos) nos contou que aquele era um dos restaurantes mais tradicionais de São Paulo, em termos de autenticidade e fidelidade a uma culinária mais antiga. Segundo ele, não há mais do que dois outros na cidade. Todos os outros fecharam, não suportando a moda e o desejo dos clientes por uma cozinha mais moderna. Mas aquele continuava firme e forte, e, sob a tutela de um casal japonês bastante conservador, mantinha o cardápio inalterado, depois de 30 anos de existência, não se rendendo à moda. "Às vezes vêm uns clientes ", disse o chef, "que ficam tristes porque não servimos nada com salmon skin..." O que me fez pensar que, eventualmente, a moda passará, e muitos restaurantes moderninhos fecharão as portas. E quantos lugares genuínos terão restado?

Marcos ainda nos disse que estava apenas substituindo o chef da casa, que estava de férias. "Ele é o melhor sushiman de São Paulo", disse-nos, orgulhoso. "Vai para o Japão o tempo todo. Além da licença para sushiman, que ele conseguiu lá, ele tem aquela especial, para preparar Baiacu." Impressionante, com certeza. Fiquei interessadíssima em voltar e experimentar o cardápio preparado pelo chef de férias, é claro.

Quando o Allex terminava de "raspar o prato", o chef alertou-nos de que a estranha folha escura que parecia simples guarnição podia e deveria ser comida. "Shissô", explicou-nos. Nunca comera algo parecido e era, de fato, muito saborosa, um pouco picante, um pouco adocicada, um retrogosto azedinho, refrescante e ao mesmo tempo digestiva. Interessante o suficiente para me fazer procurar mais a respeito quando tiver mais tempo.

O preço disso tudo? O mesmo que um moderninho bem feito. Não me levem à mal, é claro, eu adooooooro todas as modernidades da culinária japonesa. Mas também era louca para provar algo mais simples, mais básico, que dependa exclusivamente da qualidade dos ingredientes. Não só não saí decepcionada, como saí apaixonada pelo lugar, louca para voltar. Fiz questão de pegar uns dois cartões de visita, para que o restaurante não vire mais um daqueles lugares fantásticos aos quais nunca mais conseguimos voltar, por não lembrar o nome ou o endereço. Espero que eles continuem firmes e fortes, tradicionais, "japoneses de verdade", como disse o chef.

Recomendo de boca cheia!

GOMBE
Rua Tomás Gonzaga, 22, Liberdade São Paulo, SP
Tel: (11)3209.8499

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Um pouco mais do que a cara de pastel

Eu tinha uma certa resistência em falar demais sobre mim quando comecei o blog. Ao longo do tempo, entretanto, vi que era inevitável deixar de falar sobre a vida quando falo de comida, já que os dois estão absolutamente entrelaçados, principalmente quando resolvo discorrer sobre lembranças de infância. Vi essa série de perguntas no Kafka na Praia, no Fouet Roux et Demi Glace e no Pecado da Gula, e achei que seria uma boa maneira de vocês conhecerem um pouquinho mais (só um pouquinho! não, pára de espiar que é feio!) desta aprendiz de Nonna. Vá lá... (Ai, ai, ai...)

  1. Que horas são? 19:07
  2. Nome? Ana Elisa.
  3. Quantidade de velas no teu último aniversario? 28 (chegando nos 30... chegando...)
  4. Tatuagens? Sim! E fui eu que desenhei!
  5. Piercings? Oh, yeah! Discretinho, na orelha mesmo.
  6. Já foi à África? Não.
  7. Já ficou bêbado? Imagina! (Notou o tom sarcástico?)
  8. Já chorou por alguém? Vixe!
  9. Já esteve envolvido em algum acidente de carro? Graças a Deus, não.
  10. Peixe, carne ou frango? Peixe, sem sombra de dúvida.
  11. Música preferida? I Can´t take my eyes off of you. É breguíssima, mas sempre me deixa de bom humor.
  12. Cerveja ou Champanhe? Depende da ocasião.
  13. Metade cheio ou Metade vazio? Metade cheio... de comida!
  14. Lençóis de cama lisos ou estampados? Branquinhos!
  15. Filme preferido? When Harry met Sally. (Pode parar de rir! Eu poderia escrever que é A Liberdade é Azul — que eu adoro, por sinal — mas estou sendo sincera!
  16. Flor(es)? Lírios brancos e rosas amarelas (não bege! amarelo-ovo).
  17. Coca-Cola simples ou com gelo? Água.
  18. De que pessoa recebeu esse e-mail? Copiei e colei.
  19. Quem dos teus amigos vive mais longe? Minha cunhada, no norte da Itália.
  20. O melhor amigo? Guilherme.
  21. Quem você acha que vai responder a esse e-mail mais rápido? Não vou enviar a ninguém! Vou guardar prá mim! Prá mim!
  22. Quantas vezes você deixa tocar o telefone antes de atender? Tenho uma política de não sair correndo. Tocou, tocou. Se der prá atender, ótimo. Se não, era engano. (Lembre-se que eu trabalho em casa, e recebo ligações de telemarketing o dia todo; isso acaba deixando você meio cínica).
  23. Qual a figura do seu mouse-pad? Eu uso um tablet da Wacom (ilustradora, lembra?).
  24. CD preferido? Depende da época, nunca é o mesmo por muito tempo, porque eu ouço até enjoar e largo por uns anos. No momento, está ente The Odissey, do Symphony X e Eye to the Telescope, da KT Tunstall. É, meu gosto musical é inexplicável. E eu gosto de cozinhar ouvindo Frank Sinatra.É, aposto como você preferia não saber disso...
  25. Mulher bonita? Jennifer Connely.
  26. Homem bonito? (lá vai o cliché, mas não posso evitar) Brad Pitt.
  27. Pior sentimento do mundo? Remorso.
  28. Melhor sentimento do mundo? Aquele tipo de felicidade que é como se seu peito tivesse estado vazio até então, e de repente se preenchesse de algo quente e fluido, fazendo com que você sorria involuntariamente e tenha vontade de chorar ao mesmo tempo.
  29. O que uma pessoa não pode ter para ficar com você? Conformismo. Burrice. Maldade.
  30. Qual o primeiro pensamento ao acordar? "O que é que eu tenho prá fazer hoje?"
  31. Se pudesse ser outra pessoa, quem seria? Eu em outra época.
  32. O que você nunca tira? A cara-de-pau.
  33. O que é que você tem debaixo da cama? Um tapete.
  34. Qual a pessoa que talvez não te responda? Ver resposta 22.
  35. Aquele que com certeza vai te responder? Idem.
  36. Quem gostaria que te respondesse? (suspiro) Idem.
  37. Uma frase: "O mundo não deve nada aos normais."
  38. Que dia é hoje? 23/11/2007.
  39. Qual livro vc está lendo? Um monte... E não termino nenhum. (suspiro) Madame Bovary, de Flaubert, que era o favorito da minha avó, Como Cozinhar um Lobo, de M.K. Fischer, Noite dos Tempos, de René Barjavel, um monte de mangás e uma pilha de livros de receita.
  40. Uma saudade: dos almoços de domingo na casa da minha avó.
  41. Uma característica tua: sinceridade (posso ser muito lacônica e sarcástica quando irritada, mas também muito autêntica e espontânea quando feliz).

"Risotto" cremoso de quinua

Se você é uma daquelas pessoas que sente uma inexplicável compulsão por telefonar para alguém ou reprogramar o alarme do seu relógio toda vez que tem de esperar sozinha por alguém em algum lugar público, a vida de freelancer COM CERTEZA não é para você. É preciso estar confortável com a própria solidão para trabalhar por conta própria.

Há dias em que se sente falta de colegas de trabalho com quem dividir piadas sobre o chefe, mas então você se lembra de que o chefe é você, e a angústia passa rápido. Há dias cheios de trabalho quando você pode passar o dia todo sem falar com outro ser humano, e outros, na entre-safra, em que você não tem nada para fazer e todos os seus amigos estão... bem... trabalhando, enfornados em escritórios, e não há uma alma com quem você possa tomar um cafezinho às três da tarde. Tudo isso são ossos do ofício, e há muito tempo aprendi a aproveitar esse tempo all by myself para descansar a mente, botar a leitura em dia, e, é claro, fazer experiências culinárias sem correr o risco de arruinar o jantar do meu marido.

É, definitivamente, na hora do almoço, que faço minhas mais estranhas misturebas. Algumas me surpreendem positivamente, enquanto outras vão direto para o lixo após a primeira garfada. Faz parte. Hoje, ainda bem, foi uma das ocasiões de mistureba feliz. Poderia ter-se beneficiado de um dente de alho dourado em manteiga, para um toque mais pungente no que se mostrou um prato bastante suave. Quaisquer outras folhas verdes e crocantes iriam bem aqui, também, principalmente as amargas, como rúcula, ou radicchio, para contrastar com o adocicado das passas. De modo geral, no entanto, essa é uma mistureba que merece repetição. O nome "risotto" vem aqui apenas para dar idéia da consistência, ainda que mesmo eu me contorça um pouco ao usá-lo desta forma.

"RISOTTO" CREMOSO DE QUINUA
tempo de preparo: 20 minutos
rendimento: 4 porções


Ingredientes:
  • 1 dente de alho picado
  • 1 xíc. de quinua orgânica em grão bem lavada para tirar qualquer traço de amargor
  • 1/2 xíc. de queijo Catupiry cremoso
  • 1/2 xíc. de queijo parmesão ralado
  • 1 punhado de passas escuras sem sementes
  • 2 xíc. de folhas de alface Romana rasgadas com as mãos
  • 2 colh. (sopa) de manteiga sem sal
  • sal e pimenta-do-reino moída na hora
Preparo:
  1. Ferva 2 xíc. de água. Em outra panela, doure o alho em um fio de azeite ou manteiga e junte a quinua. Mexa por alguns segundos, para espalhar o tempero. Salgue a gosto. Junte a água fervente, mexa com uma colher e tampe. Abaixe o fogo e cozinhe por 12-15 minutos, até que toda a água tenha sido absorvida.
  2. Misture o restante dos ingredientes, salgando e temperando a gosto, afofando com um garfo. Sirva imediatamente, com uma porção extra de queijo ralado.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Pãezinhos integrais, quase brioches

Senti-me incrivelmente inspirada ao visitar o site Delicious Days. Quando vi as fotos desses pequenos brioches, não resisti à tentação de prepará-los para o café de amanhã, mas frustrei-me ao olhar a despensa e dar-me conta de que não havia nem ovos, nem farinha comum, nem fermento fresco, nem laranjas. Qualquer pessoa comum desistiria dos brioches e deixaria marcado na pasta de favoritos para um dia mais propício. Eu, no entanto, sou teimosa, e sob o risco de acabar ainda mais frustrada com uma massa amorfa e alienígena no meu forno, resolvi brincar com a receita original e transformá-la em algo novo.

Comecei com o fato de não haver ovos. Resolvi cortar a receita pela metade, de modo a obter menos brioches (até pelo fato de que 14 são muitos para duas pessoas). Assim, também a importância da gordura, líquido e proteína do único ovo da receita original diminuiria consideravelmente. Aumentaria a quantidade de leite integral e de manteiga para substituir as duas primeiras características do ovo, e a farinha integral (única disponível na despensa) proveria a massa de suficiente proteína. Manteria a farinha em sua quantidade normal, de modo que pudesse acrescentar mais caso faltasse, o que é muito mais fácil que acrescentar líquido a uma massa seca. E com certeza isso aconteceria, pois a farinha integral orgânica parece ser muito mais úmida que farinha comum.

No meio do caminho das medidas, entretanto, minha balança resolveu tirar férias, e parou de funcionar. Assim, uma parte dos ingredientes foi anotada por peso, outra parte por volume. Ou seja, muito cuidado ao replicar essa receita. Quando a balança voltar a funcionar, farei o update necessário nas quantidades.

Usei fermento ativo seco instantâneo, que sempre há em casa, e sabia que para tanto, era necessário diminuir sua quantidade para 1/3 do fermento fresco. Para aromatizar a massa, que teria obviamente um gosto bastante forte da farinha integral orgânica, decidi usar as raspas do meu último limão, que, já meio passadinho, só poderia ter esse destino ou o lixo, pois seu suco não prestaria; e quis algo mais, ainda, no perfume: por isso, todo o açúcar viria do pote de açúcar orgânico onde guardo minhas favas de baunilha secas. Abrir aquele pote é ser atingida em cheio com o aroma mais delicioso e aliciante do mundo.

Como — mais uma vez — estava sem a balança, não pude medir exatamente o peso dos pãezinhos, e por isso cada um saiu diferente do outro, alguns pequenos e redondos, muito dourados, outros grandes, rasgados, mais pálidos. O tempo de forno, eu sabia, não deveria ser o mesmo. E, de fato, foram precisos mais cinco minutos até que dourassem o suficiente.

Os pãezinhos assados ficaram tão úmidos e macios, que pensei, num primeiro momento, que não haviam ficado tempo suficiente no forno. De modo nenhum, eles ficaram perfeitos, inacreditavelmente leves, considerando-se que foram feitos de 100% farinha integral, que tem a fama de deixar massas densas e pesadas. O aroma do limão e da baunilha não conflitaram, como eu temia, mas tornaram os brioches — se é que ainda posso chamá-los assim — muito aromáticos, o limão conferindo refrescância em contraponto ao sabor intenso e da farinha integral, e a baunilha acompanhando maravilhosamente o sabor adocicado da massa. Deliciosos com manteiga e uma pitada de flor de sal; fantásticos com uma colherada de geléia de goiaba.

Um aviso, porém: para efeito estético, aconselho o uso dos papéis para muffins, como sugerido na receita original, para que as bordas não tenham aparência de queimado. Eu não quis usá-los, e os brioches ficaram bem mais escuros nas laterais, ainda que sem gosto de queimado.

PÃES INTEGRAIS "QUERIA SER UM BRIOCHE"

(inspirado na receita de brioches do site Delicious Days)
tempo de preparo: 1h20 + 20-25 min. de forno
redimento: 8 pãezinhos do tamanho de muffins


Ingredientes:
  • 3/4 de xíc. de leite integral morno
  • 5g de fermento ativo seco instantâneo
  • 250g + 4 1/2 colh. (sopa) de farinha de trigo integral orgânica
  • 1/3 xíc. de açúcar cristal orgânico baunilhado
  • 50g de manteiga derretida
  • 1 pitada de sal
  • raspas de 1 limão
Preparo:
  1. Peneire uma ou duas vezes a farinha de trigo, para incorporar-lhe mais ar. Isso torna a massa mais leve. Junte o fermento e o leite integral morno e misture até formar uma massa. Cubra com um pano e deixe descansar por 15 minutos.
  2. Acrescente o restante dos ingredientes e sove bem por 10 minutos (ou use o gancho da batedeira planetária em velocidade 2 por 10 minutos) até que a massa descole das paredes da tigela mas ainda esteja úmida. (Você deve senti-la grudando nos seus dedos, mas sem deixar pedaços neles). Forme uma bola, cubra e deixe fermentar por 45 minutos a 1 hora, dependendo da temperatura do dia (se mais frio, deixe mais tempo). Ela deve dobrar de tamanho.
  3. Tire o ar da massa levedada, sovando por alguns minutos. Divida a massa em 8 pedaços iguais, forme bolas lisas e coloque na forma de muffins (ou empadas) forradas com forminhas de papel manteiga. Não é preciso untar, mesmo sem as forminhas de papel. Leve ao forno pré-aquecido a 200ºC por 20-25 minutos, até que estejam dourados.
  4. Retire-os do forno, derreta uma colher de manteiga e pincele a parte de cima dos brioches, para um acabamento mais brilhante.

Compulsão é eufemismo... (Updated)

Não importa o quanto eu tente espremer meus utensílios nas gavetas, quantas vezes eu arrume e desarrume o armário com um novo quebra-cabeças (perigoso, muito perigoso) de louças e copos, não importa que as prateleiras estejam cheias e que não haja um centímetro vazio sobre a minha bancada. EU QUERO TRANQUEIRAS DE COZINHA!

Toda vez que saio para passear com o Gnocchi é a mesma coisa: estaco em frente às vitrines, admirando ramequins alaranjados da Le Creuset, uma travessa de cerâmica francesa, pintada de bege e cor-de-rosa, um termômetro para a açúcar, formas de madeleines, cortadores de biscoito, tigelas de madeira certificada, pedras para pizza, pratos para bolos, espátulas, colheres, panelas, assadeiras, potinhos, cookie jars...

Preciso ficar milionária logo...

Ainda assim, há itens na minha lista de "EU QUERO" dos quais não abro mão, e que realmente me fazem falta:

  • maçarico
  • rack para biscoitos
  • ramequins de 90ml (os meus têm 150ml, o que é uma porção muito grande para alguns doces)
  • pedra de assar (minha irmã me prometeu um pedaço de granito que caiba no meu forno, da próxima vez que comprar granito para uma obra)
  • formas de madeleine (depois que vi a receita de madeleines com caqui no cook & eat, fiquei fissurada pela idéia de assá-las)
  • formas para bombons e ovos de chocolate
  • grelha antiaderente

Hum... ainda bem que o Natal está chegando!
;)

[UPDATE: minha irmã leu o post e no dia seguinte presenteou-me com os ramequins de 90ml!! Grazie mille!]

Guia Michelin que nada! Quem julga é a Nonna!

Só para deixar mais divertido, agora é assim que classificarei os restaurantes que visito. Espero que gostem das aparições da Nonna, que estará cada vez mais presente por aqui...

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Gnocchi no parque


Parque Ibirapuera, sol, sorvete, descanso à sombra de uma árvore. Passeio para o cão cheirar outros rabos. Ele ainda tem um looooongo caminho até ficar atlético e louco por bolinhas saltitantes como todo bom border collie. Por enquanto o bicho corre um pouquinho, olha a bolinha rolando na grama e faz essa cara de pastel, como se dissesse "você realmente quer que eu saia correndo atrás duma bola de borracha debaixo desse sol???"

Só porque a Bia andou pedindo mais fotos do cãozinho, e porque eu adoro atrapalhar a vida de pessoas que buscam receitas de "gnocchi" na internet... Maldade...

Como nos desenhos



É muito confuso começar um texto quando há duas histórias diferentes que exaltam o mesmo tema. Por qual delas começar? Começo pela mais recente. Quando fui morar com meu namorado (agora marido — longa história), ganhamos uma série de cestas de comida dos dois lados da família, o que foi muito engraçado na época; como se fôssemos nos esquecer de ir ao supermercado. Como nada é mais particular do que hábitos alimentares, acumulamos na despensa diversos ingredientes bizarros, como algas marinhas em conserva e spaghetti sabor cenoura. Entre isso tudo, havia duas latas imensas de pêssegos em calda. Pessoalmente, não sou muito fã de frutas em conserva. Logo, além da óbvia combinação com sorvete de creme, não fazia a menor idéia de como usar os pêssegos de forma inteligente (e saborosa, claro).

Ontem, fuçando no livro que se tornou há tempos minha "bíblia de tudo o que vai no forno", Professional Baking, deparei-me com fotos de tortas de fruta cobertas, como aquelas que víamos em desenhos animados de infância, esfriando nas janelas em suas formas redondas de bordas caneladas. Eu era absolutamente fascinada por essas tortas quando criança, e imaginava que deveriam ser deliciosas, quentinhas, suculentas, perfumadas. Perguntava-me por que minha mãe (ou qualquer mãe que eu conhecia) não as preparava. De fato, esse tipo de torta não faz parte da tradição culinária brasileira, e sempre achei isso uma pena.

Na nostalgia do meu imaginário infantil, e no desejo de livrar-me de pelo menos uma daquelas latas (brinquei com o Allex de que conseguiríamos fazer vencer uma lata de conserva que só vence em 2010!), resolvi me aventurar no reino das american pies, e preparar uma torta de pêssegos, que se revelou mais fácil do que eu imaginara. O único acidente de percurso foi com relação à massa: segundo o livro, eu precisava de cerca de 310g de massa para uma torta coberta de 20cm. Então preparei exatamente essa quantidade, o que fez com que eu precisasse abrir a massa numa espessura fina como papel (sem brincadeiras, eu podia ver meus dedos através dela!) para que ela cobrisse toda a forma. No entanto, frágil daquela forma, a massa acabou rasgando em alguns pontos, e o recheio em ebulição vazou para fora da forma. Isso deixou a torta mais feia do que eu gostaria, mas com certeza não menos gostosa.

Não queria fazer uma massa recheada apenas de pêssegos. Queria um pouco mais de profundidade no sabor. Por isso substituí parte da farinha da massa por farinha integral, e acrescentei essência de amêndoas amargas ao creme do recheio. Também esfarelei biscoitos amaretti no fundo da forma, antes de colocar-lhe os pêssegos, não apenas pelo sabor, mas para que absorvessem um pouco da umidade e evitassem que o fundo da torta encharcasse.

A amêndoa, no final, ficou muito mais sutil do que eu esperava, sendo a torta completamente dominada pelos pêssegos assados. Ela ficou doce na medida certa, e fiz muito bem em reduzir pela metade a quantidade de açúcar, já que os pêssegos em lata sugeridos na receita original eram conservados em água e sucos naturais, sem o acréscimo de adoçantes, enquanto os meus eram já bastante doces. Porém, devo ser sincera e dizer que, ainda que tenha resultado saborosa, ótimo acompanhante para uma bola de frozen yogurt azedinho, não é minha torta favorita. Assim como com a torta de cerejas, gostaria de refazê-la com frutas frescas. Mas, para quem tem uma lata de pêssegos em calda completamente abandonada na despensa, não vejo destino melhor!

TORTA DE PÊSSEGOS
(Deliberadamente adaptada do Professional Baking)
Tempo de preparo: 30min. + 4 horas de geladeira para a massa + 40 min. de forno Rendimento: 1 torta de 20cm


Ingredientes:

(massa, com quantidades corrigidas)
  • 150g de farinha de trigo
  • 50g de farinha de trigo integral
  • 130g de manteiga sem sal gelada cortada em cubos
  • 50g de água gelada
  • 4g de sal
  • 10g de açúcar
(recheio)
  • 500g de pêssegos em calda drenados
  • 200ml de sucos drenados da lata (se não tiver suficiente, complete com água)
  • 50ml de água gelada
  • 18g de amido de milho
  • 70g de açúcar baunilhado
  • 2g de sal
  • 1/4 colh. (chá) de essência de amêndoas amargas
  • 18g de manteiga sem sal
  • 1/2 xíc. de biscoitos amaretti
Preparo:
  1. Misture a água gelada com o sal e o açúcar. Coloque a farinha e a manteiga em uma tigela e esfregue com os dedos até formar uma farofa como farinha de milho grossa. Faça um buraco no centro do monte e jogue a água gelada, misturando com um garfo até começar a formar uma massa. Sove pouco, apenas o suficiente para formar uma bola. Envolva em filme plástico e leve à geladeira por 4 horas.
  2. Enquanto isso, faça o recheio. Coloque os sucos da lata numa panela e leve à fervura.
  3. Dissolva o amido na água gelada e misture-o à panela, até voltar a ferver. Junte o sal, o açúcar, a manteiga e a essência de amêndoas, e deixe em fervura branda, misturando, até que o açúcar esteja dissolvido.
  4. Despeje esse xarope grosso sobre os pêssegos, em uma tigela, e misture delicadamente. Deixe esfriar completamente.
  5. Divida a massa em duas partes (2/3 e 1/3 do tamanho) e abra a maior em um círculo, alguns centímetros maior do que a forma. Forre-a, deixando que as sobras caiam para fora.
  6. Espete com um garfo o fundo, para que ele não infle com o ar quente embaixo, e esmigalhe por cima os biscoitos. Despeje o recheio, nivelando os pêssegos, sem deixar que eles sujem as beiradas da massa, ou será mais difícil selar a torta.
  7. Abra a parte menor da massa em um círculo maior do que a forma, e cubra-a, com cuidado. Faça alguns furos na superfície, para que o vapor escape. Aperte a borda da forma com os dentes de um garfo, para selar as duas massas. Apare as sobras.
  8. Pincele a massa com ovo batido, leite, creme de leite ou manteiga derretida. Se quiser, polvilhe um pouco de açúcar por cima. Leve à prateleira mais baixa do forno pré-aquecido a 220ºC por 30-40 minutos. Sirva morna ou fria.

Cozinhe isso também!

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