terça-feira, 25 de setembro de 2012

A melancia da mãe maluca, geleia, picles, suco, o que for

Minha mãe tem uma loucura bastante específica. No universo dela, não há comida na minha casa. Quando morávamos a 3 quarteirões de distância, ela não conseguia aparecer em casa de mãos vazias: trazia sempre alguma fruta, alguma torta, um sorvete favorito, um queijo que o Allex gosta. Mesmo estando cercados de padarias, quando me mudei para longínquos seis quarteirões de distância, ela era incapaz de vir tomar conta do Thomas sem trazer um saco de pão que poderia alimentar uma família de oito pessoas.

Imagine agora que estou em outra cidade.

Apesar de haver três supermercados ao lado do condomínio, uma padaria, e estarmos a dez minutos de carro de mais pelo menos três redes de hipermercados e atacados, ela acredita piamente que é difícil comprar comida aqui. De modo que, mesmo ela perguntando se eu queria algo, e eu atestando que não, que a geladeira estava abarrotada, a mulher trouxe comida.

Uma melancia inteira. Do tamanho da minha barriga quando estava de nove meses do Thomas.

E eu fiquei olhando para aquela mostruosidade, pensando no que fazer com aquilo, uma vez que não podia dividi-la com minha mãe, pois a metade não caberia na geladeira. Mas não podia deixá-la ali, também, fechada, perigando estragar.

Suco. Pronto. Vou fazer suco. Mas 1/4 da melancia encheu minhas duas jarras de suco fresquinho, e eu não sabia o que fazer com aqueles pedaços cortados, já sem casca, pois havia sequer tigelas o bastante para acomodá-las, quando mais espaço dentro da geladeira.

Fiquei olhando para as cascas e decidi que faria picles delas, senão de toda a casca, ao menos de uma parte. Para me redimir daqueles picles que eu havia feito e deixado estragar. Mas e a polpa? Havia tantas frutas já maduras na bancada, que eu não conseguia pensar em simplesmente comer toda aquela melancia.

Foi quando me lembrei de ter visto uma receita de geleia em algum lugar. E estava certa: no livro da Tessa Kiros, que eu adoro, Falling Cloudberries, havia uma receita de geleia de melancia com rosas que usava bem um quilo e pouco da fruta descascada, o que já me livraria de um bom bocado.

Mas não tinha pétalas de rosa. Bom, pensei, tudo bem, quando a geleia estiver pronta, acrescento umas gotinhas de água de rosas, e pronto. Confesso, no entanto, que me esqueci dela. A geleia estava pronta, gostosa, os vidros esterilizados, e foi só quando coloquei as tampas que me dei conta de que não havia colocado a tal da água. Bem, não fez falta.

A geleia é bem molinha, consistência e cor de geleias de pimenta, mas um sabor bastante peculiar. É doce, ligeiramente azedinha do limão, e vai bem no pãozinho com manteiga (e imagino que maravilhosamente com um queijinho de cabra ou um brie), apesar da sugestão do livro ser como molho de um pudim de buttermilk. O interessante é que se me dessem da geleia para provar, jamais diria que era de melancia. Por algum motivo há algo nela que me lembra tomates, e a textura dos pedaços me lembra ameixas firmes, mas é difícil identificar de bate-pronto de onde vem aquele sabor por trás do azedinho-doce. Recomendo, principalmente se você tiver uma melancia gigante ocupando espaço na sua cozinha. ;)

Quanto aos picles, me empolguei e fiz o dobro da receita. Da primeira vez que o fizera, tratava-se de uma conserva ao modo dos pepinos, como eu gosto, bem azedinhos e ácidos. Esta receita, no entanto, bem tradicional do sul dos Estados Unidos, produz picles bem adocicados, e vi americanos sugerindo mesmo comer com sorvete. Hmmm... não era bem o que eu esperava. Não se engane: ficaram ótimos. Mas realmente não era o que eu esperava. Agora tenho três vidros de picles de casca de melancia na geladeira e não sei muito bem o que fazer com eles.

O resto da melancia virou suco. Jarras e jarras e jarras. Quatro dias de suco de melancia. Delícia.

Mãe, tem comida em casa, viu? Relaxa a bisteca. Mas você vai ganhar um vidro de geleia e um de picles. Como "punição". ;)

GELEIA DE MELANCIA
(adaptado do lindo Falling Cloudberries, de Tessa Kiros)
Tempo de preparo: 1 hora mais 1 noite de geladeira
Rendimento: 2 1/2 xic.

Ingredientes:
  • 1,2kg de melancia, já sem a casca (cerca de 2kg dela com casca)
  • 1 3/4 xic. açúcar cristal orgânico
  • 1 limão
  • 1/2 maçã

Preparo:
  1. Corte a polpa da melancia em pedaços pequenos. (Você pode já retirar as sementes, se quiser, mas elas se soltam sozinhas e sobem à superfície no cozimento, e achei mais fácil simplesmente pescá-las com uma colherinha.) Coloque em uma tigela grande e polvilhe com o açúcar. Corte o limão ao meio. Esprema uma metade, juntando o suco à melancia, e fatie fino a outra metade, cortando as fatias ao meio, também juntando à melancia. Misture, cubra com filme-plástico e leve à geladeira por uma noite. 
  2. Coloque a mistura numa panela grande não reativa (ou seja, que não seja de alumínio). Corte a metade da maçã em cubos pequenos, sem se importar em tirar a casca, e junte à panela. Leve ao fogo alto até que ferva, e então abaixe para o mínimo, cozinhando por cerca de 1 hora, mexendo de vez em quando.
  3. Quando a mistura estiver bem vermelha a melancia em pedaços menores, e você achar que faltam só uns 10 minutinhos para ficar no ponto, leve uns 3/4 da mistura ao liquidificador (tente pescar toda a maçã, mas deixar algumas fatias de limão na panela) e bata até que fique homogêneo.Volte para a panela e continue cozinhando, até que fique mais espesso. A geleia é mais líquida, pois melancia não tem pectina, mas, ao ser gotejada sobre um pires gelado, ela deve escorrer devegar, com certa resistência. 
  4. Distribua em potes esterilizados, preenchendo quase até a boca. Limpe as bordas, tampe e deixe que esfriem completamente. Se estiverem bem selados, guarde na despensa. Na dúvida, deixe na geladeira por tempo indefinido. Conserve em geladeira após aberto.

21 comentários:

The Red Death disse...

Deus!!! Isso não se faz! To eu aqui com vontade do suco, da geléia e do picles, logo agora de manhã.

Ah, eu vim aqui p/ perguntar se você alguma vez já comeu queijo manteiga. Eu, que nunca gostei muito de misturar doce com salgado, me rendi em comer essa maravilha com esse queijo. Sério, achei que fica divino. Coma e depois me diga.

Beijão :)

Anônimo disse...

Olá Anna! Gostaria de achar a receita da sua massa de pizza de fermentação longa, dei uma vasculhada no blog e não achei... Acho que nao foi publicada ainda! Só achei as massas de fermentação normal. Beijos. Camila.

Fernanda Amarante disse...

Você podia ter aproveitado a churrasqueira e feito pedaços de melancia grelhados. Ou salada de melancia com feta. E servido pra mãe, como punição. Pra mim, as duas opções são coisa de americano maluco. Dia desses joguei um pouco de sal num pedaço minúsculo pra provar e achei horrível. Tenho um paladar exótico, mas acho q melancia salgada não me desce... Mas ficou linda a geléia, e deve ficar perfeita com queijo, realmente. Ando obcecada com geléias e queijo, mas agora só posso com raros q são sem lactose. Já provou chutney de papaya? Lembrei de você, é meu preferido e fácil de fazer. Bom demais.

Ana E.G. Granziera disse...

"Red Death",
Nunca comi, mas também nunca achei por aqui. Fiquei com vontade, agora.

Camila,
realmente não publiquei nenhuma. Próxima vez que fizer, publico. Mas veja se você acha pela internet a receita de pizza do livro A16 Food + Wine. É de lá. Excelente. (O livro também.)

Fernanda,
achei muito engraçado seu comentário, porque eu ADORO salada de melancia com queijo feta: http://www.lacucinetta.com.br/2011/02/salada-de-melancia-para-melancia-que-eu.html
Acho que só botar sal na melancia é estranho, mas ela sendo o contraponto doce de coisas bastante salgadas, fica ótimo! :D Nunca comi chutney de papaya, mas tô justamente com um monte de papaya maduro aqui dando sopa. Você dividiria a receita?

bjs

Carlos disse...

Ana, desculpa me intrometer na sua vida...sou de Porto alegre e adoro ler teu blog, principalmente pela sua busca de alimentação saudável, sem tanta porcaria industrializada (briga eterna q tenho com a minha mulher)...infelizmente ainda moro na capital mas tento, tento e teeeento sair daqui o mais rapido possivel (pretendo ir pra Gramado, conhece?) onde poderia viver melhor, menos correria, etc..
Te pergunto: vc morava em SP capital? E está morando onde agora? As vezes acho q vc foi pro meio do mato, as vezes não...é pura curiosidade...beijo e continue postando...

miosotiis disse...

Queijo feta com melancia...tão bommmm!

Este ano concorri a uma horta urbana e não é que nos calhou?!? Emprestaram-me 40m2 de terra para cultivar! E uma das coisas que lá nasceu? Melancia! :D

E Ana, esta proximidade com a terra tem sido tão boa...chegar do trabalho, passar pela horta, meter as mãos na terra, tomar um banho em casa e cozinhar o que trouxe de lá...tão bom!

Vou seguindo o teu blog, as tuas dicas, deste lado do mar. ;)

Ana E.G. Granziera disse...

Carlos,
haha. Não, estou a uns 40 minutos de SP no máximo. Casa de condomínio, quintalzinho sussa. Suficientemente perto pra continuar indo no mesmo pediatra em SP, suficientemente longe pra chover aqui e não em SP. ;)

Miosotiis,
invejinha branca das grandes. Meu quintal é mais pavimento que grama (e a casa é alugada), então tenho de me conformar em plantar em vasos ainda. Queria muito mais terra para uma horta decente e um pomarzão. Você deve estar se divertindo mesmo (e tendo bastante trabalho, claro!).

Bjs

Ariane Seixas disse...

Chorei de rir Ana!! Achar que tem pouca comida é mal de mães acho, a minha faz igualzinho. Me pai também, se duvidar faz pior.

Só não trazem comida porque estão realmente muito longe.

g.marian disse...

Nossa Amei a receita e me veio na hora aquela sua salada de melancia e vc comentando sobre o gosto e citou tomate veio a minha mente uma receita que vi no GNT de molho de melancia para macarrão em substituição ao molho de tomate. Quando eu vi a receita na tv eu ri e troquei de canal...Agora com o seu relato acho que vou tentar fazer essa receita de molho http://globotv.globo.com/gnt/alternativa-saude/v/molho-de-melancia-substitui-molho-de-tomate/1896983/

O verão vem chegando e as melancias tbm.. #nham
Beijos

miosotiis disse...

O trabalho é muito e às vezes chegamos estourados a casa... Mas estamos a aprender e este Verão foi tão bom! Plantámos muitas coisas em pouca quantidade: tomate-cereja e outros maiores, pimentos padrón, pimentos verdes, beringela, beterraba, alface, pepino, curgete, cebolas, malaguetas, couve-flor, bróculos, morangos, maracujá, mirtilo,... pouco de cada, mas tão bom! ;)

Também moro num apartamento e a primeira coisa que comprei foi um vasinho de amores-perfeitos. Para me sentir em casa. :)
Depois preenchi a pequena varanda com vasos em terracota onde plantei ervas aromáticas. Uma maravilha!

Se tivesse um quintalzinho em casa...ahhhhh, teria logo, logo!, um limoeiro. A ver vamos... *

CRISTIANE LARA disse...

Oi Ana ! Acho bem engraçadas as tuas histórias. Melancia é tudo de bom ! A geleia nunca comi ! Anciosa para fazê-la ! A foto está linda ! Bj

Fernanda Amarante disse...

Papaya Chutney
1 kg unripe pawpaw or 1 kg papaya
100 g cashew nuts
50 g fresh gingerroot
3 cloves garlic
2 fresh hot red chilies
225 g golden raisins
450 g sugar
480 ml cider vinegar
2 teaspoons salt


Peel the papaya, scrape out and discard the seeds and cut the flesh into 2.5 cm cubes.
Toast the cashew nuts on a baking tray in a 180 C/350 F oven until lightly browned.
Let them cool slightly and coarsely chop.
Peel and finely chop the root ginger and garlic cloves.
Halve, seed and chop the chillies.
Put all ingredients into a preserving pan.
Simmer, stirring occasionally with a wooden spoon, for 30 minutes, or until the chutney has reduced and thickened.
Spoon the chutney into warmed sterilized jars, to within 3 mm of the tops.
Seal the jars and label.
Keep in a cool, dark place.
The chutney can be used immediately but it improves if stored for 2 weeks before using.

Fernanda Amarante disse...

Elisa querida, já te enviei a receita por aqui mesmo, fiquei com preguiça de procurar seu email. E preguiça de traduzir também. Provei o chutney de papaya a primeira vez no restaurante Bhagwan, um indiano,aqui em BH, e me apaixonei. E aí fiquei obcecada. Na primeira vez, fiz exatamente essa receita que te enviei. Mas não ficou muito boa, te aviso. Faça com açúcar orgânico, como gosta, mas não mascavo, fica horrível, forte demais, e a cor muito feia. Ele deve ficar laranja bonito mesmo, não escuro. E não acho essencial as castanhas e passas, se não tiver. Mas que fica bom, muito bom, fica. Depois conte. No dia que eu arriscar a diaba da salada de melancia te conto. Quem sabe se um dia eu engravidar e ficar meio louca. Beijos!

Ana E.G. Granziera disse...

Oi, fernanda,
Muitíssimo obrigada! ^_^

bjs

Giselle disse...

Nossa, você não tem noção de como te entendo. Quando saí de casa pra fazer faculdade, eu visitava minha mãe só aos finais de semana, uma ou duas vezes ao mês.. Ao voltar para a faculdade, eu ia cheia de malas pesadas, não de roupas, mas pão, doces, arroz, bolo... e ai de mim se não levasse tudo aquilo embora... Tinha que passar uma hora ouvindo um discurso de filha ingrata pra baixo...
Era tanta comida que eu dividia com meus colegas, levava mais da metade pra república deles.
Ah! Uma vez ela me mandou um FRANGO inteiro. E eu viajava de ônibus... kkk

nathalia disse...

olá, Ana! descobri seu blog há pouco tempo e ja me sinto completamente viciada nele. Levei um susto quando vi sua foto, vc é novinha!! sua escrita é tão boa e suas ideias tão maduras que achei que fosse bem mais velha! parabéns pelo esforço de criar seu pimpolho comendo alimentos saudaveis. Embora eu cozinhe com frequencia, ainda nao sou tão adepta ao "do yourself" pq ainda nao sou casada..hehe..quando tiver minha própria casa com certeza vou me aventurar mais nos seus quitutes..parabens de novo! bjao

Raquel disse...

Eu te vejo num futuro mais distante IGUALZINHA a sua mãe! Jamais visitando seus filhos sem um mimo nas mãos! Talvez os motivos sejam diferentes dos da sua mãe! :)

Anônimo disse...

Bom dia Ana,
Tem pouco tempo que conheço o seu blog e ontem, depois de passar umas cinco horas mergulhada nele, resolvi que aqui em casa farei todos os pães... Obrigada pela mudança em minha vida ( meu marido de adora pães caseiros agradece).
Sou de uma familia que todos cozinham e que as mulheres AMAM ganhar panelas de presente!
Fiz meu primeiro pão antes dos 15 anos e minha avó nunca comprou bolo ou pão de queijo em casa, ela mesmo fazia tudo.
Comecei ontem mesmo a mudança e hoje tivemos no café pão integral da Marcella Hazan.
O pão de maior sucesso aqui em casa é um de ervas que aprendi com a Lili, minha tia, se ela autorizar mando a receita depois.
Beijo e muito obrigada,
Thatiana Bandeira

hvianna disse...

Oi Ana,

Leio o blog há tempos e fico feliz que você esteja escrevendo com mais frequencia, confio nas suas receitas de olho fechado (tipo uma Donna Hay :P)

Enfim queria saber se tem algum livro de geléias/compotas que você recomende, estou numa fase de querer experimentar vários tipos de geléia caseira

Bjo!

Ana E.G. Granziera disse...

Hvianna,
Eu gosto de todos os que tenho. Quando tiver dúvidas de livros, dê uma olhada na página com link ali embaixo do nome do blog, com minha lista de livros ou no widget do Eat Your Books, que eu coloquei na lateral do blog (esse só com os livros em inglês).

bjs

Anônimo disse...

Olá,acabei de fazer essa receita e ficou maravilhosa. Obrigada pela receita, adoro a forma como escreve.

Aline

Cozinhe isso também!

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