quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Salada de figos e queijo de cabra por uma vida com mais atenção

Outro dia alguns amigos me escreveram pedindo dicas sobre pratos para um jantar especial. Ajudei no que pude, sabendo que eles não tinham muita (ou qualquer) experiência com as panelas, e, tendo resolvido o assunto, larguei o computador e fui à cozinha lavar as folhas que comprara para aquela semana.

Comecei devagar, separando os pés de alface, e então retirando delicadamente folha por folha, lavando-as e dispondo-as em uma tigela. O dia estava quente e barulhento, mas por um instante tudo o que me interessava era aquela pequena espiral de folhas claras, tenras e imaculadas que se revelavam para mim, o coração do alface, minha parte favorita e que sempre reservo para as saladas mais especiais, com indisfarçada ansiedade.

De repente me vi surpresa por meu grau de concentração naquela tarefa tão mundana, e pelo inegável carinho e atenção que dispensava àquela miniatura de folhas verde-claras e vivas em minha mão. Absorta naquela ação específica e hipnotizada por meus próprios planos para aquelas verduras, já não ouvia o barulho da rua ou sentia o calor sufocante que invadira minha cozinha minutos antes.

Então me dei conta de algo que me entristeceu um pouco.

Com a culinária tão na moda quanto um dia a ginástica aeróbica foi, são cada vez mais freqüentes os pedidos de amigos e conhecidos para que eu lhes ajude ou ensine a preparar um prato X ou Y para impressionar em um jantar especial. Mas conhecendo essas pessoas específicas, sei que elas não apenas não cozinham todos os dias, como também não sentem (e acreditam que não sentiriam) prazer em cozinhar todos os dias, apenas para si. Dei-me conta de que a moda da culinária, de modo geral, não estava produzindo nas pessoas uma renascença do amor pela cozinha, mas tão somente uma vontade de impressionar os outros com um prato de aparência trabalhosa, da mesma forma como, dias antes, fizeram com um celular ou carro novo.

Tinha ainda esse raciocínio corroendo minha mente quando me deparei com um programa de culinária qualquer que prometia ensinar "o segredo da autêntica cozinha italiana". O programa batia nas mesmas teclas de sempre, dos ingredientes sazonais e de qualidade, da pasta fresca, do Parmigiano-Reggiano... e eu estava prestes a desistir do programa quando eles mudaram a reportagem para uma dona de casa italiana colhendo ervas selvagens na beira da estrada e preparando uma refeição tradicional, com um sorriso que lhe rasgava o rosto e uma timidez típica de quem não vê segredo em sua arte. "Não sou nenhuma chef", dizia ela como quem se desculpa, "sono una mamma che cucina." Ela fazia questão de que a repórter sentisse o aroma penetrante de cada um dos temperos, e que aprendesse como preparar esta ou aquela verdura, como quem simplesmente não se conforma que alguém possa passar a vida sem saber preparar uma abobrinha.

Então percebi que era aquilo o que fascinava tanta gente na cozinha italiana, e o que anda faltando na vida de muitos, ouso dizer, até fora do âmbito da culinária. Dizer "cozinhar com amor" soa piegas e cliché. Mas falo de um amor que transcende a simples escolha dos melhores ingredientes, melhores utensílios e técnicas refinadas, e com certeza vai além de simplesmente colocar um prato bonito na mesa. É o amor pelos tomates que se têm nas mãos, seu cheiro, seu gosto, o sol contido neles e o desejo de honrar sua divindade com um destino que exalte suas melhores qualidades. É o amor pelo tempo que você dispensa ao preparo daquela comida, não encarando nunca aqueles minutos ou horas como tempo perdido, mas como o momento de paz, introspecção e dedicação que ele de fato é. Da mesma forma como a meditação requer exercícios prévios para acalmar a mente, também a refeição merece esse momento de calma e preparação. Aí entra também o amor pelo momento de desfrutar aquela comida, não importando se é apenas uma maçã cortada em pedaços, um sanduíche no meio do trabalho ou uma ceia completa entre amigos. Poucas frutas, na minha opinião, contém em sua polpa o sol que as banhou durante o tempo em que cresceram como as uvas o têm. Com um pouco de atenção você consegue sentir na explosão de seu interior suculento o calor do dia em que foram colhidas e o gosto de lugar onde cresceram. E se isso não merecer ao menos cinco minutos de seu dia, nada mais merecerá. Por fim, e acredito que seja o mais importante, há o amor pelos corpos que você alimentará com aquela comida, sabendo que aquele prato formará, reformará e gerará energia a cada célula sua e de quem dividir o jantar com você, e nada pode ser mais importante do que a qualidade do que você põe à mesa e cuidado com que foi aquilo foi preparado. Comida deve ser vista, preparada com e deve gerar alegria. Sempre.

Essa é a cozinha italiana como eu a entendo, como vi e experimentei, e aquela que considero autêntica. A cozinha cuidadosa de minhas avós, que não sabiam exprimir amor de outra forma a não ser através de seu prato favorito. O prazer no preparo caseiro de pratos considerados trabalhosos hoje em dia, e a maravilha de produzir seus próprios legumes, que aprendi com meu pai, ou as histórias de uma cozinha mais frugal e mais satisfatória de tempos mais simples, que ouvi de minha mãe.

Gostaria que junto com a moda da culinária e da gastronomia, tivesse vindo também o amor pelos corações de alface, pelos biscoitos caseiros recém saídos do forno e por um prato de tomates vermelhos de verão polvilhados de sal. Gostaria de ver de fato mais dedicação e cuidado do que apenas um prato "olha só o que eu fiz". Principalmente porque – e isso eu mesma demorei a perceber – a cozinha do "olha só o que eu fiz" é estressante e trabalha com ego e expectativas. Não há frustração quando seu objetivo não é impressionar, mas apenas nutrir, saborear, sentir, experimentar. Seu sanduíche no meio do trabalho pode ser seu oásis de tranquilidade e prazer se tiver sido preparado por você de manhã cedo ou um dia antes, com toda a atenção merecida e com aqueles lindos tomates que você você comprou especialmente para esse lanche.

Toda essa elocubração de uma tarde quente levou-me a essa salada muito simples, com uma das combinações de que mais gosto e que não tem nadinha de novidade: frutas quentes e queijo. Aqueça uma frigideira com um fio de azeite, polvilhe com folhas de tomilho fresco e coloque os figos com a carne para baixo, deixando que caramelizem ligeiramente, sem que queimem. Grelhar ou assar frutas é a melhor coisa a se fazer quando você dá o azar de comprar frutas que não estão lá tão saborosas (e todo mundo sabe que isso acontece às vezes): aquecê-las libera uma doçura antes oculta que faz valer a pena ter caído naquela promoção suspeita do supermercado. Arranje as folhas verdes de sua preferência no prato, distribua algumas fatias de queijo de cabra tipo Chabichou (ou outro queijo mole com casca) e coloque os figos quentes e qualquer caldo que tenha saído deles. Tempere com sal, pimenta, azeite e pinoli (ou nozes) tostados.

39 comentários:

Rose disse...

Este foi seu melhor post até hoje. Parabéns.

Dricka disse...

Ana sabe que ontem eu estava pensando a mesma coisa.Fui ao supermercado e ouvi uma conversa de um casal:
-Amor pega a maionese.
-Qual maionese?
-Qualquer uma.É tudo igual.
Sai do mercado pensando que, embora ela quase tenha razão, pq realmente as maioneses industrializadas são quase a mesma coisa, alguem que dá tão pouca importância para o que vai comer, deve detestar a cozinha.Fiquei pensando o restante do dia que tá cheio de gente por ai que acha que o manjericão que eu cultivo com tanta dedicação e a mesma coisa daquele que vende no saquinho do supermercado, simplesmente porque não dão ao alimento a importância vital que ele tem. Quem gosta de cozinhar e, alem das mãos, usa o coração ama e respeita o alimento que vai pra panela, mesmo que seja simplesmente um refogadinho de taioba.
E é por isso que sua cucinetta faz tanto sucesso, pq dá pra sentir sua relação de carinho e respeito com a comida.
bjs

Bigode de chocolade disse...

Queria pegar todo esse lindo e iluminado texto que você escreveu e transformá-lo num molho. Um molho de saladas, talvez. Ou de uma querida macarronada. Aí convidaria um monte de gente e – fica sendo segredo nosso – enfeitiçaria a comida, tentando encantar todo mundo. Vivo num mundo de especialistas que, por acharem que não dominam a comida, evitam até de sentir o gosto. Parece que ser assim não chocaria com seus domínios. Sim, há o silêncio e o isolamento do preparo... mas não é à toa que existe a mesa. Muitas vezes ela é entendida como barreira; eu interpreto a comida como a ponte.
Sobre a moda gourmet... sei lá. Muitos blogs ou parecem vitrines de livros ou tem cara de biscoito com cobertura de chocolate e mais outro biscoito e mais outro biscoito.
Vou ler seu texto várias vezes.
Obrigado.

Moira disse...

Concordo consigo, as pessoas hoje em dia querem impressionar,por isso e cada vez mais contratam serviços para elaborarem um jantar especial, cozinhar para a maioria é um frete e a falta de amor pela cozinha traduz-se em pratos sem sabor e sem harmonia.
Às vezes um prato simples, sabe-nos que nem um manjar de reis :))
Bjs
Moira

caosnacozinha disse...

Ana, não podia concordar mais. E acho que depois de ler o seu texto é ainda mais verdade a frase da sua mãe, ali do lado do blog.
Cozinhar é a minha meditação. Ir à feira, conversar com os lavradores que com paciência me explicam as ervas que trazem. Trazer todos os produtos que eles plantaram com amor pela terra e não os cozinhar com igual amor é uma ofensa a tanta dedicação.
Cozinhar é nutrir, corpo e espírito. E a quem cozinha com amor nutre mais ainda, porque ensina, porque nos faz querer saber mais, saber porque sim e não para impressionar.

Beijo *
Mariana

angela disse...

Ana, já li e reli seu post, amei. a salada ficou muito especial. beijos

Nesh disse...

Lindo post. Estava pensando em algo semelhante um dia desses, mas você como sempre soube escrever mais ou menos o que eu sentia...
Se importa de eu imprimir esse texto e levar pro pessoal do restaurante ler? Obrigado :)

Alecrim disse...

Ana, sempre leio seu blog e adoro! É uma fonte de inspiração! No entanto, esta é a primeira vez que escrevo ou talvez, a segunda.
Fiquei muito feliz por você ter feito um comentário no meu texto "Scones, divinos scones"!
O seu post está maravilhoso! Para mim, passou sentimento e verdade. Acho, que mesmo com o modismo pela culinária, ainda existe uma falta de atenção e amorosidade na arte de se alimentar. Saborear, ter tempo para comer, apurar o paladar não tem um significado maior. Falta esse amor pelo alimento, pela nutrição, pelo prazer de ter prazer ao sentir, realmente, o sabor de algo saboroso. Falta amor em alimentar a si mesmo.

Gina disse...

Lindo texto! Permite muita reflexão. Coisas simples sempre estão associadas às boas lembranças.
Uma coisa que me impressiona bastante em minha mãe é o gostar de receber as pessoas e a facilidade que tem de preparar sempre algo gostoso, com rapidez e simplicidade, tornando aquele momento especial.
Gostei dessa mistura de figos com queijo de cabra... Outro dia compre esse queijo e só eu gostei... bastante, por sinal!
Parabéns pelo post.
Bjs.

Anônimo disse...

Post maravilhoso. Eu que sempre adorei cozinhar só fui descobrir o quanto amo a culinária quando me vi morando sozinha.
Salada deliciosa, adoro queijo chabichou é o meu favorito.
Daniela Fonseca (dafsp@terra.com.br)

luka disse...

Você tem razão e não está sozinha. As cozinhas ao estilo Adriá e Blumenthal são para impressionar. Por isso mesmo passaram rapidamente e os olhos se voltam novamente para a Itália , considerada a melhor cozinha do momento, justamente porque o italiano tem o coração na cozinha, que nesses tempos de crise é o aconchego que as pessoas mais querem.

Anônimo disse...

Ana Elisa, esta é uma crônica que
nada perde para as da fabulosa Mar-
tha Medeiros...reconfortante!.
Parabens, mais uma vez! Glaucia

Claudia disse...

Oi, legal teu blog!

Sobre tua postagem eu vou escrever o que me parece uma provocação ainda que, diante de tantas restrições declaradas, eu já não sei dizer se é apropriado.

Existe mais entre o ser humano e a comida nos dias de hoje do que supõe nossa vã filosofia.

Ao que me parece, vítimas da moda somos eu e você, que nos achamos atentas, que cuidamos do que comemos, porque viajamos, assistimos aos programas e compramos os livros nos achamos imunes. Somos nós as maiores vítimas.

Imunes as modas são aqueles que não tem dinheiro para comprar comida de qualidade, que compram comida pelo preço, ou aqueles que produzem toda a comida que comem, para quem comida é parte da sobrevivência, o alimento para manter o corpo forte para o trabalho.

Comida virou produto de supermercado, virou arte culinária, é um luxo (tanto para os que comem como para os que não comem todos os dias), mas comida é vida, é sobrevivência. Acima de tudo comida é cultura e comida é economia, riqueza e poder. Comida se vende e se compra. As embalagens enganam. Mas a comida fala a língua de todo mundo, qualquer pessoa entende a língua da comida.

Não vou dizer que acho que você subestima teus amigos 'cozinheiros bissextos' pois não acho que é o caso. O que eu acho é que você superestima a tua visão de mundo, a tua lista de livros e tuas viagens. Não me acho diferente de você, preciso frisar. Mas eu acho que existe mais para ser dito sobre o assunto do que re-dito.

Sim este é teu blog e você escreve o que pensa. Eu respeito isso! Mas penso diferente mesmo pensando igual a você.

Vivendo e desaprendendo,

C.

miriam disse...

Há bastante tempo leio seus posts e acho genial, mas com este comentário acerca do que representa o ato de transformar o alimento... me vejo totalmente nele...de alguma forma as pessoas apaixonadas pela vida se comunicam mesmo sem nunca terem se visto...
abraços
Miriam

Clarissa Fondevila disse...

Ana,
Estou sem palavras! Lindo texto!

Marcelo disse...

Ana, já leio o seu blog há quase um ano.
É o ápice de minhas tardes chatas, após os estudos da escola e outras tarefas.
É sempre muito bom ver as tuas fotos, as tuas receitas e histórias. Elas me alegram muito.
Esse foi um comentário que me tocou,
mas não foi o primeiro.
É o meu primeiro comentário, confesso.
Mas isso não importa, porque já se tornou o meu blog favorito.
Ah, parabéns.
Marcelo.

Anônimo disse...

Ana, desconbrí o seu blog recentemente, e o que chamou minha atenção foi a frase de sua mãe, pois é dessa forma q me sinto. É por isso que não pude deixar de comentar que o seu post está lindo.

Pois também penso que o mundo está mais para a aparência que para o amor de fazer uma simples salada. E me lembrando uma conversa com meu marido:

"- O quê faz sua comida ficar boa são a qualidade dos alimentos, não é?!

O que respondí: Isso pode contribuir bastante, mas tem um ingrediente que nem todos colocam na hora de cozinhar... o amor, acho que isso é o que torna especial"

E é por isso que o seu blog me atrai, pela sua busca pela qualidade e pelo amor que possui pela cozinha.

Parabéns! Beijos!

Stéfano disse...

Bravo!!!!!
Reverência!
Não sei nem o que dizer!
(...)
Vc escreveu de forma tão profunda e verdadeira! E me identifico muito com isso tudo!
Também me incomodo: tem muito mala no "ramo" por puro modismo. Triste. Falta a muitos o que é genuíno em vc, por exemplo! Há gente arrogante sendo "formada" em "faculdades". (não todos, óbvio)
Uma bela reflexão, a sua! Muito bela! E como disse a Rose, seu melhor post até hj. Disparado!
Mais gostoso que qualquer receita!
Parabéns!

@ Cláudia
Não é defesa nem nada. Afinal, o que vc disse foi com todo o respeito =)
Seu ponto de vista pode fazer sentido, mas o da Ana também faz! Por isso vc disse que "pensa diferente pensando igual"
Veja bem: a moda bota alguma coisa em evidência. Uns se interessam genuinamente, outros caem na rede para aparecer. Mas o amor da Ana vem de antes da moda (penso eu, e não importa já que é genuíno). A moda é recente. O meu amor, idem. Veio por necessidade.
Fato é que quem torce por um time, ou pratica outro tipo de exaltação (reverenciar a gastronomia, por exemplo), superestima as coisas desse assunto (na visão dos outros, que não o fazem!).
Eu superestimo uma pasta fresca bem feita, pois eu dedico muita atenção à gastronomia e valorizo tudo o que envolve a manufatura de uma pasta fresca!
Para muitos amigos meus, sou o louco que demora fazendo na mão o que a Piraquê me vende pronto. Até eu colocar na boca deles a minha pasta. Eles entendem, mas ainda assim não dão o valor que eu dou. Como adoro gastronomia, olho pra ela com lente de aumento. E não é por moda! É porque não gostava da comida da minha mãe, aprendi algumas coisas, e sempre gostei de transformar os alimentos e torná-los muito agradáveis pra mim e poder proporcionar o mesmo para os outros! Do tipo "olha como UM ovo pode ser loucamente delicioso". Uau!! Hmm!!
Cordialmente.

Maria disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Ana, não me leve a mal, gosto do seu blog e do seu jeito de escrever, mas acho que você coisifica demais seu amor. Nunca vejo dizer "como admiro aquela pessoa, apesar de todos os defeitos", ou alguma caridade com quem sofre de verdade (crianças, idosos, doentes...). Seu amor é pra comida e pra cachorro - e talvez pro seu marido. Você vive para o mundo material, tentando dele extrair coisas que, na verdade, se encontram em Deus e no reflexo de Deus que existe em cada pessoa. Melhor explicando, o grande vazio que existe em você nunca será preenchido pela comida, por melhor que ela seja, mas somente por Deus, que é inifinito. Boa sorte na vida. E, se for útil, expreimenta entrar no site dos comedores compulsivos (overeaters) anônimos.

Ana Elisa disse...

Gente,
fico muito feliz que tenham entendido o espírito com que escrevi esse post. Muito obrigada pelos elogios, fiquei emocionada. Quero reiterar que não tenho nada contra quem trabalha com comida, em restaurantes ou afins: pelo contrário, admiro quem tem a manha e gosta do que faz. Fico feliz, como sempre, de não ser a única louca no mundo. :D

Cláudia,
obrigada por sua opinião. Respeito nossas diferenças. Não vou entrar no mérito de cozinho desde os dez anos, porque quem lê o blog faz tempo sabe do meu histórico. No entanto, me sinto obrigada a apontar que, tendo já comido na casa de gente com muito pouco e gente com coisa prá dar e vender, acho errado presumir que amor por comida esteja diretamente vinculado ao seu poder aquisitivo. Não vejo por que alguém que viva de cultura de subsitência não possa ter (justamente ele) veneração pelo alimento à sua frente. Ou mesmo alguém que escolha um tomate pelo preço não queira justamente extrair dele o melhor possível.
Sobre superestimar minha visão de mundo, infelizmente não me foi permitido nessa vida habitar outro corpo senão o meu e ver o mundo com outros olhos senão os meus. Estou para conhecer um ser humano que não valorize sua própria opinião. Se pareço histérica com relação à comida, é porque acredito que essa é uma raiz para mudança: respeito à comida, respeito a si mesmo, ao próximo e a seu ambiente. Está tudo interligado, e esse é um ideal meu. Se não fosse superestimado, não seria um ideal, e não haveria porque lutar por ele.
Mas obrigada. É sempre bom discutir esses assuntos, e é bom ter uma voz contrária às vezes. :)

Anônimo,
A meu ver, Deus é amor. Sinta-se à vontade para reescrever o texto trocando uma palavra pela outra, e você continuará obtendo exatamente o mesmo sentido que quis dar às minhas palavras. No mais, esse é um blog sobre comida e experiências relacionadas à comida, onde ocasionalmente mostro fotos de meu cachorro, a quem amo muito, e onde tento preservar a privacidade de meu marido, a quem amo ainda mais. Se quiser conversar sobre Deus, religião e espiritualidade, adoraria compartilhar alguns pensamentos com você. Mas em outro espaço.
Obrigada por sua opinião.

Bjos a todos.

marcel gussoni disse...

Ana, fiz uma salada muito parecida na semana passada, só que usei figos secos, amendoas, tomates e rucula, ficou muito bom! Logo publico no blog!

abs

fátima disse...

belo texto.
comida não deveria ser só aquilo que nos nutre o corpo, mas também o que afaga a alma.
como boa descendente de italianos, comida p/ mim é um imenso prazer...

Cristiane disse...

Ana, desde ontem que tento terminar de ler seu post, por falta de tempo, acabei indo pra casa e nada... Hoje cheguei um pouquinho mais cedo e finalmente consegui. Gostei muito. Com a correria e o ritmo louco das nossas vidas, nao nos damos conta, nem pensamos nesses pequenos e tao consideràveis detalhes...

Patricia Scarpin disse...

Ana, que post inspirador. Amei, amei, amei. Reli cada pedacinho bem devagar, para não acabar nunca. :D

Acho que você traduziu muito do que penso a respeito da cozinha. Muito antes de ter um blog eu já sentia esse amor pela comida preparada. Não tinha sensação mais gostosa do que a de preparar um macarrãozinho rápido para meu pai quando ele chegava muito tarde do trabalho, exausto e faminto. Ou um bolo bem gostoso para os meninos que vinham lanchar em casa à tarde com meu irmão. Enfim... Tanta coisa boa vem da cozinha. E fico em choque quando muitas pessoas me olham como se fosse um ET ao saberem do blog. "O quê, você cozinha por que quer???". São pessoas que mostram até mesmo um certo asco pelo fogão, pelas panelas. E, em conseqüência, pela comida. Não consigo entender. Esse orgulho em dizer que não sabe nem fazer um café - onde está a glória nisso? Não saber por nunca ter feito é uma coisa, mas se vangloriar por detestar é outra. Como se preparar um arrozinho fresco para família - ou uma salada maravilhosa como a sua - fosse sinal de ser submissa ou algo do gênero. Coisa mais ridícula.
Já era fãzoca tua, agora sou mais ainda. Pode ter certeza.

Bete disse...

Texto mais lindo, vou reler sempre.
Melhor que isso, só meu filho (20 anos) dizendo hoje: -Mãe, você caprichou, comi três pratos!Guloso, né? Amo cozinhar para os meus e, como vc tão bem disse, nutrir os corpos de quem eu amo, renovando a energia para a vida.
Beijo.

Diogo Henrique (Guga) disse...

Me emocionei. :) Parabéns pelo post, de verdade!

Anônimo disse...

Parabéns pelo post e pelo blog!
Muito capricho, muita delicadeza e simplicidade.
E olha, tem que ter muita fé pra ler certos comentários de pessoas reles e mal educadas...Parabéns, de novo!

Giuliana disse...

Oi Ana, deu vontade de expressar minha opinião! Você sempre desenhou e escreveu muitissimo bem! Mas quanto à comida... lembro-me do seu primeiro brownie (faz uns 15 anos, né?): olhei pra ele e pensei... humm, nao sei não... melhor continuar com desenhos (hehehe). Acho o máximo que hoje, depois de tantos anos, você tenha transformado o ato de cozinhar em algo tão prazeroso para você e para seus leitores. Adoro você e suas peripécias na cozinha... Continue sempre assim, autêntica e com uma personalidade de dar inveja a qualquer um. Beijos de sua irmã(que ainda tá esperando a pizza e a comida mexicana... cadê, hein? hehehe).

silvana cici disse...

Cara Ana, muitos se identificam com você e eu também, mas de um jeito que (olhe só o egocentrismo!) eu achava que só eu enxergava o mundo, a minha cozinha e o meu "NUNCA BLOG" pois adoraria escrever o que penso - e o que faço - de comida, com amor, prazer e vida, é esta a chave, mas não tenho tempo, de verdade! Aprendi a cozinhar porque gosto de comer! Fico felicíssima em ver outras pessoas comendo o que eu cuidei para transformar em comida, às vezes a mais simples possível ou outras com mais sofisticação, mas sempre com aquele amor "materno" que só as mães italianas demonstram ao fazer e falar de comida (hoje sou uma mãe italiana e entendo muito minha mãezinha que está no céu, talvez fazendo seus molhos e escalopinhos para os amigos nas nuvens...). As outras mães também fazem com amor, mas as italianas DEMONSTRAM, não é mesmo? Vivemos uma vida de aparências, que muito me desagrada, mas jamais me sinto contaminada, pois não fiz nadinha prá ser assim, é natural essa minha postura e é isso que me anima. Todos me dizem para trabalhar com comida e... tenho medo... que perca o encanto, sabe? Porque é um verdadeiro encanto desfrutar de tudo o que o ato de cozinhar traz. Continuemos assim, coisas boas sempre se espalham! Um beijo.

Leila disse...

Super interessante a salada. eu tenho uma ligacao meio estranha com queijos e iogurtes. nao consigo gostar de queijos fortes, com cheiros e em salada só se ele for quentinho. meu marido é apaixonado por queijos e sempre tem vários tipos na geladeira mas se nao usar para cozinhar, acabo nemm tocando neles.
essa saladoca ficou com aspecto otimo e tentarei fazer um dia desses para o jantar já que opto por receitas mais leves e quen sabe usar apenas um tiquinho de halloumi light, ah sim, esse eu amo.
beijinhos

Eduardo Luz disse...

Uau !

Manu disse...

Ai, Ana...
Caraca!
Foi um soco na boca do estômago, hahhahahahahah!!!
Sem mais! Muita coisa pra PENSAR!
Escreve mais, escreve mais!!!
Bjo

Priscilla disse...

Ana, lendo teu post lindo, sensível e delicado é impossível nao pensar no filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (que mesmo sem te conhecer acho a 'tua cara'), quando Amélie diz que gosta do garoto da mercearia, que trata as endívias com carinho :-)
bjs

Ronan disse...

Poxa....."me ganhou"!!!

Maurício disse...

Foi inevitável lembrar de uma lição de Shunryu Suzuki roshi: "Cozinhar não é apenas preparar a comida para alguém ou para você mesmo, é expressar-se com inteireza".
É emocionante e raro ver em alguém o que se pode perceber em você, com esse seu post: a transformação da vida em arte, do particular em universal, do corriqueiro e comum em essência, da técnica em caminho, do mundano e material em espiritual, divino. A culinária deixando de ser um fim, e tornando-se um meio.
Para completar, a generosidade em compartilhar um insight tão profundo, e o carisma e a leveza para comunicar isso de uma forma que atinge seus leitores em cheio.
Deixo de ler seu blog por um tempo, e quando volto me deparo com um texto desse quilate (é assim que jóias são medidas, não?)
Parabéns, e muito obrigado.

Maria das Graças disse...

Então, Ana! melhor do que ler e reler seus textos, é a certeza de ter uma pessoa com sua semsibilidade, a nos incentivar por algo tão importante como alimentar de verdade PESSOAS, parabens! ler o que escreves é muito prazeroso e incentivador. Sou do interior do Maranhão, filha de uma pessoa que adorava cozinhar! com o seu simples do Lugar que poucas coisa tinha em termos de tempero,o que tinha,era o principal era a abundancia de ervas e o tempero dosado, como por exemplo: vinagre de bananas para temperar , cachaça e mastruz para a marinada da linguiça caseira! e assim, voce me transportou para um mundo e tempos inesquecivel! obrigada por essa restrospectiva que tão bem esta me fazendo e esperança de um dia ter grana para fazer o que mais me dá prazer,Começar e terminar um curso de Gastronomia que tanto quero fazer! To muito feliz! depois de ter lido seu texto sobre a salada de FIGOS ! o que nos leva pra frente são pessoas com cabeça simples e descomplicada! como diz voce:, hoje escreveria até esvaziar a mente sem me cançar! obrigada pelo animo, isso chamo de uma escritora nata. Ah! e não se esqueça nunca de que o seu jeito de escrever, é realmente algo que reabastece! acho que essas pessoas dão certo no que fazem quando cozinham pelo Amor que repaçam a tudo , indiscutivelmente o tempero da Vida, sem sombra de duvida ´pra tudo é O AMOR.Graça Abreu-mgsmabreu@gmail.com.

Ana Tê disse...

Menina, estava a navegar procurando receitas com figo (é que acabei de verificar que o pé de figo que plantei está brotando finalmente, depois de ter quebrado o caule umas tres vezes...fiquei tão feliz com a idéia de que algum dia colherei meu figos, em meu jardim!) e me deparei com seu blog! Fantástico! vc foi capaz de expressar lindamente o que deve ser a arte de cozinhar. Obrigada!
Ana Teresa

Bacalhau Salgado Seco disse...

Excelente combinação. Cozinhar vindo da alma tem outro sabor

Cozinhe isso também!

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