sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Tirando trauma: ceviche de salmão

Certa vez, quando ainda morava com meus pais, minha mãe e eu resolvemos tentar uma dieta estranha feita por um Instituto do Coração XYZ, já não me lembro mais qual. A dieta começava com uma espécie de minestrone sem pão, feijões, batatas ou macarrão. Deveríamos tomar a sopa todos os dias, almoço e jantar, e ir, a cada dia, completando com alguma coisa mais, segundo a lista.

Eu fui a responsável pelo preparo do sopão. Caldeirão em mãos, fui acrescentando os ingredientes. Por distração, entretando, acabei usando extrato de tomate no lugar de polpa, e juntei uma quantidade muito maior de repolho do que deveria. Resultado: gostos muito fortes e conflitantes que por muito tempo provocaram em mim uma certa repulsa por repolho.

Cada um na família reagiu de uma forma diferente àquele estranho experimento: meu pai adorou a sopa e tomava baldes dela todos os dias, e até hoje, segundo minha mãe, pede para que a preparem novamente; eu consegui segui-la por 5 dias, e então atingi meu limite, pois andava me sentindo muito enfraquecida com a falta de carboidratos; minha mãe não suportou mais de 3, e diz que até hoje engasga ao lembrar-se da sopa; minha irmã nem chegou perto e não me lembro de sequer vê-la experimentando.

O que me leva ao ponto principal: no segundo ou terceiro dia do sopão, podíamos comer um pouquinho de peixe. Ao que tive a brilhante idéia de passar no supermercado tranqueira e pedir ao peixeiro que me cortasse um pouco de salmão para sashimi. Lembro-me até hoje da menina que me atendeu, claramente desconfortável com seu posto de trabalho, e como ela assassinou aqueles meros 100g de peixe com seu facão de cabo branco e sua óbvia inabilidade. Minha pobre bandeja de salmão parecia mais um amontoado de iscas de frango que um prato de sashimi. Mas, como na época eu não era chata e exigente, deixei passar e fui feliz e contente para casa para entuchar meus sashimi-meleta no shoyu. Se ficou bom? Neh. Tinha gosto de peixe.

Essa experiência negativa somada à minha pobre faca incapaz de fatiar um peixe com delicadeza se meu pescoço estivesse na reta foram responsáveis por nunca mais pensar em preparar qualquer coisa remotamente semelhante a peixe cru.

Até o dia do milagre do peixe que não fede. Não há como dizer isso de outra forma: eu não fazia idéia de quão ruins eram minhas facas e do quanto elas me atrapalhavam na cozinha até ter em mãos uma de qualidade. Sei que parece propaganda, mas não me importo. Facas boas e afiadas não são perigosas: elas facilitam o trabalho e tornam todo o ato do mis-en-place mais prazeroso. Não pude acreditar quão fácil foi cortar o couro daquele peixe, e me senti num programa do Jamie Oliver, em que ele manuseia a faca como se fosse parte de seu corpo.

Empolgada com os resultados obtidos àquele dia, resolvi tirar o trauma de vez: apanhei meu salmão restante, deitei-o na tábua e, num movimento sem esforço, cortei-lhe a pele fora e fatiei-o tão fino quanto julguei apropriado para meu paladar. Se há alguma técnica nisso? Duvido muito. Tenho certeza de que há muitos sushimans se contorcendo ao olhar para minhas fotos. Ainda assim, aquelas delicadas e pequenas fatias de salmão prestavam-se para o que eu pretendia: ceviche.

Ainda que acredite que isso vá implícito quando falamos de peixe cru, o seguro morreu de velho: só prepare esse prato se tiver em mãos um pedaço de salmão fresquíssimo e de boa procedência. Salmon is a very fishy fish, e não vai ficar legal se seu cheiro já estiver mais forte.


CEVICHE DE SALMÃO
(Quase nada adaptado do livro Gordon Ramsay´s Fast Food)
Tempo de preparo: 15 minutos
Rendimento: 1 porção


Ingredientes:
  • 90g de salmão sem pele em fatias de 0,5cm
  • 1/2 pimenta dedo-de-moça sem as sementes
  • 1 cebolinha
  • 1/2 dente de alho pequeno
  • 1/2 colh. (sopa) de suco de limão
  • 1 colh. (chá) de shoyu (um bom, não porcaria, que é salgado demais)
  • 1 colh. (chá) de azeite de oliva extra-virgem
  • sal e pimenta-do-reino moída na hora
  • coentro fresco
Preparo: Disponha as fatias de peixe ligeiramente sobrepostas em um prato. Fatie fino a pimenta, a cebolinha e o alho e distribua sobre o peixe. Numa tigelinha, misture o shoyu, o limão, o azeite, o sal e a pimenta. Derrame sobre as fatias de peixe de forma homogênea e deixe marinando por 10 minutos. Na hora de servir, pique um pouco de coentro fresco e coloque-o sobre o peixe.

Para acompanhar o ceviche, preparei uma salada verde simples e outra de mini-abobrinhas cruas fatiadas fino com o descascador de legumes, milho em conserva, tomates-cereja e queijo feta.

17 comentários:

guilherme.atencio disse...

Com este seu post, acabei lendo o anterior também sobre peixes. Ambos ótimos! Eu gosto muito de comer e preparar peixe, mas como você mesmo falou, a logística é complicada e a compra tem que ser muito criteriosa.
Obrigado pelas receitas e pela ótima frase: "Felicidade é uma faca de qualidade."

Michelle Müller disse...

Báh guria eu tenho o maior trauma de peixe cru, ainda me curo dele rsrsr
Achei interessante este teu ceviche... quem sabe não uso esta receita pra me curar? Se bem que é uma dificuldade encontrar peixe fresco por aqui :( sim porque eu moro no litoral, mas as peixarias daqui vendem peixe congelado e vindo de outras bandas, vai entender.
estrelinhas coloridas pra ti...

Chefa. disse...

Diz aí,qual a marca da sua mega faca? Foi comprada aqui no Brasil?
Preciso de outra pois a minha é da época da faculdade e às vezes me deixa na mão...
Amo seu blog,parabéns.

Glau disse...

Ana, acho que vou passar uns dias na sua casa! estou precisando melhorar minha dieta! e a sua está maravilhosa!

E com certeza vc não tem mais trauma algum! Curadíssima!

Vi seu recadinho no Madames! :)
Bjo com carinho, Glau

Ana Elisa disse...

Guilherme,
Muito obrigada! Nóis faz o que pode...
:)

Michelle,
Ah, deve ter alguma peixariazinha de confiança por aí! O ceviche ficou muuuuuuuito bom! Vale a pena!

Chefa,
Zwillig Henckels, comprada nos EUA durante as férias. Fico contente que goste do blog! :)

Glau,
Tá muito bom comer desse jeito, mas me dá uma canseira de pensar em preparar dois ou três pratos... Ai, ai, ai...

Beijos!

Ivette disse...

Oi Ana!

Vc sabe que eu gosto muito do seu blog, e de todas as suas receitas, mas me sinto na obrigação de observar que o ceviche de verdade não leva de jeito nenhum nem shoyu nem cebolinha. Eu gosto muiot tb do Gordom, mas a receita que ele mostra deveria ser chamado de ceviche a la Gordon :) ... que é bom variar é bom, mas cada coisa com o seu nome, né?

Se algúm dia vc tiver a oportunidade de degustar um ceviche peruano, vc vai me entender ... um bom ceviche é um prato dos céus!. Se vc procurar na rede, vc vai encontrar muitas receitas (veja de preferência sites peruanos) e videos de como preparar o ceviche verdadeiro. Não que o seu não tenha ficado gostoso e atraente (a foto é linda!), como todo o que vc faz, deve ter ficado uma delicia, mas achei que vc podia se interessar por uma informação destas.

Este ano vão abrir alguns restaurantes peruanos em Sampa, não sei se vão preparar esse prato direito, pois como vc já disse, o segredo de um bom ceviche são os ingredientes frescos fresquísimos, mas quem sabe e tem ahi uma oportunidade de vc expandir os seus conhecimentos gastronómicos :) ... Nas festas peruanas realizadas anualmente em Campinas e em Sampa (em julho - festas pátrias) às vezes tb são preparados, dependendo da disponibilidade de peixe fresco e do limão correto ... o limão común não é o melhor, o correto é o galego que é mais parecido ao limão peruano ou mexicano, pois por ser um pouquinho mais concentrado que o padrão, precisa de muito pouco para "curtir" os pedacinhos de peixe. Nos meus quase nove anos no Brasil, acho que só duas vezes que eu comi um ceviche delicioso, feito pelo mesmo peruano que tristement agora mora no Maranhão .... snif snif ... é isso ahi ... bom fds!

Iv.

Anônimo disse...

hum... amo ceviche de salmão
com essa historia de ter que comer proteinas ,que tal um atum em crosta de gergelim? sabe aquele meio cru por dentro e grelhadinho por fora ? uma delicia !ai vc faz aquele molhinho agridoce(1 xicara de cha de vinagre balsamico,1/2 xicara de cha de saque e 10(!!!)
colheres de sopa de açucar .ai leva no fogo e reduz tudo.
bjs

Ana Elisa disse...

Ivette,
eu tinha a sensação de que você deixaria algum comentário do gênero por aqui... ;) Realmente, o nome "ceviche" começou a ser aplicado a qualquer prato de peixe cru marinado em cítricos. Não tem jeito. A primeira coisa que acontece com a "internacionalização" de uma cozinha tradicional é a deturpação da mesma. O que não quer dizer que as variações ou invenções em cima não sejam boas. Adoraria fazer um ceviche tradicional... se vc tiver a receita e não se importar de compartilhá-la... :)
E com certeza é um ceviche à la Gordon. Assim como no livro do Jamie Oliver tem outro que a marinada é feita com toranja. Não tem jeito. Adoraria a indicação dos restaurantes peruanos, também!!

Ah, o atum está na lista. Só não posso fazer o molho agridoce, por causa do sake e do açúcar, que está proibido esse mês. Mas assim que puder de novo, vou fazer com certeza!

Beijos

Michel disse...

Tirando apimenta que não me agrada os demais estão muito interessantes.

abs.

Leo disse...

Elisa, engraçado, talvez pelo fato de eu ser do nordeste, o peixe numa me pareceu algo complicado. Claro, tem peixes e peixes e o cheiro, quando forte, é realmente desestimulante. Com relação à questão da faca, é verdade. Uma faca pouco amolada propicia mais acidentes, já que você tem que fazer força, aumentando a chance dela escapar no seu dedo. Acho que vale sempre ter uma faca de sashimi em casa, para os eventuais preparos de peixe. são incríveis. Ficou muito bonito esse ceviche.

Leo disse...

Elisa, terminando de ler todos os comentários, vi a questão do atum. Tem um que eu provei maravilhoso no Ruella e a gente resolveu fazer em casa. segue o link para quando você puder voltar a comer açúcar, caso se anime de fazer uma receita com atum.
http://trivialounemtanto.blogspot.com/2008/04/atum-do-ruella-em-casa_21.html

Suzie disse...

Que post delicioso. E as fotos- novamente excelentes! Parabéns!

Parece que salmão tomou o lugar de carne bovina na minha dieta, então gosto de ver mais e mais e mais receitas.

marcel gussoni disse...

Olá Ana!
Cheguei aqui por um blog, que me levou a outro blog.. bom vc conhece essa história...rs
Fiquei muito impressinado com as receitas e com as fotos, como também gosto das duas coisas foi uma dupla surpresa.
Como se não existissem suficientes, criei o meu blog também, mas tento misturar por lá receitas(bem amadoras) e músicas: www.saborsonoro.com.br. La Cucinetta já está lá nas "sugestões do chef".

abraços!

Ana Elisa disse...

Michel,
a pimenta não domina o prato se for sem sementes.

Leo,
obrigada! Eram de fato várias coisinhas bestas que não me deixavam fazer peixe em casa... Agora, tô até enjoando... Muito obrigada pela dica! Vou tentar sim!

Suzie,
então fique atenta que já tem mais meia dúzia de receitas só esperando oportunidade para serem publicadas!

Marcel,
seja bem-vindo e continue aparecendo por aqui! Vou dar uma olhadinha no seu blog sim...

Beijos!

jane Vicente disse...

Tudo que faço, tem que ser pratico, rapido e gostoso. Entao minha receita de salmao, é temperar levemente com sal, limao e alho.
Colocar uma manta de mangas graudas, cortadas em tiras, no fundo da travessa, lambuzar com mel, deitar o salmao nessa cama e por cima, da pele, bem geneosamente o gergelim. Uns 10/15 min. de forno.
Servir com batatas cozidas inteiras bem quentes e temperar as batatas a gosto no proprio prato.

jane Vicente disse...

Eu fiz o peixinho, no meu caso, tinha filezinho de congro rosa e foi esse mesmo. Deixei marinar em bastante limao, pimenta preta em graos e louro por umas 2 horas. Espremi bem o limao e temperei com azeite, cebolas cortadas em rodelas (fartas), shoyou e alecrim. Acompanha paozinho cortadinho, fresco de preferencia.

Anônimo disse...

Bem legais, a história e a receita.
Vou tentá-la amanhã de noite!
;-)
Comi um ceviche em um restaurante de comida japonesa contemporânea em Fortaleza que estava ótimo.

Cozinhe isso também!

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