segunda-feira, 18 de agosto de 2008

O milagre do peixe que não fede

Procure "peixe" neste blog, e você ficará frustrado. Nunca faço peixe. Para não ser radical, acho que preparei um pedaço de salmão desde que me casei. E não é por ser semi-veggie, ou por não saber cozinhar um pedaço de peixe. Ah, o motivo é muito mais frívolo: o cheiro, la puzza incredibile que fica impregnada em todo o meu pequeno apartamento.

No reveillon de 2006 para 2007, eu resolvi que cozinharia o jantar para minha irmã e meus amigos: risotto de limão e filé de salmão com ervas. Fomos até o mercado municipal atrás de peixe fresco em conta, uma vez que no supermercado ele estava os olhos da cara. Geladeirinha em mãos, comprei metade de um peixe, pois [pode me chutar agora] eu queria tentar terminar de limpá-lo e cortá-lo em porções.

Trouxe o peixe para casa, empolgada, até dar-me conta de que não tinha uma tábua onde cortá-lo, a não ser minha tábua de madeira. Pensei no fedor do peixe na tábua onde corto chocolates, e apanhei o rolo de filme, forrando-a com meia dúzia de camadas plásticas. O peixe esparramou-se sobre a tábua, preguiçoso. O dia estava muito quente. Era preciso trabalhar rápido para que ele voltasse o quanto antes à geladeira.

Abri meu livro de técnicas no conjunto de fotos de um peixeiro habilidoso limpando um enorme salmão. Olhei para a foto. Olhei para o peixe. Segurei minha faca. Afiei-a na chaira. Ela cortou a carne do salmão como manteiga, mas, ao atingir o couro, nada. Pressionei mais forte. Ahn-ahn. Droga. Apanhei a tesoura e, desajeitadamente, comecei a cortar aquela pele indesejada que segurava uma gordura também indesejada.

Ok. É preciso tirar as espinhas, pois o peixeiro deixara um bocado delas para minha diversão. Apanho uma pinça e começo... e continuo... e continuo... e termino. Hora de cortar os pedaços. Calculo mais ou menos um filé de 120g e corto... até atingir o couro. F*ck. Pego a tesoura. Nem ela faz o trabalho direito, e termino com filés cheios de rebarbas.

Pego o primeiro filé. As ervas estão prontas. Basta criar um corte no couro e enfiá-las na fenda. Tento cortar com a faca. Nada. Afundo a ponta da lâmina na pele. A pele não cede; a carne coralina e macia afunda e começa a se desmanchar. Não, não, não! Pára tudo. Para falar a verdade, nem me lembro como diabos consegui criar aqueles dois míseros cortesinhos supericiais sobre os filés de peixe. Entucho os buraquinhos de ervas. Azeite. Cubro com filme plástico e deixo na geladeira até de noite.

Na hora marcada, apanho a assadeira, ingredientes e duas frigideiras antiaderentes de bom tamanho e levo para a casa de meu amigo. Enquanto ele toma conta do risotto, eu aqueço as frigideiras e finalizo os peixes. Um a um, os convidados recebem seus pratos. O peixe ficou bom. O risotto de limão corta a gordura do salmão. Sucesso.

Fogos de artifício. Vinho espumante. Feliz ano novo. Voltamos para dentro do apartamento e somos bombardeados direto no nariz pelo pungente odor de peixe que a fritura deixou na casa toda. Lavo as frigideiras e a assadeira, guardando-as e levando-as de volta.

No dia seguinte, começo todo um processo de esfrega panela, passa limão, passa vinagre, deixa de molho, bota incenso, lava a mão com três sabonetes diferentes, lava o cabelo, e o cheiro persiste, como se nunca mais fosse embora, como se fôssemos conviver com aquele odor pelo resto de nossas vidas.

De fato, acho que demorei uma semana inteira para parar de sentir peixe por toda a casa. Trauma. Nunca mais. Nunca, nunquinha. Peixe, não. Quer peixe, come fora de casa. Eu não faço.

Então, dois anos depois, vem a nutri me entupir de proteína. Ovo, queijo, queijo, ovo. Uma semana depois, não quero mais olhar para nenhum dos dois. Quero outra coisa. Atum em lata. Sardinha em lata. Ingredientes que limitam minha criatividade. Só consigo pensar em salada Niçoise. Mas não quero mais salada.

[*Suspiro*]

Vou comprar peixe fresco.

Mas onde? Não há peixarias no meu bairro. E meu mercado de confiança só vende peixes em bandejas, e não quero passar o sufoco de ter de cortá-los com tesoura novamente. Dou o braço a torcer, então, e vou ao outro supermercado, de uma grande rede, que acho uma zona e detesto. "Recebemos peixes frescos diariamente", dizem eles. Olho para o salmão. Sua carne emaciada e pastosa me diz o oposto. Eles não fedem, mas também não estão tinindo de frescos. O salmão nas bandejas tem um tom cor-de-laranja terrivelmente suspeito. Viro as costas e vou embora.

No meu mercado de confiança, encontro uma geladeira vazia. "Recebemos peixe fresco hoje, às 10 horas, mais ou menos, se você quiser voltar." Eu quero. Estou saindo do mercado e vejo um caminhão refrigerado com enormes letras azuis dizendo "Pescados" estacionando. Volto uma hora depois e compro salmão embalado no dia, coral, brilhante, bonito, com o nome e endereço do fornecedor, e bacalhau fresco, que só comera na Califórnia e achara muito delicado e diferente. O bacalhau vai para o freezer. Arranco o filme plástico do peixe e cheiro. Sem cheiro. Bom, muito bom. Sabendo disso, resolvo arriscar e o coloco diretamente na tábua. Apanho minha faca nova, alemã, afiadíssima. Ela corta a carne feito manteiga. E, para minha surpresa, também o couro, de uma só vez, sem fazer força.

Felicidade é uma faca de qualidade.

Guardo a outra porção de peixe muito bem embalada na geladeira e preparo meu almoço. Coloco no forno uma porção de legumes para acompanhar a cevada cozida, e adapto uma receita de Jamie Oliver para que produza molho para apenas um filé de peixe.

Peixe na frigideira. Oh-oh. O cheiro. La puzza. Oh, não! Mas ele não parece tão forte. Finalizo o peixe no forno, monto meu prato e almoço. Delícia. Nem parece dieta.

Volto à cozinha e começo a limpar a sujeira. Estranhamente, ela não cheira a peixe. Não de forma ruim. Ela cheira a almoço. Delicioso almoço. "Alguém preparou algo gostoso aqui hoje." Lavo a louça, limpo a tábua, guardo a faca. Cheiro a tábua. Madeira. Cheiro a faca. Aço. Se é que aço tem cheiro. Cheiro a frigideira. Um odor muito suave, que desaparecerá ao longo do dia. Lavo as mãos.

Vou trabalhar, e, quando volto para fazer um chá, sinto cheiro... de cozinha.

Que maravilha...

Peixe fresco é outra coisa mesmo.

SALMÃO AO MOLHO DE ANCHOVA E ALECRIM
(Ligeiramente adaptado do livro How to Cook, de Jamie Oliver)
Tempo de preparo: 10 minutos
Rendimento: 1 porção


Ingredientes:
  • 1 filé de salmão de 130g, com pele
  • 2 colh. (chá) de azeite
  • 1 colh. (chá) de suco de limão
  • 1 colh. (chá) de folhas de alecrim fresco
  • 1 filé de anchova de uns 5cm
  • sal e pimenta-do-reino moída na hora

Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 200ºC. Em um pilão, amasse o alecrim e o filé de anchova até virar uma pasta. Junte metade do azeite e o suco de limão e misture bem, até formar um molho que possa ser derramado sobre o peixe.
  2. Esfregue a outra metade do azeite sobre o peixe, dos dois lados. Tempere com sal e pimenta.
  3. Aqueça bem uma frigideira que possa ir ao forno. Não precisa ser antiaderente, mas precisa estar MUITO quente. Se não estiver, o peixe grudará. Coloque o filé com a pele para baixo na frigideira em fogo médio-baixo e deixe cozinhar por 2 minutos. Vire o peixe com uma espátula, com cuidado, e leve a frigideira ao forno por 3 -4 minutos, até que ele esteja rosa-claro.
  4. Disponha o salmão no prato e derrame o molho sobre ele.

19 comentários:

Marta disse...

Humm! Que delícia !
Sua criatividade anda mais aflorada do que que nunca, parece que a tal da dieta da "nutri" só tem te feito bem.Tenho gostado muito e tentado me inspirar além de que me divirto muito com suas estórias. Um abraço

Magia na Cozinha disse...

A sua história é muito engraçada! Hehehe...
Eu me nego a fazer peixe! Não gosto muito e evito, principalmente, pelo problema do cheiro tb.
Se tenho que faer, procuro fazer no forno, que facilita muito e fica bom.
Uma vez o meu marido comprou um tal de "red snapper". Ai, socorro, muito bonita a cor, mas o cheiro, que horror!
Sucesso na sua dieta! Nada como se cuidar!
Bjs :)

Danielle disse...

sabe o que costumo fazer para que nao fique um cehiro forte de peixe? ( pois o maridao tem horror a peixe e principalmente ao cheiro, para minha tristeza que amo peixe)
deixo um tempinho no suco de limao... aqui em casa da certo... bjkas dani

Marcia H disse...

eu adoro peixe, e com pescadora só como muito fresco.
para tirar o odor de qualquer coisa é só "reperfumar" a cozinha: água, cascas de limao, tangerina ou laranja, cravo ou canela e deixar ferver sem ligar a coifa e voilá, tudo sem cheiro
sucesso com a nutri
bjss

Flávia J. F. Solís disse...

Caraca, é a 3a. vez que tento comentar e poof! O blogger desconecta. Lá vai de novo:
Poxa Ana Elisa, vc foi escolher justo o peixe mais fedorento que é o salmão? Pode ser que da primeira vez vc tenha comprado gato por lebre e era truta salmonada. Eu acho ela mais fedidinha que o salmão de boa qualidade e fresquinho. Mesmo assim decidi não fazer mais salmão grelhado em casa, pq enjoa, talvez pelo cheiro mesmo na hora do preparo.
Gosto de fazer umas moquequinhas simples (pode ser sem dendê ou leite de côco pra ficar light, só cebola, pimentão, tomate e mais algum temperinho "a la vontê") com badejo (de água salgada) ou Saint Peter-Tilápia (de água doce), que não são fedidões.

Ivette disse...

Oi Ana, eu nasci no principal porto do Perú, e eu posso dizer que qquer peixe que seja fresco fresquinho não tem o famoso cheiro de peixe que todos odeiam. Lamentávelmente em Campinas, não tem peixe fresco, e com o que eu amo peixe, não tem jeito ...Só compro o salmão congelado que vem do Chile, com código de lote e tudo, pois é a única maneira de ter a certeza de estar comendo salmão de verdade e de que não está estragado (tem até data de embalagem). Os outros, ah, só quando o japa traz direto na madrugada e desde o litoral algúm peixinho bom. Fazer o que ... ainda bem que vc curou o trauma, pois peixe é tudo de bom!

Abraços

Ivette

Ana Elisa disse...

Marta,
pois é, apesar de não poder fazer doces, pelo menos com os salgados ando me sentindo mais criativa...

"Magia"
Também ficava noiada com o cheiro até ver que peixe fresquinho de verdade não deixa cheiro na casa.

Danielle,
Boa dica. :)

Márcia,
É, eu já estava pronta para fazer isso, mas quando vi que o peixe não deixara cheiro nenhum, deixei quieto. O marido nem percebeu que eu fizera peixe no almoço, e ele geralmente tem um nariz chato...

Flávia,
É o blogger dá umas dessas às vezes... :P Então, fiquei besta de ver como esse salmão NÃO deixou cheiro. O outro do reveillon estava com gosto mais forte, mais "fishy", e talvez por isso tenha fedido tanto. Esse de ontem estava que ninguém diria que eu fritara um pedaço de salmão uma hora antes. Uma belezinha! Sabe que nunca entendi o que era essa truta salmonada? Sendo sincera: meu conhecimento de peixes limita-se ao preparo...

Ivette,
pois é, eu sabia disso do cheiro para ESCOLHER o peixe fresco. Mas nunca tinha me dado conta de que no PREPARO ele também não federia. Vivendo e aprendendo. Mas agora que sei o dia em que o peixe chega e que minha faca corta tudo bonitinho, ah, vai ter muito mais peixe nesse blog! ;)

Beijos!

Fabrícia disse...

Ana Elisa,
Também sou como você....peixe na cozinha é complicado. Mas quando é fresco..... a puzza não aparece e ficamos felizes da vida.
Bjcas.

abstract lady disse...

Oi Ana,
Aqui em casa a gente consome peixe pelo menos 4 vezes por semana, e nunca frito (grelhado, ensopado ou no forno). E sem cheiro. O peixe fresco, de verdade, não tem cheiro.
Os peixes brancos e o atum compro no mesmo supermercado de sua confiança (que tb é o que eu mais confio). Mas o salmão, não dá. Está muito caro. Acabo comprando naquela rede grande que detesto, mas na loja da Gabriel Monteiro da Silva (e só nessa, até pq na loja mais próxima - da Oscar Freire, já peguei até bandeja de vongole com larvas vivas, argh!) porque lá eles só trabalham com salmão "via área". Não tem aquele gosto "fishy" e é bem mais barato do que no super de confiança.
Uma dica para uma refeição rápida e super saborosa (além de ser ótima para aquele dia em que não tem mais nada na geladeira). Junte um filé de peixe branco em uma assadeira com um fio de azeite, mais qualquer legumes sobrando na geladeira (cenoura, abobrinha, erva-doce, salsão, o que tiver), um punhado de ervas frescas (se tiver tomilho, melhor), um pouco de suco de limão e raspas de limão e sal. Forno pré-aqeucido por uns 10 minutos. Fica ótimo e todos aqui em casa adoram.

Ana Elisa disse...

Fabrícia,
pois é. Ainda bem que agora passou o trauma... ;)

"Abstract Lady",
é, eu também acho meio caro. Mas como tenho de me contentar com o que tem por perto, uma vez que não tenho carro nem paciência (hehehe), prefiro o fresquinho mais caro que o mais barato passado. Na boa: larvas??? Que nojo... Pois é, não aguento aquele supermercado... É muito ruim...
Ah! Adorei a dica do peixe! Comprei uns filés de bacalhau fresco que com certeza terão esse destino! :D

Beijos!

abstract lady disse...

Oi Ana,
Tb não tenho carro e aproveito para levar o cão para um semi-longo passeio qdo. vou até o super na Gabriel.
depois de encontrar as larvas, ainda tive de ouvir do "superrrintendente" que era "um problema do horário" (eram já 22hs00). Já dizia minha avó que "quem não tem competência que não se estabeleça".
By the way, é Fernanda (esqueci de assinar)
Um beijo.

Danielle disse...

ana, o file de ancovas do molho é cru? nao entendi muito como fazer este molho.. bjs dani

Ana Elisa disse...

Daniela,
é filé de anchova em conserva. Aquele de vidrinho.

Bjos

Sabrina disse...

Ana, em um curso de sushi e sashimi que fiz o professor ensinou a usar uma mistura de 50% de vinagre de arroz para 50% água; ela ficava em um potinho (tipo squeeze) e nós jogávamos a mistura em um perfex e limpávamos a tábua e a faca sempre que possível. A sala era grande e tinham muitas pessoas mexendo com peixe, sem cheiro algum... O fato do peixe ser fresco é essencial, realemente, mas achei essa dica válida. Já comprei salmão em uma peixaria chamada Horizonte Azul; eles entregam em casa o peixe súper fresco em uma embalagem com gelo embaixo. Se for à liberdade também há uma ótima peixaria na Galvão Bueno. Abraço!

Amélie disse...

Aprendi que a coca cola é excelente para tirar o cheiro de peixe dos utensilios domésticos! Não precisa usar uma grande quantidade para lavar, um bocadinho já é suficeinte! ;)

Oceanica Negocios Imobiliários disse...

E Brava Ana! este do cheiro ruim de peixe é uma montanha que tem que enfrentar e superar.. acho interessante utilizar o forno, porem lendo o post da Abstract Lady

""Junte um filé de peixe branco em uma assadeira com um fio de azeite, mais qualquer legumes sobrando na geladeira (cenoura, abobrinha, erva-doce, salsão, o que tiver), um punhado de ervas frescas (se tiver tomilho, melhor), um pouco de suco de limão e raspas de limão e sal""

Achei interessante usar a assadeira, a panela para ser mais exato, uma panela meia funda, peixe mergulhado em verduras, toques de azeite (sempre o Riserva d'oro,extra virgem) talvez usar sermpre a mesma panela p/ o peixe seja bom, estou aqui em Vila Velha na praia e acredite que é raro ultimamente comer peixe; se fazia a moqueca (a verdadeira) mas agora nada.. nao sei.. gostaria passar para o peixe e deixar os bifes. Me postem uma sugestao sobre como fazer bonito usando a panela no fogao mesmo, enquanto ao peixe creio que comprarei o surgelado ja em filé, tem colonias perto mas nao sei limpar cortar, vediamo che succede, abbasso la puzza di pesce comunque! Um abraço

Fernando disse...

Parabéns pelo blog. ganhou um leitor

walter frança disse...

Não precisa responder!

Seu texto tá tão cheio de frescuras que não dá para ler! Como tive esse problema aqui em casa, li até o final e achei o texto tão babaca que até parece que a principal finalidade dele é mostrar quer vc é cheia de finesses e frescuras escondendo sua verdadeira personalidade brega. Caia na real e apenas ensine, se é, que tem alguma coisa para ensinar.

Ana E.G. Granziera disse...

Walter, acordou com o violão no cu?
abs

Cozinhe isso também!

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