sexta-feira, 21 de março de 2008

Sexta-Feira Santa: Santa Paciência!



A despeito do fato de não sermos exatamente católicos, é impossível para mim não querer sentar à mesa posta, tomar um bom vinho e comer algo especial em uma Sexta-Feira Santa. No primeiro ano em que nos mudamos, lembro-me vagamente de algum pai (o meu ou o do Allex, já não sei mais) nos perguntando se comeríamos peixe na sexta-feira.

"É claro que não!", respondemos, exasperados. "Não comemos carne o ano todo, porque comeríamos justamente no dia em que não devemos???"

E, respondendo ainda ao olhar confuso e perplexo do interlocutor oculto pelo véu de minha parca memória: "Para quem não come carne, Sexta-Feira Santa não tem nada de especial: é só sexta-feira."

De fato, fico sempre boquiaberta com a falta de disciplina dos assim chamados católicos. Ninguém está pedindo para que eles sejam perpetuamente vegans. São 364 dias de balbúrdia e descontrole e apenas um — unzinho só — sem carne. E pensar que antigamente eram dias e dias de jejum, diminuídos posteriormente para apenas sexta-feira, então atenuados para uma dieta restrita, que, finalmente, foi deturpada por um monte de gente sem o menor senso de autocontrole, para "um peixinho pode". Daqui a uns tempos vão dizer que franguinho também está ok. Ah, vá, povo, ninguém consegue ficar 24 horas sem comer um bicho???

De qualquer forma, sou sempre invadida por sentimentos paradoxais em feriados religiosos. Por um lado, há o saudosismo incontrolável, as lembranças das Páscoas da infância, de quando bacalhau era item raro e caro, e por isso, preparado apenas uma vez ao ano, razão pela qual eu já começava a salivar de ansiedade assim que terminava o Carnaval. Por outro lado, minha parte cínica pulula e grita, irritada pela comemoração em nome da comemoração, sem conhecimento, sem tradição, rendida e vendida às fábricas de chocolate e brinquedos, inundando mentes maleáveis de noções consumistas e fúteis que contrapõem justamente a mensagem que o feriado deveria difundir. Páscoa não é mais um momento de reflexão. Nem Natal. Nem coisa nenhuma. O importante é pagar 40 reais num ovo de 300g de chocolate de qualidade inferior e abarrotado de gordura hidrogenada. Tudo porque é mais fácil agradar a criançada com uma dose colossal de açúcar do que de fato ensinar-lhes algo que preste para suas vidas.

Veja bem, fui criada como católica. Fiz primeira-comunhão. Quando me revoltei contra tudo e todos, em meus anos aborrecentes, costumava desejar "Feliz Solstício!" e "Bom Equinócio!" a meus pais, apenas para enfurecê-los. Sim, porque me parecia ridícula toda a comemoração em torno de datas arbitrárias, escolhidas pela igreja medieval em função de festas pagãs e judaicas, apenas com o intuito de minar o espírito comemorativo de indivíduos de outra fé, e, aos poucos, substituir uma festa pela outra. Isso não é segredo para ninguém. Mas acredito que se for para tomar com desinteresse uma data como esta, que pelo menos seja com essa consciência, e não por ter sido dominado pelo desejo por chocolate. Fiquei em choque ao assistir a um programa de TV em que, perguntado sobre o significado da Páscoa, um transeunte de quociente intelectual questionável respondeu que era uma data relacionada ao descobrimento do Brasil, algo a ver com o monte Pascoal.


Hmmmmmmmmmf...


Esse tipo de coisa me dá dor no estômago. Sério.


Mas, como meu lado cínico e meu lado saudosista são duas partes que há muito tempo aprenderam a conviver em paz e ceder um ao outro em nome da boa vizinhança, tento nessas datas criar minhas próprias tradições. Afinal, algo terá de ser ensinado aos filhos quando eles um dia vierem. Os pimpolhos decerto saberão o significado da Páscoa, pois, apesar de não-católica, tenho grande respeito e admiração por esse homem que tentou desesperadamente botar a humanidade nos trilhos e que (dizem os padres) morreu hoje. Mas também saberão que as datas são apenas simbólicas, e que houve e há muita politicagem no meio. Assim como também terão consciência de que Páscoa não é o Dia Oficial do Chocolate.

Por isso, e por detestar ovos de Páscoa, nessa Sexta-Feira Santa fiz um almoço simples, Risi e Bisi, que, no dialeto de Veneza, quer dizer apenas "Arroz e Ervilhas". Um risotto quase sopa (pois os venezianos bem gostam de seu risotto com mais água), de ervilhas frescas e salsinha, muito leve, ideal para um dia de calor e de restrição. É claro que omiti (como sempre omito) as fatias de pancetta. O risotto combinou à perfeição com a garrafa de Pinot Grigio do Friuli, D.O.C.

E, para iniciar uma tradição muito inglesa e pouco italiana, preparei esses brioches de Páscoa, Hot Cross Buns, que devem ser comidos na Sexta-Feira. Adoro esse tipo de pão semidoce, perfumado de especiarias e pontilhado de frutas secas. Como dez desses em lugar de um pedaço de ovo de chocolate. O aroma que se espalha pela casa quando eles estão no forno vale decerto uma lembrança daqui a 20 anos, dos pãezinhos de Páscoa preparados toda Sexta-Feira Santa.



HOT CROSS BUNS (Brioches Ingleses de Páscoa)

(Ligeiramente adaptado do livro Biscuits et Petits Gâteaux)
Tempo de preparo: 20 min. + 2h30 fermentando + 25min forno
Rendimento: 8 pães do tamanho de um punho


Ingredientes:
  • 1/2 colh. (sopa) de fermento ativo seco instantâneo
  • 40g de açúcar cristal orgânico
  • 315g de farinha de trigo para pães
  • 1/4 colh. (chá) de pimenta-do-reino branca moída
  • 1/4 colh. (chá) de gengibre em pó
  • 1/4 colh. (chá) de cravo moído
  • 1/2 colh. (chá) de canela em pó
  • 1/2 colh. (chá) de noz moscada ralada na hora
  • 1/4 colh. (chá) de sal
  • 125ml de leite morno
  • 50g de manteiga sem sal derretida
  • 1 ovo extra-grande batido
  • 120g de passas sem sementes
  • 50g de cascas de laranja cristalizadas cortadas em pedaços

Preparo:
  1. Junte o fermento, uma pitada de açúcar e 60ml de água morna e deixe descansar por 10 minutos, até que espume.
  2. Em uma outra tigela, misture a farinha, os temperos e o sal.
  3. Na tigela de uma batedeira planetária, bata com o gancho para massas o leite, a manteiga, o açúcar, o ovo e cerca de 4 colh. (sopa) da mistura de farinha, até que fique liso. Junte o fermento, as passas e as cascas de laranja e misture.
  4. Vá juntando a farinha aos poucos (4 colh. por vez), misturando bem entre cada adição, até que tudo tenha sido incorporado. A massa ficará muito mole e grudenta, como massa de panettone. Bata com o gancho na velocidade 2 por 5 minutos.
  5. Passe a mistura para uma tigela untada com óleo, cubra com filme plástico e deixe descansar por 1h30-2h, até que dobre de volume.
  6. Afunde a massa com o punho enfarinhado, e, em uma superfície igualmente enfarinhada, divida a massa em 8 porções iguais. Forme bolas com elas e disponha-as em uma assadeira grande, untada com óleo, com cerca de 4cm de distância entre elas. Cubra com um pano úmido e deixe descansar por 30 minutos.
  7. Pré-aqueça o forno a 180ºC. Leve ao fogo alto 1 colh. (sopa) de açúcar com a mesma quantidade de água, e desligue assim que ferver. Reserve.
  8. Misture 30g de farinha a um pouco de água, até formar uma massa. Abra-a com 2mm de espessura, e corte 16 tiras de 5mm de largura, formando cruzes sobre os pães crus. Leve ao forno por 20 minutos ou até que dourem.
  9. Pincele os pães com o xarope de açúcar frio e deixe que os pães esfriem sobre uma grade.

18 comentários:

Flávia J. F. Solís disse...

Você está redondamente enganada em vários pontos! Pra começar, desde quando sexta-feira santa é dia de se comemorar? Sexta-feira santa é dia de reflexão (só por isso pode ser considerada especial). Páscoa é, SIM, dia de comemorar! É comum que se faça penitência (não comer carne, jejuar) na sexta. Mesmo assim, não entendo como todo mundo (não-católico) tem essa mania de ser rigoroso com católico! Apesar de tudo, ainda há o livre arbítrio.

laila disse...

é há mto por tras das religioes...cpoisas bem feias de se pensar...mas o lado bom dessas festas é a reuniao das familias, as delicias q estao inclusas na tradição....prefiro ver assim...

bjos

Ana Elisa disse...

Flávia.
Obrigada por sua opinião. Ela reforça meu ponto. Sexta-Feira Santa não é dia de comemoração, é dia de reflexão, de jejum. Muita gente não faz isso. Transforma o feriado em festa. Não critiquei católicos, uma vez que não apenas eles comemoram a Páscoa. Há um comentário aos católicos porque é a minha criação. Se é preciso ser católico para criticar um comportamento de pessoas que por acaso são católicos, então eu tenho a carteirinha. Livre arbítrio é também liberdade de expressão.
Abraços.

Ana Elisa disse...

Oi, Laila,
realmente, a despeito de todos os pontos que me enervam sempre (hehehe), é gostoso juntar todo mundo. Nessa Páscoa conseguimos pela primeira vez juntar a família no nosso apertamento para um almoço. Vamos ver no que vai dar...

:)

Bjos!

Andreia T. Farias Britez disse...

Oi Ana,
Discussões religiosas à parte, ontem resolvi te trair como fonte e tentar fazer uma ciabatta de um livrinho pequenino de um renomado padeiro francês (aquele que era casado com a Débora Block, sabe?). A pior massa que já fiz na minha vida, 1kg de farinha foi pro lixo pois não deu nem pra comer! Então fica aqui o pedido, faz uma ciabatta pra gente, faz??? Gde abraço!!

bruna lyrio disse...

Oi, Ana. Para nao transformar o seu blog num fórum de discussao, restrinjo-me a concordar com praticamente tudo que você falou sobre a arbitrariedade religiosa, sobre a nossa falta de tradiçao e deturpamento de valores, e, principalmente, sobre a falta de espírito crítico da maioria das pessoas, que, com tanto conhecimento à disposiçao, incrivelmente ainda "nao entendem" nada. Na época dessas festas, fica evidente a pergunta: será que as massas exercem conscientemente o seu livre arbítrio? Sorte que a resposta é óbvia também. ;-)
Um abraço!

Faça a Diferença !!! disse...

Ana Elisa,

Navegando pela net encontrei o teu blog, humm que delícia! adorei o layout do blog, os textos, e sem falar as receitas, fiquei com água na boca, mostrei logo para minha esposa que é apaixonada em cozinha.

Abraços,
Ricardo Sérgio
Faça a Diferença!!!
http;//facaadiferenca.blogspot.com

remoreti disse...

Ana,

parabéns pelo seu site! É a primeira vez que "caio" aqui (literalmente, depois de uma pesquisa no Google que levou a um site, que levou a outro e a outro... já vu, né?). Vou ler tudo com cuidado, mas, de cara, já dá pra ver que é ótimo! Bjs, Rê Moreti

Giuliana disse...

Ana, os brioches estavam ótimos. Comi tudo!!! Obrigada. Bjos, Giu.

Laurinha disse...

Tb fiz pa~ezinhos, ainda não publiquei, inda mais agora que vi os seus lindinhos, numseinão, nunseinão!...
Beijinhos,

Ana Elisa disse...

Andreia,
Estou tentando encontrar uma boa receita de ciabatta, e assim que encontrá-la, JURO que publico aqui!
:)

Bruna,
É por aí mesmo. Como eu disse à Flávia, o objetivo não foi xingar uma religião, mais um comportamento generalizado pertinente à época, que está intimamente ligado à comida, que é o assunto principal por aqui. Certo?

Ricardo,
fico contente que tenha gostado! Apareça sempre, você e sua esposa!

Rê,
obrigada e seja benvinda!

Giu!
Oiê! Que bom que você gostou!!! SE quiser mais vai ter que esperar ano que vem!

Beijos!

Gourmandise disse...

Bom, peguei o bonde andando...mas gostei do texto, bem reflexivo. A igreja católica já "liberou" o consumo de carne vermelha há alguns anos, né? Não vou atrás do peixe para esta data simplesmente por causa do preço.
bjocas,
Nina.

Tatoo disse...

Ana,

acho que tudo que vc disse está mais do que correto. E, no meu entender, não foi uma crítica a qualquer religião e sim a sociedade de consumo em que vivemos que permeia por todas as esferas da convivência humana, inclusive na religiosa, e que acaba deturpando e fazndo tudo fugir de seus objetivos iniciais.

bjo gde,

Rodrigo Jardim

Clarice disse...

Agradeço pelos ensinamentos que o seu blog me trouxe,foi aqui que aprendi a fazer risotos maravilhosos,parabens.

Anônimo disse...

Excelente post.
Nada em seu texto ofende as pessoas que realmente seguem os preceitos de suas religiões. Se entendi bem, a crítica é à falta de senso crítico das pessoas.
Abraços,
Gabriela

Cachinhos disse...

AMO seu blog! De tempos em tempos dou uma passada aqui e fico admirando as receitas (só não as faço porque estou morando "sozinha" e sei que elas devem ser deliciosas e vou acabar comendo tudo sozinha, um perigo hahaha).
Estou fazendo um intercâmbio em Gales, no Reino Unido, e me apaixonei por esses pãezinhos de Páscoa! Apesar de ser batizada, não sou católica -houve até uma época que eu era super pró celebrações antigas, como sostícios e equinócios-, mas não posso dizer que odeio as delícias típicas de algumas festas (colombas de Páscoa, panetone, torrone -depois de comer um original caseiro em Milão vi que os industrializados do Brasil são porcarias-, doces de festa junina...). Aqui é praticamente impossível encontrar tudo isso (acho que é mais coisa de país de língua latina, ainda mais o Brasil por causa da imigração italiana). E esses pãezinhos mataram bem minha vontade de comer panetone/colomba. Adorei! Um dia testo a receita que vc postou =)

Carmen Zono disse...

LAILA, VC TERIA A RECEITA DO RISOTO!! AMO ERVILHAS E ARROZ!! OBRIGADIHA.

CONHECI O SEU BLOG AGORA E SIMPLESMENTE ADOREI!! BJOS

Anônimo disse...

Eu A-D-O-R-O o blog!!! Fiquei até surpresa de você ter dito ser criada como católica. Você tem cara de ter sido criada "nada".

Mas como católica, minha objeção de consciência não me deixa permanecer em silêncio quando o assunto é a minha fé, apesar do seu tom de adolescente raivosa de 16 anos...

Que os católicos fazem abstinência toda sexta-feira, durante o ano todo, eu já sei que você não sabia, mas além dessa informação, aqui tem uma fonte confiável sobre jejum e abstinência (porque quando se quer uma informação decente, tem que procurar em lugar decente... igual receita, sabe?): https://padrepauloricardo.org/episodios/qual-e-o-ensinamento-da-igreja-em-relacao-a-jejuar-e-abster-se-de-carne

Não precisa ver o vídeo, tem o texto logo abaixo.

Não precisa ser católica para saber o que a Igreja ensina... se os católicos obedecem ou não, é um problema pessoal deles. O importante é não sair falando por aí que arroz é feijão!!

Cozinhe isso também!

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