sexta-feira, 28 de março de 2008

Galettes de trigo sarraceno

Desde o post do pizzoccheri, quando expliquei muito rapidinho num comentário outros usos do trigo sarraceno que estava maluca para tentar os crêpes.

Passei toda a minha vida vendo minha mãe preparar crêpes muito finos, empilhá-los num prato, recheá-los e levá-los ao forno. Lembro-me até hoje do dia em que ela me deixou ajudá-la, e foi me orientando enquanto eu espalhava a pequena quantidade de massa na frigideira, movia o pulso em círculos para deixá-la uniforme, e virava o disco delicado com a ajuda de uma espátula, para tostar dos dois lados.

Claro, naquela época ninguém que eu conhecesse chamava aquilo de crêpes; eram panquecas. E confesso só tê-las começado a chamar pelo nome em francês quando preparei minha primeira panqueca de verdade, a americana, da que se come com mapple syrup. Chamar tudo de panqueca então parecia-me confuso. Crêpes são crêpes. Panquecas são panquecas.

Ou assim pensava minha mente simplória. Tudo mudou novamente, quando assisti a um Menu Confiança filmado na Bretagne (região no norte da França), em que uma francesa dona de uma crêperie preparava crêpes doces e salgados. Fiquei extasiada ao ver que as massas diferiam em mais coisas além do detalhe do açúcar, e que seus nomes eram diferentes: crêpes e galettes.

Saí em busca de mais informações e descobri que galettes são crêpes servidos como prato principal, e cuja massa leva trigo sarraceno. E crêpes são as versões doces, feitas apenas de farinha de trigo.

Graças a essa pequena pesquisa, acabei encontrando outras informações sobre o trigo sarraceno. Aparentemente ele é a semente de uma fruta, não um cereal, e é relacionado ao ruibarbo. Não tem glúten (como eu já havia mencionado), é abarrotado de ômega-3 (aquela mesma substância contida no azeite e no salmão), vitaminas B1 e B2, fibras, minerais e aminoácidos essenciais. [Normalmente eu não ligo para nada disso, mas acabo sempre indo atrás de informações como essa para comprovar a algumas pessoas que não, eu não sou anêmica por não comer carne. Tive um treinador que me enchia a paciência com isso.]

Fiquei um pouco apreensiva ao começar os crêpes — ops! galettes! — depois de ler Julie & Julia. Três anos morando nesse apartamento e, apesar da profusão de panquecas, nunca preparara um crêpe sequer. E se grudassem na minha panela? E se rasgassem? O que eu faria com aquela tigela enorme de recheio? No entanto, ao contrário da protagonista do livro, as galettes foram ficando prontas, uma a uma, fininhas, douradas, perfeitas (com exceção de uma, pobrezinha, que rasgou ao meio). Fiquei muito orgulhosa. Lembrei-me imediatamente de um amigo que trouxera certa vez de uma viagem uma francesa a tiracolo, e que nos convidara para jantar. Sentamo-nos na cozinha e ela foi preparando galette por galette, muito delicadas, virando-as e dobrando-as com tanta facilidade que, na época, senti-me uma cozinheira bruta e truculenta.

Bom, acredito que aquela sensação tenha desaparecido para nunca mais voltar.

GALETTES
(traduzido e ligeiramente adaptado do La Tartine Gourmande)
Tempo de preparo: 5min + 2h de descanso + 20 min.
Rendimento: 9-12 galettes, dependendo do tamanho da frigideira


Ingredientes:
  • 100g de farinha de trigo sarraceno
  • 60g de farinha de trigo comum
  • 1/4 colh. (chá) de sal
  • 2 ovos
  • 300ml de água fria
  • 100ml de leite integral
  • 2 colh. (sopa) de azeite extra-virgem

Preparo:
  1. Misture as farinhas e o sal.
  2. Bata ligeiramente os ovos e junte-os à farinha.
  3. Acrescente a água, o leite e o azeite e misture bem com um fouet, para aerar bem a mistura. Deixe descansar em temperatura ambiente por 2 horas.
  4. Aqueça uma frigideira anti-aderente e derreta um naco de manteiga. Despeje massa suficiente para apenas recobrir o fundo da frigideira e deixe dourar em fogo médio-baixo.
  5. Com a ajuda de uma espátula, deslize a galette e vire-a, deixando-a dourar do outro lado.
  6. Você pode apenas transferir a galette para um prato e mantê-la aquecida para recheá-la depois, ou pode já recheá-la direto na frigideira. Imagine o círculo de massa divido em 4 partes iguais, como uma pizza. Coloque uma ou duas colheres do recheio de sua escolha em um desses quartos. Não exagere. Dobre a galette ao meio, seguindo a divisão de quartos que você imaginara, e depois dobre-a novamente, formando um triângulo. Pressione-a muito suavemente com a espátula, retire e disponha em um prato aquecido. Sirva quente.
A quem interessar possa: o recheio que usei foi ricotta, parmesão e talos de espinafre refogados com alho e cebola vermelha. Reaqueci no forno com uns nacos de manteiga e polvilhado de queijo pecorino.

16 comentários:

Michel disse...

Mas qual é a diferença mesmo de panquecas e crepes?

Ana Elisa disse...

Hehe... Para minha mãe os crêpes serão sempre panquecas. É que como aqui em casa eu sempre faço panquecas (as americanas, de café da manhã), se eu disser para o Allex: "Vou fazer panquecas", ele vai entender as americanas. A massa é muito parecida, mas crêpes não levam fermento, então mantém-se tão finas quanto a quantidade de massa que você colocar na frigideira. Então você apenas passa muita manteiga e açúcar, como na Bretagne, ou recheia com geléias, chocolate, o que for.

Beijos!

laila disse...

humm adoro panquecas, crepes, finos, gordos, salgados doces...

de qlq maneira...mas em casa panquecas são as q como sua mae faz...finissimas...

bjs

Gourmandise disse...

tem um restaurante na vila madalena q serve uma galette bem feita!
bjo,
Nina.

Marizé disse...

Genial!

Adorei a história, a experiencia pessoal, a receita e as fotos!

:-) Bjs

Valentina disse...

Ana, adoro farinha de sarracena. O gosto que deixa 'e diferente. Fica com bom madeleines tambem, ou outros baked goods. Achas farinha sarracena facilmente?

Fer Ayer disse...

Oi...tudo bem com você Ana? Adorei as galettes, não sabia desta diferença de nomes também, mais uma que aprendi...você anda postando menos ultimamente...tá tudo bem?
Beijos

Ana Elisa disse...

Laila,
é, tem que ser fininha mesmo, senão fica muito pesadona, não é tão gostoso. Difícil é virá-las sem rasgá-las quando são assim translúcidas...

Nina,
passa o nome aê! :)

Marizé,
que bom! Obrigada!

Valentina,
ultimamente tenho achado sim. Na área de produtos naturebas no meu supermercado tem. Mas acho que em mercadinhos comuns pode ser mais difícil. Talvez tenha por causa da forte influência judaica no bairro.

Fer,
tenho tido (graças a deus) muito trabalho. Depois da Páscoa, passei a semana comendo restos do almoço de domingo, então nada de cozinhar.
Vamos ver se eu retomo um pouco o ritmo, mas, realmente, os dias andam cansativos por causa do trabalho, e ando repetindo muita receita e fazendo muita gororoba no improviso que não vale a pena ser contada por aqui...

Beijos!

Fer Ayer disse...

Sei bem como é...vivo reaproveitando comida para fazer "resto d´ontê"...hahaha. E se tá trabalhando tá bom...beijos

Daniel Figueiredo disse...

Ana Elisa, onde você compra trigo sarraceno aqui em São Paulo? Morro de vontade de testar uma receita de galette de um livro que eu tenho da editora Könemann, é uma galette recheada com presunto e um ovo frito. Vou me meter aqui no assunto dos comentários... Meu senso comum sempre disse que panquecas têm a massa grossa e os crepes(ou seriam "as" crepes?) massa bem fininha. Certo dia estava comentando isso com um conhecido meu e ele me disse uma coisa bem lógica, se repararmos na origem das duas palavras, panqueca vem de pancake, ou seja, bolo de frigideira e crepe que é uma palavra de origem francesa quer dizer crespo, e é o que mesmo acontece quando fritamos aquela massinha fina, ela de tão fina escrespa nas bordas.

Ana Elisa disse...

Daniel,
Encontro a farinha advinha onde?? No Sta. Luzia, meu mercado-perdição. Láaaa na área de produtos naturebas e integrais. Eu tinha pensado também nessa explicação etimológica, mas deixei quieto. Hoje em dia todo mundo chama crêpe de crêpe e panqueca de panqueca. Mas quando criança, para mim era tudo a mesma coisa. E a verdade é que a panqueca americana deriva do crêpe francês, com a diferença da adição de fermento, o que a torna fofinha.
Quando você comprar a farinha de trigo sarraceno, mantenha na geladeira, pois ela tem uma vida útil menor.

Beijos!

Aline Menezes disse...

Ana , que belo blogg!! Sou amante da culinária tb e estou adorando tudo que posta.
Estou morando no Canadá e como sabe aqui eh um país multicultural. Fico louca querendo ir ao máximo de restaurantes pois aqui tem de tudo: chinesa, italiana, koreana, malasia, tailandesa... Paraíso... Estou reunindo algumas receitas diferentes e vou postar no meu blog tb:
www.aintercambista.blogspot.com
Quando quiser será sempre bem vinda no meu canto tb.
Parabéns pelo blog! Virei fã!
beijos

Anônimo disse...

Ola pessoal! Também sou fã das galletes de trigo sarraceno , desde que minha irmão que mora na bretanha apos casar com um frances , me trouxe a farinha e me ensinou a fazer com receita igual a da Ana. Agora eu mesmo faço a farinha moendo no liquidicador o grãos que eu compro nas lojas naturebas.
a receita ja modifiquei e faço agora so com agua e sal e colher de azeite extra virgem . Preparo um caldo grosso e asso na mesmo instante num frigideira bem quente. Ele fica queimadinho e receio como presunto e com um calice de vinho tinto.Ou recheio com requijão light mel e franboesa , ou com nutrella. É show pessoal! Não tem comparação com a paqueca ou crepe. É irressistível... Leo

Maria Elisa disse...

Na cidade de Niteroi, RJ existe um bar simples (Chez Moi) onde um francês chamado Eric, faz galettes e crepes maravilhosos. Qum estiver por perto vale conferir.

Anônimo disse...

eu moro em natal, nao posso comer gluten e gostaria de saber onde eu posso encontrar aquela farinha de trigo sarraceno na minha regiao.
aguardo resposta.
obrigado
pricila

thatiana Bandeira disse...

Oi Ana,
Será o meu lanche de hoje!
Semana que vem vou visitar a minha irmã em Paris e ficarei também 03 dias em Lisboa. Você tem alguma dica de livros, ingredientes ou lojas?
Beijos

Cozinhe isso também!

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