domingo, 30 de dezembro de 2007

Bolinhos de mandioquinha improvisados sob 35ºC e nenhum vento natural

Calor de mais de 30 graus sob o teto fervente desse apartamento e zero vontade de cozinhar um prato inteiro. Levantei do sofá para onde o ventilador estrategicamente apontava e fui fuçar na geladeira, em busca de quitutes beliscáveis para o jantar. Encontrei um pote com o resto do recheio dos raviollini do outro dia, e tive uma idéia.

Misturei um pouco de queijo ralado e farinha ao purê de mandioquinha, apenas o suficiente para firmá-lo um pouco mais, fiz pequenas bolinhas, do tamanho de nozes, passei-as no ovo e em farelos de pão e fritei-as em um dedo de óleo de canola. Moí um pouco de sal grosso por cima e levei para a sala, onde Allex e eu comemos os pequenos bolinhos, com Tabasco e ketchup Heinz. Se tivesse uma cervejinha para acompanhar, teria sido perfeito!

sábado, 29 de dezembro de 2007

Retrospectiva 2007: se a Globo pode, eu também posso!

Sejamos óbvios. Fim de ano, vêm as lembranças de tudo o que fizemos, os arrependimentos pelo que não fizemos, as esperanças para o ano seguinte e as resoluções que... sejamos francos, não vamos cumprir. Essa sensação meio nostálgica, meio ansiosa, fez-me pensar a respeito dos melhores momentos do ano, culinários ou não. E fica aqui, então, o resumão de 2007...

MELHORES RECEITAS, MINHAS OU NÃO

Pedi ajuda ao Allex para selecionar ao menos aquelas que ele considerava memoráveis, para cruzar com minhas preferidas e chegar a um meio termo. Afinal, de nada adianta só eu ter gostado, já que gosto é um lance discutível sempre (ainda mais o meu, que, segundo minha mãe e minha irmã, é "europeu demais" — até hoje não descobri se isso é uma coisa boa ou ruim).

  1. Bao - Quando perguntei ao Allex o que eu cozinhara nesse ano que ele estava louco para comer de novo, respondeu "Bao" sem titubear. E olha que ele nunca lembra os nomes dos pratos que faço! Pãezinhos chineses no vapor recheados com shiitake são campeões!
  2. Panettone com sorvete de nozes - Esse item é um dois em um, pois ambas as receitas ficaram sensacionais, e juntas, elas foram um retorno à infância sem preço! E só está em segundo lugar porque o Allex não gosta de nozes e tive de comer o sorvete sozinha (enoooorme sacrifício de minha parte).
  3. Risotto à indiana - "Todas as suas comidas indianas ficaram animais!", disse Allex, para minha felicidade. Escolhi o risotto pelo adicional de ser uma receita minha, e porque, apesar da foto não lhe fazer jus, o sabor ficou fantástico!
  4. Baguettes - O desafio é sempre produzir pães perfeitos numa cozinha não profissional, num forno não confiável e com ingredientes nem sempre 100% adequados. Quando experimentei dessas baguettes, fui ao céu, pois seu sabor e sua textura estavam melhores do que os de qualquer padaria da região. Fica em quarto pela técnica bem executada.
  5. Bombas - Quinto lugar merecido também em função da técnica e da persistência em refazer toda a pâte à choux depois da primeira leva ir para o saco. O resultado ficou maravilhoso, principalmente para uma primeira tentativa. "Melhor que de padaria", foi o comentário geral de quem comeu (olha a lagriminha de orgulho escorrendo pela cara...).
  6. Chocolate Chip Cookies - A maratona da Páscoa rendeu muito mais biscoitos do que eu planejara, mas também rendeu muitos elogios. Quem lembrou de incluí-los aqui foi o marido. O curioso é que o priminho dele (de segundo grau, na verdade), altamente intolerante à lactose, comeu-os numa boa, sem nenhum sintoma de alergia, apesar do alto teor de manteiga do cookie. Que bom, não?
  7. Salmão com legumes e aïoli, de Jamie Oliver - Porque ficou de fato delicioso, porque acertei o ponto de todos os legumes, porque Allex e eu nos descobrimos grandes fãs de aïoli feito em casa, e porque eu nunca cozinhei um pedaço de salmão com tamanha perfeição em minha vida.
  8. Panna cotta - Aaaaah, panna cotta. Que começou a pipocar em trocentos menus de restaurante em versões bizarras e apareceu, de repente, em quase todos os blogs que conheço. Tanta saudades da panna cotta com calda de chocolate do Seu Giovanni, ou da panna cotta con frutti di bosco do restaurante de Riva del Garda. Finalmente, panna cotta! Só ficou em oitavo lugar porque talhou misteriosamente.

MELHORES MOMENTOS, COISAS E AFINS

Até meus 16 anos, eu só desenhava. Não tinha uma escrivaninha decente, então eu apanhava uma lousa de criança, apoiava em cima da cama, colocava um fone de ouvido, ligava o cd player e desenhava, toda curvada sobre o papel, o dia todo. Aos 19, eu só escrevia. Ficava enfiada no quartinho do computador escrevendo livros inteiros, de 200, 300 páginas, de fantasia, de vampiros, do que fosse. Cheguei a enviá-los a editoras, muito crus ainda (hoje dá até vergonha), e um deles até chegou na 2ª leitura na editora Rocco, olha só. Depois, aos vinte e tantos, eu era pura balada. Estudava, trabalhava, e saia toda santa noite. Precisava de vinho à noite para dormir e suco de laranja com pó de guaraná para acordar, e me entupia de café o dia todo. Não muito saudável.

Hoje, cozinho o dia todo. Se não estou trabalhando, cuidando do cachorro, dando atenção para o marido ou saindo com amigos, estou comendo, fazendo comida, lendo sobre comida, assistindo algo sobre comida. Constantemente. 99% dos livros que comprei esse ano eram de ou continham receitas. Comprei mais quinquilharias de cozinha do que roupas. É natural, então, que grande parte dos meus melhores momentos tenha a ver com comida. Só espero que também esse hobby não passe...

  • Presente do ano - É um empate técnico: a panela da Le Creuset era sonho altíssimo de consumo, e o Allex deve ter vendido um rim prá comprar. Apesar de ter usado poucas vezes, eu amo mais meu marido por causa dela (hehehe). A sorveteira não é tão emocional, deu inclusive todo um pepino familiar, porque minha tia de Los Angeles queria me dar de presente de casamento, mas a estamos utilizando num ritmo frenético...
  • Quinquilaria do ano - minha batedeira Kitchen Aid, hours concours!!!
  • Livro do ano - Professional Baking, com certeza. Nunca aprendi tanto, nunca pude corrigir tanto meus erros idiotas. Cozinho melhor por causa desse livro.
  • Filme com temas culinários do ano - Ainda que fique tentada a dizer "Ratatouille", sinto os olhos marejarem na cena em que Ana Pascal explica como pretende salvar o mundo com biscoitos, todas as vezes que assisto. O filme é de 2006, mas só chegou aqui em 2007, então, "Mais estranho que a ficção" é o meu filme com temas culinários do ano.
  • Alívio do ano - Arrumar a louça toda no móvel novo da cozinha, tirar a despensa da área de serviço e finalmente ter uma linda bancada de granito onde sovar meus pães.
  • Viagem do ano - A travessia da Trilha do Ouro, na Serra da Bocaina, apesar de um pouco mais bucólica que o esperado, foi absolutamente fantástica.
  • Decisão do ano - Começar a correr. Apesar de ter ficado completamente relapsa depois da prova da Nike, foi a melhor coisa que poderia ter feito para minha saúde física e mental. Pontos extras por todos os bons amigos que fiz por lá!
  • Fé restaurada do ano - Encontrar morangos doces novamente. Achei que isso nunca mais aconteceria, mas fui salva pelos excelente morangos orgânicos da fazenda Nata da Serra.
  • Tristeza do ano - Descobrir que são abandonados 200 Pitbulls por mês em São Paulo, e que todos são considerados cães perigosos pela prefeitura e por isso, ao invés de postos para adoção, são sacrificados. Mais uma raça de cães condenada por causa da estupidez de seus donos. O meu Border Collie é um doce. Tem outro no bairro que é um assassino. A tratadora me contou que é porque os donos só passeiam com ele uma vez por mês. A culpa é dos Border Collies ou do dono imbecil??
  • Notícia do ano - Não ter mais de pagar CPMF. Ainda que eu acredite que isso ainda vai voltar prá morder a gente na bunda.
  • Revolta do ano - As pessoas na rua achando que meu cachorro é corrimão só porque ele é bonitinho. Ninguém tem noção nesse mundo? Meter a mão em cachorro que não conhece? E se o bicho resolve, pela primeira vez, não ir com a cara de alguém? Se você bota a mão em cachorro antes de perguntar pro dono se pode, sinta minha ira!
  • Show do ano - Symphony X.
  • Restaurante do ano - Obá. Já fui várias vezes e nunca decepcionou.
  • Decepção gastronômica do ano - Douce France. Fui correndo quando vi que o chef de lá ganhara o título de "melhor chef pâtissière de São Paulo". Comprei uma bomba de chocolate e uma de creme. A aparência era feia, a massa tinha gosto de queimada e o recheio não tinha gosto de nada. Mesmo. Não volto nunca mais e nunca mais acredito nos prêmios da Gula. Pior. Bomba. Do mundo. Deve ter sido feita pelo estagiário.
  • Alegria do ano - Descobrir quanta gente anda lendo La Cucinetta e conhecer tanta gente diferente e interessante através do blog!
  • Momento nunca vou esquecer do ano - A noite em que Allex chegou em casa com uma caixa de papelão contendo uma bolinha laranja, um cobertorzinho azul e um filhote de 2 meses de Border Collie que não conseguia subir no colchão do meu quarto, de tão piquitico.
A todos os que acompanharam todos esses momentos culinários, alegrias, novidades e siricuticos, uma feliz passagem de ano, cheia de guloseimas, boas companhias e felicidade! Fiquem com Deus! Nos vemos em 2008!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Quinquilharia nova!

Parece muito besta, mas estou feliz porque finalmente comprei uma grade para esfriar bolos e biscoitos. Minha mãe achou uma idiotice quando lhe disse que queria uma, mas quem assa biscoitos sabe que eles podem ficar molengões caso não sejam esfriados corretamente.

Eba!

Un dîner à la française e muito video-game





Ontem veio nos visitar uma antiga colega de trabalho de Allex, que acabou se tornando uma grande amiga sua. Em princípio, todas as vezes que ele chama qualquer pessoa em casa, é sempre a mesma ladainha: "Ah, convidei fulano de tal prá comer uma pizza". Depois da compra do video-game (à qual ele resistira bravamente por quase dois anos), a frase metamorfoseou-se um pouco: "Ah, convidei fulano de tal prá comer uma pizza e jogar video-game". Reconheço que seja uma frase que poderia vir de um moleque, mas ela vem de um homem de 26 anos. Fazer o quê? Os homens de hoje em dia são estranhos, e eu concordei quando ele me disse que os video-games dessa geração são feitos para adultos, não para crianças.

De qualquer forma, sempre tenho de usar de certo poder de convencimento para que ele deixe que eu mesma prepare alguma coisa.

"Pizza é mais fácil, Ana! Prá quê você vai ter trabalho?"
"Porque eu gosto, ué!"
"Bom, você que sabe..."
"É coisa simples, vou usar o que tem na geladeira!"
"Tá, mas qualquer coisa, a gente pede uma pizza..."

Apanhei logo de cara um número da revista francesa Saveurs, e saí à caça das receitas de que me lembrava. Como consegui, de novo, estourar meu orçamento de supermercado esse mês (maldito seja, panettone com sorvete de nozes!), teria mesmo de improvisar com o que havia na geladeira. Agradeço à minha mãe por ter viajado de geladeira cheia, no entanto.

Mesmo após ter passado boas horas preparando meus raviollini de mandioquinha, ainda queria continuar me complicando. Mesmo porque, com o calor infernal que fazia ontem (agravado por morar no último andar de um prédio sem telhado, transformando a laje e meu teto em um aquecedor monstrinho, e toda a minha casa em um forno particular), eu REALMENTE não me imaginava comendo nada QUENTE.

Lá estava o que eu queria: Tarte à la Tomate et aux Olives, uma torta de tomates e azeitonas pretas, muito simples, de Nice, no sul da França. O que me atraiu na receita foi tanto o fato de ser feita com tudo o que havia na minha despensa, quanto o de poder ser servida quente ou fria. Como não havia tomates cereja, no entanto, tratei de substituí-los por tomates comuns, incrivelmente vermelhos, sem as sementes, para que seus sucos não encharcassem a torta. A massa era engraçada de ser feita, e, ainda que a receita sugerisse substituição por pâte brisée, eu tinha muito fermento fresco que precisava ser usado, então resolvi tentá-la, sob o risco de ficar sem jantar por causa dessa minha mania de testar receitas novas quando vem gente em casa. O preparo é como o de um pão muito fácil, com apenas uma fermentação, e a textura final é semelhante ao de uma base de pizza muito fofa e macia. Com certeza uma base que pretendo repetir com outros recheios. Servi a torta com uma salada de alface romana ao molho de mostarda de Dijon.

Havia trazido da casa de minha mãe uma tigela inteira de pêssegos maduros o suficiente para ser um inferno descascá-los. Precisava aproveitar a presença de uma terceira pessoa aqui para acabar com eles, pois Allex não é fã de pêssegos e eu sozinha não conseguiria comê-los todos (parece que é sempre o mesmo problema!).

Minha vontade de complicar-me havia passado e decidi por uma sobremesa muito simples: clafoutis, uma espécie de pudim com frutas frescas francês. Fiz uso da dica do clafoutis de ameixas do La Tartine Gourmande, e cozinhei ligeiramente as frutas em manteiga e açúcar antes. Mas acabei preparando o creme segundo a revista mesmo, pois usava farinha no lugar de amido de milho. Não gosto do retrogosto acentuado de milho que o amido pode deixar em certos doces.

Tirei a torta do forno e coloquei o clafoutis no lugar, e ele assou maravilhosamente bem, a despeito de ter formado uma enorme bolha no centro, onde não havia frutas (uma delas tive de jogar fora, o que me deixou com um pêssego a menos para preencher a forma). Essa bolha, muito mais alta que o restante do doce, acabou queimando, transformando-se em algo semelhante a uma (desculpem-me) verruga gigante (como pode ser visto em uma das fotos), não sei bem se estragando ou enfatizando o caráter ligeiramente pornográfico do doce assim, com as frutas escancaradas.

O clafoutis fez mais sucesso com Allex do que eu imaginava, apesar de ele ficar retirando os pêssegos e comendo apenas o pudinzinho de leite. "Ficou gostoso, isso aqui!", disse, servindo-se de mais uma porção. De fato, a sobremesa ficou bastante suave, como gosto, tanto em textura como em sabor, e fiz bem em cozinhar os pêssegos antes, uma vez que não estavam doces o bastante ao natural. No entanto, numa próxima vez, farei clafoutis em uma travessa refratária, pois a forma antiaderente queimou as beiradas, e sei bem que esse é um problema comum no uso de formas antiaderentes ao se preparar sobremesas delicadas, ou mesmo madeleines.

Após o jantar, video-game até cansar. Ao menos para eles dois; eu tentava distrair o cachorro, para evitar que ele pulasse nos dois a cada risada e babasse nos controles.

TARTE À LA TOMATE ET AUX OLIVES
(Ligeiramente adaptado da revista Saveurs)
Tempo de preparo: 2h
Rendimento: 4 porções


Ingredientes:
  • 1kg de tomates bem vermelhos, de preferência italianos
  • 300g de farinha de trigo
  • 15g de fermento fresco
  • 1/2 colh. (chá) de açúcar
  • 5 colh. (sopa) de azeite extra-virgem
  • 1/2 colh. (chá) de orégano
  • 20 azeitonas pretas sem caroço
  • 1 colh. (chá) de sal
  • pimenta-do-reino
Preparo:
  1. Esmigalhe o fermento e misture a 125ml de água morna e o açúcar. Deixe em repouso por 5 minutos, até que a mistura borbulhe.
  2. Numa tigela, misture a farinha e o sal. Junte a água com fermento e o azeite e misture com um garfo até começar a formar uma massa. Despeje numa superfície enfarinhada e sove até conseguir uma bola razoavelmente lisa.
  3. Abra a massa com um rolo e forre uma forma de tortas (a da foto é de 23cm). Cubra com um pano de prato e deixe levedar por 1 hora em local sem vento.
  4. Enquanto isso, corte os tomates em quartos no sentido do comprimento. Retire as sementes com uma colher e divida-os mais uma vez no sentido do comprimento. Tempere com sal, pimenta e o orégano, misture bem e reserve.
  5. Aqueça o forno a 200ºC. Espalhe os tomates sobre a massa, apertando-os para que ocupem todo o espaço, e espalhe as azeitonas por cima. Leve ao forno por 30 minutos. Sirva quente ou fria, com um fio de azeite por cima.
Você pode substituir a massa por pâte brisée ou mesmo massa para pizza, se quiser. A torta continua gostosa e macia de um dia para o outro, conservada na geladeira.

CLAFOUTIS DE PÊSSEGOS
(Adaptado da revista Saveurs e blog La Tartine Gourmande)
Tempo de preparo: 45 minutos
Rendimento: 4-6 porções


Ingredientes:
  • 6-7 pêssegos maduros
  • 2 colh. (sopa) de manteiga sem sal
  • 100g de farinha de trigo
  • 4 ovos
  • 1 pitada de sal
  • 100g de açúcar cristal orgânico mais 2 colh. (sopa)
  • 75g de açúcar cristal orgânico baunilhado
  • 400ml de leite integral
Preparo:
  1. Descasque, corte ao meio e retire os caroços dos pêssegos. Derreta a manteiga em uma frigideira grande, junte 2 colh. (sopa) do açúcar e coloque os pêssegos, cozinhando por cerca de 5 minutos. Reserve.
  2. Misture em uma tigela a farinha, o sal e os açúcares restantes. Em outra tigela, bata os ovos com um fouet ligeiramente. Misture os ovos à farinha, acrescentando o leite e mexendo bem.
  3. Despeje a mistura em uma travessa refratária untada com manteiga, deixando ainda um ou dois dedos de espaço para a massa crescer um pouco. Disponha os pêssegos na massa, face cortada para cima, e leve ao forno por 35 minutos. Deixe esfriar antes de servir.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Raviollini de mandioquinha, ou pequenos travesseiros fofos e amarelos





Sabe aqueles dias em que se acorda com vontade de complicar a própria vida? Hoje acordei com vontade de fazer massa. Não qualquer massa, mas uma que eu tinha em mente há já bastante tempo, que anotara no meu caderno com várias exclamações após a frase "experimentar isso". Um dos itens que surrupiei da geladeira de minha mãe foi um pacote pequeno de mandioquinhas, que já pareciam mais para lá do que para cá e não suportariam uma semana inteira de abandono na gaveta de legumes. Por isso, decidi que seu fim seria nobre, e cozinhei-as, para fazer o recheio dos meus raviolli.

A massa é sempre a mesma coisa, muito fácil, apenas com adição de pimenta-do-reino, e se você tiver já o seu jeito de fazer massas, sua receita de família, aconselho que fique com ela. Eu uso a fórmula mais conhecida, que é de 100g de farinha para cada ovo, acrescentando 1 colh. (sopa) de leite quando pretendo recheá-la. Não é a receita da família. Minha avó ensinou-me de outra forma, mais no olhômetro, mas acredito que a fórmula em xícaras e "meia casca de ovo de água" possa dar muita margem a erro a quem não é uma nonna experiente. Apenas em uma coisa concordam a fórmula da vó e dos chefs: não se coloca sal na massa; ela é salgada no cozimento.

Hoje em dia acho que prefiro preparar massas recheadas a um simples tagliatelle, pois dessa forma não tenho que ficar mudando de lado a máquina nem limpando o cilindro de corte após o uso. Sem contar que são mais fáceis de se conservar: basta dispor as peças prontas sobre uma assadeira enfarinhada, sem encostarem-se umas nas outras, e levá-las à geladeira, se pretender cozinhá-las nos próximos dias, ou ao freezer, apenas para que endureçam. Uma vez congeladas individualmente, pode-se acondicioná-las num saquinho no freezer. Só descongele antes de cozinhá-las, ou o choque térmico com a água fervente fará com que rompam e vazem.

Massas recheadas, entretanto, exigem um pouco de prática; não porque sejam difíceis de serem feitas (muito pelo contrário), mas porque requerem rapidez. O mais importante é manter a massa úmida, para que ela feche bem e não esparrame recheio. Mas nem todas as pinceladas de água do mundo selarão decentemente uma massa muito ressecada.

Não pensem, no entanto, que sou à prova de falhas: a cada 15 raviolli, ou tortellini, ou qualquer formato que tenha escolhido, 1 ou 2 acabam rasgando ou não fecham direito. Com medo dos rasgos, acabo sempre abrindo a massa um pouco mais espessa do que deveria, e, por isso mesmo, sempre me sobra recheio. Desta vez, no entanto, admito ter sido mais zelosa do que o necessário: poderia ter feito a massa mais fina, usado todo o recheio e obtendo raviollini mais leves.

O importante na hora de rechear a massa é não ser esganado. Use uma colher medida e nivele com o dedo o recheio na colher antes de depositá-lo sobre a massa. Isso garante que todos saiam iguais. E tente não espalhar o recheio, forme bolinhas o mais firmes possível, pois se houver recheio entre as duas abas de massa, elas não fecharão de jeito nenhum.

RAVIOLLINI DE MANDIOQUINHA
Tempo de preparo: 2 horas
Rendimento: 4-6 porções (de 50-70 raviollini)


Ingredientes:
(recheio)
  • 3 mandioquinhas de uns 15cm
  • 1/2 xíc. de parmesão ralado
  • 1 colh. (sopa) de manteiga sem sal
  • 1 colh. (sopa) de leite integral
  • sal e pimenta-do-reino moída na hora
(massa)
  • 200g de farinha de trigo e mais para polvilhar
  • 2 ovos extra-grandes orgânicos
  • 1 colh. (sopa) de leite
  • pimenta-do-reino
(molho)
  • 4-5 colh. (sopa) de manteiga sem sal
  • 1 ramo longo de alecrim fresco

Preparo:
  1. Descasque, corte em quartos e coloque as mandioquinhas em uma panela, com água suficiente para cobrir, em fogo médio, até que estejam se desmanchando ao serem espetadas por um garfo. Passe-as por um espremedor de batatas ou um passa-verdure e, em uma tigela, misture com o resto dos ingredientes do recheio. Tempere a gosto e reserve.
  2. Coloque a farinha e tanta pimenta-do-reino moída na hora quanto você deseje em uma tigela e faça um buraco no meio. Despeje ali os ovos e o leite e comece a misturar com um garfo, rapidamente, trazendo aos poucos mais farinha dos cantos para dentro do poço, até formar uma massa que possa ser sovada.
  3. Despeje a massa numa superfície ligeiramente enfarinhada e sove-a até que fique lisa e desgrude dos dedos.
  4. Corte a massa em 2 pedaços iguais. Embrulhe uma delas em filme plástico e deixe-a sobre o balcão enquanto trabalha a outra. Abra a massa com um rolo ou com a máquina de macarrão (segundo as instruções do manual) até a espessura 7 ou 9, se quiser uma massa mais fina. Disponha a massa sobre uma superfície enfarinhada e corte-a em tiras de cerca de 8cm de largura (se abriu a massa na máquina, basta dividir ao meio a largura da faixa de massa). Enquanto recheia uma das tiras, coloque um pano umedecido sobre a tira que espera.
  5. Divida mentalmente a tira de massa ao meio. Você depositará o recheio na metade inferior. Com o auxílio de uma colher-medida, deposite bolinhas de 1/4 de colh. (chá) do recheio, deixando um espaço de cerca de 3cm entre elas, e ficando pelo menos 1cm afastadas da borda da massa.
  6. Pincele a massa com água, com cuidado para não encharcá-la. Dobre a metade superior da massa sobre a metade com os recheios, pressionando as bordas com os dedos, com cuidado, para que fechem bem. Então prossiga selando as laterais e entre as bolinhas de recheio, com cuidado para não pressionar o recheio para fora do lugar e para não rasgar a massa.
  7. Repita o processo com a tira de massa reservada. Com uma faca, um cortador de pizza ou um cortador de massa dentado, separe os raviollini, cortando entre eles e cortando a borda que foi selada com os dedos, para efeito estético. Retire as aparas de massa e coloque os raviollini em uma assadeira enfarinhada, enquanto você recomeça o processo com a outra metade de massa envolta em filme.
  8. Cozinhe os raviollini em 2 litros de água fervente com muito sal, em 3 levas. Não adianta encher a panela, pois muitos deles flutuarão e alguns podem não cozinhar por igual. Cozinhe por cerca de 3 minutos e retire com uma escumadeira para uma travessa aquecida.
  9. Em uma frigideira, derreta a manteiga em fogo baixo com o alecrim e deixe cozinhar por meio minuto, apenas para aromatizá-la. Despeje a manteiga e o alecrim sobre os raviollini e sirva imediatamente, acompanhado de mais pimenta e bastante queijo ralado.
A idéia original era fazer um molho muito fresco com tomates crus, cortando-os em cubos bem pequenos e marinando-os um pouco em azeite e manjericão, e simplesmente servir os raviollini com um montinho dessa marinada por cima, que acho que casaria bem com a mandioquinha. No entanto, todos os tomates que tenho na despensa estão reservados para o jantar. O molho de manteiga e alecrim, no entanto, não decepciona! Pretendia servi-los hoje à noite, à amiga do Allex que vem jantar conosco, mas como nem todo mundo é fã de mandioquinha, acho melhor não arriscar.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Espalhando ilustrações por aí...


Olha a minha cabeça! Como poderia me esquecer? Fiquei super contente essa semana em fazer essa ilustração para enfeitar o cabeçalho do blog da Lílian, que anda fazendo excelentes pesquisas entre os blogs de culinária. Foi uma delícia desenhar e é muito gostoso ver minhas ilustrações sendo utilizadas!

(Para os safados de plantão: tá vendo? É só pedir, não precisa roubar não! hehehe...)

:)

Uma salada purificadora e uma tortinha de ovo nada original



Impossível criar algo novo. Apanhei uma massa integral de torta que estava, já na forminha, em meu freezer há sabe-se lá quanto tempo. Eu sei que falei que massa de torta dura no freezer até determinado tempo e que essa provavelmente estava lá pelo dobro disso. Mas como o risco era apenas ao MEU estômago e o de mais ninguém, resolvi experimentá-la.

Quebrei-lhe um ovo dentro, temperei com sal e pimenta-do-reino e salpiquei generosamente de orégano seco, que sempre coloco sobre meus ovos fritos, pois acho que a combinação de sabores é divina. Levei ao forno pré-aquecido a 180ºC até que a clara coagulasse e a massa estivesse quebradiça. Comi acompanhado de uma salada de alface romana (minha favorita) e um punhado de tomates secos temperados. Exatamente o que eu queria.

Então, fuçando em meus blogs favoritos, encontrei isso. Não existem idéias originais. Mas se o resultado é delicioso para todos, quem se importa?

Julie & Julia: a batalha intelectualóide entre Ana Elisa e um best-seller

Quando vi o livro nas livrarias pela primeira vez, senti-me atraída pela capa, mas não pela proposta. Deixei-o.

Então comecei a ver pipocar posts em outros blogs a respeito do danado, e comecei a ficar curiosa. Não pela proposta em si, mas por esse estranho rumo que o mundo editorial, a indústria cinematográfica e, principalmente, a fonográfica andam tomando, de encontrar seus novos sucessos em blogs e comunidades virtuais. Prevejo livros de auto-ajuda com títulos como "Como alcançar fama e fortuna através de um blog". Seria engraçado.

Sou uma pessoa incrivelmente cética e sinto um impulso muito natural em ir contra o que todo mundo está fazendo. Sou muito desconfiada em relação a tudo o que é "sucesso de público", "blockbuster", "best seller". Mas também sou do tipo "conheça seu inimigo", e freqüentemente compro livros ruins e vejo programas de tv e filmes porcaria apenas pelo prazer de conhecer melhor aquilo que pretendo criticar. É... ninguém disse que só porque faço bolos eu era uma pessoa FÁCIL.

Por isso comprei o livro: queria muito saber o por quê de tanto barulho. (Mas nem toda curiosidade do mundo me faria ler O Código Da Vinci. Ver o filme já foi tortura suficiente.)

Sendo muito sincera, os primeiros dois capítulos estimularam minha vontade de falar mal das coisas. A mim parecia um "Diário de Bridget Jones — Brigando Com As Panelas Depois Que Me Casei Com Mark Darcy" (é, desta água também bebi). Havia um excesso de referências a sexo ruim e muito pouca a comida; e quando a comida era mencionada era em paralelo a sexo de qualidades variadas. Gosto de sexo e gosto de comida, mas nunca tive nenhuma tara específica por "9 1/2 semanas de amor". O livro acabou encostado por alguns dias, junto à pilha dos "um dia eu termino só porque eu comprei o desgraçado".

Mas Allex resolveu dar-se de presente de natal adiantado um video-game novo. Sem poder ficar à toa no sofá zapeando canais, acabei apanhando o livro novamente, por parecer-me, à primeira vista, tão descompromissado com funções cerebrais quanto zapear canais.

Então, de repente, a coisa começou a ficar mais interessante, no momento em que Julie começa a tratar de comida com o respeito que comida merece. E as bizarras lembranças de infância são substituídas por um relato sincero de seu dia-a-dia de mulher real com problemas reais, com um casamento bom, mas que não é perfeito, amigos bons, mas que não são perfeitos, e jantares excelentes, bons, medianos, ruins e desastrosos. Quando você menos espera, já se identificou com a autora-personagem, e bum! gostou do livro. Droga!

Aí é que reside a grande diferença (acredito eu) entre o blog de sucesso de Julie e outros menos famosos que há por aí. Julie me parece perfeitamente honesta quanto a seus pecados. E verificar que o outro é também humano e acorda de mau humor faz com que você, na condição de leitor, sinta-se menos inadequado. É assim que me sinto, ao menos. Adoro ler sobre jantares de sucesso, mas foi fantástico saber que o creme bávaro de laranja de Julie, assim como minha pannacotta, talhou. É ótimo saber que, apesar de amar o marido, ela também tem vontade de esganá-lo de vez em quando. A saga do sofá lembrou-me de um episódio semelhante, em que um amigo nosso ficara de buscar as poltronas brancas da sala.

Tudo isso, no fim das contas, foi para ilustrar a você que não, eu não recomendo qualquer porcaria. Estou na metade do livro e estou gostando. Sim, também pretendo ver o filme (suspiro derrotado). Dei o braço a torcer em público, e só deus sabe (e meu marido) o quanto eu detesto dar o braço a torcer. De orgulho ferido, digo que esta é uma boa leitura de entretenimento, que provavelmente dará um filme igualmente divertido.

Quão chata é comida imprevista quando a gente é metódica na cozinha?!

Acordei esta manhã para uma cidade de São Paulo inacreditavelmente silenciosa. Mesmo às 7h30 da manhã. Meu primeiro impulso foi grunhir, preguiçosa, pensando no trabalho a fazer. Então lembrei-me de que não havia nenhum. NENHUM. "A AnEgg Design deu férias coletivas", brinquei. Posso, por toda essa semana, dedicar-me única e exclusivamente a mim. (Ok, ao Allex e ao Gnocchi também.)

Enquanto tomava meu café, imaginava o que faria de almoço. Sinto, depois de dois dias de comilança desenfreada de todos os tipos de alimentos muito pouco recomendados ao clima abafado que São Pedro nos enviou, uma necessidade incrível de comer folhas verdes frescas e amargas e muitas frutas, numa tentativa de purificar meu corpo novamente (ainda que o advérbio falsamente denote que ele uma vez foi puro). Minha pele exala um cheiro que eu reconheço bem como o de uma pessoa que passou os últimos dias devorando queijos adoravelmente fedidos, em substituição aos pratos natalinos com carnes que não como. Ao menos nozes e castanhas fazem bem ao coração, e destas também me esbaldei.

Olho para minha despensa inchada. Quando me refiro a ela, pobre despensa, refiro-me a duas prateleiras de compensado imitando mogno, de trinta centímetros por um metro, com tanta comida quanto possa ficar empilhada sem o risco de despencar sobre algum desavisado. Normalmente acredito que ela seja, não saudável, mas... "zen" é a única palavra que me vem à mente. Há dois ou três tipos de massas Barilla (spaghetti, uma massa curta e lasagne, quase sempre), couscous marroquino, arroz branco orgânico e arbóreo, alguns tipos de feijão, latas de tomate pelado Raiola (os de que mais gostei até hoje), latas de grão-de-bico Annalisa, aveia em flocos, alguma massa asiática, um vidro repleto de deliciosas castanhas-de-caju trazidas de Fortaleza, algumas frutas secas, tomates secos, sardinhas e atum em lata, potes de vidro com várias farinhas, creme de leite e leite condensado, leite de coco, um cesto de vime que ocupa um terço da prateleira abarrotado de ervas, sementes e uma infinidade de outros temperos, alguns ainda lacrados, e um outro cesto, com tampa (esse sim "my goodie chest"), com chocolates e cacau belgas, essências, fermentos, gelatinas, e toda a sorte de ingredientes para confeitaria. Sou eu quem mantém a ordem por ali, e nunca compro mais ingredientes do que as duas pobres prateleiras comportam.

Mas então veio a cesta de natal, e com ela, saquinhos e pacotinhos de itens usáveis, mais ou menos usáveis e "este eu vou passar prá frente". Aparentemente passarei o resto da vida tentando livrar minha despensa dos pêssegos em calda, uma vez que sempre que uso uma lata outra surge, do nada, para substituí-la. Não bastasse a cesta, ganhamos de amigos e parentes bolos de natal, caixas de bombons, pães de mel e pelo menos três tipos de biscoitos de natal alemães cujos nomes não sei pronunciar (razão pela qual ainda não estreei meus cortadores), sem contar sobras da ceia que mães, sogras e avós sempre nos fazem levar para casa.

Quase podia sentir as prateleiras envergando.

Então meus pais embarcaram para o reveillon em Fortaleza. Antes disso, tiveram certeza de que eu passaria em sua casa para esvaziar sua geladeira de todos os itens que pudessem criar vida e evoluir como sociedade até sua volta. Ontem entrei no apartamento vazio, impecavelmente arrumado, como fica apenas quando meus pais viajam. Abri a geladeira, acreditando que haveria pouca coisa aproveitável, uma vez que eles haviam feito uma ceia modesta com objetivo de não haver sobras. Mas havia tigelas inteiras de pêssegos, nectarinas e cerejas explodindo de maduras, meia dúzia de queijos já abertos e outros dois ou três ainda fechados, sucos, tomates, e tanta coisa, que, emergencialmente, apanhei apenas as frutas e os queijos abertos e deixei para catalogar o restante mentalmente no dia seguinte, com mais calma.

Minha geladeira está tão cheia que não consigo enxergar a lampadinha no fundo. E (pasme!) eu odeio geladeira cheia. Gosto dela meio vazia, quando consigo enxergar todos os itens sem esforço, suas respectivas datas de validade, e sei que não vou esquecer nenhum pé de alface lá no fundo. Longe de mim reclamar por excesso de comida, ainda mais de graça, com tanta gente no mundo passando fome. Mas isso meio que mata alguns planos culinários que eu tinha para essa semana de sossego. A primeira coisa que fiz foi apanhar todas as caixas de bombons, doces industrializados e salgadinhos que vieram na cesta da empresa e enfiar na mochila do Allex, para que ele levasse ao trabalho e os distribuísse entre os amigos. Eu não como essas coisas (de verdade, não estou fazendo gênero), e não tinha porque aquilo ficar ocupando espaço na cozinha. Agora é questão de me organizar e pensar o quanto daquela comidaiada toda eu consigo aproveitar para nosso reveillon e o que é prioritário que eu use rápido, durante a semana. Algumas das frutas provavelmente virarão torta, ainda que eu tivesse comprado mascarpone com intenção de fazer um tiramisù, que vai ter que esperar. O jeito é respirar fundo e lançar mão de todo meu poder de planejamento, fazendo o melhor possível com o excesso à disposição.

Lá se foram meus planos de saladas purificadoras.

(Infelizmente não foi esse ano que tive oportunidade de cozinhar uma ceia de natal, o que me frustra um bocado; o apartamento simplesmente não comporta a família toda confortavelmente. Por isso, nada de fotos... snif... snif... Quem sabe no reveillon??)

Cozinhe isso também!

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