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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Frio, mexilhões, minhas tralhas, minha cozinha

Mexilhões com tomate. Simples, bom e barato. Morri de orgulho da criançada pedindo mais e mais.
Numa manhã, tomávamos café à mesa sob a janela, e fomos surpreendidos por uma mancha escura no céu, sobrevoando o prédio e se afastando em direção ao sul. De todos os lados, vimos pontos negros surgindo de trás das árvores, dos prédios, das casas, e se unindo àquela massa de pássaros.

"Os gansos foram embora", eu disse, em mono tom, anestesiada por aquela visão.

Houve um momento de empolgação por aquela demonstração da natureza. Mas o que restou, conforme terminávamos nossas panquecas e sentíamos o café esfriando no fundo da xícara, foi uma estranha sensação de abandono. Como o silêncio antes da tempestade.

Alguns dias depois, os corvos chegaram.

Dois anos antes, em nossa visita a Vancouver, eu havia ficado impressionada pela quantidade de corvos na cidade, na mesma proporção de pombas em São Paulo, e surpreendi-me ao chegar a Toronto durante o fim do verão e não encontrar nenhum deles.

E ei-los aqui agora. Pretos, imensos, empoleirados sobre os semáforos, sobrevoando os parques de árvores desfolhadas, grasnando alto seu chamado metálico como o cinza das nuvens que acobertam o céu, buscando naqueles que não fugiram do inverno seu alimento.

Veio a primeira neve e um frio inesperadamente intenso, recorde de temperaturas baixas para esta época do ano, e lá fomos nós para a rua, empacotados como presentes, sentindo o vento cortante no rosto, em direção à escola.

-17oC.

Frio.


O vento. Havia ouvido falar do vento, mas você só entende quando o sente, como uma parede gelada a ser transposta. Ou, como brinquei com amigos, como se alguém espancasse você constantemente com um bacalhau da noruega congelado.

Thomas escorrega no chão gelado e aterrissa em cheio sobre o bumbum. Ainda bem, a calça de neve é fofinha e ninguém se machuca. Eu patino um pouco sobre a mistura de folhas e gelo na calçada perto da escola. Gnocchi tenta me puxar para o lado, derrapa e espatifa o focinho na neve.

Quando chegamos à escola, sou surpreendida pelo clima alegre. Não se vê ninguém amuado nos cantos, encolhido, tremelicando. Todas as crianças correm pelo pátio, fazem bolas de neve, divertem-se com a fina cobertura branca no playground. Olho para o lado, e Laura está deitada, rindo, agitando braços e pernas, fazendo um anjinho naquele um centímetro de neve que jaz sobre o chão de cimento.

Quando as crianças entram na escola quentinha, Gnocchi me puxa para o parque em frente, alucinado. Solto sua guia e ele corre feliz sobre a neve, calda em riste de alegria, latindo e me chamando para correr atrás dele; e ao fazer isso, aqueço um pouco mais meu corpo e me dou conta de que aquele cão, descalço e desagasalhado, está sequer tremendo sob a sensação térmica de -17oC. Evoluída sou eu, certo? que tenho de gastar os tubos em casacos e botas e luvas e camadas de blusas e calças térmicas para não congelar, e lá vai o Gnocchi, rolando no gelo contente. Ok, então.

Volto para casa e preparo um Chai bem quente, aquele chá preto com especiarias, leite e açúcar mascavo. Uma xícara imensa, que ganhei de presente de aniversário do marido junto de chás especiais, um kettle e o livro novo do Neil Gaiman.

O kettle é um apetrecho muito útil por aqui. É vantajoso ter algo que esquente água mais rápido e usando menos energia, uma vez que o fogão é elétrico. Além do kettle, repus também rapidamente meu processador de alimentos e minha batedeira. Como disse no post anterior, foi muito bonito isso de tentar viver uma vida simples com uma tigela e uma colher de pau, mas quando o assunto é facilitar minha vida para prover as refeições da família em casa, na escola e no trabalho, não tive dúvidas e corri atrás dos meus queridos eletrodomésticos.

No restante da cozinha entretanto, as coisas de mantiveram mais acomodadas no reino da simplicidade. Como agora tenho poucos livros de cozinha, foi possível sentar e folheá-los e ter uma noção mais exata do que eu de fato precisava. Basta de ter uma forma especial para uma receita só.

Compramos louça na Ikea apenas para o realmente necessário.

E para o baking em geral, apanhei numa loja:

  • UMA assadeira bem grande de bordas baixas, onde asso legumes e faço minha pizza retangular toda sexta-feira.
  • UMA forma retangular de 23x33x5cm, onde faço bolo, lasanha, barrinhas, o que for; ou seja, faz as vezes de travessa também.
  • DUAS formas de pão de 23x13x8cm, que fazem pão de forma grande o bastante para bons sanduíches.
  • DUAS formas de bolo inglês de 22x10x8cm, porque quase todas as receitas de bolo inglês que tenho fazem dois bolos, e congelar um para outro dia é sempre esperto.
  • UMA forma redonda de aro com mola de 23cm, para bolos e cheesecakes.
  • UMA forma de 22x5cm para bolos em geral (dava para usar a de mola para tudo, mas bolos de massas muito líquidas correm o risco de vazarem).
  • UMA forma de muffins com 12 cavidades.
  • UM refratário de vidro quadrado de 20cm, para brownies e qualquer outra coisa, na verdade.
  • UM prato refratário de vidro para tortas de 23cm, que pretendo usar para quiches também.
  • E a forma de furo no meio, com capacidade para 12 xícaras, velha, riscada e amassada, roubada da minha mãe; essa forma que fez todos os bolos de cenoura da minha infância.


Também me arranjei um jogo de 8 tigelas de vidro refratário que se encaixam uma na outra, economizando espaço no armário: a maior sendo perfeita para fermentar receita dupla de pão, e a menorzinha, sinceramente... não imagino ela servindo para nada além de separar algum ingrediente delicado em pequena quantidade - é tão pequena, na verdade, que virou piada aqui em casa, a mini-mini-mini-mini-mini-tigelinha. Mas todas as outras entre esses extremos têm sido diariamente usadas para misturar ingredientes, separar ovos, derreter manteiga, ou simplesmente guardar restos na geladeira.

Comprei-me aqui um raspador de massa, colheres e xícaras medidoras, uma jarra de vidro medidora, duas espátulas de silicone, um descascador de legumes, e um único fouet, pois meu antigo ficou com minha mãe. Mas trouxe duas colheres de pau, as únicas que sobraram da minha coleção: uma pequena, presente de minha cunhada, e uma grande, boa para mexer polenta e panelões cheios. Fora isso, na viagem para apanhar o Gnocchi, trouxe na mala minha máquina de macarrão, presente de minha mãe quando casei, a máquina alemã de Spaetzle, presente da minha sogra, e meu passa-verdura, que uso para fazer desde geleia de maçã até purê de batatas.

Só que de todos os utensílios de cozinha comprados aqui, o que mais gostei foi meu rolo de massa: inteiriço, bem comprido, com extremidades que afunilam. É o melhor rolo que já tive, infinitamente mais fácil de usar do que aqueles que giram sobre um eixo.

É lógico que estar num ambiente novo, numa cidade nova, num país novo, deixa você desnorteado. E minha cozinha com certeza passou por esse processo. Primeiro, encantada com os ingredientes à disposição que eu sempre cobiçara lá no Brasil, saí metendo os pés pelas mãos e comprando mais do que o necessário, tentando fazer todas as receitas de uma só vez. Animei-me com a biblioteca do bairro e saí retirando livro de cozinha atrás de livro de cozinha, acreditando que prepararia mil pratos de cada um. Sem saber o que era mais barato e onde, perdi dias incontáveis indo a todos os mercados do bairro, várias vezes por semana e saindo de cada um deles mais perdida.

O que aconteceu, no entanto, quando voltei da viagem do Gnocchi, foi que fiquei doente. Um bocado doente. Todo o stress dos meses anteriores parecia ter finalmente atingido seu ápice naquelas duas viagens internacionais em menos de cinco dias, e na tensão de embarcar meu melhor amigo numa gaiola. Meu sistema imunológico explodiu enfim, quando pus os pés em casa, e passei quase vinte dias me sentindo um lixo.

E esses vinte dias me fizeram pensar mais um bocado.

E eu olhei para aqueles livros emprestados da biblioteca e concluí que essa fase havia passado. Que eu não queria fazer nada complicado, que eu não queria correr até o outro lado da cidade para um ingrediente especial, e que eu não tinha mais paciência para comida que não tivesse gosto de comida de pai e mãe. Devolvi todos os livros.

E cansei dessa correria por preço baixo em supermercado longe. Noutro dia, encontrei um casal conhecido no metrô. Eles estavam indo até um mercado umas duas estações para leste, pois o frango lá era muito mais barato. Fiquei pensando que eles estavam gastando pelo menos 12 dólares indo e voltando de metrô os dois juntos, e que provavelmente isso cobriria a diferença de preço entre o frango do mercado lá longe e o daqui da vizinhança. Fora o tempo. Tempo é precioso.

Resolvi que iria apenas uma vez por semana ao mercado. Porque qualquer mercado aqui é a quinze minutos à pé de casa. Levo o cão comigo, passeamos juntos, e resolvo a compra da semana no mercado orgânico, comprando apenas o que está em promoção, e o que falta, no mercado barato, vinte minutos na outra direção, onde também tem a padaria de que gosto, a biblioteca, a farmácia, a loja a granel e a loja de bebidas.

Tudo resolvido num dia só. A gente cozinha com o que tem. Se os ingredientes não se encaixam em nenhuma receita, a gente inventa. E se faltar alguma coisa, ok, eu pego na semana que vem. Basta de pulinhos no mercado, que eu perco tempo e gasto dinheiro.

A gente se vira com o que tem: conchiglie com broccoli salteado no alho, azeite e pimenta calabresa. O parmesão tinha acabado, então fiz o que os italianos pobres do sul faziam: dourei farinha de rosca caseira em azeite, alho e salsinha (usei um filé de anchova amassadinho junto para trazer o umami do queijo), e polvilhei por cima no lugar do parmesão. 

Isso começou a me dar mais tempo para respirar, e um norte na cozinha. E percebi que fico empolgada com coisas bestas como receber por email o flyer com as promoções do mercado orgânico  para a semana. Sento no domingo, analiso o flyer, e escolho umas duas ou três receitas-chave para preparar na semana seguinte. Há sempre uma carne e um peixe interessante em promoção. E tenho me aproveitado disso, pois como aconteceu nos últimos anos, meu vegetarianismo parece hibernar durante o tempo frio, e meu lado carnívoro aflora.

Quem quer comer salada enquanto faz -5oC lá fora? Eu não.

Pense num almoço bom. :)
Comecei a trocar as saladas dos meus almoços solitários por torradas com verduras refogadas ou variações sobre o tema. Num dia em que achei inhame no mercado, descasquei-os, ralei-os na parte grossa do ralador, e apertei-os em forma de panquequinhas na frigideira bem quente com manteiga, até que as panquequinhas dourassem. Assim, um inhame virou uma panqueca. Num dia, cobri com folhas de beterraba refogadas em alho, azeite, uma folha de louro e uvas passas. Polvilhei com salsinha e hortelã, nozes e queijo feta esmigalhado. Sensacional, e durante a semana toda repeti a receita apenas para mim, até que os ingredientes acabassem.

Numa semana, fiz o dobro da receita de cozido de carne com cenoura da Tessa Kiros, cuja metade congelei. E comprei Vermelho para preparar no forno com tomates e servir com arroz, e seis filés renderam bastante para o jantar e para levar de almoço no dia seguinte. Faço o dobro de molho de tomate para a pizza de sexta, pois o o molho que resta cobre macarrão cozido de manhã para o almoço da segunda.

Já tinha preparado isso antes no Brasil, mas a carne aqui me pareceu mais marmorizada e mais maturada, então ela dourou mais fácil e ficou extremamente macia. Melhor picadinho que já fiz. As batatas, bem cerosas e de polpa clarinha, produziram um purê branquinho e delicioso.
Há sempre um saco de 3 libras de maçãs diferentes em promoção no mercado, e levo quase que um por semana para casa. As abóboras do Halloween renderam não só decoração, mas uma Pumpkin Pie devorada em dois dias, e meia receita extra de massa de torta no meu freezer. No mesmo dia do cozido de carne, descongelei a massa, abri, e recheei com as maçãs, poquíssimo açúcar (as maçãs Gala estavam bem doces), canela, noz moscada e manteiga, e fiz uma galette para a sobremesa, bem rústica e de improviso.

O novo saco de maçãs, Golden Delicious, está virando barrinhas de maçã e aveia, receita de um dos livros do Magnolia Bakery. Claro que a receita pedia uma lata de apple pie filling, e claro que eu fiz meu próprio recheio (4 xícaras cheias de maçãs descascadas e fatiadas + 1 colh (chá) canela + 1/3 açúcar + 3 colh (sopa) amido de milho cozinhando na panela em fogo baixo apenas até a maçã soltar um pouco de líquido, a maçã amaciar e o amido engrossar - deixe esfriar completamente antes de usar). Thomas anda numa fase em que se recusa a comer frutas no lanche da escola, então saio metendo frutas nos snacks que posso produzir em casa.

O que sobrou de purê de abóbora virou Pumpkin Spice Muffins para levar para a escola, que Thomas me ajudou a fazer, empoleirado no banquinho da cozinha. Nenhuma receita que achei na internet me agradou, e acabei inventando em cima daquela mesma receita básica de muffin da Martha Stewart do post anterior.

Cavoquei a abóbora, as crianças desenharam as caretas com canetinhas, e eu cortei com uma faquinha.

Depois de cavocar com uma colher e separar as sementes, cozinhei a polpa no vapor até conseguir transformá-la num purê com o passa verdura. Depois coloquei sobre uma peneira grande e fininha, sem apertar, e deixei pingando o excesso de água durante a noite na geladeira. No dia seguinte o purê estava bem sequinho, pronto para usar na torta.

Esta semana, os mexilhões estavam em promoção. Mexilhões lindos assim, em suas conchas negras como os bicos dos corvos, como eu nunca encontrava em São Paulo. Não sei porque, eles vinham sempre fora de suas conchas, sufocados em sacos plásticos. E eu perguntava aos peixeiros como diabos saberia se estavam bons, se estavam fora de suas conchas. E eles nunca sabiam me responder. Esses vieram fresquíssimos. De 4kg, acho que 4 conchinhas foram para o lixo, quebradas. Os outros moluscos espiavam por dentro das conchas abertas, e quando lhes tamborilava os dedos, toc-toc-toc, eles se fechavam rapidamente. Um truque que fez sucesso com a pimpolhada.

Da próxima vez vou fazer assim para as crianças. :)

O jantar foi um panelão de mexilhões com tomate e fatias de pão. Thomas passou o alho sobre as fatias e as colocou sobre a grelha, e depois me ajudou a colocar os mexilhões cuidadosamente na panela. As crianças se refestelaram. Tanto, que tive medo de que tivessem dor de barriga. Afinal, comemos em três uma porção para seis pessoas. Allex preparou um miojo, pois durante quinze anos juntos, eu não sabia que ele não podia nem com o cheiro dos mexilhões. Uma pena, pois estava delicioso. Guardei uma porção extra de mexilhões ainda vivos para meu almoço no dia seguinte, e os preparei gratinados, e ficaram ainda melhores.

E assim as coisas vão caminhando e se encaixando, e eu vou reencontrando o simples na minha cozinha, e o conforto, e a rotina, lembrando de não estressar demais com nutricionismos, e simplesmente relaxar e preparar comida gostosa de comer. Agora que toda a burocracia da mudança está resolvida, basta deixar a vida terminar de se assentar em seu novo local.

Depois daquele dia gelado, as temperaturas subiram de novo. Peguei-me passeando o cão à noite na chuva fininha, a 8oC, e falando para o marido que "estava uma noite gostosa para passear". Ou comentando de manhã com as crianças, ao ver os 3oC marcados no aplicativo do celular, que "não precisa botar muito agasalho porque o dia está mais quente". Referência é tudo na vida.

Que venha o inverno gelado. Que eu sei que assim que estivermos confortáveis, vem toda uma nova adaptação ao frio mais intenso, à neve que não derrete nunca, ao vento absurdo. Mas tudo bem. Respira fundo e encara a bucha. Vou continuar caminhando até o mercado, Gnocchi ao meu lado, contente em apanhar meu cream cheese sem gomas, as maçãs de um tipo que nunca provei, a carne de boizinho sem antibiótico em promoção. O bom do frio é que o sorvete não derrete no caminho. Só fico com um olho no céu para os corvos à espreita. Esse bife é meu, sai prá lá. Opa, um olho no chão também para não escorregar no gelo de bunda no chão. 

ZUPPA DI COZZE (Mexilhões em caldo de tomate)
Do livro Twelve - A Tuscan Cook Book, de Tessa Kiros).
Rendimento: 6 porções

Ingredientes:

  • 1,5kg mexilhões em suas conchas
  • 3 colh. (sopa) azeite de oliva
  • 3 dentes de alho, descascados e picados, + 1 dente extra para esfregar no pão
  • pimenta calabresa à gosto
  • 1 maço pequeno de salsinha, picado
  • 1 lata de 200g de tomate pelado, com seu suco, transformado em purê
  • pelo menos 6 fatias grossas de pão italiano ou de casca grossa e crocante


Preparo:

  1. Lave cuidadosamente em água fria corrente os mexilhões, tirando qualquer sujeira grudada nas conchas. Se houver barba, segure, e com movimentos para cima e para baixo, arranque-as. Jogue fora qualquer mexilhão que esteja aberto e não feche sua concha ao ser cutucado. Os outros, coloque numa tigela, cubra com um pano úmido e deixe na geladeira até a hora de usar. 
  2. Aqueça o azeite numa panela grande. Junte o alho, a pimenta e metade da salsinha.
  3. Quando o alho perfumar, junte os tomates e cozinhe por 5-10 minutos, até apurar um pouco. Tempere com sal e pimenta do reino
  4. Junte os mexilhões, misture bem, aumente o fogo e tampe. Cozinhe por cerca de 6 minutos, ou até que os mexilhões tenham aberto suas conchas. Descarte qualquer um que tenha permanecido completamente fechado. 
  5. Polvilhe o resto da salsinha. 
  6. Grelhe o pão e esfregue o alho em sua superfície quente e dourada. Sirva o pão acompanhando os mexilhões e seu caldo, imediatamente.   


COZZE GRATINATE (mexilhões gratinados - lembrando que gratinar não quer dizer derreter queijo por cima, ao contrário do que o povo acha)
Do livro Twelve - A Tuscan Cook Book, de Tessa Kiros.
Rendimento: 6 porções - fiz uma porção só para meu almoço, mas vale a pena ter a receita inteira para fazer

Ingredientes:

  • 1kg mexilhões em suas conchas
  • 1 maço médio de salsinha, picado
  • 4 dentes de alho, descascados e picados
  • 100g (1xic) farinha de rosca caseira
  • 4 colh (sopa) de azeite + extra para regar
  • Fatias de limão


  1. Preparo:
  2. Lave cuidadosamente em água fria corrente os mexilhões, tirando qualquer sujeira grudada nas conchas. Se houver barba, segure, e com movimentos para cima e para baixo, arranque-as. Jogue fora qualquer mexilhão que esteja aberto e não feche sua concha ao ser cutucado. Os outros, coloque numa tigela, cubra com um pano úmido e deixe na geladeira até a hora de usar. 
  3. Pré-aqueça o grill do forno ou ligue o forno na temperatura máxima.
  4. Coloque os mexilhões numa panela grande, ligue o fogo alto, tampe e cozinhe por alguns minutinhos apenas até que abram. Remova do fogo. Descarte qualquer um que permaneça completamente fechado.
  5. Abra os mexilhões e descarte a concha vazia, mantendo só as metades com os moluscos. Volte-os para a panela, ou para uma travessa refratária se eles não couberem numa camada só na panela.
  6. Misture bem o alho, salsinha, azeite e farinha de rosca numa tigela. Com uma colherinha, distribua a mistura sobre os mexilhões. Tempere com sal e pimenta-do-reino. Regue com mais um fio de azeite e leve ao forno por 5-10 minutos, até que a mistura de farinha de rosca esteja dourada. 
  7. Sirva imediatamente com as fatias de limão.





terça-feira, 17 de outubro de 2017

Um post imenso para o mês de Setembro e reaprendendo a cozinhar e ser


Almoço solitário: Salada de abobrinha amarela, rabanetes, alface romana, ovo cozido e pão de centeio, com azeite, limão e cebolinha. Iogurte com mel e frutas de sobremesa.

Na segunda-feira após meu aniversário, acordei decidida a não me deixar mais abater pelas pequenas coisas. Talvez por ter conhecido outros imigrantes brasileiros passando por apuros bem mais significativos, o que sempre coloca seus problemas em perspectiva; ou talvez por efeito daquele ótimo artigo, "The subtle art of not giving a f*ck", de Mark Mason.  Finalmente me senti pronta para "stop distributing f*cks everywhere".

A manhã fora como todas as outras, mas diferente. Acordamos no mesmo horário, fizemos as mesmas coisas. Andei com as crianças até a escola como sempre. Esperei que entrassem e saí para dar conta dos afazeres e pepinos a resolver.

Andei vinte minutos para norte até o mercado orgânico, buscando bons tomates em lata, creme de leite de verdade, e grãos e castanhas a granel. Voltei com duas sacolas da Ikea cheias de boa comida, sentindo o peso delas machucar um pouco as dobras dos dedos. Parei por um instante naquela avenida residencial, endireitei os ombros, respirei fundo e olhei em volta. O céu estava de um azul de Maio, e pensar nisso foi imediatamente estranho. Esta referência perder-se-ia com o tempo, e meu céu de Maio estava fadado a se tornar um céu de Outubro. Os dezoito graus vinham mornos com o sol das onze e meia, e o vento agradável levava meus cabelos soltos e pilhas de folhas alaranjadas, avermelhadas, amareladas, em espirais pela rua a se chocarem contra os carros estacionados. Eu ouvia o som do trânsito na rua de trás quase abafado pelo cantar insistente de dois ou três pássaros. Nesses dois meses tive como meta tentar conhecer os passarinhos da cidade, com saudades do meu Bem-te-vi, e pesquisei cantos e cores e bicos e penas, até descobrir os nomes dos meus cantores cotidianos. Eu sabia que aqueles cantos breves e em coro caótico vinham do Finch, esse pardalzinho que aqui anda em enormes bandos, e não solitário como no Brasil. Aquele outro distante era de uma gaivota que pairava acima dos prédios no fim do quarteirão. E o último, meu favorito, era do Blue Jay, pássaro símbolo da província.

Fora no primeiro dia de escola das crianças, na mesma semana em que nos mudamos para este apartamento, que ouvi o Blue Jay pela primeira vez. Thomas achara que aquele canto muito alto e metálico fosse de um gavião. Laura, de uma gaivota. Eu olhava para cima, buscando nos galhos o emissor do canto, e me dando conta da impossibilidade de se encontrar algo cuja aparência você não conhece. Um passante se aproximou, percebendo nossa curiosidade, e explicou: esse canto é do Blue Jay.

Todas as manhãs, no caminhar para a escola e de volta, ouvíamos o Blue Jay cantar. As crianças gritavam seu nome para os galhos altos, na esperança de que ele respondesse ao chamado; mas ele, que é tido como um pássaro tão cara-de-pau, tinha decidido esconder-se de nós.

Um dos passarinhos que consegui avistar, o White-breasted Nuthatch
E foi assim durante todo o mês de Setembro. Eu me agarrava à possibilidade de enxergar o pássaro em meio à folhagem, como quem espera um sinal de bom agouro. Às vezes outros passarinhos surgiam para me animar, lindos, interessantes, de cantos bonitos. Mas o Blue Jay continuava a brincar com meus sentimentos.

E meus sentimentos não estavam para brincadeira.

O mês de Agosto se fora, aquele mês de aventura, de exploração, de férias de verão, de piqueniques e parquinhos, de brincar na água, de imaginar como seria quando tivéssemos nosso próprio lar. Depois de tanto tempo de incertezas, de malas pelo caminho, de nos sentirmos deslocados e desconfortáveis, parecia óbvio que depositássemos toda a nossa futura paz de espírito no novo apartamento. Em nossas mentes, ter um espaço nosso seria ter de volta nossa rotina, nossa vida, nosso conforto.

Contudo, não é isso o que acontece quando você muda permanentemente para um país novo com meia dúzia de malas e duas crianças. Com Allex trabalhando desde o primeiro dia em Toronto, a mudança do AirBnb para o apartamento novo foi no mínimo atabalhoada, com direito a sair da Ikea em horário de fechamento, com Allex levando no carro os três colchões e lençóis de que precisávamos para dormir àquela noite e eu voltando com as crianças de metrô às dez da noite, pois não cabíamos junto no carro e o Uber não nos aceitaria sem os booster-seats das crianças. Foi bom acordarmos em nosso próprio apartamento, mas logo percebemos que sem cabides ou uma mesa onde comer, continuávamos vivendo num eterno acampamento.

Tentamos manter tudo simples e comprar apenas conforme a necessidade fosse aparecendo, o que parecia e é de fato mais sensato se você não quer correr o risco de viver entulhado de tralhas outra vez. Acredite, o processo de expurgar tudo o que havia em nossa casa no Brasil foi traumático a ponto de eu proibir meu marido, que é doido por eletrônicos, de ter qualquer cabo em casa que não esteja conectado a alguma coisa. Desafiei-me a analisar as coisas com calma e não sair simplesmente comprando de novo tudo o que tinha no Brasil. Eram já dois meses sem batedeira, sem liquidificador, sem processador, sem computador, sem televisão. A casa tinha uma mesa com bancos e um sofá. Nossas coisas pequenas couberam todas nos armários embutidos, então a sensação era de muito espaço livre.

Uma amiga, vendo o tour pelo celular, comentou: "nossa! parece uma casa sueca! super minimalista!" Ao que eu suspirei e respondi com uma sinceridade acachapante: "Minimalismo é uma m*rda."

Ela riu, e eu expliquei: é lindo o espaço vazio, os tons neutros, e funciona super bem no Pinterest; mas sem as MINHAS coisas desordenando esse exceço de ordem, eu me sinto perpetuamente morando num quarto de hotel. Depois de um dia inteiro de perrengue, voltar para "casa" não trazia aquele conforto emocional que se esperava.

Além dessa dificuldade de reconhecer o espaço como lar, havia a ainda constante ausência da rotina invisível. Lembra dela? Pule uns três posts para trás e você vai entender do que estou falando. 

As coisas estavam todas em armários, mas ninguém sabia onde nada estava. Alguém ligava, e eu me dava conta de que eu não tinha uma Bic e um Post-it para anotar o recado. Todo dia faltava alguma coisa em casa que todo ser humano tem sempre em casa mas a gente não tinha.  Você passa o dia andando 9km indo a diversos lugares diferentes para tentar resolver o mesmo problema, e ao fechar a porta atrás de si, descobre que continua entrando na sala feito uma barata tonta, SEM TER ONDE APOIAR A BOLSA. E quando larga a bolsa no chão e apanha dentro dela o item que finalmente encontrou depois de toda aquela maratona, descobre que veio faltando uma peça e que você vai ter que ir lá onde Judas perdeu as botas no dia seguinte de novo para trocar o maldito. E isso se repete uma, duas, cinco, sete vezes.

Cometemos muitos erros. Os banais, os imbecis, aqueles por falta de atenção, por cansaço, por falta de conhecimento, e isso nos faz sentir incapazes boa parte do tempo.
Algumas coisas que vieram comigo e me trazem conforto: minha panela, o pano de pão, minhas facas, meu pilãozinho italiano.
E não é apenas a rotina invisível que se demora para entrar nos eixos: a própria rotina principal da casa, aquela que acreditávamos que teríamos de volta uma vez que nos mudássemos e todas as roupas estivessem nos cabides... essa foi a bolha ilusória mais difícil de romper. No Brasil, tínhamos uma rotina matinal muito gostosa. Pelo fato de Allex trabalhar perto de casa, ter horário flexível e a escola ser a cinco minutos de carro. Eu não sabia como estava confortável nos nossos hábitos e horários até vê-los modificados em sua integralidade. Agora Allex trabalha longe e entra mais cedo na empresa. As crianças entram mais tarde, em horários diferentes, e saem só bem depois do almoço, também em horários diferentes. Com tudo ainda meio atrapalhado de manhã, nunca consigo tirar as crianças de casa no mesmo horário. A escola fica a dez minutos a pé, mas cada dia as crianças vão numa velocidade, e às vezes me pego irritada porque estamos nos atrasando, e  quando deixo que eles venham em seu ritmo, enfrento toda uma birra porque o sinal tocou e eles não tiveram tempo de brincar no pátio antes de entrar na sala de aula. Quando vou buscá-los, eles nunca querem vir direto para casa. Brincam no parque até o fim da tarde, e eu vou ficando aflita, sabendo que ainda vai demorar uma hora para fazer o jantar, e eu não quero que eles durmam tarde porque acordamos às 5h30 na manhã seguinte, e quando voltamos para casa, é banho, jantar e cama, tudo na correria, e quase que não dá tempo de fazer a lição de casa do Thomas, que no primeiro ano, é simplesmente ler um livrinho de história escolhido pela professora.

O cachorro ainda não está aqui, então uma vez que todos foram para o trabalho e para a escola, eu fico completamente sozinha. Não desgosto disso, sou meio eremita mesmo, mas não ficava tanto tempo sozinha assim desde antes das crianças nascerem, desde antes de adotarmos o Gnocchi.

Quando parece que conseguiremos ter um dia de calma e começar a estabelecer uma rotina, calha que precisamos sair correndo de novo para ir a Ikea comprar o sofá e o beliche das crianças, procurar um aspirador de pó em promoção na Canadian Tire ou correr atrás de documentação. Foi um mês intenso em que, se não nos sentíamos em casa, era porque não conseguíamos parar tempo suficiente dentro dela para observar essa transformação do espaço.



Não me leve a mal. Quando de fato conseguimos parar tudo e passearmos, foi maravilhoso. Ir ao parque, à praia do lago, colher maçãs. Momentos tão bons que compensaram toda a ansiedade dos outros dias. Um suspiro relaxado, um oásis na ventania, nos dando a certeza de estarmos no lugar certo.



Com certeza foi uma vitória pessoal e fonte de alegria usar as maçãs colhidas para produzir essa torta, sem medidores, sem balança, sem receita, só sentindo a textura, tendo uma vaga ideia de quanta farinha eu havia posto na tigela ou quantas maçãs eu precisava para preencher a torta. O resultado me deu a sensação de poder conquistar o mundo, e fiquei com a sensação de que minhas avós teriam ficado orgulhosas. :)

Mas no fim do dia você volta à sua casa com cara de quarto de hotel vazio, e não reconhecer as coisas à sua volta, não entender os códigos sociais ou as coisas mais simples, como onde eu me registro para receber minha conta de luz, são o bastante para fazer você se sentir a deriva, tentando se manter de pé no convés de um barco em plena tempestade, sem ter onde se segurar. Sua mente e seu coração ficam frágeis, e você se pega de olhos marejados e coração apertado por coisas que em outras épocas teriam sido banais.

Mas além de se deixar perturbar pelas pequenas coisas, por todos os erros cometidos, todos os tropeços, todas as pequenas dificuldades, Setembro foi um mês de muita preocupação. Quero buscar meu cachorro. Minha passagem fora comprada com antecedência, pois você precisa reservar o espaço do cachorro no avião e marcar no Vigiagro a produção do documento de viagem. Tudo muito bem calculadinho e planejado. Chegando aqui, descobrimos que precisamos esperar o recebimento de nosso PR Card, o Green Card canadense, para poder sair do país. Sem esse documento, você não pode entrar de volta. E é claro, o prazo para receber o documento ultrapassa a data da viagem. Remarco tudo. Duas vezes. Um baita perrengue. A companhia aérea erra o dia do cachorro. Tenho que reorganizar tudo, e Allex, que vai perder dia de trabalho para ficar com as crianças, se lasca mais ainda. No meio do caminho, descobrimos que a imigração ainda tem o endereço do AirBnb, e o site do governo não reconhece nossa identificação para que consigamos atualizar o endereço. Esperas telefônicas de 45 minutos para falar com a imigração. Emails sem resposta. A data da viagem chegando de novo e eu sem saber se um turista qualquer vai receber na casa antiga os documentos mais importantes de nossas vidas. Tento falar com a hostess do AirBnb mas sou ignorada. Cogito a possibilidade de ir todos os dias à casa velha fuçar na correspondência, mas sei que isso é crime.

Eu quero meu cachorro.

No fim das contas, a tensão causada pelas semanas sem resolução do problema do PR Card e da viagem foram fazendo com que os pequenos perrengues normais da adaptação a um novo país mudassem de proporção. Tudo parecia infinitamente mais difícil. Eu me sentia o tempo todo burra, incompetente, perdida e, principalmente, sozinha. Cantou Fred Mercury: I´m naked and I´m far from home. Quando minha tia me disse que eu choraria muito na banheira depois de imigrar, achei que fosse exagero. Não era não. Aquela sena ridícula de chorar no metrô por trás dos óculos escuros, porque o consulado estava fechado no único dia em que você podia ir lá aquela semana, aconteceu. E a constatação triste de que eu não corria o risco de encontrar ninguém conhecido no caminho que me visse chorando pirou tudo.

Busquei refúgio na cozinha. Preparar minha comida parecia a receita ideal para voltar a estabelecer uma rotina e encontrar um porto seguro em meio à tempestade.

A primeira surpresa é, depois de quinze anos levando meus temperos de uma casa para a outra, é difícil improvisar naturalmente uma refeição quando você não têm seus molhos e especiarias favoritos à mão. Fiz um esforço para lembrar dos essenciais e novamente não cair na pegadinha de sair estocando coisas que eu não usaria com frequência.

A segunda surpresa é que eu de fato gostava dos meus eletrodomésticos: como é frustrante querer transformar a couve num pesto e não ter um processador, como é irritante querer fazer uma vitamina de manhã e não ter um liquidificador. Rapidamente as crianças começaram a perguntar quando eu faria waffles ou sorvete, e eu percebi que ter a batedeira realmente me ajudava a produzir tantos pães por semana lá no Brasil.

Mas eu não queria gastar dinheiro e queria provar para mim mesma que podia ter uma vida simples sem tralhas. Certo?

Hmmm....

Outra coisa que entrou no caminho da rotina na cozinha foi essa novidade de ter de preparar o almoço da escola e o do Allex. As crianças têm dois momentos de snack e o almoço. Mas elas não podem levar NADA com castanhas por questões de alergias. É lei. Parece estúpido, uma vez que as crianças também são proibidas de dividir o lanche com o colega. E isso logo me aborrece. Eu adoro castanhas. Thomas ama nozes e amêndoas, e frequentemente levava um punhado delas para lanche da escola. Dois terços das minhas receitas de biscoito levam alguma espécie de castanha. Acabo ficando mais irritada com isso do que deveria, e mais um pouco pelo fato de não conseguir me organizar o bastante para dar conta dos almoços. Allex tem microondas no escritório. As crianças não: se a refeição veio fria, ela é comida fria mesmo. As crianças comem pratos frios, como rice noodles, saladas e sanduíches frios no almoço sem o menor problema, foram acostumadas assim quando almoçavam comigo. Allex, por sua vez, detesta comer almoço frio. Então tenho de pensar em refeições sem castanhas, que possam ser comidas frias ou requentadas, que se mantenham bem na térmica ou requentem bem no microondas sem virar uma gosma, que não fermentem dentro da térmica, que não vaze, que seja apetitoso e que sustente todo mundo até o jantar. Mas que também seja natural. E tenho que montar tudo, com dois lanchinhos diferentes, nutritivos e fáceis de comer, às 6 da manhã todo dia, enquanto preparo também o café da manhã, mando criança escovar dente e botar a roupa.

O engraçado é que foi tanto tempo sem rotina de verdade, que minha sensação é der apagado completamente da memória o meu jeito de fazer as coisas, de cozinhar, de me organizar. Estou reaprendendo tudo de novo. E claro que, num momento em que você busca familiaridade e conforto, encarar mudanças e reaprendizagem termina de puxar seu tapete.

Sentia-me sem nenhum norte, sem saber onde me apoiar e sem saber para onde ir a partir de então. Setembro foi um mês difícil.

Num momento mais crítico, converso com duas grandes amigas, separadamente, e não consigo disfarçar a exaustão na voz. Divido com elas meus perrengues, minhas frustrações, minha ansiedade. Uma delas, muito sensata, tendo passado pela mesma experiência dois anos antes, diz, quando pergunto se ela já se sente em casa num país estrangeiro: "você precisa saber o que está buscando, para saber se as suas decisões estão aproximando você desse objetivo ou afastando; se você muda de país sem saber o que você quer disso, você só mudou o cenário."

Ficou dolorosamente claro que eu andava buscando nas árvores um pássaro cuja cor eu não sabia.

E então, esta outra amiga exasperou-se com um outro relato meu, dizendo que eu fora atrás de qualidade de vida, e que não fazia o menor sentido tomar decisões que tivessem o resultado oposto.Você está tornando tudo mais difícil para você, e não há nenhuma necessidade disso, ela disse. Tentando fazer mais do que se pode, tentando provar um ponto sabe-se lá para quem - se um processador vai facilitar sua vida e melhorar seu humor em casa, vai lá e compre o processador de uma vez, foi pra isso que você vendeu suas coisas, para poder recomprar o que fosse importante. 

Ter isso no freezer com certeza me remete ao lar.
E as duas, uma depois da outra, disseram que era preciso se perdoar por todas as burradas e pés metidos pelas mãos que havíamos cometido e ainda cometeríamos, e, sem dúvida, nessa situação em que quase todas as nossas referências são jogadas para o alto, buscar sim algum conforto que seja familiar. Admitir cansaço, e apenas descansar.

Aqueles conselhos ressoaram durante dias na minha mente, mas foi preciso todo um episódio específico de excesso de preocupação com coisas estúpidas, gasto desnecessário de tempo e energia, e obtenção de resultados medíocres, para que as palavras se arraigassem em meu cérebro e eu de fato entendesse que aquele recomeço não significava apenas uma mudança de endereço, mas a oportunidade de parar de cometer os mesmos erros de sempre.

Foi doloroso como um tijolo baiano no pé ler, àquela noite, o artigo de Mason, e encontrar uma frase mais ou menos como"se você se importa com muitas coisas pequenas, talvez você não tenha algo realmente significativo com o que se importar".

Com o que eu me importo, então?

O que eu quero?


EU QUERO UMA VIDA TRANQUILA. Repeti isso à exaustão nesse blog nos últimos anos, e sempre me surpreendo quando percebo que esqueci o que quero. Eu quero uma vida tranquila.

Começo a desenhar em linhas suaves na minha mente o que uma vida tranquila representa para mim. E me dou conta de que já tenho todo o desenho completo realizado. Só preciso respirar fundo e parar de puxar meu próprio tapete. Simplesmente aceitar as mudanças que vieram e tornar minha vida tranquila dentro dessa nova rotina contra a qual eu parecia estar lutando. Parar de dar importância ao que parece diferente e difícil, e simplesmente "don't give a f*ck anymore". Dar importância com mais parcimônia.

Respiro fundo, e naquela segunda-feira, decido que quero minha vida tranquila AGORA. Não só depois que tudo estiver resolvido. O PR Card não chegou a a viagem é em cinco dias? Fazer o quê? Eu tenho até 24 horas para alterar a data outra vez, e nada mais está nas minhas mãos. Logo, me preocupar com isso é inútil.

Acordo cedo sem pensar se estou cansada ou não, sem pensar se dormi mal ou não. Allex, que levanta cinco minutos antes, traz um cappuccino quentinho para mim. Dou-me conta de que ele tem feito isso todos os dias há já mais de uma semana, e ver o primeiro hábito instaurado na nossa nova rotina me faz sorrir. Acordo cedo pensando que terei muito tempo para fazer várias coisas até o horário de sair para a escola. Para garantir que não haverá mais correria atradasada no meio da rua, coloco um despertador no celular para a hora limite de nossa saída, ainda dando tempo de as crianças brincarem antes da aula.


 Deixo as crianças ajudarem como podem e como querem durante o café. Enquanto elas comem e fazem uma dose mínima de sujeira com a geleia sem que eu esteja olhando (e se eu não estiver olhando, eu não me irrito), preparo o almoço de todos, dando prioridade para o do Allex, que sai mais cedo. Minha linha de produção de marmitas vai funcionando bem, e Allex pega sua marmita pronta, dá-me um beijo e sai, e as crianças vêm ver o que há para comer e fecham as tampas e guardam tudo em suas respectivas lancheiras. Deixo que brinquem enquanto faço um pouco de exercício. Só um pouco. Não precisa ser um treino inteiro. Um exerciciozinho só para lembrar meu corpo de como ele funciona. Visto-me com calma, coloco maquiagem, e enquanto as crianças colocam a roupa que lhes dá na telha, sento-me para aí sim comer uma fatia de pão, pois nunca tenho fome às 5h30 da manhã. Quando saímos, saímos sem pressa. As crianças entenderam que chegando cedo, têm mais tempo de brincar antes da aula, e deixo que decidam por elas e arquem com as próprias consequências. Basta dizer que não terão tempo de brincar para que saiam correndo vinte metros à frente em direção à escola.

Eu fora então ao mercado de orgânicos decidida a comprar a MINHA comida, com todas as naturebices a que eu tinha direito. Passara dois meses de adaptações e frustrações, com a ideia fixa de que era prudente economizar em tudo, sem exceções. Mas o mercado barato tem um sortimento limitado, e muita coisa que vem dos Estados Unidos é mais lixo do aquilo que eu já considerava porcaria no Brasil. Não encontrar bom tomate em lata sem bizarrices dentro, por besta que soe, havia me deixado deprimida por dias. É um problema estúpido. Mas comida é uma parte muito importante da minha vida, e eu havia vindo para cá acreditando que encontraria variedade e produtos de qualidade. EU ME IMPORTO COM COMIDA. E só estou me importando com outras coisas idiotas, por não estar respeitando aquilo que é de fato importante para mim.

E no mercado de orgânicos encontrei meu tomate em lata. E meus legumes, e bacon de porco feliz, e as nozes e castanhas que, apesar de não poder botar no almoço das crianças, eu posso botar no meu. E comprei snacks, bolachas de arroz, chips de banana da terra, cenouras baby coloridas, para facilitar de manhã cedo o preparo dos almoços, e passei na Staples para comprar canetas e um bloco colorido de post-it, para voltar a criar a lista de ingredientes da despensa e a lista de refeições da semana, que sempre foi a melhor coisa do mundo para me organizar. E sim, até catei minha carteira e comprei meu processador, pois não poder fazer um pesto de brócolis ou transformar as sobras do arroz em bolinhos, ou transformar o pão amanhecido em farinha de rosca, andava quebrando minha cabeça e tornando minha rotina na cozinha consideravelmente mais difícil. Minha amiga tinha razão, e ela ficou felicíssima quando mandei a foto do processador desembalado.
Almoço solitário: pão sourdough torrado com uma colherada de tahini, cavolo nero refogado em alho, tomates e queijo feta esmigalhado.
É bom ter gente próxima que bota a gente nos eixos quando começamos a tropeçar por aí. Mesmo que esteja cada uma de um lado do mundo. Essas duas mulheres fortes que me fazem pensar mais devagar, olhar as coisas com outros olhos e simplesmente don´t give a f*ck. Relaxar. Tirar o peso dos ombros.

Almoço solitário: bolinhos de arroz e lentilha com tomates heirloom, pepinos, abacate, alface, cebola roxa e uma colher gorda de iogurte.
E naquele dia de Outubro, voltando do mercado, olhei em volta, para a luz do sol passando através das folhas das inúmeras árvores de Maple plantadas na cidade, e percebi que pela primeira vez desde que cheguei aqui, estava me sentindo em casa, que meu dia estava sendo tranquilo, e que eu estava feliz. Estava fazendo aquele caminho pela enésima vez sem pensar, reconhecendo as casas, o cheiro das plantas, até mesmo o Pepe, o esquilo preto com a ponta do rabo branca, que está sempre no meu quarteirão, e que me faz lembrar da gatinha do desenho do Pepe Le Pew.

A consciência daquela sensação encheu meu peito de uma alegria quente. E porque às vezes a vida é poética assim, quando ouvi o canto do Blue Jay e levantei os olhos para procurá-lo, avistei aquele pássaro grande como um Bem-te-vi, azul, azul como nunca imaginei, cantando empoleirado no galho acima de minha cabeça.

A partir daquele dia o aperto no coração e a ansiedade se foram. As coisas começaram a parecer mais naturais e os contratempos, menos ameaçadores. A casa começou a ficar com cara de casa, os dias começaram a ficar mais parecidos. Entro em casa, tiro os sapatos, penduro minha bolsa no armário. Tenho um lugar para jogar as chaves. Faço um chá, sento no sofá, abro um livro. I´m finally home. 

Depois daquele dia, tive a primeira noite bem dormida em terras canadenses. Dois bons dias depois, meu cartão de residente permanente chegou, me dando a certeza de que agora posso fazer a viagem para buscar o Gnocchi e tornar nossa mudança completa.

Setembro foi um mês difícil mas necessário.

                                                                                   ....... 



Outubro é o mês em que fiz 38 anos, em que meu marido cumpriu sua promessa, feita há dois anos, de comemorarmos esse aniversário comendo hambúrguer em Toronto, e foi a primeira vez em que meus filhos de fato se lembraram sozinhos de que eu fazia anos. O bolo foi o de sempre, de chocolate da Alice Medrich com a cobertura de sempre, uma camada só, simples, que eu deixei as crianças lambuzarem de cobertura e cobrirem de velinhas coloridas. Passei o dia ouvindo Thomas cantando Happy Birthday To You. 
 

Tivesse mantido tudo o tempo todo simples como aquele bolo e essas receitas, talvez não tivesse me estressado tanto. É claro que me encantei com a variedade de couves, de abobrinhas, a possibilidade de comprar porco orgânico e salmão selvagem. Mas no fim o melhor a se fazer é se manter naquilo que é familiar e confortável. Por isso, todas as sextas-feiras tenho feito A PIZZA RETANGULAR. Depois de três semanas, todos já chegam em casa sabendo que sexta tem pizza, e isso é muito bom. Rotina, sabe? ;) Primeiro apenas mozzarella, depois com gorgonzola, e então comecei a usar outros toppings, distribuídos junto com o queijo, como o que sobrou da linguiça de ontem, pimentões fatiados, brócolis cozidos, couve, o que houver. 


Não dá para esquecer nunca da torta de liquidificador da minha mãe, que eu faço numa tigela com um fouet: quase não sobrou para levar de almoço no dia seguinte, e já sei que vale a pena fazer uma simplesmente com esse fim. 

Esse era de framboesa e chocolate. :)
Engraçado que no Brasil as crianças não pareciam ligar muito para muffins, mas aqui eles andam absolutamente entusiasmados, e preparar muffins de qualquer coisa que seja é fácil e prático para o lanche das crianças. Busquei na internet uma receita básica que eu pudesse alterar como quisesse, pois tinha apenas duas tigelas, farinha, ovos, manteiga leite e açúcar, e encontrei ESTA AQUI da Martha Stewart que fica deliciosa. Buttermilk no lugar de leite e uma pitada extra de bicarbonato os deixaram ainda melhores, e eu tenho brincado loucamente com a receita, fazendo-os com framboesas e chocolate, trocando o açúcar por mascavo e carregando a mão nas especiarias, usando sementes e frutas diversas, sempre com sucesso. Depois de prontos e frios, coloco-os num saco no freezer e tiro só os necessários para o lanche do dia seguinte. Eles descongelam durante a noite e parecem fresquinhos na hora do lanche. 

Outra descoberta do reino da simplicidade foi ESSE BOLO DE BANANA do The Kitchn. Ao procurar banana bread no blog, fiquei besta ao descobrir que não tinha nenhuma receita simples como eu queria. E a da Tessa Kiros que eu tinha no livro eu trouxe, apesar de simples, usava a batedeira que eu não tinha. Esta receita foi uma deliciosa surpresa. É perfeita e as crianças fizeram sozinha. Fica úmido, macio, compacto, com aquela casquinha brilhante e resistente à mordida de bolos da infância. 

Kedgeree de cenoura e couve-flor da Bela Gil, com coentro e amêndoas por cima. Amêndoas só no meu, que as crianças não podem levar na escola.

Tenho usado muito como inspiração o site Green Kitchen Stories, e até voltando a algumas receitas da Bela Gil. (O kedgeree de cenoura e couve-flor, que eu fiz com arroz branco orgânico, ficou um desbunde, as crianças levaram de almoço e rasparam o pote.) A ideia de simplesmente ter vários grãos e leguminosas cozidos e prontos para usar e apenas combinar isso com um punhado de vegetais e folhas, uma colher de iogurte, um queijo ou um ovo, tem facilitado a montagem dos almoços.  Sem contar que tirar a carne da jogada facilita e barateia as compras. Nisso, lembrando da época sem filhos em que eu almoçava sozinha, tenho voltado aos meus almoços leves de saladas, bruschetta ou uma sopa simples. Isso aliado ao fato de andar TANTO por aí me fez perder TODO o peso extra adquirido nos meses anteriores à viagem. 
 
Batatas previamente cozidas, pimentões, tomates, cebolas, alho e alecrim assados em azeite até caramelizarem. Juntei ervilhas congeladas apenas para cozinharem no calor do forno, queijo feta que aqueceu deliciosamente, polvilhado de salsinha picada e acompanhado de fatias de pão desse lindo pão de centeio marmorizado da padaria.

Uma das saídas mais brilhantes que tenho usado do Green Kitchen é isso de simplesmente jogar a refeição toda numa assadeira. SE você não sabe o que fazer de jantar, jogue os legumes na assadeira com azeite e temperos básicos e asse até dourarem. Jogue folhas por cima, e frutas, e queijos e o que houver, e você tem uma refeição. Achou que é pouco? Uma fatia de pão completa. Ou uma fruta de sobremesa. Ou uma salada. Enfim. No-brainer.

Uma adaptação da sopa de grão de bico e repolho da Marcella Hazan.
Voltar a fazer minhas listas nos post-its na geladeira foi maravilhoso. Uso tudo o que tenho em casa, preparo tudo o que posso com antecedência no fim de semana ou na segunda, e vou apenas finalizando ou montando durante a semana. Tenho feito cada receita em porções gigantes, para sobrar para o dia seguinte ou poder congelar. Sempre que preparo um molho de tomates, preparo o dobro. Sempre que cozinho feijões, cozinho tudo. Vai tudo congelado e eu tenho refeições emergenciais para as semanas subsequentes. Tenho no meu freezer no momento:
  • cenouras picadas
  • salsão picado
  • ervilhas congeladas
  • massa folhada
  • sopa de grão de bico e repolho
  • grão de bico cozido
  • feijão preto cozido
  • arroz branco cozido
  • molho de tomate
  • guanciale
  • miolos de maçã para fazer geleia
  • aparas de legumes para fazer caldo
  • bolinhos de arroz e lentilha para irem direto para o forno
  • cozido marroquino de berinjela

 Estou mantendo sempre um estoque mínimo de opções de snack que não precisem de preparo:
  • chips de mandioca ou de banana da terra (que no momento estou comprando mas depois vou começar a fazer)
  • diferentes tipos de bolhacha de arroz (aqui você encontra uns que vem com trigo sarraceno, com quinoa, com cevada...)
  • cenouras baby orgânicas (eles adoram as coloridas)
  • tomates cereja
  • frutas para serem levadas inteiras (as crianças estão pirando na variedade enorme de maçãs que há aqui)
  • pepinos
  • pimentões
  • queijos


Vida tranquila também quer dizer acordar tarde de sábado e comer panquecas com maple de almoço. Também quer dizer jantar pipoca na terça-feira. Também quer dizer muito spaghetti caccio e peppe e fusilli com molho de tomate. Também quer dizer não fazer pão e ir até a padaria do bairro, onde você compra pão do dia anterior pela metade do preço.

Agora só falta o Gnocchi aqui para me acompanhar nas idas ao mercado e nos passeios de metrô. 

Não vejo a hora de por minhas mãos naquele cãozinho peludo delícia que me espera. ^_^




 



quinta-feira, 2 de março de 2017

Um mês de Dorie Greenspan, a bizarrice do Hygge, livros e coisas que se vão

 

Daí que num dia desses caí num artigo bizarro sobre um livro dinamarquês sobre HYGGE. O artigo dizia que o tal livro seria tão influenciador de comportamento quanto o livro da japonesa que ensina a dobrar roupa havia sido no ano passado. Curiosa que sou com relação a comportamento de massa e estilo de vida de outros povos, fui atrás para saber do que se tratava, e... fiquei preocupada com a humanidade.

O livro fala sobre o estilo de vida dinamarquês, e como esse povo cercado de inverno por todos os lados faz para ser (segundo aqueles pseudo-estudos que surgem do nada), o povo mais feliz do mundo. O livro vende que o segredo para a felicidade eterna é uma vida caseira, cercada de gente da qual você gosta, em momentos gostosos em que você de fato está com essas pessoas e não com seus celulares, e, principalmente, o habito de chegar em casa, colocar uma roupa confortável, fazer um chá, acender umas velas e ficar aconchegadinho num canto gostoso do sofá, à meia luz, lendo um bom livro.

Oi.

Prazer.

Meu nome é Obviedade.

Fiquei em choque ao ver quanta gente está escrevendo a respeito, fazendo videos a respeito, como se o ato de ficar gostoso no sofá, com uma calça de moletom, um chá, um livro e uma luz aconchegante fosse uma grande novidade no reino do bem-estar.

Brinquei com o marido que eu sou a pessoa mais Hygge do mundo. Porque eu faço isso toda santa noite desde que me conheço por gente. Que mundo bizarro é esse, em que você precisa de um livro pra ensiná-lo a simplesmente relaxar a bisteca e curtir um momento em paz num cantinho aconchegante? O povo está assim TÃO alucinado que não sabe mais relaxar?  o_O

Bom.

Ainda bem, eu ainda sei relaxar, então não devo estar tão louca assim. Naquela foto ali em cima, eu tinha acendido uma velinha perfumada que minha mãe me deu de Natal, e estava aconchegadinha em uma de suas mantas. Acho que aprendi a arte do aconchego com ela. Ela que continua produzindo mantas de sofá e xales de bebê, feitos à mão, cheias de amor, de uma tal forma que eu não conheço uma pessoa que, tendo uma de suas mantas, não sinta ciúmes da mesma quando outra pessoa resolve usá-la. O exemplo mais próximo que tenho é meu marido: morre de ciúmes da manta verde que ganhou da sogra há quinze anos, quando ela a tricoutou para que ele se enrolasse para jogar video-game no inverno. Tá vendo? Hygge. Minha mãe é dinamarquesa e nem sabe. ;)

Quem tiver curiosidade, pode fuçar no Instagram da mamãe, cheia de mantas uma mais linda que a outra, todas à venda (ela envia pelo correio!): @ceciliagaiarsa

E foi num dia destes, aconchegadinha no sofá, que resolvi fuçar nos livros parados na estante. 

Depois das semanas de janeiro em que consegui alimentar a família (muito bem) por quase meio mês usando só o freezer e a despensa, sem ter que ir à feira ou ao mercado, resolvi unir o útil ao agradável e testar um livro do qual cozinhara pouco, E AO MESMO TEMPO, testar um outro jeito de planejar as refeições. Eu sempre fui de fuçar nos livros, escolher algumas receitas para fazer e meio que girar em torno delas durante a semana, mas sempre depois de ir à feira e comprar o que eu bem quisesse. Daí que sempre apareciam receitas interessantes às quais faltavam dois ou três ingredientes, e eu saía para comprar os tais itens, o que acabava estourando meu orçamento no fim do mês.

E manter-se no orçamento tem sido uma coisa muito importante aqui em casa.

Eu já tinha decidido vender os livros da Dorie Greenspan sobre comida francesa e mais outros aqui de casa, mas resolvi que antes eu queria cozinhar deles algumas coisas que nunca tinha preparado, para desencargo de consciência. Abri o danado e selecionei umas doze receitas com ingredientes mais ou menos em comum e que não envolvessem nada exorbitantemente caro, fiz a lista de compras, e prometi a mim mesma tentar não fugir daquilo até o fim do mês, e ver o que eu conseguiria produzir na cozinha com as sobras daquelas receitas feitas inteiras e se isso me faria economizar algumas patacas.

A lista das receitas selecionadas do livro, em princípio, foi essa:
- Tourteau de Chèvre (que eu não fiz)
- Gougères (que eu não fiz ainda)
- Pissaladière
- Corn soup
- Côte d´Azur Cure All Soup (que não fiz)
- Orange Scented Lentil Soup
- Chuncky Beats and Icy Red Onions
- Couscous Salad
- Eggplant "Tartine"
- Roast Chicken for the Paresseux (que eu não fiz)
- Fresh Orange Pork Tenderloin
- Boeuf à la Mode
- Roasted Salmon and Lentils
- Swiss Chard Pancakes (Farçous)
- Salted Butter Breakups
- Honey Spiced Madeleines

E a lista de compras de ingredientes, esta aqui, considerando alguns poucos itens que eu já tinha em casa, como grão de bico no freezer, por exemplo:
- Queijo Gruyère (um nacional qualquer)
- Cebolas (um monte, por causa da Pissaladière)
- Cenouras
- Salsão
- Batatas
- Pepinos
- Berinjelas
- Beterrabas
- Tomates Cereja
- Pimentões coloridos
- Azeitonas Pretas
- Azeitonas Verdes
- Anchovas
- Laranjas
- Extrato de tomate (que eu fiz ao invés de comprar)
- Lentilhas
- Couscous marroquino
- Farinha de trigo
- Tomilho (o meu morreu)
- Milho verde
- Coentro
- Lombo de porco
- Frango (acabei não comprando)
- Salmão
- Acém (acabei comprando músculo de novilho orgânico)
- Folhas de salada

Fui às compras, então, e resisti bravamente à tentação de comprar qualquer item fora da lista que não fossem os básicos leite, manteiga, ovos e farinha. Confesso que senti dificuldade na banca de orgânicos da feira. Como resistir a lindos chuchus e abobrinhas? Só que não estavam na lista e eu não escolhera fazer nada do livro que levasse chuchu ou abobrinha. Mordi o dedo, contive a tremedeira e consegui me ater à lista. Ufa.

Ter a lista das receitas colada ali na geladeira e todos os itens necessários já comprados tornou minha rotina de cozinha muito mais fácil. Escolhia já no dia anterior o que fazer de almoço e jantar de acordo com o tempo que eu teria para cozinhar, e já pensava se as sobras poderiam ser congeladas ou reaproveitadas de outra forma já no dia seguinte. Nisso, o livro ajudou bastante, tendo pequenas notas sobre a conservação do prato ou quais partes poderiam ser feitas com antecedência. Todos os ingredientes estavam ali, dos principais aos temperinhos, e não ter de ir outra vez ao supermercado já foi grande fator de economia.

No dia das compras me planejei para "processar" tudo o que podia e que sabia que estragaria mais rápido, ou mesmo preparar pratos inteiros para ir direto ao freezer, como foi o caso da sopa de milho. Fiz a sopa no momento que as espigas estavam mais frescas e ela foi inteira direto para o freezer, em porções suficientes para dois diferentes jantares para dois adultos e duas crianças. A sopa só foi consumida no meio e no fim do mês, e foi muito prático ter aquilo ali já pronto. Ela era deliciosa, cremosa, adocicada, e a farofinha de bacon por cima ficou muito boa. Super diferente de outras sopas de milho? De fato não, mas muito boa.

CORN SOUP
Rendimento: diz 4 porções, mas somos em 4 e comemos duas vezes. Nossas porções de sopa são pequenas, no entanto, nunca comemos mais que 2 conchas cada um.

Ingredientes: 
  • 3 espigas de milho, debulhadas (reserve a espiga)
  • 3 xic. leite
  • 2 colh (sopa) manteiga
  • 1 cebola grande, picada
  • 1 talo médio de salsão, fatiado fino
  • 1 cenoura média, descascada e fatiada fino
  • 1 dente de alho, picado
  • 2 xic. água
  • 2 ramos de tomilho
  • 2 ramos de alecrim
  • 1 folha de louro
  • Pimenta-do-reino branca moída na hora
(guarnição)
  • cebolinha picada
  • 1 pitada de pimenta caiena 
  • 2 tiras de bacon cozido até ficar crocante e picadinho

Preparo:
  1. Coloque as espigas reservadas no leite e leve à fervura. Desligue, cubra a panela e deixe em infusão enquanto prepara o resto da sopa. 
  2. Em outra panela grande, derreta a manteiga. Junte a cebola, uma pitada de sal e cozinhe em fogo baixo, por 5 minutos, até que a cebola amacie bem mas não doure. Junte o salsão, a cenouta, grãos de milho, alho e sal e cozinhe até que os legumes estejam macios. 
  3. Junte a água, o leite com as espigas, as ervas, e 1 colh (chá) de sal. Leve à fervura, abaixe o fogo e e cozinhe por 20 minutos. 
  4. Retire as espigas, o louro e quaisquer ervas que você consiga pescar fora e descarte. Bata a sopa no liquidificador com cuidado. Acerte o tempero e sirva com a guarnição. Sem a guarnição, a sopa congela maravilhosamente.

Em seguida, apanhei os tomates ultra-maduros que eu comprara mais baratos na banquinha de orgânicos e pelei, tirei as sementes, cortei e joguei na panela com sal na proporção de 1 colh.(sopa) de sal para cada 1kg de tomate. É muito? Claro que é. Mas o objetivo é conservar meu extrato de tomate por 1 ano. Cozinhei até os tomates desmancharem, até o molho reduzir a um terço de seu volume, e então bati no liquidificador para ficar bem liso. Espalhei numa assadeira o mais uniformemente possível e levei ao forno bem baixo por meia hora. Nesse tempo, espalhei novamente, juntando o molho reduzido un pouco mais pro canto, limpando a parte exposta da assadeira com um papel-toalha, e voltando ao forno. E assim, de meia em meia hora, juntando, limpando, juntando limpando, até aqueles 4kg de tomates iniciais virarem um potinho de 3/4xic. Espesso, brilhante, de um impressionante vermelho escuro. Coloquei num pote esterilizado, cobri de azeite e levei à geladeira, onde meu extratinho vai durar um ano, desde que eu cubra de azeite sempre que pegar umas colheres.

Essa receita não era da Dorie, mas de um livro de cozinha calabresa que eu já vendi. Mas como a carne assada dela pedia extrato de tomate, achei que valia a pena fazer o meu, delicioso, orgânico, sem porcarias, antes da carne.

E a carne ficou muito boa. Usei músculo de novilho, orgânico, que estava num preço muito bom, e essa foi a carne braseada que fiz que ficou mais saborosa e macia. Não era quase em nada diferente das outras receitas básicas de carne braseada no vinho, a não ser pelo fato de ela marinar no vinho e com todos os legumes durante a noite e depois ser cozida por umas 2-3 horas no forno nesse caldo. Também as anchovas e o extrato de tomate contribuem bem para o umami do prato. Muito bom. Muito mesmo. Mas dado que o resto do processo é o mesmo das receitas mais clássicas francesas e italianas, apenas pensei que da próxima vez que fizer qualquer uma delas, vou mariná-la no vinho antes de cortá-la em pedaços e incluir na refoga dos legumes as tais anchovinhas. As fotos que achei internet afora, procurando um link para a receita, mostram uma linda carne fatiada. A minha se desmanchou inteira ao tentar cortá-la, o que eu não considero de modo algum um defeito. :)

Achei besta ficar usando uma frigideira para fazer tudo e transferir para o panelão, coisa que eu só faria se minha caçarola não pudesse ir direto no fogo. Como podia, selei tudo na caçarola mesmo. Não usei conhaque, pois n~~ao tinha (deglacei com água mesmo) e não usei caldo de carne, pois acho um pleonasmo usar caldo de carne numa carne que já vai cozinhar com os legumes e ervas que dariam sabor ao caldo. 

BOEUF À LA MODE
Rendimento: de novo, diz que serve 6 pessoas, mas aqui em casa deu 1 refeição para os 4 e mais dois almoços só eu e as crianças. Pratos pequenos. Segredo da vida longa e da cintura estreita. ;)

Ingredientes:
  • 1 pedaço inteiro de acém com 1,7-2kg, limpo mas não totalmente sem gordura
  • sal e pimenta-do-reino
  • 1 cebola, em meias-luas finas
  • 1 cenoura. descascada e em pedaços
  • 1 talo de salsão, em pedaços
  • um bouquet garni com 1 folha de louro, as folhas do salsão, 2 ramos de salsinha, 1 ramo de alecrim, 2 ramos de tomilho, amarrados
  • 1 garrafa de vinho tinto (750ml)
  • 1 colh (sopa) azeite
  • 4 xic de caldo de carne (usei água e o caldo ficou muito saboroso assim)
  • 3 colh (sopa) óleo (usei azeite de novo)
  • 3 colh (sopa) conhaque (omiti)
  • 4 anchovas
  • 2 colh (sopa) extrato de tomate

Preparo: 


  1. Massageie a carne com sal e pimenta e coloque numa tigela bem grande ou ziploc bem grande. Junte os legumes, as ervas e o vinho, o azeite, misture e feche bem o ziploc ou cubra a tigela com filme. Leve à geladeira por toda a noite. 
  2. No dia seguinte, remova a carne da marinada e seque com papel-toalha. Deixe voltar à temperatura ambiente.
  3. Coe a marinada, reservando os legumes e ervas e colocando o líquido numa panela. Leve essa panela ao fogo alto e reduza pela metade, cerca de 10 minutos. Junte o caldo (ou água), leve à fervura novamente, desligue e reserve.
  4. Aqueça o forno a 180oC. Coloque a caçarola de ferro em fogo alto com 2 colh (sopa) de óleo. Sele bem a carne, dourando de todos os lados. Retire para um prato grande e tempere com sal e pimenta. 
  5. Coloque mais uma colher de óleo na e junte os legumes coados. Cozinhe por uns 10 minutos. Como eles estão úmidos, não vão pegar muita cor, mas vão pegar gosto. Tempere com sal e pimenta, junte o conhaque se estiver usando, raspando o fundo com uma colher de pau, e junte o conteúdo da panela à carne. 
  6. Volte o panelão para o fogo e misture 1/2 xic. do caldo reservado ao extrato de tomate e anchovas, amassando para dissolver tudo muito bem. Junte o restante do caldo, as ervas, sal e pimenta, coloque de volta a carne e os legumes e leve à fervura. 
  7. Desligue, cubra com papel alumínio, coloque a tampa por cima e leve ao forno por 1 hora. Você pode ou não abrir tudo pra ver como estão as coisas e virar a carne de quiser. Mas não precisa. Cozinhe por mais 1h30 ou 2h, (tempo total 2h30-3h) ou até que a carne esteja macia. 
  8. Experimente o molho. Retire a carne e reduza mais, se preferir. Descarte o bouquet-garni. Sirva a carne fatiada com purê de batatas.



A salada de beterrabas com cebolas era simples e não tinha nada de muito diferente a não ser o mel no vinaigrette de mostarda. Confesso que o mel de fato arredondou os sabores, trazendo a mostarda e a cebola mais para o universo adocicado da beterraba assada. Fez muito sucesso com as crianças, e prometi a mim mesma lembrar sempre do mel nas próximas vezes. Mas é só isso. Um vinaigrete de mostarda que leva uma colherinha de mel, em cima de beterrabas assadas e cebolas fatiadas e geladas. Outra que fez sucesso foram essas panquecas de espinafre, Farçous. Meramente uma panqueca de espinafre, feita nas mesmas proporções de uma panqueca americana, mas batida com algumas ervas, cebola e alho, e um pouco de espinafre (já que não havia swiss chard), que você meio que frita ao invés de fazer de só dourar. Apesar de não ter ficado convencida pela fritura, as panquecas ficam saborosas e de fato congelam fantasicamente bem. A receita inteira faz umas 40 unidades, e vão do freezer para uma assadeira e em menos de 5 minutos estão quentinhas para o almoço. MUITO práticas e renderam 3 refeições diferentes, com salada verde, com a tal salada de beterraba e com salada de tomates. Mas não acredito que vá usar de novo a receita do livro (porque faço panquecas assim sem receita) ou mesmo fritá-las, que achei que deu mais trabalho que o necessário.


A pissaladière foi uma receita que escolhi para criar base de comparação com outras que já fiz. E essa, acredito, foi a melhor de todas. Pequena, alimentou bem acompanhada de salada verde dois adultos e duas crianças numa única refeição. A massa é crocante e delicada, bem fina, e a cobertura de cebolas, ainda que clássica, estava bem temperada e numa boa proporção. Pode ser também que eu finalmente tenha aprendido a caramelizar cebolas, coisa que eu não tinha coragem de levar a cabo há dez anos atrás, quando morria de medo de queimá-las. ;) Fico sem saber, então. Thomas, que não é muito fã de cebolas, adorou e repetiu a pissaladière e decidiu que agora  não tem mais cisma com elas.

O lombo com laranja ficou delicioso, apesar de um prato feio, daí a não ter fotografia. Não sei se me convenceu aquele monte de casca e polpa de laranja no molho, mas o sabor estava muito bom e todos rasparam o prato. Talvez não Thomas, que achou a coisa toda meio esquisita. "Garçom, derrubaram suco no meu prato!", disse Allex, engraçadinho. Mas a verdade é o que sabor era muito bom e o prato é muito fácil e razoavelmente rápido. Ficou ótimo com arroz. Faria de novo? Acho que sim, mas talvez adaptando para aquele jeito que a Rita Lobo fez, na TV, só com o suco. A receita é bem parecida, a não ser pelas cascas e gomos que a Dorie usa e pelo fato de a Rita usar bacon e legumes.

Mas o que faria de novo mesmo é o curry basicão da página seguinte do livro, no qual usei a outra metade do lombo que sobrara. Esse sim ninguém estranhou e todo mundo lambeu a tigela. Mas curry é curry. É sempre bom e é sempre igual. O tipo de curry que faço a olho e com os pés nas costas, uma mão segurando a Laura e um olho no Thomas embaixo da mesa. O porco ficou muito bom mas confesso que sumiu um pouco ali: podia ser carne, podia ser frango, podia ser peixe, podia ser tofu, meio que o sabor continuaria o mesmo. Mas seria sempre delicioso. É curry, afinal. Acho que uma excelente receita-base para quem nunca faz curry.


E com o que sobrou de laranjas veio essa sopa de lentilhas, maravilhosa, diferente. Pimpolhada adorou o iogurte na sopa, e o desenho bonito do branco sobre o marrom austero dela. De novo, pense numa sopa de lentilhas com azeite, cebola, salsão, cenoura, caldo de legumes e lentilhas. Basicona. A única diferença foi colocar um pedaço de casca de laranja de 3x6cm, sem a parte branca, 6 grãos de pimenta-do-reino, 1 cravo e um pedaço de gengibre de uns 3cm, picado. (Isso para uma sopa usando 1 xic de lentilha). O pulo do gato é bater tudo no liquidificador junto, especiarias, casca e tudo. Ficou muito bom. O coentro para finalizar foi adição minha.



Para dar um tempo nas carnes, fiz a salada de couscous com pimentão, grão de bico e frutas secas, que ficou muito saborosa. Mas, novamente, tive a sensação de que não precisava de fato de uma receita de livro para executar aquele prato. Depois de tanto tempo cozinhando, aquela mistura de sabores era meio intuitiva. Ao menos Dorie não esconde isso e ela mesma menciona na nota o fato de a receita nunca ser feita da mesma forma, sendo constantemente improvisada. Ainda assim, um bom almoço, com direito a repeteco, pois faz muitas sobras.

Agora essa berinjela assada coberta de uma salada/vinaigrette de tomate, pepino, azeitonas e alcaparras me surpreendeu um bocado. Todos adoraram e o que eu acreditei que renderia sobras para o jantar, foi devorado imediatamente numa só refeição. Merece infinitos repetecos com infinitas variações. Só pincelar com azeite fatias grossas de berinjela e levar ao forno até dourar e ficar macia. E cobrir com essa saladinha de tudo isso aí picado: pepino, tomate-cereja, salsão, cebola, alho, azeitona verde, alcaparra, orégano, sal pimenta e vinagre. Fácil.

E outra que será repetida à exaustão foi essa misturebinha de fígado de frango. Não é patê, não é terrine, é só uma coisinha rápida para comer com o pão. Servi no almoço com uma salada de tomates mas depois me vi assaltando a geladeira tarde da noite para acabar com o que estava no potinho, tão, tão, tão bom. Não sei se foram as cebolas caramelizadas, se a pimenta-da-jamaica ou a mera sugestão de servir com maionese. Mas eu amei esse negócio e vou fazer pelo resto da vida. É só esquentar numa frigideira 1/2 xic. de azeite e fritar 2 cebolas picadas. Drene as cebolas e então doure 450g de fígados de frango limpos e cortados ao meio no óleo restante na frigideira, por uns 2 minutos cada lado, para que cozinhem mas ainda fiquem rosinha por dentro. Seque em papel toalha, deixe descansar um minutinho, pique grosseiramente e junte à cebola. Reserve o óleo da frigideira. Tempere o fígado e a cebola com sal e pimenta, 1/4 colh (chá) de pimenta-da-jamaica e 1-2 ovos cozidos picados. Se parecer muito seco, junte o óleo da frigideira. Aperte bem numa terrine ou potinho, cubra bem e gele por algumas horas. Sirva no pão com maionese caseira. Nham!

Aliás, essa receita não estava na minha lista. Mas quando fui visitar minha mãe, ela me deu uma bandejinha fígado congelado, e resolvi que aproveitaria para testá-la, ao invés de fazer o clássico patê de sempre ou o crostini de fígado à toscana de sempre. Esse aliás, foi um ponto incrivelmente positivo do livro: ele é muito coerente, e me vi cozinhando cem por cento do tempo dele, mesmo na hora de improvisar com as sobras.

E assim de improviso saiu esse "cake" salgado de bacon, gruyére e figo seco, acompanhado de uma salada de tomate com molhinho de mostarda e iogurte. Um Cake Salé comum no preparo. O que sobrou virou piquenique na piscina do clube, cortado em cubinhos e acompanhado com tomatinhos cerejas e pepinos, e fatias grossas foram levadas de lanche da escola. As crianças adoraram e Laura AMOU comer "bolo" no almoço, sem ser de sobremesa. :)

Também rolou Spaetzle com ervas num domingo em que as crianças pediram linguiças na churrasqueira. E na lista de pratos para fazer no fim do mês, quando tudo o que é fresco já acabou na gaveta de legumes, sobrou ainda Gnocchi à la parisienne e gougère para acompanhar uma sopinha simples. Ainda não fiz nenhum dos dois, mas pretendo.

Até nos doces acabei me enveredando. O quatre-quarts, aquele bolo clássico francês, em que todos os ingredientes têm o mesmo peso, é muito fácil e foi devorado em duas sentadas. Achei confuso apenas Dorie mencionar que o topo fica bem dourado, quando o meu dourou apenas nas laterais, e todas as fotos que encontrei internet afora mostravam o mesmo domo pálido. Depois do quatre-quarts, fiz também sablés de chocolate e croquants, biscoitos que Thomas e Allex adoraram.  Menciono isso porque Laura, como sempre, preferiu comer bananas a biscoitos. Não há um único biscoito que eu tenha feito até hoje que ela de fato goste. Ela morde uma vez ou outra, diz que está satisfeita, que não gostou muito e vai pegar uma fruta. Essa é a única frescura alimentar dos meus filhos da qual eu não reclamo. ;)

Os sablés são os mesmos de sempre, ficaram bons mas iguais a quaisquer outros sablés de chocolate. Os croquants são bons para quando se quer usar claras congeladas: Basta misturar 2 claras a 1 1/4xic de açúcar, 1 xic. de castanhas picadas grosseiramente (usei avelãs e amêndoas) e 1/2 xic. + 1 colh(sopa) de farinha. Vai ficar uma massaroca nada ver com massa de biscoito. Coloque numa assadeira com silpat em porções de 1 colh (chá ) com espaço de 5cm entre elas. Tente deixar montinhos com forma de bolinhas. Leve ao forno a 205oC por 8 minutos ou até dourarem.

Foi um mês que correu muito fácil em matéria de culinária. O salmão feito num pedaço inteiro por 12 minutos no forno ficou no ponto perfeito, e as lentilhas que acompanhavam... bom, ficaram lentilhas. Os butter breakups ficaram maravilhosos, e depois vou fazê-los de novo para poder fotografar e colocá-los aqui no blog direitinho. As madeleines são madeleines comuns, mas com deliciosas especiarias e um gostinho de mel. Mas decidi que não faço madeleines com tanta frequência a ponto de querer manter aquela imensa forma de 36 madeleines. Então quem quiser comprá-la, está à venda.

O mês terminou e o resultado foi uma economia gigantesca no mercado, onde comprei apenas os itens da lista acima e mais leite, ovos, farinha e manteiga. Comemos muito bem, não gastamos muito, e agora posso mandar o livro de consciência limpa.

Mas Ana, por que diabos você vai vender o livro se você gostou dele?????

Porque apesar de tudo ter ficado muito bom, o livro é bem grande para o espaço que tenho para ele no momento, e ocorre que fora algumas ideias de sabores diferentes, a base das receitas é clássica e, de novo, já tenho meus livros clássicos de coração. Anoto as receitas que quero fazer de novo e desapego. Quando fizer uma carne braseada da Marcella Hazan, vou marinar a carne e juntar anchovas. O chopped liver eu já decorei na minha cabeça. Há ainda muitas outras receitas no livro que me interessaram, mas também há nos livros que escolhi manter, e agora estou numa fase em que realmente, de verdade, quero zerar, gabaritar, arrasar com os poucos livros que escolhi para serem meus livros clássicos da vida toda. O que não quer dizer que não pretenda continuar cozinhando de outras fontes e passando essas dicas a vocês também. Vocês, essas três pessoas queridas que ainda lêem o blog, depois que o youtube bombou e todo mundo parou de ler. ;) hahah

Se ainda resta alguém querendo pegar um livro usado mas muito bom, fica aqui a lista dos livros e tranqueiras que não tenho usado mesmo. Desapego monstro. Rumo à etapa final. ;)
As tranqueiras de cozinha Le Creuset estão todas fantasticamente excelentes, nem parece que usei tanto. Embalo tudo maravilhosamente bem para que nada quebre e faço reza brava. Hahaha.
Se alguém se interessar por alguma coisa, mande-me um email para lacucinetta@gmail.com com seu endereço completo para cálculo de frete, ok?

Como sempre, agradeço imensamente a todos que por todos esses anos acompanharam o meu acúmulo de livros e utensílios, e que agora estão ajudando na libertação dos mesmos. :D
Antes que alguém ache ruim, só posto isso aqui porque sei que aqui tem muita gente que gosta de cozinha, de livros, de formas, e que "me conhece" o bastante para saber que não estou sacaneando ninguém. O que não sair por aqui vai acabar sim no Mercado Livre e afins, mas acho sempre meio chateação vender e comprar de gente que a gente não conhece... :(

Novamente, obrigada! :D

Vou ali ficar toda "Hygge" com os livrinhos que sobraram, lendo um José de Alencar emprestado da mamãe e tomando um chazinho de erva-doce. ;)

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THE MULTI-CULTURAL CUISINE OF TRINIDAD & TOBAGO & THE CARIBBEAN (novo)
MICHAEL POLLAN - Cooked 
THE ABC OF COOKERY (Livro produzido pelo governo britânico para educar as pessoas a cozinhar durante a primeira guerra)

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