quinta-feira, 19 de maio de 2016

A rainha dos bolinhos

Esses, de arroz vermelho e cenouras assadas com ervilha. 
Quando o tablete de manteiga bate os sete reais e o quilo das nozes vai para os cento e setenta, chega a hora de repensar sua despensa. Decreto a fase natureba-Bela-Gil-farinha-de-espelta-tâmaras-Medjool-lentilha-vermelha-importada morta e enterrada.

Não dá mais.

Dinheiro não nasce em árvore e a cada semana eu tomo mais um susto no supermercado.

Foi preciso, com dor no coração, repensar as prioridades e voltar ao bom e velho arroz e feijão convencional, comprado em grandes sacas a preços mais em conta, para poder continuar alimentando meus pimpolhos com verduras e ovos orgânicos e carnes de qualidade.

Se já tinha simplificado meu guarda-roupa, meu escritório e minha biblioteca – não digo "a vida" porque esse é um processo looooooooooooongo se não eterno – agora é hora de simplificar a despensa. Como quase todos os meus livros têm a mesma influência mediterrânea, realmente não faz mais sentido ter à mão aquela miríade de farinhas especiais e grãos exóticos.

Confesso, também, que comi tanta quinoa no ano passado que enjoei.

Olhei com ansiedade para as prateleiras, fantasiando com a possibilidade de ter menos ingredientes ali. Arroz agulhinha, arroz arbóreo, algum feijão ou lentilha (um só, pra que mais, se sempre tenho variedades das outras levas congeladas?), spaghetti, fusilli (que há já muito tempo me dei conta de que são os dois formatos mais versáteis para se ter, porque tagliatelli faz-se em casa), e quem sabe uma polenta. As farinhas, de trigo branca e integral, centeio e sarraceno que eu amo e essas sim uso muito. Açúcares, cacau, amido. E parece que com isso faço tudo.

O restante, ali, ocupando espaço e me irritando toda vez que me lembro das datas de vencimento e do iminente aparecimento dos carunchos, precisava ser utilizado. E já brincou meu marido: Ana Elisa adora uma missão. Eu sou aquela pessoa que está tranquila procurando o lugar para pagar o estacionamento, e então, ao encontrar o guichê, sai em desabalada carreira como se o chão estivesse pegando fogo. Estou em uma missão, dá licença, faz favor.

E a missão é: usar todos os ingredientes exóticos da despensa o quanto antes para não deixar estragar e não cair na tentação de estocar mais daquilo outra vez.

Mas tem sido difícil, admito, pois sinto que meu paladar se revoltou contra mim e anda rejeitando pães de teff e panquecas de amaranto. Quero spezzatino, e pasta e fagioli, e filé de peixe com escarola e azeitonas. Quero um bom bolo de iogurte que meus filhos possam fazer comigo, quero biscoitos de chocolate que eles rolem em bolinhas nas mãos antes de colocar na assadeira e um bom pão com manteiga para acompanhar meu café.

Todos esses anos foram um delicioso aprendizado, mas agora anseio por aquela minha despensa do primeiro ano do blog. Precisei passar todo esse tempo complicando para valorizar aquela simplicidade. Achava besta, naquela época, cozinhar vagens e temperá-las com azeite e parmesão. Que chatice. Hoje as crianças e eu devoramos um prato de vagens com azeite e parmesão e vejo quanto tempo demorei para aprender a escolher as vagens certas, jovens e macias, e a cozinhá-las pelo tempo certo, sem que ficassem duras demais ou moles demais, e, enfim, aprendi a temperar corretamente, sem economizar no azeite e sem exagerar no parmesão.

Claro, o fato de as crianças hoje comerem as vagens assim inteiras, sem que eu precise camuflá-las em pedaços menores dentro de uma frittata, ajuda e muito.

Vejo quantos livros precisei ler e quantas receitas diferentes precisei cozinhar até olhar para minha geladeira aparentemente desconexa e enxergar ali um prato completo, sem mais precisar apanhar livro nenhum. Como transformar uma travessa de arroz e uma panela de feijão em quinze diferentes opções para o jantar. Num dia, arroz e feijão comum, no dia seguinte, stir-fried rice com legumes, depois, pasta e fagioli. E quando sobra uma colherada de arroz, nem uma conchinha de feijão e meia dúzia de talos de brócolis, transforma-se tudo em bolinho.

Eu virei a rainha dos bolinhos. Principalmente agora, com as quantidades pouco precisas dos ingredientes exóticos na despensa. Não tem painço o bastante para fazer uma travessa para quatro pessoas, mas se eu misturar a outros três ingredientes sem par, há bolinhos o bastante para alimentar quatro bocas, acompanhados de uma salada. (Mas se você tiver painço o bastante e mais um punhado de ingredientes exóticos, recomendo muito ISSO AQUI, que não parece grande coisa mas é delicioso e perfeito para esse friozinho.)

Lembro-me de rir comigo mesma da quantidade de bolinhos e panquequinhas que Bill Granger tinha em seus livros. Hoje entendo e aprecio sua versatilidade. Mas já não preciso mais dos livros para prepará-los. Principalmente porque a graça dos bolinhos não é cozinhar coisas do zero, já que você ainda terá de fritá-los ou assá-los, mas justamente usar algo que já está ali abandonado na geladeira, e a produção dos mesmos alimenta e evita o desperdício. Além das crianças comerem bem alguma coisa que eles possam não ter gostado na refeição anterior. ;)

Amo bolinhos. ^_^

E amo o modo como você finalmente os entende. Você bate tudo no processador. Nunca até virar uma pasta. Sempre deixando alguma textura interessante. Se faltou liga, pode colocar ovo, linhaça, chia, ou qualquer raiz ou tubérculo cozido, seja batata, batata-doce, mandioca, mandioquinha, inhame, cará, o que for. Se está muito mole, farinha, farinha de rosca, pão amanhecido, mais grãos, mesmo que misturados a outros (já fiz bolinho de arroz e feijão, que fica uma delícia)... Faltou sabor, é só bater junto mais ervas, mais alho e cebola, um pouco de queijo, curry, pimenta... Dá para mudar completamente o perfil de sabor de um prato ao transformá-lo num bolinho.

Um tempo na geladeira é sempre bom para a massa firmar mais e o sabor se acentuar. Dá pra fazer a massa numa hora, tempos depois porcionar e empanar, e só no fim do dia ou no dia seguinte de fato cozinhá-los. Já falei que amo bolinhos? ;)

Se a massa ficou bem úmida e molinha, frita-se às colheradas num fio de azeite, e nesse caso costumo acrescentar um pouquinho de fermento para que fiquem mais fofinhos. Se ficou firme o bastante para fazer bolinhas, pode-se empanar em farinha de rosca, fubá, ou farinha de mandioca, e fritar em imersão ou mesmo assar. Ou apenas fazer as bolinhas e assá-las como são. Pode-se fazer em formato de quibe, em formato de croquette, e assim ir variando a apresentação para a pimpolhada.

O importante de verdade, seja fritando num fio de azeite, num fundo de óleo ou em imersão mesmo, é que o óleo esteja na temperatura certa (o truque de colocar o fósforo no óleo e esperar ele acender sozinho funciona sempre). Se o óleo estiver frio, os bolinhos podem se desmanchar e você vai estragar a comida que não queria jogar no lixo e o óleo, tudo ao mesmo tempo. :P

Aqui em casa parece que nunca consigo repetir um bolinho, e pelo menos uma vez por semana, as crianças almoçam bolinhos e salada. Num dia sirvo com vinagrete de tomate, no outro, salsa verde ou pesto; no ápice da preguiça, simplesmente ketchup e maionese, mas meu favorito de todos é o molhinho de tahini e iogurte. Só misturar iogurte com uma colherinha de tahini, azeite, limão, sal e pimenta-do-reino. Fica especialmente bom com bolinhos que são empanados e fritos, como os da foto.

Esses, foram feitos com o que sobrara do almoço do dia anterior: arroz vermelho cozido, e cenouras assadas com ervilhas e hortelã. Bastou misturar um ovo para dar liga, acertar o tempero e pronto. Empanei na farinha de rosca e foram fritos em uns 2cm de óleo.

Maravilha das maravilhas, esse salvadores de tempo, comida e dinheiro que são os bolinhos. Mas e se os sobram justamente os bolinhos???? Aí eu faço o que sempre gostei de fazer desde criancinha, quando minha mãe fazia bolinhos de arroz e espinafre... Surrupio e como sozinha os bolinhos direto da geladeira num momento de paz para curtir o espólio delicioso de tanta economia doméstica. ^_^


....

Hoje não tem receita, mas tão somente esse post "sugestão" do que fazer com aqueles seus três potes de comida desconexa que estão prestes a ir pro lixo. ;)

18 comentários:

Anônimo disse...

Que texto delicioso!!! Como tantos do seu blog...
Também adoro fazer bolinhos com as sobras da geladeira. Minha filha ama.
Achei que eu era a única doida que gosta de comer bolinhos gelados, sozinha, com calma..

Beijos,

Rubiane

Eloisa Vidal Rosas disse...

Que maravilha! Acho que é um processo, eu agora me divirto olhando a geladeira, a despensa e desistindo de sair correndo para comprar ingredientes para "aquele" prato: o caminho é inverso, qual o prato para os ingredientes que já estão! E é libertador... um passo para a slow life! <3

Mi disse...

Ana, quase sempre seus posts me fazem muito bem, como este. Desde um bom conjunto de anos. Obrigada!

claudia takano disse...

Alinhadas...
Também prezo pelo trabalho que dá ganhar dinheiro e evito tanto os preços absurdos como o desperdício.
Em casa, somos adeptas não só dos bolinho - que preferimos assados, como da 'comida de cumbuca', que é meio que juntar coisas desconexas também, mas que se complementam e ficam uma delícia...tudo junto, com um temperinho novo.
Isso porque não gostamos do desperdício e menos ainda de ficar reaquecendo o mesmo sabor, de modo que reciclamos...rs
Textos sempre excelentes, com dicas inspiradoras.
Abraços,
Cláudia

Anônimo disse...

Compartilho com você o amor pelos bolinhos.Neta de avó veneta e inimiga de qualquer desperdício, passei a infância comendo bolinhos memoráveis.

Alessandra Vasco Ribeiro disse...

Adorei. Vou usar mais esta tática dos bolinhos. Estes seus aí parecem deliciosos. Bom dia.

Anônimo disse...

que maravilhoso texto. estás no caminho de escrever um grandioso livro. não daqueles que vêm com receitas prontas e medidas padrão. mas um exatamente como este texto. amei, amei, amei
abraços
tatiana

Priscilla Guarini disse...

Nossa! Como amo ler seu blog!!! Não são só receitas, mas uma parte de como é a sua vida que você compartilha com a gente... e isso o torna único e "aconchegante"! Sensacional!!

Elaine disse...

É sempre um deleite para a alma ler os seus post. São como pequenos contos daqueles que se leem devagar e imaginando cada segundo como uma poesia. Sou fã e espero verdadeiramente um livro seu com contos,receitas e lindas ilustrações.

Letícia disse...

Ana você não existe mesmo! Que texto e que reflexão! Simplicar é tudo o que precisamos. Bolinhos são demais mesmo, mas esta sua visão de reaproveitamento total para mim é totalmente nova e deliciosa. Parabéns! Muito bom ter você para nos inspirar.

Alessandra Vasco Ribeiro disse...

Hummmm

Priscila Moreira disse...

Ana, estou nessa também! E uma das coisas que faço que me fazem sentir "super-reaproveitadora" é guardar talos, folhas, "pontas"! e casacas no congelador para fazer caldo, que acabo usando em risotos!
E isso aprendi contigo já há alguns anos!
Obrigada por tanta dica!!!

Priscila Moreira disse...

Ah... acrescentando... a casca da cebola, dá um sabor todo especial ao caldo!! ;)

M Luiza disse...

Olá Ana. Engraçado, estou passando por algo semelhante. Por questão de mudança tive que dar uma limpeza na casa. Fiquei abismada, quantos ingredientes diferentes tinha e não usava. Muitos deles caros que custei a achar e acabaram não sendo usados. Estou convencida, agora, que o melhor caminho na cozinha é o da simplicidade e de alimentos frescos, novos e mais em conta. Vamos ver se aprendo! Abracos.

Unknown disse...

Só pra dizer que eu amei este post! <3

karla dani disse...

Ana, seus posts me fazem muito bem! adorei, especialmente, o anterior, do churrasco com as crianças. Esperando as minhas acordarem do cochilo para dar um pulo no parquinho. BJs com gosto de bruschetta de abóbora

Marcela Reis. disse...

Ana, qual a marca da carne que você compra? Com um mínimo de qualidade? Sou onívora mas tenho ciência do processo que envolve a indústria da carne, e se você tiver alguma indicação de marca que faça as coisas de maneira menos nociva, eu agradeceria imensamente, pois ainda não posso caçar meu próprio alimento e estocá-lo! (brinks)

Anônimo disse...

Ana, sempre leio seu site e adoro todas suas receitas e histórias, e hoje pensei em você quando fiz meu almoço. Tudo aquilo que temos na geladeira pode virar bolinhos ou então... um burrito!! Hoje não quis cozinhar e precisava achar um jeito de usar o que tinha de sobra das outras refeições. Foi quando vi uma tortilha da noite anterior dentro de um saquinho na bancada da cozinha. Fiz meu burrito com peito de frango, abóbora assada com ervas, lentilha com gengibre, salada verde, tomates, tabasco e maionese. Ficou uma delícia e no momento pensei que até você ficaria orgulhosa do meu burrito :o)

Cozinhe isso também!

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