quinta-feira, 28 de abril de 2016

De uma abóbora, de um churrasco

Uma bruschetta de abóbora feita na grelha. 
Naquele fim de semana de feriado havíamos combinado de relaxar. Marido acenderia mais uma vez a churrasqueira para usarmos o que sobrara de um evento anterior, tomaríamos uma cerveja das nossas, uma Chocolate Stout que dera muito certo, e deixaríamos as crianças brincarem na piscininha de plástico montada no quintal, para aproveitar o que prometiam ser os últimos dias de calor antes de o Outono já bem atrasado emplacar.

Mas o marido, infelizmente, precisou ir a um enterro de um familiar de amigos nossos.

Ele saiu cedo, enquanto eu passeava o cachorro. Laura acelerava no patinete azul pelas ruas, e Thomas parava nos terrenos baldios, colecionando galhos da minha altura como um pequeno caçador buscando fazer uma fogueira para assar um alce inteiro. Seus dedos se esverdeavam com o líquen que esfarelava dos galhos enquanto ele os movimentava, dando vida a cada um deles, seus dragões de combate, com asas imensas, caudas compridas e habilidades as mais variadas.

Voltamos para a casa vazia, sentindo o sol das nove horas já quente sobre os ombros, e tão logo Laura presenteou Gnocchi com um biscoito, Thomas girou sobre os calcanhares e pediu: Vamos ao parquinho!

Fomos. Novamente apanhei meu livro e caminhamos ladeira acima até o parquinho ensolarado, onde outra vez pude chafurdar meus pés na areia sob os balanços e observar a brincadeira silenciosa dos dois enquanto lia sobre aventuras parisienses. Às vezes desviava os olhos das páginas para ver Laura empoleirada no topo de um brinquedo de madeira, testando seus limites. Em outros momentos, largava o livro aberto para empurrá-la no balanço, mais alto, mais alto até ela acreditar que poderia tocar os dedinhos dos pés nos galhos das árvores. Enquanto isso, Thomas continuava mergulhado no mundo dos dragões feitos de galhos que invadem castelos de areia defendidos por pedras que ele colecionara no caminho. Ele erguia a cabeça de seu universo de vez em quando para chamar minha atenção e me fazer assistir a uma batalha épica entre inimigos mortais.

Passou-se uma hora. Ou duas. Ninguém sabe. Eu não tivera notícias do marido, mas acreditava que ele voltaria para o almoço e achei que poderia já deixar tudo preparado.

Voltamos para casa, areia nos pés, nos cabelos, pele quente, como quem volta da praia. Sunguinha e biquini e crianças na piscininha.

Olhei para a churrasqueira. Ela olhou de volta com ares desafiadores. Desde que lera Cooked, do Michael Pollan, em que ele apontava o fato de que churrasco parecia ser universalmente um campo da cozinha relegado aos homens, eu andava com vontade de aprender a pilotar a churrasqueira. Sabe como é. Controladora como sou, não gosto de depender de ninguém, e é da minha natureza gostar de aprender coisas novas.

Allex já me ensinara os macetes uma vez, mas fora aquele meu churrasco supervisionado, eu nunca mais me aventurara realmente sozinha.

Montei uma mesa com algumas castanhas e pepinos fatiados para as crianças, rasguei o saco do carvão e saltei para o precipício.

A churrasqueira foi resistente. Ela parecia não apreciar a configuração de carvão que eu criara e demorou bem uns vinte minutos e umas quatro tentativas para então render-se a minhas mãos femininas e permitir que aquele fogo crepitasse como se deve. Não contive uma pequena dancinha de satsisfação.

Minha dancinha é interrompida por um recado do marido, dizendo que vai ficar por lá dando apoio aos amigos, o que considero apropriado.

Bom...

O fogo está aceso. As crianças estão contentes.

Churrasco de menina, então. ;)

Entrei para apanhar uma cerveja e uma abobrinha em fatias finas e ri de meu reflexo na janela, aquela mulher meio descabelada, de avental florido e pó de carvão tão uniformemente espalhado por meus braços e rosto que eu parecia ter saído de uma mina.

Coloquei as abobrinhas na grelha para testar o fogo. Pois sempre que Allex acende o fogo, é isso que faço: uso as labaredas mais altas para grelhar as abobrinhas, e quando elas estão prontas, o calor está bom para entrarem os primeiros espetos de queijo-coalho.

Alegro-me em ver as fatias verdes ganhando marcas negras no tempo certo, e da grelha elas vão direto para uma tigela com azeite, alho picado, sal, pimenta-do-reino e ervas frescas, para marinarem e absorverem os temperos. Não pretendo servi-las naquele momento. Ao invés disso, elas viram uma conservinha rápida e saborosa que vai direto pra geladeira para compor uma refeição no meio da semana.

Levanto os olhos para ver as crianças correndo em volta da casa com espadas e escudos nas mãos, e levanto a grelha para rearranjar o carvão, criando uma rampa, para ter duas temperaturas distintas. Na parte mais quente, coloco alguns espetinhos de queijo. Na parte mais morna, coloco fatias de abóbora, de mais ou menos 2cm de espessura, para cozinharem lentamente até ficarem negras por fora e desmanchando por dentro.

De repente percebo que as crianças se cansaram do maiô molhado e vejo dois bumbuns branquinhos em contraste com o verde das plantas, enquanto eles quebram galhos do meu pé de manjericão morto para fazerem armadilhas para os dragões de pelúcia. Eventualmente vejo suas mãos de soslaio, roubando as castanhas e os cubinhos de queijo quente e dourado da tábua. Então somem novamente para suas brincadeiras, encenando Chapeuzinho Vermelho, Laura deitada na rede usando meu chapéu de sol e sendo a vovó que vira o lobo, Thomas alternando entre a voz aguda da Chapeuzinho assustada e o tom grave do caçador, de espingarda de plástico e escudo do Capitão América.

Coloco fatias de pão de fermentação natural para esquentarem sobre o fogo, enquanto fatio um tomate. O pães tostam mais do que devem, num momento distraído em que tive de ajudar a pimpolha no banheiro, e então tenho que raspar a parte queimada com a faca antes de esfregar-lhe um dente de alho cortado e cobri-lo com tomate, sal e azeite.

Mesmo queimadinhas, as bruschette desaparecem dos pratos tão logo as coloco na mesa.

E agora é a hora da verdade.

Volto à cozinha para apanhar a linguiça.

Coloco a mão espalmada bem perto da grelha para sentir sua temperatura como faço com a frigideira no fogo. Espeto as linguiças de forma inegavelmente desajeitada, fazendo com que uma delas se rompa. Torço pelo melhor e coloco o espeto na grelha quente.

Sento um pouco no banco ao lado da mesa para roubar o último pedaço de queijo e bebericar minha cerveja. Gnocchi está deitado ao lado dos tijolos quentes da churrasqueira, preguiçosamente esparramado. As crianças tentam acertar as teias das aranhas com folhas, na tentativa de fazê-las grudar. Branquelinhas, de cabelos dourados herdados da parte alemã da família, elas são quase iridescentes sob o sol forte. Observo seus movimentos com calma, o vento fresco balançando as plantas devagar, e fico ouvindo o canto variado do sabiá do campo no telhado do vizinho e o estalar da gordura pingando sobre a brasa quente.

Volto às linguiças, preocupada com o fato de que elas parecem ter ficado prontas mais rápido do que o que levam quando preparadas por outra pessoa. Mas quando abro uma para testar, vejo que estão bem douradas por fora e cozidas por dentro, mas ainda suculentas, não ressecadas. Presenteio o cão com uma pontinha delas e chamo as crianças para comer.

Quando os pimpolhos, enfim vestidos e cansados, se recolhem voluntariamente para um cochilo, Thomas na rede, Laura no sofá, eu volto à churrasqueira com uma última fatia de pão, um pedaço de parmesão e uma latinha de azeite de oliva francês aromatizado com pimenta, presente de minha irmã.

Esquento o pão desta vez com cuidado, apenas para que doure, e nele esfrego um dente de alho, com cuidado para não queimar as pontas dos dedos. Apanho um ramo de sálvia do jardim e repouso sobre a grelha por meio minutinho, só para que o calor chamusque as pontas das folhas e libere seus óleos essenciais. Então pico as folhas. Apanho algumas fatias de abóbora, um purê de um laranja vivo apenas contido em sua forma por uma película enegrecida, e coloco sobre os crostini, onde elas são esmagadas com um garfo sem nenhuma resistência. Sal. Pimenta-do-reino. A sálvia perfumadíssima picada. Raspas delicadas de parmesão. O azeite picante.

Sento-me com os pés apoiados numa cadeirinha verde limão que Thomas trouxera de seu quarto, abro meu livro e dou uma mordida farta na minha bruschetta de abóbora, sentindo a força da sálvia e do azeite apimentado no nariz, a maciez quente e adocicada da abóbora no céu da boca e o pão crocante quebrando sob os dentes com um som alto que poderia espantar os passarinhos. Sinto um alívio imenso por nenhum vizinho ter ligado música naquela tarde e ouço as nuvens se desmanchando sob o vento.

Quando Allex retorna, as crianças ainda estão dormindo, exaustas. Ele vem sentar comigo no quintal sentindo o calor residual da cinzas na churrasqueira e do sol que começa a perder sua força. Há brinquedos e galhos e folhas, e maiôs coloridos e toalhas por toda a parte, testemunhos de um dia bom. Allex ri da minha empreitada, dando algumas dicas para o fogo acender mais rápido da próxima vez, e brincando que agora que eu faço churrasco ele não tem mais nenhuma função na casa. ;)

Eu lhe conto, empolgada, sobre tudo o que as crianças aprontaram e sobre meus planos de usar minhas novas habilidades para produzir um churrasco alla toscana, com outros cortes de carne, muitos legumes e um molho diferente do nosso vinagrete de sempre.

Na noite do dia seguinte, os espólios de meu churrasco de menina, abóbora assada e um pedaço de linguiça que não fora para o fogo, unem-se a tomates e cebolas e fusilli para um prato de pasta con la zucca, de Tessa Kiros, simples de preparo e complexo de gosto, salgado-adocicado, delicioso, reconfortante, devorado sem pressa. As crianças põem a mesa, servem-se de macarrão e queijo, divertem-se em identificar cada componente no prato e de caçar a "carninha" escondida no molho. "Achei mais uma!", dizem.

Tudo vai bem.

Porque faz tempo que não tem uma foto dos pimpolhos no blog. :)

PASTA CON LA ZUCCA
(Do maravilhoso Twelve, de Tessa Kiros)
Rendimento: 6 porções

Ingredientes:

  • 3colh.(sopa) azeite
  • 1 cebola média, picada
  • 1 linguiça de cerca de 80g, sem a pele e esmigalhada, ou 80g de pancetta não defumada, picada
  • 300g abóbora, descascada em cubinhos de no máximo 2cm
  • 400g tomate pelado transformado em purê (fresco ou em lata)
  • pimenta calabresa seca à gosto
  • 500g massa curta como penne ou fusilli
  • parmesão ralado na hora para servir


Preparo:

  1. Aqueça o azeite em uma panela e refogue a cebola com uma pitada de sal até que amacie. 
  2. Junte a linguiça ou a pancetta em fogo médio e refogue até que tenha dourado ligeiramente.
  3. Acrescente a abóbora, misturando bem, deixando que ela pegue os temperos. 
  4. Então junte o purê de tomate, a pimenta calabresa, uma pitada de sal e pimenta-do-reino e 750ml (3xic) de água. Leve à fervura branda, abaixe o fogo e deixe apurar por 30-40 minutos, juntando mais água de tiver engrossado demais antes do tempo. Uma boa dica é pegar essa água da panela do macarrão que cozinha, para que o amido dessa água ajude a encorpar o molho.
  5. Enquanto isso, cozinhe o macarrão. O molho não deve ficar muito líquido, e boa parte da abóbora deve ter se desmanchado dentro dele. Misture-o ao macarrão cozido e escorrido com mais um fio de azeite, e sirva com parmesão por cima.  


25 comentários:

Talitha Weber Sestrem disse...

Que delícia de texto. Confesso que acompanho seu blog mais pelos textos do que pelas dicas culinárias, rsrs
Sua escrita é excelente, e este texto para mim foi tão confortante quanto uma refeição preparada por uma nonna =)

Carol disse...

Seus textos andam demais...

Luciana disse...

Que texto lindo!

Janaina disse...

Caramba, suas crianças estão enoooormes! Parece que foi outro dia que Thomas ainda estava na barriga!

Oderlane Carvalho disse...

Nossa, seus filhos cresceram muito desde a última vez que vi fotos deles aqui no blog. Lindos! Parabéns pelas crianças e pelo texto tão delicioso quanto o prato!!! bjos

Léo Beck disse...

Mais um texto delicioso. Parabéns. Não vejo a hora do livro ser editado.

jadeviga disse...

Seus filhos são tão lindos e seu texto também =)

valeria disse...

Amo seus textos.quase senti o sol queimando minhas costas.

Izabel disse...

Coincidência esse seu lindo texto bem nesse fim de semana que estou sozinha com um pequeno, também descobrindo coisas novas só nós dois!!
As suas crianças estão lindas, e enormes... tempo, tempo, tempo, tempo....
Beijinhos!

Anônimo disse...

Ana, estou me sentindo tão feliz ao ver que não sou a única mãe a permitir que as crianças fiquem sujas de areia! Sentia-me um extra terrestre toda vez que minha filha brincava na areia e outras mães não permitiam que seus filhos se aproximassem pra brincar junto pois iam "ficar sujos".
Beijos,
Paula.

Dani disse...

Eu quero uma churrasqueira AGORA! Tou aqui curtindo frio e com uma vontade enooorme de um churrasquinho. Adorei o texto.

Priscila Moreira disse...

Obrigada, Ana!
Pelo texto e pelo momento que ele me proporcionou!
Priscila.

Carla Regina disse...

Ana, que delícia de texto. E como estão grandes os pimpolhos!

Caio Cézar disse...

Que texto primoroso, Ana!
Foi como se eu estivesse também no jardim da sua casa, lendo, tomando uma cervejoca, vendo as crianças brincar e me deliciando com esse churrasco maravilhoso.

nathalia disse...

Como estão enooormes, Ana!

Parabéns pelo seu olhar e forma de levar a vida! Felicidades e muita saúde para vocês!

Sou uma grande fã sua!

Bjao!

Fabiane disse...

Ja tinha lido sobre a elizabeth david um bom tempo atras, nina horta falando sobre.. Mas passou e esqueci. No teu post sobre a rapa dos livros lembrei, fui procurar, encontrei, comprei e agora eh so sonho para tão parca realidade. Os ingredientes, a tecnica, quero morar na italia pra reproduzir tal e qual a delicia do livro!

Carlinha disse...

Como estão grandes e lindos! Demais!

Anônimo disse...

Lá fui eu fazer churrasco de abóbora esse dia das mães e, Jesus, que tragédia...
Não ficou nada nada como a sua. Ficou uma coisa dura e sem tempero, incomível.
As abobrinhas, porém, eu acertei. Ufa!

Lara disse...

Oi Ana!
Sou sua leitora há um tempo e admiro sua forma de cozinhar, pintar, escrever e principalmente a forma como cria seus filhos.
Estou grávida do meu 1o filho e estou lendo e amando o livro "Crianças francesas não fazem manha", que você citou em um de seus posts.
Busquei na parte dos seus livros algum tópico sobre "Parenting", mas obviamente não achei. Sei que seu foco é cozinha, mas seria interessante se pudesse compartilhar também os melhores livros que leu sobre criação de filhos.
Se não achar que faz sentido colocar no blog, poderia por favor me sugerir alguns?
Muito obrigada!
Lara

Ana Elisa Granziera disse...

Anônimo, as abóboras ficaram muuuuuuuuito tempo na churrasqueira, e assim como as abobrinhas, foram temperadas ainda quentes e deixadas quietas um pouco. Para o tempero pegar rápido, foi mais fácil amass[a-las com um garfo para a bruschetta. As outras ficaram marinando para serem usadas depois e então pegaram gosto.

Lara,
esse foi o único livro do tipo que li, porque nunca acreditei muito em livro de "parenting" e fórmulas mágicas pra criar filho, e acabei pegando pra ler porque fiquei "antropologicamente curiosa" depois de ler um artigo no jornal. No fim achei bom porque parecia corroborar com aquilo que eu acreditava e que andava tão difícil de aplicar no meio da americanização da criação das crianças brasileiras. Adorei o estilo de escrita da autora (li no original) e no fim, toda vez que sinto que ando me estressando à toa, cato o livro pra folhear de novo. :)

bjs

Aruanda disse...

Amo seus textos como se fossem escritos por Garcia Marquez e amo seus filhos como se fossem meus sobrinhos! ♥

Anônimo disse...

maravilhoso texto, maravilhosa receita no final. fiz e ficou 99 delícias! até marido que não gosta de abóbora repetiu. a única alteração que fiz, foi usar linguiça blumenau (linguiça daqui, de comer no pão e de várias outras formas), pois era a que tinha no momento. estou boba até agora!
abração
tatiana

Heluir Pereira disse...

Eu fiz e ficou muito bom, mas só tinha spaguetti,

Maria Gloria D'Amico disse...

Con la zucca, faz-se pastas e risottos maravilhosos.
Postagem gostosa de ler, um abraço.

Alethea Carlini disse...

Nem li o post ainda, só vim comentar que as crianças estão lindas!!!

Bjs

Ale

Cozinhe isso também!

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