quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Ame comida, odeie desperdício

Ontem comprei uma revista nova, pois passaria horas e horas presa a uma fila, e queria algo que me distraísse. Passei em uma banca com revistas importadas e comprei, com pressa e meio às cegas, a Waitrose Food Illustrated de janeiro desse ano. Waitrose é, na verdade, uma rede de supermercados britânica que, por acaso, também produz essa revista cuja qualidade surpreendeu-me um bocado. Normalmente não leio os artigos das revistas importadas que compro, a não ser que tenham um ângulo muito interessante. Mas presa na fila, entretando, forcei-me a começar. Talvez seja devido ao fato de me identificar muito com o ácido humor britânico e sua lógica, mas eu ADOREI os textos. Devorei a revista toda em menos de meia hora, e fiquei fascinada pelas receitas, claro. Meus favoritos foram o artigo sobre a maldição dos pontos de restaurante que fecham sempre e sobre desperdício de comida. E é sobre isso que quero falar.

O breve texto falava sobre alarmantes números a respeito do desperdício de comida e geração de lixo na Grã-Bretanha, e sobre a campanha Love Food Hate Waste, para conscientizar os britânicos sobre a necessidade de se conhecer sua comida e saber como utilizar todas as suas partes e seus restos. Não apenas a cozinha doméstica era culpada, mas a industrial, por culpa do desejo de conveniência do consumidor e da vontade da indústria de suprir esse desejo. A venda, por exemplo, de carne já segmentada e embalada isenta o cozinheiro ocasional de saber aproveitar partes menos nobres dos animais, já que ele sempre compra o mesmo peitinho de frango desossado e sem pele e o mesmo filé-mignon já bem porcionado e pronto para ir à panela. O mesmo acontece com raízes e vegetais vendidos sem as folhas (como cenouras, rabanetes, beterrabas, brócolis, entre outros, todos com deliciosas e nutritivas folhagens ignoradas) e folhas já limpas, sem suas partes murchinhas ou duras, como couves, repolhos, alfaces, etc. E quando esses alimentos vão inteiros para as casas, os consumidores (e restaurantes) jogam quase metade deles no lixo por não considerá-los bonitos (no caso de folhas murchas ou manchadas) ou por não saber prepará-los.

O artigo levava ao site da campanha, onde há mais números assustadores, mas, principalmente, dicas de como desperdiçar menos comida e até receitas para se aproveitar sobras.

Seria fantástico se houvesse uma campanha dessas aqui no Brasil. Aqui perto de casa há duas feiras, uma de domingo e uma de quinta. É horripilante ver a montanha de 1,5m de altura de comida perfeita que fica ao lado de algumas barracas, que tentam deixar seus produtos mais bonitinhos para o consumidor acostumado ao estéril ambiente de supermercado. Sei que há uma campanha que leva restos de feiras de São Paulo para instituições de caridade. Mas, ainda assim, como estamos educando nosso povo???

8 comentários:

Anônimo disse...

Ana,

De fato. Onde estão as folhas de abobrinha ?
Outrora vulgares, agora são raríssimas iguarias. Minha bisavó, italiana fiel às tradições, costumava ganhá-las do feirante, que não sabia o que fazer com elas.
Aqui em São Paulo, nunca me deparei com qualquer lugar que as vendesse.

E acho que a quiche de talo de espinafre é uma boa contribuição tua à causa.

Danilo.

Anônimo disse...

Concordo com você!
É preciso que ocorra - urgente - uma mudança de visão sobre os alimentos. Não entendo porque as pessoas não comem por exemplo as folhas de beterrabas ou as cascas do chuchu (este quando jovem e cozido não altera o sabor e nem a textura).
Conheço pessoas que tem nojo destas partes que são descartadas e não entendo o porque, afinal, não fazem parte da planta?
Já li algum tempo que o SESI, se não me engano, dá cursos gratuítos que ensinam receitas utilizando essas partes "esquecidas" dos alimentos.

beijos

Henri

Lílian disse...

Oi Ana,
Programei para escrever em breve sobre como os legumes e verduras são apresentados para o consumidor nos supermercados, pois fui ao Pão de Açúcar na terça e fiquei horrorizada. Vamos fazer uma campanha? Podemos pelo menos envolver os blogs de comida que trocamos idéias de vez em quando.
Abraços

Danielle disse...

Oi Ana!

Concordo plenamente com você e com todos os outros... realmente desperdiçamos muita comida... Mas, por outro lado, é dificil também encontrarmos receitas que aproveitem essas partes menos "nobres" dos alimentos... Acho que seria muito interessante criar uma campanha que não só "educasse" as pessoas, bem como as ensinasse receitas e outras formas de utilização desses alimentos... :)

Beijos

Dani (a publicitária que vira e mexe "fuça" no seu blog! :) )

P.S.: encontrei o chocolate da Callebaut na Barra Doce por um preço melhor que no Santa Luzia - quase R$ 10,00 a menos por barra. :) Obrigadíssima pela dica, viu?

Ana Elisa disse...

É, gente, o negócio é começar pela própria cozinha... mas que podemos começar uma campanha, isso podemos.

Danielle,
A verdade é que tem muita coisa verde que vai para o lixo que basta dar uma refogadinha com alho e fica uma delícia. Quanta gente já não vi jogando fora aquelas lindas folhas com cara de couve que envolvem a couve-flor e o brócolis! E fica uma delícia refogada! Alface murcha tem o mesmo fim: refoga e vira recheio de pão e torta, porque depois de cozida ninguém vê que estava manchadinha. Tomate vira molho, fruta vira doce, casca de fruta vira chá, talo de salsinha e manjericão vai junto para a panela, muito bem picadinho, talo de espinafre e de rúcula vira purê, e por aí vai. O site da prefeitura de São Paulo tem algumas receitas com coisas estranhas como casca de banana, por exemplo! E ninguém sabe, olha só!

Beijos!

Letrícia disse...

Oi, Ana,

Acabei de entregar um freela que é justamente sobre o assunto do seu post. O SESI tem, mesmo, um programa que oferece cursos gratuitos e que busca educar as pessoas para o aproveitamento integral dos alimentos - é o Cozinha Brasil. Lá, eles também batem muito na tecla de como escolher, manusear, limpar, congelar e descongelar os alimentos (muita comida se estraga nesses processos).

Os números do desperdício no Brasil são assustadores. Nas grandes capitais, uma pessoa come cerca de 35 kg de verduras ao ano. E desperdiça 37! A gente joga fora mais do que come!

O site deles não reflete todo o conteúdo informativo que eles apresentam nos cursos, mas pelo menos há algumas receitas: http://www.sesi.org.br/cozinhabrasil/default.asp

Beijos!

Michel disse...

Fui voluntário de uma ong que é bem isso aí. anote: www.pratocheio.org.br

Fulana disse...

ana, leio muito seu blog e ele me inspira a ousar nas misturas que aplico na minha comidinha.
sei que deveria ser mais bacaninha e me dar ao trabalho de enviar já o link, mas só queria comentar que existe um projeto nacional executado pelo SESC chamado Mesa Brasil (que provavelmente é o que tu chamaste de redistribuir a comida nas instituições de caridade); é um programa de combate à fome e o desperdicio, que redistribui alimentos e também conhecimentos para cooperativas, creches, e por ai vai. Sou assistente social e sempre achei esse programa o máximo, pena que não é do governo :)
beijos

Cozinhe isso também!

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