terça-feira, 7 de julho de 2015

Quesadillas de espinafre solitárias porque educar criança não é só ensinar a comer escarola



Uma das coisas que eu mais ouço de quem está aprendendo a cozinhar é sobre o desânimo de se cozinhar apenas para si. Durante anos tentei convencer essas pessoas sobre as vantagens de fazê-lo, mas ao mesmo tempo pensava como era de fato bom cozinhar para os outros. Por muito tempo fantasiei com o dia em que tivesse filhos e pudesse preparar coisas gostosas para eles, e imaginei como seria bom ter companhia para o almoço.

Até que...

Tive filhos.

É gostoso preparar um bolo para eles, ou ouvi-los correndo para a cozinha gritando "Oba! Hora de comer!" Mas não vou mentir para ninguém. Não é um momento fofo e relaxante como em minhas fantasias. É uma boa hora e meia de muito...

"senta direito",
"não coma com as mãos",
"não limpe a boca na camiseta",
"pare de enrolar e coma logo que já esfriou tudo",
"não é pra tirar a salsinha",
"não fale com a boca cheia",
"você gosta sim de couve-flor",
"pare de bater o garfo na mesa",
"isso é uma batata, não um dinossauro",
"tira o pé da mesa." (Esse é especial pra Madame Bochechas, que cisma de tirar o sapato e começa a querer me mostrar a sola do pé, que ela machucou mês passado ao pisar descalça numa pinha.)

Quando você percebe, engoliu seu prato sem nem sentir o gosto, para poder cortar as vagens, enrolar o spaghetti, enxugar o copo d'água derramado por um cotovelo desastrado, mandar todo mundo usar a droga do guardanapo e mandar sua filha de castigo por ter se recusado a tirar pé sujo de cima da porcaria da mesa. E enquanto todo mundo come / derruba a sobremesa, você lava a louça, de costas para as crianças, suspirando fundo e pensando que enquanto não vir a bagunça acontecendo atrás de você, é como se ela não existisse.

Acontece. Nem tudo são flores com crianças de 2 e 4 anos. Principalmente quando a de 2 anos está justamente naquela fase enlouquecedora de dizer não pra tudo e o mais velho, que até então era uma coisa fofa e comportada, resolve achar que também tem certas liberdades, e começa a me dar uma prévia do que será ter um adolescente respondão em casa.

Pronto. Para quem achava que o fato de seus filhos comerem escarola fosse garantia de paz, sossego, amor e felicidade o dia todo, acabei de estourar a bolha da doce ilusão. Há almoços sossegados em que eles querem experimentar tudo, em que damos risada e acho que tenho os filhos mais fofos do mundo, e há jantares arranca-rabo, quando as crianças estão cansadas (e a mãe também) e ninguém colabora. Como em toda a família. Mas como você nunca, NUNCA, sabe quando vai acontecer um ou outro, a tensão na base da nuca toda vez que você termina de cozinhar a refeição e chama a pimpolhada pra comer é inegável. Há sempre aquela esperança tímida de ter um almoço-propaganda-de-margarina, mas algo no fundo do seu estômago sempre traz você de volta à realidade com a quase certeza de que sim, você vai passar quase toda a próxima hora tentando ensinar bons modos à mesa para crianças que parecem sempre esperar que um dia eu sirva bolo de chocolate de jantar enquanto eles pulam nas cadeiras e fingem que os pratos são naves espaciais.

Então, há aquele dia em que eu tenho tanto trabalho para entregar, que deixo as crianças na minha mãe, para poder sentar na prancheta por doze horas ininterruptas e não perder meu prazo. E nesses momentos, algo estranho acontece: redescubro o prazer de cozinhar apenas para mim. Mesmo que seja às pressas, para comer ao lado do teclado do computador.

Poder escolher o que você quer comer sem a tensão da expectativa é libertador. Depois de quatro anos apenas cozinhando para o apetite dos outros, de vez em quando é bom poder olhar para as beterrabas na geladeira e decidir que VOCÊ QUER jantar salada de beterrabas com agrião e vinaigrette de laranja, sem precisar pensar se as crianças vão morrer de fome caso decidam que não estão afim de beterraba e que o agrião está muito fibroso, muito picante ou simplesmente muito verde aquele dia.

Quando terminei meu trabalho, naquela noite, eram quase oito. Olhei para a geladeira e decidi que queria uma quesadilla de espinafre. Pensei em comprar pão pita para acelerar as coisas, mas a preguiça de ir ao mercado foi maior do que a de fazer minhas próprias tortillas.

Misturei a farinha à àgua, óleo e sal, sovei, cobri e deixei que descansasse por meia hora. Cozinhar sem horário era bom também. Cozinhar quando EU tenho fome.

Enquanto a massa descansava, refoguei o espinafre em alho e cebola. Desliguei o fogo e fui passear o cachorro. A noite estava silenciosa, como fora todo o meu dia. Sempre gostei de silêncio. Saí de São Paulo para ter silêncio. Hoje aprecio o silêncio de quando as crianças estão na escola. À tarde, silêncio quer dizer duas coisas: ou estão cochilando, ou estão aprontando alguma coisa. Respiro fundo, o ruído aveludado do ar passando por minhas narinas é alto e reconfortante. Está escuro lá fora, e só há meu cachorro e eu na rua. Solto-o da coleira um pouco para que corra no terreno baldio ao lado de casa, pisando na grama fofa e espantando os quero-queros, que saem em assustada revoada, quebrando o silêncio com seus cacá-cacá.

Volto, aqueço a grelha até que cheire a ferro queimado, e começo a abrir uma por uma as tortillas, tão finas que podia ver meus dedos através delas, e as deito na grelha esturricante, vendo-as inflarem em bolhas e criarem círculos carbonizados aqui e e ali. Guardo-as num guardanapo de linho.


Monto minha quesadilla com um pouco de queijo e espinafre e tosto na frigideira quente, derretendo o queijo. Quando coloco a quesadilla na tábua, sorrio ao cortá-la em cunhas com minha grande faca de chef, satisfeita com o som da massa crocante se partindo, com a sensação dela afundando sob o queijo derretido. Fatio um pouco de abacate para acompanhar, uma colherada de iogurte bem gordo e firme, e muito tabasco.

O jantar era exatamente o que eu queria. Sento-me à mesa e aprecio cada mordida, montando meu garfo com calma com um pedaço de cada elemento do prato. Decido que preciso fazer quesadillas para as crianças, mas me pergunto se elas vão topar o espinafre. Meneio a cabeça, dispersando os pensamentos, e volto a me ater ao prato de comida fumegante à minha frente.

O prazer de se cozinhar para si. Há de se aprender a tê-lo.

Tentei encontrar receitas de tortilla de farinha de trigo aqui no blog, mas não encontrei. Se estou repetindo receita, peço desculpas. Mas vale a repetição, de qualquer forma. Tortillas assim são mais fáceis de fazer do que se comprar, e se conservam maravilhosamente por alguns dias embaladas em guardanapos ou panos de prato. Elas ficarão rígidas, mas voltarão a amaciar e ficar maleáveis tão logo toquem uma frigideira quente.

Como eu disse, essas quesadillas valem repetição, e enquanto havia tortillas na cozinha, eu continuei preparando e comendo. Aaaah, repetição. Como mandar seus filhos tirarem os cotovelos da mesa. Alguém uma vez me disse que eu iria repetir isso até os dezoito anos deles ou até o comportamento entrar no automático. O que vier primeiro.

QUESADILLAS DE ESPINAFRE
(Tortillas do livro Vegetarian Cooking for Everyone, de Deborah Madison)
Rendimenro: 4 quesadillas

Ingredientes:
(Tortillas)

  • 2 xic. de farinha de trigo branca ou integral (se integral, a mais fininha que encontrar) - e mais para polvilhar a bancada
  • 1 1/2 colh (chá) fermento químico em pó
  • 1 colh. (chá) sal
  • 2 colh. (chá) óleo vegetal (ou azeite)
  • 3/4 xic. de água

(Recheio)

  • azeite
  • folhas de um maço de espinafre, picadas grosseiramente
  • 2 dentes de alho, fatiados
  • 1 cebola pequena, picada
  • sal e pimenta-do-reino

queijo amarelo que derreta fácil (Prato, Gruyère, Cheddar, o que preferir)
(acompanhamentos)

  • abacate maduro em fatias
  • iogurte ou sour cream
  • tabasco


Preparo:

  1. Misture a farinha, o sal e o fermento numa tigela e junte o óleo, esfregando com os dedos até perceber que a farinha mudou de textura e criou gruminhos como uma farofa. Será uma farofa mais sutil do que quando se faz massa de torta. 
  2. Junte a água, misture bem com um garfo até formar uma massa, e então sove um pouco dentro da tigela, e depois na bancada, sem acrescentar mais farinha, vigorosamente, até a massa parecer uniforme e macia. Não coloque mais farinha na massa do que o necessário. Depois de sovar por um minuto ou dois, a massa ganhará liga e grudará menos. E é essa umidade que permitirá que você abra a tortilla bem fina. Ela pode continuar grudando um pouco, mas você precisa ser capaz de formar uma bola uniforme. Só acrescente mais farinha se o dia estiver MUITO úmido e você não conseguir manipular a massa de modo nenhum. 
  3. Forme uma bola, cubra com a tigela e deixe descansando por meia hora para relaxar o glúten, ou a massa resistirá quando você tentar abri-la. 
  4. Divida a massa em 8 bolinhas iguais. Na bancada enfarinhada, abra cada uma com o rolo, puxando do centro para as extremidades, ajudando com a mão para manter o outro lado da tortilla parada na bancada. Você quer 8 discos (não tem problema se ficarem irregulares em formato) de cerca de 20cm, tão finos que pareçam que vão rasgar. 
  5. Aqueça uma grelha de ferro ou uma frigideira SEM ÓLEO até quase começar a soltar fumaça, e coloque cuidadosamente uma tortilla sobre ela, estirada. Cozinhe por 40-60 segundos de cada lado, ou até que comece a criar pontos pretos do lado em contato com a panela. Retire e mantenha embrulhada em um guardanapo ou pano de prato.
  6. Em uma panela média, aqueça o azeite em fogo baixo e junte a cebola, o alho picado e uma pitada de sal. Cozinhe devagar, até que a cebola amacie e comece a dourar, e então junte o espinafre e mais uma pitada de sal, misturando bem e trazendo as folhas debaixo para cima, para que todas cozinhem por igual. Quando as folhas estiverem bem murchas mas ainda não muito secas, desligue o fogo e acerte o tempero. 
  7. Numa frigideira seca e bem quente, coloque uma das tortillas. Espalhe um pouco de queijo por cima (se o queijo for fatiado fino, pense cerca de 6 fatias por tortilla; se for ralado grosso, pense um punhado generoso).
  8. Espalhe 1/4 do espinafre sobre o queijo, cubra com outra tortilla e pressione para manter tudo no lugar. Conforme o queijo for derretendo, vá pressionando, para garantir que as tortillas ficarão grudadas.
  9. Depois de cerca de 1 minuto, vire a quesadilla com cuidado e cozinhe por mais 30-40 segundos, até que esteja tudo quente e derretido, mas sem queimar as tortillas. Remova para uma tábua e corte em cunhas com uma faca afiada. 
  10. Sirva quente, acompanhado de abacate, iogurte ou sour cream e muito tabasco. 


14 comentários:

Fulana disse...

Ana, que postagem linda!

Me lembrou as de antigamente, e acho que foi esse exatamente o perfume que você sentiu nesse dia que passou e por isso esse tom quando postou!

Adoro as postagens sobre seus almoços solitários, pois como você (anos atrás), moro sozinha com um cachorro que precisa passear e estou numa jornada entre cozinhar e comer melhor, ao contrário da maioria do meu círculo social. E por isso eu leio repetidas vezes seus posts, não só pelas receitas, mas pela sensação que me passa! Essa entrou imediatamente para o hall das prediletas, junto com a primeira postagem na sua casa atual, a do dia de feijões brancos após o dia todo de trabalho, a do dia em que seus exames acusaram anemia sem comer sua comida, e aquela em que você se arrepende de não ter tomado o caldo de piranha!

Beijos e aproveite seu silêncio!

Thais disse...

Caramba!

Pensei que fosse só comigo...

Solidária a vc!

abraço,

Thais

monicahering disse...

E um dia você se dá conta que tudo isso já passou e ficou um tantinho distante... e dá uma saudade! Até das broncas! Aproveita cada instante, cada bronca e cada refeição juntos! Beijos

Sonia Junqueira disse...

Ana, como sempre é uma delícia ler seus posts. Há tempos queria aprender a fazer tortilhas, assim agradeço pela explicação super detalhada. E concordo com você, silêncio é um presente cada dia mais raro na vida da gente.
Eu acredito que o que ensinamos aos filhos são como sementes que vamos plantando. E por mais difícil que seja o terreno, um dia descobrimos, maravilhadas, que as sementes germinaram! Mas não tenha pressa... às vezes demora um pouco! Beijos

Anônimo disse...

Que delícia de cronica! Tao verdadeira que me vi nela também!

Beijos,

Vanessa

Mariane disse...

Ana, adoro seus posts! Ainda não sou mãe, mas me mostra a verdade de ser mãe que a gente não ouve por ai rs
Um beijo grande!

Roberta Vasconcelos disse...

Ontem decidi testar a receita. Tinha tudo em casa, menos o espinafre. Improvisei com rúcula e ficou uma delícia! Além de ficar pronto rapidinho. Acho que eu e o marido nunca tínhamos comido sanduíche com abacate (?!!!!) e amamos. Obrigada por continuar compartilhando tantas gostosuras Ana!

A simplicista... disse...

E aí que encontro esse blog só hoje, e me deparo com um post lindo sobre a não-mágica da maternidade, e me vejo em cada linha. Combina com um post que caiu no meu FB hoje: "Eu era uma mãe perfeita. Até ter filhos. Fim."

Agora vou encerrar esse comentário e ler mais alguns posts antes de correr para a cozinha para fazer alguma coisa que seja palatável e minimamente saudável para o meu filho, ainda que esteja sonhando com ensopado de grão de bico, legumes e curry há dias.

:-)

Dani disse...

Que bom que vc voltou!
Também tenho vontade de esganar meus meninos de vez em quando (e querer que uma refeição transcorra sem chiliques - meus ou deles - ainda é demais). Mas é só eles estarem longe pra eu morrer de saudades...
Deu vontade de fazer as tortillas - eu ainda só fiz das compradas, ei de experimentar.
Catei outro dia foi uma explicação de como cozinhar grão de bico (eu ainda peno com grãos, que nunca sei se tem que deixar de molho ou o que) sua no Facebook e fiz uma sopinha linda com uma receita simples da Marcella Hazan. Brigadinha por me fazer lembrar de grão de bico! (a meninada por aqui está na fase sopas, aproveitando o inverno)

Mae Consumista disse...

Hum... babei nessas quesadillas, vou super fazer... Bom, eu estou acostumada a cozinhar somente para mim, pois meu marido e minha filha não comem NADA do que eu faço. Minha filha só come macarrão limpinho (sem molho) e meu marido não almoça em casa e à noite só quer se entupir de bolachas... É realmente frustante, mas eu prefiro mil vezes cozinhar meus risotos e etc... só para mim do que cozinhar para eles olharem com cara de nojo, escutar um blerca da minha filha e um, ai credo que nojo do meu marido. Abri mão, se quiserem comer, vão comer o que cozinho e pronto!

Junji Takeda disse...

Fiz umas tortillas de farinha integral recentemente e estou comendo de manhã, tarde e noite, hahaha. Mas acho que não acertei muito bem o ponto da massa. Vou tentar fazer de novo hoje de noite, já que o meu estoque acabou :/

Tenho uns amigos que comem com o cotovelo na mesa, cabeça na mão, braços arreganhados e todos jogados em cima da mesa. Só lembrei do seu post quando eu os vi hoje :P

Abraços!

Dricka disse...

Ana ri muito com sua realidade materna, seus sonhos eram lindos porque voce não tinha sobrinhos. rsrsrs Eu adoro crianças, ajudei a educar uma penca de sobrinhos e pode crer, a realidade é um pouquinho mais suja e barulhenta que os sonhos maternos. Quando eu tiver meus filhos já estou psicologicamente preparada. rsrs
Agora concordo com você que cozinhar apenas para si é gratificante, porque podemos ousar e se der errado não tem ninguém para reclamar. Cozinho só para mim quase diariamente e rola até lasanha com massa caseira.

Laís de Gênova Claudino disse...

Ana fiz as quesadillas agorinha...ficaram uma delicia mas não consegui abrir direito e ficaram com um formato meio estranho kkkk
Não tenho muita pratica mas acho que a proxima fica num formato melhor. De qualquer forma, ficaram MARAVILHOSAS.

Bjs

Kâmi disse...

Ana .

Acabei de fazer . ficaram boas . Fiz a metade da receita . recheio de guacamole e carne rss .

adoro seu blog .

Bjs

Cozinhe isso também!

Related Posts with Thumbnails