sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Um bolo de cerejas fluorescentes

Minhas cerejas afundaram, mas ficou maravilhoso mesmo assim.

Eu queria um bolo. Não qualquer bolo. Eu queria um pound-cake. Daqueles que ficam com o miolo compacto e amanteigado, que você até consegue fatiar grosso e colocar na torradeira pra passar manteiga por cima do bolo quentinho no café da manhã. Aliás, se você nunca fez isso com um daqueles bolos simples de baunilha, faça.

Mas eu também queria usar as deliciosas cranberries orgânicas secas, enormes e suculentas, que minha tia sempre me traz de presente quando vem ao Brasil – puro amor. 

Procura, procura. 

Um bolo leva laranja, que eu não tenho, o outro leva um monte de especiarias, que eu não quero, um terceiro leva cranberries frescas, que não existem aqui, e um quarto produz um bolo de textura mais aberta, como um muffin, que não é o que pede meu apetite. 

Vou ficando nervosa. Detesto não encontrar uma receita – com TANTO livro de cozinha na estante e tanto blog por aí – que não preencha os requisitos da minha super específica vontade. Mais ou menos como quando eu quis comprar um coturno novo: demorei quase um ano para encontrar um modelo que fosse igual ao que eu havia criado na minha mente – e que combinasse maravilhosamente bem com o dinheiro que eu tinha na carteira. ;) 

Fuçando, fuçando, e já desistindo, acabei dando de cara com um bolo de cerejas no livrão gigante da Bon Appétit. Esse é um livro maravilhoso, mas que uso muito pouco, porque quase todos os bolos envolvem deixar manteiga em temperatura ambiente, coisa que me dá uma preguiça fenomenal, porque eu nunca tenho manteiga em temperatura ambiente naquele momento mágico em que há uma interseção da vontade de fazer bolo com o tempo hábil para tanto. 

Shame on me

Mas aquele bolo de cerejas me pegou de jeito, pois na noite anterior eu vira o primeiro episódio da temporada nova do The Great British Bake Off, em que eles preparavam um bolo de cerejas da Mary Berry. Era noite, meus filhos dormiam, e pulei até a cozinha para verificar o que havia na geladeira. 

E lá estava ele: aquele vidro intocado de cerejas ao maraschino, beeeeeeem vagabundas, fluorescentes, com gosto de corante vermelho e essência artificial de cereja, que eu comprara durante a gravidez da Laura para preparar coquetéis sem álcool e não ficar chororô enquanto todo mundo bebia cerveja à minha volta. Mas, por algum motivo, aquele vidro eu não abrira, e ele até então aguardava ansioso uma oportunidade para ser elevado a algo mais digno do que uma guarnição num Shirley Temple. 

Assim, contrariando minha tendência a ideias fixas, resolvi preparar um bolo diferente do que aquele em minha mente, e, na manhã seguinte, tirei manteiga e ovos da geladeira e misturei o creme de leite ao vinagre para produzir o sour cream. 

Fui buscar o Matador de Dragões na escola e perguntei se ele queria ajudar a preparar um bolo, e, assim que terminou de almoçar, ele empurrou sua cadeira para perto da batedeira, empolgado. Ele ajudou a untar a forma e a peneirar a farinha e o fermento. Também ajudou a enfarinhar as cerejas e, mais importante de tudo, ajudou a lamber a tigela. ;) Madame Bochechas, que é muito pequena para botar a mão na massa, assistiu a tudo de seu cadeirão, e pôde lamber o batedor sem precisar trabalhar por isso.   
Vantagem de ter filho e blog de comida: fotos fofas de crianças com doces.

 O resultado foi um dos bolos mais macios que já provei. Muito leve, fofo e úmido, deliciosamente doce e aromático de baunilha e cereja. Ver as crianças devorando as cerejas mequetrefes como se fossem balas, me fez lembrar dos bolos Floresta Negra de infância, com a criançada – eu inclusive – separando no pratinho de papelão as cerejas com gosto forte de licor, para comer apenas o chocolate e o chantilly.

Com cerejas e tudo, esse bolo foi um sucesso. Pimpolhada quis no café da manhã, no lanche da escola, no lanche da tarde, e em três dias já não tinha mais bolo. Mas já tem outro engatilhado, que eu continuo com vontade de pound cake, e o David Lebovitz tem um no livro novo dele (que chegou em casa essa semana) que usa manteiga derretida. o_O  Amo esse homem.

BOLO DE CEREJA E BAUNILHA
(Do ótimo e enorme Bon Appétit Desserts)
Rendimento: 10 porções

Ingredientes:

  • 1 1/2 xic. farinha de trigo
  • 1 colh. (chá) fermento químico em pó
  • 1/2 colh. (chá) bicarbonato de sódio
  • 1/4 colh. (chá) sal
  • 1/8 colh. (chá) noz moscada ralada na hora
  • 1/2 xic. (120g) manteiga sem sal, em temperatura ambiente
  • 1 xic. + 1 colh. (sopa) açúcar
  • 2 ovos grandes, em temperatura ambiente
  • 2 colh. (chá) extrato natural de baunilha
  • 2/3 xic. sour cream*
  • 1 colh. (chá) casca ralada de limão siciliano (não tinha, usei a mesma quantidade de limoncello caseiro)
  • 1 xic. cerejas em conserva, sem caroço, drenadas e cortadas ao meio (usei cerejas ao maraschino, dessas de coquetel)
  • 1/2 fava de baunilha
  • 2 colh. (sopa) açúcar de confeiteiro

* creme de leite fresco misturado a uma colherinha de vinagre e deixado em temperatura ambiente por pelo menos 1 hora

Preparo:

  1. Unte e enfarinhe uma forma de mola de 23cm. Pré-aqueça o forno a 180ºC.
  2. Numa tigela, peneire a farinha, fermento, bicarbonato, sal e noz moscada. Retire 2 colh. (sopa) dessa mistura e reserve em outra tigela pequena. 
  3. Na batedeira, bata a manteiga e 1 xic. do açúcar por alguns minutos, até que esteja bem homogêneo e cremoso. 
  4. Junte os ovos, um a um, batendo bem a cada adição. Junte a baunilha.
  5. Com a batedeira na velocidade mais baixa, junte metade da mistura de farinha e misture apenas até que não se veja a farinha. 
  6. Junte o sour cream e a casca de limão (ou limoncello) e misture apenas até incorporar. Junte o restante da farinha e de novo misture apenas até que não se veja mais farinha. 
  7. Misture as cerejas cortadas ao meio à farinha reservada, para recobri-las de farinha. Junte-as à massa, misturando com uma espátula, apenas até espalhá-las.
  8. Transfira a massa para a forma, espalhando bem com a espátula, para que fique uniforme. Leve ao forno por 30 minutos, ou até que esteja dourado e um palito inserido no meio saia limpo.
  9. Retire do forno e coloque, ainda na forma, sobre uma grade. 
  10. Abra a fava de baunilha com uma faquinha e raspe as sementes em uma tigelinha (guarde a fava no seu açucareiro para fazer açúcar baunilhado). Junte a colher de açúcar restante esfregue com os dedos, para liberar o aroma e espalhar as sementes. Misture o açúcar de confeiteiro.
  11. Com a ajuda de uma peneira, polvilhe o açúcar baunilhado de modo uniforme sobre o bolo ainda quente, dentro da forma. Quando esfriar, passe uma faquinha nas laterais para soltá-lo e abra a mola. O bolo se mantém bem por alguns dias, coberto, em temperatura ambiente. 


12 comentários:

Stéphanie disse...

Ana, você é o máximo! Se eu contar que ontem estava olhando um vidro de cerejas ao marraschino, pensando se havia algo gostoso pra fazer com eles (ao invés de só colocá-las por cima do sorvete de baunilha, junto com a calda assustadoramente doce e maravilhosa) ? E aí entro aqui e tcharããm! A receita que farei no final de semana! Obrigada por compartilhar :)
(e, cara, que bochechas fofaaaas!)
Beijinhos!

Stéphanie disse...

você acredita?? * (voltei pra copiar a receita no caderninho e vi que faltou uma parte no texto do comentário... hahah dislexia mode on!)

Carolina disse...

Esse apelido "Madame Bochechas" é realmente muito justo!! :-) Fofíssima a Laura e suas bochechas!!!

Luciana Betenson disse...

Como ele tá fofo <3

Paula disse...

É sempre um prazer lê-la: pelas histórias, pelas receitas, pelas fotos... Beijinhos do lado de cá do Atlântico! Madame Bochechas está linda!

Luciana disse...

Duas perguntas, Ana: de onde sua tia traz essas preciosidades? Tem na Europa?
E você acha possível bater esse bolo na mão? Beijos de uma seguidora hiper fiel, Luciana

Delicioso Equilíbrio disse...

Eu não sou muito fã dessas cerejas, mas outro dia aconteceu uma coisa parecida comigo: estava "bolinando na internet" (como diz um tio meu) e dei de cara com esse bolo:

http://www.averiecooks.com/2014/02/sweet-soft-cherry-bread-with-cherry-almond-glaze.html

Também não sou daquele tipo de mulher que ama pink (tô mais para o oposto), mas acho que não vou sossegar enquanto não fizer esse bolo rosa fosforescente...rs. Parabéns, o bolo parece ótimo!

Samantha

Cynthia Nogueira disse...

Ana, definitivamente criação é o se negócio !
Meu Deus do céu, que molecada mais linda que você tem!!

Andressa disse...

Hah Ana! Faço minhas as palavras da colega acima. Semana passada estava procurando feito louca receitas com cereja para dar um fim ao potinho encalhado no armário. Eis que você posta esta, oba! ;)

Ana Elisa Granziera disse...

Luciana,
ela traz da California, acho que comprado no Trader Joe's. Ela tem me trazido também damascos secos orgânicos, sem produtos pra deixá-los cor-de-laranja, e eles são super macios, marrons como tâmaras, e têm um gosto de caramelo sensacional. Super diferente dos laranjões azedinhos-doces a que estamos acostumados. :D Se você tiver alguém por lá pra te enviar, recomendo. ^_^

E acho que dá pra bater na mão sim, se a manteiga estiver bem molinha. Porque a receita não dizia pra bater até ficar fofo: só bater até ficar homogêneo. :)

bjs

Carol disse...

Ana, sua descrição do bolo me fez ir ao mercado especialmente para comprar cerejas ao maraschino, que devo ter comprado pela última vez há uns 15 anos atrás! E achei ótimo. Mas gostei mais dele morninho – não sei se porque ele realmente é mais macio e suave morno, ou se foi porque fiz o bolo tomando uma(s) cerveja(s) e quando ficou pronto eu já estava naquela lariquinha, rsss...
De qualquer modo, valeu a pena. Mas como as tais cerejas fluorescentes me pareceram meio enjoativas, fiquei pensando quão bom ele não ficaria com aquela compota de cerejas que você tem no blog, e que é uma das melhores coisas que já comi na vida. Podíamos tentar, não?...
Aliás, eu não sou uma pessoa conhecedora de ingredientes, e fiquei pensando se “cereja em conserva” é simplesmente a nossa cerejinha fluorescente ordinária, ou se no contexto Europa-Estados Unidos é normal se comprarem cerejas em conserva que sejam outra coisa...
(Aproveitando a fofurice das crianças: minha filha de dois anos comeu o bolo cutucando e separando todas as “sereias”...)
Tudo de bom pra você!
Carol

Thaty Corrêa disse...

Entrei nos comentários só para dizer: que criança linda!!! : )

Cozinhe isso também!

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