sábado, 26 de abril de 2008

O primeiro Apfelstrudel a gente nunca esquece

Desde que conheci Allex, há 7 anos atrás, ouço falar do Apfelstrudel da Oma. Todos os lugares em que comemos Apfelstrudel é a mesma ladainha: "O da Oma é melhor." O receio que tive em tentar preparar um doce tão típico alemão, com meus compridos dedinhos ítalo-brasileiros, é quase palpável.

Mas tendo recebido de minha cunhada a receita de ninguém mais, ninguém menos, que a Oma, e tendo tido um sonho engraçadíssimo em que a irmã de Allex me ensinava como abrir a massa com base em cálculos matemáticos avançadíssimos, resolvi que seria naquele momento ou nunca.

Alguns detalhes da receita, entretanto, eram vagos demais para mim, como é toda receita de família que se aprende olhando o outro fazer. Logo, abri meu Professional Baking para me guiar onde a memória falhava, pois só havia visto Oma abrir a massa de Strudel uma vez. Foi uma excelente idéia, pois as informações se complementavam. Preparei a massa rapidamente e, na hora de deixá-la descansando, ao invés de apenas cobri-la com uma tigela, pincelei-a com óleo e cobri-a com filme plástico, evitando que ela ressecasse.

Como nada em minhas aventuras culinárias é perfeito e sempre há um acidente de percalço, deixei a massa descansando e voltei a trabalhar, apenas para descobrir que eu precisaria sair correndo na hora do almoço para entregar um material à gráfica. E, por causa do trânsito da cidade, minha massa ficou sentada durante 3 horas, ao invés de 30 minutos.

Fiquei com receio de que isso tivesse alguma influência na textura final, mas prossegui. Forrei a mesa da sala com uma toalha e comecei a abrir a massa. A segunda informação interessante do livro foi excelente para minha falta de prática: enquanto a Oma, habilidosa, consegue abrir toda a massa com as pontas dos dedos sem fazer furos, eu, desastrada, preferi o método do livro, que ensina a fazer os movimentos com o dorso das mãos. O dia estava muito quente, então vi a massa esticar-se e tornar-se cada vez mais delicada e translúcida, muito mais rápido do que imaginava. Não posso descrever meu orgulho ao vê-la estendida por toda a mesa. E sei que, não fosse a falta de espaço, poderia tê-la estendido mais, pois as laterais estavam ainda bem espessas.

Enquanto isso, parte de meu recheio esperava pela massa: misturara as maçãs ao suco de limão e metade do açúcar, fazendo com que as maçãs perdessem líquido agora e não no forno, onde poderiam encharcar a massa.

O segundo acidente de percalço foi um pouco mais sério. Voltei à cozinha, escorri as maçãs e misturei o restante dos ingredientes. Atrapalhada pela falta de espaço na sala para deixar o recheio, resolvi levar de volta meu pote de vidro cheio de farinha para a cozinha. Eu não sei o que aconteceu. Não sei se fui eu que tropecei ou o pote que escorregou, assim, sem mais. Sei que o pote voou pelos ares e caiu exatamente no meio da cozinha, espatifando-se em mil pedacinhos e espalhando farinha para absolutamente todos os cantos.

Não tive nem tempo de amaldiçoar minha sorte. Saí correndo para trancar o cachorro no quarto enquanto limpava aquela sujeira.

Resolvido isso, recheei a massa e saí enrolando e espalhando manteiga, achando divertidíssimo o movimento do rolo de massa cada vez que eu puxava a toalha. Lembrou-me daquelas cenas de filme, em que um corpo é enrolado no tapete para ser jogado no mar. Ok, admito que não é a referência mais apetitosa, mas era engraçado o começo lento de movimento causado pela toalha e o "scataplá" repentino do rolar da massa.

Como a Oma, tive de dobrar meu Strudel em forma de ferradura para que coubesse na assadeira. Pudera! Com 70 cm de comprimento, ele não caberia sequer no meu forno, se esticado.

Meu único problema foi com o forno. "Fogo forte por uns vinte minutos" não é preciso o bastante para mim, principalmente conhecendo a idade do forno da dona da receita. No livro, pedia 190ºC por 45 minutos, até dourar. Hmmmm... é mais minha praia. O Strudel dourou e ficou lindo e perfeito, salvo a trabalheira que tive em tirá-lo da assadeira sem quebrá-lo, pois parte do líquido do recheio vazara por um dos lados que eu não fechara direito, fazendo com que ele grudasse ligeiramente. Definitivamente, o que mais gosto nas sobremesas com maçãs é o perfume absolutamente delicioso que elas espalham por toda a casa. Não pode existir nada mais reconfortante.

O veredito do provador oficial de Apfelstrudel:

"Tem cara de Apfelstrudel."
"Tem cheiro de Apfelstrudel."
"Tem gosto de Apfelstrudel."
"Mas a massa está muito quebradiça; ficou demais no forno."

Snif...

"Mas para a primeira tentativa, está muito gostoso!"

A receita fico devendo por enquanto, até pedir autorização à avó do Allex. Nada mais justo. Para orgulho do lado alemão da família, nossos filhos não serão mais obrigados a comer apenas tiramisù. Mas um cappuccino para acompanhar o Apfelstrudel vai bem... ;)

23 comentários:

monica disse...

O seu apfelstrudel, ficou de dar água na boca. Eu sou uma apreciadora incondicional de sobremesas e doces com maça e concordo totalmente consigo quando diz que nada é melhor do que o cheiro que fica na casa, depois de cozinhar um doce com maça, é maravilhoso. Vou voltar para ver as suas receitas e ler as suas aventuras na cozinha.Bjinhos

Márcia disse...

Menina... vc é mesmo muuuito talentosa, viu? Esticar a massa assim foi uma graaande façanha, verdadeira obra de arte!!!
Muuuitos parabéns!

Andreia T. Farias Britez disse...

Hummmmm!!! Adoro coisinhas com maçã!! O seu apfelstrudel ficou com uma cara ótima!! O duro é aguentar meu marido (descendente de alemães) perguntando quando eu ia tentar fazer o meu!! A minha desculpa foi que tava sem receita!! A verdade é que não sei se minhas habilidades gastronômicas dão conta de abrir uma massa assim, tão fininha sem quebrar!! Gde abraço!!

Laurinha disse...

Tentei escrever em alemão, mas o que consigo me lembrar dos tempos de escola se resume a algumas palavras e não consegui colocar o trema no lugar certo.... então, vai em português mesmo:
Lindo!
Beijinhos,

lindalacava disse...

Ficou perfeito! Ja fiz alguns, mas nao ficaram tao perfeitos como o seu. Cresci ouvindo meu avô reclamando com minha avo do apfelstrudel dela nao ser como o da mae dele, e ai se seguiam improperios alemaes que ate hj nao me atrevo a saber o que significam, rs. Apesar desse com maça ser o tradicional eu gosto mais recheado com banana. La no sul se faz salgado, recheado com repolho.
Nao esqueci da receita do bobo, estava sem tempo, mas essa semana te mando. SEmpre agradavel visitar vc, bjs

Anônimo disse...

oi Ana..passei aqui pra te dar um ola. Esse trabalho de abrir a massa é de mestra. Parabéns. Enquanto isso, continuo avançando com o meu blog.
abraço
Luciano
www.concha-de-retalhos.blogspot.com

Wenddi disse...

Humilhacao total! mas vc pode ;-)
agora tenho q fazer um curso com vc pra aprender a abrir a massa como se deve... to achando q o segredo foi deixar a massa descansar por 3 horas? hahahaha!!!!
Ganz liebe Gruesse,
deine Wenddi.

Gourmandise disse...

Gente! Que trabalhão! Me lembrei de uma senhora q fazia o apfelstrudel esticando no chão (na toalhinha).
Fica uma delícia bem fininha, né?
bjo,
Nina.

BETO disse...

Oi Ana Elisa. Tenho um blog culinário que mostra receitas passo a passo e também minha principal paixão, os bolos decorados. Gostei muito do seu blog e adicionei o endereço à minha lista de blogs que vou visitar sempre. Faço o convite para conhecerem meu blog, e, caso acharem que mereço um link no seu blog, ficarei muito grato. Obrigado, BETO.

Michel disse...

Está lindo Ana!
Vc. sabia que o apfelstrudel tinha que ser aberto por mãos de mulheres virgens por causa da temperatura. E que eles buscavam as freiras para tal trabalho somente por garantias. Bobinhos os austríacos né.

Patricia Scarpin disse...

Ficou lindo!
Minha avó alemã fazia strudel e nos acabávamos de tanto comer. Ela dizia que a massa tinha que ser aberta bem fininha, até o ponto em que pudéssemos colocar uma folha de papel por baixo e ler através da massa. :)

Daninha disse...

Oi Ana, amei seu blog. Adoro tudo que vai maça também! Vi que mora na Itália, bem legal, amo a italia! Voltarei sempre aqui no seu cantinho.

Daninha
http://www.cinebistrot.com/

ruivo! disse...

essa foto da massa esticada é de dar orgulho no pai

Sandreane disse...

Ana, só de olhar o apfestrudel a boca ficou cheia d'água *rsrs*
Parabéns pela receita!
Nesse feriado, ela vai ter passagem garantida no lanche da tarde :)
Beijocas!

Ana Elisa disse...

Gente,
Um "obrigada" coletivo pelos calorosos comentários!! Quem diria que eu me daria bem não só como Nonna em treinamento, mas também como estagiária de Oma! Heheheh...

Andreia,
acredito que tudo seja questão de treino... Tenta abrir a massa assim, com o dorso da mão, que ela não fura!!

Linda,
sua história me soou muuuuuuuuito familiar... Quando li seu comentário para meu marido, ele chorou de rir...

Wenddi!!! Iêeeei! Que bom te ver por aqui!!! Eu te disse que acho que foi uma confluência de felizes coincidências... hehehe...

Beto,
seja bem-vindo!Continue aparecendo por aqui!

Michel,
sensacional!! Os austríacos de antigamente se revoltariam então com uma mulher "juntada" vivendo em pecado,não?? heheheh...

Gui,
meu pai não viu não, mas a sogra até telefonou prá dar parabéns! hehe...

Beijos!

Ana Elisa disse...

Daninha,
obrigada! Mas acho que você se deixou confundir por minhas referências constantes à Itália. Salvo o fato de ser descendente de italianos pelos dois lados da família (coincidentemente os dois lados vêm da mesma região, de províncias vizinhas), falar italiano, ter cidadania italiana, e ter ido à Itália em 2004, eu, infelizmente, moro em São Paulo!!! hehehe... E adoro o cinebistrot! Visito seu blog sempre que posso!

Beijos!

raquel disse...

Oi Ana,
Essa noite sonhei que éramos vizinhas e vocês nos convidaram para um lanche da tarde. Foi o bolo de chocolate mais delicioso que já provei na vida!
Cara, eu devo estar mesmo muito obcecada por comida e blogs de comida...fala sério: sonhar que somos vizinhas e que comi, efetivamente, um pedaço de bolo seu? Ah, e acordar com a sensação de que é o melhor bolo ever?
Olha, não se preocupa não, pois não sou nenhuma psicopata, tá? Vai entender o subconsciente das pessoas...
Bjs!

Mel L. Ramos Bryar disse...

Suas histórias e receitas como sempre me encantam...nossa fiquei aqui a desejar este doce!!! Ah! Concordo o cappuccino seria uma ótima companhia!!!bjs

Cris disse...

Medalha de ouro! Gente, nunca me arrisquei a fazer isso, mas amo de paixão... hummmmmmm bem morninha com um sorvete de creme......

luka disse...

Para tortas de maça eu tenho uma dica. Depois de a maçã sorar ,quando estiver misturando os outros ingredientes, acrescente 1 colher de farinha ou amido. Alem de evitar que a massa fique molhada faz com que o liquido que solta da maçã no forno se tranforme em um creme leve e todo perfmado pela canela.

Heiko Grabolle disse...

Olá Ana, quando pesquisei no google procurando por Apfelstrudel encontrei seu blog e gostei muito.

Também publiquei um post sobre esta delícia: Receita de Apfelstrudel do chef alemão.

Está passo a passo com muitas fotos -confira no meu blog: http://www.heikograbolle.wordpress.com

Kálien disse...

Ana, pense em uma pessoa que acordou com desejo de struddel da bisavó. E a oma esqueceu a receita pq faz anos que ela não faz e a receita nunca foi escrita. Ai lembro dessa foto e venho correndo atrás da receita para descobrir que não tem. Não conseguiu a autorização ainda? Beijooooo

Ju disse...

Ana, estava por aqui procurando!!! Mas não tem a receita!!! :(, Será que rola uma autorização???

abraços

Cozinhe isso também!

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