terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Sal e açúcar

Ando ligeiramente preocupada com algumas pessoas que conheço, incluindo aí familiares. Desde que comecei a cozinhar, venho tentando variar os sabores daquilo que como ao máximo: se existe algo que me aborrece é comer sempre a mesma coisa. Afinal, com tantos alimentos diversos no mundo, por que alguém em sã consciência comeria arroz e feijão todos os dias?? Mas não é exatamente isso que anda me incomodando. Nessa busca por variação, encontrei as ervas, as pimentas, os grãos inteiros ou em pó, os molhos, os sais e os açúcares, sendo que destes dois últimos (principais temperos na mesa do mais inábil cozinheiro) tenho usado cada vez menos em minha cozinha. Não que eu preteda eliminá-los, deus do céu! Mas quando se usa ingredientes-base de qualidade, você quer que uma abobrinha tenha gosto de abobrinha, e que os temperos apenas realcem seu sabor ao invés de encobri-lo. E assim é com o sal e o açúcar para mim: apenas o necessário para realçar e fazer o sabor do alimento saltar.

O que mais me alarma é almoçar com aquelas pessoas que, mal o prato chega à mesa, elas já estão com o saleiro a postos. Polvilham sua comida com uma fina mas pronunciada camada de sal refinado, sem sequer terem experimentado o alimento antes, para verificar se já não estava suficientemente temperado. E, apesar de não se ter o costume de acrescentar mais açúcar a uma sobremesa, como se faz com o sal, estas mesmas pessoas costumam apreciar doces muito doces, tortas de fruta em que só se sente o açúcar, bolos que causam dor de dente.

Além dos males que isso faz à saúde, por que isso me incomoda? Porque quando cozinho para estas mesmas pessoas, elas tendem a reclamar da falta de sal ou de açúcar de minha comida. A última reclamação foi acerca dos muffins abaixo: "por que os seus muffins não são doces?". Tive de explicar que as receitas que uso são inglesas ou americanas, onde o muffin é comido no café-da-manhã, com uma bela passadela de manteiga e geléia. Ou seja, são bolinhos praticamente neutros, como aqueles bolos para se tomar com chá, ao contrário dos cupcakes, que podem ser servidos como sobremesa. Acontece que muita gente adaptou as receitas dos muffins para o paladar brasileiro, tornando-os doces como aqueles "bebezinhos" da nossa infância. Nada de errado com isso, tudo depende do seu propósito.

O caso é que, ao longo do tempo, sinto que meu paladar tem sofrido uma transformação: cada vez mais aprecio sabores mais suaves, menos extremos. Quando vou escolher um doce, por exemplo, tendo a preferir doces com frutas, ou que sejam ligeiramente ácidos. Ou, se há chocolate envolvido, prefiro uma porção diminuta, pois sei que enjoarei rápido do doce. Quanto aos salgados, à exceção dos queijos, também prefiro explorar os sabores dos legumes e verduras ao invés da impressão de mastigar uma colher de sal.

O problema das pessoas que abusam tanto de um quanto de outro, é que, da mesma forma como meu paladar está cada vez mais sutil, capaz de perceber sabores que antes passavam batidos, elas também estão treinando seus paladares a apenas sentir o gosto de sal e açúcar, e nada mais. Elas pagarão uma fortuna em restaurantes caríssimos e salgarão seus pratos de suaves alcachofras. Além de assassinar qualquer chance de uma experiência gastronômica mais interessante e enriquecedora, também serão obrigados, aos 40 anos, a cortar em definitivo ambos os temperos, diabéticos e hipertensos que serão.

Agora vai o desafio: se você já se pegou dizendo que abobrinha não tem gosto de nada, e que aqueles bolos simples de laranja não têm graça nenhuma, tenho quase certeza de que você é uma dessas pessoas. Então faça a experiência: tire o sal da mesa. Seja mais mesquinho na hora de temperar sua comida com sal, e comece a usar ervas. Experimente doces mais neutros. No começo, será uma experiência terrível, pois de fato você não sentirá gosto de nada. Mas conforme seu paladar for se acostumando, você notará a diferença e nunca mais voltará atrás, quando descobrir o mundo de sabores que vinha perdendo.

2 comentários:

Nicole disse...

Ana, descobri o seu blog ontem, e quando me deparei com este post, fui compelida a elaborar um comentário. Concordo plenamente com você, quanto ao sal e ao açúcar. Aliás, as suas palavras são as minhas, e as críticas que você sofre são as críticas que eu sofro. Nada de sal entra na minha comida: uso apenas temperos... a maioria das pessoas nem percebe a ausência do condimento, mas quando eu falo de antemão que não coloquei sal, parece que elas já vão com aquela ânsia de criticar. Incrível, não? Toda vez que um ser despeja saleirada após saleirada, eu só consigo pensar em "pressão arterial, pressão arterial, pressão arterial..."

Parabéns pelo blog!! Voltarei a postar!

Magali na escuta disse...

acho que a Nicole sou eu, pois aqui tb sofro pressão com pouco sal que coloco na comida! o fato é que comecei a cozinhar por causa da minha filha e agoa, ela com 2 anos, come nossa comida, sem muito sal! hahaha!!!
e tb os doces, só existem depois das 22 hs aqui em casa, pois para ela são só bolos de frutas, iogurtes naturais (SEM AÇUCAR - PELOAMOR!!!)
me identifico demais com seu blog, tanto que estou montando meu cardapio mensal com ele! vamos ver se a familia aprova!!!
bjs e ótimo trabalho!
ah... adorei seu poster das frutas e verduras! estou esperando alguem me perguntar o que eu quero de natal e vou passar seu link! hahaha!!! (nãotôpodendogastarnada!!!)

Cozinhe isso também!

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