terça-feira, 25 de agosto de 2020

Pequenas vidas independentes, e um pão com fubá


 

Despertei, devagar, como quem ainda quer manter a mente fechada nos sonhos um pouco mais, ao som de pequenos passos cuidadosos. Um barulhinho que põe mãe em pé e alerta feito soldado em guerra, buscando proteger uma inocência largada à solidão de uma casa sem vigias. Fora assim um dia. Muitos dias. Anos. Mas não mais. Aninhei-me contra o travesseiro cheirando à noite de verão e lavanda, tentando não me mover muito, embalando aquele sono enquanto ouvia pezinhos tocando o chão com a inútil intenção de silêncio. Mal sabem aqueles dedinhos que coração de mãe desperta antes da mente dos filhos. Inspirei fundo e acompanhei na rabeta de meus sonhos aqueles pés deixando o quarto. O som da porta se fechando, cuidadosamente, uma mãozinha amparando a porta para o trinco rolar devagar. 

Rodo o corpo para outro lado, apegando-me aos lençóis, olhando outros ombros largos e adormecidos ali naquele escuro artificial de listras azuis claras. É dia de verão há muito lá fora, apesar das horas pequenas. Os passinhos levam ao banheiro. Ergo a testa do travesseiro para escutar melhor. Barulho de água na pia e sabão. Relaxo.Pontas de pé se distanciam até a cozinha. As janelas fechadas prendem o silêncio dentro, e ouço sua respiração e a minha quando a redoma de vidro da boleira é aberta e repousada com impressionante delicadeza na bancada. A faca saída do cepo assobia em lábios secos. Tento lembrar um sonho bom ao ritmo gostoso do rosnar na faca no pão. Crosta grossa de pão, quebradiça e crocante, faz barulho que enche a boca de vontade. Suspiro um suspiro bocejado, acalmando a fome com uma dose deliciosa de preguiça, esticando as pernas sob o lençol amassado e flexionando os pés devagar, deixando as pontas dos dedos alongarem a base da coluna. 

A faca espalha o cheiro da manteiga como quem sopra um dente-de-leão. Fresca e fria, lembra flor, lembra capim verde sob o vento de verão. Já não posso ignorar os ruídos do dia novo quando ele liga a cafeteira, iniciando uma música de motores e águas que já sei de cor. A máquina chia, raspa, escarra, borbulha e derrama, e um vapor doce de leite quente dança até o quarto.  

O deslizar da gaveta de panelas nos trilhos me faz abrir os olhos. O teto, olhado assim, sem foco, era infinito. Metais escorregando uns sobre os outros, e o ar vibra a tensão de braços infantis tentando evitar o clangor do choque das panelas. Gaveta fechada, metal sobre vidro, o estalo suave do botão do fogão, e o whooomph-pop confortável da borracha que se amassa e solta o vácuo quando a porta da geladeira é aberta. 

Manteiga que derrete é avelã no sol, banho quente e abraço. Toc, toc, crack. Meu coração dá um pequeno pulo de ansiedade e alegria ao quebrar do ovo, como sempre acontece àquele exemplo tão maravilhoso de intrepidez e firmeza de caráter que se adquire na primeira vez em que se aprende a quebrar a casca de um ovo sem que seu conteúdo fuja apavorado. 

Borbulha, espirra, estala. 

A porta do quarto se abre, sem cuidado, e pezinhos firmes atravessam um corpo esguio e determinado pelo vão da minha porta até a sala. 

Bom dia, Thomas!, mia uma gata em forma humana, entre sons guturais de membros espreguiçados e alongados.Espreguiço também meu corpo, meus braços, e jogo as mãos para trás da cabeça, esperando um drink na praia, sob o sol das duas. 

A cozinha agora é um jazz progressivo de tampas de panela e espátulas, carícias de faca em carne de fruta, batida de lâmina na tábua, o jogo batucado da madeira no azulejo quando pés se equilibram sobre o banco, abrir e fechar de portas e louças que raspam e riscam. A torradeira solta e salta feito caixa e chimbau.

A música acaba e há um quase silêncio de instrumentos sendo afinados, do saborear das palmas da plateia. Quando a música recomeça, é breve e aguda. Um tilintar de talheres sobre louças como sinos, uma torneira aberta como quem pede um silêncio incomodado, e então os músicos saem do palco, seus passos abafados pelo tapete da sala. 

É o fim do espetáculo. 

Viro o pescoço mais uma vez para olhar o relógio. Ele grita sete horas em números cor de laranja, e, sem paciência para argumentar com partes eletrônicas que não têm maturidade emocional, levanto num pulo. São os meus passos, agora, adultos e pesados, que se espalham. Espalha um amor quente no peito, também, quando olho a sala. Dois corpos infantis aninhados no sofá, um de roupas, outro com a metade dos pijamas, rostos tão enfiados em livros do Asterix, que mal notam minha presença. Fico ali ouvindo um pouco suas vidas, uma assombração deliciada com a delicadeza do mundo. A mesa está limpa, a louça na pia. Há migalhas e caroços de pêssego sobre a tábua onde jazem as facas sujas. Prova do crime de uma vida independente. 

Bom dia, eu digo.

Bom dia, eles respondem.

Dou-lhes um beijo.Ganho um abraço. Bom dia começa com alegria, bom dia começa com amor, canta um deles.

Quer um café, mamãe? 

Eu faço o meu, obrigada. Mas pode fazer o do papai enquanto eu coloco uma música. 

Tá bom. 

Coloca aquela música que eu gosto? Café quente. Me conta o que você sonhou. Janelas abertas. 

Apanho o pão na boleira. 

Eita! Vocês comeram quase metade do pão!

É que tava muito gostoso, mamãe.

Que bom. 

Que bom. 

...

 

 

Tem sido difícil preparar pães de outra forma que não deixando que fermentem durante a noite. É simplesmente muito prático, e o resultado fica excelente. O pão básico de sempre, mas com apenas 1/4colh(chá) de fermento. Deixado fermentar durante a noite. Moldado de manhã cedo e deixado fermentar apenas enquanto a panela esquenta no forno alto. Pão na panela fechada por meia hora e depois mais quinze minutos sem tampa. Quando acordo bem cedo, tem pão fresquinho e quente `s sete da manhã. Como não amar isso?

Eu comprara um saco muito grande de fubá para um bolo, e andava procurando coisas a fazer com ele. Encontrei essa receita de Broa portuguesa no site de Martha Stewart. Não confio na autenticidade da receita, mas o pão, que leva um pouco de fubá cozido na massa, fica deliciosamente macio. 

 

BROA, ou PÃO COM FUBÁ

(do site https://www.marthastewart.com/1521175/portuguese-cornmeal-bread)

Rendimento: 1 pão grande

 

Ingredientes:

  • 1 1/2 xic. fubá, e mais para polvilhar
  • 1 1/2 xic. água fervente
  • 5 xíc farinha de trigo, e mais para polvilhar
  • 2 colh. (sopa) sal (eu usei apenas uma)
  • 2 colh. (sopa) açúcar
  • 1/4 colh.(chá) fermento biológico seco
  •  1 1/3 xic. água fria
  • azeite para untar


Preparo:

  1. Numa tigela de inox ou plástico (porque a cerâmica ou vidro podem quebrar com o choque térmico), junte o fubá e a água fervendo e misture até que o fubá absorva toda a água. Mexa um pouco para o vapor sair e leve a tigela à geladeira por alguns minutos até que esteja frio o bastante para manipular.
  2. Numa tigela grande, ou na tigela de uma batedeira planetária com gancho, coloque o fermento, a água fria e o açúcar, e deixe quieto alguns minutos para que o fermento dissolva. Junte a mistura e fubá, o sal e a farinha, e misture bem até formar uma massa que possa ser sovada à mão ou na batedeira apenas até que não sobrem pedaços secos. A massa precisa estar macia e ligeiramente grudenta. Caso esteja muito seca, acrescente mais água, uma colher de sopa por vez.
  3. Forme uma bola na própria tigela e cubra bem. Deixe na bancada durante a noite, fermentando por 12 a 18 horas. A massa deve crescer uma três vezes o próprio tamanho.
  4. NO dia seguinte, unte o interior de sua panela de ferro com um pouco de azeite e polvilhe com um pouco de farinha misturada a fubá, para que o pão não grude. 
  5. Despeje a massa fermentada na bancada enfarinhada e forme uma bola. Coloque a massa dentro da panela untada e enfarinhada. Coloque a tampa e deixe fermentar por mais uma hora e meia a duas horas.
  6. Quando a fermentação estiver no fim, cerca de meia hora antes de assar o pão, ligue o forno a 250oC, com a grade posicionada no terço inferior. Assim que estiver bem quente, abra a panela, use uma faca afiada para fazer um X fundo no topo do pão, tampe novamente e leve a panela ao forno. Abaixe o fogo para 220oC e asse por 45 minutos. (O pão é grande, então precisa de mais tempo no forno)
  7. Terminado esse tempo, com muito cuidado, retire a tampa e asse por mais 15minutos destampado, ou até que esteja dourado a seu gosto. 
  8. Retire a panela do forno com cuidado, retire o pão com a ajuda de uma espátula e luvas de forno, e deixe que esfrie COMPLETAMENTE sobre uma grade antes de servir.

11 comentários:

Roberta Vasconcelos disse...

Oi Ana
Que texto lindo, parabéns! Emocionante e suave, verdadeira música para a imaginação que nos transporta para as manhãs na sua casa.

Uma curiosidade, fazendo pães há tanto tempo, por que não usa levain? Graças à mestra Neide Rigo, fiz o meu a partir do fermento seco comprado, reformo só na véspera de fazer o pão, sem complicação nem desperdício.

Ana Elisa Granziera disse...

Roberta,
eu usava levain no brasil.Aqui ainda não consegui fazer nenhum vingar. Nem o da Neide. :( Faço o pão assim com pouco fermento mesmo, e quando quero um levain, tem duas ou três padarias por aqui que fazem um muito bom. :)
Mas ainda não desisti.
bjs

Livia Luzete disse...

Eu amo como voce escreve. AMO AMO AMO!

Jurema Moreira disse...

Ah Ana... obrigada por seus textos de aquecer o coração.

Rita Barreto disse...

Oi Ana, esse seu texto é um dos mais bonitos que já li!! Acredito que seja pelo conteúdo independência/crescimento das crianças, tanto quanto pela linguagem usada!!! Parabéns!!!
Queria te perguntar uma coisa... tenho uma panela de ferro com alças de madeira e na tampa tem uma bolinha de madeira para segurar. Não conheço muito madeira mas acho que é de pinus... não acho que seja alguma madeira muito dura.. será que posso colocar no forno?
Obrigada por compartilhar suas experiências conosco!!
Rita Barreto

Ana Elisa Granziera disse...

Rita, eu fico meio preocupada com essas partes de madeira. Em teoria elas podem ir ao forno, mas não sei se por tanto tempo e numa temperatura tão alta. :( Eu tinha uma panela de ferro fundido, dessas pretas,e eu costumava desatarrachar a parte de madeira da tampa (as alças eram de ferro). Eu tenho uma lembrança pouco precisa de alguém me dizendo que enrolava as partes de madeira em papel alumínio para evitar que queimassem. Mas não me sinto suficientemente segura para te recomendar fazer isso. Pior é que eu não sei se a temperatura alta por tanto tempo tacaria fogo na alça ou se "só"estragaria a madeira. Fué.

Cacau disse...

Que texto lindo e delicado. Andei afastada desse cantinho, mas vou voltar com frequência

Unknown disse...

Me delicio com seus textos e suas receitas há muitos anos. Este é pura poesia. Fico imaginando como você conseguiu criar essas crianças independentes desse jeito e se você consegue vislumbrar o tamanho da vitória que isso representa. Tenho tem três filhos de 11 anos e o que mais me preocupa na educação deles é a questão da autonomia e independência. Parabéns! Que essas manhãs de paz e aconchego no coração perdure por muito tempo!

Rita Barreto disse...

Oi Ana obrigada pela sua resposta!! Vou colocar o papel alumínio e ficar vigiando. Depois eu conto se deu certo!!!

Renata Guajará disse...

Ana,te acompanho quase que desde as primeiras postagens. Passamos por momentos e buscas semelhantes mais ou menos na mesna época, o que me fez te acompanhar fielmente, a cada escrito, e falar de vc pro marido como quem fala de uma amiga (Sabe a Ana? Do La Cucinetta? Sim! Então....). Estou comentando aqui, para te dizer que NUNCA perdi um texto seu. Que aguardo, vindo aqui a cada texto, e geralmente intuo quando tem nova publicação :D
Desde que tive as crianças, seu texto é parte do "me time" rsrs Xícara de café, rede, ninguém no peito, eu e seu texto. Então hoje, com esse texto estupendo, aqui vão minhas desculpas por nunca comentar, e meu profundo agradecimento por ser essa deliciosa companhia ao longo dos anos...

Unknown disse...

Um texto muito poético.
A receita maravilhosa como tudo o que compartilha.
Estou fazendo pela terceira vez, me adaptando ao que tenho. A panela e de ferro , porém não possui tampa. Uso a de uma cocote que tenho,mas é oval.Tenho uma crescendo agora vou experimentar numa de inox com fundo triplo. Espero que tenha mais espaço para crescer e assado fique igual ao seu.
Obrigada por sempre compartilhar suas delícias.
Fiz o bolo de limão também, a família amou.

Cozinhe isso também!

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