sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Uma refeição natureba. Eh, quer dizer... italiana.


Daí que o marido andava meio ressabiado com isso de feijão azuki no café da manhã e qualquer coisa sem glúten, sem lactose, com inhame e painço no jantar. Ainda que eu estivesse me divertindo horrores com os experimentos mega-naturebas, achei que, ok, talvez estivesse abusando da boa vontade do restante da família, que não cozinha e portanto não escolhe. ;)

Calhou de eu ter sido altamente influenciada pelos vídeos recomendados pelo leitor querido Edu Piloni, e quando vi, estava passando minhas noites assistindo a séries e documentários sobre a culinária italiana, com todos, TODOS, os meus livros de cozinha italiana no colo, folheando, relendo, planejando cardápios que eu não preparava havia tempos ou que eu nunca preparara por conta do pseudo-vegetarianismo.

Sou tão influenciável na cozinha, que chega ao ridículo de ter visto a Rita Lobo preparando molho à bolonhesa, e agora acordo e vou dormir pensando nisso, e estou só esperando uma boa oportunidade para preparar o que será o meu primeiro ragù alla bolognese EVER. (O que me surpreende muito, quando paro pra pensar, mas eu já era pseudo-vegetariana quando comecei a cozinhar de verdade e juntei os trapos.)

Sorte da pimpolhada, que voltou a se refestelar com sabores mais familiares, e azar do marido, pobrezinho, que anda trabalhando até altas horas da noite e não tem provado nada da minha comida, desde que eu voltei a cozinhar à italiana. :(

No entanto, se o povo aqui de casa achava que meu retorno às origens era garantia de macarrão todo dia, enganou-se um bocado. Se existe uma cozinha que consegue ser altamente natureba, se você deixar a superficialidade e mergulhar nos legumes, é a italiana.

Um cozido de ervilhas-tortas parece mais natureba do que gostoso, mas o sabor me surpreendeu maravilhosamente. Comi colheradas fartas dos legumes caudalosos, suculentos e perfumados sobre o arroz branco, e, depois, as sobras, sobre polenta veneziana, cozida com leite, o que a torna tão cremosa quanto um purezinho de batatas.

O gratinado de abobrinhas foi feito com certo preconceito. Em geral, não entendo por que alguém cozinharia uma abobrinha no vapor, se pode dourá-la em azeite. No entanto, o prato ficou delicioso, as abobrinhas muito macias, contrastando com o crocantinho da cobertura de pão, queijo e ervas. As sobras foram misturadas a ovos e um pouco mais de queijo, para uma frittata saborosíssima, acompanhada por uma saladinha verde, agora que os pimpolhos viraram, finalmente, devoradores de alface.

A receita original do cozido de ervilhas pedia por guanciale, que é uma carne que vem da bochecha do porco, muito usada nos molhos all' amatriciana e carbonara, em Roma. Na última vez que fui à Itália, pude experimentar o molho feito assim, e, apesar de a descrição da wikipedia dizer que o sabor é mais forte, eu achei o resultado mais suave em sabor e textura do que quando o prato é feito com pancetta ou bacon. Talvez por não ser defumado. Como eu tinha toucinho fresco no freezer, usei uma fatia dele, sem a pele, com ótimos resultados. Se não quiser usar o toucinho ou não encontrar nem guanciale nem pancetta italiana, use um pouquinho de bacon. O sabor do defumado vai ficar mais forte, mas acho que ficará igualmente gostoso.

ZUCCHINE GRATINATE CON OLIVE
(Da revista La Cucina Italiana)
Rendimento: 4 porções grandes ou 6 menores

Ingredientes:

  • 350g abobrinhas em rodelas finas
  • 40g queijo parmesão ralado fino
  • 4 fatias de pão amanhecido ou um punhado de farinha de rosca feita em casa
  • 10 azeitonas sem caroço (pretas ou verdes), cortadas em fatias
  • cebolinha
  • tomilho fresco (só as folhas)
  • manjerona fresca (só as folhas)
  • salsinha fresca
  • azeite de oliva
  • sal e pimenta-do-reino


Preparo:

  1. Cozinhe as abobrinhas no vapor até mais ou menos a metade do cozimento. Elas devem estar cozidas, mas ainda firmes. (Alternativamente, use o microondas.)
  2. No processador, moa o pão amanhecido junto com as ervas e o queijo. (Ou pique na faca as ervas e misture ao queijo e à farinha de rosca, que foi o que eu fiz.)
  3. Numa travessa grande e rasa, disponha as fatias de abobrinha como escamas de peixe. Tempere com sal e pimenta-do-reino. Espalhe as azeitonas e polvilhe com a mistura de pão e ervas. Tempere com um fio de azeite e leve ao grill do forno por 10 minutos, até que doure. Se você não tiver grill, coloque em forno bem quente. 

.....


TACCOLE IN UMIDO DI POMODORO
(Da revista La Cucina Italiana)
Rendimento: 4 porções fartas, para acompanhar algum carboidrato que absorva o caldo, como arroz, couscous ou polenta.

Ingredientes:

  • azeite de oliva
  • 1 folha de louro
  • 500g ervilha-torta, sem as pontas e filamentos
  • 200g polpa de tomate (usei 2 tomates frescos bem maduros, picadinhos)
  • 40g toucinho sem a pele, cortado em pedaços pequenos (ou bacon, ou pancetta italiana, ou guanciale, se encontrar)
  • 1 talo de aipo em cubinhos
  • 1 cenoura média em cubinhos
  • 1 cebola em cubinhos
  • 1 colh. (chá) açúcar
  • 400g caldo de legumes
  • manjerona fresca (só as folhas)
  • farinha-de-rosca para polvilhar por cima
  • queijo parmesão para ralar por cima
  • sal e pimenta-do-reino


Preparo:

  1. Cozinhe as ervilhas-tortas em água fervente e salgada por 10 minutos, com uma colher de azeite e uma folha de louro. 
  2. Enquanto isso, numa panela grande, refogue o restante dos legumes e o toucinho em um fio de azeite, até amaciar e começar a dourar. 
  3. Escorra as ervilhas e junte-as ao refogado, misturando bem.
  4. Junte a polpa de tomate, a manjerona, o açúcar, o caldo de legumes, e tempere com um pouco de sal e pimenta. Cozinhe em fogo médio-baixo por cerca 40 minutos para que o caldo reduza um pouco.
  5. Sirva bem quente, polvilhado de farinha-de-rosca e parmesão, e mais um fio de azeite.  





10 comentários:

lígia moneta disse...

Oi Ana. Adoro suas receitas e tudo que você escreve. Dou vivas quando vejo e-mail de La Cucinetta. Lendo essa receita de ervilhas-tortas, fiquei com uma dúvida. Sempre as cozinho no vapor ou grelho rapidamente. Aferventando por 10 minutos e depois cozinhando por mais 40 minutos para redução do caldo, ela não fica muito mole?

Ana Elisa Granziera disse...

Ligia,
eu também achei esquisito, porque gosto das minhas ervilhas mais pro crocantezinho, ainda verde-vivo. Mas nesse caso, o resultado é aveludado. Elas ficam bem molinhas, macias. Como você tem ainda a textura da cenoura e do aipo para contrastar, a maciez das ervilhas não incomoda. Eu gostei muito do resultado. :)

bjs

Carol disse...

Também desconfiei de ervilhas-tortas tão cozidas, mas fiquei com vontade de tentar. Afinal só sei salteá-las no azeite, então vale tentar variar. E a foto está muito apetitosa...

Patricia Cerqueira disse...

Ana,
Adorei as sugestões. Ando mesmo aborrecida com a minha incapacidade de pensar refeições para os meninos sem carne. Acho que ando pensando em cardápios com carne demais. Tenho tentado diminuir essa minha tendência, mas esbarro na minha falta de jeito em preparar legumes gostosos. Amei a receita da abobrinha. Já as ervilhas terei de fazer com calma e com outro opção à mesa porque aqui somente eu curto esse legume.
Beijo,
Patricia

Edu Piloni disse...

Eu que fico muito grato dos vídeos terem te inspirado tanto pra fazer você nos dar tantos presentes aqui no seu blog, atiçando nossos sentidos e criatividade =) demais mesmo!!! Pra mim, quanto mais italiano melhor <3

Patricia Scarpin disse...

Comi guanciale em um molho de macarrão no Stella 34 e nossa, que delícia. O João deu umas garfadas, mas achou que o molho estava apimentado demais. Eu comi a pratada toda. :D

Adoro as suas ideias de pratos vegetarianos assim, lá em casa estamos cada vez mais comendo legumes e verduras. Tudo colorido e lindo, saudável e delicioso.

xx

Soraya disse...

Olá Ana,
Adoro seu blog, já acompanho há algum tempo e ele foi inspiração para que eu também me aventurasse a começar um.
Ontem preparei a sua receita de ervilhas-tortas só que coloquei pedacinhos de linguiça vegetariana no lugar do toucinho. Ficou realmente muito bom! Que riqueza de sabores! Obrigada por compartilhar.
Abraços

Patricia Cerqueira disse...

Ana,
Fiz a abobrinha e fica simplesmente divina. Uma espécie de crumble de abobrinha.
Divina. Obrigada por compartilhar a receita.
beijos

Anônimo disse...

Ana Elisa/Edu Piloni, quais sao os videos que o Edu passou para a Ana? Sou louca pazza pela cozinha italiana, adoraria assistir a esses videos! Carine, Florianopolis/SC

Bel disse...

Ana, o título da minha receita de abobrinha é "O erro mais acertado da minha irmã". Comprei a abobrinha (cortada), mas não pude fazer o prato. Então, pra não estragar, pedi a minha irmã que fizesse. Ficou uma delícia, mas de verdade, incrível o sabor. Jantei só isso e um montão. Aí ela diz: na próxima vamos fazer com mais farinha de rosca, tinha muito pouco.
- Mas eu faço toda semana, já que sobra pão. Tem um pote enorme na geladeira duma farinha muito da boa, só pão integral de primeira!
- Não! Já estava no final.
Vou eu à geladeira e descubro que a irmã usou o que? Um final de farinha de amêndoa! Farinha, não. Grumos quase queimados de amêndoa, que estavam lá e eu não sabia o que fazer.
Imagina o quanto rimos.
(mas farei com o vidrão de far. de rosca na próxima)
Um beijo, Bel

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