quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Powe Point e um chili vegano


Você sabe que o Instagram tem dias contados quando ele vira uma imensa apresentação de PowerPoint com correntes e frases motivacionais.

Se você entendeu essa referência, então você tem, pelo menos, a minha idade. Quem, nascido antes de 1989, não se lembra dos e-mails com PPT cheio de foto de gatinho e cachoeira e um monte de baboseira de auto-ajuda, e promessa de que, se você repassar aquela apresentação pra sete amigos, vai ganhar na loteria? 

Quem é jovem sofreu desse mal no Whatsapp. Mas quem recebeu PPT do tio da prima no e-mail da AOL é raiz.

Eu, que sou velha, fico vendo essa imensa roda da fortuna das mensagens motivacionais seguindo seu ciclo em todas as plataformas, da época do Pen Pal (eu escrevia CARTAS, tá?) até o TikTok. Só que eu não tenho TikTok, porque até eu tenho limites, e eu sou o tipo de velha que fica irritada com a juventude atual e sai gritando através da dentadura pra molecada sair do meu gramado. 

É brincadeira. Eu não uso dentadura.

Enfim.

Foi na semana anterior ao meu aniversário, quando eu sofri os efeitos da combinação bombástica de um Inferno Astral, uma Lua Minguante, um Mercúrio Retrógrado e uma TPM, tudo junto e misturado. Foi osso. E enquanto eu roía esse osso, eu notei que tinha pegado bode do Instagram, do mesmo jeito que peguei do Facebook, anos atrás. Eu me divirto criando as narrativas nos Stories, e uso o timing da mudança de tela como se fosse a pausa num stand-up comedy. Tem um lado engraçado meu que aparece lá porque a plataforma cria a circunstância para isso. A mídia é a mensagem, já dizia titio Marshall McLuhan. O formato dos posts foi ótimo para finalmente começar a publicar minhas poesias e perder a vergonha de vez de trazer à luz toda sorte de arte. Como eu escrevi por lá um dia: a partir de hoje eu me dou o direito de escrever poesia tosca e fazer arte ruim. Vivam com isso. 

(Eu gosto das minhas poesias e da minha arte, e não acho nada nada ruim, mas só me libertei de confiar na opinião dos outros para validar o modo como me sinto a respeito da arte que produzo. ;) 

A auto-estima agradece.

Foi mais ou menos o mesmo processo de quando criei o blog Desenhoquê. Quem lembra, levanta a mão. Tem três gato pingado de mão levantada. Ótimo. Se vocês também riram da piada do PowerPoint, parabéns. Bando de velho que nem eu. 

Enfim. 

Foi o mesmo processo do blog, de colocar para fora arte que eu ainda não sabia exatamente como formatar e expor de uma forma tradicional. Foi bom para testar a temperatura da água antes de mergulhar dando uma bomba no lado fundo da piscina. 

Estava divertido, eu confesso. Tia Ana tava gostando de uma rede social. Eu via fotinhos e Stories de amiguinhos e coleguinhas. Conheci mulheres legais que me inspiraram por lá. Fiz live de lançamento do meu livro. Conversei com gente que me lê aqui faz tempo, mas com quem era difícil bater papo pelos comentários. Conheci amigas aqui no Canadá.

NO ENTANTO com letras maiúsculas e em negrito, o mocinho do Facebook não dá ponto sem nó e começou a brincar de Puppet Master com os usuários do Instagram. Vamos falar pro pessoal que os posts deles só são vistos se eles fizerem Stories. Vamos falar pro pessoal que os Stories deles só são vistos de eles postarem todo dia. Vamos falar pro pessoal que a gente só recomenda os posts que têm like. Agora só os que têm comentário. Agora só os que foram salvos. Agora só os que foram compartilhados. Agora a gente só impulsiona os posts cujos Stories têm interação com o público. Agora a gente só impulsiona perfil de gente que faz Reels, porque a gente tem que competir com Tik Tok.

They say JUMP you say HOW HIGH?

A plataforma é feita não só para engolir a vida de quem consome conteúdo e entretenimento ali, mas, principalmente, para manter o "criador de conteúdo" escravo dos caprichos do senhor Mestre Algoritmo.

Porque quem precisa expor seu trabalho para ser comprado acaba tendo que se enfiar numa rede social cedo ou tarde, a não ser que tenha tido a sorte de se estabelecer no mercado antes do advento do Orkut. Ninguém mais vai no cliente mostrar portfólio na pastinha. Nenhuma editora cria um grande plano de comunicação e marketing para um autor desconhecido.

Você começa no Instagram pensando: vou publicar minha pintura de gatinho aqui, e as pessoas vão ver que eu faço pinturas de gatinhos e vão comprar pinturas de gatinhos. Cinco anos depois, você está fazendo dancinha e bebendo refrigerante por um tubo de papel higiênico para garantir que o Instagram recomende aquela sua pintura de gatinho pra alguém. Mas como você passa metade do seu dia produzindo conteúdo para garantir que o algoritmo aumente o alcance da sua audiência, você não pinta um gatinho novo há três meses. E apesar de ter conseguido trinta e dois mil seguidores (cento e vinte e sete dos quais eram haters e você teve que bloquear mais de uma vez), só 1% das visitas à sua loja de pinturas de gatinhos impulsionadas pelo Instagram resultam em vendas. 

Se você se identificou com isso, sinto muito, mas quer dizer que você está trabalhando de graça para o Instagram e distribuindo sua arte pelo mundo feito confete, sem ganhar nada em troca, e que essa história de "se eu postar meus gatinhos aqui, eles vão saber que eu faço e vão comprar" é uma falácia gigantesca.

Anassaura aqui lembra da vida pré-internet e pré-celular. Vivi metade da minha vida sem e-mail, e dois terços dela sem um smart-phone. Quando, recentemente, fui fazer back-up das minhas fotos na minha conta do Google que, veja só, ENCHEU, foi uma revelação ver meus álbuns de fotos subitamente passando de duas fotos por mês com câmera digital para dezenas de fotos por mês quando ganhei meu primeiro smart-phone, e para centenas de fotos quando resolvi entrar no Instagram. 

Prova cabal de como a tecnologia mudou meu jeito de me relacionar com o mundo. E eu não gostei disso.

Naquela semana antes do meu aniversário, eu estava cansada do Instagram. Como entretenimento, o conteúdo mais me estressava do que entretinha. Todo mundo ali está tão deprimido quanto eu. Todo mundo ali está p*to da vida com as mesmas coisas (ou mais) que eu. E quem não está passa o dia postando frase motivacional e está tão ausente da realidade que me faz perguntar que drogas a pessoa está tomando, e onde eu compro um pouco pra mim. Tinha um perfil de que eu gostava, por conta do humor cru, que esses dias postou uma frase fofa e a legenda: a pessoa para quem você repassar esse post, vai saber que você acha ela forte, bonita, legal, fofa, tralalá... 

CORRENTE.

Taqueospariu. Os millenials ficam brigando com a geração Y pra saber quem é mais cringe, e não perceberam que foram dominados pelos Baby Boomers

Unfollow.

O Instagram está chato pra chuchu. Esse é o termo técnico. A vida de todo mundo é sempre igual. Quem tem uma vida muito maravilhosa me faz sentir mal a respeito da minha vida e quem tem uma vida muito horrível me faz sentir mal a respeito da minha vida. Mas hein? 

(Isso não quer dizer que eu ache as pessoas lá chatas. Muito pelo contrário. É a plataforma que torna tudo chato.)

Pra terminar, naquela fatídica semana, o Instagram foi atacado e ninguém conseguiu fazer nada nele por um dia inteiro. Certeza que foi a conjunção cósmica do Mercúrio Retrógrado e minha TPM. Certeza. 

Enfim. Me caiu uma ficha. E pronto, se eu precisava de mais provas para confirmar minha idade avançada, taí. Caiu a ficha. Eu usava orelhão. Quem não lembra a delícia que era o cheiro de metal suado que vinha do bocal quente do telefone quando você tirava ele do gancho logo depois de outra pessoa usar? Ai, que saudade. Só que não.

Mas me caiu a ficha. A famosa epifania. Se calha dessa joça de rede social cair de vez, eu perco quase 100% do contato com meu púbico. As pessoas interessadas nas minhas crônicas descabidas, minha poesia sem pé nem cabeça, minhas aquarelas de bolovo e minhas tirinhas sem noção perdem COMPLETAMENTE o acesso ao meu trabalho, a não ser que tenham um dia se interessado em clicar no link do meu perfil e salvar o endereço desde blog de cabelos brancos, mas cheio da dignidade.  

Mesmo o blog, que apesar de ter endereço próprio, ainda é completamente armazenado pelo Google, é instável. PORQUE NÃO ESTÁ NA MINHA MÃO, mas na mão de empresas e algoritmos. Já tive gente me escrevendo dizendo que imprimiu o blog todo, pro caso de eu um dia apagar. Eu não faria isso. Mas quem disse que o Google não faria? 

Ai, eu sei. Teoria da conspiração é muito coisa de velho. Você não tem ideia: eu costumava escrever em cadernos e máquinas de escrever até os dezoito anos, porque eu achava que "computadores perdem coisas". Já ouviu teu avô dizendo isso? Pois é. Eu nasci com oitenta anos. 

Teorias da conspiração à parte, eu senti que meu trabalho estava muito vulnerável, muito dependente de plataformas instáveis e que têm mais poder de bloquear meu acesso e apagar minha conta do que eu tenho de apelar a qualquer uma dessas ações. (O Instagram bloqueou a primeira conta que eu abri, porque eu postei três fotos em seguida e ele achou que eu era um Bot, e eu nunca mais tive a conta de volta.)

E meu trabalho tem que ser meu. E eu tenho que trabalhar para mim e para meus leitores e clientes, e não para o Instagram. Bode.

Desde o ano passado, enquanto eu escrevia meu livro, eu flertava com as plataformas de crowdfunding, tentando imaginar uma forma de ter mais controle sobre o meu trabalho. Mercúrio retrógrado e o apagão do Instagram me deram um empurrãozinho, e eu criei uma Newsletter, Boletos & Borboletas, para quem quiser receber semanalmente uma crônica e uma tirinha inéditas e exclusivas, e ao mesmo tempo colaborar financeiramente para que eu possa dedicar mais tempo terminando de escrever meu novo livro e editando o livro das tirinhas do Diário Ilustrado, ao invés de ter fazer dancinha e beber refrigerante pelo tubo do papel higiênico.


 

Já saíram duas edições, nas últimas segundas-feiras, e quem assinar a Newsletter ainda em outubro, têm acesso ao conteúdo delas no Mural da minha página do Apoia-se. A colaboração é mensal, como a assinatura de uma revista. No Mural, há textos e fotos sobre processo criativo, influências, leituras, e até receitinha e sorteio de caricatura já rolou. 

Sempre me incomodou isso de parecer que eu tenho um grupo de leitores aqui e e outro no Instagram. Porque tem gente que me conheceu por lá e só lê o que eu posto lá, e tem gente que me conheceu aqui e não tem Instagram nem quer ter. E eu acho uma chatice isso de quem não faz parte da intersecção dos dois grupos não ter acesso a todo o meu material. Então pronto. Essa é uma forma de ter um contato mais direto com quem de fato se interessa pelo meu trabalho, e não quer só bisbilhotar minha vida (que no Instagram tá cheio disso também). É um jeito de me sentir mais segura de que, mesmo que a plataforma do Apoia-se desapareça, meu trabalho ainda está comigo e com meus leitores. E eu tenho alguma segurança financeira para me dedicar mais aos textos, inclusive do blog, e menos para ficar agradando algoritmo em rede social. 

O Instagram continua, mas com menos intensidade do que antes. Porque Instagram me deixa ansiosa, ansiedade me dá insônia, e, sem piada nenhuma agora, insônia me dá depressão, e eu já vivi esse ciclo vicioso vezes suficientes para saber que é hora de quebrar o padrão.

O Blog, queridinho do meu coração, continua no mesmo ritmo. Se você gosta dos textos daqui e gostaria de ler mais, toda semana, pode assinar minha newsletter lindinha. Se gosta, mas um texto por mês tá mais que bom, obrigada, pode também apoiar com bem pouquinho, só para manter a coisa funcionando. Com um trocado por mês você tem acesso a todo o material que eu posto no Mural (menos a newsletter) e participa dos sorteios.

Essas primeiras duas semanas de newsletter trouxeram um ar de calma à minha rotina, muito mais parecida com a Vida Tranquila que eu sempre busquei. Engraçado isso de tomar café-da-manhã sem postar foto do seu cappuccino. Coisa de gente velha. 

Prometo não mandar nenhum PPT com foto de gatinho na newsletter.

 

VAI LÁ NO MEU APOIA-SE: https://apoia.se/anaelisagranziera

.... 

ENQUANTO ISSO...

...Allex anda empolgado com sua panela elétrica de slow cooking, veja só, e adaptou a receita de chili con carne que eu mencionei no outro post, para ser vegetariana... e ficou maravilhoso! O chili fica ótimo com pãezinhos de milho, com tortilla chips e guacamole, sensacional com sou cream (se você não for vegano), com arroz e abacate, e num Buraco Quente, que é como a gente de São Paulo conhece aquele sanduíche que você faz tirando o miolo de um pão francês e preenchendo o buraco de carne moída com molho. 

Substituir carne por tofu não é golpe de gênio. Mas RALAR o tofu foi. Ele forma os gruminhos que emulam a carne moída e, tendo comido a versão com carne e sem, vou dizer que se você não disser para ninguém, é difícil perceber a troca. 

Quando reclamei do Facebook, falei de vida devagar e pão sourdough. Reclamando do Instagram, deixo um Chili Vegano pra ser cozido bem devagar, em fogo baixo, para apurar o sabor. No dia seguinte, fica melhor ainda. 

Eu postei o link da receita original aqui já, mas agora vou colocar a adaptação traduzida. 

 

CHILI VEGANO DO ALLEX

(adaptado daqui)

Rendimento: seis porções grandes ou mais

 

Ingredientes: 

  • 2 cebolas grandes, picadas (cerca de 3 xic)
  • 1/4 xic azeite ou óleo vegetal
  • 1 colh (sopa) alho picado
  • 2 cenouras, raladas grosso
  • 1,3kg de tofu firme, metade em cubinhos pequenos, metade ralado na parte grossa do ralador (ele vai ralar formando grumos de diferentes tamanhos, e é o que você quer. Alternativamente, você pode esfarelar o tofu com as pontas dos dedos. Não precisa ficar uniforme.)
  • 1/4 xic chili powder*
  • 1 colh (sopa) cominho em pó
  • 2 colh (sopa) páprica
  • 1 colh (sopa) orégano seco
  • pimenta calabresa seca, em flocos, a gosto.
  • 2 xic purê de tomate, passata, ou seu molho de tomate simples favorito
  • 1 1/4 xic água
  • 3 colh (sopa) vinagre de sidra ou o vinagre que você tiver
  • 1 3/4 xic. feijão VERMELHO em lata ou cozido (se não tiver o feijão vermelho, pode ser o preto) 
  • 2 pimentões verdes, sem miolo e sementes, picado (Allex colocou mais um pimentão vermelho também)
  • sal e pimenta-do-reino 

* chili powder, ao contrário do que parece, NÃO É só pimenta em pó. É pimenta caiena, alho em pó,cominho, páprica, orégano, e pode ter outros ingredientes também. Se você não tiver, pode aumentar a quantidade dos outros temperos. Experimente o seu chili powder antes de colocar a quantidade toda. O chili powder daqui realmente NÃO É muito apimentado. Daí a quantidade grande.

Preparo:

  • Numa panela grande e de fundo grosso, aqueça o óleo em fogo médio-baixo, e junte as cebolas e uma pitada de sal, misturando, por 5 a 10 minutos, até que estejam macias. 
  • Junte o alho, a cenoura ralada, e cozinhe por um minuto mais. 
  • Aumente o fogo para médio e junte o tofu em cubos e o ralado grosso, mexendo, até que algumas partes do tofu comecem a dourar. 
  • Junte o chili powder, cominho, páprica, orégano, pimenta, e cozinhe por mais um minuto. 
  • Junte o tomate, água e vinagre, e leve à fervura bem branda, cozinhando, com tampa, por 35-40 minutos. (Se sua panela não for muito pesada, vale a pena dar uma misturada de dez em dez minutos, para garantir que o fundo não está pegando.)
  • Junte os feijões cozidos, pimentões, sal (cerca de 2 colh. chá, mas experimente antes de colocar tudo) e pimenta-do-reino, e cozinhe por mais 15 minutos, ou até que os pimentões estejam macios e o chili esteja cremoso e reduzido o bastante para que você possa comê-lo com tortilla chips sem que ele escorra para fora da tortilla.  
  • Sirva no mesmo dia, no dia seguinte, ou congele para depois, porque ele se conserva muito bem em potes fechados na geladeira ou no freezer. (A receita não pede, mas eu acho que folhas de coentro por cima no final ficaria maravilhoso.)

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

A goteira, o chalé a expectativa (e um pot-au-feu vegetariano)


Tinha uma goteira no meio do meu telhado. No meio do meu telhado tinha uma goteira. Nunca mais vou esquecer de quanto vi aquele lustre cheio d’água, dois meses depois de assinar 25 anos de dívida pra comprar minha casa própria. Com goteira.

Isso é uma foto da luminária da minha cozinha cheia de água. Uhúuuu!

Foi depois de uma semana complicada, de chuva intensa e aquela luz cinza que tira a graça da vida, que descobrimos a infiltração. Um dia que já estava meio ruim, e que deu um jeito de ficar pior. Um dia antes de sairmos para uma viagem que ninguém queria fazer. Um chalé reservado dois anos antes, antes da pandemia e antes de cancelarem a corrida para o qual o chalé havia sido reservado. Uma reserva de improviso, “é o que tem, então vai isso mesmo”, olhando de nariz torcido para aquela foto do chalezim minúsculo, feiozinho e escuro, que parecia um pequenino coletivo de mofo e bed bugs. Uma viagem que, no afã da mudança de casa e cidade, esquecemos de cancelar. Ninguém queria ir, ninguém tinha saco ou vontade, mas ninguém queria perder as muitas doletas pagas por aquela cama pouco convidativa; ainda mais porque a previsão no parque era de chuva. Que é que se faz num parque com chuva? Fica-se trancado no chalezim porqueira, jogando jogo de tabuleiro de cara amarrada. Ieeeeei! Super afim. Mas não dá pra rasgar dinheiro. Não com mortgage pra pagar e telhado pra consertar. Mas como a semana ia de vento em popa, o aplicativo de tempo previa chuva para Ottawa também, e nem que a gente quisesse poderia ir viajar: tem que ficar em casa olhando o pinga-pinga pra trocar o balde e rezar pra deuses antigos pro teto da cozinha não encher d’água e despencar.  

“Amanhã a gente vê o que faz”, disse Allex, tentando fingir que havia alternativa.

A noite foi longa.

A manhã, no entanto, era azul. Surpreendentemente azul, secando rápido a grama encharcada e as poças nas ruas. O tempo virou durante a madrugada e, de repente, não havia mais a menor chance de chuva no fim de semana. Deuses antigos são milagreiros. O empreiteiro me telefonou e disse que viria na segunda-feira. A viagem estava de pé, e não perderíamos o depósito, afinal.

Mas o coração continuava pesado. O desgosto enevoava a vista, e os sinais se embaçavam. Fizemos as malas sem sorrisos, quando as crianças voltaram da escola, e enfiei qualquer coisa na térmica, sem expectativa de ter fome por dois dias, ou mesmos em acreditar que ficaríamos fora tanto tempo.

“Tô estranho”, ele disse. “Não sei dizer o quê. Você tá também com uma sensação esquisita dessa viagem? Tipo que não é pra ir? Sei lá. Qual é seu feeling?”

Respirei fundo. Havia sim uma estranheza, mas eu já não sabia dizer se eu encontrara conforto na miséria ou se pressentia perigo. Fechei os olhos. Quando me perguntei se deveríamos ir, a imagem na parte detrás de minhas pálpebras era um céu estrelado. Uma fogueira à beira do lago. Risadas. Abraços.

“Vamos. Se começar a parecer furada, a gente volta.”

A dez minutos de casa, cada um de nós lembrou que havia esquecido alguma coisa. “É sinal pra gente ficar em casa”, ele disse. “Não é não”, insisti. “A gente vai voltar e pegar tudo, e ficar feliz que a gente lembrou ainda perto de casa. Olha que sorte!”

Conforme nos afastávamos de Ottawa, as nuvens dissipavam e abriam espaço para um céu azul cremoso, esquentando os primeiros dias de outono, fazendo cintilarem as árvores ao longo da estrada que ousaram trocar de cor tão cedo, queimando vermelho, laranja e amarelo em meio à vegetação verde de saudade de verão.


Paramos em Renfrew, uma dessas cicadezinhas minúsculas do interior de Ontario, em que o centro comercial inteiro é só uma rua de três quarteirões, feito filme do velho oeste. A pizza que pedimos num botequim local demoraria 40 minutos para ficar pronta, e por isso nossos olhares se atraíram pela propaganda no café em frente, que dizia “Local Beers Only”.


O café, Ottawa Valley, era charmosinho daquele jeito hipster instagramável, e vendia diversos produtos de artesãos locais. Pedi uma Strawberry Chocolate Stout, Allex, uma BeaverTail Lager, e as crianças ganharam, cada uma, um cupcake. Enquanto elas conversavam com a barista do lado de dentro, Allex e eu curtíamos a luz rosa e amarela do por-do-sol, que desacelera o tempo e suspira sorrisos.

“Começou bem”, eu disse.

“Pensei a mesma coisa.”


Chegamos ao chalé já com noite escura e uma pizza ainda quente no porta-malas. A proprietária abriu uma casinha pequena imersa na noite, surpreendentemente limpa e aconchegante. Por essa eu não esperava.  O chalé mequetrefe da foto era bom na vida real. Normalmente é oposto que ocorre. Meu corpo se encheu de esperança.

Descarregamos logo as malas, e descemos o terreno até o deck onde podíamos acender o fogo, usando lanternas de cabeça para enxergar na noite. “Ainda bem que a gente voltou pra pegar o acendedor e a lenha, porque essa aqui tá molhada de chuva”, Allex dsse. “Tá vendo? Sorte”, lembrei.

O fogo acendeu rápido e iluminou nossos rostos. As crianças usaram seus canivetes para fazer pontas em galhos, onde espetariam marshmallows, dourados na brasa sob a fogueira. Abri uma cerveja trazida de casa, e sentei-me ao lado deles, ouvindo a ondulação do lago escuro contra as pedras, e os grilos tímidos que cantavam ao ritmo do crepitar do fogo. Ousei olhar para cima, relaxando os ombros, e sorri largo, gostoso, ao ver aquele céu tão estrelado, que era como se uma criança tivesse derrubado purpurina no chão. 


“A Ursa maior está lá. Aquele é o rabo dela”, apontei.

“Mas mamãe, urso não tem rabo comprido!”

“Ah, filho, não fui eu que dei nome pra isso.”

“Cadê a lua?”

“Escondida atrás das nuvens ali no horizonte.”

“Queria que a lua saísse.”

“Eu também.”

E os risos das crianças sopraram as nuvens devagar, e, meu peito foi ficando leve. E assistimos, de coração quente, o voo lento da lua detrás do escuro, até surgir inteira, redonda e brilhante. Ela refletiu nas águas do lago, que se tornou visível, e desenhou de prateado morros e árvores, iluminando alegria em nossos rostos.

O que eu havia visualizado estava ali.

Fomos acordados pelas crianças, ávidas para ir lá fora. Seus rostos, grudados à janela que embaçava com sua respiração, eram rosa e amarelo e lilás, como a bruma que cobria o lago no nascer do sol. Quando saí da casa, perdi o fôlego. Era como uma pintura de Turner, aquele sol disforme manchando as nuvens do céu e os vapores que se erguiam do imenso lago, em espectros de cor como o coração de um cristal. 

 Não havia o menor sinal de chuva.

Saímos de carro em busca de café, e foi aos risos nervosos que estacionamos numa loja de conveniência no meio do nada com lugar nenhum. Atrás de pilhas de revistas velhas, produtos de limpeza, chips e chicletes, havia um balcão que se dividia em duas diferentes redes de fast-food, com uma só pessoa atendendo os dois caixas. Ambas as redes cópias de segunda classe de redes de fastfood já de segunda classe. Entre locais que faziam seus pedidos matinais, levamos para casa copos descartáveis com café americano com gosto de cinzeiro, e sanduíches para o almoço que pareciam ter sido encontrados no bolso de trás da calça de alguém.

Mas o céu era azul e a refeição-depressão gerou assunto por todo o tempo que levamos para chegar ao parque e alugar uma canoa. 


A canoa era necessária para atravessarmos o lago Mazinaw em direção a uma ilha imensa, com formações rochosas altas e dramáticas, onde se vê pinturas rupestres. A canoa custava 40 dólares pelo dia todo. Fiquei me perguntando como organizavam a chegada e partida das canoas alugadas ali na ilha. “Custa 40 dólares pra pegar a canoa daqui até a ilha. Mas da ilha até o parque, a canoa custa 400”, brinquei. “É por isso que, lá na ilha, hoje, você encontra uma comunidade de turistas abandonados, que nunca voltaram à terra firme, porque não tinham dinheiro para a canoa de volta.”

Enquanto esperávamos nossa vez, Laura e Thomas apanharam galhos e folhas e pedras, e construíram fortes em volta de formigueiros, para protegê-las de ataques de predadores. Laura, no entanto, tocou qualquer coisa com xixi de gambá, e passou o resto do dia com as mãos fedendo a fossa séptica, não importava quanto álcool gel esfregássemos em seus dedos. Ai, Laura.

Todos esqueceram do fedor assim que entraram no barco. Allex à frente, crianças sentadas no meio, no fundo do barco, e eu na parte de trás. Era a segunda vez que remávamos juntos, e eu tinha certeza de que sabia o que fazer.

Só que não.

Sair da baía de águas calmas foi fácil. Mas assim que entramos no lago, o vento forte começou a mudar a direção do barco, que chacoalhava por cima das ondas com jeito de corredeira. Eu que só tinha remado em descida de rio tranquilo, passei  uma hora e meia ouvindo os comandos desesperados de Allex, tentando me fazer remar pro lado certo. Eu ria. Muito. Mesmo quando uma das ondas bateu com força, entrou no barco, e molhou as calças das crianças e o fundo da minha mochila.

Remamos de forma ridícula pelo estreito raso e tormentoso até uma parte do lago um pouco mais calma, onde pudemos nos aproximar das rochas e ver as pinturas. “Mamãe! Alguém perdeu uma canoa!”, Laura apontou para uma canoazinha amarrada a uma pedra. “Não, filha, olha lá. Amarraram o barco, deixaram a mochila ali um pouco mais pra cima na pedra, e olha lá, bem pra cima, segue aquela corda: olha a moça doida escalando o paredão! Legal, né?”

Voltamos contra a corrente, rindo sem parar de nossa (minha inaptidão), até chegar ao píer da ilha: um deck estreito de metal, desses que balançam junto com a água, com tantas canoas amarradas, que parecia um cacho de bananas.

“Não tem ninguém do parque pra ajudar a gente a sair do barco??”, perguntei.

“Não, ué.”

“Allex! Como é que faz? Como é que a gente ESTACIONA essa geringonça?”

“A gente vai descobrir, ué.”

Meu cérebro estava em branco. Taí uma situação pela qual eu nunca tinha passado antes. A água bravia, o barco balançando e querendo ser levado embora, minha mochila com celular e máquina fotográfica (sem contar os sanduíches mequetrefes), nenhum espaço no píer, alto, na altura da minha testa, também balançando, e nenhum ser humano mais experiente pra dizer o que fazer.

“Pára de panicar, Ana. Rema até encostar aqui na lateral”.

“Mas tá escrito que é proibido docar aqui.”

“É proibido docar. Mas vocês vão sair do barco por aqui.” Eu imaginei a gente saindo do barco e a correnteza levando o barco embora com o Allex dentro, e eu e as crianças integrando a comunidade de turistas sem dinheiro nem barco que vivem no topo da ilha.

“Vai, tô segurando o deck. Laura, sai”. Laura se dependurou no deck, ficou em pé no barco, e saiu. “Thomas, sai.” Thomas saiu. Eu vi meus filhos ali, e imaginei o barco indo embora e meus filhos sendo criados pela comunidade abandonada de turistas, ouvindo histórias de pais malvados que largam criancinhas na ilha e sobre a origem do rabo da Ursa Maior. “Vai, Ana, sai.” Taqueospariu, essa porra vai virar. Dei minha mochila pra Laura, e lá vou eu ficar de pé no barco e sair. Balança, mas não cai. Balança, mas não cai. “Boa. Agora segura a cordinha aqui e puxa o barco até aquela ponta ali, pra eu descer e amarrar.”

Santo Allex e sua habilidade de gerenciar equipes.

Puxo a corda, seguro o barco, ele sai, com muito mais elegância do que eu. Enquanto ele tenta uns três nós diferentes para amarrar nossa única garantia de saída da ilha com aquela cordinha de nylon desfiando, eu peço desculpas por estar no caminho de três canadenses de trinta e poucos anos, todos igualmente barbados e vestidos de camisas de flanela vermelha. Rio por dentro, e imagino que estou sendo recebida pelos nativos da ilha. Eles se entreolham, olham para a miríade de nós que Allex está fazendo, e discutem entre eles como colocar o barco deles na água.

“Pelamordadeusa, barco, não vai embora!”, eu digo, e saímos do caminho, subindo a trilha até o próximo mirante, para comermos nossos sanduíches-depressão. Só ali vejo a extensão da aguaceira do barco. As crianças estão tremendo de frio, depois de uma hora e meia sentados num barco de metal, de calças molhadas. Meus filhos são muito jóia. Não conheço muita gente que manteria o bom humor nessa situação. 


Subimos a trilha que um dia Allex quer fazer correndo (em teoria, ano que vem, se não for cancelada outra vez), até chegar em um mirante de onde víamos todo o parque, e toda a extensão de água que havíamos remado. Quando as crianças deram o primeiro sinal de cansaço – meu alarme apita quando Laura faz duas reclamações completamente sem cabimento uma em seguida da outra – sugeri que voltássemos. Afinal, ainda tínhamos que remar de volta. “E se o barco tiver soltado, mamãe?”

“Ai, filha, a gente vai morar aqui na ilha.”

“Mas a gente não tem comida!”, Thomas disse.

“Eu ainda tenho uma barrinha de cereal. A gente pode dividir. Haha.”

“Ai, mamãe.”

Não vou mentir que existia sim a possibilidade do barco ter saído pra dar uma volta sem a gente. Mas ele estava ali, bonitinho... só que em um lugar diferente. Estava na cara que aquele trio de hipsters canadenses achou que a gente 1. Estava  no meio do caminho do barco deles e 2. Tinha feito merda, e resolveu reamarrar nosso barco de um jeito mais apropriado.

Allex desamarrou o barco, e eu puxei a pontinha dele para perto do deck, no movimento contrário ao que havíamos feito para subir na ilha. Apanhei os coletes salva-vidas, vestimos, e eu fui a primeira a subir no barco, balança mas não cai, balança mas não cai, por favor, que eu não quero perder meu celular nessa aguaceira não. Vieram as crianças, uma a uma, e então Allex. E remamos para longe do píer, e por um minuto pelo menos, pareceu que a gente sabia o que estava fazendo. Vai, Ana, vê se rema pro lado certo.

Clarquenão.

“Cáspita Ana! Não é tão difícil!”, Allex ria.

“É a segunda vez na minha vida que eu tô fazendo isso, e acho que eu tô indo muito bem, obrigada!”

Um dois três turistas, quatro no pequeno barco. Iam navegando pelo lago chacoalhando, quando o vento forte se aproximou. A Ana remou errado quando veio a onda, e o barco quase, quase virou.

Só que não.


Sãos e salvos em terra firme, a gente mal acreditava quão divertido estava sendo aquele dia. Voltamos ao chalé com o dia ainda lindo e sol, apesar da temperatura de inverno brasileiro, e Laura e eu resolvemos nadar. Ela logo desanimou com a água gelada, e trocou minha companhia de sereia congelada pela do pai num caiaque. Que tinha isso que descobrimos, que o aluguel do chalé dava direito a usar canoas, caiaques e outros apetrechos deixados ali à disposição. Os dois foram longe, quase alcançando novamente a ilha que víamos do chalé, e voltaram para trocar Laura por Thomas, os dois felizes de poderem remar dessa vez.

O dia terminou como o anterior, com fogueira e marshmallows, e o chuvisco leve serviu para mandar as crianças para cama, mas não os adultos.  

Como cortar lenha sem cortar seu pé. Isso a escola não ensina.


A intenção era ir embora depois do café, mas o dia nasceu claro e convidativo outra vez, e fomos enrolando o mais possível. As crianças cortaram lenha com o machado, habilidade aprendida no fim da tarde anterior, e então quiseram navegar pelo lago de pedalinho. Eu bem achei que era hora de andar de caiaque pela primeira vez, e deslizei, remando, até me sentir perdida na água preta e funda lá no meio. De novo, quando as crianças cansaram de pedalar e começaram a se cutucar em seu barquinho, lancei mão de altos truques pedagógicos:

“Quem chegar primeiro no píer ganha a última barrinha de cereal!”

E as crianças foram campeãs da regata de alta velocidade, contra pai e mãe que se esforçaram para pegar a corrente e errada e não os alcançar a tempo. Ainda deu tempo de nadar de novo, e de Allex e Thomas tentarem stand-up paddle.

Voltamos tranquilamente, parando em uma cervejaria para almoçar e uma outra cidadezinha minúscula para tomar sorvete antes de chegarmos exaustos e moídos em casa, encontrando um balde vazio onde nenhuma goteira pingara.

A chuva veio assim que fechamos a porta, como se tivéssemos na sexta-feira atravessado, ida e volta, uma fenda espaço-temporal para um universo paralelo. Um universo que nos deu descanso e alegria inesperados, e mais “good old canadian fun” do que jamais imaginamos. Um dia e meio que pareceu uma semana, tanta coisa a gente fez, tanta risada que deu.

E a gente quase não foi.

Talvez a lição a ser aprendida seja sobre expectativas, ou a ausência delas. Talvez seja de não se deixar afundar tanto na sua miséria a ponto de não enxergar mais uma saída. Talvez seja sobre confiar na intuição, ou sobre nunca duvidar que o tempo pode virar de repente. Talvez seja sobre nunca esquecer o acendedor e a lenha seca, vai saber. Ou talvez seja que está todo mundo no mesmo barco, e que enquanto você souber rir da sua bunda molhada e falta de direção, sempre vai ter três hipsters canadenses pra refazer seu nó e não deixar seu barco sair vagando por aí. Vai saber. 

 

....

 Gente linda do meu coração. Só parando para avisar que muito em breve vou lançar uma campanha no Apoie-se, onde você vai poder colaborar não só para que esse espaço do blog continue existindo, como também vai poder receber no seu email outras crônicas inéditas e ilustrações, além de outras novidades. Fique de olho. Enquanto isso, lembre-se de que meu livro Brutta Figura continua à venda nas principais livrarias. Os links para comprá-lo estão lá em cima no blog. Minha loja Etsy está novamente com caricaturas e quadrinhos de maternidade para encomenda. 

Agora falando em expectativas. Eu tinha tão pouca expectativa com esse ensopado de legumes, que nem foto eu tirei. Mas ficou tão maravilhoso, é tão simples, e (em tempos de crise no Brasil) tão barato de fazer, que vou deixar aqui a receita mesmo sem ter fotografado nada. Fica a foto do livro, que eu peguei na biblioteca, só pra você ter uma ideia. O meu ficou bem parecido. Só troquei os aspargos por ervilhas congeladas, já que aqui no Canadá é outono e os aspargos agora estão fora de época. Gente, que ensopado delícia. Apesar do nome da receita original dizer que é um ensopado para clima quente, eu digo que é pra qualquer clima. 

Não se assuste com a quantidade de ingredientes e passos. É realmente simples.

 

Pena que eu não tirei foto do prato que eu fiz. Fora os aspargos, ficou bem com essa carinha mesmo.

POT-AU-FEU DE VEGETAIS para um dia de calor 

(Do livro Around My French Table, de Dorie Greenspan)

Ingredientes:

  • 2 colh (sopa) azeite
  • 2 dentes de alho, fatiados fino
  • 1 cebola, em meias luas finas
  • 1 folha de louro (isso é acréscimo meu, porque usei água ao invés de caldo)
  • 1 alho-poró, sem as partes escuras, cortado em quartos no sentido do comprimento, lavado e cortado em pedaços de 2-3cm
  • Sal e pimenta-do-reino (preta ou branca)
  • 6 batatas pequenas, do tamanho de ovos, em fatias de 1cm
  • 4 cenouras finas, descascadas e cortadas em diagonais de 1cm
  • 3 xic de caldo de legumes, frango ou água (usei água)
  • 1 tira grande de casca de limão, sem a parte branca (use uma faca afiada ou um descascador de legumes)
  • 8 aspargos, sem a parte lenhosa (ou 1 xic de ervilha congelada, que foi o que eu usei, ou vagens inteiras, ou abobrinhas em pedaços, o que você tiver)
  • 4 cogumelos shiitake frescos, grandes, sem o cabo e fatiados
  • 200g espinafre, sem os cabos, e lavado (uns 100g de folhas)
  • 4 ovos

(para o coulis)

  • 2 xic de manjericão, salsinha ou coentro, ou uma mistura dos três, picados grosseiramente
  • 1/2 xic azeite 


Preparo:

  1. Faça o coulis: você pode colocar as ervas e  o azeite no liquidificador, processador, ou mixer, e bater até obter um molho com cara de pesto ralo. OU pode fazer num pilão. Eu bati no liquidificador. Tempere com uma pitada de sal. Transfira para um potinho, tampe e deixe na geladeira até a hora de servir.
  2. Numa panela larga e não muito alta, ou uma frigideira de 30cm de paredes não muito baixas, tipo um wok, aqueça a primeira quantidade do azeite em fogo médio.
  3. Junte o alho, e cozinhe por 1 minuto, até perfumar, sem dourar. Junte a cebola e o alho-poró e o louro, mexendo e temperando com sal e pimenta. Cozinhe por uns 5 minutos, até ficarem bem macios e a cebola começar a pegar cor.
  4. Junte as batatas e as cenouras, misture, tempere com sal e pimenta, e junte a água ou caldo e a tira de casca de limão.
  5. Aumente o fogo pra levar à fervura, e então abaixe novamente, para manter uma fervura branda por uns 10 minutos, ou até que os legumes estejam macios mas ainda al dente, sem se desmancharem. (Quando o prato estiver pronto, você quer que os vegetais tenham textura, e não que vire uma sopa.)
  6. Você pode parar o cozimento agora e retomar algumas horas depois, se precisar.
  7. Enquanto os vegetais estão cozinhando, coloque uma panela de água para ferver. Você pode preparar seus ovos poché ou cozidos, com a gema mais para mole. Fica a seu critério. Lá no meu Instagram tem um destaque com video do ovo poché. Eu também tenho um post aqui no blog ensinando. A única coisa que faço de diferente hoje em dia é fazer um furinho na bunda do ovo com a ponta da faca ou agulha, e mergulhar ele inteiro, com casca, por uns 20 segundos na água que está borbulhando (fervura branda, não louca). Tiro, e aí sim quebro o ovo em cima da água, para que ele cozinhe por 3 minutos mais. Essa "pré-cozida" ajuda a clara a não espalhar na água, e você não precisa fazer o redemoinho, o que é ótimo quando você precisa fazer 4 ovos poché de uma vez.
  8. Reserve os ovos cozidos ou poché. (Você pode colocar os ovos poché em água fria e deixá-los lá até a hora de servir. Na hora de servir, mergulhe-os em água quente por alguns segundos, só pra reaquecer. Eu meio que fui doida e fiz os ovos na hora de servir o prato, tudo ao mesmo tempo. Funciona.)
  9. Na panela com os legumes, junte os aspargos, ervilhas ou qualquer outro legume, e cozinhe por mais 4 minutos. Junte o espinafre, revirando com a colher até ele murche. Acerte o tempero.
  10. Sirva os legumes em pratos fundos, com caldo. Colque um ovo no centro de cada prato, sobre os legumes, e distribua colheradas do coulis de ervas. Um pãozinho pra raspar o caldo no final vai muito bem.

 

 

 

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Uma cozinha que não é só minha, uma costela que não tem receita, e uma sopa de lentilha que não tem foto

 

Estou sentada em minha cadeira Muskoka de imitação (que eu queria muito que fosse de madeira, mas é de plástico), bebericando uma cerveja, e sentindo a última brisa morna do ano tentando virar as páginas do meu livro. "O cheiro do carvão em brasa parece incenso", diz minha vizinha, sempre simpática, ao descer as escadas de sua varanda para catar o gato velho e gordo de volta. Os galhos dos pinheiros se movem devagar. Allex desce os degraus de madeira, rangendo cada uma das tábuas que balançam para lá e para cá com seu movimento, e traz nas mãos um caixote plástico com pratos, facas, tábua de madeira, um pacote de linguiças frescas embaladas em papel de açougueiro, e um outro pacote, maior e mais delicado, contendo seu mais novo projeto de fim de semana.

Ele espalha tudo sobre a mesa com um sorriso concentrado, e vai cuidar do carvão aceso, que precisa ser reordenado na churrasqueira. Tento ler mais umas linhas, enquanto ele abre o pacote especial, revelando uma fileira de costelas de porco cruas, besuntadas em mostarda de Dijon e especiarias. 

"Tá se divertindo?", pergunto. 

Ele responde afirmativamente, e começa a me explicar seus planos para aquela peça. Ele apanha pedaços de madeira de molho em água e cobre o carvão quente, produzindo uma fumaça perfumada. Vou defumar a carne por uma hora, ele diz, e depois besuntar em Guinness e Maple Syrup e embrulhar em papel alumínio. 

"Parece bom. Era o que pedia a receita?"

"Uma delas."

"Eita. Você misturou mais de uma receita?'

"Confia em mim."

Eu resisto à tentação de opinar. Encho a boca de cerveja para engolir as palavras, e abro de novo meu livro, procurando um parágrafo perdido. Entre uma vírgula e outra, ergo a vista para observá-lo, em silêncio. 

Não é novo, esse interesse pela cozinha. O que é novo é minha não-interferência. Ele me pergunta de temos sementes de coentro, e que cara elas têm. Todos os potinhos da despensa têm sementes bege sem identificação. Fora isso, não me atrevo. Já aprendi que se eu dou sossego, ele cozinha mais. E se ele cozinha mais, eu tenho mais sossego. O ciclo Tostines da paz matrimonial. 

 

Antes da costela, foi o Chili con Carne. Minha única contribuição foi sugerir uma receita da Deb Perlman, sempre confiável. Ele passou o dia sendo babá da panela, e eu passei o dia tranquila, fazendo já nem me lembro o quê de tão importante. Para não dizer que não fiz nada, me propus a preparar os cheddar biscuits, dos quais ele não fazia questão no começo, mas que acabaram sendo um maravilhoso acompanhamento para um Chili delicioso.  

Antes ainda, veio o ragù bolognese, da Marcella Hazan, que ele já preparava em quantidades cavalares lá em Toronto, e tínhamos sempre molho congelado para comer com macarrão ou polenta durante o mês. Foi na época do ragù que o moço aprendeu a fazer Lasanha, a massa verde e tudo, e pegou gosto pelo processo de fazer massa fresca. Tanto, que no último ano, fez mais massa que eu.

Entre um festim carnívoro e outro, houve muitos hambúrgueres vegetarianos e pratos prontos e entregas, que resolveram meus dias atrapalhados e cansados sem que eu precisasse pedir. Tê-lo em casa em caráter permanente (pois a empresa manteve o home office), provocou uma mudança de ritmo e expectativas, e, de repente, a casa e o trabalho e as crianças têm um equilíbrio inusitado, mas muito desejado. A roupa aparece lavada, o chão aparece varrido. As crianças não chamam só a mamãe.

Pela primeira vez em muito tempo, eu tenho tempo de verdade para trabalhar. E descansar.


Ele corta uma pontinha da costela a pedido meu, e acha que é hora da fase dois. Pincela o molho sobre a carne dourada, e fecha o pacotinho de alumínio para ficar úmida e macia. "Corta essas linguiças fininho pra gente, e eu vou pegar outra cerveja. Qual você quer?"

"Me surpreenda", é a resposta padrão, quando estou bem humorada. 

Ele sobe a passos felizes para dentro de casa, e eu relaxo contra o espaldar da cadeira. Perna cruzada feito o número 4, os cotovelos apoiados aos braços da cadeira, as mãos segurando o livro aberto, como se eu fosse um homem velho e barrigudo lendo o jornal de domingo na poltrona. Rio alto de uma tirada de Bourdain, no capítulo em que ele está num cruzeiro de luxo. A descrição dos seus bifes e risotos me dão vontade de cozinhar. Mas a vontade passa quando preenchem meu copo vazio com uma cerveja tipo belga do Quebec, e recebo um beijo estalado na boca. Sua cerveja, amor. Obrigada. 

Uma hora, muita conversa, e uns dois capítulos lidos depois, a costela se desmancha à volta dos ossos. Lambo meus dedos como uma criança. Minhas crianças fazem o mesmo. Não há sobras. Faço minha parte, quando o vento esfria e o fim da tarde nos expulsa do quintal, e recolho pratos e copos e condimentos até a cozinha. Ninguém janta. 

"Me passa a receita que você usou pra costela pra eu postar no blog?"

"Vixe, eu inventei tudo. São umas cinco receitas, maior bagunça. Faria tudo diferente."

"Que coisa."

Nas últimas conversas, eu ouço, interessada, seus próximos planos culinários. De repente um curry de legumes, para variar. Divirto-me com sua empolgação. Quisera eu ter sido menos chata e lhe ter dado espaço na cozinha anos atrás. Ele tem jeito para a coisa. Menos controle, menos crítica, e como teria sido ter jantar pronto no fim do dia? Agora eu sei. É bom. É muito bom.

No dia seguinte, enquanto ele leva as crianças ao treino de Jiu-jitsu, preparo no silêncio da casa que interrompo com minha música favorita, uma sopa de lentilhas vegetariana da Alice Waters. Tão boa, que Laura, que não gosta de lentilhas, e Allex, que não gosta de sopa, repetem. 

Se eu estava em busca dos mistérios dessa cozinha nova, encontrei. Reencontrei o prazer da cozinha, compartilhada. 

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Se eu soubesse que essa sopa faria tanto sucesso, teria fotografado. Fazer o quê? Antes de ir para a receita, lembro você de que meu livro, Brutta Figura, continua à venda nas principais livrarias do Brasil, e para envio internacional, no site da editora, Chiado Books. Você encontra todos os links na lateral do blog. Minha loja Etsy continua funcionando, e lá, além de poder comprar originais e versões para download das minhas artes, você também pode encomendar caricaturas em preto-e-branco, e aquarelas para quarto de bebê. Além disso, se você quiser simplesmente colaborar como quiser para que esse blog continue funcionando, pode contribuir no meu PayPal (me pergunte como). Muita coisa legal vem por aí. Meu novo livro, cheio de histórias e, quem sabe, ilustrações também, está terminando de ser escrito, e já estou montando o tão pedido livro do Diário Ilustrado. Isso será possível com tempo, tranquilidade, e, claro, dinheiro de trabalhos realizados, livros vendidos e colaborações. Agora, sopa.

DELICIOSA SOPA DE LENTILHAS COM ESPECIARIAS

(do livro My Pantry, da Alice Waters)

Rendimento: 4 pessoas

Ingredientes:

  • 1 1/2 xic. lentilhas
  • 2 colh (sopa) azeite
  • 1 cebola pequena, picada
  • 1 cenoura pequena, picada
  • 1 talo de salsão pequeno, picado
  • Sal e pimenta do reino
  • 2 ou 3 dentes de alho, fatiados fino
  • 1 colh (chá) sementes de cominho
  • 3/4 colh (chá) sementes de coentro
  • 1/4 colh (chá) pimenta caiena
  • 2 litros de caldo de legumes, frango, carne ou água (usei água)
  • 1 maço de espinafre, apenas as folhas, grosseiramente rasgadas
  • Limão, para espremer
  • 1/2 xic coentro picado grosseiramente
  • Iogurte, para servir


Preparo:

  1. Aqueça uma frigideira e coloque as sementes de cominho e coentro, mexendo até que tostem ligeiramente e fiquem perfumadas, sem queimarem. Passe para um pilão e moa. Reserve.
  2. Numa panela grande, aqueça o azeite e junte a cebola, cenoura e salsão. Tempere com sal e pimenta e cozinhe em fogo médio, mexendo, por cinco a dez minutos, até que estejam macios. 
  3. Junte as especiarias e o alho e misture, até sentir o perfume do alho. 
  4. Junte as lentilhas, o caldo ou água, e mais uma pitada de sal. Leve à fervura, abaixe o fogo e cozinhe por 25-40 minutos, retirando a espuma da superfície com uma escumadeira. Quando as lentilhas estiverem macias e desmanchando, está pronto.
  5. Junte o espinafre, mexa, e cozinhe apenas até que as folhas murchem na sopa. Desligue o fogo, ajuste o tempero, e apenas antes de servir, esprema um pouco de limão a gosto, polvilhe com o coentro, e sirva com uma colher de iogurte no centro do prato. 



segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Você está pronta?


Na maratona de Toronto, em 2019, a piada era "Você está correndo tudo isso por uma banana!"

"Você está pronta?", perguntou Allex, com a câmera na mão, apontada para mim. A lente escura refletia um sorriso nervoso escondido pela máscara, e a lenta movimentação dos corredores pelo gramado, em direção às bandeiras que marcavam a largada. 

"Claro que não", respondi, sincera. "Mas quem é que está pronto pra qualquer coisa, de verdade?"

Um beijo. 

Boa sorte. 

A corrida aconteceu no Dundas Valley Conservation Area, um parque nos arredores de Hamilton, Ontario, no cinturão verde da Grande Toronto. Allex havia dirigido cinco horas e meia no dia anterior até o hotel ali perto, desde Ottawa, para que eu pudesse participar dessa corrida, que deveria ter acontecido em 2020, o ano cancelado. O ano em que quebrei um pé, torci um tornozelo, tive fascite plantar e fiquei seis meses sem correr. Mas ali estava eu, correndo. Devagar, "taking my time, pacing myself", olhando o formato dos troncos das árvores se entrelaçando sobre aquela trilha larga, aquela estradinha de terra e cascalho, ouvindo o pio dos passarinhos e o guinchar repetitivo dos esquilos, assustados com aqueles sessenta potenciais predadores fazendo barulho com seus tênis coloridos, suas garrafas d'água e o bater empolgado de palmas.

Já Foram 5km. Agora é só fazer isso dez vezes. Hahaha


O arco dos pés doía, mas não me deixei preocupar. Vai passar. É a tensão da viagem de carro e da noite mal dormida. Meu corpo se ajustava à corrida, como sempre se ajusta nos primeiros quilômetros. O quadril busca encaixe, os joelhos e pés sincronizam o girar dos ossos, estico o pescoço para olhar o horizonte de queixo erguido, e a coluna encontra seu prumo, como aqueles cursos de etiqueta feminina de 1950: chupa a barriga, contrai o bumbum; equilibra esse livro no topo da cabeça e vai, graciosa.

Graciosidade não é meu forte, mas perto do quilômetro dez, meu corpo entende que pretendo fazê-lo se mover daquela forma por muito tempo, e sinto os músculos dos ombros relaxando. É como uma onda num mar morno, descendo do pescoço à ponta dos pés. A tensão se dissolve e de repente não preciso mais pensar os movimentos. Eles acontecem, naturalmente, e minha mente dispersa para o verde molhado à minha volta. 

Faz 35oC. A estrada parece um rio, meus braços e pernas nadando da umidade do ar que encharca minha pele. A atmosfera densa é como areia movediça, pesando para baixo e me impedindo de prosseguir. A água que carrego comigo desaparece em minha boca e minha nuca. A equipe que organizou a prova está preocupada. A onda de calor veio inesperada. Médicos de coletes amarelo-fluorescente acompanham a trilha em bicicletas, procurando por quem possa estar passando mal.

Eles avisam que, pela primeira vez, quem quiser desistir da prova na metade vai ganhar medalha mesmo assim. 

Totem com corvo em Marmora, cidade onde paramos para almoçar.

Enxugo o suor no buff enrolado ao braço e sorrio. Vai dar tudo certo. Deu tudo certo até agora. A viagem até ali foi divertida. Contrariei os ímpetos de planejamento do marido e improvisei uma parada numa cidade desconhecida para almoçar. Boa pizza e sorvete no parque. Splash Pad para refrescar. Segue viagem. Deu tempo de pegar o kit de corrida antes de ir para o hotel. Hotel lindo, tudo novinho. Crianças felizes por poderem passear de novo, depois de quase dois anos. Pula na cama. Mas não tem piscina. Não tem, por causa do Covid. Precisa reservar horário, e é só uma família por vez, mas já está lotado. Pra hoje, só amanhã. Não são só as crianças que se decepcionam. Depois de tantas horas sentada no carro, eu queria flutuar em águas mornas para relaxar a musculatura antes de dormir. Enquanto buscamos  as mochilas no carro, penso: "Alguém vai cancelar, porque eu quero nadar hoje". De volta ao hotel, a recepcionista acena: "Houve um cancelamento! Posso botar o nome de vocês para a piscina às nove?"

Café da manhã dos campeões. Mingau de aveia e café.


Unagui, já disse Ross Geller. 

Piscina. Uma cerveja no pátio do hotel antes de dormir. Deu tudo certo.

Olho o visor embaçado do relógio: 11km e tudo vai bem. Tudo deu certo e vai continuar dando certo. O calor não vai ser um problema. Vai na manha. Bebe água. Come a primeira bananinha. Bananinha, aquele doce de banana escuro recoberto de açúcar, com gosto de infância brasileira, e que minha mãe sempre traz ao Canadá aos montes, porque é um bocadinho maravilhoso para comer durante as corridas longas, quando a energia baixa. Uma bananinha a cada 10km, como fiz na Maratona de Toronto.

Pronto, olha que maravilha. Nem parece que você está subindo uma ladeira. Está indo tudo bem. Seu tempo está ótimo. Você vai terminar a prova. Mas não, não pensa em terminar a prova. Falta muito ainda, se você ficar pensando em quanto falta, vai entrar em pânico. Não, só precisa chegar até a próxima estação de água. Um pedacinho por vez. Assobio enquanto corro, como sempre faço, para manter a velocidade constante e a respiração regular. E porque é divertido. Segundo meu filho, é preciso se divertir na vida enquanto você está vivo, ou quando você morrer, sua vida terá sido muito chata. Sábio Thomas. 

"She's a maniac, maniac, oh no no. And she's dancing like she's never danced before!"

Canto alto. Não há ninguém à minha volta. Aos 15km, os corredores dispersaram pela trilha. Às vezes ultrapasso um. Às vezes uns dois vêm na direção contrária, já no retorno da primeira volta. "Good work!", eles dizem. Com o tempo, esses encontros ficarão mais motivacionais, entre respirações entrecortadas: "You're doing great! Keep on going!". 

A Foxtail Hundred é a prova de trail running mais reta do Canadá. Reta no percurso e na altimetria: apenas 189 metros de elevação total, numa estrada de terra bastante larga, muitas vezes aberta ao sol. O que quer dizer que ela não tem montanhas nem ladeiras íngremes. Excelente para iniciantes. Não fosse pelo calor. A largada aconteceu no meio do percurso, e a prova consistia em idas e voltas. Uma ida e volta até uma estação de água a 5km de distância, e outra ida e volta até a outra estação a 7,5km, totalizando uma volta de 25km. Cada corredor faria quantas voltas fossem necessárias para completar a distância em que se havia inscrito. Havia pessoas cruzando meu caminho que completariam 100km. Outras, 100 milhas (160km) e algumas 50 milhas (80 km). Eu me sentia café com leite. Eu e mais trina e quatro outros corredores faríamos o percurso duas vezes, totalizando "apenas" 50km. 

Você só precisa chegar na estação de água, pensei. São só 7,5km. Você faz 7,5km. Olhe a floresta na ravina. Ouça o Cardinal e o Chickadee. Você está aqui. Fique aqui. Fique agora. Não deixe a mente dispersar para problemas que não estão aqui. Não pense em depois. Não pense no que foi. Sinta os cascalhos sob os pés. O cheiro da terra quente e do carvão fumegando num quintal distante. As cigarras estão cantando. Há um pica-pau preto-e-branco, com um desenho intrincado nas penas das costas, no alto de um carvalho jovem enrolado em videiras carregadas de uvas selvagens azedas demais para se comer. 

"Good job!", sorri uma mulher numa bicicleta, passando por mim. "É uma corrida?", pergunta uma senhora pequena, curiosa com a bandeirola cor-de-laranja pendurada num galho de árvore ao lado da estrada. 

A estação de água parece um oásis. Esvazio o resto da minha garrafa sobre minha nuca quente, e preencho metade dela com uma bebida isotônica sabor artificial de laranja. Consigo sentir os sais minerais preenchendo lugares vazios em meu corpo. A equipe oferece gelo, para abaixar a temperatura do corpo. Enrolo uns pedaços no buff, que vai ao redor do pescoço. O gelo apoiado à nuca me provoca arrepios. Apanho mais umas outras pedras e, rindo deslizo para dentro do top. Ar condicionado pessoal. Tchoc, tchoc, tchoc, faz o gelo dentro do top. Não faz mais sentido ficar de camiseta. Arranco a regata que me pesa e amarro à pochete que carrega a garrafa, o celular e as bananinhas. Há muitos anos que não estou na minha melhor forma estética. Meu excesso sobra por cima do elástico da legging preta. Quem se importa? Meu corpo é forte e está correndo sob o sol, e por isso é lindo como ele é. Meu corpo funciona. Eu me lembro de quando ele não funcionou. Um corpo que funciona é maravilhoso.

Agradeço à equipe e começo a voltar para o meio do caminho, empolgada com a perspectiva de começar o segundo loop.

Aos 21km, corro solta, e meu corpo parece ter se conformado com a distância. Não há mais dúvida: minhas pernas sabem que vamos correr longe. Faço 25km em menos de três horas, o que é empolgante.Talvez eu consiga fazer 50km em menos de 6. Vamos ver. Talvez se eu acelerar um pouco. Isso, vou correr mais rápido. Olha só, estou indo super rápido. Pára. Pára tudo. Você está louca? Faz 36oC sob o sol do meio dia, e a última refeição que você fez foi um pratinho de mingau às nove da manhã. Vai com calma. Você nunca fez isso. O importante é terminar. E terminar bem, sem se machucar. Que é que tempo importa? O que você está tentando provar? E para quem? Isso é seu ego falando, tentando ferrar com você. Vai na manha. Está quente pra burro. Bebe água. Esfria o corpo. Vai. Na. Manha. Devagar e sempre.

Na estação da largada, do meio do caminho, há uma bica. Abro a torneira e enfio a cabeça inteira embaixo da água gelada, que resfria minha pele em ebulição e me acorda como café de manhã. É como se tivesse começado a correr agora. 

Vai na manha. 

Começo a segunda volta assobiando outra música: "Slow ride...Take it easy..." 

O céu começa a encobrir, e a sombra cinzenta das nuvens escurece a trilha mas não traz descanso. A chuva é uma promessa sem lastro, que não se cumpre, apenas oprime meu corpo, tornando o ar mais denso, como um cobertor molhado. Enxugo o suor que escorre por minha testa e é recolhido por minhas sobrancelhas, apenas para despencar numa gota gorda pela curva de meu nariz e em direção a meus olhos. O sal arde minha vista feito água do mar. 

Começo a me lembrar das trilhas onde vinha correndo, em Ottawa. A Trans-Canadian Trail, uma trilha larga que corta o país de ponta a ponta, era exatamente como aquele caminho da prova. Terra seca, poeirenta, grudando nas panturrilhas e entrando pelo nariz. Cascalho que rola sob os pés. E uma retidão falsa, que engana, que causa um cansaço que vem não sei de onde, até você se dar conta de que há uma ligeira inclinação, pequena mas constante, por quilômetros e quilômetros, que vai acumulando no esforço das panturrilhas que te empurram num invisível morro acima. Dou-me conta de que quase todo aquele percurso de 5km até a estação de água é uma ladeira como a Trans-Canadian.

Mais água, mais isotônico, mais gelo. A volta é ladeira abaixo, e solto o corpo. As nuvens liberam meia dúzia de gotas finas que evaporam tão logo tocam meus ombros, quentes como asfalto no sol. Resta um calor grudento e pesado, cheirando a pântano, como o bafo de um cachorro grande antes de lamber seu rosto. Olho o relógio. 32km. Quem corre maratonas chama essa marca de "O Paredão". The Wall. Se você vai quebrar durante uma maratona, há grandes chances que seja no quilômetro 32. Passo por esses números alegre. Meu corpo está bem. Eu estou bem. Está tudo bem. Eu não vou quebrar. Não vou. Mas quem disse? Há quanto tempo você não corre mais que 32km? Você correu exatamente 32 lá em Ottawa  na semana passada e ficou exausta. Você já está exausta. E ainda tem que correr mais 18km! DEZOITO! Sabe quanto é isso? Onde você estava com a cabeça quando se inscreveu nessa prova? Você fez  UMA maratona há dois anos atrás! Ficou seis meses sem correr. Você tem fascite plantar! Isso com certeza vai arrebentar seu pé pra sempre! Tá sentido essa dor na lateral dos joelhos? Isso é DESPREPARO. Você não fez os agachamentos que deveria ter feito. Você vai quebrar. Fez duas corridas de 30km nos últimos seis meses e acha que vai fazer 50km? Você é idiota? 

CALA A BOCA! CALA A MERDA DA SUA BOCA!

Está tudo bem. Pernas, vocês conseguem. Ali na frente está a estação de água de novo, e a gente vai completar 35km. E vai ficar tudo bem. Eu ainda tenho fôlego. Eu consigo cantar enquanto corro. Vocês estão cansadinhas, pernas, mas se vocês me ajudarem nessa, eu vou tratar vocês muito bem depois. Vai ter massagem, vai ter creminho, vai ter banho de banheira e muito descanso. Vocês conseguem. 


Mas as pernas doíam. Eu lembrava daquilo, de como o corpo muda depois dos trinta e poucos quilômetros. Lembrei de como me senti aos 37km na Maratona de Toronto. Aquela sensação de musculatura enrijecendo, movimentos travando, feito engrenagens sem óleo. Pensei em Murakami. Em como ele descreve suas ultra-maratonas.Em como ele se convence de que seu corpo é uma máquina que não sente, para assim seguir em frente. 

Mas eu não sou uma máquina. Meu corpo é de carne, e é natural, é selvagem. Meu corpo foi feito para isso. Minhas pernas foram feitas para correr na floresta. É minha mente, meu racional, meu ego de apartamento e televisão que quer me convencer do contrário. Inspira fundo. Traz atenção para a fontanela, aquele pontinho no topo da sua cabeça. Fica lá. Você não é seu corpo. Você é essa floresta inteira. Você não é o seu corpo. Deixa ele seguir. Sente esse formigamento no topo da cabeça. Esse calor gelado, essa luz. Só vai. 

"Slow ride.. Take it easy..."

Quando atravesso o meio do caminho novamente, ouvindo as palmas de quem assiste, olho com desejo para a estrada do outro lado. A última volta. "You're almost there!", gritam."You're doing great!" 

Mas de repente há uma ladeira ali. Como eu não havia percebido que esse caminho tinha um inclinação, na primeira vez em que passei por lá? Assim como o braço de 5km, aquele era uma ladeira constante que se estendia por 7,5km até a estação de água. Os 7,5km mais longos de minha vida. Diminuí o passo e segui correndo, ou me movimentando da forma mais semelhante a uma corrida possível, estrada acima. Muitos participantes andavam. Alguns estrategicamente, outros com olhares desistentes. O calor nos arrastava, como se tentássemos escalar um paredão de lama. Os pés quase não saíam do chão. Minhas panturrilhas ardiam.

Você vai quebrar. Eu falei que você ia quebrar. 

Não vou.

Vai sim. Não vai nem completar uma maratona. Você vai ver.

Você não sabe de nada. Eu vou terminar a prova. 

Olha que vergonha, subir uma ladeira a 9min/km. 

Mas eu vou terminar.

Você não vai fazer em menos de 6 horas.Que vergonha.

Foda-se. Eu vou terminar. Não me importa o tempo. 

Suas panturrilhas vão rasgar ao meio. Você vai ter uma lesão e nunca mais vai correr. 

Fontanela. Fica na fontanela. Eu só preciso chegar na estação de água. Se eu chegar na estação de água, eu sou obrigada a voltar. É assim que eu sempre corri longe. Eu vou e sou obrigada a voltar. Se eu corri 5km pra longe de casa, eu tenho que voltar, e aí eu corri 10km. Se eu correr 15km, na verdade corri 30km. Quando você chegar na estação de água, já fez os 50km. Terminou. Nem que você tenha que andar os últimos 7km. Você fez. Você conseguiu. Fontanela. Fontanela. 

Vai dar tudo certo. Olha em volta. Fica aqui. Fica agora. Olha os gafanhotos abrindo asas de borboletas à sua volta. Ouve as folhas.

Os 42km chegaram no meio da ladeira. E a partir daí o território era desconhecido. Nunca havia corrido mais do que 42km. Meu corpo, de repente, não sabia o que fazer com aquilo, como se comportar, como continuar. Mas eu ria. Eu ainda tinha fôlego e energia. Eu havia corrido 42km. Uma maratona inteira. Cada passo extra que eu dava, repetia: "você é uma ultramaratonista; você é uma ultramaratonista".A míseros 1,5km de distância a estação de água me esperava. Eu podia continuar correndo aqueles 1,5km ladeira acima, sem saber o que aconteceriam nos últimos 7,5, para provar um ponto a meu ego ferido que não me permitia andar, ou poderia apanhar minha última bananinha e comer com calma, caminhando um pouco, para me preparar para o final.

O que era mais importante?

O quê?

Apanhei minha bananinha e comecei a andar aquele último quilômetro até a estação de água. "You're almost there!", gritavam os que desciam na direção contrária. Meus passos se alargavam e galgavam mais distância, enquanto eu mastigava e terminava de beber o que ainda havia de água em minha garrafa. Eu ultrapassava outros corredores que se arrastavam, pálidos, na lateral da estrada. "Good job!", eu dizia. "We are almost done!"

Chegar à estação encheu meu corpo de energia, como seu pudesse absorver alegria pelos pés. 

"Are you ok?", perguntou um rapaz da equipe. Pergunta padrão para todos os corredores que chegavam. 

"Eu estou excelente, na verdade. Da cintura pra cima, estou fantástica. O problema é que minhas pernas não concordam!", eu ri. "Mas essa é a última vez que eu vejo vocês!", brinquei. 

"É seu último loop? Ieeei! Parabéns!"

"Descer agora vai parecer que você está em alta velocidade!", disse uma corredora que fazia 160km, e já estava em seu terceiro ou quarto loop. 

"Você quer água ou isotônico? Quer gelo?", ofereceu uma mulher da equipe. 

"Quero tudo. Mas o que eu queria mesmo era uma cerveja!" Ela riu. "Próxima vez, vocês tem que fazer um "bonus track", em que o corredor termina a prova, mas se correr até aqui de novo, ganha cerveja!"

"Boa ideia! Hahah! Quanto você está fazendo?"

"50km. É minha primeira vez."

"Uuuuuuh. Dia difícil pra tentar 50 pela primeira vez."

"Pois é."

Agradeci à equipe e comecei a descida. Alguns passos. Você já terminou. É só descer. Você conseguiu. Sorria. Sorrir relaxa. Deixa a alegria vir. Você conseguiu.

Minhas pernas soltaram, devagar. Eu estava correndo de novo. Eu estava correndo bem. Surpreendentemente bem. No mesmo ritmo em que eu começara aquela corrida, mais de seis horas antes. Faltam 7km. Você consegue. Aqui. Agora. Sente essa brisa soprando de repente. Ergue os braços. Que delícia. Ouça o Cardinal. Assobie de volta. Faltam 6. Um corvo sobrevoa minha cabeça e para num galho nu à minha frente. Faltam 5,5. Se joga. Você conseguiu. Você conseguiu. Divirta-se. Faltam 4. Puta que pariu, você correu 50km. Faltam 3. Você disse que ia fazer, você foi lá e fez. Faltam 2. Você é uma ultramaratonista. Sabia disso? 50km! Sabe quanto é isso! É muita coisa! Falta 1km.UM QUILÔMETRO. Corre. Corre solto. Você consegue ver a linha de chegada. Aquele de camiseta amarela é seu filho! Vai, corre!

"Corre comigo até a chegada, Thomas!"

Palmas. Torcida. Estou voando. "É a mamãe!", grita Laura. Meu rosto se abre num sorriso grande que faz minha cabeça formigar. Passo pela linha de chegada com três passos largos que me fazem quase cair sobre o organizador que me esperava com a medalha de participação. "Congratulations! You've done it!" Eu esqueço de parar o tempo no meu relógio, porque o tempo, de verdade, não importa. 

50km. 

Depois de um ano acreditando que meu corpo havia começado algum estranho processo de decomposição e esfarelamento que jamais me permitiria correr novamente. Um ano em que minha mente me convenceu de que eu não conseguiria. 50km. 50km para me dar conta de que minha mente tem esse poder de me quebrar e me reconstruir, e que eu só preciso colocar a atenção no lugar certo. Não é o corpo que desiste. É a cabeça.

Fica aqui. Fica agora. Você consegue. 

"E aí? Foi difícil?"

Olho para Allex e rio. Laura tenta me abraçar mas desiste quando me vê grudenta. 

"Foi. Mas foi muito bom."

"Você correu 50km."

"Pois é. Na verdade, 51,5km. Tinha a margem de erro."

"Você correu tudo?"

"Andei 1km, no fim da ladeira do 42 pro 43. Então dos 51km, eu corri 50 e andei 1. Haha"

"Boa. Vem. Eu te trouxe comida. Vou te levar numa cervejaria pra gente comemorar antes de ir pra casa." 

"Oba!"

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

O lado de fora


"Vai pra rua e volta na hora do almoço!", minha mãe ouvia quando criança, nos idos de 1900 e Guaraná com rolha. Rio alto quando ouço a frase deixando minha boca, num berro já semi-ouvido alcançando orelhas já idas na distância. 

"Vai brincar lá fora, que o dia tá bonito e logo logo é inverno", Allex emenda. Terrorismo climático aplicado ao parenting.

No primeiro dia em que as crianças sumiram, ficamos inquietos. Nossa casa fica num "Crescent", que é como chamam essas ruas que levam nada a lugar nenhum, onde não passa ônibus, só tráfego local. Rua tranquila, com jeito de vila do Chaves. As casas aqui não têm muros. Muitos dos quintais, inclusive o nosso, são abertos, com cercas que nos separam dos vizinhos, mas não do trecho de bosque que corre atrás das casas. "Lá fora" é um conceito amplo, pois não tem limites. Lá fora é a rua, é o quintal, é o bosque, é o parquinho da rua de trás, é o quintal do vizinho, o jardim da frente do amigo, a trilha que leva ao mercado. E enquanto eu bebericava minha caipirinha de domingo no lado de fora que eu considero o quintal, e Allex colocava o queijo Haloumi (que bem substitui o Coalho) na churrasqueira, nos perguntávamos quando as crianças pretendiam voltar pra casa. 

"Vão voltar quando tiverem fome", sugeri. 

"Espero que sim", respondeu.

"Acho que é assim que se sente mãe de adolescente."

"Vai se acostumando." 

A alegria de uma rede.

Demorou um dia inteiro de mudança para tirar as crianças do apartamento, mas uma semana inteira para tirar o apartamento de dentro das crianças. Na primeira semana, aproveitaram os seus quartos, cada um com o seu, pela primeira vez na vida. Desapareceram em seus mundos de Lego, gibis, cadernos e lápis de cor. Os adultos, com trabalho pra fazer, móveis pra montar, casa pra limpar, agradeceram esse momento introvertido dos pimpolhos. 

Conforme a casa foi tomando forma, porém, ficou claro que nossos filhos já não se lembravam de como era morar em uma casa-casa. A lembrança do quintal da casa do Brasil e a rua do condomínio era muito longínqua. Os últimos quatro anos de apartamento-gaiola cortaram as pontas de suas asas, e agora era preciso ensiná-los a voar novamente.

Rio Ottawa.

Vocês sabem que vocês podem ir no quintal quando quiserem, né?

Vocês sabem que podem brincar no bosque, né?

Vocês sabem que podem brincar na rua, né?

Vocês sabem que podem pegar a bicicleta e explorar o bairro, né? 

É só avisar que está saindo, dizer aonde vai e a que horas volta. 

Vai sair pra andar. Nem precisa ser de bicicleta.

Dá uma volta no quarteirão. Aí dá uma volta ao contrário. Aí vai até a próxima rua. Lê o nome na placa. Olha pra trás pra saber voltar, que nem na trilha. 

Você sabe o seu endereço de cor? Pra perguntar o caminho, se precisar? 

Só não pode entrar na casa de ninguém, tá? Nem no carro.

Vai, pode ir. Olha quanta criança da idade de vocês andando sozinha tem por aqui! 

Sai. Vai lá falar com as crianças. Pode brincar. Tudo bem que é depois do jantar. Criançada aqui sai pra brincar mais tarde mesmo. Vai lá fazer amigos.Volta às nove. 

Em dois dias, os dois já tinham aprendido o que era ser livre. Porque liberdade tem disso de não matar sede com gole pequeno. Depois do café, pulam pro quintal da vizinha para fazer carinho nos gatos. Depois do almoço, correm para a casa da esquina para chamar os novos amigos. Desaparecem por duas, três horas, e voltam para pegar a arminha de água, fazer xixi ou devolver a bicicleta na garagem. E, de repente, há um estranho silêncio e uma ausência boa de infância acontecendo, em algum lugar, sem a constante supervisão parental que foi tão estressante durante o último ano e meio de escola online. 

O momento agora é de parar e escutar e entender o novo ritmo que a casa pede, pois cada casa dança de um jeito. Essa casa baila gostoso. Respeita as pausas. Minha cozinha tem sentido isso, ou eu tenho sentido minha cozinha assim. Essa casa, no verão, pede comida no jardim. Pede churrasco e acepipes, comida leve e sem horário. Come-se quando se tem fome. Aquela rigidez de outrora dispersou no vento. As crianças curtem a noite clara dos dias longos de verão, e me alimento dos risos que entram pela janela, enquanto invento um jantar com alguma coisa que comprei meia hora antes no mercado, no improviso do meu apetite imediato. A brincadeira acaba quando a luz muda através do galhos das árvores. Janta-se à mesa da sala de jantar. Muito adulto, sala de jantar. Banho e cama. Às vezes às nove. Às vezes às onze, que eles estão brincando tranquilos no quarto, ou vendo desenho na sala, e eu só quero continuar o papo lá fora, ouvindo o som estalado dos troncos das árvores balançando no vento, e estapeando os vorazes mosquitos canadenses que insistem em se alimentar de minhas pernas. 

 Só os mosquitos continuam "snacking". 

"Posso ter um snack?", foi a frase que mais ouvi durante o ano e meio de quarentena. Criança entediada matando tédio com a boca. Conheço bem. Fui a rainha de lanchar tédio durante minha primeira década de vida. Lá fora, ninguém lembra de fazer lanche. E quando o estômago está nas costas, que coincidência, é justo a hora de sentar pra comer. Refeição-refeição. Cafe, almoço, jantar. 

Talvez seja a cozinha diferente que ainda não se abriu pra mim, talvez seja o mercado novo que pouco conheço. Mas minha geladeira anda vazia de qualquer coisa que não seja de café da manhã. No meio do dia me dá umas vontades, e sigo o cheiro delas até o mercado. Compro o que quero comer, volto, preparo, como. No dia seguinte, tudo de novo. Feito descobrir trilha no parque, vou andando devagar pelas comidas que essa casa pede. Entre um churrasco e outro, um macarrão. Arrisco um peixe, mas já deu pra ver que o forte desse mercado não é peixe não. Bora lá achar peixeiro longe. Ando a esmo pelo mercado, sem imaginar prato nenhum. Falta inspiração. Tipo fotógrafo que ainda não achou o ângulo, que ainda não entendeu a luz. 

Tentando decifrar fomes e ingredientes na luz da minha cozinha.
 

Nesta manhã, vou ao mercado pegar ovos, e dou de cara com favas. Favas! Que não encontro desde que me mudei para o Canadá, e que já confundi com pacotinhos de edamame um sem número de vezes. Favas! Lembro que tenho Pecorino na geladeira.Fava fresca com pecorino! Olho os tomates coloridos e apanho uma Burrata. Abobrinhas para rechear. Alcachofras! Uma miríade de pratos que eu gostava de preparar me vêm à mente de repente, uma enxurrada de memórias do meu primeiro apartamento e da casa no Brasil. É inspiração que faltava? Achei.

Essa casa tem disso, de parecer um amálgama de todos os lugares em que morei. Parece que moro aqui há décadas. O crocitar dos corvos ao fim do dia desperta criaturas adormecidas. Lembranças de quem fui brotam da terra onde danço descalça. Surpreendo-me fazendo coisas como se nunca tivesse deixado de fazê-las, como quem por acaso encontra conhecidos em viagens ao exterior. Nossa, você por aqui! Quanto tempo! 

Encontro o lado de fora, meu velho conhecido, amigo distante que admirei naquela viagem à Itália que virou livro (já comprou o seu?), e ele me olha e olho para ele, e nos abraçamos forte, a memória muscular daquela liberdade, daquele ar, daquele céu, fazendo cócegas em minha alma. Minha alma se alimenta de árvores ao vento e passarinhos, de um chá silencioso refletindo nuvens.

Iogurte com fruta e chá depois da corrida, e uma enxurrada de lembranças de quem eu sou.
 

Retorno. Resgate. Pode uma sensação ser concreta? A roda dando a volta completa. Que nem filme de fantasia, quando a engrenagem estala e uma porta secreta é aberta. 

No meio da tarde, as crianças aparecem, assim, vindas pelo lado de trás, do bosque para o quintal. 

"Tem almoço? Tô com fome."

"Falei que eles viriam quando tivessem fome! Tem sim. Tem milho, queijo coalho, linguiça."

"A gente pode ir lá fora de novo depois de comer?"

"Claro que pode. Volta às nove."

....

 

Num momento inspirado, apanhei o livro da Suzanne Goin para preparar essa salada de tomates, que, de verdade, é mais sugestão que receita. Às vezes, tomate com sal basta. Às vezes, vale a pena ser meio metida à besta. 

SALADA DE TOMATES METIDA À BESTA

(quase nada adaptada do livro Sunday Suppers at Lucques, de Suzanne Goin)
Rendimento: 6 pessoas

Ingredientes: 

  • 150g pão amanhecido, rasgado em pedacinhos
  • 1/2xic. azeite
  • 1 colh (sopa) orégano seco (eu não tinha e usei tomilho fresco)
  • 1/2 dente de alho
  • 1 1/2 colh (sopa) de vinagre de vinho tinto (usei de maçã, tanto faz)
  • 1 colh (sopa) vinagre balsâmico
  • 1,5kg tomates de cores e formas diferentes, ou simplesmente os tomates mais bonitos e maduros que você encontrar
  • 1 colh (chá) sal
  • um punhado de folhas de manjericão (pode ser de cores diferentes, ou todas iguais)
  • 500g burrata ou mozzarella de búfala
  • 1/2 xic. echalotas fatiadas fino (ou cebola roxa)
  • 1/4 xic. salsinha picada (confesso que esqueci de colocar e não fez falta)
  • pimenta-do-reino a gosto

Preparo:

  1. Coloque duas colh. (sopa) do azeite numa frigideira que comporte todos os pedacinhos de pão e leve a fogo médio, misturando às vezes, até que todos os pedacinhos estejam agradavelmente dourados. Tire do fogo e reserve os croutons. 
  2. Num pilão ou mini processador, bata o orégano (ou tomilho), alho, 1/4 colh (chá) sal até virar uma pasta. Junte os vinagres, e misture até que a pasta se dissolva neles. Misture 6 colh. (sopa) de azeite, experimente e acerte o tempero. 
  3. Corte os tomates em fatias ou cunhas ou ao meio, dependendo de seu tamanho e formato, retirando qualquer parte verde e dura próxima ao centro. Tempere os tomates com uma pitada de sal. Disponha os tomates na travessa onde você vai servir a salada, intercalando formas e tamanhos, colocando alguns pedaços da burrata ou mozzarella entre os tomates, e temperando com metade vinagrete. 
  4. Polvilhe a salada com as echalotas fatiadas, os croutons, as ervas (manjericão e salsinha) uma pitada de sal e pimenta e o restante do vinagrete. Sirva.


Cozinhe isso também!

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