segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Soufflé de terça-feira

Faltava me deixar ir. Faltava soltar das beiradas, para aprender a nadar. Antes de nadar, às braçadas, com intenção, é preciso aprender a boiar.A flutuar por cima da água, à deriva. É preciso aprender a soltar bolhinhas embaixo d'água, saber relaxar quando submersa, saber como manter os pulmões plenos de calma antes do momento de vir à tona.Você pode atravessar toda uma piscina se agarrando firme à boias coloridas que separam as raias. Mas não está nadando. 

Tenho me deixado boiar. Solto as beiradas, relaxo, fecho os olhos, sinto a água passar por mim. A água da chuva fina que pinga das beiradas do capuz, pingando na ponta do meu nariz, enquanto caminho sem pressa por uma trilha do parque escolhida ao acaso. 

É segunda-feira. As crianças foram entregues à escola, e, nos segundos que meus passos levam para me afastar do movimento de pais e filhos, escolho um caminho para me levar à biblioteca, onde pretendo apanhar o livro que encomendei, e devolver uns outros já lidos. O céu encoberto pesa sobre a cidade, mantendo por sobre todos os sujeitos e objetos um predicado melancólico. Ninguém que não precise está do lado de fora. Quando meus pés me levam a uma das entradas do parque, dou-me conta de que sou a única ali que não tem um cão para passear.

Eu me passeio. Passeio lobos e coiotes dentro de mim. Passeio Cérbero e rio de suas três cabeças farejando esquilos. Passeio o espírito amoroso de Gnocchi.


Flutuo na floresta. Deixo ela passar por mim. Os sentidos transbordam, e minha mente começa a buscar palavras para organizá-los. Paro sob um galho grosso de carvalho, de folhas da cor de um vinho antigo, e, protegida das gotas mais gordas da chuva intermitente, escrevo aquelas impressões num aplicativo de notas do celular. 

A sensação de criar é de alívio impaciente, como o prazer paradoxal de se enfim arrancar uma farpa do dedo. Alívio de ter arrancado aquilo de dentro de mim. 

Demoro uma hora para chegar à biblioteca. Sei disso, porque a agitação da rua obriga uma parte minha a afastar a manga do casaco e olhar o relógio, num movimento automático e sem intenção. Pavlov na vida civilizada. 

Máscara, hand-sanitizer, good morning, cheiro de livros, o apito agudo de um código de barras escaneado, hand-satinizer, have a good day, vento gelado, chuva no rosto, alívio de estar sem mordaça.

Olho em volta. Procuro um café, mas estão todos fechados nesta manhã de segunda-feira de chuva. Suspiro. Começo a voltar para casa, devagar. Vou preparar mais um cappuccino quando chegar em casa. E uma torrada com manteiga. A caminhada me abriu o apetite outra vez. Minha boca enche de água antecipando o pão quente e o cheiro do café. Minha mente está confinada em suas paredes agora, e eu paro de olhar em volta. Penso num texto escrito para uma aula, em que descrevo a rotina de uma escritora ideal. Lembro dessa ideia absurda que eu tive um dia ter uma rotina tão fechada, tão rígida, tão controlada e inflexível, que viria a me tornar absolutamente miserável, estagnada e calcificada por dentro, aprisionando toda a minha criatividade em calabouços quase inalcançáveis. 

Flâneur. Descubro essa palavra e anoto num papel colado à parede. Gosto de como ela soa quando dita em voz alta, arrastando o r no final até que ele se dissolva, como os vapores de um chá. Soa como "planar". 


Eu fui especialista em planar um dia, atravessando as horas feito um fantasma habitando o sistema. Largara os empregos das nove às seis para ser dona de meu tempo. Trabalhava rápido. Criava meus prazos de forma que comportassem minha vida. Levava o laptop para o clube. Desenhava numa mesa de um café. Preparava meus almoços com calma, e tirava a tarde para longas caminhadas por outros bairros, durante as quais eu deixava a mente relaxar e buscar as soluções gráficas para os logotipos e embalagens que precisava entregar aos clientes. Preparava um bolo quando acabava a luz. Visitava o MASP numa terça à tarde. Desenhava gansos no Ibirapuera na quinta de manhã. Tirava uma tarde inteira para parar tudo e maratonar No Reservations, do Anthony Bourdain. 

Você não está trabalhando?, alguém me perguntava. Estou sempre trabalhando, eu respondia. Estou formando ideias. Quando sentar em frente à prancheta, vou precisar de só quinze minutos para colocá-las no papel. 

Papo de louco.

Trabalho era entregue. Contas, pagas. A vida era minha. Mas apenas minha. Planava solitária. Todos à minha volta trabalhavam dez horas por dia em escritórios de multinacionais ou doze horas por dia na criação de agências de publicidade. Eu dançava em descompasso com a música. A louca que valsa na pista cheia da balada eletrônica. Tenho memórias vívidas de quando assisti ao filme O Diabo Veste Prada. Aquela rotina insana de trabalho mentia um glamour aliciante. Acreditei que aquela era a vida dos meus amigos. 

A tragédia de ser jovem e não ter a firmeza de sua convicção. Boiar por muito tempo, e, ao levantar a cabeça da água, perceber que está sozinha na piscina. A balada acontece em terra firme. E na superfície, ela parece mais divertida. "Estou trabalhando tanto, que não tenho mais tempo para nada". As palavras deixam seus lábios antes que você perceba. A onda de aprovação que se segue te arrasta para o fundo. E você percebe que não sabe mais soltar bolhinhas embaixo d'água, quando começa a dizer por aí que anda muito "produtiva".

A mais fácil síndrome de Estocolmo da modernidade é aquela causada por nossa própria insegurança em seguir nosso caminho quando ele parece solitário. Como um passarinho que entra voluntariamente na gaiola porque tem medo da amplitude do céu. Um peixe que prefere o aquário lotado ao mar.

Ironia das ironias que as paredes do meu aquário tenham se rompido num ano de quarentena. Mas aceito de bom grado o complexo senso de humor do universo.

"Rotinas rígidas matam você por dentro", disse uma pessoa linda que fez meu mapa astral de presente, sem saber que o presente que ela me dava era o da validação de uma sensação que me queimava por dentro: as rotinas que eu me criara me traziam mais medo, mais insegurança, mais controle, e me mantinham afastada da minha natureza. Sentar em frente ao computador em horário comercial não me tornava mais produtiva, mas produzia mais medo da página em branco. Entregar um trabalho não era mais o sinal de que eu podia relaxar e ler um livro, mas era o estopim da angústia por não ter outro trabalho a entregar logo em seguida. 

"Flâneur", declamo, no meio da rua, para mim mesma, despertando de meu torpor autoanalítico, enquanto me aproximo da portaria do prédio. Máscara, elevador, chaves tilintando e estalando a fechadura. Aaaah, fora mordaça. Lavar as mãos. Muito bem. Largo meu novo livro sobre a mesa e abro o laptop. Corto o pão enquanto a máquina de café faz seus barulhos. Hmmmm... café. Meu computador pisca 10:15AM na tela, como se fosse uma informação relevante. 

Num movimento rápido e desajeitado, viro o corpo na água, e começo a nadar. Braçadas firmes, decididas. Aprecio a poesia da manteiga quente escorrendo pelos furinhos do pão em direção ao prato. Um gole farto de cappuccino. Lambo automaticamente a espuma que se prende aos lábios. E começo a escrever uma história que deveria ser a respeito de preparar um soufflé doce numa noite de terça. Que não parece ser, mas é. E eu sei que esse texto parece uma louca valsando numa pista de balada eletrônica. Mas soufflé de terça tem esse gosto. Soufflé de terça tem perfume de gente que caminha sem pressa pela rua agitada. Soufflé de terça é leve como uma nuvem, quando a gente pára no meio da floresta para olhar para cima. É doce como se permitir ser quem você é sem nunca mais pedir desculpas. 

...

Lembre-se: quem produz é fábrica. Eu sou um ser vivo. Ser e viver bastam para validar uma existência. 

SOUFFLÉ DE QUEIJO CREMOSO e calda de amoras

(Do livro Pure Dessert, de Alice Medrich)

 

Ingredientes:

  • 1 xic. de queijo Quark (queijo Quark tem gosto e textura de Labneh, aquele queijinho que a gente obtém quando deixa o iogurte sorando até ficar bem espesso. Acredito que o Quark possa ser substituído bem dessa forma)
  • 3 ovos grandes, separados
  • 3 colh.(sopa) farinha de trigo
  • 1/8 colh (chá) sal
  • 1 colh. (chá) extrato de baunilha
  • 1/8colh (chá) cremor tártaro (o cremor tártaro é um pó branco ácido, usado para estabilizar as claras. Pode ser susbtituído por uma colher (chá) suco de limão ou vinagre)
  • 1/4 (xic) + 1 colh. (sopa) açúcar, e mais para polvilhar

(Calda de amoras - opcional, prepare antes do soufflé)

  • 1 xic. amoras frescas ou congeladas (ou outra fruta vermelha de sua escolha)
  • 1 colh. (sopa) açúcar
  • 1 colh. (sopa) água
  • algumas gotas de suco de limão,ou a gosto

 

Preparo:

  1. Posicione a grade do forno no centro do forno e pré-aqueça o forno a 190oC. Unte deliberadamente com manteiga 6 ramequins com capacidade para 1xic. Polvilhe o interior deles com açúcar, girando-os, para que o açúcar recubra todo o fundo e paredes internas dos ramequins. Coloque os ramequins numa assadeira.
  2. Numa tigela média, misture bem o queijo, gemas, farinha, sal e baunilha, até que fique homogêneo.
  3. Numa tigela grande da batedeira, coloque as claras e o cremor tártaro (ou limão, ou vinagre) e comece a bater devagar até que forme picos macios e leves quando levantar os batedores. 
  4. Gradualmente acrescente o açúcar, batendo sempre, até que as claras fiquem com picos firmes mas ainda brilhantes. 
  5. Misture delicada mas rapidamente as claras batidas ao creme de queijo, usando uma espátula, com movimentos que puxem o fundo, raspando as paredes da tigela e "dobrando"a massa por cima de si mesma, preservando o ar das claras. Pare quando não houver mais sinais de clara na massa. 
  6. Divida a massa entre os ramequins igualmente. Polvilhe cada um deles com mais açúcar e leve ao forno por 15-18 minutos, até que tenham crescido e estejam dourados por cima. Sirva imediatamente com a calda de amoras. 
  7. Para a calda de amoras, basta colocar tudo numa panela e cozinhar até que as amoras soltem seus sucos e comecem a se desmanchar. O líquido precisa ter a consistência de um xarope ralo. A calda pode ser guardada em pote fechado na geladeira por alguns dias. Ela deve ser feita ANTES de se preparar o soufflé.

NOTA: Os sufflés podem ser preparados com antecedência. Não polvilhe com açúcar. Cubra a assadeira com papel alumínio, filme plástico ou o que tiver, para que não ressequem, e leve à geladeira. Eles podem ficar lá por 24h. Tire da geladeira durante o tempo que leva para pré-aquecer o forno, retire o papel de cima, polvilhe com açúcar e asse normalmente. Talvez demorem um minuto ou dois a mais para assar. Eles crescem pouca coisa menos se preparados com antecedência, mas continuam fofos, leves e deliciosos.

4 comentários:

Zizi disse...

Ana, eu nem sei por onde começar. Que texto belo, puxa vida! Quantos lembretes poderosos ecoam tão poeticamente nesse seu relato?! Obrigada pela lembrança do que é mais importante, de que somos humanos, com tudo o que vem nesse pacote. Um afetuoso abraço (e, menina, que vontade de um capuccino e um pão quentinho agora rsrsrs!)

Stéphanie disse...

Seu texto é uma maravilhosa cartilha do: viva, não apenas exista.
É difícil sair das armadilhas capitalistas, de não se sentir pleno se não estiver o tempo todo produzindo e monetizando. Até os momentos de lazer acabam sendo medidos a nível de produtividade (Preciso ler 30 páginas deste romance/assistir 5 episódios dessa série/fazer um desenho completo, ou não terei aproveitado o meu tempo". Triste, também.

Mas que nós, que despertamos, sejamos capazes de sempre voltar ao nosso centro, reafirmar nossa busca pela qualidade de vida e, quem sabe, ensinar aos outros pelo exemplo. Como você faz comigo e com tanta gente.

Um beijo grande!

M2000 disse...

Amei Elisa, vc consegue botar em palavras quase tudo que estou pensando, como é isso de ler pensamentos? Abraços

Juliana disse...

Que maravilha de reflexão! Adorei o lembrete do final. Profundo...
Obrigada 😊

Cozinhe isso também!

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