quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Um bolo, um peixe, um livro, uma loja


Daqui a menos de três semanas, as crianças voltam à escola e Allex volta ao escritório. Mas hein? Voltou tudo ao normal? Dificilmente. Nenhum normal é normal. Quando levei Laura ao optometrista, tivemos de esperar do lado de fora até o horário exato de nossa consulta. Só pudemos entrar usando máscaras e limpando as mãos (e o celular) com álcool. Nos deram uma plaquinha que dizia "higienizado"de um lado e "ocupado"do outro. Fomos instruídas a nos sentarmos naquelas duas cadeiras muito separadas uma da outra, designadas pela recepcionista, e nenhuma outra. Caso levantássemos, precisávamos colocar nossas plaquinhas na cadeira com o texto "ocupado" para cima, para que ninguém se sentasse numa cadeira não higienizada. E fiquei ali, olhando minha filha sentada quietinha, mãos nos joelhos, perninhas balançando, seus óculos embaçando a cada seu respirar por sob a máscara, e pensei: não há passeio de bicicleta no parque e mergulho no lago que me faça achar que voltamos ao normal. 

Claro, o PDF de 45 páginas que recebi da escola explicando as diretrizes para o retorno às aulas também não me anima muito. 

Mas vamos levando. Ando mais confinada ao apartamento por conta da fascite plantar, que me impede de correr e pelo clima de fim de verão, que começa a trazer as chuvas de outono. E por isso às vezes me pego sonhando com esse momento mágico de estar em casa, mas em silêncio, sozinha, concentrada em meu trabalho, sem ser interrompida por requisições de lanche ou discussões infantis por conta de disputadas peças de Lego. 

Os parquinhos foram reabertos. Crianças brincam como se nada estivesse acontecendo, apesar de parte delas usar máscaras. Os restaurantes, bares e cafés que têm pátios externos atendem clientes devidamente espalhados em mesas distantes, com cardápios eletrônicos baixados no celular e um bocado de cuidado. Garçons parecem soldadores com suas máscaras plásticas. 

É obrigatório cobrir o rosto em qualquer ambiente fechado. Ainda há muito receio de se encontrar com pessoas que não façam parte da "bolha"permitida pelo governo. 

Os números nos jornais se contradizem. Num dia, está tudo ótimo, no outro a segunda onda chegou. Acho interessante a metáfora da onda, uma vez que a sensação que permeia os dias é de estar à deriva. Durante as conversas, percebo que os moradores de Toronto largaram os remos e estão se deixando levar. Ninguém quer acreditar que já passou nem que ainda vai voltar. A gente se agarra à esperança da vida encontrar um porto seguro, mas não tira os olhos das nuvens, interpretando o movimento dos pássaros para tentar prever a tempestade. 

 Por isso, digo de novo, vamos levando. Fecha os olhos e se deixa flutuar um pouco. Vê aonde a corrente leva. Então senta, cata o remo e rema na direção que o coração manda. Vê se o sol ilumina um porto e vai. Quando cansar, deita no barco outra vez e respira.

 Faço planos sem fazê-los de fato. Jogo para o universo e desapego do resultado. Afinal, 2020 tem sido um ano de planos desfeitos, expectativas frustradas e imprevistos absolutamente escalafobéticos. Lutar contra parece desperdício de energia.

Até bolo tenho feito assim, de olhos fechados. Deu certo, ótimo.Não deu, também. "Tá tudo bem, mamãe, deve estar gostoso mesmo assim e a gente vai comer tudo!", diz Laura. 

Quando penso na volta às aulas, penso em adaptação e resiliência e um bocado de paciência. Quando penso no tempo e no silêncio que terei de volta para trabalhar, tento não criar muitas fantasias a respeito. Tento não deixar para fazer com calma daqui a três semanas o que posso fazer hoje no meio da bagunça de ter todo mundo em casa. 

E a energia sobressalente da corrida inexistente tem sido usada no trabalho. A frustração com os efeitos remanescentes da pandemia aqui e com a contínua balbúrdia no Brasil (me entristece demais ver como as coisas estão lá, e me dói demais o coração saber que minha família, meus amigos e também quem eu não conheço estão passando por tudo isso!) também tem sido canalizada de forma produtiva. Afinal, o que resta? Melhor pintar e escrever do que encher a cara. Se estou à deriva, posso olhar para as nuvens  e criar histórias para suas formas. Criar uma narrativa que comporte a insegurança e a preocupação que sinto e me ajude a manter a cabeça no lugar.

Meditar e trabalhar tem mantido a cabeça ereta e a mente calma. Passo minhas manhãs apanhando novas encomendas de ilustrações, escrevendo muito, enviando material para os cafés e galerias que podem expor minhas pinturas quando reabrirem integralmente, pintando novas obras para vender na minha loja e cuidando da publicação do meu livro.

O livro! Sim, o livro! Às vezes me perco naquilo que escrevo no Instagram (@anaelisagg) e escrevo aqui. O livro no momento está sendo revisado e eu estou avaliando propostas de cinco editoras diferentes. Vai sair! Meu livrinho lindo, que eu enrolei tanto tempo para terminar de escrever, foi terminado no fim de junho e vai sair! Ueba!

Mas o mercado editorial brasileiro no meio de toda essa crise está o ó do borogodó. Uma amiga do ramo já tinha me avisado que nenhuma editora está publicando autores desconhecidos sem o agora famoso "investimento do autor". O que é isso? É quando o autor banca parte dos custos de produção do livro, mas também ganha uma porcentagem maior das vendas do livro depois. Aquela história linda de editora comprando os direitos de reprodução do seu livro e te pagando adiantamentos meio que virou coisa de filme. É cada vez mais raro. 

Como esse tal "investimento" não é dinheiro de pinga, mesmo com o câmbio favorável aqui no Canadá, estou fazendo um saldão das minhas obras e do meu trabalho para bancar a publicação do livro. Todas as pinturas originais estão com frete grátis para o mundo todo. Frete grátis de verdade, não embutido no preço. Porque sei que o frete Canadá-Brasil é caro pra chuchu e torna a compra proibitiva, então estou arcando com isso para quem sempre me pergunta das obras ter oportunidade de finalmente ter uma. Sim, eu sei, e descobri da pior forma, que o correio canadense suspendeu os serviços de entrega para o Brasil. Mas a oferta continua valendo. As pinturas compradas estão sendo embaladas e separadas para serem enviadas assim que a situação do correio for normalizada e estou mantendo a comunicação aberta com quem está comprando originais.

Também disponibilizei para download mais de trinta pinturas e ilustrações, a preços super bacanas. Você recebe o arquivo em qualidade de gráfica e imprime em casa, em gráfica rápida ou em gráfica giclee, como quiser, eliminando a necessidade de frete ou o tempo de espera dos correios. E você pode até imprimir mais de uma cópia!

Além disso, há também a possibilidade de se comprar uma caricatura personalizada lá na loja, entregue por email em três dias, num valor abaixo do que eu costumava cobrar.

Para meus leitores e para quem me segue no Instagran, tem o cupom NOWORNEVER, que dá 10% de desconto na loja toda.

Toda a renda da venda do meu trabalho vai diretamente para o projeto do livro. A campanha começou na semana passada e já está indo maravilhosamente bem! Estamos quase na metade da meta, e sinto só uma gratidão-monstro por vocês, que me dão carinho e apoio há tantos anos! Que o Universo devolva a vocês em dobro todo esse amor que recebo de vocês. :)

Aliás, Gratidão-Monstro também está a venda lá na loja. Junto com todos os outros Sentimentos Monstros (Monster Feelings), todas as ilustrações da Nonna (inclusive umas novas), e o poster de Frutas e Verduras da época. E logo logo vai ter pré-venda do livro também. Vai lá dar uma olhada!

https://www.etsy.com/ca/shop/AnaElisaGranziera

Enfim. Pensar no meu livro publicado tem me empolgado um bocado e tirado minha cabeça das notícias ruins e estranhezas do mundo.

Enquanto isso, o verão segue, assim, meio esquisito, sem muito jeito de verão. Dia cinco de agosto fizemos três anos de Canadá. E com esse aniversário, veio o ventinho gelado à sombra que anuncia que o verão já está fazendo as malas para abrir espaço para o outono. A coberta já voltou para a cama e a água já está fria para se molhar. Daqui a três semanas, Allex volta para o escritório e as crianças voltam às aulas. Ontario está entrando no estágio três de abertura, e muita coisa volta ao normal sem estar normal coisa nenhuma.

Eu, no meu barquinho, vou mantendo tudo o mais simples que posso. Sem grande invencionices. Tenho amigas que, durante a pandemia, andam lançando mão de receitas complexas e reconfortantes. Na minha cozinha, ao contrário, a simplicidade tem sido rainha absoluta. As frutas têm se mantido frutas, os legumes e verduras recebem o tratamento básico da influência mediterrânea e os bolos tem sido aqueles que posso misturar com uma colher. Preparei um muito simples, com um pouco de fubá e limão, que ficou pronto em meia hora e ficou delicioso. 

Até as carnes, que só tem entrado na cozinha aos fins de semana, tem se beneficiado da política da simplicidade. Salve a churrasqueira, querida amiga. A linguiça é feita na grelha sem grande pompa, para acompanhar os legumes que, depois de assados, são temperados apenas com azeite e sal. Funciona com cogumelos, com cebolas, com tomates, com abobrinhas e berinjelas, com aspargos e com batatas. Quem precisa de mais complicação que isso?


No dia dos pais resolvemos inovar e tirar o escorpião do bolso e colocar um peixinho na grelha: um filé de salmão selvagem, de British Columbia. Acho a coisa mais linda esse coral intenso do salmão selvagem, tão diferente do salmão de cativeiro! Peixe aqui é bastante caro, e por isso quase nunca compro. Quando compro, no entanto, tento levar para casa opções de pesca sustentável e evito peixe de cativeiro. Aqui no Canadá tem a maior briga para impedir criação de salmão, porque é poluente e interfere no ciclo natural do salmão selvagem. 

Enfim.

No caso do peixe, achei que um tempero ia bem. De novo, simples, simples. Piquei as partes brancas de duas cebolinhas, um punhado de salsinha, juntei com raspas e uma espremidinha de limão, sal e pimenta do reino, um fio generoso de azeite, e espalhei essa mistura dos dois lados do peixe. Deixei o bichinho descansando na assadeira por uma meia hora, enquanto a churrasqueira esquentava. Quando estava bem quente, coloquei o peixe na grelha com a pele para baixo. A churrasqueira aqui de casa agora elétrica e tem tampa. Fechei a tampa para o calor circular e assei por cinco minutos. Dei uma olhadinha, chequei a carne com o garfo, e deixei mais cinco minutinhos, até estar cozido e com a pele crocante. 


Ficou MUITO bom. Acompanhou milho verde também preparado na churrasqueira e uma caipirinha. Delicioso almoço de dia dos pais. :)


A gente senta no barco, toma nossa caipirinha, trabalha, passa tempo junto, se abraça, se beija, sonha sonhos juntos e cria projetos pro universo, e lembra que a vida continua passando mesmo durante as estranhezas desse ano de 2020, então é bom tentar aproveitá-la como der. 

Laura me ajudou a fazer esse bolo simples e gostoso, e eu tento não pensar que mês que vem volto para a rotina doida de ficar preparando almoço de criança às sete da manhã para levar para a escola. Tento não pensar no caminho da escola novamente, durante o qual batia com eles a lista da mochila. Pegou o almoço? Pegou o casaco? Pegou o óculos de natação? Pegou a agenda? Pegou o livro da biblioteca? 

Pegou a máscara?

Pegou o álcool?

Lembra de não encostar no rosto.

Lembra de ficar longe dos colegas.

Boa aula.

Suspiro.

Voltemos ao bolo, que tava mais legal.

 

BOLO DE FUBÁ E LIMÃO

(do site Epicurious)

Ingredientes: 

(glacê)

  • 1 1/2 xic. açúcar de confeiteiro (usei açúcar comum, mas ele não dissolve tão bem)
  • 2 colh. (sopa) suco de limão (siciliano ou tahiti)
(bolo)
  • 1 1/2 xic. farinha de trigo
  • 1/3 xic. fubá
  • 3/4 xic. açúcar
  • 3 1/2 colh. (chá) fermento químico em pó
  • 1/2 colh. (chá) sal
  • 3/4 xic.leite
  • 1/4 xic. suco de limão
  • 2 ovos grandes
  • 1 colh. (sopa) raspas de limão
  • 3/4 colh. (chá) extrato de baunilha
  • 1/2 xic(115g) manteiga sem sal, derretida

Preparo:

  1. Pré-aqueça o forno a 180oC. Unte e enfarinhe uma forma redonda de 21cm,forrando o fundo com papel manteiga.
    Numa tigela grande, misture as farinhas, açúcar, fermento e sal.
  2. Em outra, misture com um fouet o leite, suco de limão, ovos, raspas de limão e baunilha, até que fique homogêneo. JUnte a manteiga derretida e misture bem.
  3. Junte a mistura liquida à de farinhas, e incorpore com uma espátula apenas até que não se veja mais farinha.
  4. Despeje na forma e leve ao forno por 30minutos, ou até que esteja ligeiramente dourado e as laterais se descolem da forma. Um palito inserido no meio deve sair limpo.
  5. Deixe esfriar por dez minutos antes de desenformar. 
  6. Para o glacê,misture o açúcar e o suco de limão e espalhe por sobre o bolo já frio. O bolo se mantém bem por alguns dias em temperatura ambiente.

 




5 comentários:

Cris disse...

Nossa, 2020 uma estranheza só. Sinto também em uma deriva em que há momentos que sigo a onda e outros que quero voltar para o chão firme. He. He.

Vancouver está aumentando os casos e a gente fica - será que é a segunda onda?

A sua arte é muito linda!

Cris.

Sabrina disse...

Olá, querida, gosto tanto dos seus textos... te sigo há muitos anos. Qual é o Instagram que você fala nesse texto?

Eloisa Vidal Rosas disse...

Sempre quis uma aquarela sua... agora tenho uma para chamar de minha! It was now or never!!! Oba!

Traga as velas disse...

Olá! Descobri seu blog procurando por uma receita de Kugelhopf. Gostei bastante! Farei visitas frequentes. :)

Unknown disse...

2020 um ano pra esquecer ou não querer lembrar. Triste demais. Ótimo texto. Parabéns.

Cozinhe isso também!

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