segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Frango assado???

Sim, frango assado. Se você for vegetariano, pode parar de me julgar agora, porque isso é feio, e leia a história inteira.

Foram dezenas os domingos que passei na casa de minha avó materna, comendo frango assado com batatas, torta de palmito e gnocchi ou lasagne de tomate. A refeição era tão esperada e tão frequente, que me lembro da sensação da colher raspando o pratinho fundo de plástico cor-de-abóbora, do cheiro do molho de tomate se misturando à massa flocosa da torta, da casquinha crocante das batatas, de meu bumbum infantil afundado na almofada excessivamente macia do sofá antigo, pézinhos para cima, balançando de satisfação, da coca-cola choca no copo de vidro pesado, suando sobre o tampo de pedra da mesa de centro.

Desde os meus quinze anos, quando minha avó faleceu, vinha tentando recriar alguns dos meus momentos favoritos de infância que ela proporcionara, lidando com a dificuldade de não ter as receitas originais e de, eventualmente, ter parado de comer carne.

Este foi o primeiro Natal do pequeno matador de dragões, que minha avó teria amado tanto conhecer. Bom garfo como é, ter-se-ia imediatamente tornado mais um fã incondicional da cozinha sem pressa da bisavó, e teria sido sua vez de raspar o pratinho cor-de-abóbora e guardar na memória os gostos daquele amor em forma de comida.

Por isso, e por ter tantas saudades, achei apropriado usurpar o almoço de Natal para tentar recriar um dos cardápios mais tradicionais de meus domingos infantis: frango assado com batatas, lasagne de tomate, torta de palmito.

Preparar o frango (orgânico, claro) foi um prazer para o meu eu curioso, essa parte minha que quer preparar carnes para testar técnicas culinárias, apesar de não querer comê-las. Comprei dois frangos inteiros, que vieram com os miúdos (e ainda tenho de ver o que fazer com eles), e escolhi uma receita muito simples de Nigella: frango com limão. Apesar da receita não pedir para que se amarrassem os frangos, corri para o Professional Chef para saber como fazê-lo, e me atrapalhei um bocado tentando passar o barbante pelo frango já lambuzado de manteiga. O marido ria do meu lado, filmando a epopéia toda. "Mas onde você vai colocar esse limão?", perguntou ele, ao que respondi com um olhar maldoso.

Os bichinhos ficaram mais tempo no forno do que eu esperava, até que suas peles ficassem douradas e crocantes, e sua carne macia. Confesso que, nunca tendo assado um pedaço de carne antes, estava apavorada com a ideia de servir frango cru, sem gosto ou ressecado. No entanto, quando destrinchei as aves para levá-las à mesa, a coxa se desprendeu facilmente com um leve puxão dos dedos, e a carne estava toda assada, perfumada, úmida e incrivelmente macia. As batatas, cozidas primeiro antes de irem para a assadeira, estavam macias por dentro e com uma casquinha crocante que nunca consegui de outra forma, tendo absorvido o sabor da gordura do frango. O limão mal se sentia, ao contrário do que imaginava. O que ele faz é muito mais cortar o gosto da gordura e ressaltar o sabor da carne.

Nunca comi um frango como esse depois da morte de minha avó. Pronto, falei.

Queria ir até a Inglaterra e abraçar a Nigella. ;)

O cardápio foi aprovado por todos, e enquanto eu quisesse arrancar lágrimas dos meus pais, quem chorou fui eu ao levar o almoço à mesa. Pra você, vó.

Para o frango, pré-aqueça o forno e 220ºC. Escolha um frango orgânico (sempre) de cerca de 1,5kg, para 4 pessoas. Quando ele estiver em temperatura ambiente, lave-o e seque com papel-toalha. Coloque meio limão siciliano  na cavidade e polvilhe um pouco de sal dentro e fora do frango. Esfregue com cerca de 25g de manteiga (1 colher generosa) toda a pele e coloque-o na assadeira. Se quiser, amarre o frango com um barbante, juntando as coxas e as asas mais para perto do corpo, para garantir que ele asse todo por igual e não perca muita umidade. Regue com um pouco de azeite e polvilhe pimenta-do-reino moída na hora.
Para as batatas, prepare tantas quanto couberem folgadamente no espaço restante da assadeira. Sem descascar, corte em pedaços iguais e cozinhe em água com sal até ficarem macias. Escorra e volte-as à panela para secarem um pouco. Então espalhe-as em volta do frango e regue com um pouco de azeite.
Leve a assadeira ao forno por 1h15m, ou até que o frango esteja dourado e muito macio. No caso de dois frangos, esse tempo aumenta consideravelmente. Quando estiver pronto, retire do forno e regue com o suco da outra metade do limão, temperando com mais um pouco de sal e pimenta. Deixe descansar uns 15 minutos antes de destrinchar e servir.

Receita de Nigella Lawson, do lindo livro Feast.

Espero que todos tenham tido um excelente Natal. ^_^

36 comentários:

Anônimo disse...

Ai, fiquei com água na boca, agora quero as outras receitas do almoço hahaha

Manuela Maia disse...

Obrigado Ana !
São estas histórias que valem a pena o que cozinhamos, o que saboreamos e que, por vezes, desejemos tanto partilhá-las com os outros.
Nesta quadra natalícia lembro sempre, e cada vez com mais saudade, aqueles que amo e que já vi partir. Neste Natal, em particular, os cheiros da cozinha da minha infância foram assaltados de incontidas lágrimas. Mas ao contrário desta maravilhosa aventura de emoções eu ainda não consigo pensar em replicar pratos que nunca mais saboreei. Inspirada pelo prometedor menu e por estas imagens, de fazer crescer água na boca, estou quase, quase tentada a aventurar-me !

MM

Aurea Castro disse...

Uai... Cadê a receita dda torta de palmito? Rs

Wind Zackie disse...

Pior que, depois de ter parado de comer carne, uma das coisas que mais sinto falta em casa é justamente os pratos da infância.

Que levam carne.

Acho que uma das coisas que mais gosto no seu blog é o fato de você não ser uma xiita histérica como vejo muito por aí xD

Bjos, ficou muito bonito as fotos do seu natal! E feliz natal atrasado =$

Anônimo disse...

Olá!
Quase não comento, mas sou leitora assídua do blog.
Durante toda minha vida comi o frango da minha avó. A receita parecia simples e sempre foi feita em uma panela bem grossa e bem velha. Tenho desejos frequentes desse frango.
Há alguns anos o Alzheimer levou a lucidez e a receita embora.
Talvez eu acerte a receita algum dia e também chore de saudades. Talvez consiga fazer um panelão para ela. Ou talvez inclua o frango entre outras lindas recordações que tenho da vida com essa linda avó e invente um sabor novo para ela se deliciar. É ver.
Abraços,
Gabriela

Tati Marques disse...

Lindo Ana! Me emocionei com o seu texto por também ter tido 2 avós que sempre juntaram a família em torno de uma mesa com pratos muito parecidos com esses da sua avó.
Espero que seu natal tenha sido repleto amor e pessoas queridas ao seu lado.

beijo.
Tatiana

Jô Bibas disse...

Como sempre, teus textos são atraentes e apetitosos. E hpje ainda mais especial por falar de memórias, assunto que me mobiliza sempre. Tenho esse pensamento com frequencia: tomara que eles nos vejam de alguma dimensão, para poderem saber o quanto temos deles em nós.
Boas festas,

www.arteamiga.wordpress.com

borboleta africana disse...

Gostei do amor que conseguiu transmitir neste post. Apesar de não comer carne (nem peixe), muitas vezes tenho que cozinhá-las cá em casa. Não provando os temperos limito-me a confiar na minha experiência de cozinheira e , algumas vezes nos meus "provadores não vegetarianos oficiais". A cozinha para mim é isso mesmo, um acto de amor e de oferta de um pouco de nós aos outros. Tal como muitos outros vegetarianos sinto alguma (não muitas vezes) nostalgia por alguns pratos de infância, provavelmente porque eles vêm sempre ligados ao carinho e dedicação de pessoas de família que já não estão cá...
Mas o crescimento é isso mesmo, com ele vem o discernimento e aquilo que ao entendimento de uma criança não é exigível já o deverá ser a um adulto informado. Por isso não como animais. Mesmo que os pratos que às vezes cozinho possam ficar um manjar dos deuses para os outros.
Parabéns pela sua escrita alegre e votos de um maravilhoso ano 2012

Carla S disse...

Fiquei curiosíssima pela receita de torta de palmito... será que ela ainda aparecerá por aqui?
Pleeeeease, prometo que faço :)

Anônimo disse...

Ana, fiquei emocionada com o que você escreveu, e fiquei babando com a receita (adorei a foto da mesa posta!). Dúvida: cobrir o frango com papel alumínio no tabuleiro ou não?

Anônimo disse...

como sempre lindas historias e maavilhosos pratos! obrigada por partilhar conosco Ana.
eu moro numa chacara e crio galinhas... sao organicas... mas cade a coragem de mata-las???entao, por favor, nos de a receita da torta de palmito! rsrsrss
um ano novo muito feliz pra voce.

Nati Nodari disse...

Vegetariana ou não, são essas ocasiões que valem a pena. As histórias, lembranças, momentos felizes.
Minha nonna fazia uma polenta com costelinha de porco e radicci cotti que, quando como - o que acontece uma ou duas vezes ao ano, imediatamente vem à minha memória a imagem dela fazendo o que mais gostava, onde mais gostava, para as pessoas que mais gostava: cozinhando coisas deliciosas na sua aconchegante cozinha para as pessoas queridas que a rodeavam. Sempre com um sorriso no rosto. Essas nonnas... ;-)

Luciana Betenson disse...

Vó é tudo na vida da gente :-)

Andreia disse...

Lindo texto Ana. Por isso esse é o meu blog preferido, apesar de ser vegetariana, quando tem vontade de fazer ou comer algo, não se importa com opiniões alheias e faz o que tem vontade. Admiro sua personalidade, sem radicalismos, por favor, rs. Não sou vegetariana, nem fissurada muito em carne, mas como e gosto, de vez em quando. Quando lembro da comida de minha vó, logo me vem a cabeça o bife que ela faz, suculento, com aquela gordurinha que se, misturada ao arroz e feijão, nossa, não tem igual. Sempre comento com meu marido, do bife da vó, toda vez que vamos lá, sempre tem. O gosto é diferente, ela mora no interior, a 600 Km de São Paulo, com certeza é por isso, carne fresca, tem outro sabor. Bjos.

Natalie Argolo Ponte disse...

Oi Ana, estou atualmente inserindo meu cachorro na alimentação natural. Como sei que você também tem um cachorro sugiro uma resposta para a sua pergunta sobre "o que fazer com os miúdos do frango"?
www.cachorroverde.com.br
Feliz Natal!!!

Chris Ribeiro disse...

Ana, obrigada por nos emocionar com este lindo texto e compartilhar conosco esse seu momento familiar tão delicioso. Amei!
Que as bençãos e a luz divina do Natl perdurem por todo o novo ano que está por nascer e tragam pra vc e sua família muitas conquistas e sucesso.
Beijossss

CRISTIANE LARA disse...

Oi Ana, tudo bem ? Espero que tenha tido um excelente Natal. Adorei sua história ! Linda mesmo ! E uma coincidência : Também preparei um frango orgânico com batatas :).
É muito bom lembrar das avós e do carinho como preparavam suas comidas. Emocionante ! Bj

carol vannier disse...

Lindo o texto! E se tiver um tempinho de partilhar a torta de palmito... também estou na torcida! =)

Anônimo disse...

Muito obrigada por partilhar mais um de seus momentos! Estou aqui com olhinhos brilhando lembrando da minha infância... Parabéns pelo seu trabalho, seu blog, sua vida! Desejo a vocês tudo de bom e que os próximos anos sejam cada vez melhores! Curiosidade: como seu pequeno se saiu com a comilança? rs
Bjin, Izis

Karina disse...

Simplesmente lindo esse texto! Delicioso, como comida de vó... Feliz Natal p/ vc e sua família.

Roseli de Araujo Gomes disse...

Bom dia Ana!

É um prazer conhecer um blog como o seu, que texto inspirador.. me fez voltar à minha infância, com alguns sabores e odores parecidos.. adorei a ideia de trazer de volta à magia e a lembrança de sua avó...

Feliz Ano Novo....

FLYRoBrasileira

Anônimo disse...

A torta de palmito deve estar deliciosa. A receita Pleaaaaase!!!

Vêu... disse...

Boa tarde,achei lindo a sua ceia( a vida é outra com boas e cheirosas recordações do paladar rs) Eu sou vegetaria e meu natal também teve carne, mas a visita quem trouxe, me livrei rsrrsrs.
Parabéns pela ceia linda e pela mensagem do seu texto, minha vó não é boa cozinheira, mas o macarrão alho e oléo dela com coentro hummmm.....

bjos e um ótimo ano p vc e sua família....


Vêu Jordão

Miriam disse...

Ana, que post delicioso. Deu até um aperto de saudade da minha avó, também materna. Eu quase não cozinho, mas sempre penso que gostaria que minhas sobrinhas e futuros filhos, se eu os tiver, tivessem essa lembrança boa que guardo de D. Jandira e que eu sei que não é só pela comida. Mas todas as boas e não tão boas definições que tenho da minha vó, passam pela maneira como cozinhava. Eu sempre faço questão de contar, como seu eu pudesse ficar menos triste com isso, e como se nós da família conseguíssemos ver poesia na sua despedida como víamos no seus pratos: minha avó morreu na cozinha, cozinhando para a filha e netos. Sempre penso que ela pôde escolher como queria se despedir da gente.

Heloisa disse...

Eu quase chorei. Minha vó, que também já faleceu, preparava o melhor frango com batatas ao forno que já comi. Era o prato dela, aquele que a gente via em outras mesas, na casa de outras pessoas e pensava: "isso tá errado, frango com batata é só a vó que faz..."

Hoje, como uma receita de família, faço pros meus filhos saberem que aquela refeição é um pedacinho da bisavó, uma lembrança dela pra eles.

Anônimo disse...

Ciao,

Esta velha receita de frango é típica de Portugal, acho que a Nigella não está sendo nada original, simplesmente está divulgando receitas típicas de outros países, afinal todos sabemos que os ingleses não têm precisamente uma culinária salgada. Chama-se Frango à Maricas(por causa do limão).

Fiona

Ana disse...

Acompanho seu blog ha muito tempo ja, nao comento muito mas leio desde muito antes de vc engravidar e seu pequeno chegar na parada. Simplesmente AMO seus posts, seu blog eh um dos meus preferidos, pois adoro sua filosofia em relacao aos alimentos, a comida, as receitas.
Amei esse post, adorei, lindo! Me fez lembrar muito dos meus domingos na casa da minha avo, comendo macarronada com frango assado! Eh algo q guardo comigo pois era sempre muito bom, especialmente pq sempre tinhamos familia grande reunida, era gostoso demais.
Ficou linda sua mesa, seu frango, sua torta, e fico mais feliz ainda por ter te trazido tantas memorias felizes!
Ah, e q torta hein?? Sera q vc poderia dividir a receitinha dela? Esta linda demais!! hehe! :-)
Beijos
Ana

wair de paula disse...

escrevi certa vez sobre os paladares perdidos - minha avó materna fazia um simples e prosaico bife acebolado que nunca mais comi igual. e minha avó materna era campeã no quibe e coalhada. por mais que eu repita estas receitas, creio que algo se perdeu na história - mas restam as lembranças, como vc fez.forte abraço e um 2012 bastante generoso.

CamomilaRosaeAlecrim disse...

Adoro estas histórias de família... a sua e da sua avó e cheia de saudades!
Imagino que delícia este frango...vou entrar lá no site da Nigella e ver de perto!
Um grande abraço e um ótimo 2012 com muitos sonhos!
CamomilaRosa

Ariane Seixas disse...

Posso pedir a receita da torta de palmito que está com uma cara LINDA?!

Gabi Greis disse...

Muito linda tua história Ana! Feliz 2012 pra ti e tua família!

Liv Baum disse...

Ana lindo post! espero q tenha tido um ótimo Natal! Nigella arrasa sempre! Testei outra receita dela com galetos de frango e o q ela fez com os limões? Simplesmente cortados em 4 e jogados na assadeira. Eles ficam doces e uma delícia pra se comer com o caldinho que o frango solta! Nham nham, deu água na boca.
Um beijo e ótimo ano pra vc e toda a sua família!

Tania Pereyra disse...

Ana,
Essas histórias de avó são lindas. Há alguns anos atrás eu sentei com a minha avó pra ela me passar todas as receitas e hoje vejo que foi a coisa certa porquê ela já está bem velhinha e não se lembra mais de como cozinhar as comidas da sua terra. Ainda não sentei pra escrever um livro de receitas e presentear a família mas tenho tudo anotado.
Tenho certeza que no futuro seu netos vão amar que a nonna deles escreveu um blog e guardou todas as receitas pra sempre.
Feliz 2012.

Cacau disse...

Lindo, Ana. Como sempre. Muito bacana a sua relação com a questão de ser vegetariana. É isso aí...

Um beijão!
PS: Caí sem querer no seu blog ano passado, procurando uma receita para o Natal ... Já faz um ano! Obrigada por compartilhar!

Anônimo disse...

Ana, querida! Amei esse Post! Amei amei amei!!! É dessa mesma forma q me sinto em ralacao a minha avo... nossa, tive um "flasch back" agorinha mesmo... e acabei chorando no trecho da mesa posta (no entanto, o almoco do domingo da vovo era frango ao molho, massa caseira e bolo de batata)! ;) Ah, e a receita do frango será testada o mais breve possível! Bjao, Vanessa.

Deda disse...

Eu sei que todo mundo está falando da torta de palmito, que está linda, mas fitei na lasagne de tomates!!! Ela também está com a cara ótima!
Tuas lembranças de infância são muito parecidas com as minhas! Vó é um anjo que toca a gente de um jeito todo especial...

Cozinhe isso também!

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