segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Múltiplas escolhas e um molho de salmão

   

Eu já não me surpreendo mais quando neva pela primeira vez no dia em que resolvo voltar a correr. É claro que neva. É claro que aquele dia lindo tem temperaturas negativas, na manhã em que me animo, enfim, a calçar meus tênis de corrida, ainda novos, desde o fatídico dia em que quebrei meu pé. Mas neve e frio nunca me impediram antes, e assim fui, depois de deixar as crianças na escola, correr no parque, sobre lama fria, folhas secas, e flocos de gelo que fazem a cidade que ainda veste tons de outono parecer um enorme cappuccino, castanho-avermelhado, entremeado de espuma branca.


Canto paródias de Frozen na minha cabeça. "Você quer correr na ne-veeeee? Escorregando de montão! Você pode até se segurar, mas se bobear, vai cair no chãaaaaao!" Sigo a passos curtos, que naturalmente evitam impacto em meus calcanhares, e sigo sentido ora o vento doído que resseca o rosto, ora o movimento dos tornozelos ao se adaptarem ao relevo irregular, na tentativa de me divertir e ao mesmo tempo estar alerta aos sinais do retorno iminente da maldita fascite plantar. 


Paro para ouvir passarinhos. Procurá-los por entre os galhos. Encontro alguns Robins, das cores das folhas de maple e carvalho que caem ao chão, que ainda não voaram para terras mais quentes. Robin, meu Sabiá canadense. Corro sorrindo, como sempre fiz, alegre por não sentir dor nos pés, alegre pelo frio que chega, me mandando preparar um chá e abrir um livro, enquanto um cozido lento espalha seu perfume pela casa. Um frio que pede música calma e jogos de tabuleiro antes de dormir. Mas um frio que faz meus filhos rirem e fazerem planos de patinar no gelo e levar o trenó para descer a longa e íngreme colina de Albion Hills. "Você faz chocolate quente, mamãe?", pede Thomas. "Faço sim, filho, a gente leva chocolate para descer de trenó no parque. Mas tem que nevar muuuuuito mais do que isso ainda", explico.

Salto displicentemente um tronco, enquanto penso num vinho tinto no fim do dia. Presto atenção para atravessar as tábuas geladas sobre o córrego. Aventuras miniatura que me fazem sentir criança novamente. Dou bom dia a quem vem correndo na direção contrária, dou bom dia a quem passeia seus imensos cães pelas trilhas, dou bom dia aos esquilos e a um casal de Mourning Doves que raramente vejo por aqui. Sou uma criança que corre no mato, vestida de Branca de Neve. 


Volto para casa agitada, com vontades maiores que meu dia. Quero escrever um texto no blog sobre o fettuccine com salmão. Quero pintar pinturas novas para colocar à venda na loja online. Quero desenhar aquele cartum inspirado na tarde anterior. Quero continuar a escrever aquelas crônicas do meu próximo livro. Quero terminar de editar meu e-book de poesia. Quero procurar a receita de sopa de cogumelos que Thomas me pediu para preparar. Quero ir ao mercado comprar geleia de damasco.Quero sair para comprar uns presentes de Natal das crianças e taças de espumante. Quero chamar uma amiga para um café. Quero ir à biblioteca apanhar os outros dois livros que reservei, e que vão somar à pilha dos outros oito livros que pedi e chegaram ao mesmo tempo.

A vida às vezes parece muito com aquela pilha de livros da biblioteca. Quero ler todos, mas por qual começar? E se eu começar esse e não der tempo de ler aquele outro antes de devolver? Posso lê-los em ordem cronológica segundo sua chegada em casa. Mas e se este que chegou primeiro não for o que eu realmente quero ler nesse momento? Arrisco pegar por último aquele que tenho que devolver primeiro?

Pinto ou desenho? Desenho ou escrevo? Escrevo ou vou ao mercado? Vou ao mercado ou marco aquele café? Marco aquele café ou resolvo as burocracias da loja? Resolvo as burocracias da loja ou saio para comprar os presentes de Natal?

Essa vida de freelancer que levo há tantos anos têm desses minidilemas. Miniproblemas que me deixam agitada e confusa feito criança em loja de brinquedos. Ou feito eu mesma em frente a uma prateleira de geleias. Meu FOMO (Fear Of Missing Out) dispara alarmes em frente a prateleiras de geleia. Framboesa? Morango? Mirtilo? É por isso que já saio de casa pensando em Damasco. Eu quero geleia de damasco. Eu procuro geleia de damasco. Se tiver, ótimo. Se não tiver... Amor, me dá meia hora que eu preciso decidir que geleia levar para casa. 

Durante muitos anos eu fui do time do "tanto faz, você escolhe". O horror de escolher errado me fazia não escolher coisa nenhuma. Eu voltava para casa sem geleia. Eu sentava no sofá e ligava a tv, apanhava o celular, fuçava no youtube, ou, pior, ia lavar uma louça, dobrar meias, passar vassoura, procrastinando magistralmente o momento de decidir o que fazer primeiro da lista cada vez maior de atividades, tarefas e projetos que eu tinha. Prazos são coisas lindas. Prazos me obrigam a tomar decisões. Se você é também um procrastinador nato, talvez sofra também desse medo irracional de escolher.

"Vou fazer macarrão, hoje", anunciou Allex, no sábado, empolgado com a arte de preparar sua própria massa nas últimas semanas.

"Ah, ok, eu pretendia fazer também", comentei.

"Eu queria fazer alguma massa recheada", explicou. "O que VOCÊ queria fazer?"

"O fettuccine com salmão defumado que comi em Murano e sobre o qual eu falo no livro."

Ele notou a tensão em meu rosto e perguntou: "o que foi?"

"Ah, não sei. Sei lá. Acho que tanto faz. Você escolhe."

"Olha você de novo." 

"Afe. Verdade. A gente faz os dois. Hoje eu tô afim de fazer o de salmão. Amanhã a gente faz a recheada."

"Assim que eu gosto. A festa do macarrão no fim de semana!"

Naquele dia, ele preparou a massa e eu preparei o molho.Um molho delicioso de salmão defumado e creme de leite, que comi mais de uma vez no Veneto, durante a viagem à Itália que descrevo em meu livro, que está sendo publicado. A massa é um sucesso, e sobra na panela apenas porque há sorvete de pistache de sobremesa. (As crianças aprenderam bem ao longo dos anos a guardar espaço para a sobremesa, mesmo que Thomas tenha passado boa parte de sua primeira infância dizendo que ele tinha um estômago separado para os doces.) 

"Laura, sobrou pizza e sobrou macarrão para o jantar. Qual dos dois você quer, amor?", perguntei, naquela noite. 

"Quero os dois, mamãe!"

"Como assim os dois?"

"Ué, eu gostei dos dois e eu quero os dois. Posso?"

Sustentei seu olhar por um segundo e desatei a rir.

"Pode sim, filha, eu coloco um pouco de macarrão e uma fatia de pizza, fazer o quê?! Fico feliz que você não tenha herdado minhas caraminholas."

"Como assim?"

"Eu teria dito um 'não sei, sei lá, tanto faz, você escolhe'. Teria escolhido nada. Você escolheu tudo. Você quer abundância na sua vida. Isso é lindo! Adorei!"

Preparo um chá. Percebo que já decidi o que fazer hoje. Escrever no blog, criar as promoções de natal da loja online, começar a organizar as histórias do livro novo, organizar as referências das novas pinturas, ir buscar os livros na biblioteca e passar no mercado para comprar a geleia de damasco. 

Se não tiver de damasco, eu compro a que tiver a cor mais bonita. 

A pilha de livros ao lado da cama não parece tão ameaçadora. Apanho aquele que me faz sorrir e separo para ler à noite. O que não fiz hoje fica pra amanhã. E o que fiz hoje virou passado.

...


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MOLHO SIMPLES DE SALMÃO COM CREME DE LEITE
(Adaptado de vários sites italianos diferentes, até chegar no que eu lembrava ter comido.)
Rendimento: 4 porções (400g de macarrão, que não precisa ser fettuccine, pode ser penne também)

Ingredientes:

  • 2 colh. (sopa) manteiga + 1 colh (sopa) para finalizar a massa
  • 6-8 cebolinhas, parte branca separada da parte verde, ambas picadas. 
  • 200g salmão defumado (ou fresco, sem pele, ou uma mistura dos dois), picado em pedaços de 2cm
  • 1/3xic. de vinho branco (ou cachaça - eu não tinha nenhum e confesso que usei tequila)
  • 1/2 xic. creme de leite fresco
  • sal e pimenta-do-reino

Preparo:

  1. Numa frigideira em fogo médio, derreta a manteiga e refogue as partes brancas das cebolinhas com uma pitada de sal, apenas até que amoleçam.
  2. Junte o salmão, mais uma pitada de sal, se estiver usando o salmão fresco, e refogue em fogo médio apenas até que o salmão mude de cor. Não deixe a manteiga escurecer. 
  3. Junte o vinho ou o álcool que estiver usando e deixe evaporar. Junte o creme de leite e cozinhe em fogo baixo até que engrosse um pouco. Acerte o sal e a pimenta e tire do fogo, reservando até que a massa esteja cozida. 
  4. Junte a massa escorrida, misture, acrescentando a última colher de manteiga, e polvilhe com as partes verdes das cebolinhas. Acerte o tempero e sirva imediatamente.

Um comentário:

Stéphanie disse...

É realmente muito complicada essa vida de querer tudo e acabar não escolhendo nada. A gente fica esperando que outras pessoas nos digam o que fazer, simplesmente porque não queremos nos responsabilizar pelas escolhas cujos resultados não atendam as nossas expectativas.
Mas aí o tempo passa, e tempo não dá pra pegar de volta. Aí você vê que, bem, não escolher também é uma escolha, e geralmente os resultados dessa decisão são menos satisfatórios ainda. Só que nem sempre a gente lembra disso.
É bom que você se lembre. E é bom que Laura te lembre, também.

Bom saber que você está correndo e bem!

Ah, na estreia do apartamento novo do namorado, fiz o gnocchi com bacon. Eu falei pra ele que o singular de gnocchi era gnocco, como vi aqui, e a gente riu muito (muito bestas).
O molho ficou delicioso, mas eu só tinha nata (e não creme de leite fresco), o que o deixou um pouco gorduroso. Sabia que estava correndo esse risco, só que não ia deixar de fazer. E comemos tudo, as 4 porções, que foi inclusive café da manhã do dia seguinte XDD (quem quer sair pra comprar pão francês quando há gnocchi deliciosos na geladeira?).
A combinação gorgonzola e bacon é divinaaa! Obrigada pela receita =)

Cozinhe isso também!

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