quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Verão, visita, gatilhos positivos, acampamento, livros que transformam e ghee


Eu me lembrava do verão passado com carinho: longas caminhadas com as crianças, descoberta de novas prainhas, novos parquinhos, trilhas escondidas; piqueniques sem pressa no meio do caminho, pés na areia, horas sem fim de leitura silenciosa enquanto meus filhos brincavam soltos por aí.
Mas o tempo passa, a novidade se esvai, e as caminhadas deixam de parecer uma exploração para virarem rotina. Dos parquinhos cada um tem seu preferido, e escolher aonde ir provoca quase sempre conflitos. As crianças agora têm amigos com os quais fazem questão de encontrar, e eu fecho o meu livro para passar longas horas em conversas de elevador com pais de coleguinhas. Não, talvez isso seja injustiça: algumas dessas conversas foram realmente boas em dias que eu precisava trocar figurinhas. Mas sendo a eterna introvertida que sou, preciso de um dia de silêncio para me recuperar de um dia de constante falatório. E esse dia de silêncio calhou que nunca veio. Porque mesmo que você não marque nada com ninguém, os bairros de Toronto são como mini cidades do interior: todo mundo que estuda naquela escola mora no mesmo bairro e frequenta os mesmos parquinhos. Logo, você está sempre fadado a encontrar alguém conhecido.

Além disso, boa parte dos amiguinhos dos meus filhos estava em creches ou summer camps (os tais programas de férias que servem para ocupar seu filho em horário comercial quando você tem que trabalhar ou não está afim de passar seus dias no playground). E como as tais crianças só saem dos camps às 3h30 da tarde, precisei mudar toda aquela rotina boa de sair sem destino por aí, gastar energia logo cedo, almoçar piquenique, e voltar exausto no meio da tarde pra tomar banho e ver um desenho... para o completo oposto: ver desenho de manhã, almoçar em casa, sair pro parque com horário marcado no parquinho de sempre, voltar tarde pra casa, fazer manha pra tomar banho, jantar tarde, ainda querer jogar jogo de tabuleiro depois do jantar com o papai e ir dormir às dez da noite.

Um dos vários almoços piquenique: frutas, wrapp de abacate, queijo e legumes, coco fresco em pedaços, amêndoas e tâmaras, frutas da estação.
O dormir tarde não seria um problema, afinal são férias, tudo bem. Mas quando eles dormem as dez da noite e continuam acordando às seis da manhã, a falta de sono vai acumulando, e Laura, principalmente, vira um bicho quando está cansada (exatamente como eu). Além disso, o meu tão prezado "horário de adulto", tão importante para a manutenção de minha sanidade mental, foi também pro beleléu. Ao invés de ir dormir às dez e meia (porque as crianças estariam na cama desde as oito), vi-me indo pra cama à meia noite, uma da manhã. Pra acordar às seis no dia seguinte ao som de criança brincando e/ou brigando.

Isso poderia ter transformado o verão num estresse.

Mas eu me mantive concentrada nos meus gatilhos positivos. Pois é, aquelas pequenas coisas que você faz para te manter no rumo. Acordar cantando uma musiquinha besta que faz todo mundo dar risada da minha cara. Alongar antes do café para botar a coluna no lugar e fazer a energia fluir. Alongar parece ser o passo número um para me lembrar de me cuidar o resto do dia. Quando não alongo tendo a esquecer de fazer outras coisas importantes para a manutenção da minha sanidade. Uma coisa puxa a outra. Quando alongo, acabo meditando. Quando medito, acabo indo correr. Quando corro, tenho vontade de comer comida fresca e leve. Quando como bem, me sinto melhor ao longo do dia e acabo pintando mais. Quando pinto, sinto-me competente e satisfeita. Quando me sinto competente e satisfeita, sinto-me mais calma para lidar com os conflitos com as crianças. Lidando de forma zen com as crianças, me sinto uma mãe melhor. No fim do dia tomo minha cerveja porque quero e não porque preciso. Vou dormir cedo. Durmo bem. E o dia seguinte já começa com o pé direito.

E tudo começa com a minha saudaçãozinha ao sol. Um alongamento de nada. Meu gatilho.

E mesmo num dia ruim, sei que esse alongamentozinho de dois minutos e meio é aquela migalhinha no caminho de que preciso. Quando as coisas saem do controle e me vejo querendo ir atrás daqueles famosos "confortos" que no fim pioram minha autoestima (os doces, o álcool, o famoso "hoje não vou correr porque meu dia está ruim e eu mereço não fazer nada"), troco por cuidados comigo: ler um livro, tomar um chá, lavar o cabelo, uma caminhada no mato, um lanche que seja bonito e me faça sentir que estou cuidando de mim e me dando amor de verdade, ao invés de me punir com aquilo que a mídia ensina que é amor (se entupir de sorvete no sofá chorando as mágoas - isso resolve como?). Ou simplesmente peço um abraço. Quantas vezes, num dia ruim, a gente lembra de simplesmente pedir um abraço?

Meus gatilhos positivos me mantiveram de bom humor para lidar com as pequenas coisas do verão que não eram de acordo com minhas expectativas (expectativa é uma m*rda). Ajudou também marido chegar em casa num horário bom para jantar conosco e jogar jogos com as crianças enquanto eu relaxava a cabeça passeando o cachorro no parque. Oito horas da noite e a luz era de quatro e meia, as cigarras cantando, os passarinhos se aninhando para encerrar o dia.

Enfim, lá pelo meio das férias o que ajudou mesmo foi a liberdade das crianças. Havia visto internet afora um video sobre Free Range Parenting, um termo meio piada para tratar da liberdade das crianças no mundo moderno, e caí num livro da jornalista Lenore Skenazy: Free Range Kids. O livro compara a liberdade das crianças de décadas anteriores com as atuais, fala dos medos modernos dos quais mães e pais sofrem e combate tudo isso com dados e fatos, mostrando que, pelo menos na América do Norte e na Europa, o mundo está mais seguro para as crianças. Fala sobre confiança. A mesma confiança que tenho em dar facas nas mãos dos meus filhos para que cortem as próprias frutas, ou que tenho em Thomas para usar o fogão e preparar seu próprio ovo frito com torradas de manhã.

Foi num dia no meio das férias, em que Allex estava em casa trabalhando e nós atravessávamos o parque para ir a uma padaria vinte minutos dali que, cansada de ouvir as reclamações de Thomas, virei e perguntei: "Se eu te desse a chave de casa agora e mandasse você pra casa pra ficar com seu pai, o que você faria?" Ao que ele se empertigou todo o respondeu que voltaria numa boa. "Como você volta pra casa daqui?", perguntei. E ele descreveu todo o caminho, incluindo os momentos em que teria de parar para atravessar a rua olhando para os lados e respeitando a sinalização. Explicou como entrar no prédio e como abrir a porta. E disse que ficaria em casa brincando de Lego enquanto papai trabalha. Pensei por um instante. Mas ele acabou indo para a padaria comigo, reclamando até ganhar um croissant de chocolate, que fez toda a andança valer a pena.

Foram dois os motivos que me impediram de mandar meu filho de oito anos para casa sozinho: primeiro, eu não havia discutido esse passo importante com Allex ainda (parecia-me uma decisão que deveria ser tomada junto) e segundo, eu não sabia se isso era legalmente permitido, uma vez que há alguns lugares do mundo que podem botar uma mãe na cadeia por deixar uma criança dessa idade saracoteando sozinha por aí. (Eu pesquisei a lei de Ontario, claro, e é uma mera questão de bom senso.)

Esse episódio me fez pensar bastante a respeito do meu controle sobre meus filhos e olhá-los de uma outra forma: sob a ótica de suas reais capacidades e não das minhas preocupações. Morar numa cidade segura ajuda um bocado, claro.

E a partir daquele dia, comecei a soltá-los um pouco mais. Ciente de que eles são extremamente responsáveis e não saem mexendo no que não devem nem se inventando encrenca, comecei a a deixá-los experimentarem um pouco de liberdade conforme a oportunidade aparecia, sempre conversando muito a respeito de perigos reais e como reagir a cada um deles (desde a abordagem de estranhos até fogo no prédio). Ao fim do verão eu já estava podendo deixá-los em casa enquanto ia ao mercado rapidamente sem o menor problema. E ir ao mercado sozinha é o tipo de sonho de verão que só uma mãe em tempo integral entende.

Hoje, com as aulas já começadas, a alegria do meu filho é poder ir para casa fazendo um caminho diferente do meu. 

As pequenas liberdades deles trouxeram mais paz aos nossos dias e nosso relacionamento. Fui me vendo mais segura deles e de mim mesma. Num outro dia, Thomas veio me pedir um lanche. Olhei para ele e, rindo, expliquei: "Filho, você tem quase nove anos. Quando você era pequeno, eu precisava escolher o que você comia e quando, pra garantir que você ia crescer forte, porque você ainda não sabia fazer essas coisas. Agora você sabe. Tá com fome? Você sabe abrir a geladeira, usar o fogão e a air fryer. Go crazy. Se alimente. Só peço algum bom senso pra não sair fazendo lanche perto da hora do jantar, por favor, e avisar quando alguma coisa acabou ou está prestes a acabar pra eu poder comprar mais."

Ele demorou alguns minutos pra entender o que eu tinha dito e assimilar aquilo. E saiu correndo pra fazer um enorme sanduíche de tudo o que ele encontrou na geladeira.

Claro, ajuda o fato da minha casa não ter comida "porcaria", como Laura diz. E quando tem, eles perguntam se pode pegar. 

Cafés da manhã tem sido assim ultimamente. Aquela época de "hoje tem mingau" não existe mais. Cada um prepara o seu conforme seus gostos. Se pedem ajuda, ajudo. Hoje quiseram montar o próprio almoço para levar para a escola. Aos fins de semana já aconteceu de eu acordar e os dois já terem tomado café da manhã. A mesa estava posta com as coisas que eu costumo comer de manhã e Laura tinha feito meu cappuccino (ok, a máquina é automática, mas ela ainda tem que lembrar a ordem certa de apertar os botões e lembrar de conectar o reservatório de leite que fica na geladeira).

Eu respiro fundo e fecho os olhos quando eles exageram na quantidade de mel na torrada ou quando resolvem colocar maple syrup no cereal que já vem ligeiramente adoçado. Tá tudo bem. Larga. Sei que sou mais feliz controlando menos e tento abafar o monstro Control-Freak dentro de mim quando ele começa a dar as caras novamente, o que sempre acontece quando estou ou muito cansada ou frustrada com outra situação que saiu do meu controle.

Ao invés de estressar com a bagunça e ficar pedindo um milhão de vezes pra tomar cuidado pra não derrubar o leite na mesa, simplesmente peço pra limpar quando acontece. Agora é automático. Eles sempre limpam a mesa quando cai comida e nem preciso pedir mais. E ninguém mais fica estressado.

Um outro livro que me ajudou com isso foi da Rebeca Wild. Eu já havia lido o Calidad de Vida, sobre ritmos de desenvolvimento infantil, e, achando que precisava reler, peguei outro dela por engano, sobre a vida escolar: The Pestalozzi Experiment, que terminou sendo fantástico, lembrando-me de olhar meus filhos sob outros pontos de vista e compreendê-los melhor.

Em termos de olhar as coisas sob outros pontos de vista e entender melhor, dois outros livros foram fundamentais para mim: Wild Power, de Sjane Hugo Wurlitzer e Alexandra Pope (que fala sobre o ciclo feminino como se fossem estações do ano e como a compreensão de cada fase pode ser usada a seu favor como fonte de força ao invés de limitação) e Mulheres que correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés, PhD (não é só hype, o livro é de fato EXCELENTE - eu tinha pego na biblioteca, mas no meio da leitura resolvi me comprar uma cópia para ler e reler quando precisar e eventualmente dá-lo à Laura).

O verão que se seguiu à minha viagem à Portugal foi uma jornada de reencontro com minha criança interior e a força feminina escondida embaixo de cobranças e expectativas. Foi um verão repleto de energia, força e alegria.

Foi nessa fase boa que minha irmã chegou, depois de dois anos sem vê-la. Fiquei esses dois anos esperando para tomar Aperol Spritz com ela novamente.



Concentramos em parcos sete dias tudo o que queríamos mostrar a ela. Cataratas de Niagara, Niagara on The Lake (uma cidadezinha linda quase com cara de cenográfica), piquenique e "tubing" (descer o rio de bóia) em Elora Gorge park, longos passeios de bicicleta por Toronto, hambúrguer, brunch e ramen nos nossos restaurantes favoritos, muita cerveja e conversa e muitos, muitos jogos de cartas  e tabuleiro com as crianças.
Elora Gorge Park.
Almoço-piquenique, a quintessência do verão canadense.(Muffins de mirtilo, Pão de queijo, Blue corn tortilla chips, melancia, pepinos.)


Niagara Falls
Quando minha irmã foi embora, deixando na gente essa impressão de o tempo ter passado muito rápido, tratamos de nos inventar coisa pra fazer. Aproveitamos as promoções de fim de verão para comprar algo que queríamos havia muito tempo: equipamento de acampar. Costumávamos acampar antes das crianças nascerem. Mas seja por excesso de trabalho, falta de grana, medo pela segurança ou qualquer outro motivo, enquanto moramos no Brasil, o único lugar em que as crianças acamparam foram na sala de casa.

Estava na hora de corrigir isso.

Reservamos um espaço num parque a pouco tempo daqui e lá fomos nós. Compramos nosso equipamento não pensando nos car-campings que os canadenses costumam fazer durante o verão, mas sim nas trilhas que pretendemos fazer com as crianças um dia. Barraca pra quatro ultraleve, saco de dormir que aguenta frio e isolante térmico. Um fogareirozinho potente e minúsculo e uma panela pequenininha, só pra esquentar água. Foi também uma lona e cordas para poder fazer um abrigo do sol e da chuva além da barraca. Allex se arranjou um livro que ensina a fazer nós e se divertiu descobrindo formas diferentes de amarrar a lona às árvores.

No quesito comida, no entanto, confesso que exagerei. Querendo tornar a experiência suficientemente gostosa para que eles quisessem repetir, levei milho e linguiças e queijo haloumi (que parece o coalho) para fazermos no fogo, itens para sanduíches no almoço, legumes e frutas (banana, melancia e mirtilos) de snack, chips, e para o café da manhã, iogurtes e mingau instantâneo, que me trouxe uma lembrança calorosa dos acampamentos com Allex, durante nosso namoro. (Acho até que tem foto aqui no blog de nós dois comendo gororoba em acampamento).

Lá, as crianças se divertiram ajudando a acender a fogueira e depois esculpindo galhos com serra e canivete para fazer os próprios espetos de marshmallow. Claro, esqueci: também houve uma quantidade absurda de Smores (os marshmallows tostados no fogo que vão dentro de dois biscoitos doces com um quadradinho de chocolate que derrete devagar). Vê-los lidando com as lâminas cuidadosamente, focados, me encheu de orgulho. E temos já um canivete para cada um, que ganharão de presente no próximo acampamento.

Desligamos o celular durante toda a viagem. O silêncio era delicioso. Na hora de dormir, confesso que fiquei aflita. As crianças se incomodariam de dormir no chão duro? Há muita gente que leva colchões infláveis, mas quisemos mostrar a eles como se faz de verdade, como nós costumávamos acampar. Para minha surpresa, entraram exaustos na tenda e dormiram imediatamente, a noite toda. Quando acordei, brinquei com Allex, não sabia se o chão duro havia entortado minhas costas ou finalmente colocado elas no lugar. ;) Sei que não dormi a noite toda. Lembrava-me disso dos nossos acampamentos. De acordar toda vez que me virava no saco de dormir. De ouvir os insetos do lado de fora. De ter essa impressão de despertar por 1 minuto a cada meia hora e então voltar a dormir. Ainda assim, acordei descansada e cheia de energia pela primeira vez em muito tempo.

O tamanho desse menino.
Acender o fogo às cinco e meia da manhã e comer o mingau-gororoba quentinho ouvindo o despertar dos pássaros, pés no mato. Sentia-me em casa. Gnocchi parecia feliz e relaxado ali no mato. Raspando as patas e cavocando a terra e o mato antes de dormir como faz em casa, e ríamos: "É, bichinho, faz muito mais sentido fazer isso aqui do que no apartamento, né?" Celular desligado por dois dias. Mato. Cigarras. Pássaros. Aquela sensação de precisar de tão pouco que o acampamento dá. Acordar descansada, mesmo dormindo no chão. É o silêncio do mato que descansa, ou é o silêncio do celular?

Foi bom ter encontrado um mingau-gororoba de uma empresa orgânica de British Columbia que faz misturas de fato gostosas. Porque aquele da Dr. Oetker que a gente costumava levar em trilhas no Brasil tinha gosto de papelão molhado. :P

Estava tudo indo bem até sermos surpreendidos pela chuva no meio de uma trilha. A desvantagem de desligar o celular é não ter acesso à previsão do tempo. Encharcados, precisamos criar uma estratégia inteligente para não enlamearmos a barraca por dentro. Ajudei as crianças, que ficaram secas e quentinhas na barraca lendo gibis enquanto Allex e eu consertávamos a lona que caíra pelo peso da água e tentávamos usar o que havia de carvão molhado para improvisar um churrasco debaixo da lona, protegidos pela chuva. Gnocchi, cheio de lama, aos nossos pés, assistiu por duas horas a saga para acender o fogo já na escuridão da noite. Allex se afastava e oferecia o lugar mais perto do fogo tímido para que eu tentasse secar meus pés e me esquentar. Meus cabelos ainda pingavam da chuva e naquele momento, vendo meu casaco pesado e encharcado a me cobrir, decidi que era hora de investir numa jaqueta de chuva decente.

As crianças correram rápido da barraca seca para debaixo da lona e sentaram-se conosco para comer. Um cruzamento de mariposa gigante e besouro do inferno voou na nossa direção, atraído pelos head-lamps e Allex quase tacou fogo na própria camiseta com o susto. É um monstro-inseto!, Thomas gritou. Conseguimos manter o fogo aceso tempo bastante para assar as últimas linguiças e espigas de milho e prometemos às crianças Smores de café da manhã, já que seria impossível fazê-los debaixo da chuva.

A chuva caiu intensa e cheia de raios e trovões até as quatro da manhã. Gnocchi, com medo, ficava subindo em cima de mim e tentando dormir em cima da minha cara. Mais uma noite de sono intermitente. Mais uma manhã em que parecia renovada e capaz de conquistar o mundo.

Fizemos Smores até acabar com todos os marshmallows do pacote. As crianças brincaram apagar o fogo com arminhas de água e vieram nos ajudar a desmontar a barraca. Gnocchi, que é boy de apê, era o único ansioso para ir para casa e ficou esperando na porta do carro.

Quando voltamos para Toronto e entramos em casa, ansiosos por um banho quente, aqueles dois dias fora pareciam dois meses.

A melhor parte do verão foi acampar, disseram as crianças. "Mas eu quero ficar mais no meio do mato da próxima vez", disseram.

Ok.

O verão ainda está aí apenas como dias num calendário. Setembro começa, as aulas retornam, piscinas públicas são esvaziadas, há mais chuva que dias de sol. O lago está frio demais para convidar a um mergulho. Acabaram os piqueniques. Mas a sensação de ser eu, de ser forte, de poder correr longe continua. A vontade de ver meus filhos crescendo e aprendendo me move cada vez mais. Quando confio neles, vejo suas posturas mudarem, vejo quando olham o mundo de peito aberto. Eles acreditam em si mesmos quando acredito neles. E acredito neles quando acredito em mim.

Não vejo a hora de me enfiar no mato de novo. De dormir e acordar com os pássaros. De sentir o chão. É bom sentir os pés firmes no chão. É essa segurança que te dá vontade de tirá-los do chão e alçar vôo.

Ou talvez sejam os quarenta chegando. Sempre disse a meu marido que depois dos quarenta eu iniciaria meu processo de me tornar a velha louca que pretendo ser.  Taí. Velha louca em formação.


.....

E a comida? Isso ainda é um blog de cozinha? Já não sei bem. Tenho cada vez menos vontade de ficar testando receitas por aí. Às vezes acho mesmo é que precisava fazer um post compilando meus favoritos de todos os tempos e que viraram clássicos insubstituíveis. Porque é desses clássicos que tenho vivido. E o que é invencionice, é feito assim de supetão, valendo-me completamente da intuição e daquilo que aprendi nos últimos vinte anos de cozinha. Não tenho lá muitas receitas para dividir aqui, mas talvez tenha sugestões de como pensar a refeição. Será que basta?

Nas últimas incursões da churrasqueira, resolvi fazer camarões, que estavam fresquinhos e em promoção. Ensinei Laura a limpar os camarões e ela se armou de uma faca com ponta afiada e abriu as costas de um por um, tirando os intestinos deles com precisão. Thomas ficou encarregado de temperá-los e passá-los pelo espeto. Uma marinada rápida em azeite, alho picado e salsinha antes de levá-los ao fogo, uns poucos minutos de cada lado. Acompanharam as últimas espigas de milho da estação, também feitas na churrasqueira, e uma salada simples.


Num outro dia, assei diferentes batatas-doces temperadas com azeite e sal até dourarem, em fogo médio, numa assadeira grande. Quando prontas, afastei as batatas para o lado e depositei ali um filé inteiro de salmão selvagem com a pele para baixo, e que eu já tinha temperado com uma salsa verde improvisada, com muito dill e salsinha e raspas de limão. Juntei um punhado de ervilhas congeladas. Assei por uns dez minutos, até peixe e ervilhas estarem cozidos e servi com salada verde. Achei que faltou sal. Ainda tenho dificuldade de salgar apropriadamente cortes grandes de carnes de qualquer animal, por falta de prática.



Num dia em que eu não achei que tivesse muita coisa na geladeira, grelhei fatias finas da única berinjela grande que eu tinha. Recheei com fatias de queijo, que era para ser mozzarella, mas nem sei mais se usei cheddar branco ou Havarti, que eu considero como sendo "o queijo Prato do Canadá". A gente usa o que tem, substitui com o que pode, e faz tempo que parei com frescuras e preciosismos com ingredientes. Libertação emocional começa também com menos perfeccionismo na cozinha. Enrolei as berinjelas em volta do queijo, coloquei os rolinhos na travessa untada com azeite e reguei com uma mistura de tomates cereja, cebola, salsinha e manjericão, que eu temperara com sal e azeite e deixara meia hora sorando e criando o próprio caldinho. Levei ao forno para gratinar e servi com arroz integral e salada verde.

A foto é feia mas a comida é gostosa. :)

Num almoço tranquilo só com as crianças, antes de ir para o parque, dourei mandioca cozida  (sim! aqui acho mandioca no supermercado!) em muito ghee (porque ando fazendo ghee toda semana para terapia ayurvédica dessa minha família de Vhattas, e ando adorando cozinhar com isso, pois o ghee doura tudo lindamente sem queimar como a manteiga). Tirei a mandioca e foi a vez da batata-doce. Voltei tudo para a panela quente para servir com ervilhas-tortas branqueadas. Tudo polvilhado de salsinha, uma espremida de limão, pimenta-do-reino e acompanhado de uma saladinha rápida de tomates, abacates e queijo.


Ghee e uma joaninha que pelo jeito veio com a gente pra Toronto lá do acampamento.
Para quem quiser fazer ghee, eu considero o melhor jeito (e mais prático) ESSE AQUI.

No restante, a comida aqui em casa tem sido, como há já muitos meses, essencialmente improviso. Algo aconteceu durante toda essa transformação de verão que meio que matou minha vontade de comer doces. Ando me refestelando com frutas de um jeito que nunca havia feito antes. Talvez inspirada pelos lindos pratos de fruta fresca que minha filha se prepara de manhã cedo. Talvez as recomendações ayuvédicas, que me fizeram interromper a febre dos biscoitos e dos bolos há uns meses atrás, tenham influenciado minha cozinha mais do que eu imaginava que fariam. Talvez seja a abundância de frutas frescas e gosotas do verão, que depois desaparecem ao primeiro sinal do outono.

A vontade de ficar fazendo bolos e tortas e afins anda meio sumida. Engraçado, ninguém anda sentindo muita falta. As únicas sobremesas que me aventurei a fazer em agosto (e que não eram sorvetes de fruta) ou não deram certo (como a pamonha de forno que nunca firmou) ou ficaram doces demais e ninguém quis (como o crumble de pêssegos da Alice Medrich - aliás, mesmo os doces da Alice, que sempre me pareceram pouco doces, andam puro açúcar para mim ultimamente. Bizarro.)

Agora a cozinha volta à velha rotina: o famoso quebra-cabeça dos almoços escolares, com dois filhos que gostam e desgostam tudo diferente, precisando pensar em comida que não vire paçoca dentro da lancheira revirada, onde não posso enviar nada com castanhas, e onde tento manter a coisa toda relaxada e enviar lanches que "pareçam" as porcarias industrializadas dos amiguinhos mas que não são.

O verão acabou.

PS: eu havia escrito todo um outro post antes desse que eu escrevi e editei tantas vezes que tinha ficado completamente sem pé nem cabeça e eu não gostei dele. Mas apertei Publish sem querer. Deve ter gente que recebeu por email. Desconsidera a loucura da cabeça da pessoa. No fim eu estava muito mais empolgada em contar as desventuras do verão do que ficar elucubrando sobre processos emocionais. 

31 comentários:

Unknown disse...

Eu estou para lhe escrever ha meses desde que descobri que voce tambem se mudou para o Canada e quase na mesma epoca que nos. Chegamos em julho /2017. Elio voce desde acho que 2007 (pode ser isso tudo?) acompanhei a fase super vegetarina naturebissima, a gravidez do pequeno matador de dragoes, da laura e ai quem engravidou fui eu e o tempo virou artigo de luxo. Eu adoro te ler. Sendo ou nao ainda um blog de culinaria, o que importa, nao e mesmo. Sobre o Canada comungo o mesmo sentimento que voce, vivemos para uma cidade pequena na costa do Atlantico e recomendo vir para a provincia de New brunswick no verao e maravilhoso. Produce os parques da Fundy Trail (meu preferido e o de Alma, as trilhas sao fabulosas e vc ainda pode aproveitar para ver as mares que aqui tem a maor variacao diaria do mundo). Os parques sao lindos e da ate para entrar (com alguma coragem) no mar (ali por Shediac, a agua e menos gelida), ah e venha ate a ponta para fazer whale watching. E magico. Quero comecar a acampar no proximo verao. A Gabi esta me cobrando. Outro lugar para acampanhar maravilhoso e Cape Breton na ponta norte de Nova Scotia, trilhas maravilhosas e da para ver as baleias descendo do artico em terra mesmo.

Cris Murachco disse...

Sempre muito bom ler você. Parece que recebi a carta de uma amiga muito querida e que está morando longe - e sabe cozinhar muito bem... Continue sempre.

Carol Mafra disse...

Texto excelente, até me emocionei (eu li o dos processos emocionais e depois a versão editada). Acompanho o blog desde os primórdios (inclusive já dei uma de fã num bar em São Paulo uma vez...) e, mais do que as receitas sempre super úteis, gosto das suas reflexões e da sua capacidade de viver intensamente cada um dos seus momentos, fases de vida, reflexões e transformações. Você é brilhante, Ana! E sua descrição dos seus processos emocionais é riquíssima (para mim, não tinha nada sem pé sem cabeça e me identifiquei com muito do que você narrou ali). É um grande desafio saber se colocar nos espaços e com as pessoas quando se sente "diferente". Eu já tentei a escolha de não mostrar quem eu realmente era para a maioria e guardar isso para um grupo seleto de amigos (pessoas que eu considerava com conexão), mas percebi que me deixar ser eu mesma e mostrar esse eu para os outros é muito mais gratificante. Tem quem goste e tem quem não goste, quem não entenda e quem passe a se sentir mais à vontade para também se revelar mais. E acho que a riqueza da vida está aí. Como você mesma falou, ficamos mais abertas para o outro também à medida em que nos permitimos ser quem somos. E o que somos também é um processo eterno de sente, analisa, reflete, vai, volta, tenta melhorar, cai e levanta outra vez.

PS: Desculpa o textão!

Lili Marlene disse...

Quando eu era criança, meus pais faziam muitos acampamentos. Tenho memórias muito preciosas desses momentos. Tenho certeza que seus filhos vão se lembrar para sempre, com muito carinho, dos acampamentos de verão, mesmo que, na adolescência, passem a achar que acampar é chato.
O Gnocchi dormiu dentro da barraca com vocês? Como você fez para limpá-lo da lama, na noite da chuva?

Natália disse...

adoro, adoro, adoro seus textos. esta mensagem é só para registrar isto e para pedir que não pare. o texto sobre a viagem a Portugal havia me tocado imensamente e agora este também me traz tantas reflexões importantes. obrigada!

Amara disse...

Pena que não recebi, escreva mais, mesmo que não tenha cozinhado nada!

Mari Cruz disse...

Oi, gostaria de, primeiro de tudo, te agradecer pelo seu blog, leio ele a anos, mas confesso que não leio regularmente, mas ainda sim, ele me acalma e me faz querer voltar algumas casas no jogo da vida todas as vezes, e me recoloca no lugar.
Seu trabalho é lindo, e suas receitas são incríveis!
Obrigada por ser você mesma, em todos os textos.

Cris Bomfim disse...

Adoro seus textos. Cheguei aqui pulando de blog em blog, caçando receitas, e te encontro com receitas de uma vida tão vida.

Obrigada por escrever.

Espero que continue, me faz muito bem.

Obrigada, again.

Luciana disse...

Ana, estás ficando sábia. És uma verdadeira filha da Deusa. BTW, sempre lembro de você quando assisto Anne with an E na Netflix. Porque é no Canadá e porque Anne ama ler...

Stéphanie disse...

Ai, Ana, é tão bom te ler! É tão bom que você compartilhe conosco as suas reflexões, que são sempre tão certeiras sobre a vida (e sobre a cozinha também!). Adoro como você é uma influência positiva na minha vida =)
Esse livro que você recomendou, "Mulheres que correm com os lobos" já me foi recomendado por minha mãe, uma amiga e agora a minha diva. Sinto que é um sinal, então vou pegar a edição velhinha aqui de casa e, nas férias (escolares, porque sou professora), finalmente lê-lo.

Fora te agradecer por tudo, eu vim aqui contribuir (espero) um pouquinho com a sua paixão pela panificação. Eu sei que você continua fazendo pães, mas lembro que os de fermentação natural ficaram de lado devido à dificuldade de criar um fermento (e também aquele problema de desperdício de farinha, uma vez que ele tenha ficado pronto). Então eu vim te recomendar o instagram da Aline Galle, uma brasileira que ensina a fazer levain usando 50g de farinha por dia e 50g água fervida e resfriada (pra não ter cloro). Nada de frutas ou outros ingredientes, só farinha e água. E o bom do fermento proposto por ela é que você não precisa alimentar todo o dia depois que ele já estiver estabilizado, e ela guarda apenas uma isca de uma colher de sopa. Cada vez que você fizer pão, vc alimenta essa isca (numa proporção que seja do seu agrado. eu uso 1 de levain pra duas de água e 3 de farinha. alimento duas vezes nessa proporção) e ela vira um pote de fermento que você precisa pra receita. Aí você pega esse fermento poderoso e borbulhante e só guarda uma nova isca, de uma colher de sopa, no vidro limpo e deixa na geladeira e só precisa realimentá-lo na semana seguinte (ou quando você for fazer pão. Mas se deixar muito tempo, vai ter que alimentar e descartar até ele ficar mais fortinho de novo). É uma maravilha, e sem aquele trabalho todo de apodrecer uma maçã na água por dias etc etc.

Enfim, se você se interessar, dê uma olhada! Lembrei que você costumava gostar dos sourdough, mas que tinha tempos que não falava sobre isso. Se não interessar, desculpa XD

Um beijo grande!

M disse...

Que maravilha de férias. Anotadas as dicas de livros. Estou precisando aqui.
Ana,eu não podia ser mais diferente de você. E ao contrário de outros blogs, etc que eu leio e me deixam angustiadas me sentindo a pior mãe, profissional,cozinheira, etc do mundo, leio você e me inspiro a fazer melhor. E mais que isso, sobre como é importante fazer do nosso jeito. Leio você e não sinto vontade de acampar 🤣,mas sinto muita vontade de construir essas memórias deliciosas com meus dois pequenos. O mesmo em relação à comida. Simplificar e fazer o que funciona pra mim.

Livia Luzete disse...

Tanta coisa para comentar ... daria um post. Mas me limitarei na experiência linda, singela e tão marcante do acampamento! Tenho certeza que seus filhos leverão para sempre em seus corações.

Maria Thalia Mesquita Bastos disse...

Olá Elisa, gostaria de lhe indicar esses dois vídeos sobre culinária tradicional italiana acho que a senhora vai gostar, os dois são da região da Sardenha, mas são uma riqueza que eu gostaria de compartilhar com alguém que gosta tanto de comida e que sabe italiano.
Il pane della Sardegna: https://www.youtube.com/watch?v=YqI4gd11d6Q
Dolce Sardegna: https://www.youtube.com/watch?v=3c8_uvIz2GI

Moni disse...

Olá, Maria. A Ana Elisa não sabe nada da Itália. É melhor você passar essas dicas para seus descendentes caso contrário não terá muito com quem compartilhar. Até pra criar filho ela apela aos livros, então já viu, né... geração mi-mi-mi

Ana Elisa Granziera disse...

Oi Maria. Muito obrigada pelas indicações! Conheço muito pouco sobre a Sardenha, mas adoro aprender mais. :)

Ana Elisa Granziera disse...

M, ultimamente só ando lendo blogs e afins nesse esquema que vc falou. Se for para me inspirar a ser melhor do meu jeito. Senão a gente fica doida, não?

Ana Elisa Granziera disse...

Yay! Obrigada pelas dicas! Queremos muito acampar na costa leste ano que vem! Ou pelo menos conhecer. Meus filhos não lembram mais o wue é praia com mar! Se vier a Toronto um dia, não se esqueça de dar um alô!

Ana Elisa Granziera disse...

:) obrigada pelo textão

Ana Elisa Granziera disse...

O Gnocchi dormiu sim na barraca, porque há muitos animais selvagens por aqui, como lobos, coyotes, ursos... levei a caminha dele pra que ele enlameasse a própria cama e não o chão da barraca e tbm pra que ele não rasgasse o chão com as unhas. Kkk e também sequei ele com uma toalha o melhor que pude. Ó que nem fez tanta porcaria assim... ;)

Ana Elisa Granziera disse...

Nhoin.
Ainda quero ver essa série. Os livros são clássicos infantis aqui.

Ana Elisa Granziera disse...

Ainda não desisti do sourdough. É que eu tenho um limite de quantos seres vivos consigo cuidar ao mesmo tempo, e por enquanto tô feliz que as plantas não morreram! Kkk vou dar uma olhada nisso sim, obrigada

Ana Elisa Granziera disse...

Moni, acho que ela quis dizer que eu falo italiano, não que sei tudo da Itália.
No mais, corrida e yoga fazem maravilhas no manejo da agressividade. Li num livro, sabe? Kkk

Ana Elisa Granziera disse...

Obrigada, Cris! :)

Ana Elisa Granziera disse...

Não vou parar não. Pelo menos por enquanto. :)

Ana Elisa Granziera disse...

Vixe, foi só o tempo esfriar que a louca da cozinha voltou.

Ana Elisa Granziera disse...

Que bom, Mari! Obrigada!:)

Ana Elisa Granziera disse...

Nhóin. Obrigada por continuar lendo!

Ana Elisa Granziera disse...

Meo depois de tudo o que fizemos, o acampamento foi a parte favorita dos dois. Estamos todos loucos pra repetir!

Unknown disse...

Amo sua escrita...me identifico tanto.

Moni disse...

Agressividade? Não, não. Eu disse que você não sabe nada da Itália, o que é um fato, muito fácil de se comprovar lendo qualquer texto seu sobre receitas italianas. Mas eu falei pra Maria, ali em cima. É muito fácil perceber que a desequilibrada aqui foi vc, ao sair respondendo todas as mensagens, dando uma de querida. Coisa que você não é, pra quem conhece você o mínimo, mesmo que só de esbarrão. Parece que se instalou essa coisa estranha de qualquer coisa que se tem uma opinião contrária aos confetes, pronto. É, parece que essa Yoga sua não está ajudando muito, kkkk...

Moni disse...

Ah, eu falei sobre o fato de você não saber nada da Itália até lembrei porquê. Essas suas referências, esses livros que te ensinaram a cozinhar erram muito em geografia, daí você passa vergonha escrevendo coisas do tipo „ sobremesa alemã“ só que é basler ( fica na Suíça), enroladinho de folha de bietola que vem da Engadina, parte italiana“ da Suíça, quando ali não é parte italiana. Eu sei que americanos não são bons em geografia, mas a „ maior nerd“ brasileira, auto assumida e tudo, sequer checar esses dados, beira o ridículo. Esses exemplos são apenas alguns, mas se quiser eu elenco uma lista de coisas que você deixou de informar corretamente. Errou feio, daí alguém corrije e pronto, descabelou a Ana, hehe ( força de expressão que alguém usou aqui).

Cozinhe isso também!

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